sexta-feira, dezembro 30, 2011

A insónia por Scott Fitzgerald

«[...] a insónia de cada um de nós é tão diferente da do seu vizinho como as esperanças e as aspirações despertas. [...] como um arco de violino com a corda partida sobre o instrumento que freme, vejo o horror real que se alastra por sobre os telhados e nas buzinas estridentes dos táxis nocturnos e no som monótono dos noctívagos que voltam para casa. Horror e destruição...
... Destruição e horror: o que eu poderia ter sido e feito, e se perdeu, desperdiçou, dissipou e desapareceu, irrecuperável. Podia ter agido deste ou daquele modo, evitado isto ou aquilo, ter ousado quando temi, usado de cautela quando fui imprudente.
Não precisava de a ter ferido daquela maneira.
Nem de lhe ter dito aquilo, a ele.
Nem de me destruir tentando destruir o indestrutível.
O horror chega agora como uma tempestade - e se esta noite fosse uma antecipação da noite de depois da morte? E, se a partir daqui, tudo fosse um calafrio eterno à beira de um abismo, com toda a minha baixeza e desgraça próprias a empurrar-me e toda a baixeza e desgraça do mundo pela frente? Não há escolha, nem caminho, nem esperança - só a repetição incessante do sórdido e do semitrágico. Ou, talvez, tenha de permanecer para sempre no limiar da vida, incapaz de o transpor e de regressar. Agora sou um espectro, enquanto o relógio bate as quatro horas.
[...]
Irresistível, irisada, eis a Aurora, eis outro dia.


Adormecer e Despertar

quinta-feira, dezembro 29, 2011

- A poesia é a síntese e a depuração do belo.

Leituras Marcantes de 2011




Procusto recebia os seus convivas numa cama, ora estreita, ora larga, tendo deste modo de lhes amputar os membros ou de os esticar para que coubessem no leito. O autor, apologista dos limites do conhecimento, entende que os nossos cérebros recorrem a camas (padrões de pensamento) desajustadas do tamanho do real - achatando o caos informe da realidade nos nossos tacanhos e redutores esquemas de pensamento.

São muitos os assuntos que interessam ao autor. Em todos, há exageros, humor, uma bílis perante determinados ódios dilectos (os academistas, os tecnofilos, os economistas e gestores, os desportistas) e uma paixão imensurável por Platão. (Prefiro preconceitos assumidos do que destilados insidiosamente.)

A lucidez e um sarcasmo acutilante são conseguidos pela hiperbolização. Mas que dá que pensar dá. Que faz sorrir faz.

«Quando ela grita que o que fizemos é imperdoável, já nos começou a perdoar.»

«Chamamos narcisistas aos indivíduos que se comportam como habitantes centrais do mundo; aos que fazem exatamente o mesmo num conjunto de dois chamados amantes ou, melhor, "abençoados pelos amor".»

«Pedir à ciência que explique a vida e as questões fundamentais é como pedir a um gramático que explique a poesia.»

«Para marcar uma separação entre o sagrado e o profano, tomo um banho ritual após qualquer contacto, ou correspondência (até por e-mail), com consultores, economistas, professores da Harvard Business School, jornalistas e todos quantos estejam envolvidos em desígnios igualmente depravados; depois, sinto-me e ajo purificado do profano até ao episódio seguinte.»

«O sagrado tem tudo que ver com incondicionais; o profano tem tudo que ver com condicionais.»

«Ter charme é conseguir insultar as pessoas sem as ofender.»

«Nascem e são postos numa caixa; vão para casa viver numa caixa; estudam pelo preenchimento de caixas; vão para o chamado "trabalho" numa caixa, onde se sentam na sua caixa-cubículo; conduzem até à mercearia numa caixa para comprar comida numa caixa; vão para o ginásio numa caixa para se sentarem numa caixa; falam em pensar «fora da caixa», criativamente; e quando morrem são postos numa caixa.»

«Há dois tipos de pessoas: as que tentam vencer e as que tentam vencer discussões. Nunca são as mesmas.»

«Estamos vivos na inversa proporção da densidade de clichés dos nossos escritos.»

«Aquilo a que chamamos "livros de gestão" são uma categoria eliminativa inventada pelos livreiros para textos sem profundidade, sem estilo, sem rigor empírico e sem sofisticação.»

«A arte é uma conversa unilateral com o não-observado.»

«Assim como nenhum macaco é tão bem-parecido quanto o mais feio dos seres humanos, nenhum académico vale mais do que o pior dos criadores.»

«Há nomes como "economista", "prostituta" ou "consultor", aos quais a caracterização adicional não acrescenta informação.»

«Os quatro modernos mais influentes: Darwin, Marx, Freud e (o produtivo) Einstein foram eruditos, mas não académicos. Sempre foi difícil fazer trabalho genuíno - e imperceptível - nas instituições.»

«O século xx foi a bancarrota da utopia social; o xxi sê-lo-á da utopia tecnológica.»

«Para ser filósofo, comece por caminhar muito devagar.»

«Porque é que eu tenho um problema obsessivo com Platão? A maioria das pessoas precisa de superar os seus predecessores; Platão conseguiu superar todos os seus sucessores.»

«A língua inglesa não distingue entre arrogante-para-cima (irreverência dirigida aos temporariamente poderosos) e arrogante-para-baixo (irreverência dirigida aos mais fracos).»

Devidamente arrumado junto de Pensamentos e Reflexões de José Alberto Braga e dos Silogismos da Amargura de E. M. Cioran (um chocolate demasiado preto para ingerir em ocasiões especiais dado o seu efeito deletério), eis um livro de aforismos que se lê do princípio ao fim numa primeira leitura, mas que vamos tirando da prateleira quando nos chama.

Aprecio a lata de quem escreve aforismos - é como se dissesse «esta frase, este pequeno parágrafo» tem algo a dizer constantemente. A exposição ao ridículo é maior.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Autenticidade implicará sempre originalidade.
- O mistério é o cosmético último das almas vazias.
Naquele mundo, todos liam o pensamento alheio e «hipocrisia» era um arcaísmo.


Na mesa do restaurante, a senhora calou-se quando leu «que chata» na mente de um.

Um indivíduo esmurrou outro na fila do supermercado que pensara: «Nunca vi alguém tão feio.»

Na cama, ela pensava que nunca ninguém lhe tinha proporcionado tão pouco prazer e ele abandonava o ofício.

Na entrevista de emprego, o jovem jurou ao início que removeria as tatuagens ao entrar na sala - tudo em pensamento - ao que o entrevistador assentiu com a cabeça antes de começarem a falar.


- Só conheces pessoas com pancas.
- Toda a gente tem pancas.
- Dizes isso porque só conheces pessoas assim.
- E tu dizes isso porque só conheces pessoas na superficialidade. Toda a gente tem pancas.
- Que disparate.
A literatura é um sacerdócio.
Ofício de paciência.

sábado, dezembro 24, 2011

Uma chamada telefónica

O meu amigo atendeu o telefone e o som do telemóvel estava tão alto, que ouvi a conversa inteira.

