quarta-feira, fevereiro 29, 2012

http://aeiou.visao.pt/o-que-faz-um-escritor-segundo-rubem-fonseca=f648336

O livro que Passos Coelho leu não existe

São conhecidas as piadas sobre os políticos e figuras mediáticas que citam incorrectamente uma obra. Desta vez calhou a Pedro Passos Coelho ser o apontado. Não passou em claro a Pacheco Pereira a referência do social-democrata à Fenomenologia do Ser, de Jean-Paul Sartre, uma obra que, afinal, não existe. Passos Coelho tem-se multiplicado em entrevistas, dadas sempre na qualidade de putativo candidato à liderança do PSD. Na mais recente dessas entrevistas - ver edição de domingo passado da revista Pública - o militante social-democrata falou do passado e opinou sobre a situação no PSD. Questionado sobre o que leu na juventude, começou por dizer que sempre leu "mais ensaio do que literatura". Mais adiante esclareceu a ideia: "Queria coisas mais directas. Os autores existencialistas que problematizavam matérias sobre as quais eu também me interrogava". E deu como exemplos Kafka, Sartre e até Voltaire: "Li Kafka muito depois da Fenomenologia do Ser, de Sartre. Li Voltaire muito mais cedo do que consegui ler Camilo ou Eça". A crítica chegou de imediato. No mesmo dia, Pacheco Pereira respondeu no blogue Abrupto, ironizando sobre "a mania muito portuguesa do dropping names para mostrar cultura ". "Esta lista de leituras tem um pequeno problema para além da sua implausibilidade, é que não existe nenhuma Fenomenologia do Ser de Sartre, que eu saiba. Basta percorrer a lista de obras de Sartre para ver que não há nenhum livro com esse título, a não ser que seja um obscuro artigo que desconheço". "Só quando não se faz a mínima ideia do que são estas obras, é que se pode falar assim delas, mesmo das inexistentes", remata. Afinal o que existe é, isso sim, "O ser e o Nada - Ensaio de ontologia fenomenológica" (1943), de Sartre. Terá sido a este livro que Passos Coelho se queria referir? Fica por responder por ter sido impossível chegar a falar com o militante social-democrata. Para a história ficaram os concertos para violino de Chopin, referidos por Santana Lopes ou A Utopia, de Thomas Mann, que esteve na cabeceira de Cavaco Silva. Jornal de Notícias

O Céu das Gruas

Lázaro Inocêncio do Nascimento, manobrador de gruas na auto-estrada transmontana sai do túnel do Marão para a negra luz do desemprego e das carências em família. Manobrou com perícia a cegonha de ferro no céu da montanha, dialogou com Deus e com os pássaros sociáveis; olhou para o fundo de si e concluiu que na terra ou nas nuvens a vida é sempre abismo onde a altura é uma questão menor [...] Fernando Castro Branco

Do eterno retorno

- Nunca sei quando estás a falar verdade ou não. Tenho uma tremenda dificuldade em distinguir.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

http://portal.sliderocket.com/BBVXH/Hoshyar-Foundation

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

- Eu sou muitos.
- Mal falado é que eu me sinto bem. É porque quem tem coluna vertebral tem inimigos.
The words thrilled Val. They had come into his mind sometime during the fresh gold April afternoon and he kept repeating them to himself over and over: “Love in the night; love in the night.” He tried them in three languages — Russian, French and English — and decided that they were best in English. In each language they meant a different sort of love and a different sort of night — the English night seemed the warmest and softest with a thinnest and most crystalline sprinkling of stars. The English love seemed the most fragile and romantic — a white dress and a dim face above it and eyes that were pools of light. And when I add that it was a French night he was thinking about, after all, I see I must go back and begin over. [...] But the question of love in the night was the thing nearest his heart. It was a vague pleasant dream he had, something that was going to happen to him some day that would be unique and incomparable. He could have told no more about it than that there was a lovely unknown girl concerned in it, and that it ought to take place beneath the Riviera moon. [...] Love went on around him — reproachless love and illicit love alike. As he strolled along the seaside promenade at nine o’clock, when the stars were bright enough to compete with the bright lamps, he was aware of love on every side. From the open-air cafés, vivid with dresses just down from Paris, came a sweet pungent odor of flowers and chartreuse and fresh black coffee and cigarettes — and mingled with them all he caught another scent, the mysterious thrilling scent of love. Hands touched jewel-sparkling hands upon the white tables. Gay dresses and white shirt fronts swayed together, and matches were held, trembling a little, for slow-lighting cigarettes. On the other side of the boulevard lovers less fashionable, young Frenchmen who worked in the stores of Cannes, sauntered with their fiancées under the dim trees, but Val’s young eyes seldom turned that way. The luxury of music and bright colors and low voices — they were all part of his dream. They were the essential trappings of Love in the night. Francis Scott Fitzgerald, Love in the Night

sábado, fevereiro 25, 2012

Experiências no jornalismo

Os meus amigos dizem-me que devo ser menos eriçado e, através de eufemismos, vão mansamente passando-me a ideia de que na vida todos temos - aqui e ali, com mais ou menos vigor - de lamber pilas. Experiência Número 1. Eu e a minha sócia vamos a uma reunião de publicidade. As pousadas da juventude da Movijovem (uma delegação do IPJ) querem publicitar no nosso jornal. Um tipo de gel diz-nos que nos pagará cabalmente doze edições e que ainda teremos direito a estadas gratuitas durante doze fins-de-semana em pousadas espalhadas pelo país. Como contrapartida, teríamos apenas de ter um página de reportagem sobre cada uma das doze pousadas. Só impomos uma condição: - Tudo bem, mas isso tem de estar sinalizado no cabeçalho como Publirreportagem. - Ah, isso nem pensar. Experiência Número 2. O Paulo Teixeira Pinto, à época presidente do BCP, tece loas a si próprio numa conferência sobre Responsabilidade Social. Não há sítio no mundo com tantas regalias para os trabalhadores como o BCP. Munido de dados que indicavam o aumento de doenças do foro psiquiátrico no sector bancário nos últimos anos, pergunto: - [...] Dadas estas estatísticas, há algum estudo sobre as doenças psiquiátricas no BCP. Se sim, elas têm aumentado ou diminuído nos últimos anos? Durante 15 minutos, Paulo Teixeira Pinto, sem nunca responder à questão, perora sobre a preguiça em Portugal e os fracos de espírito, dizendo que ele - ao contrário de mim - prefere que uma pessoa morra de excesso de trabalho do que da falta dele. (Uma inferência com base em nada.) Visivelmente irritado, garante-me que eu faço parte do jornalismo que não está do lado do Bom Combate da necessidade do aumento da produtividade dos trabalhadores. Acrescenta que eu serei «certamente daqueles que defendem o rendimento mínimo». No final da resposta, que encerrou a conferência, vejo-o perguntar quem sou eu. Com um fácies de pura raiva, cumprimenta-me com um passou-bem ao passar por mim. No dia seguinte, estando num lançamento de um livro, calmamente sentado na Galeria Zé dos Bois, vejo um sujeito calvo e grande aproximar-se de mim. - Você ontem fez um pergunta que não podia ter feito. Desconhecia o rosto e não situei a observação. - Olhe que o Paulo Teixeira Pinto é um tipo muito perigoso. Você pode arruinar a sua carreira. Você não podia ter perguntado aquilo... Aquilo gelou a audiência. Ele andou comigo na faculdade e sabe como é que ele se vestia? Como um SS nazi. Experiência Número 3. Uma conferência sobre Jornalismo de Investigação. Felícia Cabrita afirma: - Antes de se pensar que os pais da Maddie também eram suspeitos, já eu estava a dizer que tinham sido os pais quem tinha matado a criança. No final da exposição, levanto-me e pergunto: - Sabe que se estiver aqui alguém jornalista que escreva o que acabou de dizer é condenada? Um jornalista - ou qualquer outra pessoa - não pode emitir publicamente uma opinião de culpabilidade quando a mesma não emanou de um tribunal e só se a sentença for transitada em julgado?

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

- Porque tu e eu somos rarae aves. Do vasto universo das pessoas, eu já só escolho as bem formadas, sem esquemas. Não digo as que fazem o bem, mas a que tentam fazer o bem. Sei que isto parece arrogante, mas só to digo a ti. Porque mais que pensei - e tento não pensar para não entrar numa espiral... -, sinto que dou muito mais aos meus amigos do que eles a mim. Vou mudar? Não vou. Vou ser como sou. Senão, sairia derrotado, deformando-me, tornando-me naquilo que critico. Tu és como eu e é por isso que nos damos tão bem. Qual é o truque para sobreviver? É baixarmos as expectativas em relação aos outros, aceitando-os, não nos sentirmos superiores nem ressentidos - sendo o que somos e ponto final. Mas é bom que uma alma como a tua encontre uma como a minha e que uma como a minha encontre uma como a tua - somos fundamentais um para o outro.
- Todos já praticámos vilezas. Não consigo entender como num exame nacional do 12.º ano, uma colega do lado, por quem não tinha antipatia alguma, me deu com o cotovelo a pedir uma resposta e eu, olhando para o examinador e vendo que este olhava para outro lado, escrevi numa folha branca a resposta errada e ergui-a para ela ver. Fui cabrão, Angel. Só ao fim de muitos anos lá arranjei uma maneira de me perdoar. Não pela compreensão do meu comportamento ou impulso, mas pela análise das consequências. Pensando que não a prejudiquei porque ela não sabia a reposta, pelo que não seria pontuada. Mas a minha intenção foi uma pura filha da putice. Que eu não sei explicar.

Um livro sem páginas numeradas e que pode ser lido do princípio ao fim ou do fim ao princípio

Ibidem

Dropping through sky/ Through the glass of the roof/ Through the roof of your mouth/ Through the mouth of your eye/ Through the eye of the needle/ It's easier for me to get closer to heaven than ever feel whole again
the soft and the black and the velvety up tight against the side of me and mouth and eyes and heart all bleed and run into thickening streams Robert Smith

Da homofobia

Se o Caso Casa Pia fosse com raparigas suscitaria tanto alarido?
Sucesso, que palavra horrível.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Clara Ferreira Alves sustenta uma tese interessante. A heteronimia de Pessoa como consequência da necessidade de inventar Outros à altura da sua densidade e complexidade. Ele que escreveu ser-lhe impossível a ideia de um amigo íntimo. A superlativa necessidade de quebrar a solidão e a impossibilidade oferecida pelo real. Nunca inventaste pessoas?
- Estou indeciso entre as duas, Angel. Gosto mais dela, mas gosto menos da pessoa que me sinto com ela.
- Quando são muitos dóceis e simpáticas, é terrível, porque a interiorização da culpa depois é maior.
Quando o Homem Que Diz Muito Mal de Tudo abre a boca para elogiar vivamente, todos param e sorvem cada sílaba.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Um mau hábito verga-se com mil comportamentos repetidos em sinal contrário, mas um só deslize fá-lo voltar continua e indeterminadamente.
Começa hoje ou não começas.
O amigo guarda os teus segredos.
O amigo critica-te em privado e elogia-te em público.
O amigo defende sempre o teu nome.
O amigo está sempre sempre lá nos maus momentos.
O amigo vive as tuas vitórias como se fossem dele.
O amigo não é reactivo, mas pró-activo.
O amigo proporciona-te surpresas.

- Provocas-me tanto desejo quanto medo.
E há dias assim. Em que a felicidade tombou num amigo. Ficamos mais :) do que se fosse connosco. Porque há alturas em que dar o golo a marcar é melhor do que marcar o próprio golo.
Caminho como uma casa em chamas.

Tenho a certeza de que esta frase será o título do próximo livro de ALA.

No Maktub (conceito terrível), narra-se a história de um homem pobre que chegou ao Céu e reclamou com Deus por ter ajudado meio mundo e nunca ter tido sorte.

- Mas o que podia Eu fazer por ti?
- Sei lá... Por exemplo, fazer com que ganhasse a lotaria.
- Mas eu estava cá em cima sempre à espera de que comprasses o bilhete.
Muitos se queixam de que as palavras dos sábios são sempre só parábolas, inúteis na vida quotidiana; e que só esta nos é dada. Todas as parábolas dizem apenas que o incompreensível é incompreensível; e isto já sabemos. Disse um: «Porque resistes? Se obedecesses às parábolas, transformar-te-ias em parábola, e estarias livre da vida quotidiana.» Outro disse: «Eu gostaria de apostar em que isto também é uma parábola.» O primeiro respondeu: «Ganhaste.» O outro disse: «Mas, infelizmente, só na parábola.» E o primeiro: «Não. Na parábola, perdeste.»


Kafka

Sugestões de leitura para quem não tem os pés assentes na terra


terça-feira, fevereiro 21, 2012

- O Herberto Helder sempre se rodeou de pessoas que o veneravam. Ele via-me de forma diferente por precisamente eu não o idolatrar, por gostar dele. Mesmo da poesia dele, eu não a achava - fez um gesto largo com as mãos - como tu, por exemplo, Angel. O Barahona não é inferior, só que é diferente. O Herberto é telúrico e pletórico. O Barahona, teúrgico. O Herberto necessitava sempre de ter um séquito. E era uma pessoa completamente amoral. Completamente. Era e é. Mas isso não significava que não fosse afável, tinha uma voz tão agradável, uma voz que nos enlevava. E ele fazia questão de ter sempre uma mulher no seu séquito que o acompanhasse. Muitas tinham namorados, mas ele sentia que por uma espécie de droit de seigneur elas lhe pertenciam - podia ter outro, mas a posse, a posse da sua alma, a posse espiritual era dele.
Um livro que me prendeu de pé numa livraria durante vinte minutos. Sobre o homem que escrevera «que horror nascer com vagina». Muitas e longas citações.
demoras mesmo quando chegas antes

Mia Couto

A avó dela tinha 94 anos e morreu. Mas se não fosse a bactéria que apanhou no hospital ainda estaria viva.

A tia avó dele tinha 92 anos. O marido morrera um ano antes. Com o desgosto, ela não sobreviveu. Mas se o marido tem durado...

A mãe dele tinha 75 e foi operado a um cancro. Ele queria outro médico, cirurgião especialista, mas a mãe optou pelo médico que a acompanhara a vida toda - se a mãe tem acatado o alvitre do filho, ela não teria morrido.

O bisavô era a referência da sua vida. Estava a dois anos de completar cem anos. Queriam fazer-lhe uma grande festa. Mas o velho estouvado foi para as montanhas, onde nevava e ventava, e apanhou uma pneumonia e morreu. Se tem ficado no conforto do lar...

Oh, a imortalidade.

(Como aquela parábola em que alguém que está num bar e sabe que a morte vem ter ao bar para se encontrar consigo e decide rapar a farta cabeleira de modo que a morte não o conhecesse. Sucede que morte se embebedou no bar e disse: «Já não sei ao que vinha, estou bêbada... Nunca me aconteceu isto. Vou matar aleatoriamente. Pode ser um careca.»)
Os pais são comunistas. Ele sublinha o facto como algo que o marcou. «Sempre me criticaram por querer abrir um negócio próprio. Isso era uma infamante - estar a viver da exploração do trabalho de outros.» Alega que lhe retiraram vitalidade, individualismo - e, em certa altura, ele virou costas à educação que lhe deram, numa atitude crescentemente revanchista.

É muito individualista. Pior: não suporta as fraquezas alheiras (porque as quer expungir de si próprio nos outros?).

Quando um amigo é afável, quando um amigo depende dele - ele despreza-o. A vulnerabilidade e a dependência são as coisas que mais abomina.

Se alguém mostrar não depender dele, ele desata a ligar.

A minha relação com ele foi sempre nestes moldes. Fica num frenesim para jantar comigo se o recuso várias vezes.

Vicejar, que palavra.

Sei histórias tenebrosas acerca da vida

O meu conhecido era pintor e escritor. Comprou dois bilhetes, tratou da estada num ilha paradisíaca, e lá foi com a namorada, que não percebia bem o porquê daquele idílio. Procurou fazer daquelas férias um tempo perfeito num local perfeito. Depois levou-a a conhecer todos os amigos dele que não conhecera. Falou muito das boas memórias que vivera com ela. Evocou sensorial e sentimentalmente as boas coisas que vivera com ela de uma forma como nunca fizera. Junto da praia, morreria - tinha um cancro nos intestinos com metástases por todo o organismo. Não sei qual foi a última frase, disseram-me que sorriu - e que ela nunca soube que ele padecia de tal doença.
- Nunca o ouças. Nunca. Ele consegue sempre convencer uma pessoa.

Não perguntes por quem dobram os sinos

Bem sei que esta opinião não colhe. Bem sei que me dirão que há mil e umas coisas mais importantes do que esse facínora. Mas não deixo de me perguntar até que ponto os direitos humanos universais e inalienáveis mais não são do que letra-morta. Não se consegue explicar com argumentos, com a Razão, não se consegue, enfim, fundamentar as coisas mais importantes, explica Carlos Espada. Adere-se a elas ou não se adere. Como os direitos humanos. Como o facto de ninguém poder atingir aquele ponto ne plus ultra de infra dignitatem.

O homem chacinou toda a gente. Mas na cadeia não pode haver condições para o suicídio. E interrogo-me ainda se não terá sido morto - a sua morte não afecta ninguém. Ouço as pessoas: «Se o mataram, fizeram bem.»

«O quê, ia estar gastar dinheiro dos nossos impostos para ficar no conforto da cadeia?»

Eis o nazismo no seu despudorado esplendor.


(Lembrei-me daquele director de recursos humanos, videirinho, untuoso, sabujo e corrupto, que dizia: «Sempre que entro numa empresa, procuro limpar as gorduras [despedir pessoas].» Quando trabalhou no bólingue do Colombo dizia ter ocorrido uma morte e que a abafou. Era uma vingança de um gangue. Pretos desvalidos cujas vidas ninguém reclamava. Why worry? «Angel, já viste o que era para a imagem do Colombo?»

Da literatura: a obra completa de Caryl Chessman.

Da Sétima Arte: http://www.imdb.com/title/tt0289992/
Se fosses homossexual, assumir-te-ias?
Protege-te, ele disse-me. Nunca saias com muito frio sem dois casacos, gorro e cachecol. Segui o conselho e nunca mais contraí uma constipação sequer.

Protege-te, ele disse-me. Come três maçãs por dia. Finalmente, a minha rotina atingiu essa média.

Protege-te, ele disse-me. Nunca cintiles com invejosos em redor.
- Deus é socialista, Angel. Já reparaste, por exemplo, que as mulheres dotas de rabo não são dotadas de mamas e as que têm boas mamas incrustadas não têm rabo?
Tessitura, como gosto desta palavra.

- Na minha bolha, 99,9% do que penso não sai cá para fora, estou sempre a pensar. Sou um solipsista. Mesmo que quisesse comunicar esses 99,9%, esse núcleo impartilhável, não sei se conseguiria traduzir sequer metade dessa densidade imbricada.
- Chegas a uma certa idade em que, pela aritmética mais simples, percebes que os anos que te faltam são menos do que os anos que viveste. Pior: os amigos que continuam vivos são menos do que... Perdi duas das minhas âncoras. Com um tinha um ligação intelectual profunda, com outro... uma... ligação emocional. Eu que sempre me rodeei de literatos e sempre li muito, percebi que é muito pior perder alguém com quem se tem uma ligação emocional do que intelectual, porque a segunda a gente substitui mais facilmente, nem que seja mergulhando nos livros.
Tudo parece simples depois de apresentado pela primeira vez. Na arte, na ciência. Lembro-me sempre de um artista que dizia:

«Olho para qualquer quadro de Miró e penso que facilmente teria feito aquilo. O problema é que não me lembrei de fazer aquilo.»

Herbert Simon



Claro está que numa época de pensamento único, este senhor (um Nobel para quem liga a essas merdas) é cada vez menos citado, menos editado, menos referenciado pela Opinião Publicada.

Os postulados da ciência económica clássica assentaram sempre em dois pressupostos: os agentes económicos são racionais e (consequentemente) os mercados equilibram-se.

No final do decénio de 1960, Herbert Simon fritou o cérebro de muitos economistas e academistas que nunca haviam questionado o dogma de os agentes económicos serem racionais - a assunção que garantia o equilíbrio dos mercado.

Numa ruptura ideológica marcante, Simon desmontou a premissa essencial da ciência económica. Os agentes não só não eram racionais, porque eram movidos por impulsos, por emoções, por precipitações, como não dispunham em cada momento de toda a informação disponível para fazer a escolha económica certa.

- Mas conhecemo-nos há vinte anos.
- Não. Nós somos amigos há vinte anos.
- Ainda mais me ajudas.
- Mas eu eu nunca contei isto a ninguém. E nunca pensei contar-te. Ninguém desconfia dela. Ela adopta uma máscara perfeita fora de portas. Mas, à noite, na cama... Há mais de vinte anos que vivo com isto... Ela encarna um animal diferente. Todos os dias, todas as noites. Ontem, era um porco e fazia oinc, oinc, e andava pela casa em quatro patas.

O poema que li mais vezes

SAUDAÇÃO A WALT WITHMAN

Portugal Infinito, onze de junho de mil novecentos e quinze...
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!
De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser...
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.
Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te contra a adversidade das coisas,
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,
Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!
Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo,
Grande democrata epidérmico, contágio a tudo em corpo e alma,
Carnaval de todas as ações, bacanal de todos os propósitos,
Irmão gêmeo de todos os arrancos,
Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquinas,
Homero do insaisissable de flutuante carnal,
Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Eletricidade futura! incubo de todos os gestos
Espasmo pra dentro de todos os objetos-força,
Souteneur de todo o Universo,
Rameira de todos os sistemas solares...
Quantas vezes eu beijo o teu retrato!
Lá onde estás agora (não sei onde é mas é Deus)
Sentes isto, sei que o sentes, e os meus beijos são mais quentes (em gente)
E tu assim é que os queres, meu velho, e agradeces de lá —,
Sei-o bem, qualquer coisa mo diz, um agrado no meu espírito
Uma ereção abstrata e indireta no fundo da minha alma.
Nada do engageant em ti, mas ciclópico e musculoso,
Mas perante o Universo a tua atitude era de mulher,
E cada erva, cada pedra, cada homem era para ti o Universo.
Meu velho Walt, meu grande Camarada, evohé!
Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés até à náusea em meus sonhos,
Sou dos teus, olha pra mim, de aí desde Deus vês-me ao contrário:
De dentro para fora... Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma —
Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo —
Olha pra mim: tu sabes que eu, Álvaro de Campos, engenheiro,
Poeta sensacionista,
Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!
Nunca posso ler os teus versos a fio... Há ali sentir demais...
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a atividade humana e mecânica.
Nos teus ver sos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça pra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No teto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do teto da tua intensidade inacessível.
Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim — eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da... se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
E comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito...
Pra frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Conforme me der na gana... Ninguém tem nada com isso...
Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo,
De me cramponner às rodas dos veículos e meter por baixo,
De me meter adiante do giro do chicote que vai bater,
De ser a cadela de todos os cães e eles não bastam,
De ser o volante de todas as máquinas e a velocidade tem limite,
De ser o esmagado, o deixado, o deslocado, o acabado,
Dança comigo, Walt, lá do outro mundo, esta fúria,
Salta comigo neste batuque que esbarra com os astros,
Cai comigo sem forças no chão,
Esbarra comigo tonto nas paredes,
Parte-te e esfrangalha-te comigo
Em tudo, por tudo, à roda de tudo, sem tudo,
Raiva abstrata do corpo fazendo maelstroms na alma...
Arre! Vamos lá pra frente!
Se o próprio Deus impede, vamos lá pra frente Não faz diferença
Vamos lá pra frente sem ser para parte nenhuma
Infinito! Universo! Meta sem meta! Que importa?
(Deixa-me tirar a gravata e desabotoar o colarinho.
Não se pode ter muita energia com a civilização à roda do pescoço...)
Agora, sim, partamos, vá lá pra frente.
Numa grande marche aux flabeux-todas-as-cidades-da-Europa,
Numa grande marcha guerreira a indústria, o comércio e ócio,
Numa grande corrida, numa grande subida, numa grande descida
Estrondeando, pulando, e tudo pulando comigo,
Salto a saudar-te,
Berro a saudar-te,
Desencadeio-me a saudar-te, aos pinotes, aos pinos, aos guinos!
Por isso é a ti que endereço
Meus versos saltos, meus versos pulos, meus versos espasmos
Os meus versos-ataques-histéricos,
Os meus versos que arrastam o carro dos meus nervos.
Aos trambolhões me inspiro,
Mal podendo respirar, ter-me de pé me exalto,
E os meus versos são eu não poder estoirar de viver.
Abram-me todas as janelas!
Arranquem-me todas as portas!
Puxem a casa toda para cima de mim!
Quero viver em liberdade no ar,
Quero ter gestos fora do meu corpo,
Quero correr como a chuva pelas paredes abaixo,
Quero ser pisado nas estradas largas como as pedras,
Quero ir, como as coisas pesadas, para o fundo dos mares,
Com uma voluptuosidade que já está longe de mim!
Não quero fechos nas portas!
Não quero fechaduras nos cofres!
Quero intercalar-me, imiscuir-me, ser levado,
Quero que me façam pertença doída de qualquer outro,
Que me despejem dos caixotes,
Que me atirem aos mares,
Que me vão buscar a casa com fins obscenos,
Só para não estar sempre aqui sentado e quieto,
Só para não estar simplesmente escrevendo estes versos!
Não quero intervalos no mundo!
Quero a contigüidade penetrada e material dos objetos!
Quero que os corpos físicos sejam uns dos outros como as almas,
Não só dinamicamente, mas estaticamente também!
Quero voar e cair de muito alto!
Ser arremessado como uma granada!
Ir parar a... Ser levado até...
Abstrato auge no fim cie mim e de tudo!

Clímax a ferro e motores!
Escadaria pela velocidade acima, sem degraus!
Bomba hidráulica desancorando-me as entranhas sentidas!

Ponham-me grilhetas só para eu as partir!
Só para eu as partir com os dentes, e que os dentes sangrem
Gozo masoquista, espasmódico a sangue, da vida!

Os marinheiros levaram-me preso,
As mãos apertaram-me no escuro,
Morri temporariamente de senti-lo,
Seguiu-se a minh'alma a lamber o chão do cárcere privado,
E a cega-rega das impossibilidades contornando o meu acinte.
Pula, salta, toma o freio nos dentes,
Pégaso-ferro-em-brasa das minhas ânsias inquietas,
Paradeiro indeciso do meu destino a motores!
He calls Walt:
Porta pra tudo!
Ponte pra tudo!
Estrada pra tudo!
Tua alma omnívora,
Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher,
Tua alma os dois onde estão dois,
Tua alma o um que são dois quando dois são um,
Tua alma seta, raio, espaço,
Amplexo, nexo, sexo, Texas, Carolina, New York,
Brooklyn Ferry à tarde,
Brooklyn Ferry das idas e dos regressos,
Libertad! Democracy! Século vinte ao longe!
PUM! pum! pum! pum! pum!
PUM!
Tu, o que eras, tu o que vias, tu o que ouvias,
O sujeito e o objeto, o ativo e o passivo,
Aqui e ali, em toda a parte tu,
Círculo fechando todas as possibilidades de sentir,
Marco miliário de todas as coisas que podem ser,
Deus Termo de todos os objetos que se imaginem e és tu!
Tu Hora,
Tu Minuto,
Tu Segundo!
Tu intercalado, liberto, desfraldado, ido,
Intercalamento, libertação, ida, desfraldamento,
Tu intercalador, libertador, desfraldador, remetente,
Carimbo em todas as cartas,
Nome em todos os endereços,
Mercadoria entregue, devolvida, seguindo...
Comboio de sensações a alma-quilômetros à hora,
À hora, ao minuto, ao segundo, PUM!
Agora que estou quase na morte e vejo tudo já claro,
Grande Libertador, volto submisso a ti.
Sem dúvida teve um fim a minha personalidade.
Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa
Mas hoje, olhando para trás, só uma ânsia me fica —
Não ter tido a tua calma superior a ti-próprio,
A tua libertação constelada de Noite Infinita.
Não tive talvez missão alguma na terra.
Heia que eu vou chamar
Ao privilégio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te
Todo o formilhamento humano do Universo,
Todos os modos de todas as emoções
Todos os feitios de todos os pensamentos,
Todas as rodas, todos os volantes, todos os êmbolos da alma.
Heia que eu grito
E num cortejo de Mim até ti estardalhaçam
Com uma algaravia metafisica e real,
Com um chinfrim de coisas passado por dentro sem nexo.
Ave, salve, viva, ó grande bastardo de Apolo,
Amante impotente e fogoso das nove musas e das graças,
Funicular do Olimpo até nós e de nós ao Olimpo.



Álvaro de Campos

Tudo está ligado com Tudo



"Listen to Mozart and you can be a better footballer," the Italian coach Giovanni Trapattoni told German paper Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung.
"You learn a lot about tension, tempo, rhythm and structure. You learn to read a game. It was a great experience for me. I believe that I grew as a player and a human through (classical) music."
Trapattoni, who names Mozart "a god," said he started listening to classical music as a player but that today's footballers have no idea about life off the pitch and showed no interest in issues beyond their sport.
"The players believe that their life takes place on the pitch. They don't realize that they can learn a lot for their game in the real world. They should have a knowledge about literature and music - but unfortunately that is only rarely the case."

domingo, fevereiro 19, 2012

A cena de uma catástrofe naval observada por alguém em terra vem de De Rerum Natura, poema didáctico de Lucrécio, autor romano que viveu no século I a.C. Lucrécio era um «epicurista», algo que se traduz hoje menos confusamente como «estóico». No seu texto, o poeta romano procura explicar a «natureza das coisas» [...] A passagem que descreve um homem em terra a ver um naufrágio tem dado azo a diferentes interpretações, que Hans Blumenber analisa.
Uma das dúvidas mais pertinentes é se aquele homem retira algo gozo do sofrimento alheio, ou se apenas se congratula com o facto de estar a salvo; ou então, hipótese mais benigna, talvez não seja concretamente um naufrágio e o sofrimento dos outros que o homem observa, mas apenas o naufrágio enquanto metáfora, o sofrimento como alegoria, a passo que ele, o observador, aprendeu a distanciar-se desses medos e desses desastres, tornou-se um espectador tranquilo, um homem sábio, um pequeno deus impassível.

Pedro Mexia

sábado, fevereiro 18, 2012


Creio que foi Vinícius de Moraes que disse: “Nunca conheci ninguém
que tenha feito um amigo numa leitaria”.
Alguns capítulos mais à frente (ou atrás, como queiram) verifico que
vida e álcool estão umbilicalmente ligados à obra de Francis Scott Key Fitzgerald,
conhecido profissionalmente pela ligação do segundo e quarto nome.
Mas, e aqui o mais importante de tudo, nunca li ou ouvi dizer que o álcool
tenha prejudicado a sua obra literária. Já li, sim, que ela poderia ter sido mais
longa sem o álcool; mas quem nos garante que os seus textos, que nunca foram, teriam a mais valia dos anteriores? Tudo isso para dizer que os “alimentadores artificiais do imaginário”, do haxixe à cocaína, a passar por outros que esqueci (calma, vocês não me conhecem o bastante para me chamarem de colega de Whitney Huston), nada disso interfere no todo da obra, grande ou pequena que seja, e lembro aqui Hendrix, Joplin, Cobain, Baudelaire e James Dean, entre outros, todos eles apreciadores dos tais “artificialismos”, se é que me entendem.
No conjunto, menos escritores e mais músicos? Com certeza. O escritor socorre-se invariavelmente do intelecto enquanto ao músico “basta-lhe”, quase sempre, as suas sensações, acopladas a um razoável conhecimento de música.
Voltando a Fitzgerald, é dele sempre o primeiro posto da sua geração, na qual há gente do porte de um  Hemingway , que alguns consideram algo datado, inclusivamente este locutor que vos fala. Um e outro secaram o bar, mas prevaleceu o quê? O talento do autor de  O Grande Gatsby. E fim.
Em tempo: para esvaziar o tom solene deste pequeno texto, permito-me uma frase:
“Um só dia deixei de beber. Foi então que percebi que bebia”.


José Alberto Braga – JAAB

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

A importância da primeira frase e/ou do primeiro parágrafo

http://amc-data.blogspot.com/
A tendência para colocar uma ênfase especial ou organizar a juventude nunca me foi cara; para mim, a noção de pessoa velha ou nova só se aplica às pessoas vulgares. Todos os seres humanos mais dotados e mais diferenciados são ora velhos ora novos, do mesmo modo que ora são tristes ora alegres. É coisa dos mais velhos lidar mais livre, mais jovialmente, com maior experiência e benevolência com a própria capacidade de amar do que os jovens. Os mais idosos apressam-se sempre a achar os jovens precoces demasiado velhos para a idade, mas são eles próprios que gostam de imitar os comportamentos e maneiras da juventude, eles próprios são fanáticos, injustos, julgam-se detentores de toda a verdade e sentem-se facilmente ofendidos. A idade não é pior que a juventude, do mesmo modo que Lao-Tsé não é pior que Buda e o azul não é pior que o vermelho. A idade só perde valor quando quer fingir ser juventude.


Herman Hesse
Três pontos, segundo Camões, sobre os quais temos que meditar, e ver como é. Ponto número 1: é preciso que os corpos se apaziguem para que a cabeça possa estar livre para entender o mundo à volta. Enquanto nós estamos perturbados com existir um corpo que temos que alimentar, temos que fartar, que temos de tratar o melhor possível, cometendo para isso muitas coisas extremamente difíceis, nessa altura, quando a nossa cabeça estiver inteiramente livre e límpida, nós podemos ouvir aquilo que Camões chama «a voz da deusa». E que faz a voz da deusa? Arranca àqueles marinheiros as limitações do tempo e as limitações do espaço. Arranca-os às limitações do tempo o que faz que eles saibam qual vai ser o futuro de Portugal. E arranca-os às limitações do espaço porque eles vêem todo o mundo ao longe, o universo que está ao longe, a deusa lho mostra, embora com o sistema errado, digamos assim, ou imperfeito, de Ptolomeu, e eles estão portanto inteiramente fora do espaço. Aquilo que foi o ideal dos gregos, e que os gregos nunca conseguiram realizar. Então o que é que aconteceu? Aconteceu que um dia houve outro português que tinha ido para o Brasil, ponto a que foram muitos portugueses porque lhes era insuportável aquilo que Portugal se tornara para poderem levar a Europa ao mundo, o menino António Vieira foi ao Brasil, cresceu no Brasil, abrasileirou-se, se assim quiser usar a expressão, e é possível que ele um dia tivesse lido o poema de Camões e tivesse lido a ilha dos amores, e dissesse: as três ideias do Camões são hoje fundamentais; o apaziguar do corpo, aquilo que é sano como corpo, termos a nossa cabeça bem aberta, bem livre do pesadelo que tantas vezes nos dá a nossa vida quotidiana, para que possamos ouvir a voz da deusa, dizia o Camões, mas o António Vieira, que se fizera jesuíta, diz que se trata de ouvir a voz de Deus. E então ele diz, para apaziguar o corpo eu tenho outros métodos, que eram naturalmente os métodos que se usavam na companhia, a meditação dos textos sagrados, os jejuns, a chibatada se era preciso chibatar-se a si próprio, etc, para que realmente da mesma maneira, a cabeça se torne limpa, e nós possamos ouvir, diz agora o Vieira, a voz de Deus, o qual me vai mostrar as coisas fundamentais do mundo, me vai fazer ultrapassar o tempo e o espaço, me vai provavelmente fazer ultrapassar esse problema de se há liberdade, se há destino, para ele chegar áquele ponto onde liberdade e destino estão inteiramente conjuntos e avançou sobre o Camões. Porque o grande defeito de Camões foi contar o que se passava na ilha dos amores mas não tira conclusão nenhuma. Nenhuma. Termina logo o poema. Ele não diz o que fizeram esses marinheiros depois de ter aquela experiência extraordinária de ter vivido na ilha dos amores. Chegaram a Lisboa e que é que fizeram? Não se sabe de nada, Camões estava cansado, já não podia cantar mais coisa nenhuma, não mais musa não mais, e ficamos por aí. Com o Vieira não aconteceu assim. Quando ele pensou à sua maneira uma ilha dos amores, ele disse agora aquilo que eu pensei e pus nos mesmos três pontos essenciais que pôs o Camões, agora isso deve servir para o mundo inteiro. Homem porque é homem, terá sempre como ideal apaziguar o corpo, ter a cabeça livre de pesadelos, para poder ouvir o quê? E já não se podia dizer a voz da deusa nem a voz de deus. A voz do universo. Entender o que o universo é na sua essência. Podemos nós pensar outra vez na ilha dos amores? Claro que sim. Podemos nós pensar, por exemplo, pedirmos a uma pessoa da rua, o que é que ela precisa para apaziguar o seu corpo, ela vai logo mexer num ponto da economia qualquer. É preciso, para que essa ilha dos amores possa existir, que o homem possa entender que o capitalismo existe, não para ficar continuamente, tendo mais lucro, contando mais juros, e pagando mais divídas pedindo mais dinheiro emprestado, mas terminar num ponto em que a economia desapareça completamente, em que haja tudo para todos. Primeiro ponto. Segundo ponto: que aí o homem possa passar à sua verdadeira vida, que é a de contemplar o mundo, ser poeta do mundo, e o mundo poeta para ele, de tal maneira que nunca mais ninguém se preocupe com fazer tal ou tal obra, mas por ser tal ou tal objecto no mundo, a identidade dele, a única. O ser único que existe no mundo entre os tais biliões de seres que pelo mundo existem. Então isso aí é alguma coisa que muita gente hoje pode ter como ideal. Muita gente tem como ideal e toda a gente, podemos dizer, tem como ideal. Com um feitio, com outro feitio, de uma maneira, ou de outra maneira, e que talvez realmente um dia tome conta de todo o mundo.


Agostinho da Silva

Cartas a Lucílio

Qual a causa que provoca, em certas épocas, a decadência geral do estilo ? De que modo sucede que uma certa tendência se forma nos espíritos e os leva à prática de determinados defeitos, umas vezes uma verborreia desmesurada, outras uma linguagem sincopada quase à maneira de canção? Porque é que umas vezes está na moda uma literatura altamente fantasiosa para lá de toda a verosimilhança, e outras a escrita em frases abruptas e com segundo sentido em que temos de subentender mais do que elas dizem? Porque é que nesta ou naquela época se abusa sem restrições do direito à metáfora? Eis o rol dos problemas que me pões. A razão de tudo isto é tão bem conhecida que os Gregos até fizeram dela um provérbio: o estilo é um reflexo da vida! De facto, assim como o modo de agir de cada pessoa se reflecte no modo como fala, também sucede que o estilo literário imita os costumes da sociedade sempre que a moral pública é contestada e a sociedade se entrega a sofisticados prazeres. A corrupção do estilo demonstra plenamente o estado de dissolução social, caso, evidentemente, tal estilo não seja apenas a prática de um ou outro autor, mas sim a moda aceite e aprovada por todos.
Não é possível o espírito ter uma tendência e a alma ter outra. Se a alma é sadia, senhora de si, severa e comedida, o espírito será igualmente grave e sóbrio; quando a alma é viciosa, o espírito também degenera. Não vês tu que, se a alma é débil, as pessoas arrastam o corpo e só a custo se movem? Que, se a alma é efeminada, até no modo de andar se nota essa moleza? Que, se ela é, pelo contrário, ardente e forte, a marcha se torna acelerada? Que ainda, no estado de loucura, ou de cólera (que, aliás, é um estado semelhante à loucura) o movimento do corpo se torna caótico, descontrolado, sem sentido definido ? Todos estes sintomas se tornarão mais evidentes ainda no que concerne ao espírito, já que este está totalmente impregnado pela alma, da qual recebe a sua forma, à qual obedece, a cuja lei se submete.


Séneca

so you want to be a writer?
by Charles Bukowski

if it doesn't come bursting out of you
in spite of everything,
don't do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don't do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don't do it.
if you're doing it for money or
fame,
don't do it.
if you're doing it because you want
women in your bed,
don't do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don't do it.
if it's hard work just thinking about doing it,
don't do it.
if you're trying to write like somebody
else,
forget about it.


if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.

if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you're not ready.

don't be like so many writers,
don't be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don't be dull and boring and
pretentious, don't be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don't add to that.
don't do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don't do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don't do it.

when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.

there is no other way.

and there never was.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Melhor do que a primeira vez só mesmo o regresso do que julgávamos para sempre perdido.

