segunda-feira, abril 30, 2012

Sempre desprezei a violência. Sempre amei Peckinpah, O Mestre da Violência. Onde muitos viram violência gratuita, eu sempre vi um idealismo esmagado - sempre considerei que Peckinpah era uma pacifista e um moralista que procurava mostrar que o poder pode corromper e o que os códigos de fidelidade, solidariedade e de princípios morais podem existir nos marginais da lei - que também havia maldade do lado da lei e bondade do lado dos fora-da-lei. As cenas em câmara lenta, a mortandade de todas ou quase todas as personagens, os pormenores vívidos da violência sempre foram para mim uma dissuasão da mesma e não uma apologia da mesma - ainda que muitos vissem ao contrário. Neste livro de entrevistas, Peckinpah explica que tentou ao expor a fealdade máxima da violência afastar as pessoas da mesma. De resto, na sua vida, Peckinpah sempre foi um pacifista e alguém que fugia da violência. Um actor dos seus filmes (Peckinpah gostava de trabalhar com a mesma equipa, tal como os bandidos dos seus filmes) dizia que quando filmavam no México, foram a um bar a certa altura e de repente estavam todos à pancadaria em sua volta. Procuram por Peckinpah, por que ele era quem tinha o carro e não o viram. Peckinpah fugira de carro mal o desacato começara. Tal como Antonioni ao filmar o vazio e a incomunicabilidade não pretendeu fazer filmes vazios, mas antes mostrar quão vazio é o vazio - certas análises mais superficiais viram as suas obras-primas como experiências vazias. Ou como Fitzgerald ao descrever a futilidade, os diálogos ocos (que prodígio o monólogo de Daisy sobre Blocks Biloxi em Gatsby), oh-está-tanto-calor-o-que-me-interessa-se-os-pobres-morrem-África-preciso-é-de-um-refresco, pretendeu descrevendo-a mostrar quão fútil era a vida dos ricos no decénio de 1920 na Jazz Age ou Loucos Anos 20.
Concordo com muitas propostas que li dos Indignados, movimento que nasceu em Espanha. Mas a sua difusão pelo planeta não é algo que me faça sorrir. A história ensina-nos que os movimentos que atacaram a classe política e o parlamento resvalaram para regimes autoritários quando instalados no poder. Que bom seria se os discursos de Hitler, numa época de acentuada crise, elevado desemprego e galopante dívida pública) contra a República de Weimar fosse lidos pelos Indignados.O Estado liberal sem substância ética, os interesses dos partidos acima do interesse do povo e os seus inúmeros privilégios aparelhísticos - está tudo, tudinho lá. O ataque ao funcionamento das instituições democráticas muito facilmente cai nas profundas águas negras do repúdio da democracia. Não é por acaso que apenas 56% dos Portugueses preferem a democracia a qualquer outro tipo de governo numa altura em que o descrédito pelas instituições ditas democráticas é o que se conhece. Ensina-nos também que de agrupamentos com membros com ideologias opostas se desintegram na manhã em que finda a sua revolução, começa o seu poder. É muito bonito ver a Manifestação da Geração à Rasca com tanto união entre os Portugueses - mas eu suspeito de manifestações em que o PNR, o PCP, o PSD e o BE estejam unidos. À semelhança do patético apelo do patético Saramago ao voto em branco - se o voto em branco vencesse, o que se erigiria no dia seguinte? Que regime agradaria a cidadãos que votaram em branco por serem anarquistas, nazis, monárquicos, ludistas? Os Indignados não produziram até hoje uma análise, um articulado digno desse nome, além de propostas avulsas e hectolitros de espuma de raiva. Acredito que muitos deles ajam pelos mais nobres fins - a ecologia, a democracia representativa, o emprego para todos. Quem não subscreverá abstractamente tais desideratos? O problema é a definição dos meios para lograr tais objectivos. Mas não há nada mais perigoso do que um idealista com uma metralhadora na mão - ele dispara sempre pelos melhores motivos. Repito: os Indignados têm propostas concretas, razoáveis e exequíveis (desde que a uma escala global). Perpassa, por eles, contudo uma ideia perigosíssima: o povo pode decidir tudo. Não lhes ocorreu nas suas cabeças que em muitas matérias tal significaria profundos retrocessos civilizacionais. Não percebem que se a pena de morte ou a tortura não estivessem inamovivelmente blindadas pela Constituição, voltariam num momento ou noutro da história. Não percebem que o povo aprovaria a pena de morte se referendada (a SIC chegou a mostrar uma sondagem com 90%), que os pedófilos seriam castrados quimicamente, no mínimo, queimados vivos no máximo. Não percebem que muito povo real, concreto, e não o povo como substantivo abstracto e etereamente considerado, ainda gostaria de ver corruptos pendurados em candeeiros públicos. Sim, a democracia é formada na etimologia por duas palavras que significam o governo do povo. Sim, hoje os governos prometem e não cumprem, sim, hoje, há uma promiscuidade entre política e finança. Sim, sim, sim. Sei de cor todas as profundas insuficiências do actual regime, sei, sei, bem vos ouço, que o racismo económico actual também mata, sim, vejo o que acontece na saúde como um nazismo económico. Mas, caros amigos, o meu conceito de democracia não é impor o que a maioria do povo quer a todos os outros. O Estado não pode discriminar etnias nem credos nem orientações sexuais. O Estado não pode permitir que o marido bata na mulher. O Estado não pode institucionalizar a escravatura. O Estado não pode legislar sobre a sodomia. O Estado não pode permitir que à mulher esteja vedada uma larga parte do mercado de trabalho e do ensino. O Estado não pode permitir que se fuzilem sem-abrigo. O Estado não pode permitir que se uma maioria de não-fumadores assim quiser (uma tendência crescente) a minoria de fumadores seja presa por fumar. Etc. Etc. Etc. Democracia não é ditadura da maioria. Há matérias que não são referendáveis. A liberdade individual de cada indivíduo (sempre que não colida com a do outro) vestir-se como quer, ter os vícios que quer, amar quem quer não pode ser decidida pelos outros - nem que os outros sejam 99,9% dos cidadãos.

Como tudo se interliga

you´ll never satisfy the hungry ghost o caminho aristotélico do meio casanova no seminário a troca epistolar entre estoicos e epicuritas, tão contíguos apesar dos rótulos antagonistas o movimento straight edge que nasce dentro do punk a lei da utilidade marginal

domingo, abril 29, 2012

Situações que merecem amplitude

http://ritmodesurmano.blogspot.pt/
- Não me sinto bem ao teu lado porque tu és muito mais alto do que eu. E eu sinto-me inferior perante todos os que são mais altos do que eu, especialmente os que são bastante mais altos do que eu. É uma coisa que me persegue desde o recreio na primária. Sempre tive uma obsessão por saber o que me podia fazer crescer. Quando cheguei à idade de já não poder crescer mais, andei deprimidíssimo até ouvir o caso de uma rapariga que crescera fora da época de crescimento e agarrei-me a essa esperança com todos os dentes. É um drama 8 em 10 homens (sim, eu conto quando estou num sítio quantas pessoas são mais altas do que eu) serem mais altos do que eu. Cada vez que conheço um tipo e é mais alto do que eu, sinto-me automaticamente diminuído. É um ascendente que tem sobre mim. Quando li a Carta ao Pai de Kafka, percebi que havia alguém que me entendia e me explicava. Aquela descrição de ele a despir-se nos balneários com o pai e a sentir-se intimidado por aquela diferença de um corpo franzino e frágil e um corpanzil. É terrível para mim esta condição. Acreditas que até me estico quando estou entre pessoas, a somar a uns ténis altíssimos? A minha obsessão agora é que com o envelhecimento possa ficar encurvado e ainda mais pequeno; sempre fiz alongamentos diários no sentido de tentar medir mais um centímetro que fosse. Tenho pânico. Eu chego a ter pânico no metro e em bares com muita gente, sinto-me tão insignificante, os homens parecem todos colunas de pedras querendo-me esmagar como naquela canção que tu tanto gostas. Sair à rua e encontrar as duas primeiras pessoas e serem mais baixas do que eu é uma dádiva do Céu.