- Está, Alberto?
- Olá, João, tudo bem?
- Tudo bem e contigo?
- Cá se vai indo.
- Olha, aproveito para te desejar umas boas festas, para ti e para a tua família.
- Obrigado. Para ti também. Como é que vai a faculdade?
- Ando aqui metido na investigação. Só vejo papelada. Olha, queria saber se tens a edição d´O Caminho da Servidão e que livros tens de Derrida.
- Vai à burdamerda.
- O quê?
- Vai à bur-da-merda! À bur-da-merda! Ouviste bem. É isso mesmo. Nos últimos dois anos, não me ligaste uma vez sem ser para me pedires coisas. Começas por perguntar como estou, mas só para chegares a pedir-me livros. Nunca me ligas sem interesse, para saber de mim. Estou sempre a emprestar-te livros e a tirar-te fotocópias para alimentar a tua carreira académica e tu não tens amizade por mim, estou farto de ser um instrumento teu, pá. Essa tua carreira não adianta um chavo à humanidade, mas é muito importante para a tua vaidade. E recordo-te que o único livro de que te pedi cópias de Rudolf Steiner, nunca as vi! Tipos que só olham para o seu umbigo não me interessam. Eu tenho mau feitio, mas carácter. Tu és um académico de falinhas mansas que só quer saber do seu ego. E digo-te mais, andas muito entretido a bater no ceguinho do comunismo, mas hoje O Caminho para a Servidão é o capitalismo financeiro. Julgas-te muito, tu? Eu queria-te ver a bater os costados numa sala de tortura. Um tipo de gabinete como tu, que só pensa em si, bufava tudo logo à primeira.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Leituras marcantes de 2011

Quando um ensaio não é escrito numa prosa acima do razoável (como é o caso, tantas reticências espúrias), o autor (neste caso, a autora) tem de pensar bem e transmitir algo terrivelmente interessante para me agarrar.
O livro martela, por vezes, a mesma ideia passadas umas páginas, ou repete citações, e mereceria uma edição mais depurada - ainda que daí resulte uma memorização mais funda. Sem o sensacionalismo da capa ou do título, eis um livro que nobilita a capacidade de pensar. Nietzsche e o Nazismo são dissecados até ao osso, encontrando-se profundas similitudes. (Gostaria de o dar especialmente a adolescentes e a jovens inconformistas e sombrios para quem Nietzsche é um padrinho espiritual do seu sentido de incompreensão.)

Um ponto prévio que muitas cabecinhas de leitura superficial talvez fiquem a saber após a leitura do livro: Nietzsche, conhecido pelo seu ateísmo, foi buscar inúmeras referências ao paganismo ariano pré-cristão, que o Nazismo ressuscitou. Manu, Zaratustra, Bramanismo, Zoroastrismo, os cultos das divindades gregas (designadamente Prometeu) são marcas do ocultismo ariano em Nietzsche e no Nazismo (a começar pela suástica).

Ambos rejeitavam a religião cristã («a religião anti-ariana, por excelência» nas palavras do filósofo) por ser transcendental e não imanente. Ou seja, ambos repudiavam a ideia de um Ser externo e superior; o Deus interior estava ao alcance do homem que se deveria tornar super-homem. Os nazis substituíram as cruzes nas igrejas e catedrais pela suástica.

Nietzsche entendia que o impulso primordial do ser humano era o Desejo de Poder. O seu para lá do bem e do mal não era um niilismo, era uma reclassificação dos conceitos. Boas não eram a compaixão, a humildade e a caridade; bom era tudo aquilo que aumentava o poder num ser humano.

O filósofo alemão insistia muito no episódio de Roma (o supremo império da força) contra a Judeia, emblemática da Moral dos Senhores (feita de honra, orgulho, glória) contra a Moral dos Escravos (feita do ódio da sua fraqueza, da inveja e do ressentimento). A escravatura era necessária para que os aristocratas de espírito pudessem produzir libertos de tarefas menores. O conflito entre estas morais, quando vencido pelos escravos, tinha desembocado em sociedades decadentes, sem Desejo de Poder.

A melhor forma de consubstanciar o Desejo de Poder era, tanto para Nietzsche, como para Hitler, a guerra - glorificada por ambos nas suas palavras (é interessante ver a quantidade de excertos de Hitler quase decalcados de Nietzsche).

E qual era a melhor forma de guerra? A guerra santa: aquela que conduziria a evolução do homem para o super-homem. Nietzsche escreveu, Hitler repetiu e teve o poder para pôr em prática. «Quem vir o Nacional-Socialismo como um movimento político não sabe nada... Ele é muito maior do que uma religião: é o desejo de criar uma humanidade outra vez.»

Em On the Genealogy of Morals, Nietzsche afirma: «a magnitude de um "progresso" é avaliada pela grandeza do sacrifício que ele requer: a humanidade como uma massa sacrificada em prol da prosperidade de uma espécie mais forte de homem - isso seria um progresso».

Como?

Pela eugenia positiva e negativa. O filósofo de bigode teorizou, o político de bigode concretizou. Era preciso preservar a espécie pura (declaradamente a ariana para ambos), cultivando o assistencialismo à manutenção da mesma (o nazismo chegou a raptar crianças arianas de países invadidos para as anexar a famílias arianas incorrompidas) e eliminando a vida dos sub-humanos. São muitos os excertos inequívocos de Nietzsche sobre a necessidade de interferência no processo de selecção natural, nomeadamente por intermédio da aniquilação das vidas não-vidas.

O combate à desigualdade era algo que só fomentaria os espíritos inferiores, não promovendo o desenvolvimento dos melhores. «Radicalismo aristocrático» foi o rótulo que o filósofo dizia definir melhor as suas opiniões políticas. Hitler foi claro: «Queremos aumentar a desigualdade entre os homens e fazer dela um princípio protegido por barreiras impenetráveis.»

O repúdio pela Revolução Francesa, pelo Marxismo, pela Democracia e pelo Liberalismo (tudo versões secularizadas do Cristianismo segundo Nietzsche) é comum a ambos. Assim como a sua origem: o judaísmo e a sua nefanda ideia da igualdade dos filhos de Deus. «Os direitos iguais e o sufrágio universal são as mais ultrapassadas e desprezíveis ideias.» Hitler? Não. The Will to Power.

A superioridade de uns homens perante outros não era algo desenvolvido durante a vida. Era algo adquirido à nascença. O sangue, sintetizava Nietzsche, era o elemento identificador da aristocracia (os arianos puros, «a magnífica besta loira teutónica», como escreveu F.N.), das classes inferiores e dos sub-humanos.

A forma e o tamanho do crânio, utilizadas pelo Nacional-Socialismo para identificar os alvos a preservar e os alvos a exterminar, encontram as suas raízes justamente na prosa de Nietzsche. O corpo e o espírito do ariano eram mais belos, mais inteligentes e mais bravos; e tão distantes das outras raças como os animais do homem. A própria esterilização dos inaptos nasce de solo nietzscheano - que defendia que a poucos poderia ser concedido o direito de procriar.

O livro é um bom compêndio de etnologia, com as várias etnias de celtas, eslavos, alpinos, bálticos, mongóis, todos graduados em importância na escala Nietzsche-Hitler consoante o grau de diluição da raça primeva - a ariana.


Um aspecto difícil de entendermos se encravarmos no nome Nacional-Socialismo é que o Nazismo, tal como Nietzsche, não era nacionalista. Era racista puro, defendia o arianismo transnacional - a nação não era importante, o importante era a raça. O super-homem de Nietzsche, que era justamente o mesmo de Hitler: o ariano, belo, bravo, forte, inteligente e não piedoso. A título de exemplo, recorde-se que a SS foi formada por «super-homens» de 17 nações. A parte do socialismo será mais difícil de explicar, especialmente depois de termos entendido que o igualitarismo era o princípio civilizacional mais abjecto tanto para Hitler como para Nietzsche. Na realidade, era tão-somente uma oposição ao capitalismo. Porque ambos entendiam que éramos o que somos e não aquilo em que nos tornamos - o dinheiro não nos poderia tornar melhores. O sangue, a hereditariedade, determinavam tudo. Entre um cigano rico e um ariano pobre, qual deles pereceria no Terceiro Reich?

Se o ideal positivo era o ariano, o ideal negativo era o judeu, «o decadente supremo» para Nietzsche.

«Pessoas de origem mais humilde, em parte escória, exiladas não apenas do bem, mas também da sociedade respeitável, criadas sem passar nem perto da cultura, sem disciplina, sem conhecimento, sem a mais remota suspeita de que há coisas como a consciência em questões espirituais; simplesmente - judeus.»
«Ignóbil judeu», «escória judaiva», «pária», «aculturado», «não-disciplinado», «ignorante», «inescrupuloso» judeu.

