sexta-feira, dezembro 30, 2011
A insónia por Scott Fitzgerald
... Destruição e horror: o que eu poderia ter sido e feito, e se perdeu, desperdiçou, dissipou e desapareceu, irrecuperável. Podia ter agido deste ou daquele modo, evitado isto ou aquilo, ter ousado quando temi, usado de cautela quando fui imprudente.
Não precisava de a ter ferido daquela maneira.
Nem de lhe ter dito aquilo, a ele.
Nem de me destruir tentando destruir o indestrutível.
O horror chega agora como uma tempestade - e se esta noite fosse uma antecipação da noite de depois da morte? E, se a partir daqui, tudo fosse um calafrio eterno à beira de um abismo, com toda a minha baixeza e desgraça próprias a empurrar-me e toda a baixeza e desgraça do mundo pela frente? Não há escolha, nem caminho, nem esperança - só a repetição incessante do sórdido e do semitrágico. Ou, talvez, tenha de permanecer para sempre no limiar da vida, incapaz de o transpor e de regressar. Agora sou um espectro, enquanto o relógio bate as quatro horas.
[...]
Irresistível, irisada, eis a Aurora, eis outro dia.
Adormecer e Despertar
quinta-feira, dezembro 29, 2011
Leituras Marcantes de 2011
Procusto recebia os seus convivas numa cama, ora estreita, ora larga, tendo deste modo de lhes amputar os membros ou de os esticar para que coubessem no leito. O autor, apologista dos limites do conhecimento, entende que os nossos cérebros recorrem a camas (padrões de pensamento) desajustadas do tamanho do real - achatando o caos informe da realidade nos nossos tacanhos e redutores esquemas de pensamento.
São muitos os assuntos que interessam ao autor. Em todos, há exageros, humor, uma bílis perante determinados ódios dilectos (os academistas, os tecnofilos, os economistas e gestores, os desportistas) e uma paixão imensurável por Platão. (Prefiro preconceitos assumidos do que destilados insidiosamente.)
A lucidez e um sarcasmo acutilante são conseguidos pela hiperbolização. Mas que dá que pensar dá. Que faz sorrir faz.
«Quando ela grita que o que fizemos é imperdoável, já nos começou a perdoar.»
«Chamamos narcisistas aos indivíduos que se comportam como habitantes centrais do mundo; aos que fazem exatamente o mesmo num conjunto de dois chamados amantes ou, melhor, "abençoados pelos amor".»
«Pedir à ciência que explique a vida e as questões fundamentais é como pedir a um gramático que explique a poesia.»
«Para marcar uma separação entre o sagrado e o profano, tomo um banho ritual após qualquer contacto, ou correspondência (até por e-mail), com consultores, economistas, professores da Harvard Business School, jornalistas e todos quantos estejam envolvidos em desígnios igualmente depravados; depois, sinto-me e ajo purificado do profano até ao episódio seguinte.»
«O sagrado tem tudo que ver com incondicionais; o profano tem tudo que ver com condicionais.»
«Ter charme é conseguir insultar as pessoas sem as ofender.»
«Nascem e são postos numa caixa; vão para casa viver numa caixa; estudam pelo preenchimento de caixas; vão para o chamado "trabalho" numa caixa, onde se sentam na sua caixa-cubículo; conduzem até à mercearia numa caixa para comprar comida numa caixa; vão para o ginásio numa caixa para se sentarem numa caixa; falam em pensar «fora da caixa», criativamente; e quando morrem são postos numa caixa.»
«Há dois tipos de pessoas: as que tentam vencer e as que tentam vencer discussões. Nunca são as mesmas.»
«Estamos vivos na inversa proporção da densidade de clichés dos nossos escritos.»
«Aquilo a que chamamos "livros de gestão" são uma categoria eliminativa inventada pelos livreiros para textos sem profundidade, sem estilo, sem rigor empírico e sem sofisticação.»