sábado, abril 28, 2012

Não vivemos tempos solidários. Na Grécia, desde o início da crise, os suicídios aumentaram 50% e três em quatro cada chamadas para a linha de apoio ao suicídio têm que ver com o desespero da falta de dinheiro e de trabalho. Os sem-abrigo são já 25 000 e não param de aumentar. A que novos limites de infradignidade humana terão de descer os Gregos para expungir a sua putativa culpa? Ironia das ironias ou tragédia das tragédias: um ano após as medidas da troika na Grécia, o desemprego aumentou, o consumo retraiu-se, o crescimento diminuiu e assim diminuíram as receitas fiscais. A austeridade levará a mais austeridade porque o défice orçamental se agravou com as luminárias da troika. Mas parece que ninguém nas altas instâncias aprendeu nada com a lição grega. Já tinha acontecido o mesmo na Argentina. O primeiro-ministro português afirmou pomposamente que com a Grécia nem tomar café. O comissário europeu alemão Gunther Oettinger defendeu que os países endividados deveriam pôr a bandeira a meia haste. A Grécia tornou-se na lepra da Europa do século XXI. «Nós não somos a Grécia!» é o mote exultante da actualidade, que deveria ser substituído por: «Somos todos Gregos.» Não vivemos tempos solidários. Um estudo publicado pela Comissão Europeia sobre o impacto das medidas de austeridade nos diferentes estratos de rendimento, entre 2008 e 2011 [no tempo do Governo de Sócrates], em seis países europeus, demonstrou que, em Portugal, os 20% mais pobres sofreram uma redução de 6,1% no seu rendimento, enquanto os mais ricos perderam 3,9%. Não vivemos tempos solidários. O Conselho Português para os Refugiados declarou não dispor de verbas para alimentar os 130 refugiados que tem a seu cargo. Deixará o Estado português morrer de fome esses seres humanos se mais ninguém os acolher e nenhuma IPSS os apoiar? Não vivemos tempos solidários. O Governo alemão chegou a um acordo para reduzir o salário mínimo a trabalhadores não europeus. O Governo de Passos Coelho pretende que os candidatos ao Rendimento Social de Inserção tenham residência legal em Portugal há pelo menos um ano, mas só se forem provenientes de um Estado membro da União Europeia! Para os outros, o prazo é alargado para três anos. Até onde irá a barbárie? Não vivemos tempos solidários. Alguns media têm relatado casos reais de agonia: com a redução do transporte de doentes em um terço e com a penalização monetária dos doentes que não entram nas urgências, há indivíduos cancerosos e com doenças crónicas que deixaram de poder receber tratamentos. A austeridade pode ceifar ou encurtar vidas? Pode obrigar a que os deficientes tenham de pagar um novo comprovativo da sua deficiência, previamente comprovada por uma junta médica, só para aumentar as receitas fiscais? Não vivemos tempos solidários quando tantos imigrantes morrem asfixiados e esmagados em contentores ao cometer o pecado de aspirar a uma vida condigna. Não vivemos tempos solidários quando a Alemanha tem empréstimos a uma taxa de juro de 0,25%, para mais tarde emprestar à Grécia a 5%. Não vivemos tempos solidários quando o Rendimento Social de Integração, o subsídio dos mais pobres dos pobres, é a transferência estatal mais escrutinada quanto às burlas (veiculando-se assim o estigma do pobre preguiçoso e malandro). Não vivemos tempos solidários quando a banca paga um quinto do IRC das pequenas empresas. Não vivemos tempos democráticos. Nas democracias, a introdução de medidas ditatoriais é mais perigosa porque mais insidiosa. Não se podendo proibir que partidos keynesianos sejam eleitos, proíbe-se que apliquem a sua política. Chegou-se a ponto de se discutir (com o nosso primeiro-ministro como forte entusiasta) a introdução de um limite orçamental nas constituições europeias! Na prática: tornar o keynesianismo ilegal. E a história dos défices orçamentais é tão distorcida nos media, que se oblitera o facto de que não foram os gastos do Estado, mas a crise bancária e financeira que começou em 2008 que fez descontrolar os défices. Em 2008, o défice público médio na zona euro era apenas de 0,6% do PIB em 2007. Dois anos depois, a crise fez que passasse para 7%, enquanto a dívida pública passou de 66% para 84% do PIB.

quarta-feira, abril 25, 2012

A confusão entre a liberdade individual do outro e o desamor.
Usar o elogio como espartilho dos movimentos do outro.
- É impressão minha ou tornaste-te muito ambicioso? - Lembras-te daquele chefe que me despediu e disse que eu nunca ia ser nada? - Ah, já percebi.
Confiar absolutamente no outro é, parcialmente que seja, tolher-lhe o livre-arbítrio.
Ela entra em casa dele, senta-se, olha em volta e diz: - Tens a casa tão desarrumada. Começa a organizar as coisas. - Não é preciso, deixa estar. - Parece que vives numa pocilga. - Mas tu dizias-me sempre que eu tinha a casa excessivamente arrumada. - Pois, é que tu és de extremos. Ela vai ao frigorífico e atira: - Não tens nada que se beba? - Tenho... - Sim, estou a ver, mas não tens nada de jeito. Só tens comida. Abana a cabeça e enceta um discurso. Ele ouve-a, lembrando-se do conselho daquele seu amigo que lhe dizia: «Se repetires a última palavra que o teu interlocutor diz a espaços, ele vai ter a certeza de que o estás a ouvir.» Procura introduzir um assunto que não ele. Ela não deixa. - Já viste como é que estás? Já não te vejo há dez quilos atrás... Olha para essa barriga. - Sim, estou mais gordo. - E olha-me esse cabelo... - Ainda não saí de casa. - Ai, tens sempre cortes de cabelo horríveis. Eu tenho de te levar a um cabeleireiro. - Está bem. Depois combinamos. - E tens de ir às compras comigo. Temos de ir ver roupa. - Está bem. Combinaremos. Ela olha para o chão e vê um livro de poesia aberto. - Então, tens trazido as tuas fãzinhas de merda para casa e tens-te posto a ler poemas? - Vá lá, por favor... - Diz lá... Eu sou tua amiga e acho que não levas uma vida normal, a sério. - O.K. Mas podemos mudar de assunto? - Eu preocupo-me contigo. Com a casa assim, com essa barriga a crescer e essas olheiras, não arranjas ninguém. Ele sorri. - Mas conta lá, tens tido fãzinhas de merda aqui em casa? - Vá lá... - Conta lá... - Mas porque é que temos de falar disso agora? - Sou tua amiga, os amigos preocupam-se connosco e dão-nos conselhos. Estou preocupada contigo já há algum tempo. - Mas não há motivo para te preocupares. - Olha, tens aqui um cabelo de uma gaja no sofá. Julgas que sou parva? Ele fica atónito. - Fazes da tua vida um mistério. Não confias nos teus amigos? Parece que vives uma vida dupla que ninguém conhece. Isso não é saudável. Não dizes nada? Anda me irritas mais! Ela levanta-se e atira-lhe a mala ao peito. - Não achas que estás a passar das marcas? - Continuas um porco egotista ginecómano. - Egomaníaco, costumavas dizer. - E pára de gozar! Achas que é altura apropriada para piadas? Ao sair da porta, ela tenta dar-lhe um beijo. Ele escapa-se e percebe que não é, afinal, um homem perspicaz.
Depois de ler o capítulo de Peter Singer dedicado ao Japão em Como Havemos de Viver? (essencialmente: como o colectivo está tão enraizado que se sobrepõe às necessidades do eu), fiquei ainda mais curioso pela cultura japonesa. Impressionou-me recentemente a delicadeza, o respeito, a heroicidade ante a tragédia nas longas filas de japonezinhas e japonezinhos sem roubar, sem praguejar, sem ser o que eram antes do maior terremoto de sempre no seu país. Claro que eles têm pena de morte. Claro que eles trabalham imenso. Claro que eles são desempregofóbicos (não por acaso inventaram o Karaoke para que os desempregados saíssem de fatinho e malinha fingindo ir para o trabalho). Claro que numa cultura de lamúria como a nossa, isto faz muita confusão - e que podemos sempre dizer «bem, eles não desabafam com ninguém e por isso é que se suicidam tantos». Mas ainda assim penso que temos muito que aprender com eles.

