quarta-feira, abril 25, 2012
Estrangeirismos, neologismos e snobismos
Há palavras, raras, em cada idioma que são intraduzíveis. Razbliuto em russo - o afecto que ficou por alguém que se amou. Não é bem isto porque ao ser intraduzível há sempre algo que fica de fora quando se recorre a uma definição em palavras de outro idioma. Hira hira em japonês. O medo específico de se atravessar o escuro numa casa velha e escalavrada. Workaholic, para citar uma mais comummente empregada. Alguém dirá «viciado ebriamente em trabalho»?
Há palavras que para serem traduzidas precisam de várias palavras. Lingirie ou roupa interior feminina? Ketchup ou molho concentrado de tomate? Cada um escolhe a que quer - ou, preferencialmente, por coerência, o paradigma em que se insere. Ou o estrangeirismo por economia de palavras ou várias palavras portuguesas para preservar a língua. Até aqui, tudo bem, como diz o sujeito que cai do vigésimo andar ao passar pelo segundo.
Há palavras estrangeiras que foram adaptadas para a língua indígena, tangenciando a língua original. Dizemos e escrevemos «futebol» e não «football». Outras há, como uísque, ecrã, dossiê, stresse, gabardina, vitrina, jipe, piza que há quem escreva em português (neologismo) e há quem escreva na língua original (estrangeirismo). Mesmo na linguagem tecnológica, temos em linha, blogue, hiperligação, rede. Tudo bem novamente até aqui, mas já a passar pelo primeiro andar. Desde que: a) se italicizem os estrangeirismos e se os escrevam devidamente (como mousse e pizzeria), respectivamente; b) não se entrem em incongruência como escrever atelier e dossiê na mesma frase.
Há ainda estrangeirismos que utilizamos, que são traduzíveis e que não poupam palavras, por assim dizer. A utilização de certos estrangeirismos em detrimento de palavras na nossa língua não alcança um público mais vasto, não expressa um significado inerentemente intraduzível, nem permite a economia de palavras. Porque dizemos outlook e não previsão? Porque dizemos sniper e não atirador-furtivo? Porque dizemos low cost e não baixo custo? Porque - vou mais longe - escrevemos overdose e não sobredosagem?
Há também neologismos desnecessários, aqueles que são criados, vertidos da oralidade para os dicionários, mas para os quais já tínhamos vocábulos ancestrais. Porquê focalizar quando já havia concentrar? Implementar quando já havia aplicar, desenvolver, executar?
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