sábado, maio 05, 2012

Desgosto Amizaderoso

Ele e ele, dia a dia, estavam juntos. Quando algo bom ou mau acontecia, um ligava ao outro. Quando algo engraçado acontecia, um ligava ao outro. Quando algo normal diferente acontecia, um ligava ao outro. Até quando algo normal acontecia, um ligava ao outro. Sempre que um saía à noite ou ia ao cinema, ligava ao outro. Um «casou» e sumiu. O outro sofreu muito. Anos depois, encontram-se. O casado só tinha cinco minutos. Ao fim de meia hora, despediu-se, mas uma frase do amigo fê-lo continuar a conversa. Estiveram horas. Ele ligou à mulher a explicar o atraso com o reencontro. E acabaram por ir sair à noite, o que parece algo mágico ao amigo que há anos não saía com o outro - e que via nisso algo irrepetível. O casado bebeu imenso e a língua ganhou vida autónoma. Estava sempre a dizer «tenho de ir», os miúdos já deviam estar a dormir, ele só era para ficar cinco minutos. Acabou por dar boleia ao amigo. No carro, bem bebido, começou a chorar quando o amigo lhe disse que sentira imensamente a sua ausência. - Sim, mas achas que também não sofri imenso? Sofri imenso - chorava -, imenso. Estas noites contigo são magnéticas como sempre forma, eu tinha tanto medo de experimentar isto. Eu tenho umas saudades disto. Eu a certa altura - o choro interrompeu-lhe a fala - tive de decidir entre a Maria e tu. - Mas eu só queria o meu espaço. - Mas eu... não percebes?, não consigo dar-te um espaço pequeno na minha vida, a ocupá-lo tinha de ser por inteiro.

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