sábado, março 31, 2012

- Hoje, vivo bem. Tive de adaptar-me, mas desde que nós... semana após semana, dia após dia, cai neve preta incessantemente num canto da minha alma.

sexta-feira, março 30, 2012

- Os teus olhos têm qualquer coisa de mysterium tremendum.
Na velhice, os amigos partem morrendo. Na juventude, nos tempos hodiernos, os amigos partem emigrando. Mais um. Conto pelos dedos - o balanço já se desequilibrou com este. A metade já não é metade. É metade menos um. Mas fiquei comovido. «Angel, pensei eu deixar toda a minha biblioteca em tua casa. Mas eram dez caixotes. Os livros ficaram em casa dos meus pais. Podes lá ir quando quiseres.»
E, de súbito, episódios do passado confluem num só canal da tua mente que desagua num padrão. Num clarão, agrupas coisas soltas. Aquele meu amigo que um dia me disse que mudava de página quando via um anúncio para ir para África em missão humanitária - sempre fora o seu sonho -, mas as barreiras da vida empurravam-no para trabalhar nas finanças em Portugal. Aquele meu amigo que gostava de tertúlias e poesia e que esconde debaixo do fato e gravata uma sede enorme de ser escritor. Não, já a perdeu. Um dia, fui com ele à Biblioteca Nacional entregar um livro (a epopeia de um soldado) para um prémio. Não ganhou. Teve dois filhos. Tem de os sustentar. Mergulhou na vida prática. Diz que tem medo de ir a recitais de poesia - porque sente uma atracção do abismo de largar tudo e ficar em casa a ler e escrever. O bichinho de focinho pontiagudo continua lá. Mas a mulher está desempregado e ele não pode deixar os filhos ao deus-dará. Aquela minha amiga que vive com o namorado e que sai pouco da concha e um dia me disse que o Eyes Wide Shut era o filme da sua vida. «Por vezes, tenho vontade de largar tudo e partir pelo mundo e ser livre e ter quem eu quiser hoje, amanhã e depois. Às vezes, acordo com a pergunta que, com os anos, tento abafar: e se um dia largasses tudo e partisses para a liberdade?»
- Sim, talvez o Hemingway represente aquele estilo de ser o melhor a qualquer preço, um pouco como o Mourinho, mas na minha opinião é uma espécie de auto-defesa e horror no sentido de penarem consigo próprios com a possibilidade de cairem na condição anódina do Ser no Mundo. Um homem tenta provar ao mundo aquilo que não tem a certeza de ser.
- Mas o Beckett ganhou o Nobel por qual livro? - O Nobel é entregue pela Obra. - Sim e qual foi a obra que lhe deu o Nobel?
Manuel Maria Carrilho tem razão: vivemos em tempos de casos e não de causas. Claro está que os media tudo fazem nesse sentido. Qual o assunto que mais toca e comove? As crianças. Quais os dois assuntos mais falados durante anos e anos semanalmente, diariamente, enjoativamente - Casa Pia e Maddie.

quarta-feira, março 28, 2012

A cultura salva-nos da barbárie. Mas então como pode um homem que traduziu tão bem Dante e Shakespeare defender a pena de morte?
A dimensão poética existe ou não existe em nós - como a dimensão metafísica.

Desilusões Houaissianas na Letra Pê

Postura como atitude. Nem a Porto Editora... Plangor fora do dicionário...
O darwinismo social continua. Agora, nas escolas. Os miúdos mais difíceis serem postos em turmas especiais. Em guetos. O argumento: os estudantes mais difíceis quebram o ritmo da turma. Seguindo esta linha, como será o ritmo de uma turma com todos os alunos lá a quebrarem o ritmo? E que opinião terão os psicólogos sobre o estigma que recairá sobre estes miúdos? Que cicatrizes ficarão para a vida?
Daí a seis dias, a sua vida seria ganha ou perdida.
deixei-me cativar; mas já que entendo, Senhora, que por vosso me queria, do tempo que fui livre me arrependo. Camões
Por mais insípido ou insípida que te pareça, lembra-te de que todos somos dotados de um caleidoscópico e babilónico mundo interior.

terça-feira, março 27, 2012

Pena de Morte em 2011: Menos países matam mas os números são alarmantes EMBARGO: até 00h01 GMT de 27 de março de 2012 Os países que aplicam a pena de morte diminuíram em mais de um terço, se compararmos com os dados de há uma década. Mas os que em 2011 levaram a cabo execuções, fizeram-no a um ritmo alarmante. É a principal conclusão da Amnistia Internacional, na sua revisão anual de sentenças de morte e execuções. Dez por cento dos países no mundo, ou seja, 20 em 198, levaram a cabo execuções no ano passado. As execuções ou condenadas à morte deveram-se a uma variedade de crimes, incluíndo adultério e sodomia no Irão, blasfémia no Paquistão, 'feitiçaria' na Arábia Saudita, tráfico de ossos humanos na República do Congo e crimes relacionados com droga em mais de 10 países. Os métodos de execução em 2011 incluíram decapitação, enforcamento, injeção letal e fuzilamento. Em finais do ano passado, 18.750 pessoas estavam condenadas à morte e pelo menos 676 foram executadas, em todo o mundo. CHINA: Estes números não incluem as milhares de execuções que a Amnistia Internacional acredita terem tido lugar na China, onde os valores não são revelados. Nem tão pouco dão conta do provável alargamento do uso da pena de morte no Irão - a Amnistia Internacional tem recebido relatos credíveis de um número substancial de execuções não assumidas oficialmente. Milhares de pessoas foram executadas na China em 2011, mais do que os totais do resto do mundo, mas os números sobre a pena de morte são segredo de estado. A Amnistia Internacional deixou de publicar os valores que recolhe de fontes públicas da China, por suspeitar serem consideravelmente mais baixos do que os valores reais e reforçou o desafio antes lançado às autoridades chinesas para publicarem os verdadeiros dados dos que são executados e condenados à morte, de maneira a poder confirmar as alegações das autoridades chinesas de que tem havido uma redução significativa da pena de morte no país nos últimos quatro anos, devido sobretudo a alterações legislativas. "A grande maioria dos países afastou-se da pena de morte", afirma Salil Shetty, secretário-geral da Amnistia Internacional. "A nossa mensagem aos líderes da minoria de países, cada vez mais isolados, que continuam a levar a cabo execuções, é clara: vocês não estão em sintonia com o resto do mundo nesta matéria e é hora de tomarem medidas para acabarem com este que é o castigo mais cruel, desumano e degradante". MÉDIO ORIENTE: No Médio Oriente, houve um aumento acentuado das execuções - quase mais 50 por cento do que no ano anterior, sobretudo devido à acção de quatro países: Arábia Saudita (pelo menos 82), Iémen (pelo menos 41), Irão (pelo menos 360) e Iraque (pelo menos 68 execuções). Só estes quatro estados são responsáveis por 99 por cento de todas as execuções registadas no Médio Oriente e no Norte de África. Os aumentos registados no Irão e na Arábia Saudita contribuíram para um aumento de 149 no número total registado de execuções em todo o mundo, se compararmos com os dados de 2010. Do Irão, a Amnistia Internacional recebeu relatos credíveis de um grande número de execuções por confirmar ou mesmo secretas, que quase duplicariam os valores reconhecidos oficialmente. Pelo menos três pessoas foram executadas no Irão por crimes cometidos quando tinham menos de 18 anos de idade, violando o direito internacional. Ainda no Irão, há também notícia de outras quatro execuções, não confirmadas oficialmente, de delinquentes juvenis e uma outra na Arábia Saudita. Sabe-se que tiveram lugar execuções públicas na Arábia Saudita, Coreia do Norte, Irão, assim como na Somália. Na maioria dos países onde as pessoas foram condenadas à morte ou executadas, os julgamentos não decorreram de acordo com os padrões internacionais de um julgamento justo. Em alguns, houve obtenção de "confissão" sob tortura ou coação é o caso da Arábia Saudita, China, Coreia do Norte, Irão e Iraque. No caso de cidadãos estrangeiros, regista-se uma aplicação desproporcional da pena de morte, particularmente na Arábia Saudita, Malásia, Singapura e Tailândia. E.U.A.: Os Estados Unidos da América foram novamente o único país do continente americano e o único membro do G8 a executar reclusos - 43 em 2011. A Europa e os países da antiga União Soviética não aplicaram a pena capital, com exceção da Bielorrússia, onde duas pessoas foram executadas. O Pacífico é uma zona livre de pena de morte, excepto a Papua Nova Guiné, onde foram proferidas cinco sentenças de morte. Na Bielorrússia e no Vietname, os reclusos não foram informados de que as suas execuções estavam iminentes, nem tão pouco os seus familiares e advogados. ALGUNS PROGRESSOS: Mesmo nos países que continuam a aplicar a pena de morte, houve alguns progressos em 2011. O governo chinês anunciou a eliminação da pena de morte para 13 crimes, maioritariamente de "colarinho branco", e foram igualmente tomadas medidas para o Congresso Nacional do Povo reduzir o número de casos de tortura sob detenção, fortalecer o papel dos advogados de defesa e assegurar que os suspeitos em casos capitais sejam representados por um advogado. Nos Estados Unidos da América, o número de execuções e de novas condenações à morte diminuiu drasticamente desde há dez anos. O Illinois tornou-se o 16º estado a abolir a pena de morte e no do estado do Oregon, foi anunciada uma moratória. E as vítimas de crimes violentos pronunciaram-se contra a pena de morte. "Mesmo entre o pequeno grupo de países que executaram em 2011, podemos ver um progresso gradual. São pequenos passos, mas essas medidas progressivas têm mostrado, em última análise, poder levar ao fim da pena de morte", diz Salil Shetty. "Não vai acontecer de um dia para o outro, mas estamos convictos de que veremos o dia em que a pena de morte passará à história", conclui o secretário-geral da Amnistia Internacional. A Amnistia Internacional opõe-se à pena de morte em todos os casos sem exceção, independentemente da natureza do crime, das características do criminoso ou do método usado para levar a cabo a execução. A pena de morte viola o direito à vida e representa o castigo mais cruel, desumano e degradante. Resumos POR REGIÃO Américas Os E.U.A. foram mais uma vez os únicos executores no continente americano. Foram registadas um total de 43 execuções em 13 dos 34 estados que aplicam a pena de morte, ou seja, deu-se uma quebra de um terço desde 2001. Foram registadas 78 novas sentenças de morte em 2011, o que equivale a uma diminuição para metade desde 2001. Caribe É uma zona livre de execuções, onde o número de países a decretar a pena de morte parece estar em declínio. Apenas se conhecem três países que proferiram um total de seis sentenças de morte: Guiana, Santa Lúcia e Trinidad e Tobago. Ásia-Pacífico Há alguns sinais positivos: vários indícios demonstram que a legitimidade da pena capital na região foi posta em causa, ao longo 2011. Sem contar com os milhares de execuções que se acredita terem tido lugar na China, relatos indicam que pelo menos 51 execuções foram levadas a cabo em sete países na região da Ásia-Pacífico. Sabe-se que pelo menos 883 novas sentenças de morte foram proferidas em 18 países. A sub-região do Pacífico não teve casos de pena de morte, com exceção para cinco sentenças de morte proferidas na Papua Nova Guiné. Não se registaram execuções em Singapura e, pela primeira vez em 19 anos, no Japão. As autoridades de ambos os países mostraram anteriormente um forte apoio à pena capital. África Subsariana Progressos significativos em 2011: o Benim adotou legislação para ratificar o tratado da ONU que tem como objetivo abolir a pena de morte. A Serra Leoa declarou, e a Nigéria confirmou, moratórias oficiais sobre as execuções. A Comissão de Revisão Constitucional no Gana recomendou a abolição da pena de morte. Houve pelo menos 22 execuções em três países na África Subsariana: Somália, Sudão do Sul e Sudão. Apenas 14 dos 49 países na região continuam a praticar a pena de morte. Médio Oriente e Norte de África Confirmaram-se pelo menos 558 execuções em oito países e pelo menos 750 sentenças de morte em 15 países. A continuação da violência em países como o Iémen, a Líbia e a Síria tornou particularmente difícil reunir informação adequada sobre a aplicação da pena de morte na região, em 2011. Não foi disponibilizada nenhuma informação sobre execuções judiciais na Líbia e não há registo de ter sido proferida qualquer sentença de morte. Mas sabe-se que houve execuções extrajudiciais, tortura e detenções arbitrárias. Quatro países - Arábia Saudita, Iémen, Irão e Iraque - são responsáveis por 99 por cento de todas as execuções registadas no Médio Oriente e no Norte de África. As autoridades da Argélia, Jordânia, Koweit, Líbano, Marrocos/Saara Ocidental e Qatar proferiram penas de morte, mas continuam a abster-se de levar a cabo as execuções. Europa e Ásia Central A Bielorrússia foi o único país da Europa e da antiga União Soviética e, à parte dos EUA, o único da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), a levar a cabo execuções em 2011, pondo fim à vida de duas pessoas. EMBARGO: até 00h01 GMT de 27 de março de 2012 Para comentários, contactar: Luís Braga, Coordenador do Cogrupo sobre Pena de Morte Amnistia Internacional Portugal

segunda-feira, março 26, 2012

Para Nós

Such exquisite torment to be so denied with every furtive glance I am sanctified such delicious torture forbidden and so chaste with every new surrender comes a new and sweeter taste we steal our silent pleasures in damned conspirancy we share our whispered sighs in Bible Black complicity we tempt the han of Eros with yearing and denial we craft the course of subterfuge with cunning and with guile In denial we´re in denial In denial we´re in denial and this hell fells like heaven and if the Gods ever deign that we should be together please no empty platitudes or promises of forever let´s savour every moment as we yield to destiny ´cos all I want is you and all you want is me in denial we´re in denial and this pain is God given in denial we´re in denial in denial and this hell feels like heaven

domingo, março 25, 2012

Tolstoi por Repin (pressionar para aumentar).

