segunda-feira, abril 30, 2012
Concordo com muitas propostas que li dos Indignados, movimento que nasceu em Espanha. Mas a sua difusão pelo planeta não é algo que me faça sorrir.
A história ensina-nos que os movimentos que atacaram a classe política e o parlamento resvalaram para regimes autoritários quando instalados no poder. Que bom seria se os discursos de Hitler, numa época de acentuada crise, elevado desemprego e galopante dívida pública) contra a República de Weimar fosse lidos pelos Indignados.O Estado liberal sem substância ética, os interesses dos partidos acima do interesse do povo e os seus inúmeros privilégios aparelhísticos - está tudo, tudinho lá. O ataque ao funcionamento das instituições democráticas muito facilmente cai nas profundas águas negras do repúdio da democracia. Não é por acaso que apenas 56% dos Portugueses preferem a democracia a qualquer outro tipo de governo numa altura em que o descrédito pelas instituições ditas democráticas é o que se conhece.
Ensina-nos também que de agrupamentos com membros com ideologias opostas se desintegram na manhã em que finda a sua revolução, começa o seu poder. É muito bonito ver a Manifestação da Geração à Rasca com tanto união entre os Portugueses - mas eu suspeito de manifestações em que o PNR, o PCP, o PSD e o BE estejam unidos. À semelhança do patético apelo do patético Saramago ao voto em branco - se o voto em branco vencesse, o que se erigiria no dia seguinte? Que regime agradaria a cidadãos que votaram em branco por serem anarquistas, nazis, monárquicos, ludistas?
Os Indignados não produziram até hoje uma análise, um articulado digno desse nome, além de propostas avulsas e hectolitros de espuma de raiva.
Acredito que muitos deles ajam pelos mais nobres fins - a ecologia, a democracia representativa, o emprego para todos. Quem não subscreverá abstractamente tais desideratos? O problema é a definição dos meios para lograr tais objectivos. Mas não há nada mais perigoso do que um idealista com uma metralhadora na mão - ele dispara sempre pelos melhores motivos.
Repito: os Indignados têm propostas concretas, razoáveis e exequíveis (desde que a uma escala global).
Perpassa, por eles, contudo uma ideia perigosíssima: o povo pode decidir tudo. Não lhes ocorreu nas suas cabeças que em muitas matérias tal significaria profundos retrocessos civilizacionais. Não percebem que se a pena de morte ou a tortura não estivessem inamovivelmente blindadas pela Constituição, voltariam num momento ou noutro da história. Não percebem que o povo aprovaria a pena de morte se referendada (a SIC chegou a mostrar uma sondagem com 90%), que os pedófilos seriam castrados quimicamente, no mínimo, queimados vivos no máximo. Não percebem que muito povo real, concreto, e não o povo como substantivo abstracto e etereamente considerado, ainda gostaria de ver corruptos pendurados em candeeiros públicos.
Sim, a democracia é formada na etimologia por duas palavras que significam o governo do povo. Sim, hoje os governos prometem e não cumprem, sim, hoje, há uma promiscuidade entre política e finança. Sim, sim, sim. Sei de cor todas as profundas insuficiências do actual regime, sei, sei, bem vos ouço, que o racismo económico actual também mata, sim, vejo o que acontece na saúde como um nazismo económico.
Mas, caros amigos, o meu conceito de democracia não é impor o que a maioria do povo quer a todos os outros.
O Estado não pode discriminar etnias nem credos nem orientações sexuais.
O Estado não pode permitir que o marido bata na mulher.
O Estado não pode institucionalizar a escravatura.
O Estado não pode legislar sobre a sodomia.
O Estado não pode permitir que à mulher esteja vedada uma larga parte do mercado de trabalho e do ensino.
O Estado não pode permitir que se fuzilem sem-abrigo.
O Estado não pode permitir que se uma maioria de não-fumadores assim quiser (uma tendência crescente) a minoria de fumadores seja presa por fumar.
Etc.
Etc.
Etc.
Democracia não é ditadura da maioria. Há matérias que não são referendáveis.
A liberdade individual de cada indivíduo (sempre que não colida com a do outro) vestir-se como quer, ter os vícios que quer, amar quem quer não pode ser decidida pelos outros - nem que os outros sejam 99,9% dos cidadãos.
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário