terça-feira, janeiro 31, 2012

O ultra-romântico acredita que basta amar do seu lado - um dia o amor triunfará.

O romântico crê que se dois gostam um do outro, isso bastará.

E há quem não acredite nem numa coisa nem noutra.

segunda-feira, janeiro 30, 2012

fideísta
adjetivo uniforme
1.relativo ao fideísmo
2.que é partidário do fideísmo
nome 2 géneros
1.pessoa que antepõe a fé à razão
2.partidário do fideísmo

A propósito da célebre frase de Sartre de que «o Inferno são os outros», o filósofo de rosto afável e corpo sorridente Étienne Gilson disse: «Mas eu quando venho de fora e chego ao aeroporto e tenho uma pessoa lá à espera, fico tão contente.»
As pessoas que precisam de legendas para toda a realidade - sem preto e branco, perdem-se na realidade informe dos matizes de cinzento.
Uma mente ágil consegue lidar com uma grande quantidade de incerteza, com paradoxos. Uma inteligência de primeira água, como escreveu o outro, mede-se pela sua capacidade de albergar duas ideias contraditórias sem perder a sua capacidade de funcionamento.
Tudo isto a propósito de uma frase que li: «O suicídio é multidimensional.»
Uma carrinha da ZON tomba no meio da estrada. Vês as caras em teu redor - todos ansiosas e preocupadas e tristes. Acorrem a ajudar o sinistrado (que escapa incólume). Lembras-te de que o ser humano é naturalmente bom. Parece ingénuo. Mas não é. Quando não está em causa o seu interesse, numa situação em que um humano vê um desconhecido a sofrer, ele natural e instintivamente sofre com ele (com-paixão). Já Rosseau escrevera que quando um homem encontra um estranho atado na selva a agonizar, a sua inclinação natural será libertá-lo.

O problema é que o instante de destruição é mais impactante do que os milénios de criação. Podes criar um castelo durante séculos que o momento em que é destruído é que será notícia, é que se gravará na tua mente.

O mal está sempre à tua beira, facílimo de ser alcançado - podes sair de casa e matar o teu vizinho em menos de um minuto, mas em menos de um minuto dificilmente conseguirás, por mais vontade que tenhas, salvar uma vida.
Inventar o que já existia, torná-lo palpável e concreto - eis um processo kafkiano dizemos depois de Kafka, eis uma lolita dizemos após Nabokov. Proust, além de ter definido o tempo e o metatempo (partindo de Bergson), descobriu e definiu o estado de semisono - basta ler a primeira página de La rech... (Uma tarefa que requer meia-hora.)
- Quando alguém é bondoso comigo, sinto-me em perigo; é que deixei de ter defesas.

domingo, janeiro 29, 2012


- Nunca consegui encontrar aquela que reunisse a intensidade e a doçura certas. Ou dão bom sexo e mau colo ou mau sexo e bom colo.

sábado, janeiro 28, 2012

Antónimos estúpidos ou como o cristianismo doutrinário foi corrompido pela direita

Carvalho da Silva, comunista e católico.
Carlos do Carmo, idem.
Leonard Boff, marxista cristão.
Agostinho da Silva, anarco-cristão.
Tosltoi, idem. (Ele que morreu na demanda desse ideal, despojando de tudo o que possuía, incluindo a família numerosa.)
O «Bispo de Setúbal» que, entre muitas outras medidas radicais, defende a ocupação de casas devolutas porque «o direito à habitação sobrepõe-se ao direito à propriedade» e a retirada do ouro das igrejas.
Pureza do Bloco de Esquerda é católico.
Cesariny, dissoluto, poucos saberão que era cristão e teve cerimónias fúnebres (a seu pedido) como tal.
O próprio Estaline (um monstro) andou no seminário.


Cunhal afirmou: «Se Cristo fosse vivo, sentir-se-ia muito mais próximo dos comunistas.»

quinta-feira, janeiro 26, 2012

http://www.listsofnote.com

Late-1979, New York Times columnist William Safire compiled a list of "Fumblerules of Grammar" — rules of writing, all of which are humorously self-contradictory — and published them in his popular column, "On Language." Those 36 fumblerules can be seen below, along with another 18 that later featured in Safire's book, Fumblerules: A Lighthearted Guide to Grammar and Good Usage.

Trivia: Safire previously worked as a speechwriter and was, in 1969, responsible for penning Nixon's thankfully unused and incredibly chilling, "IN EVENT OF MOON DISASTER" speech.

(Source: Maximum Awesome; Image: William Safire in 1968, courtesy ofNYTimes.)

  1. Remember to never split an infinitive.
  2. A preposition is something never to end a sentence with.
  3. The passive voice should never be used.
  4. Avoid run-on sentences they are hard to read.
  5. Don't use no double negatives.
  6. Use the semicolon properly, always use it where it is appropriate; and never where it isn't.
  7. Reserve the apostrophe for it's proper use and omit it when its not needed.
  8. Do not put statements in the negative form.
  9. Verbs has to agree with their subjects.
  10. No sentence fragments.
  11. Proofread carefully to see if you words out.
  12. Avoid commas, that are not necessary.
  13. If you reread your work, you can find on rereading a great deal of repetition can be avoided by rereading and editing.
  14. A writer must not shift your point of view.
  15. Eschew dialect, irregardless.
  16. And don't start a sentence with a conjunction.
  17. Don't overuse exclamation marks!!!
  18. Place pronouns as close as possible, especially in long sentences, as of 10 or more words, to their antecedents.
  19. Hyphenate between sy-llables and avoid un-necessary hyphens.
  20. Write all adverbial forms correct.
  21. Don't use contractions in formal writing.
  22. Writing carefully, dangling participles must be avoided.
  23. It is incumbent on us to avoid archaisms.
  24. If any word is improper at the end of a sentence, a linking verb is.
  25. Steer clear of incorrect forms of verbs that have snuck in the language.
  26. Take the bull by the hand and avoid mixing metaphors.
  27. Avoid trendy locutions that sound flaky.
  28. Never, ever use repetitive redundancies.
  29. Everyone should be careful to use a singular pronoun with singular nouns in their writing.
  30. If I've told you once, I've told you a thousand times, resist hyperbole.
  31. Also, avoid awkward or affected alliteration.
  32. Don't string too many prepositional phrases together unless you are walking through the valley of the shadow of death.
  33. Always pick on the correct idiom.
  34. "Avoid overuse of 'quotation "marks."'"
  35. The adverb always follows the verb.
  36. Last but not least, avoid cliches like the plague; They're old hat; seek viable alternatives.
  37. Never use a long word when a diminutive one will do.
  38. Employ the vernacular.
  39. Eschew ampersands & abbreviations, etc.
  40. Parenthetical remarks (however relevant) are unnecessary.
  41. Contractions aren't necessary.
  42. Foreign words and phrases are not apropos.
  43. One should never generalize.
  44. Eliminate quotations. As Ralph Waldo Emerson said, "I hate quotations. Tell me what you know."
  45. Comparisons are as bad as cliches.
  46. Don't be redundant; don't use more words than necessary; it's highly superfluous.
  47. Be more or less specific.
  48. Understatement is always best.
  49. One-word sentences? Eliminate.
  50. Analogies in writing are like feathers on a snake.
  51. Go around the barn at high noon to avoid colloquialisms.
  52. Who needs rhetorical questions?
  53. Exaggeration is a billion times worse than understatement.
  54. capitalize every sentence and remember always end it with a point

Eis o modelo. Alguém que te tira do sério muitas vezes, que te induz fúria, tristeza, ressentimento, mas também sensações únicas, felicidade, e que sabe sempre, no instante anterior ao fim, cobrir-te de pétalas de rosa. Para cada paulada, uma colher de mel. E quando estás a pensar mal desse alguém, eis que esse alguém surge mais doce do que nunca, e por um tempo suficientemente prolongado, aprofundando o teu estado dubitativo, eternizando o «benefício da dúvida», até ao próximo cravejar de balas.

Sempre que o túnel parece apertar-te e esmagar-te, esse alguém acende-te uma luz verde ao fundo, tantalizando-te numa espiral infinita.

Vergonha e desemprego


1.Cavaco devia ter vergonha de invocar a sua condição de pensionista e de usufruir de duas pensões quando está ainda no activo, a trabalhar a tempo inteiro, como Presidente de República.
Cavaco devia ter vergonha de ter prescindido do seu salário de Presidente da República para poder receber mais uns milhares de euros, quando deixou legalmente de poder acumular as suas pensões com esse ordenado. E de insinuar que o facto de prescindir do salário de PR em favor das suas pensões se deveu a um gesto voluntário, quando a escolha entre os dois rendimentos era um imperativo legal.
Cavaco devia ter vergonha de insinuar que o facto de prescindir do salário de PR em favor das suas pensões se deveu a um gesto de abnegação, quando a escolha que fez consistiu apenas em escolher o maior rendimento possível.
Cavaco devia ter vergonha de referir a sua pensão de 1300 euros como se fosse a sua única ou principal fonte de rendimento, quando não é. E de escamotear o montante da sua pensão como funcionário do Banco de Portugal, dizendo não saber exactamente qual é. Cavaco devia ter vergonha de dizer “aos senhores jornalistas” que poderiam inteirar-se facilmente do valor da sua pensão do BdP, quando sabe que essa informação não é fornecida pela instituição nem seria fornecida por ele próprio.
Cavaco devia ter vergonha de esconder o facto de, apesar de não receber salário como PR, ter as suas despesas pessoais pagas pela Presidência da República.
Cavaco devia ter vergonha de se queixar da sua situação financeira quando conhece a situação de fragilidade da esmagadora maioria dos portugueses, quando sabe que em Portugal o salário médio é de 800 euros líquidos, que um quinto das famílias vive abaixo do limiar de pobreza, quando conhece a situação miserável em que vive a maioria dos verdadeiros pensionistas, com pensões de 200 e 250 euros (devido aos diplomas que ele próprio promulga), quando sabe que existem em Portugal um milhão de desempregados, muitos dos quais sem subsídio.
Cavaco devia ter vergonha de se recusar a esclarecer cabalmente os seus negócios com o BPN e a compra da sua casa em Albufeira e de tentar intimidar quem pede os esclarecimentos a que todos temos direito. Cavaco devia ter vergonha de dizer que já esclareceu tudo o que há para esclarecer sobre as suas finanças quando apenas publica notas crípticas a propósito de metade dos factos que todos os portugueses gostariam de conhecer.
Cavaco devia ter vergonha de ter uma tal duplicidade de critérios que considera a sua pensão de 1300 euros como miserável, mas as pensões muito inferiores de muitos outros cidadãos como adequadas.
Cavaco devia ter vergonha de se apresentar como um pobre pensionista com dificuldades quando possui uma situação de total desafogo financeiro e de objectivo (e compreensível) privilégio. Cavaco devia ter vergonha de estar em tal dessintonia com o país e com os portugueses que diz representar.
Cavaco devia ter vergonha. Mas não tem. Cabe-nos a nós ter vergonha por ele.
2.O “acordo de concertação social” assinado na semana passada vem aumentar o número de dias de trabalho, liberalizar os despedimentos e reduzir os apoios aos despedidos e desempregados. Como o Governo, os patrões e atroikapretendiam. O acordo é sustentado por um discurso oficial que diz que estas medidas promovem a “competitividade da economia” e fazem “crescer o emprego”. Mas é apenas uma táctica para facilitar despedimentos e pauperizar os desempregados. Os trabalhadores vão ganhar menos, ser mais maltratados nos seus empregos, postos na rua mais facilmente, despedidos por razões arbitrárias ou por delito de opinião, vão ter indemnizações mais baixas, subsídios de desemprego mais reduzidos e durante menos tempo e, quando encontrarem outro emprego, vão ser mais mal pagos e mais maltratados que no emprego anterior. E os desempregados que deixarem de ter direito a subsídio vão aceitar condições de trabalho mais “competitivas”, constituindo uma pressão poderosa para baixar os salários de todos. Os patrões chamam a isto “competitividade” mas avisam que esta não chega. E vão continuar a exigir mais “competitividade” até termos os salários e as condições de trabalho da China ou da Nigéria.
O que este acordo deixa claro é que, cada vez mais, o objectivo principal das empresas e do sistema capitalista passou a ser gerar desempregados. Isso é visível na Bolsa, quando vemos as cotações das empresas que despedem milhares de trabalhadores a subir. Os mercados gostam de desempregados. Claro que os patrões dizem que despedem em nome da eficiência e garantem que, se houver mais competitividade, o emprego vai “retomar”. Mas sabemos que não é assim. Os patrões também não gostam do emprego.
A situação poderia não ser dramática se as empresas apenas pedissem flexibilidade para mudar os trabalhadores daqui para ali (o que se compreende), ou mesmo para os despedir em certos casos, mas se houvesse uma sólida rede de segurança social para sustentar os desempregados e as suas famílias até ao próximo emprego. Mas os patrões também não querem isso. Mesmo que não sejam eles a pagar. Os patrões querem uma massa de desempregados miseráveis, sem subsídio de desemprego, dispostos a aceitar qualquer trabalho por qualquer preço. O mais grave é que um desempregado não é apenas alguém que não tem trabalho. Um desempregado é alguém que está de facto excluído da sociedade e da política, que condena à pobreza os seus filhos e que ainda é acusado de parasitismo pelos Álvaros desta vida. Vamos mesmo aceitar uma sociedade com uma massa crescente de sub-humanos sem direitos?
José Vítor Malheiros – Público 24 Jan 2012
Un día, alguien pronuncia nuestro nombre por última vez. Cae después el silencio, llega el olvido, y es para siempre.


Enrique Vila-Matas

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Freud garante que quem foi o filho dilecto da mãe ou quem teve uma mãe que muito o amou tem uma segurança inabalável para a vida - suceda o que suceder. E vice-versa.
Numa carta a Freud, Jung assevera que a única possibilidade de cura na psicanálise passa pelo amor.

Para uma nova definição

As pessoas primárias berram, choram e alteram-se.

As pessoas secundárias dissimulam, calam, calculam.

As pessoas primárias dizem palavras palpáveis e cometem actos palpáveis no instante em que a cólera se apodera delas.

As pessoas secundárias nada dizem no momento do crime, mas vivem anos a castigar a falta - com silêncios, omissões e planos.

As pessoas primárias podem ser apontadas mais facilmente - fizeste isto, disseste aquilo.

As secundárias agem, não agindo, na penumbra e não têm factos contra si.

As pessoas primárias são vidro cristalino.

As secundárias, vidro fosco.
- Sonhei que estávamos na cama. Tu continuavas a ser o homem e eu a mulher, mas estranhamente era eu quem te penetrava e atingíamos uma intensidade ímpar.
Já te aconteceu estares tão cansad@, que para acenderes um cigarro utilizas o comando da televisão?
Há adjectivos que rasuram todos os outros.

Como «fútil».

Ou «mesquinho».
Quando perguntaram a Agostinho da Silva se era conservador, ele disse que dependia. Conservar, em si, não era uma coisa inerentemente boa ou má - dependia do que se queria conservar.

«Se é no sentido de conservar a sardinha, sou conservador. Se é no sentido de conservar a lata de sardinha, não sou conservador.»


Funes, o Memorioso (está tudo na literatura)

A memória é uma das minhas dilectas virtudes cardeais. (Porque sentir e guardar são verbos essenciais.)
Há muitos anos, ouvi um amigo meu relatar:

- O meu tio tem uma memória que marcou todas as pessoa que o conheceram. Quando era novo, um dia, na escola, pediram-lhe para ler a página tal do livro tal na aula de Geografia. Ele não trouxera o livro e como não queria ter falta de material e, como no dia anterior, tinha lido aquela página para fazer o trabalho de casa, ele olhou para baixo como se tivesse o livro e recitou palavra por palavra tudo o que lá estava. O colega do lado até pensou que ele tinha poderes parapsicológicos.

Contou isto e riu-se. Eu pensei que o tio do meu amigo efabulara. Passados oito anos, esta história ecoa em mim e eu ligo ao meu amigo.

- Lembras-te daquela história que me contaste do teu tio que recitou uma página de um livro de Geografia?

- Sim, mas porque é que me estás a perguntar isso?

- Porque me lembrei e fiquei curioso e queria conhecê-lo.

- Não é para nenhuma reportagem jornalística sobre pessoas com memória, Angel?

- Não, não.

- É que o meu tio é discreto.

- Só gostava de o conhecer.

E conheci-o.

Alegou estar velho e não ter a memória de outrora. Mostrou-se humilde, havia muita gente como a memória como a dele, o sobrinho é que o sobrestimava.

Ainda assim, validou a história do livro de Geografia. Mas que fora um episódio pontual.

O sobrinho insistiu na demonstração da sua memória.

O tio disse então:

- Bem, vamos lá ver se isto ainda funciona.

Perguntou os números de telefone dos cinco presentes. Perguntou o nome completo.

Disse:

- Daqui a meia hora, perguntem-me.

Não teve uma lasca de memória.

Fiquei impressionado.

No final, despediu-se e percebi que decorara tudo o que lhe dissera quando me disse:

- Então o Angel é isto, faz isto, pensa isto.