«Os judeus realizaram o milagre da inversão de valores graças ao qual a vida na Terra adquiriu durante dois milénios uma nova e perigosa fascinação - os seus profeta fundiram "rico", "divindade", "mal", "violento", "sensual" numa coisa só e foram os primeiros a cunhar o uso das palavras «mundo» como uma palavra de infâmia. Essa é a inversão de valores (na qual está envolvido o emprego da palavra "pobre" como um sinónimo de "sagrado" e "amigo") na qual o significado do povo judeu reside: com elas começa a revolta dos escravos na moral.»

«Foram os judeus que, em oposição à equação aristocrática (Bom= aristocrático=belo=feliz=amado pelo deuses), ousaram uma lógica terrível para sugeria a equação contrária, e manter com o mais profundo ódio (o ódio dos fracos) essa equação contrária, a saber, "os miseráveis são apenas os bons; o pobre, o fraco, o desprezível, o sofredor, o necessitado, o doente, o detestável são os únicos piedosos, os únicos que são abençoados, pois somente eles são a salvação - mas vocês, por outro lado, aristocratas, homens de poder, vocês são toda a eternidade do mal, do horrível, do invejoso, do insaciável, do ateu.»

«Ao se comparar as nações com dons análogos, como os chineses ou os alemães, com os judeus percebe-se posteriormente o que é o primeiro nível, e o que é o quinto nível.»

«Tudo o que foi feito na Terra contra o «nobre», «o poderoso», «os mestres», «os governantes», não é nada se comparado ao que os judeus fizeram contra eles.»

Tudo palavras do reverendo filósofo.


terça-feira, dezembro 20, 2011

Oceano

Aqui estou eu em lado nenhum…

Balão diletante

… Boiando…

…Boiando …

Conheci todas as coisas, amei todas as pessoas…

Quebrei todas elas

(Como um cristal contendo

Um líquido precioso)

Vertendo a sua essência…

Para os meus lábios sôfregos.

Metamorfoseei-me em todas as coisas,

Passeei por dentro de todas as pessoas...

Mas ao contrário dos outros…

Não ancorei nelas…

Parti sempre para outras…

Os outros hoje vêem a realidade

Pelo seu buraco da fechadura

E eu vejo tudo de lado nenhum.

E tudo o que tenho cá dentro

É mais do que tudo…

Tudo o que li, vi, pensei

Amei, sonhei, agarrei

Vivi.

(Como uma taça transbordando líquidos

Que não existiram em nenhuma garrafa.)

Sou a orgia de sexo, comida e riso alarve das dezenas de pessoas nuas na mansão…

Sou o eremita isolado na montanha coberta de neve…

Sou o deus encarnado no artista em cima do palco convergindo os gritos da multidão…

Sou a força do místico contemplando a paisagem e diluindo o seu eu na Alma Universal…

Sou o sorriso libertador do budista que saltou para fora da roda da insatisfação…

Sou o fogo libertino do álcool, da droga, da ausência de regras e amanhãs…

Sou a beleza do comportamento escorreito e das figuras geométricas regulares…

Sou o encanto da vida dupla e dos segredos só contados à noite…

Sou o estado limpo do despertar solar, do exercício físico e do dever cumprido…

Sou o conforto do habitual, o valor da palavra, a lealdade, a verticalidade,

O refúgio do cobertor na chuva, a certeza dos velhos amigos na desgraça…

Sou a frescura das sensações novas, a surpresa, a explosão das cores, a evolução,

O novo gelado do Verão, as alamedas verdejantes, o desabrochar da flor amarela ao Sol…

Sou o romântico ciente de que a melhor experiência do mundo é unitária: o Amor…

Sou o eclético que se libertou da mais ardilosa das construções sociais: a monogamia…

Sou o charme do fumo azul pairando sedutoramente pelo bar…

Sou a melodia da palavra casa para aquele que regressa extenuado do mundo cruel…

Sou a repugnância do nazi pelos fracos, sujos e pusilânimes e o seu fascínio

Pelos belos e fortes que platonicamente devem perdurar a Força e a Beleza…

Sou a solidariedade do socialista e o amor do cristão condensados

Na compaixão do homem bom pelo sofrimento do Outro que é igual ao seu…

Sou a harmonia conceptual dessa manifestação divina que não se vê nem se sente e

Que só funciona desde que ninguém se preocupe com ela: o mercado!

Sou essa coisa que insufla a alma do comunista: o vislumbre de um

Maravilhoso mundo novo sem exploração e sem classes…

Sou o rugido de leão do grito de liberdade do anarquista

Almejando libertar a humanidade de todas as correntes…

Sou a beleza amena que circunda o playboy zen na praia paradisíaca

Rodeado de deliciosas mulheres, areia de prata, luz e altas palmeiras…

Sou o cheiro fétido que perpassa o acampamento dos toxicodependentes

Por entre os montes caóticos de lixo, os rostos irreconhecíveis e as seringas…

Sou a porta escancarada para as largas avenidas do contentamento…

Sou o envelope trémulo nas mãos do doente que receiam a sua sentença de morte…

Sou a vitória saborosa de quem acabou de cometer a longa vingança

Sorrindo perante o inimigo caído ao seus pés…

Sou o abraço compassivo da jovem caminhante

Ao mendigo andrajoso sangrando na beira da estrada…

Sou o pintainho com a pata magoada saltitando amorável por entre a chuva…

Sou o magnetismo emanando do verde docemente enigmático da pantera…

Sou o longo campo de girassóis encharcados de Sol que sabes sorrirem só para ti…

Sou os barcos atracados numa tarde opaca de domingo…

Sou a lua de Inverno, gelo imponente e cintilante, brilhando na noite mágica...

Sou os sonhos de Verão de um mundo porvir sussurrado na praia de ouro…

Sou a onda de mel quente e doce que submerge os namorados no banco do jardim…

Sou o relógio dos amantes batendo fora deste tempo algures fora deste espaço…

Sou o perfume natural do teu ente amado que te ficou entranhado na ponta do dedo…

Sou o som das ondas invadindo aveludadamente o silêncio da praia à noite …

Sou o murmúrio do teu nome arranhando-te a alma na noite encantada…

Sou as flores rebentando no subsolo do mais belo poema

Cuja beleza só o próprio poeta alcançará…

Sou esse não-sei-quê que emana da flauta do encantador de serpentes

Hipnotizando toda a humanidade…

Sou o mistério do outro lado da porta… do templo… sem porta…

Sou a tal grande boca que acolherá os frios e os quentes e vomitará os mornos…

Sou o iate iluminado à noite, deslizando suave e majestático…

Transportando todas as pessoas para o seu destino…

Sou a corda invisível (tu nunca soubeste o que era…)

Que te puxa para as tuas coisas favoritas e para as tuas pessoas preferidas…

Sou o material intangível por detrás da última camada do inconsciente

Fazendo navegar os teus sonhos…

Sou o preconceito irresistível a favor de tudo o que é teu…

Sou essa coisa que só tu sentes...

Intransmissível ao mundo

Invisível por entre as palavras

Que te perpassa agora …

Provocando-te esse doce arrepio…

Desenhando-te esse sorriso…

E eu sorrio ao ver esse sorriso…

Oh! O mistério em todas as coisas…

A noite intemporal, o mar prateado…

O tempo urdindo em silêncio

Por entre o sossego do mundo…

As estrelas e a imensidão lá em cima…

A face visível do inescrutável…

Oh! A beleza em todas as coisas…

O teu sorriso tutti frutti

E os teus seios de baunilha…

Suspensos à porta do infinito…

Oh! Poder cair sempre de novo…

Neste feitiço imortal…

Oh! Eu quero estar sempre aqui...

Eu quero estar sempre sempre aqui...

