quarta-feira, novembro 30, 2011

Poema em Linha Recta

Todos estavam com frio. A Beatriz, a menos vestida, perante os queixumes do frio, soltou:
- Eu não tenho frio nenhum.
O pai, homem sabido e jocoso, inventou um superlativo:
- A Beatriz é campeoníssima.

A vingança é um sentimento pequenino, maquiavélico e mesquinho, mas, por vezes, especialmente quando servida pouco depois da injúria diminuidora, algo impulsivo e humano, tão humano. Dos pecados capitais, executei-os todos. Menos a inveja e a vingança.

Conheço, como escreveu o outro, histórias terríveis acerca da vida. Contaram-me casos extraordinários...

1. Ela tolerou as infidelidades do marido durante décadas. Ele prometeu-lhe um dia não voltar a. E cumpriu. Diariamente, a mulher foi-lhe infligindo rações de sofrimento e confusão (como ela era insidiosamente astuta!). Acabou internado numa clínica psiquiátrica.

2. Ele foi despedido pelo patrão que era seu amigo. Fizeram um jantar, o despedido compreendeu que falhara inúmeras vezes e que a paciência do patrão-amigo fora inexcedível. Conviveriam durante anos, sempre com aquela pequena sombra, mas numa amizade perfeitamente funcional. Ao fim de muitos anos, foram sócios de uma empresa. Uma tramóia de sócios que quiseram expulsar o ex-patrão teve numa assembleia de sócios os votos divididos. Faltava um. O do amigo que outrora fora despedido. Desempatou votando contra o ex-patrão, que foi assim expulso da sociedade.

3. Ela rejeitou-o. Ele viveu durante anos como amigo dela, com um plano de sedução lento e contínuo e subtil. Quando ela estava debaixo dele à espera da penetração, ele sorriu e disse: «Já tive o que queria. Continuaremos amigos.»

4. Ele acabou com ela. Levou-o para um café e disse umas palavras que pareciam estudadas e ensaiadas. Mais tarde, ela saberia por uma ex-namorada dele que ela terminara com ele nesse mesmo café, utilizando as mesmas palavras.

5. Na terceira classe, ele mandou umas bocas ao matulão que lhe roubou o lugar para beber na fonte da escola. O matulão não gostou e deu-lhe dois tabefes. Acabaria por ficar amigo do matulão (que até o protegia de outros meninos mauzões) e os pais deles levavam-nos ao cinema. Paralelamente, foi desenvolvendo o corpo na ginástica e, dois anos volvidos, a pretexto de algo menor, deu uma sova no matulão.

A vingança a longo prazo será, muitas vezes, operacionalizada pelo inconsciente, mas é das manifestações mais perversas da condição humana. Os dias na esperança de um só dia...

terça-feira, novembro 29, 2011

- Angel, permite-me apresentar uma posição ultrapolémica. Acho que o Obama só defende os muçulmanos. Repara que todos regimes que ele está empenhado em destruir são os regimes laicos - a Líbia, a Tunísia, o Egipto, a Síria. Sem o apoio da OTAN, eles não teriam desabado. É bom derrubar ditaduras, mas todos os indícios apontam - como se previa - para que os fundamentalistas islâmicos venham a tomar conta do poder. E este implicará um recrudescimento da possibilidade de conflitos bélicos, a degradação da condição da mulher, o endurecimento penal com o código penal mais severo do mundo que é a sharia, a degradação da instrução (que estes países tinham!), de tudo. É o caso da Tunísia, da Líbia, do Egipto. Será o da Síria... Isto era previsível. Porque não tentou Barack Hussein Obama meter-se com o Irão, a Arábia Saudita ou o Paquistão?
Consegues ver se uma pessoa vive numa bolha, no seu mundo, numa realidade paralela, pela ausência e fixação do seu olhar.
- A minha mulher é a maior desgraça de toda a minha vida.