O Sono

Poucos assuntos me interessaram tanto ao longo da vida. A diferente qualidade do sono - nas montanhas, na urbe, perturbados por preocupações, libertos de preocupações nessa noite. A importância da sesta. Os graus de semi-sono, sono, sono profundo. O dormir com a pessoa que se ama ao lado. A respiração durante o sono. O mexer do corpo durante o sono. A insónia. Os sonhos maravilhosos. Os pesadelos. Como é bom acordar de um pesadelo. Como é mau acordar de um sonho mirífico. A capacidade ficcionista extraordinária do nosso inconsciente. A dificuldade de perceber que no sonho pode haver corpos trocados em almas trocadas, sobreposição de diálogos e realidades. Sempre entendi que uma parte dos nossos males advêm da falta de sono. Sempre entendi que deveríamos ter um bloco de notas ao lado da cama pronto a utilizar mal acordamos - e que isso nos permitiria compreender-nos melhor e conhecer-nos a nós mesmos (o que o consciente trava, o sono liberta, como nos podemos conhecer sem analisarmos os nossos sonhos?). Sempre que se me depara algo sobre sono, eu leio e escalpelizo. É com alegria que vejo a ciência aproximar-se da ideia de que não há quem possa dormir pouco com a mesma rendibilidade mental. Estudos internacionais demonstram que quem dorme mais de oito horas por dia (o tal terço da nossa vida) tem uma esperança média de vida superior em dez anos a quem dorme entre seis e oito horas, além de uma série de outras coisas, como a pele mais ou menos enrugada. A neurociência tem demonstrado que quem dorme menos tem menor capacidade de concentração, de resolução de problemas, de memorização, de reflexos, de rapidez de raciocínio e uma irascibilidade e sentimentos depressivos mais acentuados. Muito recentemente, foi feito um estudo em que era dado um problema a vários indivíduos. Uns poderiam ir para a cama mais cedo do que outros e todos se levantavam à mesma hora. Já adivinharam a conclusão, claro está, sublinhe-se apenas que nenhum dos do grupo dos privados de sono resolveu o problema. Por cá, no Técnico, conclui-se que os alunos, divididos em cinco grupos pela suas notas, que mais dormem são os que têm melhores notas. O primeiro grupo dos melhores de todos era constituído pelos que mais dormiam. O segundo - segundo; e por aí fora até à correspondência quinto-quinto.

Estrangeirismos, neologismos e snobismos

Há palavras, raras, em cada idioma que são intraduzíveis. Razbliuto em russo - o afecto que ficou por alguém que se amou. Não é bem isto porque ao ser intraduzível há sempre algo que fica de fora quando se recorre a uma definição em palavras de outro idioma. Hira hira em japonês. O medo específico de se atravessar o escuro numa casa velha e escalavrada. Workaholic, para citar uma mais comummente empregada. Alguém dirá «viciado ebriamente em trabalho»? Há palavras que para serem traduzidas precisam de várias palavras. Lingirie ou roupa interior feminina? Ketchup ou molho concentrado de tomate? Cada um escolhe a que quer - ou, preferencialmente, por coerência, o paradigma em que se insere. Ou o estrangeirismo por economia de palavras ou várias palavras portuguesas para preservar a língua. Até aqui, tudo bem, como diz o sujeito que cai do vigésimo andar ao passar pelo segundo. Há palavras estrangeiras que foram adaptadas para a língua indígena, tangenciando a língua original. Dizemos e escrevemos «futebol» e não «football». Outras há, como uísque, ecrã, dossiê, stresse, gabardina, vitrina, jipe, piza que há quem escreva em português (neologismo) e há quem escreva na língua original (estrangeirismo). Mesmo na linguagem tecnológica, temos em linha, blogue, hiperligação, rede. Tudo bem novamente até aqui, mas já a passar pelo primeiro andar. Desde que: a) se italicizem os estrangeirismos e se os escrevam devidamente (como mousse e pizzeria), respectivamente; b) não se entrem em incongruência como escrever atelier e dossiê na mesma frase. Há ainda estrangeirismos que utilizamos, que são traduzíveis e que não poupam palavras, por assim dizer. A utilização de certos estrangeirismos em detrimento de palavras na nossa língua não alcança um público mais vasto, não expressa um significado inerentemente intraduzível, nem permite a economia de palavras. Porque dizemos outlook e não previsão? Porque dizemos sniper e não atirador-furtivo? Porque dizemos low cost e não baixo custo? Porque - vou mais longe - escrevemos overdose e não sobredosagem? Há também neologismos desnecessários, aqueles que são criados, vertidos da oralidade para os dicionários, mas para os quais já tínhamos vocábulos ancestrais. Porquê focalizar quando já havia concentrar? Implementar quando já havia aplicar, desenvolver, executar?
De todas as maneiras de acabar uma discussão, a que vi recentemente foi uma das que mais me marcaram. Ele, no interstício de uma rajada de vitupérios, com voz normal e silabando: - Achas que me estás a tratar da forma correcta? A fácies dela mudou e instalou-se o silêncio por um segundo e seguidamente tudo foi diferente.

terça-feira, abril 24, 2012

- Tu ou cilício.
- Certas pessoas, Angel, precisam de vencer as discussões. Temos de ouvi-las, ou pelo menos de as deixar falar. Precisam do discurso - sentem-se entupidas e solitárias se não se libertam da tralha discursiva. Tem um efeito catártico para elas.
a faca não corta o fogo,/ não me corta o sangue escrito,/ não corta a água,/ e quem não queria uma língua dentro da própria língua?/ eu sim queria,/ jogando linho com dedos, conjugando/ onde os verbos não conjugam,/ no mundo há poucos fenómenos do fogo,/ água há pouca,/ mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,/ mais brotada, inerente, incalculável,/ e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,/ e a abre e fecha,/ é que sim que eu amava como bárbara maravilha,/ porque no mundo há pouco fogo a cortar/ e a água cortada é pouca./ que língua,/ que húmida, muda, miúda, relativa, absoluta,/ e que pouca, incrível, muita/ e la poésie, cést quand le quotidien devient extraordinaire, e que música/ que despropósito, que língua língua,/ disse Maurice Lefèvre, e como rebenta na boca!/ queria-a toda idem
«e eu que sou louco, um pouco, não ao ponto de ser belo ou maravilhoso ou assintático ou mágico» Herberto Helder
- Se vivesse cinco mil anos, talvez conseguisse compreender-te.

Tempo de casos e não de causas

Na Grécia Antiga, quando alguém cometia um crime, o seu nome era para sempre apagado da História - não o crime, mas o seu perpetrador. Hoje, sucede o contrário. Qualquer indivíduo sabe que se matar uma quantidade indeterminada de indivíduos isso fará com que seja uma presença omnipresente durantes meses nos jornais televisivos do mundo e na imprensa e que o seu nome passará a ser dos mais procurados na Internet. E sabe que se, de caminho, articular meia dúzia de larachas, elas serão erigidas no Manifesto do tal e que serão discutidas, escalpelizadas e que muitos encontrarão no seu acto o reflexo de isto, aquilo & aqueloutro do mundo hodierno.

Da tecnologia que nos libertará a todos

Um menino saudita de 4 anos matou o próprio pai por não ter recebido o videogame PlayStation que havia pedido, informou nesta segunda-feira o jornal estatal Al Sharq. O jornal, que cita o porta-voz da Polícia de Jezan - o general Abdel Rahman al Zahani -, explicou que a criança, ao perceber que não iria ganhar o videogame, pegou a pistola do próprio pai e efetuou um disparo. Segundo a mesma fonte, a criança teria aproveitado um momento de descuido do pai, que teria deixado a arma sobre a mesa para ir trocar de roupa. Al Zahani ainda acrescentou que o disparo efetuado pelo menor atingiu a cabeça do pai e causou sua morte de maneira instantânea. A polícia saudita já abriu uma investigação para apurar este incidente, disse o porta-voz.