Aqui em pé

Quando a claridade substitui a noite…

Sentir esta coisa esplêndida

A recomeçar sempre

A vida…

Escorrendo-me por entre as veias

Como a mais fabulosa bebida…

Oh! Eu quero estar sempre aqui …

Eu quero estar sempre sempre aqui…

Imaginar os dias porvir…

Efervescendo algures…

E sorrir…

Vem…

Perde-te na profundidade do meu ser…

Mergulha nestas águas infinitas…

Deixa o teu rosto encostar-se ao meu…

Lá no fundo…

Ele será o teu espelho…

No hotel da minha alma

Haverá sempre um quarto com vista para a tua paisagem favorita…

Inato

O dicionário define «inato» como aquilo que nasce com o indivíduo e que é independente do que se apreende ou experimenta depois do nascimento.

Durante o século XIX, o paradigma científico sustentava que a biologia era a principal matriz explicativa da realidade. Por outras palavras, a hereditariedade (ou a genética) eram o elemento-chave na explicação do comportamento do indivíduo. Este paradigma era assim determinista e linear, pois considerava que se tivéssemos acesso à genética cabal de determinado ser, poderíamos predizer absolutamente o seu comportamento.

No século XX, a biologia foi esvaziada de importância, e o congénito deu lugar ao ambiente, enquanto chave decifradora da realidade. Ortega Y Gasset condensaria este pensamento na máxima de que o homem não tem natureza, mas sim história. A esta mutação paradigmática não será alheio o advento do socialismo que, sendo uma doutrina igualitária, convinha pressupor que os indivíduos nasciam iguais. O crime, por exemplo, não era mais do que um epifenómeno das desigualdades sociais, eliminando-se assim qualquer possibilidade de explicação de propensão genética para o mesmo; ideia de resto com reminiscências em Rosseau.

Hodiernamente, considera-se que a hereditariedade (o «inato») e o ambiente (o «apreendido»), sob as ramificações do contexto familiar, das relações sociais, do grau de instrução, pesam ambos na explicação do indivíduo. Pinker fala, a este propósito, do interaccionismo holístico. Se é verdade que, por um lado, os genes apontam uma tendência, temos de admitir que o ambiente pode travar ou reverter essa mesma propensão.

A realidade revela-se, assim, mais confusa, caótica e multifacetada do que os esquemas monodimensionais do século XIX e XIX, sendo o resultado de um vasto conjunto de interacções entre capacidades inatas e estímulos apreendidos.

Dentro deste paradigma combinatório de inato e apreendido, cientistas há que enfocam mais uma variável do que outra.

Ashley Montagu, Stephen Jay Gould e Anne Fausto-Sterling, por exemplo, não se afastam muito da ideia-matriz do século passado. A importância do factor ambiente escora-se empiricamente na correlação entre o comportamento dos pais e o comportamento dos filhos e nas línguas, em que um falante de determinada língua é-o sempre por factores culturais e não por uma maior propensão genética para falar esta ou aquela língua.

No entanto, nos casos em que as correlações poderiam apontar para uma propensão genética, como a existência de mais homens nas engenharias, estes autores apontam para o preconceito contra as mulheres.

É, contudo, mais fácil escudarmo-nos no preconceito para explicar a menor percentagem de mulheres em altos cargos da política e das empresas do que explicar a maior proporção de homens nas áreas de engenharia e de mulheres na área das letras. O factor «inato» não pode ser totalmente posto de parte, de modo que não se caia no maniqueísmo do século XX.

A etologia tem demonstrado, de resto, a partir da observação de um vasto conjunto de animais, designadamente de aves, que a primeira interacção de um animal ante um desencadeador é processada através de um esquema inato.

No ser humano, doenças como o autismo e a esquizofrenia continuam a demonstrar à sociedade a importância do peso do inato. Mas não são só os desvios à norma que não deixam que a hereditariedade seja apenas um factor residual. Os próprios testes de QI demonstram uma importância mútua dos factores inato e apreendido.

Por maior que seja o peso atribuído ao factor aprendizagem, nunca poderemos descurar que esta depende das capacidades de aprendizagem que são diferentes dentro do reino animal e que, mesmo dentro da espécie humana, diferem. A fisiologia, as capacidades intrínsecas, numa palavra, o inato, condiciona a quantidade e a forma como a informação poderá ser internalizada. Preconceitos ideológicos de parte, é um truísmo afirmar que uma formiga possui uma capacidade infinitesimal de absorção dos estímulos da realidade circundante face a um chimpanzé ou que um coxo congénito dificilmente será um corredor olímpico.

O conceito de aprendido é indissociável do inato. Não só porque o que é apreendido depende da capacidade máxima que o inato permite absorver, mas porque também o inato depende do apreendido, moldando-se a este ao longo das diferentes gerações de cada ser. É o exemplo do condicionamento do crescimento dos pés na China, em que uma imposição social (ou política) influencia o inato das gerações vindouras, encurtando-lhes o tamanho do pé. A palavra-chave aqui é «influência», porque o verbo que se deve aplicar ao factor ambiente (o «apreendido») é precisamente influenciar e não «determinar», uma vez que a fisiologia intrínseca do pé não pode ser moldada socialmente a seu belo prazer.

Peter Singer, no seu livro Ética Prática, sustenta que não devemos temer os resultados da Ciência, mesmo que esta aponte para a desigualdade genética de capacidades entre os seres humanos. Alega que aquilo em que se fundamenta a igualdade na consideração dos seres humanos não é a sua igualdade de capacidades, mas a sua igual capacidade de sofrer e ter prazer. Compreende-se facilmente este argumento se consideramos que os deficientes mentais devem ter os mesmos direitos dos outros seres humanos com mais capacidades cognitivas. Como escreveu Scott Fitzgerald, aquilo que torna os homens iguais é que «por mais que difiram as suas capacidades, os seus estômagos são essencialmente os mesmos».

Os meus dias

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Teorias da vida que conheci por intermédio de quem conheci

A. entende que se fosse possível conhecer o património genético e todas as circunstâncias da vida de um indivíduo, conseguir-se-ia prever com uma margem de erro mínima todas as suas acções. A. entende que a possibilidade de escolha é uma ilusão. Recentemente, num documentário, neurocientistas afirmavam que, durante o processo de uma decisão, o eu só decide um micro-segundo depois de as sinapses terem processado a decisão de uma forma que escapa totalmente ao controlo dessa ilusória arma que é a vontade, um conceito vácuo. Fatalmente, lembrei-me dele.

B. entende que devemos acordar todos os dias com um motivo - experimentar sensações novas. Para B., temos de conhecer tudo, exercer todos os ofícios, experimentar todas as drogas, ir a todos os sítios, ao mundo dos muito ricos, ao mundo da prisão, ao manicómio, etc, etc. Apesar - ou por causa dela? - dessa sede de viver, raramente o vi sorrir.

C. só se consegue dar com umas pessoas que sintam como inferiores. «Para sentir o controlo, para não ter ciúmes ou inveja, para me sentir útil e para me sentir um rei», confessou numa noite de copos.

D. precisa de sentir a adrenalina. Apaixona-se por algo ou alguém - e vive saltitando de estímulo em estímulo, poucas vezes levando algo até ao fim, mas sempre muito estimulado, sempre deslumbrado - as pessoas e as coisas são apenas um instrumento para a paixão. Vive apaixonado pela paixão.

E. viveu sempre em função de construir uma família. Certa vez, disse-me que «encontrar uma pessoa que faça o dois sentir um é uma bênção tão rara» que estava quase certo de que não a iria encontrar. Encontrou, teve filhos e vive entrincheirado na família - o resto do mundo pode desabar, desde que os destroços não façam riscos no seu lar. Diz que vive numa bolha de amor e que isso é o máximo que se pode esperar da vida.

F. vive entre livros e ideias. Dedica-se essencialmente a religião, filosofia, história e esoterismo. Toda a sua vida é a procura de um sincretismo pessoal que lhe «explique esta merda toda». Garante que é preciso uma vida para tal - e que uma vida pode não bastar.

G., quando se quer afastar de um pessoa do sexo que gosta, diz-lhe estar terrivelmente apaixonado e que não suporta estar na sua presença.

