sábado, maio 19, 2012

Cartilha para a não assimilação acrítica das agendas mediáticas

Não confundas opinião pública com opinião publicada. Presta mais atenção às notícias de rodapé do que às manchetes. Lê o artigo inteiro para lá da manchete - e conclui se a manchete é séria. Prefere a reportagem exaustiva ao soundbyte. Lê quantas fontes foram escutadas para a produção de determinada peça jornalística. Desconfia sempre, rejeita sempre um artigo que te obrigue a pensar do modo como queres que o articulista pense. Despreza os cronistas que te apresentam soluções bacteriologicamente puras quanto a ideologia. DESPREZA OS TECNOCRATAS DE SOLUÇÃO ÚNICA. Lembra-te de que lá fora há países que em que os jornalistas assumem a sua cor partidária. Pensa que tudo o que lês é 95% de mentiras, meias verdades, omissão de contraditório, perguntas direccionadas de jornalistas. Vê as fontes de publicidade do medium - pensa que não podes ler nada isento sobre tais empresas. Lembra-te de que o mais importante não é mensurável - os direitos humanos não entram no PIB. Estuda os grupos económicos que estão por trás de cada medium. Lê o Provedor dos Leitores do Público. Lê os poucos independentes (uma espécie em vias de extinção) - Pulido Valente, Baptista-Bastos, Pacheco Pereira, Medina Carreira, José Vítor Malheiros, Manuel Maria Carrilho, António Pina, Adriano Moreira, Garcia Pereira, Marinho e Pinto - e ainda assim lembra-te de que eles têm amigos. Lembra-te da sondagem em que 90% dos jornalistas se afirmaram coagidos a escrever de acordo com a linha editorial do jornal. Procura confrontar uma estatística com outra. Lembra-te do ceteris paribus nas análises. Lembra-te de que se um come uma galinha e outro nenhuma, para a estatística ambos comem uma galinha. Se conseguires ou conheceres alguém do meio jornalístico, averigua como são os encontros entre jornalistas, poder político e poder económico - o fausto dos mesmos, a troca de favores, as palmadinhas nas costas. Lê tudo o que seja fora do mainstream - seja de esquerda ou direita. Desconfia dos que são muito maltratados pela comunicação social e procura investigar porque são levados ao colo certos senhores que cometem as piores tropelias. Recusa os bons e os maus que te querem impingir. Passa ao lado de todos aqueles que são mercenários de uma campanha por uma causa ou uma perseguição ad hominem - omitirão tudo o que não lhes convém porque, grosso modo, perseguem interesses, vinganças e muito pouco a verdade jornalística. Evita ler sobre Paco Bandeira, Maddie, Casa Pia, futebol (e, se leres, vê quantas especulações sobre o futuro de A e B são concretizadas, o rácio é assustador), mexericos, casos de justiça em que só sai cá para fora o que convém - tudo isso são coisas para desviar a tua atenção do essencial. Lê a imprensa estrangeira. Confronta dados. Vê, para lá das estatísticas, as lojas e empresas que vão falindo. Vê a situação dos teus amigos - emprego, recibos verdes, emigração -, vê como está a situação do sítio em que trabalham, a evolução dos lucros e a evolução dos seus salários (e a perda de muitos dos seus direitos). Vai a hospitais públicos. Anda de transportes públicos. Vê como a polícia trata os desvalidos e os imigrantes numa esquadra. Vê o mundo com os teus olhos. Lembra-te de Orwell - a história é uma produção gigantesca de mentiras (ditada pelos vencedores) e ver o que está em frente do nariz requer um esforço constante.

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