segunda-feira, abril 23, 2012

No Largo de Camões, um indivíduo pragueja contra os filhos de puta cabrões dos Alemães que se vão foder todos e morrer longe. Imagino o sarilho que fosse se o indivíduo gritasse assim contra os Africanos. Certa esquerda bem pensante só vê preconceito quando o grupo estigmatizado é associado a oprimidos. «Morte aos ricos», lê-se nas paredes de Lisboa sem causar grande escândalo. Alguém imagina que «morte aos sem-abrigo» provocaria a mesma indiferença? O preconceito, a substância do mesmo, mantém-se mesmo quando as realidades distorcidas e os juízos de valor abusivos não são as mulheres, os pretos, os homossexuais - mas a polícia, os banqueiros, os muito ricos. É claro que o genocídio de etnias sempre foi mais chocante - nos livros de história, na prática discursiva dos agentes políticos - do que o genocídio de classe - mas o preconceito e a tragédia tiveram proporções semelhantes. A necessidade de etiquetas quando há terrorismo seja de Estado seja de activistas - atentado da extrema-direita, atentado da extrema-esquerda - nada diz para quem morreu e para quem cá ficou a chorar a sua ausência. Koestler, que foi comunista, numa espécie de epílogo simbólico de Darkness at Noon relata um homem que está a ser linchado e que a certa altura não percebe se na lapela da besta agressora vê uma foice e um martelo ou uma suástica. Obnubilado, vê uma visão difusa de ambos os símbolos. Foi também neste sentido que William Reich, odiado à esquerda e à direita, falou dos «fascismos negros» e dos «fascismos vermelhos». O preconceito é até mais perigoso porque mais insidioso - quanto mais rico, mais poderoso, mais a mente se parece inclinar para a ideia de que não está a ser tendenciosa, mas justa.

domingo, abril 22, 2012

A beleza é o equilíbrio mais precário. Se um dente da frente cai. Ou o cabelo. Se o ácido desfigura em menos de um segundo o rosto. Se o tempo passa. (E o tempo passa sempre.) Se por dentro ossos, sangue, órgãos de cores horrendas.

sábado, abril 21, 2012

Os 900 livros proibidos pela censura em Portugal

http://downloadsexpresso.aeiou.pt/expressoonline/PDF/200412LivrosProibidos33_74.pdf

Porque ninguém me convence de que ninguém fundiu poesia e prosa com tal perfume

«Ali estava ela - rosto, forma e sorriso contra a luz do interior. Era o rosto de Minna - a pele peculiarmente radiosa, como se tocada por uma fosforescência, a boca com as linhas quentes que nunca contabilizavam as perdas...» «O limpa-pára-brisas fazia tiquetaque domesticamente, como um relógio de pé. Viam-se carros amuados a deixarem as praias molhadas e a regressarem à cidade.» «Katheleen esperou, ela própria irresoluta - gelo róseo e prateado, à espera de derreter na Primavera.» «Amanhã, vamos às montanhas - disse Sthar. Milhares de pessoas dependiam do seu juízo equilibrado... pode-se subitamente embotar uma qualidade segundo a qual se viveu durante vinte anos.» F. Scott Fitzgerald, O Último Magnata
Trabalhas numa semana e meia tanto, que pensas que deverias estar no Guiness. Pensas: «Nunca ninguém trabalhou tanto como eu.» Não pensas, algo insubstancial e difuso adeja na tua mente devoto-vegetativa de trabalho. Pessoas? Um objecto estranho. Libido? O que é isso? Não atendes o telefone. Atendes um desconhecido porque pode ser trabalho. É alguém que te convida para sair. Perguntas-te como pode tal acontecer. Como pode alguém sair? O lazer dos outros deveria ser punido. Como pode alguém pensar em algo que não trabalho. Lembras-te de uma conversa com um médico. «O esgotamento não existe. O cérebro nunca se esgota. Há é efeitos colaterais de trabalhar muito, como a privação do sono e da alimentação que podem levar a uma exaustão do corpo. Nunca da mente.»
Aquele que se proclama desprovido de qualquer resíduo de machismo deve responder a si mesmo: - Vejo eu da mesma forma o homem que paga para que lhe façam um broche e a mulher que paga para que lhe façam um minete? - Encaro eu exactamente da mesma maneira o sexo pelo sexo nos homens e nas mulheres? - Aceito eu que a minha namorada fale com os amigos de gajos e sexo e fantasias da mesma forma que os meus amigos falam comigo? - Respeito integralmente a mulher que teve inúmeros homens da mesma forma que respeito integralmente o homem que teve muitas mulheres?

Da obviedade machista tribal

Conversa no Largo de Camões. - I don´t want to marry her. - But do you like her? - I like to fuck her. E todos riram alarvamente e eu não fiquei convicto de que ele não gostava dela.
Há ideias que me recuso a aceitar. Mas a realidade é sempre um pormenor que não convém descurar. Mentes cultas e lúcidas defenderam e patrocinaram (no caso da família Rockfeller materialmente) o eugenismo. É dos maiores mistérios da humanidade. Mas na primeira metade do século passado, o eugenismo era aceite e patrocinado por vultos como Aldous Huxley (e este é o que mais me custa), Keynes, Bernard Shaw, Roosevelt, Churchill. Temos de contextualizar. (Ainda que o inominável não se contextualize.) Nos anos 20 do século XX, a eugenia era uma moda de cabeças bem pensantes. Claro está que depois apareceu Hitler e o eugenismo (eugenia, do grego, «bom nascimento») foi morrendo. Note-se que as figuras atrás mencionadas não defendiam o extermínio activo de ninguém. Mas defendiam a interferência na selecção natural. Tudo começou com Galton, primo de Darwin. O eugenismo tinha várias variantes. O extermínio preconizado por Hitler era um extremo. Mas a esterilização dos menos aptos (que o jovem político Churcill defendeu), os subsídios para o incentivo da procriação dos mais aptos, a visão das curas para as doenças como um mal que levaria ao excesso de população e consequentemente à fome era uma coisa perfeitamente aceitável (como era a pederastia, basta ler Gide). Relativizar as coisas no espaço e no tempo é preciso, mas custa tanto em alguns casos.
Ele passa a vida a extorquir empréstimos aos amigos que nunca devolve - mas garante que se fosse rico daria quase tudo ao pobres e mandaria reconstruir o seu bairro. Ela critica tudo e todos. Todos os políticos são maus, todos os chefes são a pior pessoa do mundo até ao próximo, todos os seus professores a perseguiam. Mas nada faz para se ajudar a si e ainda menos aos outros. Ele não tem magnetismo. É desprovido de qualquer beleza. Tem mau hálito mental. A única forma de ter relações sexuais seria a pagar - e mesmo assim... Autoproclama a fidelidade à namorada - um ser só enquadrável nos seres biologicamente dotados de vida inteligente num critério taxionómico muito largo - como um virtuosismo singular. O voto de castidade do impotente não tem valor.
queimor nome masculino1. exaltação; ira 2. ardor; excitação; agitação 3. perturbação febril 4. sabor picante; ardência; queimo 5. calor intenso (De queimar+-or)
- O vestido é mais erótico do que o despido.
- Se não podes convencê-los, confunde-os.
Andando numa livraria, alguém recita um poema. «Aqueles que viveram por uma palavra.» O poema enaltece-os. Sempre foi um grande dilema meu. Viver por uma palavra? Comunismo. Religião. Literatura. O nome dela. O nome dele.
- És um homem dos três cês. - Hã? - És um homem dos três cês. - Dos três cês? - Sim, coragem, convicções, carisma.
- Então, lendária figura, como vai isso?
O comportamento muda, o estigma permanece, a relação desgasta-se.

quinta-feira, abril 19, 2012

BALADA DOS AFLITOS, Manuel Alegre

Irmãos humanos tão desamparados/ a luz que nos guiava já não guia / somos pessoas - dizeis - e não mercados/ este por certo não é tempo de poesia / gostaria de vos dar outros recados / com pão e vinho e menos mais valia./ Irmãos meus que passais um mau bocado / e não tendes sequer a fantasia/ de sonhar outro tempo e outro lado / como António digo adeus a Alexandria/ desconcerto do mundo tão mudado/ tão diferente daquilo que se queria./ Talvez Deus esteja a ser crucificado/ neste reino onde tudo se avalia/ irmãos meus sem valor acrescentado/ rogai por nós Senhora da Agonia/ irmãos meus a quem tudo é recusado/ talvez o poema traga um novo dia./ Rogai por nós Senhora dos Aflitos/ em cada dia em terra naufragados/ mão invisível nos tem aqui proscritos / em nós mesmos perdidos e cercados/ venham por nós os versos nunca escritos/ irmãos humanos que não sois mercados.