«A arte é uma conversa unilateral com o não-observado.»
«Assim como nenhum macaco é tão bem-parecido quanto o mais feio dos seres humanos, nenhum académico vale mais do que o pior dos criadores.»
«Há nomes como "economista", "prostituta" ou "consultor", aos quais a caracterização adicional não acrescenta informação.»
«Os quatro modernos mais influentes: Darwin, Marx, Freud e (o produtivo) Einstein foram eruditos, mas não académicos. Sempre foi difícil fazer trabalho genuíno - e imperceptível - nas instituições.»
«O século xx foi a bancarrota da utopia social; o xxi sê-lo-á da utopia tecnológica.»
«Para ser filósofo, comece por caminhar muito devagar.»
«Porque é que eu tenho um problema obsessivo com Platão? A maioria das pessoas precisa de superar os seus predecessores; Platão conseguiu superar todos os seus sucessores.»
«A língua inglesa não distingue entre arrogante-para-cima (irreverência dirigida aos temporariamente poderosos) e arrogante-para-baixo (irreverência dirigida aos mais fracos).»
Devidamente arrumado junto de Pensamentos e Reflexões de José Alberto Braga e dos Silogismos da Amargura de E. M. Cioran (um chocolate demasiado preto para ingerir em ocasiões especiais dado o seu efeito deletério), eis um livro de aforismos que se lê do princípio ao fim numa primeira leitura, mas que vamos tirando da prateleira quando nos chama.
Aprecio a lata de quem escreve aforismos - é como se dissesse «esta frase, este pequeno parágrafo» tem algo a dizer constantemente. A exposição ao ridículo é maior.
quarta-feira, dezembro 28, 2011
Na mesa do restaurante, a senhora calou-se quando leu «que chata» na mente de um.
Na cama, ela pensava que nunca ninguém lhe tinha proporcionado tão pouco prazer e ele abandonava o ofício.
Na entrevista de emprego, o jovem jurou ao início que removeria as tatuagens ao entrar na sala - tudo em pensamento - ao que o entrevistador assentiu com a cabeça antes de começarem a falar.
sábado, dezembro 24, 2011
Uma chamada telefónica
sexta-feira, dezembro 23, 2011
Leituras marcantes de 2011
Quando um ensaio não é escrito numa prosa acima do razoável (como é o caso, tantas reticências espúrias), o autor (neste caso, a autora) tem de pensar bem e transmitir algo terrivelmente interessante para me agarrar.terça-feira, dezembro 20, 2011
Oceano
Aqui estou eu em lado nenhum…
Balão diletante
… Boiando…
…Boiando …
Conheci todas as coisas, amei todas as pessoas…
Quebrei todas elas
(Como um cristal contendo
Um líquido precioso)
Vertendo a sua essência…
Para os meus lábios sôfregos.
Metamorfoseei-me em todas as coisas,
Passeei por dentro de todas as pessoas...
Mas ao contrário dos outros…
Não ancorei nelas…
Parti sempre para outras…
Os outros hoje vêem a realidade
Pelo seu buraco da fechadura
E eu vejo tudo de lado nenhum.
E tudo o que tenho cá dentro
É mais do que tudo…
Tudo o que li, vi, pensei
Amei, sonhei, agarrei
Vivi.
(Como uma taça transbordando líquidos
Que não existiram em nenhuma garrafa.)