Francisco Louça - MALAGRIDA ENCARNADO O precedente português (embora fosse italiano) de Louçã é o padre jesuíta Gabriel Malagrida. O jesuíta tinha fama de santo e conheceu altos e baixos na sua carreira de pregador entre Portugal e o Brasil, entre um rei e outro. Só quando chegou ao Marquês é que tudo acabou mal, na fogueira. Malagrida notabilizou-se por um texto que escreveu sobre o terramoto de 1755, em resposta a um panfleto explicativo das causa naturais do fenómeno, encomendado pelo Marquês que era homem das Luzes. Anote-se desde já, que não foi esse texto que motivou a sua execução, apenas o seu desterro, mas sim outros escritos considerados de “lesa-majestade“. Hoje, um Malagrida moderno teria muitos votos pelas suas pregações, se em vez do terramoto, se tratasse de “explicar” a “crise”. E, em vez do cadafalso, teria o prime-time da televisão, onde os jornalistas babados pela sua oratória lhe dão o papel ímpar de ser o julgador moral do PS e do PSD. Ele não está lá no ecrã para dizer o que pretende o Bloco de Esquerda, mas sim para, sempre com os mesmos trejeitos, flamejar de ameaças os infames que causaram o tremor de terra. Por trejeitos refiro-me a capacidade histriónica de Louça de conseguir não só falar como sublinhar com um traço facial e uma inflexão de voz, as sua próprias palavras, não vá a gente não as perceber. Também Malagrida apelava a ideias simples, embora erradas, a fés que não se questionam, a medos comuns, aos traumatizados pelo desastre e aos crédulos de sempre, aos zangados pela vida e aos que esperam por milagres, acima de tudo aos que procuram em tempos difíceis uma ilusão a que se agarrar, porque o real é demasiado pobre e fraco e mau. Malagrida propunha-lhes práticas salvíficas e imediatas, procissões e devoções. O mundo de Malagrida era simples e os maus e os bons estavam separados por um abismo fundo. Os maus mandavam na terra e os bons sabiam como se ia para o Céu. Os maus propunham “causas naturais” para os desastres para iludir a sua responsabilidade, os bons acreditavam que um Deus feroz tinha que ser aplacado na sua vingança, pela restituição das coisas mundanas a uma “ordem natural” que tinha sido rompida pela incredulidade. Para Malagrida, as causas do terramoto eram divinas: Sabe Lisboa, que os únicos destruidores de tantas casas e palácios, assoladores de tantos templos e conventos, homicidas de tantos habitantes, os incêndios devoradores de tantos tesouros não são cometas, não são estrelas, não são vapores ou exalações, não são fenómenos, não são contingências ou causas naturais, mas são unicamente os nossos intoleráveis pecados. O discurso de Louçã tem a mesma lógica do de Malagrida. O mal, os “intoleráveis pecados”, é uma coisa a que ele chama de “ganância” dos ricos e poderosos, ou seja, o capitalismo, embora ele prefira a classificação moral à política, porque esta última podia ser muito reveladora na sua genealogia. Para restaurar a Jerusalém divina, é necessário que se entre no reino da “Justiça”, ou seja, da igualdade, da solidariedade, onde todos os homens são felizes. Quem é que ousa contestar a “justiça”? Só os maus. Quem é que ousa questionar a ira divina? Só os ímpios. A experiência histórica tem precedentes para estas palavras de Louça. Elas só são novas porque a memória é muito curta. É que se as tomarmos como elas são, desnudadas da sua ganga retórica, trata-se de um discurso de extrema-esquerda assente numa visão comunista da sociedade, onde há um brutal intervalo entre a “justiça” exigida e a “justiça” realizada. Esse intervalo é o de uma sociedade totalitária, de uma ditadura do Bem sobre o Mal. Malagrida perceberia muito bem este mundo Pacheco Pereira

sábado, março 24, 2012

Postergar os trabalhos hercúleos. A inércia do começo. Penso na frase de Mao Zedong. (Sim, um facínora, mas até Estaline teve grandes frases, até Hitler pintou quadros interessantes e teve uma política ecológica assinalável e era vegetariano.) A marcha era de 16 mil quilómetros. Todos se indagaram: que fazer? - Uma caminhada começa com um passo.
«I was 50 years old and hadn't been to bed with a woman for four years.» Primeira frase de Women de Charles Bukoswki

Testemunho de um cocainado bipolar

Sou maior do que Deus. «Sou imenso, contenho multidões.» Quando vou no Bairro Alto, posso ir com as companhias mais decadentes, que o único abordado para comprar droga, sou eu. Quando entro num táxi, e já mo disseram, só me levam a mim e a quem vai comigo, porque sou o único que tem um olhar honesto. Quando a polícia mandar parar numa Operação STOP, a mim mandam-me sempre seguir. Quando vou a bairros de barracas, sou o único que eles sentem ser um deles. Quando vou a sítios de gente fina, por mais mal vestido, eles pensam sempre que sou o d´oorey com dois ós que todos aguardavam que entrasse para todos os olhos o mirarem. Quando entro numa discoteca, apesar de não ser bonito, as mulheres querem-me todas a mim. (Até já fiz indivíduos mudarem de orientação sexual.) «Sou imenso, contenho multidões.» Quando estou numa tertúlia, mesmo que não conheça ninguém, todos dizem que o meu olhar contém uma sapiência infinita e temem dizer algo que eu não valide. Quando estou rodeado de porteiros de discoteca com esteróides, todos me perguntam em que ginásio em que ando e quantos já sovei. Até já me quiseram contratar para serviços clandestinos de surrar um mafioso. Quando estou no meio de ex-reclusos, criminosos de alto coturno, eles temem-me e dizem que tenho ar de ser o pior deles. Quando estou no meio de meninos de coro, eles vêem em mim o mais inocente e o mais puro. Quando falo com filhos de pais amigos, eles dizem que eu seria o seu o pai ideal. Quando falo com pais de filhos amigos, eles dizem que eu seria o seu filho ideal. «Sou tão ou mais bom do que os melhores e ainda mais mau do que os piores.»
O Rui. Aos anos que não sei dele. Paro e evoco-o. A singularidade daquele traço de personalidade. A primeira que o vi, pensei: «Que pessoa tão limpinha.» Cabelo claro, um ar lavadíssimo, roupas de pessoas certinha, o timbre educado. Aquele de quem os pais nunca desconfiariam ser uma má companhia. De resto, com os pais dos amigos era de uma superlativa simpatia e afabilidade - como com as pessoas em geral. (O Rui dava-se com muito pouca gente.) O Rui não saía, não bebia, não fumava. Um dia, contou-me a repugnância que sentia ao ver miúdos bêbados. Relatou-me um episódio de um conhecido seu que bebera tanto numa discoteca que urinara e defecara nas calças e como ele tivera de evitar que ele levasse uma sova e de como o tinha transportado nessa noite até ao Alentejo com um fedor infernal no automóvel, de janelas abertas ao frio. Lembro-me de ficar chocado comigo quando o convidei a ir ao Bairro Alto. - Esse antro de decadência, és louco. Para ouvir garrafas a partir-se no chão e ver tipos a vomitar e urinar na esquina, e a vender droga. Poupa-me... Ao fim de muita convivência, o Rui fumou uma ganza na minha frente. «Estas coisas fazem-se em privado.» Senti que despertara para qualquer coisa. Depois, comecei a vê-lo a fumar mais e mais ganzas. Mas sempre a sós. No máximo, com a namorada e comigo. Um dia, contou-me que quando estivera na tropa todos gozavam com ele: «Só bebe leite o Ruizinho!» Ele disse-me que sorria interiormente por não ter passado um único dia sem fumar uma. Mas nunca ninguém via. A degradação era uma coisa horrível de se ver, dizia. Um dia, disse-me no metro: - Vai ali um heroinómano. - Ele está a dormitar... - Eu sei bem o que é aquele olhar. Demorou muito até me contar que fora um deles. - Mas nunca injectei e nunca fiz figuras tristes. Nunca incomodei ninguém. Essas coisas fazem-se em privado. E anos mais tarde contou-me que estivera preso. Nunca me contou porquê. O Rui só falava de praia e de sol, era uma pessoa - dizia - «muito solar». «As coisas feias não se fazem na frente de ninguém.» Nunca percebi porque não usava calções na praia. Um dia, contou-me que tinha uma cicatriz. Ainda não passaram os anos suficientes para que eu soubesse a origem da mesma. O Rui era um bom amigo, educado e simpático, e nunca levantou a voz a ninguém.
Chamam-lhe Dog. Trabalha de noite, conhece mais de meia cidade - é como uma espécie de entidade que paira por cima e sabe ligações e ligações e enredos. Para ele - disse-me uma vez -, Lisboa é minúscula porque ele consegue traçar todos as relações entre todos os seus habitantes. Já viu toda a gente na noite. O resto das pessoas conheceu-as de dia. Já viu tudo. Sabe histórias terríveis, segredos inomináveis. Costuma citar a frase que lhe transmiti de Hemingway de que há coisas de dia e coisas de noite, conversas de dia e conversas de noite - porque há, de facto, coisas e que conversas que só sucedem de noite. A vida parece já não lhe reservar surpresas - e, contudo, à hora em que a mutação da noite em dia se opera, continua a ver autênticos milagres. Diz-me sempre para desconfiar das aparências. Diz que todos usam máscaras. Sempre que lhe perguntou por alguém, se não vai lá à primeira, vai à segunda, ou à terceira. Se não conhece a pessoa, conhece um amigo da pessoa e puxa do ficheiro. Só relata estes pormenores a pessoas de confiança - duas ou três entre os muito milhares que conhece. Não procura saber as coisas - as coisas vão ter com ele. Está cada vez mais monossilábico e monocórdico - não desperdiça palavras, mas também não falha nos juízos. Se me disser: «Ela não presta»; eu sei que ele sabe bem o porquê e esqueço a pessoa. O cimento do seu cepticismo aumenta de ano para ano e vai fazendo favores (é sempre muito solicitado) a um grupo cada vez mais restrito de pessoas. Raramente, pede algo. Uma vez, pediu-me um álbum para passar num espaço nocturno em que trabalha (já trabalhou em tantos). É a pessoa que conheço que sabe mais de música. Está muito opulento. Tem o cabelo comprido atado atrás, olhos quase orientais, e uma pequena pêra e bigode, uma pele morena e uns olhos orientais. Já foi bonito quando era mais magro.
Há mistérios ou segredos que não devem ser nomeados, chamemos-lhe Aqueles Mistérios Que Não Devem Ser Nomeados. Há aqueles ainda que nem sequer se diz que não devem ser nomeados porque nem nos referimos a eles. E há ainda aqueles que nem sequer se diz que que nem sequer se diz que não devem ser nomeados. E assim sucessivamente.
Aprendem menos aqueles que têm as suas certezas cristalizadas e apenas procuram catequizar o próximo, não entrando em conversações para dar-e-receber - apenas para converter.

sexta-feira, março 23, 2012

Que se espera de Portugal?