A NOVA LUTA DE CLASSES

Há dias, no programa Prós e Contras, um conselheiro de "empreendedorismo" teorizava, de forma prosélita e desenvolta, sobre as más escolhas de "projecto de vida" que justificariam muito do desemprego actual. Era evidente pela conversa, que achava que existia uma espécie de culpa individual em se estar desempregado. Pelo meio, perguntou, com evidente escárnio, a um desempregado se este tinha tirado um curso de História, uma imprevidência para quem quer ter um emprego. Não tenho dúvida de que quem formulava esta pergunta fazia parte de um dos lados do novo binómio da luta de classes descrito por Passos Coelho, o dos "descomplexados competitivos". O curso de História, se tivesse feito parte do currículo do desempregado, colocá-lo-ia de imediato na categoria de "preguiçoso autocentrado", antiquado e inútil, "piegas" e queixoso, a quem é preciso dar um abanão de pobreza a ver se se torna "competitivo". Estamos, como já referi, perante uma nova forma de luta de classes: a que opõe "descomplexados competitivos" a "preguiçosos autocentrados". Pelos vistos, uma característica destes últimos é que se interessam por História. 


É verdade que saber História vale muito pouco no mercado de trabalho, mas também é verdade que saber Matemática pura, Física Teórica, Astronomia, Biologia Molecular, já para não falar de Filosofia, Sociologia, Geografia, Grego Clássico e Latim, Literatura Portuguesa, também não valem muito mais. E, by the way, os milhares de licenciados em Marketing, Economia, Jornalismo, ou como se diz agora "Ciências de Comunicação", Artes Performativas, Arquitectura, Composição, os pianistas, violoncelistas, violinistas, também não vão muito longe. Seguindo o critério do nosso mago do "empreendedorismo", não é muito difícil, e no meu caso gratuito, aconselhar cursos seguros e certos. Eu costumo aconselhar maltês, uma língua de que há enorme escassez de tradutores e intérpretes na UE, e o turco, russo, chinês e árabe também podem fazer parte do currículo dos candidatos a "descomplexados competitivos". Mandarim ou cantonês de certeza que têm futuro, assim como "beber a água do Bengo", na exacta composição químico-financeira corrente para esses lados.


Saber de História não é garantia de nada, nem o conhecimento da História garante que se saiba governar um país. Mas ajuda, ajuda pelo menos a ter-se uma visão menos cega da nossa missão no governo das coisas privadas e públicas, e a conhecer alguma coisa sobre os limites do voluntarismo político. E ajuda bastante a não se ser ignorante, nem a se actuar como um ignorante quando se pensa que tudo começa em nós, essa ilusão adâmica muito corrente nestes dias.


A História ajuda nas coisas grandes e nas pequenas, torna o mundo mais interessante e alimenta a curiosidade e o engenho. Para gostar de comer um croissant não é preciso olhar para ele com os olhos da História e perceber que se está a cometer um acto muito pouco politicamente correcto de turcofobia, ou, pior, de islamofobia. Mas quem sabe o que é e de onde vem ocroissant, costuma saber um pouco mais sobre a História da Europa e isso faz bem à sanidade do debate público. Muita asneira que para aí circula sobre os feriados e o seu significado, sobre a Maçonaria, sobre o comunismo, sobre o fascismo, sobre a democracia, poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História. 


A História, como todas as formas de cultura viva, é uma forma de saber e olhar. Engana e ilude muito, mas também modera a tendência para a vã glória. Se é que a História nos ensina alguma coisa, é que poucas coisas são realmente importantes e que 99,99% dos casos o que fazemos pouco muda, ou não muda nada. Para os governantes, é obrigatório, para se enxergarem melhor, uma actividade que normalmente não lhes "assiste". Países como o Reino Unido, ou os EUA, têm a História no centro da política, o que nem sempre dá bons resultados, como se vê em França, onde todos os Presidentes do passado achavam que eram uma encarnação de Vercingétorix, Joana d"Arc, Luís XIV, Napoleão ou De Gaulle e os actuais já ficam contentes em serem como o Astérix.


O discurso de Odivelas do primeiro-ministro ganhava alguma coisa com a História, embora, como ele se encontra na categoria dos "descomplexados competitivos", não ligue muito a uma disciplina dos perdedores. Mas assim saberia que, antes de nomear os "preguiçosos autocentrados" como seus adversários, deveria pensar duas vezes sobre o papel que o epíteto de "preguiçosos" tem quando é usado genericamente para designar grupos ou comportamentos sociais. Para os colonos, os "pretos" eram a quinta-essência dos "preguiçosos" e por isso deviam ser obrigados a trabalhar à força de castigos corporais. Puxem pela língua a muitos patrões e aos seus capatazes (hoje chamam-se "responsáveis pelo pessoal"), às "patroas" sobre as suas "criadas", e o epíteto de "preguiçoso" aparece quase de imediato. Em países em que coexistem zonas industrializadas com regiões rurais, os habitantes dessas regiões, o Alentejo, a Galiza, a Andaluzia, o Sul de Itália, são descritos em anedotas como "preguiçosos". Nos campos trabalha-se muito, dependendo do ciclo agrícola, e há períodos de inactividade, onde, como toda a gente sabe das anedotas, os alentejanos estão debaixo de um "chaparro" a ver o mundo passar em slow motion

Existe, aliás, outra classificação que costuma vir junto, a de associar essa ruralidade à falta de inteligência e dificuldade em socializar de forma adequada, ou seja, não só eram estúpidos, limitados, como não sabiam comer à mesa. É para isso que servem os epítetos de "saloios" ou de "labregos", a interessante migração da palavra galega para camponês, que veio junto nos anos trinta e quarenta do século XX com os galegos, que a miséria da sua terra trouxe para trabalhar em mercearias e restaurantes, ou outros ofícios menores, em Lisboa e no Porto. O problema da História é este, o de tornar poucas palavras inocentes.


Na luta de classes entre os "descomplexados competitivos" e os "preguiçosos autocentrados", a ordem dos pares é interessante, quer na parte social, quer na do psicologismo vulgar. Os "preguiçosos" são primeiro preguiçosos e s?? depois são "autocentrados", e os "competitivos" são primeiro "descomplexados" e é por isso que são "competitivos". Os pares têm, por isso, uma ordem invertida: nos "preguiçosos", avulta a condição social, nos "descomplexados", a psicologia domina. Embora provavelmente nada disto tenha sido muito pensado e saiu assim, como poderia ter saído de outra maneira semelhante, este dualismo revela aquilo que os sociólogos chamam as background assumptions do seu autor. Os que estão presos na sua condição social, deixam soçobrar a sua psicologia no egoísmo; os dinâmicos psicologistas ultrapassam a sua condição social pelo êxito no mercado. 


O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os "preguiçosos"), cultivando um egoísmo social assente em pretensos "direitos adquiridos" ("autocentrados"); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma "cultura empresarial", capazes de correrem riscos ("competitivos"), sem cuidarem de terem "direitos" para subirem "por mérito" na escala social ("descomplexados"). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa.


A História está cheia destes dualismos, velhos como o tempo, mas típicos da linguagem abastardada do poder dos nossos dias. É um esquema assente numa mistura de demonização e dewishful thinking, que circula assente num moralismo social, também típico dos dias que passam. A História revela o poder destrutivo deste tipo de discursos, que se tornam, de um momento para o outro, socialmente insuportáveis. 


Esse momento ainda não se deu, e os papagaios do "pensamento único" repetem este discurso sem pararem para pensar. Ou sequer para ler alguma coisa de História, mesmo com o risco de se tornarem "preguiçosos autocentrados".

Pacheco Pereira

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Medalhas que abranjam Al Pacino e Amartya Sena são medalhas dignas do nosso respeito.
Meu gesto que destrói
A mole das formigas,
Tomá-lo-ão elas por de um ser divino;
Mas eu não sou divino para mim.

Assim talvez os deuses
Para si o não sejam,
E só de serem do que nós maiores
Tirem o serem deuses para nós.

Seja qual for o certo,
Mesmo para com esses
Que cremos serem deuses, não sejamos
Inteiros numa fé talvez sem causa.