Sou a orgia de sexo, comida e riso alarve das dezenas de pessoas nuas na mansão…
Sou o eremita isolado na montanha coberta de neve…
Sou o deus encarnado no artista em cima do palco convergindo os gritos da multidão…
Sou a força do místico contemplando a paisagem e diluindo o seu eu na Alma Universal…
Sou o sorriso libertador do budista que saltou para fora da roda da insatisfação…
Sou o fogo libertino do álcool, da droga, da ausência de regras e amanhãs…
Sou a beleza do comportamento escorreito e das figuras geométricas regulares…
Sou o encanto da vida dupla e dos segredos só contados à noite…
Sou o estado limpo do despertar solar, do exercício físico e do dever cumprido…
Sou o conforto do habitual, o valor da palavra, a lealdade, a verticalidade,
O refúgio do cobertor na chuva, a certeza dos velhos amigos na desgraça…
Sou a frescura das sensações novas, a surpresa, a explosão das cores, a evolução,
O novo gelado do Verão, as alamedas verdejantes, o desabrochar da flor amarela ao Sol…
Sou o romântico ciente de que a melhor experiência do mundo é unitária: o Amor…
Sou o eclético que se libertou da mais ardilosa das construções sociais: a monogamia…
Sou o charme do fumo azul pairando sedutoramente pelo bar…
Sou a melodia da palavra casa para aquele que regressa extenuado do mundo cruel…
Sou a repugnância do nazi pelos fracos, sujos e pusilânimes e o seu fascínio
Pelos belos e fortes que platonicamente devem perdurar a Força e a Beleza…
Sou a solidariedade do socialista e o amor do cristão condensados
Na compaixão do homem bom pelo sofrimento do Outro que é igual ao seu…
Sou a harmonia conceptual dessa manifestação divina que não se vê nem se sente e
Que só funciona desde que ninguém se preocupe com ela: o mercado!
Sou essa coisa que insufla a alma do comunista: o vislumbre de um
Maravilhoso mundo novo sem exploração e sem classes…
Sou o rugido de leão do grito de liberdade do anarquista
Almejando libertar a humanidade de todas as correntes…
Sou a beleza amena que circunda o playboy zen na praia paradisíaca
Rodeado de deliciosas mulheres, areia de prata, luz e altas palmeiras…
Sou o cheiro fétido que perpassa o acampamento dos toxicodependentes
Por entre os montes caóticos de lixo, os rostos irreconhecíveis e as seringas…
Sou a porta escancarada para as largas avenidas do contentamento…
Sou o envelope trémulo nas mãos do doente que receiam a sua sentença de morte…
Sou a vitória saborosa de quem acabou de cometer a longa vingança
Sorrindo perante o inimigo caído ao seus pés…
Sou o abraço compassivo da jovem caminhante
Ao mendigo andrajoso sangrando na beira da estrada…
Sou o pintainho com a pata magoada saltitando amorável por entre a chuva…
Sou o magnetismo emanando do verde docemente enigmático da pantera…
Sou o longo campo de girassóis encharcados de Sol que sabes sorrirem só para ti…
Sou os barcos atracados numa tarde opaca de domingo…
Sou a lua de Inverno, gelo imponente e cintilante, brilhando na noite mágica...
Sou os sonhos de Verão de um mundo porvir sussurrado na praia de ouro…
Sou a onda de mel quente e doce que submerge os namorados no banco do jardim…
Sou o relógio dos amantes batendo fora deste tempo algures fora deste espaço…
Sou o perfume natural do teu ente amado que te ficou entranhado na ponta do dedo…
Sou o som das ondas invadindo aveludadamente o silêncio da praia à noite …
Sou o murmúrio do teu nome arranhando-te a alma na noite encantada…
Sou as flores rebentando no subsolo do mais belo poema
Cuja beleza só o próprio poeta alcançará…
Sou esse não-sei-quê que emana da flauta do encantador de serpentes
Hipnotizando toda a humanidade…
Sou o mistério do outro lado da porta… do templo… sem porta…
Sou a tal grande boca que acolherá os frios e os quentes e vomitará os mornos…
Sou o iate iluminado à noite, deslizando suave e majestático…
Transportando todas as pessoas para o seu destino…
Sou a corda invisível (tu nunca soubeste o que era…)
Que te puxa para as tuas coisas favoritas e para as tuas pessoas preferidas…
Sou o material intangível por detrás da última camada do inconsciente
Fazendo navegar os teus sonhos…
Sou o preconceito irresistível a favor de tudo o que é teu…
Sou essa coisa que só tu sentes...