O confessado projecto político de Pedro Passos Coelho, destinado a empobrecer o País, está a resultar em toda a linha. O primeiro-ministro deve andar contentíssimo. A miséria e a fome estendem-nos os braços; milhares de estudantes do secundário e superior desistem ou não têm dinheiro para nada, sobretudo para comer; o desemprego é uma nódoa que alastra; os precários são cada vez mais; centenas e centenas de compatriotas emigram sem apoio, sem resguardo, apossados de desespero incontido que os leva à insanidade; advogados e arquitectos já procuram o auxílio da Caritas, por não terem de comer nem como pagar a renda de casa; a asfixia arrasta consigo não só a humilhação como todas as pragas sociais. As doenças decorrentes da miséria, que julgávamos extirpadas, regressam e aumentam as nossas desventuras. Os velhos morrem de solidão, de frio, de abandono, e por não terem dinheiro para medicamentos indispensáveis à sua sobrevivência. Os impostos; as taxas moderadoras; os aumentos excessivos em tudo o que é fundamental e básico; a destruição do amor; o aumento dos divórcios; o acréscimo dos sem-abrigo; o desamparo aos desempregados, a lista que resulta desta declarada política não é só atroz como extremamente condenável. E que faz o Executivo para minorar este infortúnio? Nada. Ou, corrigindo: ameaça-nos com novos impostos, mais desemprego, mais desgraça, mais penúria. A troika que, periodicamente, vem varejar se este Governo é servil e obediente, sai daqui muito feliz. Enquanto, jovialmente, Passos Coelho e os seus sorriem, jubilosos, porque não apanharam com palmatoadas. Tudo isto toma os contornos de grande vergonha. Porém, a vergonha só atinge quem a tem, e não me parece que esta gente seja tocada por esse sentimento. Entretanto, numa espécie de ilusionismo de feira, Vítor Gaspar, de regresso de uma secreta viagem aos Estados Unidos, e depois de ter conversado não se sabe muito bem com quem, declarou, enfaticamente: "No dia 23 de Setembro de 2013, regressamos aos mercados." Porque não no dia 22 ou no dia 24? Comemora-se algum aniversário? Ninguém sabe, ninguém diz, para parafrasear um conhecido samba. Por outro lado, a ameaça de seguirmos os passos da Grécia pesa sobre os nossos ombros. Uns dizem que sim; outros, que não. O português comum já está por tudo. A missão dos Governos é, entre outras, a de tentar melhorar as vidas das suas populações. Este, em pouco mais de oito meses, aniquilou o que restava de Estado Social, numa linha seguidista, aliás, das políticas de Direita que percorrem a Europa. Pedro Passos Coelho, que prometera nunca referir as responsabilidades do Governo anterior, não cumpriu a promessa, como, aliás, fugiu a outras mais, e começou a criticar os socialistas de Sócrates. Um dos mais enviesados nos comentários é o ministro Álvaro Santos Pereira, cuja natureza belicosa, quando se dirige à Esquerda, revela uma alucinante carência de sentido político e uma ausência total de boas regras. O ataque ao PS de Sócrates, embora merecido, não reduz a culpabilidade deste Executivo quanto ao que nos inflige. Há dias, o prof. Adriano Moreira, na SIC-Notícias, não deixou de aludir à falta de experiência dos membros deste Governo. O zelo ensimesmado com que executam o que lhes é dito para executar aproxima-se da insensibilidade. A verdade cruel é que milhões de portugueses estão a sofrer devido a um grupo de pessoas, certamente gente qualificada mas não para as funções que exerce. Ninguém sabe onde isto vai parar. Sabe-se é que, por ausência de prática ou por carência de traquejo de vida, os dirigentes políticos estão a conduzir a pátria para as zonas do terceiro mundo. Irremissivelmente? Está nas nossas mãos e nos nossos desígnios como povo. Baptista-Bastos

quinta-feira, março 22, 2012

Formas de cumprimentos pouco ortodoxas

- E, então, Angel, tens feito o bem ao próximo?
A Lua na Valeta. Um dos títulos de livros que mais aprecio. Um belíssimo filme. Um dos autores mais subestimados: David Goodis. Um dos autores que mais e melhores filmes inspirou (com grandes realizadores e grandes actores). Um autor que retratou como ninguém submundos e bas-fonds. Um autor que escreve umas das aberturas de livros mais pujantes: Uma Loira na Esquina.
Quem sabe de história sabe que tudo se repete (eterno retorno em que apenas mudam as roupagens), sabe que nada é irreversível, sabe que a história funciona por ciclos - e que tudo isto é verdade menos para a tecnologia.

quarta-feira, março 21, 2012

O nosso conhecido tinha uma emprega doméstica muito simpática e humilde. Um dia, ela pediu-lhe cinco euros. Devolveu no dia seguinte. Passadas semanas, pediu dez e devolveu no dia seguinte. Passados meses, pediu cem euros - explicando longamente os motivos - e pagou na semana seguinte, juntando-lhe uma prenda. - Oh, não era preciso... Passado um ano, pediu mil e quinhentos euros. Desde então, ele nunca mais a viu. Os ouvintes gabaram muito a manhosice da senhora, gerando camadas de confiança sob camadas de confiança, até ao golpe final. Faz-me lembrar os indivíduos que gabaram o requinte e a perfeição do plano de Bin Laden. (Bem sei que a dimensão é outra.) Mas o grau de sofisticação de uma mente não deve ofuscar a manhosice ou a perversidade. Dito de outra forma: a sofisticação mental só é digna de nota quando aplicada a uma finalidade digna.
Um estudo nas escolas brasileiras demonstrou (os estudos demonstram sempre algo) que há uma afinidade nos relacionamentos amorosos (chamemos-lhe assim) ditada pela escrita. Ou seja: quem escreve melhor tende a ficar com quem escreve melhor, quem escreve assim-assim como quem escreve assim-assim e quem escreve mal com quem escreve mal. Édith Piaf teve um paixão louca pelo pugilista troglodita Marcel Cerdan, por quem muito pranteou. (Claro que há sempre aquela interpretação freudiana do pai bruto que martirizou psicologicamente a filha que depois, por substituição, arranja um bruto para o tentar domar e triunfar sobre a derrota que teve com o pai.)
James Joyce viveu trinta e sete anos com a semianalfabeta Nora Barnacle. O único feriado do mundo consagrado a um livro não sagrado, o Bloomsday, é o dia em que se passa a narrativa de Joyce, Ulisses. Pouco se fala é da importância de Nora na escolha desse dia. Foi nesse dia que Nora e Joyce tiveram o primeiro contacto de pele, em que Nora fez sexo manual ao escritor junto do rio. Nora ou Norella, Noretta,Noruccia, Norma, minha flor selvagem das sebes, minha flor azul-escura encharcada pela chuva, como lhe chamava Joyce, chegou a levar Joyce à semiloucura quando Nora o abandonou temporariamente, uma correndo pela Irlanda fora atropelando toda a gente pelo caminho e outra interpretando uma troca de tiros da tropa como uma perseguição para o abater. Nora nunca leu Joyce, achava-o obscuro e sem sentido, ao mesmo tempo que dizia que ele era o Maior Escritor do Mundo, conforme se dizia à época, e que a orgulhava muito estar ao lado do M. E. M., ainda que garantisse preferir que ele fosse músico. O que levaria Joyce a viver trinta e sete anos com ela? Apenas o sexo? Nas cartas entre ambos, percebe-se que havia uma grande componente sexual na relação. Joyce sentir-se-ia atraído pela ideia de modelar uma criatura, instalando-lhe os prazeres do intelecto? Seria pelo sentimento de superioridade que o contraste permitia alimentar? Seria por Nora ser prática e óptima dona de casa (até por ter trabalhado como criada) e por lhe garantir a vida prática, libertando-o para a escrita? Seria porque, como reza o dito, viver com um escritor é viver com um defunto em casa e dois defuntos não podem conviver? Ou seria apenas pela ligação emocional - porque os incultos também sentem - em que Joyce, tão afundado em criar novilínguas e em hipersistematizar livros intertextuais e pluriformes na linguagem e no género dentro da mesmo obra, via uma compensação de afectos para o desgaste do solipsismo intelectual da sua escrita? Seria ainda porque Joyce, que era misógino, escrevendo nenhuma mulher sabia usar a pontuação e que por isso, na sua lógica mental, mais valia uma assumida do que uma pseudo? Seria porque tinha uma tremenda ambivalência quanto à mulher, dividindo-as entre putas e santas, emparedado entre a moral rígida católica e a sua libido forte que o levava a ir a casas de meretrizes pelo menos semanalmente; ambivalência essa que em Nora encontrava um expoente elevado, educada num convento até aos doze anos deixando doravante o ensino oficial e querendo casar com ele (o que acabou por acontecer), mas já não virgem e com um gesto de ataque no encontro de 16 de Junho junto do rio?
No pináculo do amor, o romântico lê o excerto da Bíblia «Não separe o homem o que Deus uniu» não como um tradicionalismo aprisionante, mas como a beleza do amor libertador indissociável por natureza da monogamia.
Na fase do enamoramento, ou na fase dos silêncios dolorosos que prenunciam o fim, a vida parece reduzir-se a uma linguagem binária. A mensagem dela deixou-o desmesuradamente feliz.

Dos Dias Felizes

Deus, de vez em quando, acorda e aponta para mim. José Alberto Braga

terça-feira, março 20, 2012

O plangor do solipsista.

domingo, março 18, 2012

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente. A lua formava-se com uma ponta subtil de ferocidade H. H.
- Tenho inveja de todos aqueles que não são eu.
- Não compreenderes uma só pessoa é não compreenderes a natureza humana. - Compreenderes uma só pessoa é compreenderes a natureza humana.

sexta-feira, março 16, 2012

Um traço do mundo hodierno: o baixo grau de previsibilidade. O mundo laboral mais precário. As relações matrimoniais e afectivas mais precárias. O futuro mais precário. A própria mobilidade social (algo positivo) introduz mais imprevisibilidade. O crime - ainda que António Barreto assevera que era superior no tempo da ditadura - é hoje mais imprevisível. Antes, sabia-se os crimes de honra. O adultério, a propriedade (mormente rural) - ou seja, eu faço A, e irei para um duelo ou levarei tiros ou navalhadas. Hoje, pode ir-se no Bairro Alto ou no trânsito e levar facadas. Não há um código definido - estúpido e bacoco que fosse - que nos permita evitar ser esquartejados. Por outro lado, a ditadura tinha um rosto, era um inimigo concreto em torno do qual nos podíamos unir. Havia ideologias. Hoje, todas faliram. Hoje, não se sabe quem é o Rosto do Mal, dos fracassos individuais e colectivos. Quem é o inimigo? As corporações, como bem salienta Carvalho da Silva, o vestir a camisola que as empresas incutem fazem com que os trabalhadores não se unam, que defende a sua empresa ou, quando muito, o seu ofício. Parece que nunca como hoje houve tantos distúrbios do foro psiquiátrico. É que a maioria das mentes não consegue lidar com a pouca previsibilidade da realidade que as circunda e afecta.