Ricardo Rei
- Tenho pensamentos por vezes quando estou sentado no sofá, muitos pensamentos que surgem de repente e que são espantosos, coisas que nenhum Kant escreveu. Ninguém conhece quem eu sou. Nem eu poderia dar-me a conhecer. Julgariam que sou louco. Até tu, Angel.

domingo, fevereiro 12, 2012

Um dos tópicos que mais procuro ler sobre. A justificação: Porque é que devemos fazer o Bem e não o Mal?
Sócrates é tautológico. A virtude é boa porque é boa. O Bem é bom porque é bom, se assim não fosse não seria o bem.
A Bíblia diz que o Bem é o caminho estreito e o Mal o caminho largo. É mais fácil deitar alguém abaixo do que recobrá-lo (até fisicamente). Basta-me ir ao meu vizinho do lado e cegá-lo para o fazer infeliz por muito tempo. Mas como poderei nesta noite fazer-lhe algo que o torne feliz por muito tempo?
Peter Singer sustenta que seguir a Ética é escolher o lado do juiz universal, considerando os nossos interesses e os do Outro na mesma medida. E não acredita numa felicidade que dispense a ética. Se não tivermos um horizonte ético, todas as acções podem servir objectivos, mas esses objectivos que objectivo servem? A Ética é para ele esse objectivo que nos situa e que nos faz sentir em irmandade com as coisas - o nosso sentido é coincidente com um sentido maior.

Princípios

Considerava que os princípios eram a coisa mais bonita e mais importante na vida.

Aos oito anos, por se recusar a denunciar o colega que praticara uma graçola considerada ofensiva, ficou de castigo.

Aos catorze, combinou com os rapazes boicotar o exame de Geografia de uma professora que aparecera três ou quatro aulas e tinha alunos dilectos. Todos acederam. No dia do exame, todos recuaram, um a um.

Ele foi até ao fim. E teve zero.

Quando tinha vinte anos, passou um ano a pôr um processo a uma associação de estudantes que roubara, praticara tráfico de influências, falseamento de cheques. Ganhou inimigos (muitos), teve ameaças anónimas por telefone (uma à sua própria vida), perdeu um ano escolar a coligir dados.

Quando tinha vinte e quatro, trabalhou numa empresa que demitiu um colega. Foi testemunha dele e acabou por ser posto fora.

Quando tinha vinte e oito, liderou um jornal que lhe disseram que se continuasse a expor casos de determinado autarquia, acabaria sem fundos da mesma. E falido. Assim sucedeu.

Irá ele aguentar-se ele até ao fim?



Pela grafia dupla




No “Público” de[8/02/2012], graças à Cláudia Carvalho e à Isabel Coutinho, estava a solução do desacordo ortográfico. Descobriram-nas nas palavras de dois inteligentes amigos meus: as de António Emiliano, da Universidade Nova de Lisboa, e as de António Feijó, da Faculdade de Letras de Lisboa. Os portugueses gostam tanto de obedecer como depôr os outros a obedecer. Brigam muito, mas acham que a briga deve acabar por acabar.
Quando isso acontecer, uns ganham e os outros perdem. A partir desse momento, os que perdem devem obedecer aos que ganham.Numa coisa, secretamente sinistra, todos concordam: uma vez estabelecida a"norma" (pense na ópera de Bellini), todos devemos obedecer.
Porquê? É difícil de ler o Miguel Sousa Tavares no Expresso que segue o AO? Ou o Rui Tavares [no “Público”], que não segue? Claro que não. Habituemo-nos então às duplas grafias. Concordemos em discordar.
Nos dicionários registem-se as duas variantes, com a devida indiferença. Daqui a cinquenta anos, ver-se-á quais são as grafias mais e menos populares. É assim que a ortografia irá mudando: naturalmente, mas saudavelmente constrangida por apenas duas versões, ambas correctas ou corretas.  Eu leio a última palavra como se rimasse com "forretas" e significasse quem corre e foge mal haja um problema. Mas percebo que haja quem leia "correcto" como analmente retentivo. E exija castigo correcional nas nádegas, somando o cu e o recto.
Vivamos em Desacordo Ortográfico.

Miguel Esteves Cardoso

Consoantes mudas ou colunistas surdos?


O colunista Rui Tavares decidiu adoptar, na sua crónica de 6 de Fevereiro, um tom pretensamente jocoso para criticar a decisão do novo presidente do CCB, Vasco Graça Moura, de não aplicar o chamado “acordo ortográfico” imposto aos portugueses, apesar da forte mobilização que se registou no país contra ele e do facto de dois dos maiores países de língua ofi cial portuguesa, Angola e Moçambique, não terem ratificado o respectivo tratado. Fez mal. Quis ser engraçado, mas não teve piada.
O assunto é demasiado sério e não se resolve com ofensas avulsas contra uma pessoa que há mais de uma década se dedicou a rebater os escassos argumentos esgrimidos por alguns raros dicionaristas agindo por conta de interesses políticos mal compreendidos. Tavares apresenta-se como arauto do alinhamento da ortografi a do Português europeu pela do Português do Brasil, mas não adianta um único argumento a favor do “acordo”.
Mistura alhos com bugalhos e agita todos os episódios da crónica política recente para “gozar” com as justificadas dúvidas de Graça Moura e dezenas de milhares de outros portugueses (e alguns brasileiros) que conseguiram bloquear a primeira tentativa de nos impingir o dito “acordo”. Porém, toda a sua jocosa pirotecnia não acrescenta um átomo às débeis falácias dos professores Houaiss e Casteleiro, quando entenderam “fazer política com a língua” em vez de “fazerem verdadeira política da língua”, como acontece igualmente com Tavares.
Ora, o “acordo” não é mau para um país abstracto chamado Portugal e para os “conservadores” de quem o colunista se pretende rir. Nem sequer é apenas mau para a ortografi a e a fonética do Português europeu; é mau sobretudo para a já de si defi ciente aprendizagem do Português. Só para dar um exemplo, as consoantes mudas” que Tavares pretendeu ridicularizar logo no título da crónica não são tiques de bota-de-elástico. Têm funções fonéticas e etimológicas relevantes que só o esquecimento, para não dizer outra coisa, faz desprezar. Foneticamente, abrem as vogais que se lhe seguem e permitem distinguir, por exemplo, “recessão” de “recepção”, já que a tendência do Português europeu falado é, como se sabe, para o chamado “emudecimento” das próprias vogais não sinalizadas.
Além disso, etimologicamente as ditas consoantes “mudas” servem para identifi car étimos comuns, não só dentro do próprio Português, como por exemplo em “Egipto” e “egípcio”, sendo o “p” alegadamente mudo na primeira palavra e pronunciado na segunda; como também para identifi car étimos comuns noutras línguas europeias: “acção” e “activo”, por exemplo, pertencem a uma vasta família etimológica presente não só em línguas latinas como o Francês (“action”, “actif”) mas também no Inglês (“action”, “active”). Por outras palavras, a etimologia e a sua representação gráfica ajudam-nos a saber de onde vimos, se é que a história conta alguma coisa para quem se assina como historiador.
A cedência à ortografi a brasileira talvez faça vender alguns dicionários mas será altamente prejudicial para a aprendizagem da língua pelas futuras gerações de Portugueses da Europa, que já não precisam de ser desajudados. As profundas alterações introduzidas pelo presente “acordo” na ortografi a portuguesa não são equivalentes à substituição do “ph” de “pharmácia” por “f ”, pois esta alteração não afectou a fonética da palavra, como a supressão do “c” mudo afectará a pronúncia dos compostos do étimo “afecto” se este “acordo” for por diante. Ignora Rui Tavares o que aconteceu ao fonema “güe” na palavra “bilingüe” quando o trema foi suprimido em Portugal (o Brasil não nos acompanhou e fez bem)?
O colunista devia saber que é muito feio tentar desvalorizar os argumentos alheios com piadas de mau gosto. Não foi à toa que a grande maioria dos linguístas portugueses e muitos brasileiros não cedeu a mal compreendidas motivações políticas na defesa da ortografi a, da fonética e da etimologia do Português em que nos temos entendido, até agora, neste pequeno rectângulo do Sudoeste europeu. Tanto mais que, como é bem sabido, o Português falado e escrito no Brasil não vai parar a sua fortíssima dinâmica própria lá porque a classe política portuguesa assinou um “acordo” artificial que só prejudica a aprendizagem e o correcto domínio do Português de cá!
Manuel Villaverde Cabral

Personagens literárias decalcadas por moldes tipo FBI

http://thecomposites.tumblr.com/

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

A discussão era a seguinte. Um apresentador de um programa televisivo na Holanda alegara ter uma doença terminal e pedira dinheiro para a custosa operação. O apelo mediático foi tal, que se recolheu dinheiro para ajudar doze mil pessoas. Semanas mais tarde, o apresentador dizia que não tinha nada - que aquilo fora apenas uma forma de angariar dinheiro para as pessoas portadoras daquela doença e para chamar a atenção para a necessidade de apoio das mesmas.