Intransmissível ao mundo
Invisível por entre as palavras
Que te perpassa agora …
Provocando-te esse doce arrepio…
Desenhando-te esse sorriso…
E eu sorrio ao ver esse sorriso…
Oh! O mistério em todas as coisas…
A noite intemporal, o mar prateado…
O tempo urdindo em silêncio
Por entre o sossego do mundo…
As estrelas e a imensidão lá em cima…
A face visível do inescrutável…
Oh! A beleza em todas as coisas…
O teu sorriso tutti frutti
E os teus seios de baunilha…
Suspensos à porta do infinito…
Oh! Poder cair sempre de novo…
Neste feitiço imortal…
Oh! Eu quero estar sempre aqui...
Eu quero estar sempre sempre aqui...
Aqui em pé
Quando a claridade substitui a noite…
Sentir esta coisa esplêndida
A recomeçar sempre
A vida…
Escorrendo-me por entre as veias
Como a mais fabulosa bebida…
Oh! Eu quero estar sempre aqui …
Eu quero estar sempre sempre aqui…
Imaginar os dias porvir…
Efervescendo algures…
E sorrir…
Vem…
Perde-te na profundidade do meu ser…
Mergulha nestas águas infinitas…
Deixa o teu rosto encostar-se ao meu…
Lá no fundo…
Ele será o teu espelho…
No hotel da minha alma
Haverá sempre um quarto com vista para a tua paisagem favorita…
Inato
O dicionário define «inato» como aquilo que nasce com o indivíduo e que é independente do que se apreende ou experimenta depois do nascimento.
Durante o século XIX, o paradigma científico sustentava que a biologia era a principal matriz explicativa da realidade. Por outras palavras, a hereditariedade (ou a genética) eram o elemento-chave na explicação do comportamento do indivíduo. Este paradigma era assim determinista e linear, pois considerava que se tivéssemos acesso à genética cabal de determinado ser, poderíamos predizer absolutamente o seu comportamento.
No século XX, a biologia foi esvaziada de importância, e o congénito deu lugar ao ambiente, enquanto chave decifradora da realidade. Ortega Y Gasset condensaria este pensamento na máxima de que o homem não tem natureza, mas sim história. A esta mutação paradigmática não será alheio o advento do socialismo que, sendo uma doutrina igualitária, convinha pressupor que os indivíduos nasciam iguais. O crime, por exemplo, não era mais do que um epifenómeno das desigualdades sociais, eliminando-se assim qualquer possibilidade de explicação de propensão genética para o mesmo; ideia de resto com reminiscências em Rosseau.
Hodiernamente, considera-se que a hereditariedade (o «inato») e o ambiente (o «apreendido»), sob as ramificações do contexto familiar, das relações sociais, do grau de instrução, pesam ambos na explicação do indivíduo. Pinker fala, a este propósito, do interaccionismo holístico. Se é verdade que, por um lado, os genes apontam uma tendência, temos de admitir que o ambiente pode travar ou reverter essa mesma propensão.