Direitos e deveres

Há os muito exigentes com os outros e pouco exigentes consigo na relação com os outros - os umbiguistas. Há os muitos exigentes consigo na relação com os outros e pouco exigentes na relação com os outros - os raros que um dia poderão explodir ou viver ressentidos ou - raríssimo - aceitar essa condição com paciência tibetana. Há os muito exigentes consigo na relação com os outros e muito exigentes com outros - os difíceis mas valiosos amigos, normalmente com mau feitio e bom carácter. (Tanta gente confunde os conceitos.) Há os muitos leves nos padrões de exigência na sua relação com os outros e muitos leves na sua relação com os outros - os frívolos que até podem conviver durante muito muito tempo. Havendo equilíbrio, as coisas resultam. Sabendo-se o que esperar de cada ser, não há desilusões. A gestão das expectativas em nós e nos outros é fundamental para a homeóstase do espírito.
O meu lado mais feminista - execrar os homens que só apreciam o aspecto físico nas mulheres.

quinta-feira, março 15, 2012

O amor é darmos uma coisa que não temos a uma pessoa que não precisa dela. Jacques Lacan
Num livro (Os Mal-Amados), Fernando Dacosta conta que quando entrevistou Álvaro Cunhal, perguntando-lhe sobre a redução do número de voluntários jovens na montagem da Festa do Avante, Cunhal pediu que desligasse o gravador. Era verdade, Cunhal estava desolado com tal facto e preocupado quanto ao futuro. Quando Dacosta ligou de novo o gravador, Cunhal afirmou: «É mais uma mentira da reacção. Nunca de resto tivemos tantos [...].» A integridade de Cunhal não é para mim posta em causa - para ele ser íntegro era defender o partido acima de qualquer outro valor, princípio ou interesse. Mas não deixo de ter pena de quem desde os 17 anos teve de falar espartilhado. Sempre gostei de tentar ser uma mente livre e independente. Partidos, clubes, associações, sociedades secretas - tudo isso agrilhoa, em maior ou menor grau, a capacidade de pensar e falar livremente. Sempre gostei de gente descomprometida e sei que o mundo nos empurra para sermos pessoas comprometidas, infelizmente não raras vezes por apelos materiais. A revista Sábado noticiava com minúcia os dezasseis empregos de Lobo Xavier. Como pode este senhor, ligado a grandes empresas, a grandes interesses económicos, ser um comentador independente? É sabido que a comunicação editorial e as editoras de livros estão dominados por grandes grupos económicos e que a Leya é dominada por alguém que afirma desconhecer Oscar Wilde e que «não sei nada de filosofia, literatura, poesia e por isso não me interessam para nada» (entrevista ao Jornal de Negócios). Há uns anos, uma sondagem, na altura comentada em tom de preocupação pelo presidente Jorge Sampaio, relatava que 90% dos jornalistas consideravam a sua escrita coarctada pela chefia do jornal. Os descomprometidos são cada vez menos.
Para que ninguém questione a sua omnisciência, ele nunca deixa que a conversa fuja para temas que não domina.
Alguns «intelectuais» que se queixam da vasta iliteracia dos seus coevos viveriam profundamente infelizes se todos lessem os mesmos livros que eles porque a sua cultura não sobressairia. Alguns homens de princípios que se queixam da cobardia da maioria informe de cordeirinhos subservientes sofreriam muito com a perda da sua aura de rectidão, rebeldia e coragem num mundo feito à sua imagem e semelhança. Alguns seres solidários e altruístas que apelam à solidariedade e o altruísmo com palavras e exemplos tornar-se-iam inanes e frouxos num mundo sem maldade e sem sofrimento. O contraste permite a diferenciação e alimenta a vaidade.

terça-feira, março 13, 2012

O mistério do cérebro dos portugueses

Parece que o cérebro dos portugueses surpreende cientistas. A tal ponto que investigadores das universidades de Coimbra, Aveiro, Porto e Minho vão debruçar-se sobre esse órgão misterioso, vistoriando, com tenaz denodo e um pouco de apreensão, o que nos faz assim. Eis um empreendimento difícil, por avançar em terreno fértil de interpretações. É inumerável a lista de obras de todos os géneros e ramos que têm vasculhado a idiossincrasia do indígena nascido cá no brejo. Não se chegou a conclusão alguma. O português escapa-se como enguia ao catálogo, correspondendo, desse modo, às dificuldades erguidas a todos os que procuram desvendar o que se passa naquela inaudita massa cinzenta. "O cérebro é o génesis", proclamou Jung. "Mas o que domina a vida é o sexo", afirmou Freud. Afinal, quem dá ordens? Citei dois; e coloque lá mais este, que, como os outros, dá para todas as circunstâncias, quando precisamos de muleta: Fernando Pessoa. Aí vai: "O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir (…) É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado". Afinal, em que ficamos? Cabeça, sexo ou fadistice? Um facto é incontroverso: cada vez somos mais ignorantes, cada vez somos mais atraídos para os alçapões do facilitismo, cada vez somos mais afastados de estudar, de reflectir, de analisar e, por decorrência, impedidos de decidir bem. "Como nação estamos condenados", disse-me, há anos, o prof. dr. Oliveira Marques, durante uma entrevista para a SIC. A terrível afirmação não obteve eco na Imprensa. O que encontra repercussão na Imprensa são futilidades da política, discussões filosóficas acerca de futebol, e aquelas parvoeiras sobre a "popularidade" do Sócrates, sem se indagar, cientificamente, a natureza específica das "sondagens". O que se passa na estimável cabeça portuguesa é que não a usamos porque não a sabemos usar, e não a sabemos usar porque a isso não fomos instigados - pelo contrário. Tudo se opôs a que repelíssemos a servidão. A partir de Dom João III (o tal de procedeu ao desenvolvimento das universidades e, depois, pediu ao Papa a purificadora labareda da Inquisição) até aos dias "democráticos" de hoje, sem esquecer o querido Salazar, estivemos entregues a conclaves de malandros que acumulavam a patifaria com comovente inépcia. Dir-se-á: mas houve, e há, excepções. Em desacordo. Quem se cumplicia com a regra da infâmia é tão biltre quanto os que a estabelecem. Sabe-se: a ignorância é destemida. E espalhou-se, endemicamente, a todos os sectores da sociedade. Há "escritores" manifestamente desconhecedores do significado de elipses, elisões, aliterações, cacófatos; de que se pode obter a concordância com o nome predicativo do sujeito e também não sabem o valor do nome predicativo do sujeito. Tropeçam na preposição e estatelam-se nos fonemas, com divertimento e galhofa. Há jornalistas que o não são, nem nunca o serão à força de o quererem ser. Plagiadores, também os há. Não só de temas: de frases, de locuções inteiras. Conheço alguns; a outros, ferrei em público. As escaramuças com a conjugação dos tempos do verbo haver transformaram-se num conflito armado. O desconhecimento de História, de Literatura, de Cinema, de Teatro, de Artes Plásticas, de Ciências, de Geografia, de Gramática, atinge níveis assustadores. Perante este cenário, não se estranha que, na TVI, um programa, "A Bela e o Mestre", seja uma desgraça monumental. O "apresentador", esse, revela-se o mimetismo da imbecilidade galopante. Carrega no riso, soletra dificultosamente pequenas frases, formula horrores convencido de que faz filigranas. As raparigas que lá aparecem expõem alegremente as coxas e apresentam currículos profissionais adequados às capacidades. Boas de perna, más de meninge. No "Diário de Notícias", Fernanda Câncio, com inclemente crueldade, caustica as oito meninas, subordinando-as a este título medonho: "Nascidas para Ignorar". Realmente, as meninas são fragorosamente ignaras. Riem muito e exteriorizam as suas pequeninas ambições trocando a parda chatice do espírito pela jubilosa tentação das pernas e dos seios. O "apresentador" demonstra alucinante contentamento, facilmente explicável: os tolejos delas constituem a imagem devolvida da sua pessoal cretinice. Estas manifestações de debilidade mental pouco ou nada me espantam. Gerações de matóides, sucederam-se a gerações de mentecaptos. O País foi assaltado por levas e levas de gente inepta, e não só nos Governos consecutivos. O apelo aos mais rasteiros instintos chegou, até, a amarinhar pela RTP, onde alguns dos mais tremendos "formatos" tiveram calorosa guarida. Os responsáveis dessa miséria continuam impunes. A dança dos directores de jornais não é de hoje. Logo a seguir a Abril, os Governos colocaram pessoas da sua confiança na Imprensa, na Rádio e na Televisão estatal. Foi o que se viu: sargentos políticos converteram a criatividade, o talento, uma certa dose de anarquia, comum às grandes Redacções, numa ordenança burocrática, sob o império do servilismo. Todos os partidos, todos, são culpados de manobrismo e manipulação. Consoante a valsa dos partidos, assim se bailava nos postos directivos e afins. Não se inquiria sobre o talento do recém-vindo; pedia-se-lhe o cartão do partido. Houve um local que chegou a registar sessenta "chefes" na prateleira. Aquele desgraçado "A Bela e o Mestre" reflecte um País em colapso. E o colapso é de natureza cultural e não, exclusivamente, de ordem económica, como pretendem fazer-nos crer. O amolecimento moral dos portugueses só é proveitoso para o grupo possidente. A crítica ao poder deixou de existir. O que se combate é o Governo, ou os Governos, mesmo assim com a subtileza dos que esperam, um dia destes, ser beneficiados com sinecuras. O poder deixou de estar nas mãos dos Governos. Quem manda são os grandes grupos económicos. Basta reparar nos governantes que estiveram, estão e irão, certamente, estar nas grandes empresas privadas: banca, seguros, energia, saúde, educação. A análise do "sistema" ausentou-se dos media. E aqueles que ousam beliscar, ao de leve, o corpo coriáceo desse "sistema" pagam caro a pessoal exigência de rigor e de honestidade. Dilectos: podem crer que sei do que falo. E, às vezes, interrogo-me: até quando? Baptista-Bastos

Caminho como uma casa em chamas

Pasmo com as senhoras e os senhores que alinham resenhas críticas nos jornais, pasmo com a sua petulância e a sua patetice e, sobretudo, com o profundo desconhecimento da coisa literária, expresso em afirmações absurdas. Mas nada disso me parece significativo diante do mistério da arte, que requer humildade, atenção e amor Passei meses muito difíceis entre agosto e metade de dezembro: não era capaz de escrever uma linha que fosse e o desespero e a falta de sentido da minha vida aumentavam quase hora a hora. Tinha acabado um livro muito bom, composto em meia dúzia de meses com uma facilidade pasmosa, coisa que desde a Explicação dos Pássaros não me acontecia, um milagre e um mistério cujo mecanismo desconheço, pensava - Agora sei como se faz um livro e, ao tentar recomeçar, nem uma palavra. Conseguia compor as crónicas da Visão, a tropeçar em cada linha, mas, assim que puxava o bloco do livro, tudo me desaparecia da cabeça e da mão. Pensava - Sequei em certo sentido alegrava-me que tivesse acabado bem, pensava - Se calhar pus tudo neste último texto e acabou-se mas o facto de não me sair nem uma letra começava a dar cabo de mim. Para quem, desde que se conhece, joga a sua vida neste tabuleiro e sempre cortou todos os pescoços que se interpunham entre si e o seu trabalho, sem culpabilidade nem hesitações, era uma situação muito complicada. Todas as manhãs me sentava disciplinadamente à mesa, todas as noites me levantava dela com a página em branco. Não há aqui o menor exagero: com a página literalmente em branco. De longe em longe conseguia umas frases, animava-me - Se calhar encontrei e não encontrava fosse o que fosse: as minhas pobres tentativas acabavam no lixo. Nunca me ralei com aquilo que os outros pensam do que ponho no papel, a certeza da importância do que produzo é inabalável, disse exactamente o que queria dizer e como queria dizer, chegando ao que pretendo após múltiplas versões. Não redijo com facilidade, é-me muito penoso alcançar o que tenho de alcançar para me sentir em paz, mas jamais me sucedera não lograr uma linha que fosse, um esboço de texto sem possibilidades internas, um oco de banalidades, uma ausência de alma. Imaginava - Vou escrever crónicas só, não dou para mais nada embora a minha atitude, em relação às crónicas, se haja alterado. Parece-me poder utilizá-las como laboratório ou itinerário paralelo, colocar nelas o que os livros rejeitam, exercitar a mão. Estou muito grato à Visão pelo espaço que me dá e pela delicadeza e elegância com que sempre me tratou e sinto-me, também, a pagar uma dívida de reconhecimento. Enquanto me quiserem ter-me-ão com eles. A não ser, claro, que a capacidade de construir crónicas desapareça, conforme desapareceu, durante meses, a capacidade de construir livros, o que é menos provável dado que as crónicas se movem à superfície das coisas e os livros são peixes de águas profundas, às quais não possuo um acesso consciente: numa crónica eu sei o que vou escrever. Num livro escrevo, cada vez mais, o que o próprio livro me dita ou, expresso de outra maneira, nas crónicas falo e nos livros escuto. Por isso cada vez mais se me afigura que um livro é precário, depende de factores não relacionados com a minha vontade consciente, regidos por princípios e leis a que não tenho acesso. Para criar torna-se necessário que estejamos, ao mesmo tempo, por fora e por dentro do texto, como acontece com os bons leitores, infelizmente tão raros. Eu pasmo com as senhoras e os senhores que alinham resenhas críticas nos jornais, pasmo com a sua petulância e a sua patetice e, sobretudo, com o profundo desconhecimento da coisa literária, expresso em afirmações absurdas. Mas nada disso me parece significativo diante do mistério da arte, que requer humildade, atenção e amor. O que é importante para mim é que eu escreva, porque, se for capaz de escrever, tenho sempre razão. Portanto, voltando ao princípio, aguentei cerca de seis meses horríveis, na certeza de haver perdido a capacidade de escutar vozes secretas e não me sobrar fosse o que fosse. Os meus amigos continuavam a viver e eu parado. Um dia, a meio de dezembro, comecei a desenhar uma casa e percebi que era o início do livro. Uma casa com telhado, chaminé, uma antena de televisão. Era o início do livro mas ainda não era o livro. Desenhei mais quatro ou cinco casas, com inquilinos de um lado e do outro, até ao quarto andar. A seguir entendi que lhe faltava o sótão e desenhei o sótão. Depois, a pouco e pouco, os diversos apartamentos foram sendo habitados. Depois, a pouco e pouco, os habitantes principiaram a mudar. Depois apareceu uma frase, Caminho como uma casa em chamas, e dei-me conta de ser o título, mas continuava a não acreditar muito naquilo. Depois ensaiei o primeiro borrão do primeiro capítulo, cheio de medo e dúvidas: lixo. Um segundo borrão: lixo. Um terceiro: lixo. Depois recuperei o terceiro borrão do lixo e comecei a refazê-lo, uma, duas, três vezes, a perguntar-me - Será isto? a responder-me - Não deve ser isto mas vou continuar sem que a qualidade do texto me interessasse: a única coisa que me interessava era se haveria ali a espessura que queria. O capítulo número dois passou pelos mesmos tratos de polé e, a meio de uma correção pareceu-me que a obra tinha, finalmente, chegado. Fiz o primeiro borrão do capítulo número três e acabei, há horas, o primeiro borrão do capítulo número quatro. E vou continuar até ao fim com um borrão apenas, para refundir tudo a seguir, caminhando como uma casa em chamas num nevoeiro ardente de palavras. É capaz de ser o livro, meu Deus, daqui a sei lá quantos meses saberei se é o livro, saberei se sequei ou ainda tenho vida em mim. Até essa altura a incerteza, o cagaço. Esta crónica não deve ser muito interessante para o leitor, trata-se do mero relato de um homem às aranhas com o seu trabalho. Achei que tinha obrigação de o partilhar com vocês: afinal de contas são os meus cúmplices e têm o direito de saber o que se passa na oficina, como dizia o Zé Cardoso. - É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer insistia ele - É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer e, como em muitas outras coisas, é capaz de estar certo, o sacana. Aqui entre nós faz-me uma falta do caneco. Tenho saudades tuas que me farto, meu malandro. António Lobo Antunes
- Ela vai-se casar. - Vai-se casar?! - Em Junho. - Contra quem?