Do hipnotismo

«O que nos está a atingir, a sufocar e a empobrecer é um programa ideológico muito bem pensado e organizado, que tem conseguido fascinar as suas próprias vítimas.» Baptista-Bastos
- Sessenta anos de vida. Procurei sempre beber pelo meu próprio copo. Muitas pessoas encarreiram e têm família e filhos porque é o que querem da vida - e sobre a equação de felicidade de cada um, não me pronuncio. Mas também há que respeitar - não tolerar, palavra terrivelmente paternalista - formas de vida diferentes. Há muito seres que só têm filhos e família e carreira porque isso é o que é suposto os outros esperarem deles. São vitórias que têm de ser alcançadas. Eu considero ter vivido sem essas três coisas como uma vitória da minha liberdade e independência. Foi uma luta árdua.
Lembrete: não confundir carácter com feitio. A docilidade pode ser o invólucro de um alma manipuladora. O autoritarismo de superfície pode ser o revestimento de um espírito profundamente tolerante.
Tão bonito. O tique de personalidade que repara sempre quando alguém foi interrompido e diz passada a interrupção: «Mas a/o estava a dizer que. Por favor, deixa-a/o concluir.»
A mente metapadrões. Instinto-adaptabilidade de descobrir sempre a coisa nova em cada ser, em cada ambiente, sem recurso ao padrão - um eterno retorno ao passado que não permite acrescentar algo novo à mente.

O dilema de Rui Zink em Hotel Lusitano (por que raio a Internet não permite italicizar os títulos ou partes deles das mensagens nos blogues?)

A vida é bela, tu é que és feio. Ou. A vida é feia, tu é que és belo.
- Do you believe in God? - Sometimes at night.
Três horas de trabalho sob stresse são mais desgastantes do que uma jornada diária de dez horas.

«Até que ponto é importante o género?», Peter Singer

A canadiana Jenna Talackova chegou às finais do concurso Miss Universo no mês passado, antes de ser desclassificada por não ter nascido com o sexo feminino. A beldade loira e alta revelou à imprensa que se considerava mulher desde os quatro anos de idade, iniciou um tratamento hormonal aos 14 anos e fez uma cirurgia de redesignação sexual aos 19. A sua desclassificação do concurso levanta a questão do que realmente significa ser uma "Miss". Uma questão de significado mais amplo foi levantada pelo caso de uma criança de Los Angeles, de oito anos de idade, que tem uma anatomia feminina, mas que se veste como um rapaz e quer ser considerada como tal. A sua mãe tentou, em vão, matriculá-la numa escola particular como rapaz. Será realmente fundamental que cada ser humano seja rotulado como "masculino" ou "feminino" de acordo com seu sexo biológico? As pessoas que atravessam as fronteiras do género sofrem uma discriminação evidente. No ano passado, o Centro Nacional para a Igualdade Transexual e o Movimento Nacional de Gays e Lésbicas publicaram um estudo que sugeria que a taxa de desemprego entre as pessoas transexuais é duas vezes superior à das outras pessoas. Além disso, 90% dos entrevistados que estavam no activo relataram ter passado por alguma forma de maus tratos no trabalho, como assédio, ridicularização, partilha inadequada de informações a seu respeito por parte de supervisores ou colegas de trabalho, ou problemas com o acesso às casas de banho. Além disso, os transexuais podem estar sujeitos a violência física e abuso sexual como resultado da sua identidade sexual. De acordo com o projecto Trans Murder Monitoring, pelo menos 11 pessoas foram assassinadas nos Estados Unidos no ano passado por esta razão. As crianças que não se identificam com o sexo com que nasceram estão numa posição especialmente embaraçosa e os seus pais enfrentam uma escolha difícil. Ainda não temos meios para transformar meninas em meninos biologicamente normais, ou vice-versa. E mesmo que o pudéssemos fazer, os especialistas advertem que a transformação para o sexo com o qual se identificam envolve passos irreversíveis. Muitas crianças manifestam um comportamento transversal de género ou expressam vontade de ser do sexo oposto, mas quando lhes é dada a opção de mudar de sexo, apenas uma pequena minoria se submete ao processo completo. O uso de agentes bloqueadores das hormonas para retardar a puberdade parece ser uma opção razoável, já que oferece mais tempo tanto aos pais com às crianças para se decidirem sobre esta mudança de vida. Mas o principal problema continua as ser o facto de as pessoas que não estão seguras relativamente ao género com o qual se identificam, de as que alternam entre géneros, ou de as que têm órgãos sexuais femininos e masculinos não se encaixarem no padrão da dicotomia masculino/feminino. No ano passado, o governo australiano abordou este problema, fornecendo passaportes onde estavam incluídas três categorias: masculino, feminino e indeterminado. O novo sistema também permite que as pessoas escolham a sua identidade de género, que não precisa de coincidir com o sexo com o qual nasceram. Esta ruptura relativamente à categorização rígida habitual é um sinal de respeito por todos os indivíduos e se esta atitude for amplamente adoptada por outros países, vai poupar a muitas pessoas o transtorno de explicar aos funcionários da imigração a discrepância existente entre a sua aparência e o sexo registado no seu passaporte. No entanto, podemos questionar-nos se será realmente necessário perguntar às pessoas, tantas vezes quanto o fazemos, a que género pertencem. Na Internet, interagimos frequentemente com pessoas sem saber a que género pertencem. Algumas pessoas consideram extremamente importante controlar as informações pessoais que são tornadas públicas, então por que razão obrigá-las, em tantas situações, a dizer se pertencem ao sexo masculino ou feminino? Será que a vontade de saber essa informação é uma remanescência de uma época em que as mulheres estavam excluídas de uma ampla gama de papéis e posições, sendo-lhes assim negados os privilégios inerentes? É provável que o facto de se eliminarem as situações em que esta pergunta é feita sem uma boa razão, não só facilitaria a vida àqueles que não podem ser encaixados em categorias definidas, mas também ajudaria a reduzir a desigualdade relativamente às mulheres. A situação também poderia evitar injustiças que às vezes surgem em relação aos homens, por exemplo, na atribuição da licença parental.Mais ainda, podemos imaginar até que ponto os obstáculos ao casamento de gays e lésbicas desapareceriam se os Estados, onde as relações homossexuais são lícitas, não exigissem que os cônjuges declarassem a que sexo pertencem. O mesmo se aplica à adopção. (Na verdade, existem algumas provas de que ter duas lésbicas como progenitores confere a uma criança um começo de vida melhor do que qualquer outra combinação.) Alguns pais já manifestam resistência à tradicional pergunta "menino ou menina" não revelando o sexo da criança após o nascimento. Um casal da Suécia explicou que queria evitar que o seu filho fosse forçado a "um molde de género específico", afirmando que é cruel "trazer uma criança ao mundo com um selo azul ou rosa na testa". Um casal canadiano levantou a questão do motivo de "toda a gente ter de saber o que está entre as pernas do bebé". Jane McCreedie, autora de Making Girls and Boys: Inside the Science of Sex [Fazer Meninas e Meninos: Na Ciência do Sexo, ndt.], critica estes casais por irem longe demais. No mundo tal como é hoje, ela tem razão, uma vez que não revelar o sexo da criança apenas servirá para atrair mais atenção para essa questão. Mas se esse comportamento se tornasse mais comum – ou mesmo se de alguma forma se tornasse universalmente aceite – haveria algo de errado nisso?

quarta-feira, abril 18, 2012

Homofóbicos atraídos pelo mesmo sexo Um estudo internacional revelou que as pessoas que têm mais reações contra os homossexuais são exatamente aquelas que apresentam maior atração por pessoas do mesmo sexo. Um estudo publicado na revista Journal of Personality and Social Psychology mostra que muitos dos homofóbicos cresceram em ambientes familiares que reprimiram esses mesmos sentimentos. As conclusões dos investigadores das universidades de Rochester, de Essex e de Santa Bárbara, no estado norte-americano da Califórnia tiveram como objeto de estudo inquéritos feitos a 160 estudantes universitários, na Alemanha e nos Estados Unidos. «A homofobia é mais pronunciada nos indivíduos com uma atracão pelo mesmo sexo e que aumentou com pais autoritários, que proibiram tal desejo», pode-se ler nos resultados publicados, citados no JN.

terça-feira, abril 17, 2012

«Deve ter havido momentos, ainda nessa altura, em que Daisy não correspondeu inteiramente aos seus sonhos - não por culpa dela, mas devido à colossal vitalidade da própria ilusão dele, que tinha ultrapassado Daisy, e tudo o mais. Tinha-se lançado na ilusão com tal paixão criadora, que constantemente a acrescentava, ataviando-a de todas as plumas de cor que lhe aparecessem pelo caminho. Não há fogo nem frescura, por muito grandes que sejam, capazes de competir com os fantasmas que, no seu íntimo, um homem consegue armazenar. Quando me pus a observá-lo, recompôs-se um pouco, visivelmente. A sua mão apoderou-se da dela e quando ela lhe sussurrou qualquer coisa ao ouvido voltou-se para ela com um ímpeto de emoção. Acho que era a voz dela, com aquele calor febril e flutuante, o que mais o arrebatava, porque inexcedível pelos sonhos - aquela voz era uma canção imortal.» Francis Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby

Ponto de exclamação é rir da própria piada? (Já vi a frase atribuída a Scott Fitzgerald e também a Mark Twain.)

«Acho que nunca usei um ponto de exclamação. Tenho objecção de consciência aos pontos de exclamação. Geralmente, a mais leve aparição dessa sinalefa me desanima a ler determinado texto. E quando aparecem artigos que são manchas compactas de exclamações, nem olho mais. É como se fossem desbafos juvenis. Claro que há génios da exclamação, como Céline e o Capitão Haddock, mas convenhamos que são duas excepções, digamos, absolutamente excepcionais. O que me aborrece nos pontos de exclamação é a falta de subtileza. O espalhafato. É como se o autor quisesse marcar as suas intenções de modo a quem nem o mais iletrado dos iletrados pudesse passar ao lado. Alguém escreveu que uma pessoa que usa pontos de exclamação é como alguém que se ri das suas próprias piadas. O ponto de exclamação é um modo de fazer a festa, deitar os foguetes e apanhar as canas. E isso não é nada interessante. Eu percebo que toda a pontuação corresponde a uma necessidade. Os estudiosos da língua explicam que a apontuação serve em grande medida para reproduzir a oralidade e comandar a leitura, em termos de pausas e entoação. A pontuação determina o ritmo de uma frase e exprime determinados conteúdos. No caso da exclamação, o ponto do mesmo nome é usado depois de interjeições, vocativos intensivos e apóstrofes, bem como de imperativos. A exclamação esclarece o contexto. Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Comtemporâneo (1984), esclarecem: «Cabe, pois, ao leitor a tarefa, extremamente delicada, de interpretar a intenção do escritor; de recriar, com apoio em um simples sinal, as diversas possibilidades da intenção exclamativa e, em cada caso, escolher de entre elas a mais adequada — se se trata de uma expressão de espanto, de surpresa, de alegria, de entusiasmo, de cólera, de dor, de súplica, ou de outra natureza.» Creio, no entanto, que tudo isto se consegue com uma subtileza na escrita e na leitura que dispensa o tão óbvio e inestético ponto exclamativo. Nalguns casos, sobretudo no discurso directo, é admissível que surjam dúvidas sobre a altura de voz ou a intensidade, dúvidas que têm de ser corrigidas com uma marca de pontuação ou mesmo com duas (a exclamação e a interrogação, que estabelecem um tom e uma duração). Os espanhóis, por exemplo, não gostam de ambiguidade nenhuma e as frases exclamativas começam logo com um ponto de exclamação ao contrário, para que não haja dúvidas quanto à entoação. É um uso que favorece a legibilidade e prejudica a ambiguidade. Quando a ambiguidade me parece uma das características mais fascinantes da linguagem. O ponto de exclamação, tal como as reticências, pode ser evitado de formas mais engenhosas. É que o ponto de exclamação é uma espécie de bicicleta com duas rodinhas extra, para que os inábeis não caiam ao chão, mas que todos os outros dispensam. A exclamação é intensidade dos pobres de espírito. É como as pessoas que acham que só são veementes quando desatam aos gritos. A intensidade de uma frase não devia depender de instrumentos tão desajeitados. Num episódio da comédia televisiva Seinfeld, a personagem de Elaine acaba com o namorado porque ele anotou um recado telefónico e não acrescentou um ponto de exclamação. Uma amiga de Elaine tinha dado à luz e o namorado de Elaine anotou esse recado a seco, sem pontuação. Para Elaine, isso era a prova de que faltava ali intensidade e empatia, exclamações, como se fossem festejos. Como vêem, é a minha tese: a exclamação é um foguetório carnavalesco, que não revela nada de essencial e que empobrece a língua. Não pretendo embarcar em nenhuma campanha proibicionista, recolhendo assinaturas para o fim da exclamação, muito menos quero a exclamação extinta por um decreto de qualquer Academia. Mas um mundo sem pontos de exclamação é um mundo de linguagem mais criativa, mais subtil, mais ambígua. E é isso exactamente que me interessa na linguagem.» Pedro Mexia
«Escreve é nadar debaixo de água e manter a respiração.» F. Scott Fitzgerald
«A boa prosa é como uma vidraça.» George Orwell

segunda-feira, abril 16, 2012

- No meu tempo, havia dois grandes mitos: Freud e Marx. A psicanálise tem vindo a ser progressivamente descredibilizada. De resto, dois irmãos podem ser totalmente diferentes, tendo os mesmos pais. Basta estudar a relação de Freud com a mãe para perceber como isso influenciou a sua putativa análise científica. Quando ao comunismo, este foi o maior embuste da história da humanidade. Quando implodiu, convém lembrar que ruiu por dentro, apareceram logo milionários! Mas que igualdade é que lá havia? A nomenklatura gozava de privilégios que eram uma ofensa para o povo. Claro que nas viagens turísticas, mesmo esses intelectuais babados com o Sol da humanidade não viam nada disso... Eram criteriosa e prudentemente encaminhados. Tiveram oito decénios para criar o homem novo. Onde está esse homem novo nos países ex-comunistas? Fazem fortunas como ninguém! Acaso não criariam um homem novo, solidário?

Resgatando Girassóis na Borda de Dias Laboriosos

Mimetismo

1. A minha amiga que trabalha em recursos humanos e gosta muito de ler sobre programação neurolinguística fala com o meu amigo Luís e diz-lhe. - Noto que tens falado com o Angel. - Como é que sabes? - Pelas palavras que usas. - Noto que não tens falado com o Angel. - Como é que sabes? - Pelas palavras que usas. 2. O meu conhecido que desde que começou a praticar boxe mudou o tom de voz e alterou a expressão facial e - até - a forma de andar. 3. A minha conhecida iletrada que começou a trabalhar numa biblioteca e, mesmo sem abrir muito os livros, mudou o timbre de voz e ficou com um olhar mais denso.
O solipsista conhece como ninguém o significado da palavra «intraduzível».

domingo, abril 15, 2012

Quando duas pessoas estão isoladas numa ilha, uma pode levar a outra à insanidade, à submissão, à escravatura. A cabeça do outro é todo o universo.
Ele era diferente. Muito diferente. Fazia o bem de uma forma que para muitos era fazer o mal. Não havia meio-termo nas relações com os outros - paixões ou ódios. Ele mantinha-se firme (até ao fim?). Com o tempo, o fosso entre os que gostavam e não gostavam dele aumentava. Aqueles e aquelas que se prendiam a ele diziam que ele os marcara para sempre. As suas relações afectivas nunca terminavam - mas também não continuavam porque alegadamente ele não se concentrava numa só pessoa, tão empenhado estava na sua demanda da verdade e da justiça. Ficavam abertas, elas não ficavam com ele para sempre - e ao mesmo tempo continuavam sempre a vida toda com mensagens. «Já percebi que isto é (in)finito», «és o homem da minha vida» (muitas vezes), «tens uma existência independente em mim», «acordo-me e deito-me a pensar em ti» (quase um decénio após o ter visto pela última vez). Os seus inimigos eram uma colecção crescente. Várias vezes lhe disseram que ele tinha muita sorte em não ter sido linchado. Parecia que a sua personalidade forte atemorizava os outros. Uma ex-namorada dissera-lhe que ele era como El Cid que mesmo depois de morto, foi atado a uma cavalo para ir combater os inimigos - assustando-os e dispersando-os. O carisma é uma irradiação imortal.
É assim a direita. Privatizar e liberalizar nas relações económicas, de modo que os fracos fiquem desprotegidos. Meter o bedelho do Estado em tudo o que é a vida privada do indíviduo (não é por acaso que os partidos de direita são contra o casamento homossexual, a eutanásia, o aborto). Agora, até dentro dos automóveis, se legisla contra a possibilidade de fumar dentro dos carros quando há crianças. Para quem vê o filme global e não partes, vê como as coisas se têm modificado com impostos sobre impostos, com restrições atrás de restrições, já se discute a possibilidade de fumar à porta dos restaurantes e cafés, de retirar as máquinas de fumar (que foram autorizadas e que implicaram investimento numa altura em que era legal, serão os enganados ressarcidos?). Claro que isto é uma importação dos EUA, em que em Nova Iorque já nem se pode fumar nos jardins públicos. O problema é que esta interferência do Estado na liberdade do indíviduo não pára. A privacidade que vai morrendo pelo perigo do terrorismo, por exemplo. Para quem conhece história, há sempre um motivo nobre por trás de qualquer restrição da liberdade. Porque não legislar contra os pais que dão fast food aos filhos? Porque não legislar contra quem fuma em casa com crianças, não indo à varanda? Porque não legislar contra quem não pratica exercício físico, porque não legislar contra quem não pedala na bicicleta em casa? - seguramente, diminuir-se-iam as doenças cardiovasculares. Porque não legislar contra quem quem não leva os filhos ao médico durante anos? Porque não legislar contra quem deixa os filhos jogarem horas vídeojogos, de modo que se combata o sedentarismo? Ao contrário da Europa, nos EUA, existe essa direita liberal na economia e liberal nos costumes. O caso extremo: David Friedman.