H. entende que os princípios (uma coisa necessariamente abstracta e relativa) são a coisa mais importante da vida. «Os princípios não são elásticos.» Penso muitas vezes na sua cosmovisão e no seu exemplo, ainda que considera que lhe falta um suplemento de humanidade.

I. não discute e raramente bota opinião. Tenta compreender todos os pontos de vista. Há quem a considera a melhor pessoa do mundo e há quem ache que isso é uma máscara para a sua ausência de personalidade - o vácuo onde não pode repousar nenhum eu.

J. não tem filtro entre o cérebro e a boca, diz sempre do que gosta e não gosta, não se cala quando discorda, não cala ver alguém magoar outro porque não deixa rancores no sistema digestivo, não sorri quando não gosta de um piada e declara toda sua amizade, amor e admiração por quem gosta. Tem amigos e inimigos de uma intensidade inacessível.

L. fez uma purga nas suas amizades. Passou a dar-se com pessoas «que constroem, pessoas positivas». Diz que vive tremendamente mais leve desde então.

M. considera que se tivermos muito tempo e ócio, a cabeça fabrica mil e um demónios. Está quase sempre ocupado. As segundas-feiras são o seu dia mais risonho.

N. vive agarrado à ideia de que grandes desgraças curam pequenas desgraças. Afirma não ter pudor nenhum em recolher uma certa satisfação de outros terem cancros, filhos que morrem - isso permite-lhe digerir melhor o desemprego ou um desgosto de amor.

O. fez da política uma religião. Os problemas dos seres humanos de carne e osso, quando não passíveis de resolver pela revolução não são dignos de consideração. Fala muito em povo, igualdade, humanidade, mas nunca em homem.


P. lembra constantemente a brevidade da vida - está-se a marimbar para o sucesso ou grandes planos. P. é novo, mas fala muito na morte porque já teve um problema grave, dizendo que a única coisa que recolhemos da vida (diz ter descoberto quando esta lhe bateu à porta) são os afectos.

Q. é indiferente a elogios ou censuras. Devemos aspirar apenas à autenticidade e coerente na sua indumentária, verve, acções. Diz que quando sabemos bem quem somos e o que queremos, não nos deixamos ralar muito com o que os outros pensam - cães ladrando na neve, enquanto ele está instalado na casa sólida construída com os seus materiais, à lareira.

R. assevera que uma mente lúcida e perscrutadora não suporta demasiada realidade. Aliena-se com estupefacientes e exorta as mentes lúcidas e perscrutadoras a fazerem o mesmo.

S. vê a felicidade como um rácio entre as necessidades que temos e as que satisfazemos. O elemento superior da fracção é muito baixa - e isso permite-lhe ser feliz. Basta-lhe viver no campo, «estar rodeado das pessoas de quem gosta», ver futebol e beber cervejas. Diz que se olharmos para o estado global do mundo, a esmagadora maioria das nossas necessidades são no mínimo fúteis, no máximo demenciais.

T. quer deixar uma obra para a perenidade. «Não quero morrer.» Mesmo que perdurando na memória dos outros, diz que todos os que não deixam obra, acabam por morrer.

U. quer maquiavelicamente ter o máximo de dinheiro e o máximo de poder para um criar um grande império de solidariedade social e doar em testemunho uma maquia que permita erguer satélites. (Penso nele, por vezes, esperando que não se perca nos meandros.)

V. disse-me uma vez que quem não tem ninguém por quem desse a vida não pode morrer feliz.

X. vê a vida como um processo constante de demolição e procura não ter muitos laços. Diz que o seu medo de ser infeliz e maior do que o entusiasmo de ser feliz. Não sofre muito, não vibra muito - reduziu a capacidade do seu paladar da vida como mecanismo de autoprotecção.

Z. tem sempre uma visão diferente a analisar o Outro. Para ele, quase todos usam máscaras. Quando alguém proclama ser culto, viril ou feliz, Z. lê-o do avesso e vê aí uma ânsia e uma fissura que tenta a todo o custo esconder. Acha que os que respondem a ofensas são os que têm o ego mais fraco e que os que suportam uma chapada sem necessidade de ripostar são os mais bem resolvidos.
- Quem nunca conheceu o medo não se pode arrogar corajoso. Quem nunca se cruzou com a tentação não pode proclamar santidade.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

MANHÃ

- Bom dia. Diz-me um guarda.
Eu não ouço... apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.

Vómito insuportável de ironia
Bom dia, porquê bom dia?

Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite, ninguém mora,
deite esse bom dia lá fora
porque lá fora é que é dia!

Luís Veiga Leitão

Acordar, bem, tarde

Às vezes acontece, uma noite bem dormida, em que acordamos, sem sabermos como, nove ou dez horas depois de termos adormecido.
Acordamos tarde, atrasados, com o dia todo fora de horas. Eis a coisa que aprendi durante os anos em que quis actualizar-me, apressando-me selvaticamente para poder recuperar os horários rotineiros que eu julgara ter traído: perde-se mais com a pressa de voltar ao que sempre foi do que se ganha com o vagar de conseguir ir além do que se costuma seguir.
A mudança de horários é boa mesmo quando é imposta, por muito artificial e ideologicamente que seja, por nós. Mas, quando ela se desloca por vontade própria, com um tal desmando que parece querer salvar-nos da modorra do sincronismo previsível dos nossos hábitos, é milagrosa.
Não gostamos de ser interrompidos - mas gostamos de interromper. Sermos interrompidos faz-nos bem. A frescura insone de acordar cinco horas depois de ter tomado um comprimido para dormir - tempo suficiente para não dizer de mais, atendendo ao culposamente pouco partido que tiramos dele.
Viver tornar-se uma tão estúpida obsessão que dormir bem - sempre mais do que se precisaria, esticando a ronha até ao limite do olho fechado - é cada vez mais considerado como um abraço acamado que se dá à Morte.
Que disparate: dormir é viver bem.

Miguel Esteves Cardoso
Duas observações pertinentes de Pacheco Pereira.
1. Retire-se os factores Sócrates e troica e esvazia-se o discurso político.
2. Se um dia destes vencer um partido keynesiano, como poderá aplicar a sua política? Não poderá.

A mutilação da democracia está aí. Há até quem (ressuscitando a ideia pioneira que Hitler queria aplicar a Roosevelt) defenda a criminalização dos políticos que apostam em políticas económicas expansionistas do lado da oferte. Bandeiras a meia-haste, prisão, a Eslováquia a indexar os salários dos políticos à dívida, a inscrição na Constituição do limite da dívida, onde isto vai. Primeiro, cria-se a ideia de que todos no Estado roubam. Depois, vem a ideia de que quanto mais ligeiro o Estado, melhor. E então privatiza-se tudo.
Livre pensador não será redundante?

Como se escreve nos jornais hodiernamente

Manchete do Público de terça-feira: «Chineses e alemães melhor colocados na corrida à EDP.»

Colocam-se ovos no cesto e os óculos dentro da mala, mas dificilmente chineses e alemães (caixa alta quando aplicado de forma generalizada). Terrível modismo este.

«Melhor» é estritamente comparativo de «mais bom». Neste caso, «mais bem colocados».


A robustez do carácter mede-se pelo seu saber ganhar.
Eurípedes questiona se aquilo a que chamamos de vida não será morte e se aquilo a que chamamos de morte não será vida.
O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Álvaro de Campos

quarta-feira, dezembro 14, 2011

terça-feira, dezembro 13, 2011

- Angel, eu trabalhei dois anos como executivo e sentia que tinha de deixar a alma escondida em casa. Ao almoço, os homens só falavam de futebol, gajas e carros. Num almoço, tinha um livro de poesia e tive de o esconder debaixo do rabo na cadeira, tal o medo terrível de que alguém mo interceptasse com o olhar e começasse com piada homofóbicas.