Tiques que se apanham revendo novos autores

Adjectivos, adjectivos, adjectivos, adjectivos.
Advérbios de modo, advérbios de modo.
Discursos directos que não se encontram na realidade, mas na dramaturgia.
Clichés, clichés, clichés.
Estilos de autor copiados.
Necessidade de mostrar o que se leu.
Nunca suprimir um excerto brilhante quando este sacrifica claramente a narrativa - parecendo um diamante embutido à força.

Ernest Hemingway, um fanfarrão machista, contou aos amigos como «comera» Mata Hari, como lhe agarrara as ancas, como a domara. Conta o sítio, o local. Um amigo recordava-se do ano em que Hemingway passara lá as férias - sucedia que a espiã morrera no ano anterior.
(Haverá algo mais ridículo?)
- Ela é a pedra basilar da minha casa. Tu... és o perfume no jardim.

domingo, novembro 27, 2011

Conversas de Facebook devidamente autorizadas para publicar

é demasiado awkward
lembras-te da cena do pensamento mágico?
eu acho que tu lês as pessoas todas!
Lobo Antunes diz que devemos desconfiar das pessoas que amam a humanidade, mas desprezam os homens.
(Conheci demasiados esquerdistas assim.)
Quem procura sobreinterpretar tudo, tentar compreender todas as motivações, reacções dos outros não vive.

A hiperanálise atrofia a acção e embota o sentir.
A vida será um processo de demolição - mas o rio continua sempre prateado.
Um homem que conquistou muitas mulheres torna-se dócil onde os outros são irascíveis. Ele consegue fazer parte de todos os clubes - perceber e sentir a quintessência de cada um, sabendo que todos têm razão. Consegue perceber que a Verdade não é Una - mas múltipla. Ele sabe que as circunstâncias e a estrutura interna de cada um são muito fortes. Ele compreende que as almas mais bondosas são capazes da barbaridade mais execrável. Sabe isso e o seu contrário. Onde os outros são invejosos, ele compreende a inutilidade do exercício - conhece a amplitude do tempo, a dissolução de todos os laços e a retoma dos mesmo pelos triliões e triliões de anos na eternidade. Ele sabe que a competição é o maior logro. Sabe que todas as manifestações de raiva e ódio nascem da frustração - ele foi longamente amado, longamente abraçado. Ele não guarda ressentimentos nem lembranças da injúria. Sabe, no fundo de si mesmo, que o desabrochar da sua personalidade conduzirá fatalmente ao amor.
Não exerço qualquer juízo de valor no tocante ao sexo pelo sexo - sei apenas que quem teve comunhões intensas, daquelas em que o Amor mostra o seu triunfo sobre a Morte, depois de quilos de sumptuosidade de salmão e caviar não se contenta com torresmos requentados.

Do Pessimismo Antropológico III

A maioria das pessoas não devolve o troco excedentário quando se enganam.

Do Pessimismo Antropológico II

Raras são as pessoas que se podem considerar bons ouvintes.

Do Pessimismo Antropológico I

Talvez seja uma coisa que vem dos pais - a pudicícia em pedir favores e a solicitude e prontidão para fazer favores. Normalmente, as pessoas funcionam de modo avesso.
Considera uma pessoa multifacetada, fascinada pela vida, a humanidade, o conhecimento, e uma pessoa com interesses estreitos e poucas dimensões - qual delas terá mais queda para a monogamia?
Um homem que alcançou a Verdade que nenhuns olhos poderão ver e nenhuns ouvidos poderão compreender - a solidão mais só.
Borges disse que a sua ideia de Deus - e de como este via cada ser humano - era similar à ideia de um ente apaixonado que vê o objecto da sua paixão como único, recortado de toda a realidade. Para Borges, Deus era esse ser - mas com uma capacidade de paixão perene e que abrangia todos os seus seres.
Um sofista modelar entrevê o tédio e o entusiasmo na fácies do seu interlocutor e antecipa, por segundos, aquele «bem...» que é o prelúdio da despedida.
A-mulher-que-só-andava-com-homens-comprometidos foi ao psico-detective.

- Caro psico-detective, diga-me qual a razão deste comportamento.
- Há várias hipóteses a considerar:
a) a senhora gosta do risco, da aventura, do perigo;
b) a senhora usa os homens para competir com as mulheres dele. Lembre-se do Eclesiastes: Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade;
c) a senhora só anda com homens que não lhe exigem omnipresença porque o seu estatuto não a prende e a senhora tem fobia de clausura;
d) a senhora quer castigar o que lhe fizeram, executar a vingança fazendo o mesmo.
Erotomania - a mania de achar que todos estão apaixonados por si.

sábado, novembro 26, 2011

A Igreja Católica como o PCP move-se milimetricamente ao longo dos anos.
(A realidade parece não entrar nas cabeças destas estruturas.)
A cúpula da Igreja Católica tem uma faixa etária similar à do Comité Central.
O código de santidade (para quem os conhece. Exemplo: leiam sobre a condenação dos adúlteros numa e noutra e a forma como esses membros eram tratados ou o tratamento de homossexuais no PCP - Fogaça, Ary) de uma e outra estrutura são similares.
A Igreja Católica tem o Reino de Deus. O PCP a ditadura do proletariado.
Deus, Marx.
Jesus, Lenine.
O Povo Eleito, O Proletariado.
O Inferno, o Capitalismo.
O Paraíso, o Comunismo.
Os incréus, os reaccionários.
Os possessos, os fascistas.
A distância entre a instituição e a doutrina primeva. Estaline (e não só) para Marx (não o marxismo que o próprio Marx já repudiava em vida); a Igreja Católica para Cristo.
A superioridade moral.
O princípio (abstracto e intangível) que norteia toda a vida.
A vida que pode ser resumida numa palavra.
A divisão do mundo entre bons e maus.
As verdades absolutas.
A defesa da instituição acima do indivíduo.
A fé, o princípio sustentador dos Verdadeiros Crentes de ambos os lados, e um mecanismo supletivo da desorganização da vida e dos afectos.


Bernie Rezingster

Bernie Rezingster foi uma das figuras mais singulares do século XX. Canhoto e educado numa escola vitoriana, cedo percebeu «o absurdo de contrariar a naturalidade». Aos 17 anos, escreveria o Manifesto Canhestro Contra a Ditadura da Normalidade, um opúsculo com pouco mais de trinta páginas que propugnava pelos direitos dos canhotos, dos homossexuais, dos deficientes, dos estrábicos, dos feios, dos anões. Aos 34 anos, depois de muitas petições e muitos folhetins humorísticos em jornais ingleses, Bernie funda o Left Freedom Club, a que Churchill se referiria como «o movimento de sociedade civil com a prosa mais suculenta do século XX».
Nos primeiros anos, o movimento de Bernie logrou a adesão de 38 escolas que aderiram ao «ambidestrismo escolar» cunhado e preconizado pelo Left Freedom Club.
Ficou célebre o cartune de Bernie no jornal do Left Freedom Club em que, Clement Attlee, primeiro-ministro à época (que um dia ridicularizara o protesto do movimento à porta do parlamento como «um espectáculo circense dirigido por um palhaço menor») aparecia todo atado apenas com a mão esquerda solta, pedindo que o masturbassem com a legenda «Death before left».
O movimento alargou as reivindicações e vários foram os direitos adquiridos. Foi criado um fundo de apoio a empresas que empregavam deficientes, foram estabelecidos «casamentos» entre pessoas do mesmo sexo por figuras chamadas Left Freedom Club Authorities. O movimento encabeçado por Bernie chegou a «criar» uma pequena sociedade paralela com «leis» e «juízes». Igualmente, conseguiram coisas importantes no âmbito dos direitos dos animais - com benefícios materiais para os restaurantes que «não traficavam morte» (o movimento apoiou a passagem de 22 restaurantes para o estrito vegetarianismo) e com uma petição que recolheu 50 000 assinaturas e que terminou com o negócio de importação de Inglaterra com os países que recorriam à morte de focas para lhes extirparem a pele.
No fim da vida, Bernie dedicou-se a lutar pelos direitos dos sem-abrigo. Foram várias as ocupações de edifícios sumptuosos abandonados. Bernie e os seus apoiantes inventariaram os donos de mais de 10 moradias em Londres que tinha pelo menos uma habitação desocupada há vinte anos: conseguiram descobrir 45. Ainda com noventa anos, conseguiu reunir energias para defender o direito à não utilização de roupa em parques de campismo, criando a primeira comunidade de campistas naturistas em Birmingham.
Como grande lutador, Bernie morreria aos 103 anos. A enfermeira que o acompanhou no lar e que escreveria o livro Rezingster - A Tower of Strengh and Hope, diria que Bernie passava o tempo no lar «a rir e fazer rir».


sexta-feira, novembro 25, 2011

Nunca vi ser vivente tão insípido - uma máquina de expelir truísmos.
HINO ÓRFICO À NOITE

Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo.

Poema grego mudado para português por Herberto Helder



Andas numa rua deserta. Três indivíduos manhosos falam entre si. Percebes que é sobre ti. Tens medo. Eles sorriem. Estás quase a cruzares-te com ele. Reúnes toda a coragem. Pensas que darás cabo deles se te tocarem. Atravessas pelo meio deles. Eles afastam-se assustados. O medo e a coragem são coisas palpáveis.
Têm os dias todos iguais. A corrente só é interrompida se adoece ou morre alguém. Estão sempre com as mesmas pessoas, passam quatro anos sem falar com outras e quando vêem outras dizem sinceramente:

- Está tudo na mesma.

Não têm sobressaltos emocionais na vida.

Vão às compras, fazem o jantar, arrumam a casa, comem, bebem, talvez forniquem.
Atingia os paroxismos da generosidade com ele quando estava apaixonada. Dadivosa, gentil, compreensiva, doce. Quando lhe passou, nem um resíduo de amizade mostrava. Era, afinal, egoísta.

Tão português

Qual o propósito de criticar algo que se apresenta ao interlocutor como uma inevitabilidade - algo tragicamente inelutável?
- Se o Cunhal, com a sua busca de santidade e a sua rigidez perante um código colectivo, tivesse entrado na Igreja Católica, chegaria num ápice a cardeal.

Olhando para o cinzentismo dos números

Andando a ler estatísticas de economia política e observando a evolução do Coeficiente de Geni de muitas nações, alguns juízos de realidade (não de valor).

1. A desiguldade intranacional aumentou na esmagadora dos países.
2. A desigualdade internacional aumentou.
3. Alguns economistas sustentam que a desigualdade aumentar deriva de os ricos estarem mais ricos e não dos pobres estarem mais pobres. Empiricamente, isto é desmentido. O aumentou da desigualdade nos últimos trinta anos traduz um empobrecimento da qualidade de vida, da diminuição do rendimento disponível dos mais pobres.
4. A desigualdade não acarreta outras correlações. É uma variável estanque. Outra assumpção desmentida pelos números. Os países com maior desigualdade são os que têm menor esperança de vida, maior taxa de mortalidade infantil, maior e mais violenta criminalidade, menos frequência de espectáculos culturais, entre muitas outras.

quinta-feira, novembro 24, 2011

O homem que não sabe dominar os seus instintos é sempre escravo daqueles que se propõem satisfazê-los.

Gustave Le Bon
Segundo os dados agora divulgados pelo British Journal of Sports Medicine, e que dão conta de uma investigação feita na Austrália, dirigida por L.Veerman, da Universidade de Queensland, cada hora passada à frente do televisor depois dos 25 anos diminui a esperança de vida em cerca de 22 minutos. E este estudo não é um caso isolado, muito pelo contrário. O mesmo se pode ler no último número do Journal of the American Medical Association, onde se dá conta de uma investigação feita durante mais de 40 anos, entre 1970 e 2011, que aponta no mesmo sentido.
[...]
Frederick Zimmerman, da Universidade da Califórnia, não tem dúvidas: "Cada hora diária que as crianças com menos de três anos passam a ver televisão 'comercial' corresponde a uma duplicação do risco de vir a ter problemas de atenção cinco anos mais tarde." Ideia que é reforçada pelos trabalhos de D. Christakis, da Universidade de Washington, que associa o hábito precoce da televisão a significativos atrasos cognitivos e de linguagem, bem como à dificuldade de concentração e a diversas perturbações da atenção.

Manuel Maria Carrilho
Não tenhas medo de acariciar a textura da diferença.
Ia a sair da escola primária e vi os tipos mais casmurros e orgulhosos da escola a discutir junto do portão.

- Só saio daqui quando tu saíres.
- Eu é que só saio quanto tu saíres.

Eram tão orgulhos eles. Estavam tão convictos do que diziam. Trocavam olhares tão agressivos.

Tenho a certeza de que ainda lá estão no portão, que alguém lhes leva comida, e que continuam a dificultar a entrada de muitos pais, miúdos e professores e que aquilo passou a ser um ruído de fundo do porteiro.

- Não tenho imaginação para conseguir contar em quantos tabuleiros tu jogas.
- A curiosidade deixa-me ansiosa a ponto de não conseguir agir e dormir. Preciso de te conhecer para te matar.
- Vamos lá então nesse sprint para a desmitificação.
- Não te preocupes. Tudo o que tens a fazer é ocupar-te. Se te preocupas, não estás a ocupar e, quando quiseres ocupar, já pode ser tarde.
- Os meus amigos são uma sociedade secreta da minha intimidade. Se algum deles quebra, é expulso perenemente.
Ela afastava-se dele triste quando ele cortejava descaradamente - mas nunca reclamando.
Ela estava sempre sempre sempre lá - tão lá que ele não dava por ela, como um braço que temos atrelado e que só valorizamos quando perdemos. Ela ouvia-o e memoriza tudo. Ele não a ouvia e memorizava ainda menos. Quando ela queria contar algo - momentos reservados apenas para algo que a perturbara bastante -, perguntava invariavelmente ao fim de duas frases: «Estou a ser chata?»
Ela, quando acordou da anestesia, enviou-lhe SMS de amor. Os médicos haviam dito que ela não se lembraria de nada. De facto, rasurou família, amigos, tudo - mas lembrou-se do número dele e enviou-lhe mensagens. Só ao acordar, reparou que lhas tinha enviado. Ele - com pressa - nem respondeu.
Ela aturava o seu desleixo, a sua descontinuidade, a sua omissão de um afago de ternura em meses, a sua roupa no chão, as suas botas espalhando terra pela casa - acreditando que, um dia, com doses sucessivas e crescente de mais e mais amor...

Num acidente na A5, ela perdeu a vida.

Com uma tristeza infinita, ele vai, hora após hora, sendo visitado pelas infinitas manifestações de amor incondicional - e sente-se irremediavelmente triste e com vontade de partir o espelho quando nele vê o seu rosto.
Na tal noite mais escura da alma, era visitado por tudo o que poderia ter feito melhor, todas as palavras certas do que deveria ter dito e não dissera, do que deveria ter feito e não fizera, de todo o amor que não dera por distracção povoavam-lhe a insónia.
- Arrancarei das vísceras da minha alma tudo o que me possa fazer expulsar-te de mim.
Tinha tanto medo de sofrer o abandono, que quando se encantava por alguém munia-se logo de um exército de defesas das coisas que não gostava - para um dia, um terrível dia, se agarrar a elas, hiperbolizando-as e esfriando a dor.
O plurigâmico disse ao monogâmico:
- Ouve lá, tu quantas mais pessoas conheces na intimidade, mais expandes a mente, porque absorves códigos diferentes, valores diferentes, mundividências diametralmente opostas e, no fundo, tão iguais. Percebes, toleras e amas as pessoas para lá dos seus defeitos - percebes como as circunstâncias nos moldam a todos. Isto dá-te uma espécie de sorriso ante todas as coisas, tornas-te brando onde os outros são dogmáticos, sentes-te ligado por uma corrente universal - perdes o medo e a estranheza ante o Outro, ante a diferença.

O monogâmico respondeu:
- Conhecer uma pessoa na profundidade vale mais do que conhecer mil na superficialidade. Uma só pessoa encerra a natureza humana.
Ele lera a literatura de todos os séculos, mas só o queriam para foder.
Ele tinha grandes questões filosóficas gravitando no seu cérebro, algumas pessoas mostravam-se interessadas - mas era apenas um veículo para o levarem para debaixo (porque se diz debaixo se é quase sempre por cima?) dos lençóis.
Ele sabia belos poemas de cor (isto é, do coração), mas quando lhes recitava, comovido, só diziam em linguagem facil: «Então e acção?»
Ele adormecia-as quando falava de literatura, só as despertando quando lia Henry Miller (O Sorriso aos Pés da Escada também era soporífero).
Ele gostava de falar e acariciar, mas o primeiro sítio onde lhe punham a mão... não era na mão.
Ele tinha sempre a cama vazia ao acordar e quase nunca ao deitar.
- Mas eu não sei o que é ciúme.
- Se não soubesses, essa palavra nada evocaria na tua mente. Seriam como cinco letras juntas de uma palavra estrangeira.

terça-feira, novembro 22, 2011

Em lendo um texto literário sobre a insónia, evoquei visualmente todas as descrições das deambulações do insone pela casa. Pensei mesmo que as cores, as luzes, os papéis da secretária eram do quarto do escritor que eu via - só muito depois de fechar o livro, percebi que era o esqueleto da minha casa que eu via. O livro é metade do escritor e metade do leitor. Nasce um livro novo cada vez que um livro é lido por alguém pela primeira vez e ainda cada vez que esse alguém o relê - um ser necessariamente diferente em diferentes momentos do tempo.
Borges atreve-se a criticar Shakespeare. Diz que a frase «O resto é silêncio» não resulta. Porque foi escrita com o cérebro. Porque não é subtil. Porque quer destacar-se das outras. Porque quer ostensivamente impressionar o leitor. Porque quebra o ritmo fluido e aparentemente natural.
Dê-me o benefício das suas convicções, se as tiver, mas guarde para si as dúvidas. Bastam-me as que tenho.

Muitos não sabem quanto tempo e fadiga custa a aprender a ler. Trabalhei nisso 80 anos e não posso dizer que o tenha conseguido.

Arquitectura é música petrificada.

Goethe
Aprendi lendo Joseph Conrad n´O Coração das Trevas e Scott Fitzgerald n´O Grande Gatsby como as pessoas interessantes se dão a conhecer devagar. Prodigiosamente subtil, o narrador vai dando indícios sobre Kurtz (em Conrad, algumas frases tonitruantes sobre Kurtz são tão ostensivas, que se percebe o truque do autor) e Gatsby, suscitando a curiosidade em conhecer as personagens que vão aparecendo em cintilações esparsas. Também em Moby Dick, Melville obriga-nos a atravessar seiscentas página até ao encontro épico do Capitão Ahab com a Baleia Branca. De forma análoga, na música dos Cure, aprendi o mesmo - antes que a voz e a letra entre, há um período instrumental infinito.
As pessoas que despejam tudo o que são e querem e foram e erraram e conseguiram nos primeiros encontros não, são, regra geral, as mais interessantes.
Também na literatura, aprendi serem mais interessantes os autores que revelam as personagens pela acções e não por um despejar de adjectivos que impeça o leitor de absorver por si a densidade psicológica das mesmas.
No filme Lost in Translation, senti a importância poderosa do omisso no segredo inaudível no final da película e - mais importante do que isso -, ao longo de todo o filme, porque nunca aquela relação poder ser encaixada no nome de um sentimento de qualquer dicionário.
Com Kafka, aprendi a perceber como se pode falar centenas de páginas sobre algo sem nunca nomear esse algo. As metaideias Estado e Deus estão lá sem nunca aparecerem. Assim é a cumplicidade, as afinidades electivas, o tráfico de sentidos entre as almas - os silêncios e as omissões carregados de subtexto.
Na Literatura, como na Vida, como diziam os Latinos, a arte está em esconder a arte.

segunda-feira, novembro 21, 2011

A gosta de dar mimo a B. B gosta de ter sexo com A.
A não bebe. B bebe muito.
A gosta de se aninhar no peito de B.
B tenta escapar-se sempre de mãos entrelaçadas.
A diz muitas palavras de amor.
B diz muitas palavras carnais.
A só tem B na sua vida. B não tem só A na sua vida.
A chora por B. B diz-lhe que não vale a pena.
A tem um olhar meigo. B tem um olhar felino.
A gosta de estar em casa. B gosta de sair.