A realidade revela-se, assim, mais confusa, caótica e multifacetada do que os esquemas monodimensionais do século XIX e XIX, sendo o resultado de um vasto conjunto de interacções entre capacidades inatas e estímulos apreendidos. Dentro deste paradigma combinatório de inato e apreendido, cientistas há que enfocam mais uma variável do que outra. Ashley Montagu, Stephen Jay Gould e Anne Fausto-Sterling, por exemplo, não se afastam muito da ideia-matriz do século passado. A importância do factor ambiente escora-se empiricamente na correlação entre o comportamento dos pais e o comportamento dos filhos e nas línguas, em que um falante de determinada língua é-o sempre por factores culturais e não por uma maior propensão genética para falar esta ou aquela língua. No entanto, nos casos em que as correlações poderiam apontar para uma propensão genética, como a existência de mais homens nas engenharias, estes autores apontam para o preconceito contra as mulheres. É, contudo, mais fácil escudarmo-nos no preconceito para explicar a menor percentagem de mulheres em altos cargos da política e das empresas do que explicar a maior proporção de homens nas áreas de engenharia e de mulheres na área das letras. O factor «inato» não pode ser totalmente posto de parte, de modo que não se caia no maniqueísmo do século XX. A etologia tem demonstrado, de resto, a partir da observação de um vasto conjunto de animais, designadamente de aves, que a primeira interacção de um animal ante um desencadeador é processada através de um esquema inato. No ser humano, doenças como o autismo e a esquizofrenia continuam a demonstrar à sociedade a importância do peso do inato. Mas não são só os desvios à norma que não deixam que a hereditariedade seja apenas um factor residual. Os próprios testes de QI demonstram uma importância mútua dos factores inato e apreendido. Por maior que seja o peso atribuído ao factor aprendizagem, nunca poderemos descurar que esta depende das capacidades de aprendizagem que são diferentes dentro do reino animal e que, mesmo dentro da espécie humana, diferem. A fisiologia, as capacidades intrínsecas, numa palavra, o inato, condiciona a quantidade e a forma como a informação poderá ser internalizada. Preconceitos ideológicos de parte, é um truísmo afirmar que uma formiga possui uma capacidade infinitesimal de absorção dos estímulos da realidade circundante face a um chimpanzé ou que um coxo congénito dificilmente será um corredor olímpico. O conceito de aprendido é indissociável do inato. Não só porque o que é apreendido depende da capacidade máxima que o inato permite absorver, mas porque também o inato depende do apreendido, moldando-se a este ao longo das diferentes gerações de cada ser. É o exemplo do condicionamento do crescimento dos pés na China, em que uma imposição social (ou política) influencia o inato das gerações vindouras, encurtando-lhes o tamanho do pé. A palavra-chave aqui é «influência», porque o verbo que se deve aplicar ao factor ambiente (o «apreendido») é precisamente influenciar e não «determinar», uma vez que a fisiologia intrínseca do pé não pode ser moldada socialmente a seu belo prazer. Peter Singer, no seu livro Ética Prática, sustenta que não devemos temer os resultados da Ciência, mesmo que esta aponte para a desigualdade genética de capacidades entre os seres humanos. Alega que aquilo em que se fundamenta a igualdade na consideração dos seres humanos não é a sua igualdade de capacidades, mas a sua igual capacidade de sofrer e ter prazer. Compreende-se facilmente este argumento se consideramos que os deficientes mentais devem ter os mesmos direitos dos outros seres humanos com mais capacidades cognitivas. Como escreveu Scott Fitzgerald, aquilo que torna os homens iguais é que «por mais que difiram as suas capacidades, os seus estômagos são essencialmente os mesmos». |
segunda-feira, dezembro 19, 2011
Teorias da vida que conheci por intermédio de quem conheci
sexta-feira, dezembro 16, 2011
- Bom dia. Diz-me um guarda.
Eu não ouço... apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.
Vómito insuportável de ironia
Bom dia, porquê bom dia?
Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite, ninguém mora,
deite esse bom dia lá fora
porque lá fora é que é dia!
Acordar, bem, tarde
Como se escreve nos jornais hodiernamente
quarta-feira, dezembro 14, 2011
terça-feira, dezembro 13, 2011
Os diferentes
segunda-feira, dezembro 12, 2011
Auto-elogio
Peter Singer
domingo, dezembro 11, 2011
In an Instant
it is the whole world that I comprehend.
In the mere thought of you,
it is the entirety of eternity that I attend:
&
I am the heavens;
I am all the stars;
I am this Earth.
I am also that golden thicket of wheat,
expecting the clusters of scented seed,
I traverse you,
like a lightening crossing the night.
I blaze.
And I then melt.