Diálogos do Tempo Obscuro

SAGREDO - Para onde é que isto vai? SALVIATTI - Não vai para lado nenhum. SIMPLÍCIO - Vai, vai. Estamos a salvar Portugal, a fazer uma revolução silenciosa. SALVIATTI - Não há revoluções silenciosas. Fazem todas barulho. SAGREDO - Se fazem barulho não se vê, está tudo calmo... SIMPLÍCIO - ... não somos como os gregos. SALVIATTI - Então somos como quem? SIMPLÍCIO - Como os irlandeses. Vamos lá chegar como na Irlanda, vais ver como os pessimistas vão ficar todos com ar de "velhos do Restelo", na praia a vociferar contra os barcos que vão ao largo para as Índias. SALVIATTI - Mas que bonito! Só que o "velho do Restelo" tinha razão. Convinha ler Os Lusíadas melhor, não ler à moda do Estado Novo, com Índias a mais. Camões dizia que o "velho", quando levantou a voz "pesada", falava "c"um saber de experiências feito", ou seja, sabia o que dizia. Não ia nesses romantismos voluntaristas de fazer um "Portugal diferente". O que está a fazer um "Portugal diferente" é a pobreza, é a guerra social em curso, é a maciça transferência de recursos entre pessoas, grupos sociais, portugueses e estrangeiros, pobres e ricos. SAGREDO - O "velho do Restelo" não queria que os portugueses se lançassem nos Descobrimentos. Ficávamos assim sem "épica" nacional. Não me parece um bom exemplo. Do que precisamos é gente que se arrisque, os "empreendedores competitivos", como diz o nosso Primeiro-Ministro. SIMPLÍCIO - Exactamente... Os que não são preguiçosos. Os que são dinâmicos, que se arriscam... SALVIATTI - Pois, pois. O "velho" fala contra o quê? Contra o "fraudulento gosto que se atiça". Fala contra essa mentalidade de confundir habilidosos espertos com heróis, fala contra a facilidade da "fama". Não é contra quem constrói, é contra quem confunde "honra" com "fama". Ouçam a "voz pesada": "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça Desta vaidade, a quem chamamos Fama! Ó fraudulento gosto, que se atiça C"uma aura popular, que honra se chama! Que castigo tamanho e que justiça Fazes no peito vão que muito te ama! Que mortes, que perigos, que tormentas, Que crueldades neles experimentas!" SAGREDO - Ele não está a falar de facilidades, mas do risco. Temos de reconhecer aos que iam nos barcos o mérito de que se arriscavam, não se acomodavam. Não é um bom exemplo para os dias de hoje? SIMPLÍCIO - Tens razão. O risco é bom, sem o risco as sociedades morrem. É por isso que vale a pena emigrar, se não se arranja emprego cá. Vale a pena arriscar mudar de emprego. Vale a pena ir para outra terra, para a província, se não há emprego na cidade. Vale a pena, se se está desempregado, pegar nas poupanças e abrir uma empresa, ser-se senhor do seu destino, patrão de si mesmo. Ir para o privado, em vez de esperar que o Estado resolva todos os meus problemas. Mexer-se, ter mobilidade, arriscar. SALVIATTI - Sim, sim. Tretas. Valer a pena vale, quando há oportunidades que o permitam. O que se passa é que ao mesmo tempo que se faz este discurso, está-se a destruir essas oportunidades, está-se a tornar a sociedade mais rígida, menos plástica, mais agarrada ao pouco que tem... SIMPLÍCIO - Mas há os que fazem as oportunidades e há aqueles que ficam à espera delas. SAGREDO - Mas Salviatti tem razão num ponto, tudo funciona em círculo vicioso. O que é preciso fazer, quanto mais é preciso, menos é possível. Tu, Simplício, não me vais dizer que há crédito na banca para criar empresas, que há empregos disponíveis em Freixo de Espada à Cinta, que só não se arranja emprego porque não se procura e se prefere o subsídio... SIMPLÍCIO - Há para médicos... SALVIATTI - Talvez, mas não estou certo. Mas o que não há é para carpinteiros, nem montadores, nem operários têxteis, nem electricistas, nem padeiros, nem empregadas de limpeza, nem mecânicos de automóveis. Muito menos para professores, historiadores, biólogos, licenciados em comunicação social. Isto para te dar de bandeja... SIMPLÍCIO - Ninguém os mandou tirar cursos sem "empregabilidade". Tivessem estudado mandarim... SAGREDO - ... e os outros de que fala o Salviatti, os operários... não deves pensar que podem todos estudar mandarim? SIMPLÍCIO - Esses terão de ir trabalhar com salário mais baixo, para tornar a nossa indústria mais competitiva e esquecer direitos e sindicatos, essa tralha do passado. Têm de viver com as suas posses. Ou então arriscam-se lá fora, em Angola, na Suíça, seja lá onde for. Não é o que fizeram os moldavos e os ucranianos? Arrisquem... SALVIATTI - Quem te ouvir falar, tem pelo menos a certeza de que não falas de ti. O risco é bom quando são os outros que pagam o seu custo. Há excepções, mas na maioria dos casos esta conversa sobre o risco é puramente abstracta, destina-se a dar uma cobertura ideológica à condenação da grande maioria de pessoas que estão agarradas ao que têm e não o querem perder. Ficam conservadoras à força da míngua. Tu devias gostar disto, ó Simplício. SIMPLÍCIO - Mas esses conservadores dependentes do estado, vivendo numa sociedade assistencialista, agarrados ao que acham ser "direitos adquiridos", é o pior que há, são a força reaccionária contra a mudança, contra o "Portugal diferente" que o Governo quer fazer. SALVIATTI - Mas em que país pensas tu que vives? Em que tempo pensas que vives? Poupanças? Quem as tem não as arrisca, a maioria nunca as teve, e se as teve já as gastou para sobreviver. É compreensível que actuem assim. É como quem tem emprego e alguns direitos, não os dá por uma mão-cheia de nada, de promessas ideológicas sobre um futuro utópico. SIMPLÍCIO - Então tu não cumprias o programa da troika, és contra a austeridade. Queria-te ver a não ter dinheiro para pagar salários aos funcionários públicos daqui a um mês. SALVIATTI - Tu achas que o mundo se divide entre os cumpridores da troika e os incumpridores? Estás enganado, acho mesmo que é preciso cumprir, acho mesmo que é preciso austeridade, se é isso que queres ouvir... SIMPLÍCIO - Sim, mas depois criticas todas as medidas concretas do Governo para a garantir. SALVIATTI - Olha que não, olha que não. O que acho é que há mais do que uma maneira de lá chegar. Não há muitas maneiras, mas há algumas. E vale a pena discuti-las. E tu achas sempre tudo bem o que o Governo faz... SAGREDO - O Governo sempre está a fazer alguma coisa. Se lá chegar tem mérito. SALVIATTI - Mas mesmo dentro dos seus objectivos tem feito muita asneira, que funciona contra os resultados que pretende. Nesta altura as asneiras são muito caras, para muita gente caríssimas. SAGREDO - A que atribuis as asneiras? SALVIATTI - A uma combinação entre ideias preconcebidas sobre o Estado, a sociedade e a economia, muito "economês" e pouca economia política. E a desconhecimento concreto sobre o país, ignorância da sociedade, do país onde se vive. E aos interesses nele representados. Há muitos interesses... SAGREDO - Mas que interesses? Corrupção? SALVIATTI - Interesses mesmo no sentido clássico, grupos sociais que beneficiam desta política, desde uma parte da burocracia político-partidária, a grupos económicos. Vê como eles se uniram à volta do Ministro da Economia, com mais força até do que se uniram ao Ministro das Finanças. Não é por ele... A junção destas coisas é muito poderosa e tem uma tradição política antiga. O resultado traduzido em blá-blá é uma espécie de milenarismo social, uma crença na engenharia utópica de uma sociedade. Depois soma-se uma forte tradição de consenso no pior sentido, de subserviência face ao poder, de situacionismo. O situacionismo é o lubrificante, como já era com o governo anterior. SIMPLÍCIO - Isso é comigo. Dá lá exemplos? SALVIATTI - Começou com o abaixamento da TSU [taxa social única]. Bateste palmas. Continuou com o seu abandono, bateste palmas. Continuou com a demagogia dos superministérios agregados que seriam mais baratos, bateste palmas. A coisa está a dar para o torto, e está-se a tentar dar a volta sem perder a face com comissões e altos consultores, bateste palmas. Depois foi a meia hora de trabalho diário, bateste palmas. Depois a meia hora regressou ao limbo, bateste palmas. Tudo é bom, tudo é inevitável, tudo não tem alternativas. Tudo é apresentado como sendo de impossível discussão, senão lá vai o plano da troika... Depois vê-se... SIMPLÍCIO - O Governo está a aprender, a fazer o trabalho de casa. SALVIATTI - Volta ao Camões, meu bom Simplício. Deixa lá a "fama" e a "glória" de pensar que estás a mudar tudo, confundindo necessidade com vontade, confundindo o desespero da obrigação com escolha livre, confundindo a bancarrota com alguma catarse salvífica do "Estado gordo". Deixa lá de usar "nomes com quem o povo néscio se engana" De lhes pregar virtudes no empobrecimento, como se no fim o país se reencontrasse "magro" e ágil, produzindo dinamismo e mobilidade social, terra do leite e do mel, sem classe média, com um milhão de desempregados, sem tecido produtivo, com a competitividade assente em salários baixos. Volta ao Camões, presta atenção ao "velho do Restelo", lembra-te do ouro do Brasil, lê o "outro lado" na Peregrinação, faz o pouco que podes fazer e não lhes chames "trabalho de casa", como se fosses uma eterna criança de bibe. Volta a Camões: "A que novos desastres determinas De levar estes reinos e esta gente? Que perigos, que mortes lhe destinas Debaixo dalgum nome preminente? Que promessas de reinos, e de minas D"ouro, que lhe farás tão facilmente? Que famas lhe prometerás? que histórias? Que triunfos, que palmas, que vitórias?" Pacheco Pereira
I don’t know how many bottles of beer I have consumed while waiting for things to get better I don’t know how much wine and whisky and beer mostly beer I have consumed after splits with women— waiting for the phone to ring waiting for the sound of footsteps, and the phone to ring waiting for the sounds of footsteps, and the phone never rings until much later and the footsteps never arrive until much later when my stomach is coming up out of my mouth they arrive as fresh as spring flowers: “what the hell have you done to yourself? it will be 3 days before you can fuck me!” the female is durable she lives seven and one half years longer than the male, and she drinks very little beer because she knows it’s bad for the figure. while we are going mad they are out dancing and laughing with horny cowboys. well, there’s beer sacks and sacks of empty beer bottles and when you pick one up the bottle fall through the wet bottom of the paper sack rolling clanking spilling gray wet ash and stale beer, or the sacks fall over at 4 a.m. in the morning making the only sound in your life. beer rivers and seas of beer the radio singing love songs as the phone remains silent and the walls stand straight up and down and beer is all there is. C. Bukowski

Entrevistas da Paris Review (aconselha-se de caminho a aquisição dos livros)

Long ago, he was quoted as saying that genius was a little boy chasing a butterfly up a mountain. He later insisted that what he'd really said was that it was a butterfly chasing a little boy up a mountain (or a mountain chasing a butterfly up a little boy; I've forgotten which). A writer out of loneliness is trying to communicate like a distant star sending signals. He isn't telling or teaching or ordering. Rather he seeks to establish a relationship of meaning, of feeling, of observing. We are lonesome animals. We spend all life trying to be less lonesome. One of our ancient methods is to tell a story begging the listener to say — and to feel. «Yes, that's the way it is, or at least that's the way I feel it. You're not as alone as you thought.» «It is hard to open up a person and to look inside. There is even a touch of decent reluctance about privacy but writers and detectives cannot permit the luxury of privacy. In this book [East of Eden] I have opened lots of people and some of them are going to be a little bit angry.» «The craft or art of writing is the clumsy attempt to find symbols for the wordlessness. In utter loneliness a writer tries to explain the inexplicable. And sometimes if he is very fortunate and if the time is right, a very little of what he is trying to do trickles through —not ever much. And if he is a writer wise enough to know it can't be done, then he is not a writer at all. A good writer always works at the impossible.» «I guess I am terrified to write “finish” on the book for fear I myself will be finished.» «You know I was born without any sense of competition. This is a crippling thing in many ways. I don't gamble because it is meaningless. I used to throw the javelin far, but I never really cared whether it was farthest. For a while I was a vicious fighter but it wasn't to win. It was to get it over and get the hell out of there. And I never would have done it at all if other people hadn't put me in the ring. The only private fights I ever had were those I couldn't get away from. Consequently I have never even wondered about the comparative standing of writers. I don't understand that. Writing to me is a deeply personal, even a secret function and when the product is turned loose it is cut off from me and I have no sense of its being mine. Consequently criticism doesn't mean anything to me.» «Although sometimes I have felt that I held fire in my hands and spread a page with shining—I have never lost the weight of clumsiness, of ignorance, of aching inability.» «My greatest fault, at least to me, is my lack of ability for relaxation. I do not remember ever having been relaxed in my whole life. Even in sleep I am tight and restless and I awaken so quickly at any change or sound. It is not a good thing. It would be fine to relax.» «In my struggle to be a writer, it was he who supported and backed me and explained me — not my mother. She wanted me desperately to be something decent like a banker. She would have liked me to be a successful writer like Tarkington but this she didn't believe I could do. But my father wanted me to be myself. Isn't that odd. He admired anyone who laid down his line and followed it undeflected to the end. I think this was because he abandoned his star in little duties and let his head go under in the swirl of family and money and responsibility. To be anything pure requires an arrogance he did not have, and a selfishness he could not bring himself to assume.» « The first thing we heard of Ernest Hemingway's death was a call from the London Daily Mail, asking me to comment on it. And quite privately, although something of this sort might be expected, I find it shocking. He had only one theme—only one. A man contends with the forces of the world, called fate, and meets them with courage. Surely a man has a right to remove his own life but you'll find no such possibility in any of H's heroes. The sad thing is that I think he would have hated accident much more than suicide. He was an incredibly vain man. An accident while cleaning a gun would have violated everything he was vain about. To shoot yourself with a shotgun in the head is almost impossible unless it is planned. Most such deaths happen when a gun falls, and then the wound is usually in the abdomen. A practiced man does not load a gun while cleaning it. Indeed a hunting man would never have a loaded gun in the house. There are shotguns over my mantle but the shells are standing on the shelf below. The guns are cleaned when they are brought in and you have to unload a gun to clean it. H had a contempt for mugs. And only a mug would have such an accident. On the other hand, from what I've read, he seems to have undergone a personality change in the last year or so. Certainly his last summer in Spain and the resulting reporting in Life were not in his old manner. Perhaps, as Paul de Kruif told me, he had had a series of strokes. That would account for the change. But apart from all that—he has had the most profound effect on writing—more than anyone I can think of. He has not a vestige of humor. It's a strange life. Always he tried to prove something. And you only try to prove what you aren't sure of. He was the critics' darling because he never changed style, theme nor story. He made no experiments in thinking nor in emotion. A little like Capa, he created an ideal image of himself and then tried to live it. I am saddened at his death. I never knew him well, met him a very few times and he was always pleasant and kind to me although I am told that privately he spoke very disparagingly of my efforts. But then he thought of other living writers not as contemporaries but as antagonists. He really cared about his immortality as though he weren't sure of it.» Entrevista a John Steinbeck

Six Tips on Writing from John Steinbeck

«Abandon the idea that you are ever going to finish. Lose track of the 400 pages and write just one page for each day, it helps. Then when it gets finished, you are always surprised. Write freely and as rapidly as possible and throw the whole thing on paper. Never correct or rewrite until the whole thing is down. Rewrite in process is usually found to be an excuse for not going on. It also interferes with flow and rhythm which can only come from a kind of unconscious association with the material. Forget your generalized audience. In the first place, the nameless, faceless audience will scare you to death and in the second place, unlike the theater, it doesn’t exist. In writing, your audience is one single reader. I have found that sometimes it helps to pick out one person—a real person you know, or an imagined person and write to that one. If a scene or a section gets the better of you and you still think you want it—bypass it and go on. When you have finished the whole you can come back to it and then you may find that the reason it gave trouble is because it didn’t belong there. Beware of a scene that becomes too dear to you, dearer than the rest. It will usually be found that it is out of drawing. If you are using dialogue—say it aloud as you write it. Only then will it have the sound of speech.» (Contudo, mais tarde, diria:«If there is a magic in story writing, and I am convinced there is, no one has ever been able to reduce it to a recipe that can be passed from one person to another. The formula seems to lie solely in the aching urge of the writer to convey something he feels important to the reader. If the writer has that urge, he may sometimes, but by no means always, find the way to do it. You must perceive the excellence that makes a good story good or the errors that makes a bad story. For a bad story is only an ineffective story.»)

segunda-feira, março 12, 2012

No zénite de uma das suas bebedeiras, Francis Scott Fitzgerald tombou na cama e adormeceu profundamente, deixando Zelda, na porta, sem chave, tocando e batendo durante horas. Nevava e Zelda contraiu uma pneumonia que quase lhe tirou a vida. Fitzgerald não se perdoou e em jeito de catarse escreveu um dos seus melhores contos (Babylon Revisited que deu origem ao conceituado filme The Last Time I Saw Paris), profundamente autobiográfico, em que narra o episódio com outros nomes e com um desfecho mais negro (ela morre). Mas o conto é uma bela história de como é difícil viver em novos moldes quando o estigma de outrora nos persegue. O alcoólico regressa a Paris (onde Fitzgerald viveu), curado, com a mulher morta, procurando a custódia da filha (um decalque da sua filha Scottie). Deixou de beber, mas já ninguém parece confiar na sua sobriedade. Entrar num bar por um minuto é aos olhos dos familiares e amigos uma prova inequívoca de que voltou a cair na espiral de decadência infinita. A visita de uns amigos bêbados de outrora, fazendo más figuras, gela todos os presentes que ainda estavam em estado dubitativo. É difícil acreditarem na nossa regeneração. O preso que sai da cadeia com vontade de não roubar mais uma mosca tem todos os olhos em cima de si quando toca em dinheiro. O homem que bateu na mulher ainda a vê estremecer pavlovianamente quando ergue a mão para lhe fazer uma festa. O pedófilo será sempre pedófilo. Excerto: «He suddenly realized the meaning of the word "dissipate" – to dissipate into thin air; to make nothing out of something.»

A Paixão Amorosa

http://www.antonioalcadabaptista.org/cronicas/apaixaoamorosa.pdf
O que se passa em x morre em x. (Início de um conto.)
- É pelos defeitos ou pelas fraquezas que me apaixonei. Pela maneira atabalhoada de ele contar uma anedota, por ele enrolar algumas palavras, por ter sempre os sapatos desatados. Descobrir o medo ou a timidez ou pequenas coisas tão fora do vulgar que se tentam esconder, normalmente encantam-me. É como se precisasse de descobrir humanidade, Angel, o tal Poema Linha Recta; porque não há superfortes ou superconfiantes ou superbondosos. Se não sentir vulnerabilidades no Outro - que todos temos - como o poderia amar?; como poderia quer proteger o seu bem-estar se ele é invulnerável às adversidades da vida? É preciso um lado, como dizer?, um lado que desperte, mínimo que seja, uma necessidade de protecção.

Do Horroroso Mundo da Internet

http://abelio79.blogspot.com/2009/06/internet-invisivel-web-invisible.html http://aeiou.visao.pt/o-mundo-secreto-da-internet=f649514

sábado, março 10, 2012

Tecnologia

Theodore Kaczynski matou três pessoas e feriu vinte três. Não aprovo, em qualquer circunstância, sob a bandeira de qualquer causa, o homicídio. Mas o que escreveu é assustadoramente lúcido. (A análise crítica da esquerda hodierna é a mais penetrante e original que conheço.) Theodore Kaczynski centra-se na opressão psicológica da tecnologia. Para o autor, a diferença entre qualquer sistema político é pequena ante a diferença entre um sistema pré e pós-industrial. Kaczynski distingue entre três tipos de necessidades: as que podem ser alcançadas com pouco esforço; as que podem ser alcançadas com bastante esforço; e as que não podem ser alcançadas. A necessidade de poder é reforçada pela satisfação das necessidades do segundo tipo, enquanto a concretização das primeiras não aumenta o poder, as terceiras aumentam a tristeza, a raiva, a impotência e o sentimento de estranhamento do mundo. Recuando ao tempo dos povos primitivos (ou povos sem escrita, como propõem certos antropólogos), Kaczynski mostra como os seres humanos realizavam as de segundo tipo e como as do mundo actual ou se situam no primeiro ou no terceiro tipo. Não é crível que existissem depressões ou perturbações de ansiedade comensuráveis às do mundo actual, em que um quarto das pessoa sofre de um qualquer tipo de distúrbio psicológico. As necessidades de outrora estavam bem definidas - comida, habitação, vestuário - e os meios para as satisfazer também. Não era fácil, mas também não era impossível - o que reforçava a necessidade de poder. O homem hodierno não só não sabe o que quer, como não sabe os meios concretos para atingir o que quer. Pior: não sabe quem ou o quê o impede de alcançar o que pretende - como o homem de outrora sabia: a tempestade, «Deus ou os deuses», os animais selvagens. Não sabe o que quer. É neste ponto que Kaczynski introduz o conceito de actividades secundárias. (Já Twain afirmara que a civilização é a multiplicação ilimitada de necessidades desnecessárias.) A pergunta que define actividade secundária: «Se precisasses de te alimentar, arranjar vestuário e habitação, continuarias com a necessidade de fazer isso?» T. K. sustenta que o grosso das actividades modernas são actividades secundárias. O argumento mais bramido dos defensores da tecnologia sem freio é o de que a tecnologia pode ser utilizada ou não - que apenas aumenta o leque de opções. O argumentário e os exemplos de T. K. são demolidores neste aspecto. A tecnologia começa por ser opcional, mas quando disseminada torna-se obrigatória. A lista é infinita, bem sei, e nos últimos decénios o desenvolvimento da mesma foi mais acelerado do que nunca. Pense-se apenas no e-mail ou no telemóvel. Alguém que se insere no mercado de trabalho (porque precisa de trabalhar porque precisa de ter dinheiro porque a comida tem um preço) pode em muitos empregos negar-se aceder à Internet ou não usar o telemóvel? Mais: a tecnologia revoluciona a paisagem (veja-se o caso do automóvel) se instalar, funcionando quase sempre como aniquiladora da Natureza para perpetuar cada invento tecnológico. Pior do que tudo: a tecnologia é irreversível. Nunca um acrescento tecnológico foi abolido depois de aplicado. Ainda pior do que tudo: nunca um desenvolvimento tecnológico operado em laboratório ficou a pairar suspenso sem um dia ser aplicado à sociedade. A resistência social soçobrou sempre na história - mais ou mais tarde, como no caso do nuclear, etc, etc. Numa linha minoritária, mas já não absolutamente singular, Theodore Kaczynski explica como cada inovação tecnológica não é neutra - contrariando a tese maioritária de que a tecnologia não é boa ou má, dependendo apenas da utilização que determinada sociedade lhe dá. Não. Cada inovação tecnológica encerra em sim já um espectro de possibilidades inerentes. A destruição de vidas na bomba atómica, a divulgação de informação (uma coisa inequivocamente positiva) e a perda de privacidade da Internet. Há já uma espécie de destino (e de ideologia) intrínseco em cada tecnologia. Como qualquer autor original e independente, o pensamento de Kaczynski não é situável numa qualquer etiqueta.
- Tudo o que eu sei aprendi com ele.

Do Novo Acordo (só isto, para mim, era suficiente para o rejeitar)

Ultrarreligioso Pseudossábio Infraestrutura Fim de semana Autossugestão Antirratazanas Egito Perentório Dia a dia que funde indiferenciadamente os dois sentidos À vontade que funde indiferenciadamente os dois sentidos Para que funde indiferenciadamente os dois sentidos

Uma Janela de Vidros Espelhados

cães e anjos não são muito diferentes. frequentemente vou comer nesse lugar por volta das 2h30 da tarde porque todas as pessoas que almoçam ali estão particularmente arruinadas felizes pelo simples facto de estarem vivas e comendo feijão próximas de uma janela de vidros espelhados que impede a passagem do calor e não deixa que os carros e as calçadas cheguem ao interior. podemos tomar quanto café de graça quisermos e sentamo-nos e em silêncio bebemos o café preto e forte. é bom estar sentado em algum lugar neste mundo às 2h30 da tarde sem nos sentirmos descarnados até ao branco dos ossos, mesmo estando arruinados, sabemos disso. ninguém nos incomoda não incomodamos ninguém. anjos e cães não são muito diferentes às 2h30 da tarde. tenho a minha mesa favorita e depois de terminar empilho os pratos, pires, o copo, os talheres com cuidado - faço à sorte minha oferenda - e lá fora o Sol segue trabalhando bem descrevendo seu arco enquanto aqui dentro reina a escuridão. Charles Bukowski
«[Uma mulher] é uma estranha e suave vibração do ar.» D. H. Lawrence

A Clara Luz do Dia

Sempre aceitei mal o que vem de fora da minha vontade. Vou ter de viver os próximos tempos em condições muito duras que não dependem de mim. Ser uma testemunha passiva do que se passa comigo, nada poder fazer para alterar seja o que for, desespera-me. Quando as coisas dependem da minha vontade eu luto. Quando não dependem fico reduzido a um espectador inútil, sofrendo o que se passa sem poder intervir, e a minha indignação e a minha angústia crescem. Aguenta-te. Mas é difícil aguentar passivamente. Noites sobressaltadas, despertares cansados, a raiva da injustiça. Vou arranjando forças para continuar a escrever mas esta pequena coisa dentro de mim tenta destruir-me a energia. Sempre aceitei mal o que vem de fora da minha vontade, sempre aceitei mal o que me é imposto autoritariamente, sem discussão nem razões. Aceito, até certo ponto, a incerteza do futuro, não aceito que essa incerteza não me consinta uma margem de liberdade. A minha obra não está completa, a minha vida não está completa, necessito de tempo ainda, dessa espécie de tumultuosa paz de que sou feito. E sinto-me sozinho nisto, com as pessoas que me são próximas a assistirem de fora, impotentes. Navego à deriva, porque me tiraram o leme. A minha existência é comezinha e sem importância: na minha opinião o meu trabalho não o é. Se me devolvessem a paz e a esperança em troca dos livros que escrevi não a aceitava. Orgulho-me deles, custaram-me a alma. Que silêncio nesta casa, em frente da minha dor, cuja presença me espanta. Não me faço perguntas nem encontro respostas. Devo esperar. E quando se acabar, a espera? Palavras, coisas, pessoas rodopiam-me em torno, grandes pássaros negros passam sobre mim, o meu corpo é um conjunto de articulações sem sentido. Os outros, os que me falam, seres quase sem nexo, separados de mim por um muro que não consigo transpor. Porém não oiço o que quero nem digo o que se me arrasta no fundo da alma. Fico num silêncio amargo, cheio de gritos mudos, zanga, insultos. Dentro em pouco os dados estarão lançados: e depois? A minha principal sensação é de estranheza, de espanto. O mundo, à minha volta, alterou-se, e eu com ele. Hoje, por exemplo, está um dia de sol, e é apenas chuva que vejo. Muitos dos meus amigos morreram já, e dou-me conta, na carne, da falta que me fazem. Ernesto, Zé, Acácio, vários outros. Sinto o coração a bater, compassado, lento. Por enquanto acompanha-me, estamos juntos. Não quero aborrecer ninguém, tomar o tempo de ninguém, ser incómodo. As horas adquiriram, sem me dar conta, uma rapidez vertiginosa. Há pouco o meu primo Zé Maria desapareceu com a mais admirável das coragens. Receio não a ter. A minha cobardia assusta-me. A indiferença dos estranhos assusta-me. A mudez do telefone assusta-me. Ninguém me garante que isto é mentira e sinto-me cercado de vazio, um oco interno onde fervem pavores. Sou eu o que continua, ou o que desconheço o que seja no meu lugar? Tudo o que sei é que, dentro em pouco estarei de novo no bojo de uma máquina sem alma, terrivelmente objectiva. A máquina dirá às pessoas, as pessoas dir-me-ão a mim. E quem é o mim que as vai ouvir? Para já oiço o monótono zumbido do mundo. Mais nada. E espero. É tremendo esperar sem conhecer a resposta, sem fazer a mínima ideia da resposta. Passei por isso em África, passei por isso há anos. Julgava ter terminado. Voltou. E o que digo o que interessa às pessoas? O que pode interessar aos outros? A solidão cerca-me por todos os lados, não há uma fraçãozinha que se sinta acompanhada: podem estar por fora, a olhar. Não estão por dentro, a viver. Escrevo este texto como quem tenta não se afogar, sabendo que se afogará seja como for. É uma questão de tempo e o tempo é cruel. - Cá me vou entretendo com as minhas mazelas dizia-me um homem outro dia. E que impartilhável sofrimento no interior destas palavras. Depois apertámos a mão e foi-se embora, levando as mazelas com ele. Poderei ir-me embora também? O Sol cresceu, tudo está cheio de luz. Que absurdo isto que me sucede no meio de tanta luz. Lembro-me de Van Gogh a morrer num quarto de hospital depois dos tiros. Na parede aquele quadro dos corvos num campo de trigo. A enfermeira perguntou-lhe o que significava o quadro. - É a morte disse ele. A enfermeira voltou a olhar para a tela. Comentou - Não parece uma morte triste e o pintor respondeu - E não é. Passa-se à clara luz do dia. Que, ao menos, quando chegar o meu momento, tudo se passe à clara luz do dia. Comigo a ver, pela janela, as nuvens lá fora, deslizando, uma a uma, para leste. E eu, deitado numa cama qualquer, a partir com elas. António Lobo Antunes

sexta-feira, março 09, 2012

Um discurso

Meus Amigos: Enchi a vida de palavras, na tentativa de as perfilar com honra e na presunção de ser emissário de algumas verdades. Nunca as palavras, para mim, foram exercícios de futilidade, ou perversos jogos de ocultação. Também elas me ensinaram a vigiar o meu próprio arbítrio, e me levaram a compreender que a sua beleza interior, o significado oculto dos seus étimos constituíam o corpo do seu poder subversivo. Ainda hoje, com mais de cinquenta anos de ofício, entre tropeços, quedas e ascensões, assombros e desgostos, as palavras, e a força que destilam, continuam a fascinar-me. Porque só elas me aproximam do homem, e da consciência da sua imperfeita grandeza. Porque só elas exigem que delas se sirvam aqueles cuja ética os impede de ser cúmplices da injustiça, da intolerância, da exploração, da ganância, da indiferença. Não há páginas imaculadas nem palavras ingénuas. Tudo o que escrevemos corresponde a uma ideologia e visa um objectivo. Certamente escrevi textos injustos; mas textos moralmente condenáveis, creio que os não fiz. A minha obsessão pelas palavras justas nunca evitou que dissimulasse a pulsão dos meus sentimentos, nem que afastasse da prosa a análise das minhas indignações. Faço uma paráfrase de Brice Parain e digo: sinto-me responsável por um mundo que não construí nem desejei. Tola soberba, esta, de presumir que posso ser útil escrevendo a crítica da vida! Tola soberba, esta, de alimentar a ideia de que há quem encontre uma ração de esperança no modesto edifício verbal que tenho vindo a construir! Mas a tenacidade, pelo menos, nunca faltou onde, de certeza, o talento esteve ausente. Permitam-me, no entanto, que faça entrar, neste almofariz, a amálgama do rigor e do afecto, da razão e do coração, afinal de contas a essência do desvelo. Nenhum escritor consegue definir o maravilhoso, nem descrever o inefável. Da mesma forma que nenhum jornalista é independente, imparcial e objectivo. Um e outro, quando honrados, quando honram as palavras, vão tentando. E é nessa aventura da pesquisa, nesse afã da criação e da invenção que os textos comparecem. Um alvoroço de metáforas, um bulício de analogias e um diálogo que se pede de empréstimo sem se submeter à servidão do mimetismo. As palavras não são uma memória a fundo perdido. E, porque o não são, eis-nos aqui reunidos, na conivência entre uma empresa, a Vodafone, uma agremiação de recta pronúncia, a Sociedade de Língua Portuguesa, e um prémio denominado João Carreira Bom, cujo nome evoca o excelente cronista e me faz recordar o amigo querido. Os matizes da retórica permitem-me afirmar que tanto a Vodafone, como a Sociedade de Língua Portuguesa, o que João Carreira Bom fez, e eu próprio faço, nos concertamos nessa certeza de identidade que se designa de comunicação. Mas que se engrandece e se dignifica no compromisso com a liberdade. Este prémio é, também, um prémio à liberdade. Direi, ainda, sem pretender ser paradoxal, que esta correlação faz-nos compreender que a esfera da cultura não é uma questão de estatística, e que a tecnologia moderna procede a previsões de cálculos e de riscos, talvez para selar um novo contrato moral, ético e estético. O patrocínio da Vodafone a este prémio, e a institucionalização que a Sociedade de Língua Portuguesa lhe dá, autorizam-me a admitir ser possível a integração de interesses sem se perder a garantia de independência. Por isso, mas não só por isso, agradeço à Vodafone, na pessoa do dr. António Carrapatoso; à prof.ª dr.ª Elsa Rodrigues dos Santos, presidente da Sociedade de Língua Portuguesa, e ao júri que, por unanimidade, me distinguiu. Um aceno especial ao Ciberdúvidas, mosqueteiro do idioma, que dá fé ao que o Padre António Vieira um dia disse: «Quando nasce uma língua nasce, também, aquilo que a salva e a assiste: ser falada por numerosos outros». Meus Amigos: Venho de um tempo onde muitos baralhavam a dignidade e outros, poucos, eram os insurgentes de uma contínua rebeldia. Queríamos dizer tudo, a memória dos outros acompanhava-nos, e as palavras eram o produto de todos os sangues. Dessa memória e dessa aventura me tenho socorrido para a composição do que escrevo, afinal a correspondência do meu desejo íntimo de recompor o mundo. Tudo mudou, a sociedade portuguesa é outra e incita-nos a encontrar e a utilizar soluções novas. Não se deve, porém, esquecer os intervenientes culturais, até para se recuperar a noção de humanidade, cujo sentido é absolutamente diferente do que se conhecia há trinta anos. Em que pondo estamos com o tempo? Quais as relações entre história, saber, avaliação, disciplina, espaço e palavra? Tenho procurado, nos últimos anos, encontrar resposta para estas interrogações. Procuro-a nos livros, no que escrevo, no diálogo com os outros. Procuro-a nos antigos mestres, na Bíblia e em Marx, em Camilo e em Aquilino, em Cesário e em Carlos de Oliveira, em Emmanuel Mounier e em Walter Benjamin, impulsionado por essa circulação insana e fértil, absurda e inquietante que são os dias da nossa rapidez sem flores nem perfumes. Procuro nas palavras a palavra que produz os movimentos interiores e nos torna reféns de uma pequenina felicidade. Procuro nas palavras o enigma das coisas comuns, a luminosidade que apazigua. Nelas e com elas procuro o que nos aproxima de todas as distâncias, o que torna perto todas as longitudes. As palavras que podem modificar destinos e atingir o sublime. As palavras, seres indomáveis que nenhuma tirania vez alguma aniquilou, que fazem dos homens seres de convergência e dos seus sonhos a grandeza da condição humana. Muito obrigado. Baptista-Bastos

