segunda-feira, abril 23, 2012
No Largo de Camões, um indivíduo pragueja contra os filhos de puta cabrões dos Alemães que se vão foder todos e morrer longe. Imagino o sarilho que fosse se o indivíduo gritasse assim contra os Africanos. Certa esquerda bem pensante só vê preconceito quando o grupo estigmatizado é associado a oprimidos. «Morte aos ricos», lê-se nas paredes de Lisboa sem causar grande escândalo. Alguém imagina que «morte aos sem-abrigo» provocaria a mesma indiferença? O preconceito, a substância do mesmo, mantém-se mesmo quando as realidades distorcidas e os juízos de valor abusivos não são as mulheres, os pretos, os homossexuais - mas a polícia, os banqueiros, os muito ricos.
É claro que o genocídio de etnias sempre foi mais chocante - nos livros de história, na prática discursiva dos agentes políticos - do que o genocídio de classe - mas o preconceito e a tragédia tiveram proporções semelhantes. A necessidade de etiquetas quando há terrorismo seja de Estado seja de activistas - atentado da extrema-direita, atentado da extrema-esquerda - nada diz para quem morreu e para quem cá ficou a chorar a sua ausência. Koestler, que foi comunista, numa espécie de epílogo simbólico de Darkness at Noon relata um homem que está a ser linchado e que a certa altura não percebe se na lapela da besta agressora vê uma foice e um martelo ou uma suástica. Obnubilado, vê uma visão difusa de ambos os símbolos. Foi também neste sentido que William Reich, odiado à esquerda e à direita, falou dos «fascismos negros» e dos «fascismos vermelhos». O preconceito é até mais perigoso porque mais insidioso - quanto mais rico, mais poderoso, mais a mente se parece inclinar para a ideia de que não está a ser tendenciosa, mas justa.
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