Saí boquiaberto - ele usara as mesmíssimas palavras que eu havia dito.

(A qualidade do desempenho sobrepujara-se na minha mente à necessidade de exibicionismo.)

sábado, janeiro 21, 2012


Cavaco Silva lamentou-se ontem com o valor das suas pensões. Mas as declarações de rendimentos referem valores muito superiores à média nacional.
O Presidente da República queixou-se ontem que o valor total das duas pensões que recebe, "tudo somado", "quase de certeza que não vai chegar para pagar as minhas despesas". São dez mil euros brutos, tudo somado: segundo as declarações de rendimentos entregues no Tribunal Constitucional, Aníbal Cavaco Silva recebeu de pensões (dados oficiais de 2009 antes da recandidatura) 140 601 euros anuais - do Banco de Portugal e como professor universitário.
Em outubro, quando do anúncio do corte dos subsídios de férias e de Natal aos pensionistas e funcionários públicos, o Presidente da República considerou-o uma "violação de um princípio básico de equidade fiscal".
Depois das declarações de ontem de Cavaco Silva, o seu mural do Facebook foi ocupado por muitos cidadãos que deixaram violentas críticas e reparos à afirmação de que "quase de certeza" não terá dinheiro suficiente para as suas despesas. Em seis horas, o DN contabilizou pelo menos 200 comentários.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

http://www.casaldasletras.com/convidados.html

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Se obedece à lei o homem justo que a considera injusta, de que lhe serve ter sido dotado de uma consciência?

http://www.culturabrasil.org/desobedienciacivil.htm
Não há nada pior do que um político populista.

Apenas 56% dos Portugueses acreditam que a democracia é o melhor regime (ou, como dizia o Senhor dos Charutos, o pior de todos os regimes com excepção de todos os outros). Os opinantes do costume culpam os políticos, como Hitler fazia com a República de Weimar. Não ocorre nas suas cabecinhas que um verdadeiro democrata é democrata independentemente da qualidade da casta de momentos dos políticos.

Há uns anos, a SIC apresentava uma sondagem em que 90% dos Portugueses defendiam a pena de morte. Os políticos condenados no tribunal por corrupção são eleitos.

Estes dados só espantam quem não anda de transportes públicos.

Da educação

Quando tinha quatro ou cinco anos, ouvia o meu pai dizer «palavra de honra», e, sempre que o fazia, a sua cara mudava.

Certo dia, perguntei-lhe. Ele transmitiu-me o valor.

Um dia, menti-lhe ou omiti-lhe algo. Ele não me repreendeu, olhou-me brandamente e perguntou-me:

- Palavra de honra?

- Não. Menti.

Até hoje, nunca consegui mentir utilizando esta expressão e os meus amigos fazem-me a mesma pergunta do meu pai, por vezes.

Ensaio sobre a cegueira

1. A crise surge devido ao neoliberalismo e a panaceia utilizada contra a crise é o reforço do neoliberalismo.


2. Os défices orçamentais sempre existiram na história de qualquer nação.Não são eles que suscitaram a crise. Foi a crise que os tornou insustentáveis. Mais: a ciência económica defendeu, com um relativo consenso ao longo de muitas décadas, a existência de políticas contra-cíclicas. Ou seja: quando a economia murcha, o Estado estimula-a. Com menos rendimento disponível, há menos consumo, logo menos procura e mais empresas a fechar e mais desemprego e menos rendimento disponível e menos procura... (Círculo vicioso.)


3. Os juros dos países mais pobres são muito mais altos do que os dos países mais ricos.


4. As medidas de austeridade da tróica na Grécia falharam todos os seus propósitos. O crescimento diminuiu, a inflação, o desemprego e o défice (dependente do crescimento económico) aumentaram.


5. As medidas de austeridade aplicadas a Portugal, Grécia, Irlanda, Estónia, Reino Unido e Espanha aumentaram as desigualdades, como o demonstra o coeficiente de Gini antes e depois das mesmas.


6. A política de austeridade em Portugal não é um pacote de austeridade «que toca a todos». É a escolha de um lado. Classista e reaccionário. Que vê os pobres e os desempregados como preguiçosos e improdutivos. A escolha de um lado: da diminuição do subsídio de desemprego e o acréscimo da dificuldade de acesso ao mesmo, de diminuição das férias e feriados, de redução de subsídios, de diminuição da indemnização por despedimento e da facilitação do mesmo. E do lado do capital? Acaso o IRC da banca deixou de ser UM QUINTO DO DAS EMPRESAS?



Os livros que lês por imperativo laboral. Os livros que os teus escritores-amigos escrevem. Os livros, originais, sobre os quais te pedem opinião. Os livros que te oferecem. Os livros que te emprestam. Os livros que te recomendam. Os livros que queres ler. Gerir isto às vezes parece mais difícil do que gerir a vida.
Quando te oferecem um quadro caríssimo como prenda e tu não gostas, deverás colocá-lo na parede porque a dadivosa criatura é tua visita regular?

quarta-feira, janeiro 18, 2012

«Clicar» para aumentar


Por que raio se utiliza «contemplar» no sentido de «abranger»?


contemplar
verbo transitivo
1.observar atentamenteabsorver-se no exame ou observação de
2.olhar com admiração
3.considerar seriamentemeditar sobre
4.imaginar
5.conferirdar como prémio ou como prova de estima
6.tratar com benevolência
verbo pronominal
1.mirar-se longamente
2.rever-se
(Do latim contemplāre, «idem»)

O Houaiss ainda não a consagra

http://iphone.infopedia.pt/definition.jsp?area=lingua-portuguesa&termo=serendipidade
Hermínio Martinho conta que o pai lhe ligava abundantes vezes e que isso o maçava. «O que é queres, diz lá?» «Nada, meu filho. Só ouvir a tua voz.» Diz que, só depois de o pai morrer, entendeu essa frase.

terça-feira, janeiro 17, 2012

- Fui para as montanhas e lá no alto senti a suprema satisfação que é a percepção da ausência do eu. Descobri que sou um zero, um indigente absoluto, que tomos somos e isso deu-me uma libertação total, uma plenitude como nunca sentira.
I want you to be crazy
'Cause you're boring baby when you're straight


The Kills

segunda-feira, janeiro 16, 2012


omnímodo
adjetivo
1.que é de todos os modos
2.omniforme
3.sem restrições
(Do latim omnimŏdu-, «de todas as maneiras»)

domingo, janeiro 15, 2012

Nunca servi para outra coisa. Não sirvo para a vida prática. Nem sequer tenho computador. Escrevo à mão, porque é como bordar. Gosto do cheiro do papel, gosto dessa coisa artesanal que é escrever, do desenho das letras. Há três ou quatro coisas importantes na vida: os livros, os amigos, as mulheres e Messi», elogiou o escritor português, em entrevista ao diário espanhol, a propósito do lançamento do seu novo livro Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

Mas os elogios não ficaram por aqui. «Vi-o há pouco tempo, pela televisão, no Mundial de Clubes. Quem me dera escrever como Messi joga futebol. A bola parece amá-lo», observou António Lobo Antunes.

sábado, janeiro 14, 2012

Porque é que eu gosto tanto dos Gregos (e dos Romanos)? Porque está lá tudo.

Lendo Séneca de momento, parece que estou a ler alguém que escreveu actualissimamente ao falar do sedentarismo, dos problemas de alimentação (para os quais usou cálculos e fórmulas que produziram conclusões que são conhecimentos hodiernos) ou sobre as pessoas que dormem de noite.


A nova espiritualidade virá pela percepção das coincidências. Um espécie de Jung com Paul Auster fará muita gente questionar se não existe algo superior.
Andas de camioneta. A teu lado, à janela, durante duas horas, um sujeito franzino joga paciência num i-qualquer-coisa. Atrás de ti, duas moçoilas falam duas horas de ginásio. Os dois lugares à tua direita são ocupados por dois adultos que jogam, um futebol, num i-qualquer-coisa, outro joga no Facebook. Divisas vinte pessoas em frente, nenhuma lê. Alguém tem o Jornal de Negócios, mas não o abre.

You know what I hate

Pessoas que quando chega a conta e alguém se levanta para pagar nem sequer abrem a boca para dizer que pagam a sua parte.
- O maior dos pecados é África.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

George Orwell

Muitos intelectuais (um conceito impreciso) defenderam ditaduras (e algumas das piores). Viver no mundo das ideias pode fazer esquecer as pessoas de carne e osso. George Orwell, muito atacado pelos comunistas, foi sempre um homem de esquerda - que conciliava com o humanismo e a defesa da liberdade. O seu fanatismo antifanatismos é algo que sempre apreciei.

O melhor texto contra a pena de morte, a única coisa lida que produziu lágrimas nos meus olhos, foi o seu texto O Enforcado, sobre a sua experiência como oficial numa colónia inglesa.

Os mais belos textos sobre a Guerra Civil de Espanha são dele, onde serviu no POUM (uma milícia marxista, mas não pró-soviética). Orwell descreve que, quando abriu uma porta e viu o inimigo, este estava a defecar e não o matou porque «não se mata um homem quando está a fazer necessidades».

Quando escreveu sobre rãs, a esquerda atacou-o porque, com guerras no mundo, o autor escrevia sobre um assunto tão frívolo. Orwell respondeu que se não escrevesse sobre assuntos «triviais», perderia a humanidade.

Sobre a pobreza, que observou por dentro, escreveu de uma forma pungente ao descrever a sua penúria em Paris e em Londres. (É difícil ver a pobreza da mesma forma depois de esse livro, ou de comer em restaurantes sem pensar na sua descrição dos bastidores.)

A sua devoção à liberdade era tão grande, que, pesem embora os inúmeros escritos em favor do socialismo, escreveu contra o capitalismo de Estado no Animal Farm, sendo atacado pela esquerda (tirando a socialista democrática e trotskista). Penso que a tendo lutado do lado dos marxistas, tendo escrito em favor do socialismo, a razão por que escolheu atacar, tanto no livro acima, como no 1984 (1948 ao contrário), as ditaduras ditas de esquerda foi porque estas eram, à época, muito mais poupadas pelos «intelectuais» do que as de direita. O curioso é que a crítica ao controlo da vida privada e do individualismo pelo estalinismo mostra hoje uma obra não datada, sem uma ruga, com o problema da videovigilância (e não só...) nas democracias capitalistas. A liberdade não tinha facções para Orwell.

Talvez por isso, a sua maior preocupação com a novilíngua (insidiosamente mais subtil e terrífico do que eliminar palavras era a eliminação da polissemia das palavras) fosse a supressão de sentidos das palavra liberdade. Doravante, a liberdade desaparecia enquanto conceito, passando a apenas a ter o significado de «O cão está livre de pulgas» [no sentido de isento].


(Há mais de mil ensaios de Orwell escritos em jornais por editar em Portugal. Até quando?)
- Um intelectual não conduz. É preciso observar e reflectir, ter tempo para pensar, não ser consumido, não ter as energias focadas e os nervos tremidos. Escutar os outros nos transportes, reflectir sobre a vida.
Em Portugal, o índice de Gini - o indicador mais usado para medir a forma como é feita a distribuição do rendimento numa economia - registou, entre 2004 e 2009, uma diminuição permanente. De 38,1% em 2004 passou para 33,7% em 2009 (100% representa a total desigualdade na distribuição de rendimento, zero a total igualdade). Não existem ainda dados disponíveis para 2010, no entanto há fortes expectativas de que, ao fim de cinco anos de descidas, se tenha assistido a uma inversão da tendência.

"O ano de 2009 vai representar o fim de um ciclo de redução da desigualdade em Portugal. Temo que, desde 2010, o fosso na distribuição de rendimento esteja de novo a agravar-se", afirma Carlos Farinha Rodrigues, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão e um dos principais estudiosos em Portugal do fenómeno da pobreza e da forma como se distribui a riqueza. 

São dois os grandes motivos. O primeiro é o facto de Portugal estar a atravessar um novo período de contracção económica acentuada. A história mostra que, em períodos recessivos, a população com rendimentos mais baixos tende a ser relativamente mais afectada. Foi o que aconteceu em Portugal, por exemplo, em 2003. Mas, para além disso, desta vez, as medidas adoptadas pelos governos para reduzir o défice público podem estar a agravar ainda mais a situação. É o que defende Carlos Farinha Rodriques. "Em Portugal, nos últimos anos, a redução da desigualdade foi feita com base na política social, com medidas como o Rendimento Social de Inserção. Mas, a partir de 2010, opções como a alteração nas provas de condição de recursos traduziram-se numa diminuição da capacidade do RSI diminuir a desigualdade", exemplifica. 

Mais pobres mais afectados

Um estudo publicado pela direcção de Emprego, Assuntos Sociais e Inclusão da Comissão Europeia veio recentemente trazer dados novos sobre esta questão. O trabalho-- intituladoThe distributional effects of austerity measures: a comparison of six EU countries - avalia o impacto potencial sobre o rendimento das medidas de austeridade aplicadas, entre 2008 e Junho de 2011, por seis países europeus que atravessam crises orçamentais - Portugal, Grécia, Irlanda, Estónia, Reino Unido e Espanha.

Portugal garante, nessa análise, um lugar de grande destaque. Como afirma o estudo, "é o único país com uma distribuição claramente regressiva, com perdas percentuais que são consideravelmente maiores no primeiro e segundo decis de rendimento do que em níveis mais elevados". Ou seja, é o único país dos seis analisados onde as medidas de austeridade foram mais fortes para os mais pobres do que para os mais ricos. Segundo o estudo, os 20% mais pobres sofrem, com as medidas consideradas, uma redução de 6,1% no seu rendimento, enquanto os mais ricos perdem 3,9%.

O estudo, por usar informação anterior a Junho de 2011, apenas considera, no caso português, medidas aplicadas pelo anterior governo, liderado por José Sócrates. Ainda assim, o actual Governo já adoptou também medidas, como o corte de benefícios sociais ou o agravamento do IVA, que, segundo a metodologia usada no estudo, apontariam para uma distribuição regressiva do rendimento. Ambos os governos sempre garantiram que, nas suas políticas, as camadas mais frágeis da população seriam poupadas.

Nem todos retiram deste estudo publicado pela Comissão Europeia a conclusão de que a desigualdade em Portugal está inevitavelmente a aumentar. Miguel Gouveia, professor da Faculdade de Economia da Universidade Católica, diz que "o impacto global desta crise sobre a desigualdade só vai ser conhecido a posteriori e ainda pode demorar muito tempo". "Penso que o estudo avalia apenas os efeitos mecânicos das medidas tomadas, o que pode conduzir a uma sobreavaliação do efeito nos grupos de rendimentos mais baixos", afirma, assinalando que "há argumentos para os rendimentos mais baixos caírem, mas também os há para os rendimentos mais altos". E dá um exemplo: "Algumas das fontes de rendimento dos mais ricos, como a bolsa, têm vindo a diminuir de forma significativa durante esta crise."

Carlos Farinha Rodrigues assume que alguns desses efeitos podem ser de facto sentidos, mas assinala que não é esse o facto que está por trás das maiores transformações nos níveis de desigualdade em Portugal. "O corte nos rendimentos dos mais ricos pode contrabalançar em parte, mas a redução da desigualdade tem sido feita por via de um aumento do rendimento dos mais pobres e, esse, pode ter chegado ao fim", explica.

Também Alfredo Bruto da Costa, presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz e ex-presidente do Conselho Económico e Social, faz questão de não minimizar os resultados obtidos pelo estudo. "Embora possa ter alguns pontos fracos, é uma primeira avaliação sobre o impacto da crise nos indicadores de desigualdade. E como primeira avaliação penso que mostra qualquer coisa de extremamente grave." Bruto da Costa assinala ainda que "vem desmentir aquilo que os nossos governantes têm vindo a repetir, que as camadas mais desfavorecidas estão a ser protegidas, e vem confirmar a ideia de que as classes mais ricas estão a ser poupadas em termos relativos". "É um aviso muito grande. Se continuarmos assim, vamos chegar ao fim da crise com uma desigualdade maior do que aquela com que começámos", afirma.


Público
O fogo não é traduzível.
A beleza não se encapsula.
Insubstancial, liquefazes-me
os coágulos da existência
como a seiva dos gregos.