Os diferentes

Os muito diferentes sempre me toparam
por trás da máscara de normalidade
(um qualquer magnetismo que não se veicula por palavras ou código de indumentária
que nem no discurso, traje ou gestos formais consigo esmagar
sempre os fez atracar em mim)

O tipo do secundário que não tinha um amigo
e passava os intervalos a jogar flippers para mascarar a solidão
Não falava com ninguém
Um dia, encostado à máquina, sorriu-me, sem me conhecer
«Queres jogar comigo?»
O rapaz cheio de tiques que era um máquina de pancada da chacota alheia
Aqueloutro que era o único que não jogava futebol nas aulas de Educação Física
ficando a jogar vólei
e que no balneário só comigo falava (num tom baixinho de modo que ninguém nos ouvisse)
A rapariga de brinco no nariz e cabelo rapado que tinha uma caneta com que queria pintar a Lua
(Raramente falávamos e um dia: «Preciso de ti para me validares. Preciso do teu espelho para me encontrar.»)
A mulher que andava de luvas para não se contaminar com micróbios alheios
que nunca punha a mão na passadeiras rolantes
e tomava seis banhos por dia
e que um dia - para meu espanto - comeu do meu garfo o mesmo bolo
A L. que me diz falar com os bichinhos-de-contas e que só a mim - diz - me conta os diálogos
O anarquista cristão que dizia só eu perfilhar da sua ideologia
A minha amiga que recolhia homeless do metro e que disse que só eu não a considerava estranha
O homem do lixo mongolóide que nunca levanta a cabeça, mas que, ao passar por mim, expande os lábios num sorriso distendido
«Amigo, temos de combinar um café antes do Natal.»

Por vezes, tenho vontade de os juntar pela noite, reservando a noite só para nós.
Tentarei ser autêntico, como eles conseguem ser autênticos.
Pintar os lábios e os olhos.
Dizer-lhes: «Finalmente, sinto-me eu.»



- Garanto-te a constância do sentimento, não a constância da comunicação.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Auto-elogio

Como o Nick, narrador de Gatsby, acredito que todos os homens têm pelo menos uma virtude cardeal. E, como ele, a minha é a honestidade.

Hoje, comprei tabaco e fiquei a pensar se me levaram o preço de um ou de dois maços. Dubitativo, irei lá, contudo, amanhã asseverar que levei dois ao preço de um.


É qualquer coisa que não me deixa dormir.

(A quantidade de dinheiro que dei ao Estado por não saber cabalmente o que se pode descontar e por ser tão puritanamente zeloso a declarar tudo e mais alguma coisa, deixando até passar anos de isenção.)

Mesmo com conhecidos, não suporto a ideia de ter algo que não me pertence - são muitas as coisas que emprestei e não me devolveram, mas isso não me tira um minuto de sono.

Prefiro ser o tipo-que-pagou-mais-imperiais (sem ninguém saber) a existir alguém que me pagou mais imperiais do que eu. É evidente que na amizade, a contabilidade dá lugar à harmonia, e no longo prazo, numa mente não mesquinha, o balancete deixa de ir assinalando as entradas e saídas - mas, ainda assim, a haver desequilíbrio, que seja eu o perdedor.

Nunca roubei coisa alguma, não gosto de prejudicar alguém num cêntimo - em caso de dúvida de contas, preciso de ter a certeza de que não fiquei a ganhar.

Não consigo recorrer a cunhas, não pagar uma viagem de metro, fazer um risco num carro com o metal da ganga das minhas calças sem deixar lá o número. Foi sempre assim. Sempre assim será.

- Quando a Igreja diz que só os homens podem ser padres, ignorando o que era a mulher e a sua condição na sociedade de então; poderia ao menos acrescentar que muitos dos apóstolos de Cristo eram casados e tinham uma caterva de filhos.
Não tenhas medo que te digam que tens a mania de que és superior aos outros. (Quantas vezes a humildade não é um convite à ovação do Outro.) Quando sabes que se marcares o penalti é golo, vai lá marcar o penalti.
O liberalismo é algo muito mal compreendido. Há uma profunda descontextualização histórica - quando surgiu, o liberalismo opunha-se à intervenção estatal para erradicar os privilégios dos nobres contra os burgueses e o proletariado - nem um átomo para defender os patrões contra os trabalhadores. Com a mudança dos tempos, pede-se intervenção estatal para defender os mais pobres. São coisas historicamente incomparáveis.


Nos EUA, existem movimentos (e um partido) que conjugam o liberalismo económico de Friedman e Hayek e um liberalismo dos costumes bem mais radical do que o do Bloco de Esquerda.

Na Europa, e em Portugal, a coisa não é assim. Liberalismo económico e conservadorismo nos costumes para os partidos de direita; e o contrário nos partidos de esquerda.

Pior: o liberalismo económico em Portugal é contrário aos apoios sociais e aos serviços públicos, mas nunca reclamada dos apoios do Estado à banca e a empresários.

Peter Singer

Peter Singer, o melhor filósofo contemporâneo (tive o prazer de lhe dizer isto pessoalmente no Porto), foi atacado por um deficiente numa palestra, que, entre outras injúrias, o chamou de «nazi».

Claro está que Peter Singer, como qualquer filósofo, pode ser perigosamente interpretado na superficialidade, porque a Filosofia nunca pode ser compreendida pelo jornal ou pelo sound bite das sinopses.

Na linha de Jeremy Bentham (que há séculos defendeu o casamento homossexual, os direitos dos animais, criticando e propondo novas prisões humanizadas), Singer, um utilitarista dedicado ao ramo da Ética (vale a pena ler a sua definição destrinçadora de moral e de ética) defende posições que precisam de uma leitura intertextual da Filosofia e que quando apresentadas na sua conclusão final pode parecer arrepiantes.

Singer defende que, para o utilitarismo, deixar morrer alguém de fome por não se ter feito uma doação é como (o que configura matéria criminosa em qualquer código penal).

Singer, quanto ao aborto, é tão liberal, que nem me atrevo a pôr aqui a sua conclusão final - que levou uma amiga minha a irritar-se comigo e a falar durante três horas na praia até que ela, num clarão, nem digo compreendesse, mas tolerasse a posição que eu também defendia -, porque sem se lerem pelo menos trinta páginas não se poderá compreender.

Mas a parte mais incompreendida e que levou o deficiente a levantar-se da cadeira para o atacar
é o seu argumentário em prol da defesa dos direitos dos animais. Singer diz que aqueles (os «especistas») que defendem que o homem tem uma cartilha de direitos humanos e os animais não têm o uma cartilha dos seus direitos inerentes por os primeiros terem mentes mais complexas do que os segundos, se fosse coerentes, defenderiam que os deficientes deveriam ter menos direitos. Singer sustenta que o princípio igualizador (todas as transgressões ideológicas começam por ser heréticas e anatemizadas) é a capacidade de senciência - de sentir dor e prazer. Acrescenta estar demonstrado que muitos animais a têm, inclusivamente o sofrimento psicológico e a ansiedade da tomada de consciência da antecipação da morte.

Peter Singer não quer reduzir os direitos dos deficientes - quer alargar os direitos dos animais; e o seu exemplo é apenas para mostrar a falácia da argumentação «mais capacidades, mais direitos».

Já Francis Scott Fitzgerald escrevera que o ponto mais importante da Revolução Russa era veicular a ideia de que por mais que diferissem as capacidades dentro do género humano, os seus estômagos eram essencialmente iguais - e que era esta a ideia-motriz da igualdade na consideração dos interesses de todos os seres humanos.

Sencientes, acrescentou Singer (e, já agora, o Dalai-Lama, que não é conhecido pela sua particular barbaridade nazista).


Quando, desde o início, ela te considera autoritário, arrogante, desprendido, e quando ela se apaixonou por uma imagem de ti que comportava esses elementos; tu perguntas-te se a paixão esmaecerá quando ela te descobrir brando, passivo e vulnerável.
Spite of despondence, of the inhuman dearth
Of noble natures, of the gloomy days,
Of all the unhealthy and o'er-darkened ways
Made for our searching: yes, in spite of all,
Some shape of beauty moves away the pall
From our dark spirits

Keats
Pulido Valente: esfuziante é com zê e não com esse; regurgitava é com u e não com ó.
Um pensamento racional no sentido cartesiano, lógico no sentido aristotélico, dificilmente cai no goto da maioria.