terça-feira, março 06, 2012

http://obviousmag.org/archives/2012/03/anjo_caido_-_a_poesia_de_charles_bukowski.html
O jogador tem de manejar a arte de repelir tão bem quanto a arte de magnetizar.

segunda-feira, março 05, 2012

Contínua Cordilheira

Música primeiro embalo no útero respiração da água/ halos sonoros em movimento puro/ júbilo agónico de sangue sistemática/ desencadeada medida em lume organizado/ movimento de ondas fisionomias longas/ oferecem a espuma do sangue em copos de cristal/ levanta-te fidelíssimo o ser da orfandade/ e em materna cadência vai modelando os soluços/ do luto de não ser já o ser no pleno seio/ e em miseráveis veios em duras chamas lavra claras pedras António Ramos Rosa

Do Modelo Chinês

Quando alguém é executado na China pelo Estado, este obriga a família a pagar a bala. Ironia cruel? Economicismo? Ou o gravar da culpa como uma imperiosidade (como na Colónia Penal de Kafka)? A verdade é que já ouvi e li muitas pessoas dizerem que não faz sentido os seus impostos serem gastos para suportar párias, ainda para mais perigosos.

domingo, março 04, 2012

O jornalista Wagner Carelli foi entrevistar o escritor argentino Jorge Luis Borges. Ao terminar a entrevista, ficaram conversando sobre a linguagem que existe além das palavras, e sobre a imensa capacidade que o ser humano possui de entender o seu próximo. “Vou lhe dar um exemplo”, disse Borges. E começou a dizer algo numa língua estranha. No final, perguntou de que se tratava. Antes que Wagner pudesse dizer qualquer coisa, o fotógrafo que estava com ele respondeu: “É a oração do Pai-Nosso”. “Exato”, disse Borges. “E eu estava recitando em finlandês”. Paulo Coelho Lembrei-me deste texto quando num enriquecedor diálogo com uma sueca, ela diz a certa altura em sueco o título de um livro de António Lobo Antunes. - Não entres tão depressa nessa noite escura. - Exactly!

Quantas centenas de vezes já terei lido este excerto?

He smiled understandingly — much more than understandingly. It was one of those rare smiles with a quality of eternal reassurance in it, that you may come across four or five times in life. It faced — or seemed to face — the whole external world for an instant, and then concentrated on you with an irresistible prejudice in your favor. It understood you just as far as you wanted to be understood, believed in you as you would like to believe in yourself, and assured you that it had precisely the impression of you that, at your best, you hoped to convey. Francis Scott Fitzgerald Um preconceito irresistível em nosso favor - amo-te, Scott. It understood you just as far as you wanted to be understood - esta diz tanto tanto sobre natureza humana.
O ilustríssimo professor Marcelo, que gosta muito do vocábulo «voluntarioso» erradamente empregado como alguém que ajuda e faz coisas em prol do seu semelhante, que utiliza sempre a redundância «há um dia, há uma semana, há um mês, há um ano, há muito tempo atrás», que apresentou um livro em que foi autor como um livro «escrito só por mulheres», brindou-nos na última semana com: «Uma adesão maciça na última greve.»

Os Ladrões da FNAC

Nunca mais compro nada na Fnac. Pronto. Está dito. Comprava tudo na Fnac. Pensava que fnac era acrónimo de “franceses noctívagos apaixonadamente culturais”. Só agora percebi que designa “falsários nauseabundos aldrabões & carteiristas”. Já aqui contei a ladroagem do cartão Fnac — o cartão “que faz parte de si”: parte gaga. Resumindo: pedi uma segunda via do dito cartão. Custava 3,50 euros. Como não paguei a tempo, cobraram-me 7 euros pela demora. Paguei 10,50 euros. Mas como não paguei a tempo, cobraram-me mais 7 euros. Ontem recebi um pedido de pagamento de 14 euros. A carta era datada de 15 de Fevereiro, mas só chegou cá no dia 28. A data-limite para pagar? Era dia 27. É esse o truque da Fnac e da Credibom: para além dos juros de Idade Média sobre o que se deve (sempre acima dos 25%, ilegais nos países que protegem os consumidores), enviam tarde os pedidos de pagamento, para receberem mais 7 euros por mês. Por um cartão que custou três euros e meio já paguei dez e meio e, como não tive tempo de pagar mais catorze, pagarei mais vinte e um euros — isto é, se contrariamente ao que têm feito, me derem tempo para pagar. Isto sem nada ter comprado a crédito. Pelo contrário: a última coisa que comprei, um MacBook Pro para a Maria João, foi paga por inteiro, em dinheiro. Creditaram-me 50 euros no cartão. Mas só se aplica a compras que eu lá fizer. Por que não tiram os 21 euros ladroados dessa benesse? Porque são uns ladrões. Repito. Miguel Esteves Cardoso

O léxico autorizado

Não se trata apenas de dar uma proeminência excessiva ao discurso do poder. Trata-se de algo mais subtil. Lemos e escrevemos palavras. Falamos com palavras. Pensamos com palavras. Discutimos com palavras. Ensinamos e aprendemos com palavras. Fazemos notícias com palavras. As palavras são a nossa matéria-prima e, pelo menos aqueles que fazem das palavras o seu ofício, como os políticos e os jornalistas (para dar apenas dois exemplos menores), dedicam-lhes alguma atenção. Curiosamente, porém, os jornalistas parecem, em geral, considerar que o elemento básico da sua produção é a frase, a proposição, sem dúvida devido a uma compreensível influência racionalista. Preocupam-se com o que a frase diz (eu sei que às vezes não parece, mas estamos a falar dos melhores exemplos, do jornalismo canónico), com o valor lógico das proposições que constroem, com a sua conformidade com os factos. Se pedirmos a um jornalista para verificar se o título “Ajuda financeira chega no dia 20 de Janeiro” é correcto ele irá investigar se a data está certa e, uma vez confirmado esse facto, garantirá que o título está correcto. O valor lógico da proposição é “verdadeiro”. O título passa o teste. Os outros elementos da proposição - “ajuda financeira”, “chega” - são considerados dados, nomes e acções neutras. É evidente que não é assim. Cada uma das palavras que usamos possui uma carga semântica que evoca esta ou aquela ramificação de significados, esta ou aquela resposta humoral; uma história de uso, que evoca esta ou aquela memória; uma etimologia que acorda esta ou aquela ressonância e que lhe cria uma árvore genealógica de narrativas específica, etc.. Os verbos são, igualmente, o diabo (o diabo está nos pormenores). Não é o mesmo “dizer” e “afirmar”. Curiosamente, os dirigentes raramente “dizem”. “Afirmam”, “sublinham”, “garantem”, “anunciam”, tudo coisas positivas de quem tem poder, clarividência, certezas e benesses para dar. Uma grande parte da política passa por criar e tentar impor na arena social, na imprensa, no debate político, determinadas visões do mundo - determinadas narrativas - como bem sabem os mestres da propaganda. Mas essas narrativas são construídas por palavras e, quando determinados termos se impõem, há narrativas que se organizam quase naturalmente à sua volta. Tomemos a “ajuda”. “Ajuda” é uma coisa boa. Todos gostamos de ajudar, todos gostamos de ser ajudados. Não é fácil criar uma narrativa onde o mau da fita é alguém que “ajuda”. Quem ajuda é, forçosamente, nosso amigo. E como apareceu a expressão “ajuda financeira”? De facto, aquilo que designamos por “ajuda financeira” é, simplesmente, um empréstimo. E empréstimo é não só uma expressão mais correcta como mais neutra. Sabemos isso porque há empréstimos que nos aliviam e outros que nos entalam. É possível criar narrativas diferentes à volta da expressão “empréstimo”. Posso dizer “aquele empréstimo permitiu-lhe salvar a empresa” ou “o que o levou à falência foi aquele empréstimo”. Posso dizer que o “empréstimo negociado com a troika tem um juro usurário”, mas já não o posso dizer se lhe chamar “ajuda”. As palavras não deixam. Um “resgate” também é uma coisa boa. Salva-nos. Não é possível dizer nada mau de quem nos resgata. E haverá coisa melhor que um “programa de assistência económica e financeira”? E será possível ser contra o rigor e a disciplina? Ou contra a “racionalização das empresas públicas de transportes”? E será que um “ajustamento estrutural” pode fazer outra coisa que não seja dar-nos mais solidez? Quem é que pode não gostar que as estruturas estejam ajustadas? E quando se chama “maturidade cívica dos portugueses” à ausência de contestação e “tumultos” aos protestos será possível a uma pessoa sensata defender ou participar nos últimos? A expressão “flexibilidade laboral” é igualmente inatacável. Quem é contra a flexibilidade? Não saberão que a rigidez só leva a fracturas e que a flexibilidade permite adaptarmo-nos ao meio? “Austeridade” é um pouquinho mais difícil, mas também tem um lado bom. Não é como “empobrecimento” ou “descida do nível de vida” que é só mau. E quando nos dizem que “precisamos de união e não de clivagens” não é evidente que a união é boa e que as clivagens são más? Não é evidente que um discurso que afirme que a união nacional pode ser má e as clivagens boas se tem de empenhar num combate desigual, montanha acima? Não se trata apenas de, no discurso mediático, se dar uma proeminência excessiva ao discurso do poder, como quando, como mero exemplo entre mil, se arranca uma notícia sobre o “acordo de concertação” com o lead “Governo garante que estão salvaguardados os direitos dos trabalhadores” - factualmente correcto mas claramente parcial. Trata-se de algo infinitamente mais subtil. Tão subtil que há mesmo jornalistas que, ingenuamente, garantem que não existe. Trata-se de manipular os media obrigando-os, discretamente, a usar apenas o léxico autorizado, que contém implícita a narrativa do poder. Quando Cavaco diz que não se deve usar a expressão “negociação” do memorando da troika (e muito menos “renegociação) e que vai haver apenas algumas “alterações”, está a exercer esse poder. É que “negociação” poderia dar a ideia de que existe alguma latitude negocial - de um e de outro lado - e Cavaco e o Governo não querem admitir nenhum cenário que não seja a mais absoluta obediência aos ditames dos credores. Há demasiada liberdade em “negociação”. E Cavaco não hesitará, com o seu ar de mestre-escola austero, em admoestar quem ousar falar de “negociação” ou “renegociação” - já para não falar da banida “reestruturação” - como admoesta quem ousa fazer perguntas sobre as suas pensões. José Vítor Malheiros