Y. Moreno
Na desgraça aprendi
a condoer-me das alheias dores.

Virgílio

domingo, janeiro 08, 2012

Há muitos anos, tomei contacto com o jainismo quando li que determinado indivíduo nunca matara um mosquito... e me senti, enfim, menos só no mundo

a não violência é o princípio cardinal da religião. “Nunca firas a ninguém” é um lema que manifesta amor e compaixão para todos os seres. Por exemplo, os jainistas acostumam construir asilos para os animais velhos ou enfermos, onde são cuidados e alimentados até que morram de forma natural.
[...]
Até o mel chega à lei de alimentos proibidos, porque para obtê-lo demasiadas vezes são sacrificadas as vidas das abelhas. [...]
E ainda que às vezes se esboce um sorriso diante do asceta que respira somente através de uma tela para que nada vivente possa ingressar a seus pulmões, ou que filtra a água mas nunca a ferve porque “mata as criaturas que nela vivem”, pior é a violência quotidiana infringida aos animais, que apesar de sofrerem não podem nem falar nem defender-se. Inclusive a exageração do jainista tem uma base tão nobre e compassiva, que não podemos fazer outra coisa que admirar sua conduta.
Nas palavras de um Jina: “O Venerável tem declarado... Assim como sinto  dor quando me golpeiam com um pau, arco, punho, pedaço de terra ou de vaso; ou ameaçam, golpeiam, queimam, atormentam, ou privam da vida; e assim como percebo todas as dores e agonias, desde a morte até o puxão de um cabelo; da mesma maneira, estejam certo disso, todas as classes de seres percebem a mesma dor e agonia que eu, quando são maltratados da mesma maneira. Por esta razão nenhuma classe de ser vivo deveria ser golpeado, nem tratado com violência, nem ser abusado, nem atormentado, nem privado da vida”.
“Os Arhats e Bhagavats do passado, presente e futuro, todos falam assim, declaram assim, explicam assim; nenhuma classe de ser vivo deveria ser assassinado, nem tratado com violência, nem maltratado, nem atormentado, nem rejeitado. Esta lei constante, permanente, eterna, verdadeira foi ensinada por homens sábios que compreendem todas as coisas”. [Uttaradhyayana, Bk II, I, 48, 49]

sábado, janeiro 07, 2012

A Portugal


Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.

Jorge de Sena
É engraçado descobrir quando um autor começa a utilizar uma palavra nova nos seus textos e, deslumbrado, a repete. Pulido Valente escreveu módico e, pumba, repetiu-a nas duas crónicas subsequentes. (Utilizou-o como substantivo, não obstante ser adjectivo.) Scott Fitzgerald descobriu clarão no seu último romance e fartou-se de a repetir.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

Mesmo as catástrofes têm sempre lados positivos. A crise democratiza a miséria e a pobreza e suaviza os preconceitos classistas. Deixas de ver   o pobre como um objecto pernicioso, como uma enfermidade congénita, como um pecado de gente indigna. Da tua janela, vês o homem de fato, compostinho e vertical, a tirar coisas do lixo. Vês o licenciado na caixa de supermercado. Vês os teus amigos de classe média na sopa dos pobres. Vês pessoas com a dentição completa e sem rugas a pedir.
- Pensar que acordas cedo diariamente é como ver um morcego a bailar no Tejo na aurora matinal...
- Nunca pensaste: «Que farei com tantos livros que li?»
- Não leio para, leio por.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.


Camões
Um idealista precisa de adoptar estratégias de sobrevivência se não quer colapsar.

domingo, janeiro 01, 2012

Leituras Marcantes de 2011



«Quando um indivíduo desempenha um papel exige implicitamente dos seus espectadores que levem a sério a impressão que neles procura suscitar.» Assim começa o livro do sociólogo que investigou e teorizou, como ninguém, sobre a shakesperiana máxima de o mundo ser um palco e de nós sermos todos actores (os conceitos que Goffman utiliza são todos de inspiração dramatúrgica, começando por recordar que «pessoa» vem etimologicamente de «máscara»).

Os actores podem ser cínicos, quando sabem que a impressão de realidade que engendram é falsa; mas também podem, à força da representação, ser tomados pela acção que desempenham. Mesmo entre os actores cínicos, muitos são-nos não para defender interesses pessoais, mas do Outro - são actores porque a audiência lhes exige que o sejam. Por exemplo: os empregados das estações de serviço que verificam uma e outra vez a pressão dos pneus de condutores ansiosos.

Porque é que determinadas profissões não podem executar determinadas tarefas? Para não se confundirem com outras abaixo da sua. Um médico que faça tarefas de enfermeira sentir-se-á desprestigiado, consideradas, por muitos, infra dignitatem, pela confundibilidade da hierarquia que acarretaria o exercício de tarefas como a anestesia, que são executadas pela posição imediatamente abaixo. Autoridade e prestígio.

A legitimação da autoridade não permite deslizes. Quando um de dois elementos de uma patrulha policial comete uma atrocidade legal perante um cidadão, é muito provável que o outro o defenda perante o cidadão para que pareçam um bloco coeso. Quando um pai ou uma mãe discutem com um filho, é muito provável que o elemento do casal não desautorize o outro (ainda que laços de sexo por vezes se sobrepujem, mãe-filha versus pai, pai-filho versus mãe). Quando um director da escola discorda de um professor, esperará que os pais se retirem para não o desinvestir da sua autoridade.


A necessidade de preservar a autoridade obriga a ter outro elemento presente: é que a familiaridade gera desdém. É por isso que a rainha Vitória nunca poderia ser vista a dormitar sequer; tendo decretado que qualquer cidadão que se cruzasse com ela deveria olhar para outro lado e mudar de direcção. Os primeiros elementos, as primeiras «impressões de realidade» são por vezes decisivas. Um professor explica: «No primeiro dia em que travo conhecimento com uma turma nova, deixo bem claro quem é que manda... Temos de começar em força, para depois abrandarmos com o tempo. Se começarmos por facilitar, quando tentamos impor-nos, eles olham para nós e riem-se.»


Em casos mais extremos de necessidade de fachada de prestígio, aglomerados familiares há que têm antenas de televisão no exterior sem televisão no interior e rótulos de produtos do exterior porque quem nunca saiu da sua terra.

Os actores não procuram desempenhar um papel sempre receosos de que a audiência percepcione que um sinal de que estão abaixo do estatuto social que transmitem. Com os mendigos sucede o contrário, por exemplo. Se ostentarem sinais de que não são tão subnutridos ou de que as suas roupas não são andrajosas, a sua máscara pode cair.