sábado, abril 14, 2012

- A minha melhor amiga diz que a minha frieza é um mecanismo de defesa do meu terrível medo de amar e de me machucar.
A necessidade de poder é um tapa-buracos para descompensações emocionais.
Pessoas que ficam extraordinariamente felizes com a felicidade que sucedeu a um outro.

quinta-feira, abril 12, 2012

De que me rio eu?... Eu rio horas e horas/ só para me esquecer, para me não sentir./ Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras;/ passo a vida febril inquietantemente a rir./ Eu rio porque tenho medo, um terror vago/ de me sentir a sós e de me interrogar;/ rio pra não ouvir a voz do mar pressago/ nem a das coisas mudas a chorar./ Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim/ o mistério de tudo o que me cerca/ e a dor de não saber porque vivo assim. António Patrício
O caminho aristotélico do meio - também a bondade extrema será defeito?
De que poder tens força tão temível,/ que o coração em falha me desvia,/ que me faz dar mentira no visível,/ jurar que a luz não favorece o dia?/ De onde tens tal fazer, de mal, agrado,/ que até o refugo dos teus actos vem/ em força e garantia tão dotado/ que o teu pior, em mim, é sumo bem?/ Quem te ensinou a pôr-me a amar-te mais,/ se causa de ódio mais escuto e vejo?/ Se eu amo o que detestam outros tais,/ não deves detestar-me em tal cotejo./ Se na baixeza meu amor levantas,/ mais valho de que tu me ames às tantas. Shakespeare

quarta-feira, abril 11, 2012

Do Crítico como Escritor Eunuco

Dêem qualquer pessoa que eu a criticarei. Qualquer. Dêem qualquer livro que eu o criticarei. É fácil ser-se crítico. Kafka? Kafka escreveu livros inacabados, frases sintacticamente abstrusas, versava sempre os mesmo temas, tantos contos como variações d´O Castelo, sempre a vergonha, a culpa e o sentimento de absurdo. Joyce era um onanista exibicionista. Tanta pirueta verbal. E o que é ele nos diz sobre natureza humana? Melville, esse maçudíssimo escriba que misturava ficção com descrições longuíssimas de técnicas de pesca e dos mais variados apetrechos navais e que punham as personagens sem cultura e em situações de perigo a declamar eloquentemente num retrato absurdo. Huxley não sabia dotar as personagens de densidade psicológica. Pegava numa boa ideia que se resumia a menos de uma folha e enchia-a com lixo de descrições mal feitas, personagens sem espessura e uma prosa de quem não percebeu que ensaio e ficção são coisas distintas.
Para Agostinho da Silva, a máquina fora inventada para que os patrões se pudessem libertar facilmente desses empecilhos que protestam e preguiçam. Com o advento da tecnologia, Agostinho da Silva preconizou que o desemprego aumentasse num processo irreversível de substituição da pessoa pela máquina. O filósofo entendia que tal era um serviço prestimoso para a humanidade - libertá-la-ia do trabalho. O ser humano deixaria de ter emprego. Estudava até um determinado ano e depois o Estado pagar-lhe-ia uma reforma. Como o ser humano não repousa perenemente inerte sem objectivos, sem uma causa, sem um horta, como dizia Pessoa, isso faria com que a pessoa fizesse o que mais quisesse, e não o que tinha de fazer para pagar o seu sustento. Isso motivá-la-ia a fazer aquilo para o qual tinha mais aptidão e no qual tinha mais interesse. Assim se geraria maior riqueza.

domingo, abril 08, 2012

Naquele tempo, disse Jesus Cristo: - Tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e acolhestes-Me; nu e vestistes-Me; enfermo e visitastes-Me; estava na prisão e viestes ter comigo. Perguntar-Lhe-ão os justos: - Senhor, quando foi que Te vimos com fome e Te demos de comer, com sede e Te demos de beber? Quando foi que Te vimos peregrino e Te acolhemos, nu e Te vestimos? Quando foi que Te vimos enfermo ou na prisão e Te fomos visitar? Responderá o Rei: - Em verdade, vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim mesmo que o fizestes. (Mt 25, 34 -40)

sábado, abril 07, 2012

- A minha vida foi e é uma tentativa de vislumbrar o pedaço incandescente acima da névoa.
Há quem entenda que há Bem e Mal e bons e maus. Há quem entenda que há Bem e Mal, mas não há bons e maus. Há quem entenda que não há nem bons nem maus nem Bem nem Mal. Os últimos, sendo coerentes, terão de pôr no mesmo plano indiferenciadamente a acção daquele que salva trinta vidas num incêndio e aquele que entra numa escola e mata dezenas de pessoas indiscriminadamente porque sim. (Mania dos advérbios de modo.)
A Menina de Coro namora com um gangster. Ela nunca matou uma mosca. Ele gosta de sair à noite e libertar testosterona espancando e partindo garrafas em cabeças alheias. Claro está que toda a gente questiona o funcionamento daquele casal. Há quem pense que ela tem medo de acabar com ele. Eu pensava - erroneamente - que ela tinha uma atitude salvífica e messiânica perante ele. - Angel, fascina-me que ele não tenha coisas com que eu sempre lidei devido à minha educação religiosa. A culpa, o remorso, o medo das consequências das más acções. Ele consegue deixar um individuo em coma que isso não lhe tira o sono. Aquela calma, aquele desafio de Deus, do Homem, da Natureza, olhos nos olhos, sem medo de nada, sem moral; exerce um fascínio sobre mim. É uma espécie de fogo. A calma dele nas situações mais perigosas, o não ter medo de julgamento, seja divino ou do tribunal, a roda-viva em que vive mantendo sempre uma serenidade... De onde lhe vem aquela calma, aquela ausência de medo, aquele fazer-o-que-me-apetece com tanto vigor e tanta força?
Os sete pecados mortais da escrita: pretensiosimo, paroquialismo, exibicionismo, umbiguismo, paternalismo, imitação, clichés.
Uma ideia sobreexcitou-me, mas as palavras esmagaram-na.

Início de Memórias de Casanova

I will begin with this confession: whatever I have done in the course of my life, whether it be good or evil, has been done freely; I am a free agent.
«Os blogues são, como se sabe, uma espécie de diários de navegação expressiva, individual ou coletiva, na Net, que valorizam sobretudo os estados de alma do seu autor ou autores, bem como os da comunidade virtual dos seus semelhantes, através da dinâmica do hipertexto, constituindo assim a chamada blogosfera. Ora, ao contrário do que muitas vezes se pensa e diz, a natureza "expressiva", os procedimentos "tribais" e os objetivos "virais" da atividade bloguista, pouco ou nenhuma importância dão - ou permitem dar - às ideias, à sua diversidade, à sua consistência e à sua discussão. Muito pelo contrário: tudo se desenvolve num registo de tagarelice torrencial, que a todos garante um igual direito de expressão, independentemente de informação ou do conhecimento de cada um. A grande novidade é mesmo esta: nada saber sobre nada, não é um impedimento ou um obstáculo à expressão de pontos de vista, mas o maior dos estímulos!... [...] O anonimato é, como sempre foi na história, estruturalmente ambíguo: tanto pode servir grandes causas como as maiores vilanias. Infelizmente, a dimensão da difamação na blogosfera indica claramente que é nestas últimas que se encontra a tendência dominante, ao ponto de já existirem seguros para todas as eventualidades (veja-se o esclarecedor serviço proposto em SwissLife e-reputation) É de notar que é também o anonimato que estabelece uma grande diferença, em geral ignorada, entre a democracia virtual e a democracia tradicional. Nesta, é a explicitação da identidade pessoal que viabiliza o exercício anónimo da expressão da opinião individual, no voto. Na blogosfera, pelo contrário, é o anonimato (e um anonimato que pode ser, digamos, plural, uma vez que cada indivíduo pode ter uma infinidade de pseudónimos) que abre caminho para a sua expressão pública.» Manuel Maria Carrilho