Uns argumentavam que, de um ponto de vista utilitarista, tal artifício permita ajudar efectivamente 12 000 pessoas, quiçá salvando-as da morte. E esse argumento era irrespondível.

Outros argumentavam que tal engenhosidade assentava na exploração de uma mentira, que tinha feito as pessoas dadivosas passarem por parvas e que doravante numa campanha que apelasse à verdade na Holanda, as pessoas desconfiariam de que se trataria de novo embuste.

Dei por mim a pensar no conflito entre realistas e simbolistas.

E a pensar que os segundos têm menos espaço no mundo hodierno.
- Eu excito-me com homens que sinta inferiores. Quanto mais indefesos e vulneráveis, mais me excito. Aquilo que para muitas é repugnante, para mim, é o máximo da excitação. Tenho fantasias com drogados esqueléticos, presos, farrapos humanos. Sei que há uma gata dentro de mim que quer sair à noite e satisfazer todos os sem-abrigo e homens do lixo, desde que frágeis, imundos e tímidos; e os velhos no autocarro em que ninguém toca e que precisam de consolo.
- Trabalhar para quê, se o trabalho nunca acaba?

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Madras Rouge, Matisse


«Não te preocupes com os os que os outros pensam. Ocupa-te só em SER.»

Quando li isto, pensei: «Que cliché. Que coisa tão tipicamente de auto-ajuda.»

Quando me deitava, a frase flutuava sobre os lençóis.

Não me tem largado.

Parece-me resumir tanto o que é a vida e a Nossa Caminhada.

Poema Pintado, Miró


Do Real

Uma professora de Português contou-me que a sua turma do 10.º ano com trinta alunos, quando questionada sobre a luxúria que determinado poema encerrava, nem um sabia o significado - remoto que fosse - da coisa.

A maioria interpretou que seria viver com luxo.
Em fases de intensa aculturação, não subestimes o risco de te considerares um ser superior.
Passava discreto. Ao fim de algum tempo, começaram a notar que as pessoas que se deixavam de se dar com ele eram acometidas de coisas... menos agradáveis. E que as pessoas que começavam a dar-se com ele eram inundadas de acasos felizes.

Ganhou vários epítetos. O Mafioso do Bem. Alguém-que-não-é-deste-mundo. Gestor de vidas.

Nem sempre o mistério implica esconder algo negativo.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Borges disse que se vivêssemos cinco mil anos, todos escreveríamos A Odisseia.
Hemingway disse que qualquer aspirante a poeta que não conhecesse a obra de Pound era mais digno da nossa pena do que da nossa raiva.
O regime Khmer Vermelho, entre 1975 e 1979, no Camboja, é das monstruosidades menos conhecidas na sua particular barbaridade. A ditadura de Pol Pot é um exemplo do que as engenharias sociais que pretendem criar um homem novo. Fome, tortura e um milhão e meio de mortos (um quinto da população do Camboja).
Para criar o homem novo, igualitário, anti-intelectual, trabalhador incansável dos campos, e incontaminado pela educação burguesa, o regime de Pol Pot retirou as pessoas dos campos (retirou os próprios doentes dos hospitais) e levou-os à força para o campo. Quem tinha óculos (sinal de intelectualidade) era obrigado a tirá-los. Os filhos eram apartados dos pais para serem educados pelo Estado, que eram ensinados a amar e a louvar, longe da educação familiar tradicional - longe de qualquer resíduo burguês. Nos campos, trabalhava-se horas a fio a troco de escassas refeições (os membros do Partido tinham acesso a lautas refeições) e reacções de riso ou de choro eram proibidas e sancionadas - o trabalho era uma coisa séria. O dinheiro, pasme-se, foi abolido. Trabalhava-se a troco de bens materiais (refeições). As primeiras gerações sofreriam, mas gradualmente todos se adaptariam e evoluiriam no sentido da construção do Admirável Homem Novo.
Com a enorme diferença que há entre um regime ditatorial e um regime democrático, assistimos hoje, não só em Portugal (de onde tudo, a começar pelas ideias, vem de fora), a uma nova engenharia social. O neoliberalismo quer criar um homem produtivo, trabalhador, tecnocrata, ambicioso e poupado.
A acompanhar as medidas de austeridade (assimetricamente aplicadas e classistas) que se orgulha de serem mais troiquistas do que a troica, o nosso primeiro-ministro e o seu séquito catequizam-nos diariamente para sermos «mais exigentes», «menos piegas», a emigrarmos, a sairmos da «zona de conforto», a «pouparmos mais», a consumirmos menos e com mais discernimento, a deixarmos de olhar para os desfavorecidos como os «coitadinhos», a procurarmos a excelência. Há uma intenção de criar um português novo. As engenharias sociais nunca correram bem.
Adriano Moreira, Pacheco Pereira, Manuela Ferreira Leite, Rui Rio ou Cavaco Silva, nenhum deles conhecido pelo seu perigoso esquerdismo, afirmam que o caminho trilhado não conduzirá ao crescimento económico e que só afundará mais o país no seu credo do mercado sem freio (palavras de Adriano Moreira).
É verdade que Passos Coelho tomou medidas que negou veemente tomar caso fosse eleito. Mas também é verdade que o seu programa eleitoral era conhecido, que as suas entrevistas e o seus escritos, nomeadamente em livro, mostravam o liberal económico na senda de Friedman, de Hayek e da Escola de Chicago. Tivessem estado atentos.

Para quem quiser conhecer o fenómeno dos Khmer Vermelhos relatado por uma sobrevivente.


Para quem quiser conhecer a mentalidade, a estrutura interna, o raciocínio implacavelmente frio e lógico do comunista  (um livro tão bom, que li duas vezes seguidas) - ou então o que é viver numa prisão. A tradução do título vem da edição francesa. O original chama-se Darkness at Noon.


Infelizmente, o potencial da Internet, tão propício à gargalhada ocasional e vazia, não serve para registar as coisas importantes que a memória não deve elidir.

Pacheco Pereira, na sua fase maiosta, escreveu ser um livro de António José Saraiva que acabara de sair «um livro para queimar».

Vasco Graça Moura defendeu a pena de morte.

A actual ministra da Justiça defendeu que os pedófilos deveriam ser perenemente estigmatizados e que as comunidades para onde iam deviam todas saber a fotografia e a identidade do outrora condenado quando pedófilo. (Uma forma de prisão perpétua.) Aconselhar-lhe-ia: http://www.imdb.pt/title/tt0361127/


O Frio


Está frio. Seria bom acordarmos ao meio-dia, chatearmo-nos com o tempo e deitarmo-nos às seis da tarde. A hibernação faz sentido. Foi pena a evolução ter-nos roubado essa capacidade, se é que alguma vez passámos por ursos, que é o mais provável. 
Só com muito optimismo se pode dizer, como já ouvi, que, a partir do meio-dia, as tardes parecem as madrugadas frias do princípio do Verão. Está frio e a chatice do frio, para quem tem sorte, é estar sempre a mudar de temperatura. Só na cama, quando se acorda ou depois de amor carnal, é que se fica com a temperatura certa. 
Durante o resto do dia e da noite ou se está frio de mais ou quente de mais, ou, pior ainda, a transitar de frio de mais para não suficientemente quente ou de quente de mais para um frio demoníaco.

Cada abertura de uma porta, cada vestir ou despir de uma camisola, cada entrada ou saída duma casa, dum carro ou duma sala é uma ameaça, um ataque, uma desilusão. O frio é uma lembrança de como dói não estarmos livres de sofrer (embora o resto do mundo nos ache com sorte). 
Está frio. Mas não há ninguém que nos defenda. Até porque estamos, porventura irritantemente, melhores do que os outros todos. Que também não estão com calor.
O frio é a nossa praga, rainha, oportunidade de nos passarmos para o outro lado. O frio que está é uma lembrança do futuro. É um sinal que temos de lutar para estarmos quentes. Cada dia é uma queda física, à espera de uma ascensão de qualquer espécie. Aqueça-se.


       Miguel Esteves Cardoso