Lembro-me do texto (de quem?) que dizia que a adesão das pessoas a um sistema de crenças (político, religioso, ético) se fazia pelo grau de emoção ou de beleza estética que o dogma ou axioma indemonstrável do mesmo nos proporcionava.

O teorema da incompletude de Godel não é apenas matematicamente revolucionário. É-o também cientificamente.

Qualquer sistemas de variáveis assenta num axioma indemonstrável.

Este asserção explica porque nas ciências - naturais e, principalmente, sociais - se conseguem apresentar milhares de arrazoados implacavelmente lógicos a defenderem que o leite faz mal ao organismo e que a inflação e o desemprego apresentam uma correlação negativa e outros milhares a demonstrarem exactamente o seu contrário. No início e no meio do encadeamento lógico, há sempre pelo menos um axioma não demonstrável - a que se adere por simpatia estética, por crença, por uma emoção.


- Como é que tu...
- Tinha de estar com um homem que não tivesse alguma característica que me fizesse lembrar de ti.
- O Napoleão talvez tivesse razão. A sorte, essa sim, é a característica mais importante e que é logo demonstrada no onde nasces, no quem são os teus progenitores, no tamanho do teu nariz... E continua pela vida fora, sendo o elemento crucial nos momentos decisivos; porque tu nunca consegues controlar ou tão-pouco conhecer todas as variáveis de cada desafio. Tu tens bebido muito do porte da sorte, tens noção disso?

domingo, dezembro 11, 2011

- A inteligência, além de indefinível e multifacetada, é, como dizes, a virtude - ou característica - mais sobrestimada. No outro dia, alguém dizia numa empresa que o João era muito esforçado e um exemplo para todos os seus colegas; e que o Mário era uma cabeça, mas que tinha muito pouca capacidade de trabalho. O Mário sorriu impante e o João ficou irritadíssimo.

In an Instant

In a slight stroke of your hands,

it is the whole world that I comprehend.

In the mere thought of you,

it is the entirety of eternity that I attend:

flowing, nude, content.


&


I am the heavens;

I am all the stars;

I am this Earth.

I am also that golden thicket of wheat,

expecting the clusters of scented seed,

in the green lake of its joyous dance.


I traverse you,

like a lightening crossing the night.

I blaze.

And I then melt.


Ahmad Shamlou


- A presença de algumas amizades masculinas para mim, Angel - ele disse -, chega por vezes com alguns amigos mais próximos a ser uma necessidade de presença física. Até os seus corpos a meu lado me fazem falta.
No se me importa un pito que las mujeres tengan los senos como magnolias o como pasas de higo; un cutis de durazno o de papel de lija. Le doy una importancia igual a cero, al hecho de que amanezcan con un aliento afrodisíaco o con un aliento insecticida. Soy perfectamente capaz de soportarles una nariz que sacaría el primer premio en una exposición de zanahorias; ¡pero eso sí! —y en esto soy irreductible— no les perdono, bajo ningún pretexto, que no sepan volar.

Oliverio Girondo
- Angel, o Engels não tinha razão, a família não é o veículo para transmitir o património. A família é, em muitos casos, um pará-raios para a solidão que se teme nos anos dos cabelos brancos. E, está claro, uma tentativa de vencer a morte ou o aniquilamento do eu, deixando sementes para a perenidade.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Gezellig

http://wwword.com/718/words/untranslatable/gezellig/

L´espirit de escalier

[es-pree de less-ka/-iay] (idiom) A witty remark that occurs to you too late, literally on the way down the stairs. The Oxford Dictionary of Quotations defines esprit de l'escalier as, "An untranslatable phrase, the meaning of which is that one only thinks on one's way downstairs of the smart retort one might have made in the drawing room."
De pé, assiste à desagregação do mundo de outrora.

Começou a vida numa terra ignota e pobre. Trabalhava na terra de outros, passava fome, ao jantar, muitas vezes só três batatas - uma para a mãe, outra para o pai, outra para ele. A alegria era quando vinha o vendedor de livros atados num cordel - «comprava tudo o que podia e não podia, lia, lia, lia».

Foi a todas as livrarias oferecer-se para trabalhar. Não entendiam como alguém com a escola primária pudesse conhecer tantos livros. Ninguém lhe deu emprego. Ofereceu-se para carregar livros em armazéns - e, um dia, lá foi carregar livros, lixando as costas, mas vendo as capas, abrindo-os, cheirando-os, afagando-os.

E um dia chegou a livreiro. E mudou de continente. E voltou. Sempre no meio dos livros.

E um dia criou a sua livraria - uma livraria que não é de novidades, uma livraria que poderia vender raridades a preços que não vende, uma livraria que tem montras que não se vêem em parte alguma.

E, agora, tudo conflui para ruir.

De pé, com a cabeça a sangrar, mas levantada, olha para o passado meditabundamente e deixa cair um poema.

- O meu mundo não voltará. O mundo em que havia, não digo ética, mas uma certa ética no sector dos livros. Um mundo em que não havia a luz alienante da televisão e em que nos encontrávamos no café Gelo para uma tertúlia depois de jantar. Um mundo em que uma frase mal escrita era uma frase mal escrita fosse num livro, numa carta ou num bilhetezinho. Um mundo em que só entrava no mundo dos livros quem amava o livro. Um mundo em que os dicionários não tinham budget. Um mundo em que dedilhar páginas não fora substituído pelo carregar no botão. Um mundo em que quando alguém caía na rua todos paravam. Um mundo em que as pessoas analfabetas sabiam e sentiam tanto. Um mundo com menos ruído e distracções sensoriais. Um mundo em que enganar o próximo não era esperteza, mas falta de carácter. Um mundo em que a paisagem primeva não fora corrompida pela mão do homem. Um mundo em que o automóvel não estava em todas as fotografias do mundo urbano. Um mundo em que não havia tanta gente. Um mundo em que éramos mais próximos... das... das coisas... como dizer? das coisas que nos elevam.


Como se tivesse todas as palavras à sua disposição e mordesse sempre a mais coruscante.

«Tumular.»

«Peçonhenta.»

«Pudicícia.»

O seu refinadíssimo gosto até irrita.
- Valorizo mais a ausência de determinadas coisas nas pessoas que abomino do que a presença de coisas que valorizo. Se as primeiras são automaticamente exclusivas, as segundas não são necessariamente inclusivas.
(Eu gosto dele, atenção.)

Adora entrar nos círculos do poder, da beleza. Gosta de conhecer os espaços físicos, de entrar lá - os sítios onde o Poder putativamente comanda o país. Gosta de conhecer pessoas bonitas, pessoas da televisão, pessoas do espectáculo. Não é o interesse - é o glamour, o cheiro da imortalidade. Não o levo a mal - há qualquer coisa acriançada por trás disto tudo.


- Pensar é uma violência contra natura. Não no sentido largamente difundido e genérico do verbo. Pensar, tentar compreender um autor, reflectir filosoficamente é um esforço que obriga a pôr as vísceras de fora.
Claro está que a obra é tudo o que importa - e que os prémios, a crítica, as entrevistas do autor são coisas tão exteriores à mesma como a chuva ou o Maradona.
Todo o ouro do mundo depositado na obra, todas as condecorações na cinta, todos os ornamentos de opiniões de outros sobre a mesma não acrescentam uma ervilha ao valor da obra - incólume a tudo.
O livro é apenas o que está lá escrito.
Herberto Helder não dá entrevistas e não aceita prémios - trata do seu jardim: a Obra. O problema é que, de tanto se reservar, o seu exemplo (como tantos excessos que conduzem ao efeito contrário) - porque atípico - faz com que seja dos escritores que suscitam maior curiosidade sobre a sua vida. A pessoa tornou-se em mito precisamente porque recusou mostrar a pessoa. E isso faz com que se fale tanto no caso Herberto Helder e não na obra Herberto Helder.