Também os negros do Sul dos Estados Unidos sentem por vezes a necessidade de incorporar uma papel de inferior e de alta respeitabilidade ante o branco, mesmo que no seu íntimo não sinta tais clivagens; ou o elemento feminino de um casal que aceita que o outro lhes explique demoradamente coisas que já sabe.  O cumprimento do papel social é levado ao extremo no sistema de castas da Índia, em que os rituais das classes superiores são estudados, preparados, decorados e controlados até ao mais ínfimo dispositivo cénico.

Em todas as profissões, há como que um código invisível de normas. O motorista da funerária da classe média chocará a audiência sem em vez de discretamente apagar o cigarro com o pé, o atirar com dedo, fazendo-o descrever um arco. O bombeiro míope que sabe que tem de esconder os óculos quando tem audiência. O técnico de aparelhos de televisão que sabe esconder os parafusos que sobraram e que não sabe onde encaixar. O médico que sabe que tem de decorar os medicamentos que prescreveu ao doente pouco antes de este entrar na consulta. O barbeiro que, para dar a ideia de que tem uma agenda cheia, razão pela qual é muito bom, introduzirá nomes fictícios na sua agenda de modo que esta parece repleta.

«Observemos este empregado de mesa no café. Os seus movimentos são rápidos e desembaraçados, com uma precisão algo excessiva e uma rapidez algo excessiva. Avança na direcção dos patrões num passo demasiado apressado. Inclina-se com demasiada precipitação; a sua voz e os seus olhos exprimem uma tensão quase demasiado solícita ao pedidos dos seus clientes.» O autor relata ainda como um chefe desanca colericamente um empregado na cozinha e como, seguidamente, esse mesmo chefe entra na sala, polido e feliz, a tratar os clientes de tal modo, que julguem estar diante de um príncipe.

É interessante analisar como o mesmo actor pode desempenhar dois papéis opostos no mesmo dia. No século xix, quando o capitão do navio se aproximava, todos fingiam executar uma tarefa, nem que fosse torcer rapidamente um tubo. Um elemento das classes menos abastadas, no século xix, poderia desempenhar esse papel durante do dia, mas à noite, como as classes ociosas e abastadadas não trabalhavam depois de jantar, quando sucedia uma visita, quem estava no interior da casa escondia rapidamente qualquer trabalho que estivesse a fazer.

A própria arquitectura das casas foi e continua a ser muitas vezes um dispositivo cénico, em que as partes das «regiões de fachada» pretendem transmitir «uma impressão de realidade» à audiência.

«Regiões de fachada» são os espaços em que os actores actuam. «Regiões de bastidores» são os espaços em que os actores estão supostamente resguardados. Claro está que, muitas vezes, os actores são apanhados nas regiões de bastidores.

Quando uma jornalista trata um político por tu, inadvertidamente, transporta um vício da região dos bastidores para a região da fachada; quando a secretária que dormiu com o patrão se distrai e deixa cair o «Dr.» ao se lhe referir; quando um membro da família real é apanhado em banquetes de sexo ou de droga.

Erving Goffman elege o empregado doméstico como aquele que habita com um pé a região dos bastidores e com o outro a região da fachada. Os habitantes da casa ora procuram agir de forma diferente na sua presença, ora não conseguem por estarem na descontracção e naturalidade da sua casa. Em determinados épocas, o empregado doméstico, ou o escravo, era uma pessoa não-pessoa, a que era votada total indiferença e que poderia assistir ao desnudar da madame, e até pernoitar no quarto dos patrões que poderiam querer um copo de água à meio da noite. Como o racismo não terminou, Goffman exemplifica que a vergonha social é maior perante os que consideramos superiores e que, por essa razão, nos EUA, os senhores bem-postinhos quando confrontados com uma acusação de decoro social, contratam normalmente um negro de modo que evitem ter de expor um caso a um prezado branco.

Os canais seguros de «linguagem subterrânea» entre actores coniventes tem exemplos espantososos. Quando um cliente quer o tamanho de sapatos B, o vendedor pergunta ao colega:
«Que número é este, Benny?»
«B», responde.

«B» é a primeira letra de Benny, o código utilizado, nomeadamente para clientes de língua estrangeira.


A discordância entre eu e eu socializado, como a do músico em palco que é um deus e que não tem uma pessoa cá fora em que confiar e que goste dele, ou como o tirano no escritório que é um marioneta em casa, implica respostas tão compartimentadas e dissonantes consoante à audiência, que provoca um eu fragmentário, recalcamento, dissociação, afastamento de si próprio, com fraquezas caracterológicas oriundas de recessos profundos.


O livro analisa uma transversalidade de culturas, de épocas e de profissões, recorre a múltiplas investigações (designadamente, ao estudo de uma comunidade por parte do autor de uma ilha Shetland), à própria Literatura (Orwell, que descreveu a diferença entre os bastidores dos restaurantes na cozinha e o restaurante onde se sentavam os clientes; Herman Melville e a vida e representação de papéis na hierarquia do pessoal que trabalhava nos barcos; Simone de Beauvoir e a máscara feminina). Pousado o livro, ele continua em nós, fazendo-nos sentir que grande parte do mundo é uma região de fachada e que mesmo o que pareça natural e espontâneo é fruto de um desempenho ensaiado e estudado. A minha atenção aos pormenores do desempenho de quem está trabalhar no seu ofício e das pessoas em geral é muito maior após a leitura deste livro.




- Quando estava na guerra, vivi o pior episódio da minha vida. Fiquei com a cabeça presa num buraco na parede, a cabeça toda ficou lá dentro, com todo o corpo cá fora, de pé. Não podia fazer nada. Foi o horror absoluto, não sei quanto tempo demorou, foram séculos e séculos. Sempre que me acontece algo pesaroso na vida, penso nesse momento infinito; sinto-me feliz só por já não ter lá a cabeça.