terça-feira, maio 29, 2012
Do Real
Ele perdeu o emprego de empregado de mesa. Passou a frequentar dois cafés assiduamente em Benfica, ao mesmo tempo que ninguém lhe respondia a anúncios. Era muito velho, diziam-lhe no País em Que Ter Quarenta Anos é Obsoletissímo. Os cafés eram a segunda casa, mais ordeira e bem cheirosa do que o seu bairro social. Tentou as obras. Os trabalhos na construção tornaram-se cada vez mais esporádicos. O rendimento mínimo não chegava para comer e beber. Deixou de comer parcialmente. Caíram-lhe dentes, mas ele não tinha dinheiro para os arranjar. Passou a cravar cigarros nos cafés. O seu aspecto e a sua aura de crava afastava cada vez mais pessoas. Apaixonou-se por uma rapariga que ia ao café, uma amiga minha. Declarou-lhe o amor infinitas vezes. Uma amiga dessa minha amiga conheceu-o, uma alternativa com o indispensável charme de esquerda bloquista, disse-lhe que lhe metia nojo cumprimentá-lo e que nunca mais queria passar pelo processo dos dois beijinhos. Certo dia, falei com ele, e mal lhe perguntei «Tudo bem?», ele respondeu: «Enquanto não tiver trabalho, está tudo mal.» A minha amiga conhece o melhor amigo dele e começou a namorá-lo. Porquê? Porquê? Ela tentou manter a amizade, mas a a convivência a três dilacerava-o. Ontem, ela disse-lhe: «O Nuno [o namorado, melhor amigo dele] vai para os Açores.» Ele respondeu-lhe: «E eu na quinta vou para [apontou para o Céu]». Ela procura agarrar-se à ideia de que quem o anuncia não o concretiza.
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