quarta-feira, abril 25, 2012
Ela entra em casa dele, senta-se, olha em volta e diz:
- Tens a casa tão desarrumada.
Começa a organizar as coisas.
- Não é preciso, deixa estar.
- Parece que vives numa pocilga.
- Mas tu dizias-me sempre que eu tinha a casa excessivamente arrumada.
- Pois, é que tu és de extremos.
Ela vai ao frigorífico e atira:
- Não tens nada que se beba?
- Tenho...
- Sim, estou a ver, mas não tens nada de jeito. Só tens comida.
Abana a cabeça e enceta um discurso.
Ele ouve-a, lembrando-se do conselho daquele seu amigo que lhe dizia: «Se repetires a última palavra que o teu interlocutor diz a espaços, ele vai ter a certeza de que o estás a ouvir.»
Procura introduzir um assunto que não ele.
Ela não deixa.
- Já viste como é que estás? Já não te vejo há dez quilos atrás... Olha para essa barriga.
- Sim, estou mais gordo.
- E olha-me esse cabelo...
- Ainda não saí de casa.
- Ai, tens sempre cortes de cabelo horríveis. Eu tenho de te levar a um cabeleireiro.
- Está bem. Depois combinamos.
- E tens de ir às compras comigo. Temos de ir ver roupa.
- Está bem. Combinaremos.
Ela olha para o chão e vê um livro de poesia aberto.
- Então, tens trazido as tuas fãzinhas de merda para casa e tens-te posto a ler poemas?
- Vá lá, por favor...
- Diz lá... Eu sou tua amiga e acho que não levas uma vida normal, a sério.
- O.K. Mas podemos mudar de assunto?
- Eu preocupo-me contigo. Com a casa assim, com essa barriga a crescer e essas olheiras, não arranjas ninguém.
Ele sorri.
- Mas conta lá, tens tido fãzinhas de merda aqui em casa?
- Vá lá...
- Conta lá...
- Mas porque é que temos de falar disso agora?
- Sou tua amiga, os amigos preocupam-se connosco e dão-nos conselhos. Estou preocupada contigo já há algum tempo.
- Mas não há motivo para te preocupares.
- Olha, tens aqui um cabelo de uma gaja no sofá. Julgas que sou parva?
Ele fica atónito.
- Fazes da tua vida um mistério. Não confias nos teus amigos? Parece que vives uma vida dupla que ninguém conhece. Isso não é saudável. Não dizes nada? Anda me irritas mais!
Ela levanta-se e atira-lhe a mala ao peito.
- Não achas que estás a passar das marcas?
- Continuas um porco egotista ginecómano.
- Egomaníaco, costumavas dizer.
- E pára de gozar! Achas que é altura apropriada para piadas?
Ao sair da porta, ela tenta dar-lhe um beijo. Ele escapa-se e percebe que não é, afinal, um homem perspicaz.
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6 comentários:
http://luizliborioalves.blogspot.com.br/2012/04/um-pedreiro-come-coxinha.html
Essa tua sensualidade animal deixa-a doida. Daqui a nada, está a dizer que adora a tua barriga, que quer que cresça muito mais para lhe dar sombra.
O meu lado feminista a emergir (é raro, mas acontece): há homens perspicazes no que toca a mulheres?
Não se costuma falar acerca do nosso sexto sentido. Nem todos o têm, mas o radar de humidade numa vulva em dieta forçada é uma habilidade que não só dá jeito como permite ir conhecendo cada vez melhor as mulheres, a perceber as manhas, os truques, as birras e os apetites.
E estamos em tempos de crise, há muitas em dieta forçada...
Speauneum, quem disse que «ele» era «eu»?
Storyteller, eu concordo. Acrescentaria o advérbio de modo: «Tendencialmente.»
Sr João,
Acho que até consigo acertar no nome dela.
"Fãzinhas de merda" rings a bell.
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