No se me importa un pito que las mujeres tengan los senos como magnolias o como pasas de higo; un cutis de durazno o de papel de lija. Le doy una importancia igual a cero, al hecho de que amanezcan con un aliento afrodisíaco o con un aliento insecticida. Soy perfectamente capaz de soportarles una nariz que sacaría el primer premio en una exposición de zanahorias; ¡pero eso sí! —y en esto soy irreductible— no les perdono, bajo ningún pretexto, que no sepan volar.
Oliverio Girondo
quinta-feira, dezembro 08, 2011
L´espirit de escalier
Herberto He(lde)rético
Reuniram.
Deliberaram.
Premiaram.
Porém, o poeta não desceu à honraria.
Permanece no seu plano.
Sem desdenhar.
Sério.
Contido.
Indiferente ao elogio.
Assim, não legará o discurso do recompensado
Nem o sorriso convencional
Mascarará sua face
No ritual do “beija-mão” do datável acto.
Tornou-se maldito
porque rejeitou o que não devia ser rejeitado.
Não se sujeitou ao que devia ser agradecido
- porque nada tem que agradecer.
Não recebeu o dinheiro-premial
Porque se recusou a ser consumido.
Continuará como d’antes:
Olhando o mundo,
Construindo imagens,
Esculpindo sons,
Deambulando pelos penumbrosos corredores das palavras
No caminho da luz vislumbrada
Que leva ao cume da montanha.
Que a tua heresia, poeta, não forje seguidores
Que “júris” e ganhadores desculpe.
Que sejas amaldiçoado pelo exemplo que deste;
Pelo acto simples de te afirmares apenas tu.
André da Livraria Lácio
Chinese
guanxi (Mandarin) [gwan-shee] (noun)
This is one of the essential ways of getting things done in traditional Chinese society. To build up good guanxi, you do things for people such as give them gifts, take them to dinner, or grant favors. Conversely, you can also "use up" your guanxi with someone by calling in favors owed. Once a favor is done, an unspoken obligation exists. Maybe because of this, people often try to refuse gifts, because, sooner or later, they may have to repay the debt. However the bond of guanxi is rarely acquitted, because once the relationship exists, it sets up an endless process that can last a lifetime.
quarta-feira, dezembro 07, 2011
A chamada
Liga-me daqui a vinte minutos que agora não posso falar. Não é o meu marido que ainda não chegou a casa, não são as crianças que estão lá dentro com o computador e a porta do quarto fechada, não é ninguém, estou sozinha mas não consigo falar. Não, não tem a ver contigo, porque carga de água teria a ver contigo, tem a ver comigo apenas, coisas que se passam entre eu e mim e não me apetece explicar, aliás se explicasse não entendias, o que sabem vocês das mulheres, do que se passa numa mulher, do que uma mulher pensa, do que uma mulher sente, acham que somos malucas, acham que somos diferentes, acham que somos parvas, liga-me daqui a vinte minutos, se quiseres, se te der na bolha, se te apetecer e talvez eu consiga ou talvez não consiga, sei lá, sei que agora não posso falar, a única certeza que tenho é que agora não posso falar. A ti nunca te aconteceu não poderes falar, claro, podes sempre, vocês podem sempre, vivem da boca para fora, impingem sentimentos como quem impinge electrodomésticos, exigem que a gente os compre pelo vosso preço e, francamente, o vosso preço, neste caso o teu preço, não me interessa um fósforo, experimenta dentro de vinte minutos e talvez eu torne a ser parva e te oiça e acredite em ti e compre como tenho comprado até hoje, põe a mão na consciência e repara como tenho comprado até hoje mas neste momento nem sonhes, não posso, não me apetece, não quero, deixa-me sossegada um bocadinho, não me venhas com histórias que não engulo nenhuma, preciso de pensar, de tentar entender, de tentar entender-me, não insistas que me incomoda insistires, não