domingo, abril 29, 2012

- Não me sinto bem ao teu lado porque tu és muito mais alto do que eu. E eu sinto-me inferior perante todos os que são mais altos do que eu, especialmente os que são bastante mais altos do que eu. É uma coisa que me persegue desde o recreio na primária. Sempre tive uma obsessão por saber o que me podia fazer crescer. Quando cheguei à idade de já não poder crescer mais, andei deprimidíssimo até ouvir o caso de uma rapariga que crescera fora da época de crescimento e agarrei-me a essa esperança com todos os dentes. É um drama 8 em 10 homens (sim, eu conto quando estou num sítio quantas pessoas são mais altas do que eu) serem mais altos do que eu. Cada vez que conheço um tipo e é mais alto do que eu, sinto-me automaticamente diminuído. É um ascendente que tem sobre mim. Quando li a Carta ao Pai de Kafka, percebi que havia alguém que me entendia e me explicava. Aquela descrição de ele a despir-se nos balneários com o pai e a sentir-se intimidado por aquela diferença de um corpo franzino e frágil e um corpanzil. É terrível para mim esta condição. Acreditas que até me estico quando estou entre pessoas, a somar a uns ténis altíssimos? A minha obsessão agora é que com o envelhecimento possa ficar encurvado e ainda mais pequeno; sempre fiz alongamentos diários no sentido de tentar medir mais um centímetro que fosse. Tenho pânico. Eu chego a ter pânico no metro e em bares com muita gente, sinto-me tão insignificante, os homens parecem todos colunas de pedras querendo-me esmagar como naquela canção que tu tanto gostas. Sair à rua e encontrar as duas primeiras pessoas e serem mais baixas do que eu é uma dádiva do Céu.

1 comentário:

speauneum disse...

Mesmo a propósito, sinto sempre dentro de mim uma voz que me parece algo maléfica a puxar sempre por mim para malhar nas pessoas baixas. De certeza que a "dádiva do Céu" que para ele seria encontrar duas pessoas mais baixas do que ele logo que saísse de casa acabaria por resultar num escárnio cruel e impiedoso. Simplesmente porque sim. Porque mesmo os anões compreendem que gozar com os mais baixos faz realmente parte da condição humana. A natureza está sempre a mostrar-nos coisas novas...