quinta-feira, abril 05, 2012

Leio os blogues da esquerda e vejo tanto ódio entre as esquerdas da esquerda e concluo: é inelutável. A direita sabe unir-se, a esquerda não. Lembro-me da anedota: havia um partido com três trotskistas e quatro tendências. Foi sempre assim. Estaline matou mais comunistas do que Hitler. A caça ao inimigo interno sempre existiu nos partidos comunistas. Antes da queda do comunismo, havia os maiostas, os troskistas, os leninistas, os auto-gestionários na senda de Tito, os anarquistas. A queda do comunismo não levou à união das esquerdas, ainda que muitas das tendências se tenham tornado residuais. O pós-25 Abril é uma escola de cartilhas políticas. Havia toda a espécie de esquerda. Pessoas de então contam-me que nunca viram tanta pancada como a pancada entre o MRPP e o PCP. O PEC IV foi reprovado pelas esquerdas e pôs no Governo a chusma mais reaccionária da democracia portuguesa. Nas presidenciais, indivíduos que execravam Cavaco souberam apoiá-lo. À esquerda, sempre muitos candidatos. E numa altura de crise, a esquerda fragmenta-se ainda mais. Bastou ver o distanciamento da CGTP ante a brutalidade policial porque não foi sobre célula controlável pelo PCP. Claro que no BE a coisa não é melhor. Saíram 200 com a saída da FER e pretendem criar novo partido. A esquerda da esquerda não consegue assumir compromissos de poder. O PCP ainda conseguiu na câmara. Não estou a defender o PS - nunca votei nele. Apenas a necessidade de encontrar mais semelhanças do que diferenças numa altura em que a direita reina impante pela Europa. Até a extrema-direita já conseguiu experiências de poder coligado estável. Enfim...
Quando questionado sobre não ter filhos, Robert Smith respondeu: «I refuse to impose life on someone else.»

quarta-feira, abril 04, 2012

terça-feira, abril 03, 2012

Miguel Esteves Cardoso tem razão. Um país com dez milhões de soluções não é um problema. Basta ir ao café ou andar de táxi - o português sabe como isto deveria ser feito, o português sabe que é uma vergonha isto ser assim e não ser assado, que, olhe, vou-lhe dizer como eles deviam fazer, mas eles são e sempre foram parvos e aldrabões. Assim é que era, havia de ver.
O caminho para descer é sempre mais velozmente percorrido do que o caminho para subir.
- Gostava de saborear a essência por trás da aura. Sei que és ultra-idolatrado, questiono-me se amado.
- Se o mundo é para quem ganha, o que acontece a quem perde?
- O dinheiro não faz favores a ninguém.

Contra a Ditadura dos Dias

«O moralista é o patrão da consciência alheia.» «A moral do outro contém sempre qualquer coisa de imoral.» José Alberto Braga

segunda-feira, abril 02, 2012

Octavio Paz pergunta, sem procurar afunilar pretensiosamente a mente do leitor com a resposta, quem será mais livre - se o devasso se o casto. O devasso considera-se livre na proporção em que satisfaz os instintos sem a consciência açaimada pela moral repressora. O casto considera-se livre porque liberto da escravização do desejo que pede sempre a forma de um objecto externo e, por isso, dependente.
- A vingança é um sentimento próprio de quem não tem uma consciência aguda da morte.
Ele diz-lhe que é incongruente admirar o actual Dalai-Lama e Bukowski. O amigo responde-lhe que tanto admira o asceta como o dionisíaco desde que mantenham a sua identidade firme contra a pressão normalizante do mundo. Do I contradict myself? Very well, then I contradict myself, I am large, I contain multitudes.
Talvez que o problema de Ícaro não tenha sido procurar atingir o Sol - mas atingi-lo demasiado cedo. O fatum dos 27 - Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Amy Whinehouse. A fama, o poder, a glória demasiado cedo lembram-me sempre de Scott Fitzgerald quando percorria de táxi Nova Iorque nos seus primeiros vintes e as lágrimas lhe assomaram porque tinha tudo o que queria da vida e sabia que não voltaria a ser tão feliz. E o seu final, ditado por um coração regado de álcool, seria tragicamente precoce também. Lembrei-me disto a propósito do autor do vídeo Kony.
A factura de uma prestação de serviços de uma grande empresa chega a casa, e ele, se verifica que foi enganado, liga para lá a protestar e apresenta queixa por escrito a várias entidades. Ela entende que um mail seria suficiente. Ele grita. Ela tenta perceber. Ele enfrenta. Ela concilia. Ele transmite as opiniões de forma veemente. Ela de forma dócil. Ele é advogado dos pequenos contra os grandes. Ela é assistente social. Ela diz que tudo se resolve com diálogo e a tentativa de compreensão do ponto de vista do Outro. Ele diz que o silêncio dos bons nas situações de injustiça é pior do que a pior perversidade dos maus e que a complacência é sempre o reforço da munição de alguns abusadores. Há diferentes formas de praticar o Bem.
Ele conheceu um amigo dela e disse-lhe: «Este teu amigo não é uma pessoa confiável.» «És louco, é meu amigo há 17 anos.» Ele foi a uma iniciativa da empresa na qual ela trabalhava e disse-lhe: «Aquele teu colega é intruja.» «Mas tu nem falaste com ele...» O amigo de 17 anos tornou-se aos olhos dela a maior desilusão da sua vida passados uns anos. O colega fez umas falcatruas e tentou encobrir-se queimando-a. Ela começou a pedir-lhe opiniões sobre tudo e nada. «Penso que deves fazer assim.» «Parece-me boa pessoa.» «Parece-me má pessoa.» «Bolas, acertas sempre.» Até que um dia ela deixou cair iracunda: «Tu tens muitos preconceitos!» E noutro: «Eu sei que já me tinhas avisado, mas o que queres que faça, que acate sempre o que dizes?» E mais irritada ainda: «Já me disseste que me tinhas avisado. Tu és irritante! Quantas vezes preciso de te explicar que quando as coisas correm mal, a pior coisa que alguém próximo nos pode dizer é: "Eu tinha-te avisado."» Ele recolheu-se. Só passava a opinar quando instado a. Deixou de proferir o-tinha-te-avisado. Mas ficou-lhe um gesto. O sobrolho ainda dizia «Eu tinha-te avisado». Ela voltou a irritar-se. Ele defendeu-se certa vez: «Mas eu só te dou opinião quando tu me pedes! Eu já não te censuro a posteriori, como me pediste.» Até que ele obliterou o gesto do sobrolho, extinguindo quaisquer vestígios extras. Ela cada vez pedia mais e mais opiniões. Um dia, farta: «Não aguento mais isto. Tu cerceias a minha liberdade.» «Mas eu só te dou opinião quando me pedes.» «Já sei, não sejas repetitivo. Mas tu acertas e isso não me deixe ser livre. Mesmo que erre, preciso de aprender por mim própria. Isto é uma prisão.» Afastou-se. Mas continuava, por intermédio de amigos e conhecidos em comum, a saber o que é que ele achava sobre isto&aquilo. E a agir em conformidade. Até que teve de pedir que não lhe dissessem mais nada sobre ele. Ainda assim, aqui e acolá, um murmúrio soprado pelo vento chegava até ela. Ele achava que fulano era um tipo íntegro, ele achava que sicrano era um tipo oblíquo. E os seus olhos viam as coisas de outra maneira. Decidiu por fim à sua «prisão» e torna ínvia qual forma de comunicação entre eles - directa ou indirecta. Partiu para o estrangeiro, prudentemente protegida por 25 000 quilómetros de distância.

domingo, abril 01, 2012

Brincar com uma femme fatale é como jogar na roleta. Tens muitos dias infelizes, alguns dias muito felizes - mas, no longo prazo, sais sempre a perder.