te tornes aborrecido, não te tornes peganhento, vou cortar a chamada, não posso falar e, se pudesse falar, não respondia o que querias, não dizia o que te apetece que eu diga, o que ordenas, sem ordenar, que eu diga, a tua maneira de dares a voltinha às coisas, de me levar à certa, de me fazeres prometer o que jurei a mim mesma não prometer, não posso falar e é tudo, sinto-me tão vulnerável, tão frágil, não me obrigues a abrir a boca, a chamar-te querido, a chamar-te amor e a ser sincera ao chamar-te querido, ao chamar-te amor, não tenho ganas de ser sincera nem de acreditar em ti nem de esquecer tudo o resto, eu querido, eu amor e tu a rires-te por dentro visto que vocês se riem sempre por dentro, vocês para os amigos
- Claro que a gaja engoliu
vocês para os amigos
- A gaja engole sempre
e acontece que a gaja não engole agora, a gaja recusa engolir agora, acontece que a estúpida da gaja percebe tudo agora, vai à fava, larga-me da mão e vai à fava, acaba com a vozinha quente, acaba com os argumentos idiotas que a gaja não está no papo, está muito longe de estar no papo, os teus amigos
- O que sucedeu à tua palheta?
e sucedeu que a tua palheta já não vale um chavo, não vais lá com palheta, não vais lá com juras, promessas, arrependimentos, não vais lá com diminutivos, não me peças colo, não armes ao pingarelho a pedir colo, fala-lhe ao coração que a gaja amolece e no caso não amolece nem meia, nem é questão de amolecer, aliás, amolecer o quê, acreditei enquanto resolvi acreditar e acabou-se, não acredito mais, não faças partes gagas, não mintas, olha, para usar os vossos termos vai à merda, não ligues daqui a vinte minutos sequer, não ligues mais, se ligares não atendo, se te pendurares da campainha da porta não abro, se falares com o meu irmão
- Eh pá põe-na mansa
mando-o às malvas num rufo, aguenta como um homenzinho e cala-te, que é feito da tua autoridade, que é feito do teu orgulho, não rastejes que me fazes dó, aguenta-te nas canetas, cresce, se aos quarenta anos não cresceste quando é que vais crescer, não cresces, continuas uma criança, vocês todos hão-de ser sempre crianças, não aprendem, estou farta, filhos já eu tenho que cheguem, maridos, fora este, dois iguais a ti que não me interessa onde param, raios vos partam a todos, não dou mais dinheiro a ganhar a psiquiatras, não vou andar por aí a tropeçar nas coisas derivado aos calmantes, apetece-me paz, entendes, sossego, entendes, nem sonhes em pendurares-te em mim, tentares enganar-me, meteres-me no bolso, não metes, já meteste, não metes, não necessito de botija de água quente à noite, não necessito de companhia para jantar fora, não necessito de entrar de braço dado seja onde for, não necessito da tua escova de dentes no copo do lavatório nem que me consertes seja o que for em casa, a gaja não engole sempre, a gaja não engoliu, a gaja nunca mais vai engolir, pelo menos de ti a gaja nunca mais vai engolir, vou desligar isto e deixá-lo no silêncio e, por favor, não me inundes de mensagens, não me inundes de recados, não me faças esperas, não argumentes, não teimes, some-te, que alívio ver-te pelas costas, ouvir falar de ti como de um estranho, nem fazer ideia onde moras, espero que longe e daí tanto me faz, quero lá saber se longe ou perto, não te desejo que sejas feliz, como poderias ser feliz, és parvo, ouviste bem, és parvo, enfia isto na tua cabeça, és parvo de nascença e adeuzinho que agora não posso falar, ainda por cima com o meu marido a meter a chave à porta, aprende a respeitar as senhoras casadas, não lhes cries situações que as embaraçam, some-te, se desejares, mas só se desejares muito, muito mesmo, do coração, encontras-me amanhã no escritório a partir das dez horas.