Herberto He(lde)rético

Reuniram.

Deliberaram.

Premiaram.

Porém, o poeta não desceu à honraria.

Permanece no seu plano.

Sem desdenhar.

Sério.

Contido.

Indiferente ao elogio.

Assim, não legará o discurso do recompensado

Nem o sorriso convencional

Mascarará sua face

No ritual do “beija-mão” do datável acto.


Tornou-se maldito

porque rejeitou o que não devia ser rejeitado.

Não se sujeitou ao que devia ser agradecido

- porque nada tem que agradecer.

Não recebeu o dinheiro-premial

Porque se recusou a ser consumido.

Continuará como d’antes:

Olhando o mundo,

Construindo imagens,

Esculpindo sons,

Deambulando pelos penumbrosos corredores das palavras

No caminho da luz vislumbrada

Que leva ao cume da montanha.

Que a tua heresia, poeta, não forje seguidores

Que “júris” e ganhadores desculpe.

Que sejas amaldiçoado pelo exemplo que deste;

Pelo acto simples de te afirmares apenas tu.


André da Livraria Lácio


- Num cenário de guerra, um soldado entre vários, nas trincheiras, acossados, esfomeados, estava sempre com um sorriso na cara. Ria-se sempre. Os colegas, desanimados, longe da família, vivendo cada dia como o último decidiram pôr-lhe um saco na cabeça, bem atado, durante um tempo indefinido. Quando o finalmente tiraram, ele tinha aprendido a lição. Não consta que alguma vez mais tivesse sorrido. Não sei qual é o filme. Mas nunca me esqueci.

Chinese

guanxi (Mandarin) [gwan-shee] (noun)

This is one of the essential ways of getting things done in traditional Chinese society. To build up good guanxi, you do things for people such as give them gifts, take them to dinner, or grant favors. Conversely, you can also "use up" your guanxi with someone by calling in favors owed. Once a favor is done, an unspoken obligation exists. Maybe because of this, people often try to refuse gifts, because, sooner or later, they may have to repay the debt. However the bond of guanxi is rarely acquitted, because once the relationship exists, it sets up an endless process that can last a lifetime.

Espantam-me as pessoas que nunca meditaram muito sobre o factor Deus (crendo ou não crendo, irrelevante).

quarta-feira, dezembro 07, 2011

A chamada


Liga-me daqui a vinte minutos que agora não posso falar. Não é o meu marido que ainda não chegou a casa, não são as crianças que estão lá dentro com o computador e a porta do quarto fechada, não é ninguém, estou sozinha mas não consigo falar. Não, não tem a ver contigo, porque carga de água teria a ver contigo, tem a ver comigo apenas, coisas que se passam entre eu e mim e não me apetece explicar, aliás se explicasse não entendias, o que sabem vocês das mulheres, do que se passa numa mulher, do que uma mulher pensa, do que uma mulher sente, acham que somos malucas, acham que somos diferentes, acham que somos parvas, liga-me daqui a vinte minutos, se quiseres, se te der na bolha, se te apetecer e talvez eu consiga ou talvez não consiga, sei lá, sei que agora não posso falar, a única certeza que tenho é que agora não posso falar. A ti nunca te aconteceu não poderes falar, claro, podes sempre, vocês podem sempre, vivem da boca para fora, impingem sentimentos como quem impinge electrodomésticos, exigem que a gente os compre pelo vosso preço e, francamente, o vosso preço, neste caso o teu preço, não me interessa um fósforo, experimenta dentro de vinte minutos e talvez eu torne a ser parva e te oiça e acredite em ti e compre como tenho comprado até hoje, põe a mão na consciência e repara como tenho comprado até hoje mas neste momento nem sonhes, não posso, não me apetece, não quero, deixa-me sossegada um bocadinho, não me venhas com histórias que não engulo nenhuma, preciso de pensar, de tentar entender, de tentar entender-me, não insistas que me incomoda insistires, não te tornes aborrecido, não te tornes peganhento, vou cortar a chamada, não posso falar e, se pudesse falar, não respondia o que querias, não dizia o que te apetece que eu diga, o que ordenas, sem ordenar, que eu diga, a tua maneira de dares a voltinha às coisas, de me levar à certa, de me fazeres prometer o que jurei a mim mesma não prometer, não posso falar e é tudo, sinto-me tão vulnerável, tão frágil, não me obrigues a abrir a boca, a chamar-te querido, a chamar-te amor e a ser sincera ao chamar-te querido, ao chamar-te amor, não tenho ganas de ser sincera nem de acreditar em ti nem de esquecer tudo o resto, eu querido, eu amor e tu a rires-te por dentro visto que vocês se riem sempre por dentro, vocês para os amigos

- Claro que a gaja engoliu

vocês para os amigos

- A gaja engole sempre

e acontece que a gaja não engole agora, a gaja recusa engolir agora, acontece que a estúpida da gaja percebe tudo agora, vai à fava, larga-me da mão e vai à fava, acaba com a vozinha quente, acaba com os argumentos idiotas que a gaja não está no papo, está muito longe de estar no papo, os teus amigos

- O que sucedeu à tua palheta?

e sucedeu que a tua palheta já não vale um chavo, não vais lá com palheta, não vais lá com juras, promessas, arrependimentos, não vais lá com diminutivos, não me peças colo, não armes ao pingarelho a pedir colo, fala-lhe ao coração que a gaja amolece e no caso não amolece nem meia, nem é questão de amolecer, aliás, amolecer o quê, acreditei enquanto resolvi acreditar e acabou-se, não acredito mais, não faças partes gagas, não mintas, olha, para usar os vossos termos vai à merda, não ligues daqui a vinte minutos sequer, não ligues mais, se ligares não atendo, se te pendurares da campainha da porta não abro, se falares com o meu irmão

- Eh pá põe-na mansa

mando-o às malvas num rufo, aguenta como um homenzinho e cala-te, que é feito da tua autoridade, que é feito do teu orgulho, não rastejes que me fazes dó, aguenta-te nas canetas, cresce, se aos quarenta anos não cresceste quando é que vais crescer, não cresces, continuas uma criança, vocês todos hão-de ser sempre crianças, não aprendem, estou farta, filhos já eu tenho que cheguem, maridos, fora este, dois iguais a ti que não me interessa onde param, raios vos partam a todos, não dou mais dinheiro a ganhar a psiquiatras, não vou andar por aí a tropeçar nas coisas derivado aos calmantes, apetece-me paz, entendes, sossego, entendes, nem sonhes em pendurares-te em mim, tentares enganar-me, meteres-me no bolso, não metes, já meteste, não metes, não necessito de botija de água quente à noite, não necessito de companhia para jantar fora, não necessito de entrar de braço dado seja onde for, não necessito da tua escova de dentes no copo do lavatório nem que me consertes seja o que for em casa, a gaja não engole sempre, a gaja não engoliu, a gaja nunca mais vai engolir, pelo menos de ti a gaja nunca mais vai engolir, vou desligar isto e deixá-lo no silêncio e, por favor, não me inundes de mensagens, não me inundes de recados, não me faças esperas, não argumentes, não teimes, some-te, que alívio ver-te pelas costas, ouvir falar de ti como de um estranho, nem fazer ideia onde moras, espero que longe e daí tanto me faz, quero lá saber se longe ou perto, não te desejo que sejas feliz, como poderias ser feliz, és parvo, ouviste bem, és parvo, enfia isto na tua cabeça, és parvo de nascença e adeuzinho que agora não posso falar, ainda por cima com o meu marido a meter a chave à porta, aprende a respeitar as senhoras casadas, não lhes cries situações que as embaraçam, some-te, se desejares, mas só se desejares muito, muito mesmo, do coração, encontras-me amanhã no escritório a partir das dez horas.

António Lobo Antunes