A é homem. B é mulher.
Só o teu preconceito de género te levou a pensar no contrário. Repara que não foram utilizados adjectivos.
- O teu saber é intimidatório.
Conseguir cumprir os planos contra a força do muro das circunstâncias imprevistas - a forma mais refinada e robusta de uma alma espartana.
- Sou uma idealista esfrangalhada que teve de esconder os cacos por trás do cinismo e de uma frieza distante.
- És arrogante, bruto e impaciente e eu sou sensível.
Vi os melhores da minha geração que se submeteram à tirania do prazer imediato destruídos numa espiral de decadência onde se juntaram drogas, álcool, loucura.

Porque não acredito na meritocracia

A é presidente de uma junta. Quando tomou posse, despediu um psicóloga com trinta anos de serviço, pondo a filha (professora de Educação Física) no cargo.

B é jornalista. Dirige um jornal local independente. Um novo autarca é investigado e a publicidade ao seu jornal cessa e este fecha. B encontra-se desempregado.

C é jornalista de prosinhas leves e aconchegantes. Um dia, ia entrevistar um célebre rico. Este exigiu que lhe escolhe as perguntas e as respostas previamente. C acedeu. Os outros canais televisivos roubariam o entrevistado nos mesmos moldes e as consequentes audiências. C é hoje um jornalista com reputação.

D é engenheiro e gaba-se de receber luvas. Tem subido inúmero degraus na autarquia em que trabalha.

E é assistente bordo numa companhia onde os comandantes decidem renovar ou não os contratos. E foi encurralada à parede num quarto de hotel numa estada no México. Não dormiu com. Tem hoje dois filhos para cuidar com o subsídio de desemprego.

F entrou nas jotas e lambeu mais cus e pilas do que os dedos do seu corpo permitem contar. Foi assessor da Economia, gastando mais em telemóveis e almoços do que uma dúzia de salários mínimos.

G e H foram duas pessoas a quem pus um processo em tribunal por levantarem milhares de euros de uma associação de estudantes em benefício próprio (G para comprar um jipe, sendo que H já tinha limpado todo o dinheiro enquanto presidente de uma sociedade filarmónica). Um chegou a vereador, o outro a dirigente de um centro de emprego.

sexta-feira, novembro 18, 2011

- Tenho namorado novo.
- Mostra-me uma foto.
- Para quê?
- Um rosto diz muito sobre uma pessoa.
- Não diz nada. Que preconceito. Vê lá... - puxou do telemóvel. - Então o que é que achas?
- É informático?
A sua boca desenhou um ó.
- É - disse, lentamente desfazendo o ó.
O amor acontecer e perdurar eternamente é como a excepção à regra que nos diz que é impossível ganhar a lotaria cem vezes seguidas. Porque o amor só existe se é incondicional.
A representação mental da fealdade do mundo é exacerbada num espírito desnutrido de amor.

Estátua da Rainha Perversa de Olhar Álgido



- Angel - chorava, chorava, chorava - Angel, acabei de ver um cão que ia com a dona todos os dias passear e que foi ao centro de saúde com ela, onde ela acabaria por morrer. O cão ficou cá fora à espera. Angel, o cão está há um ano à espera. Ninguém o consegue fazer sair dali. Uma pessoa não consegue ser tão leal. Angel, eu amanhã vou a Rio de Mouro saber do cão. Só chorei assim quando vi um dito louco num sanatório subitamente a cantar. Nunca vi ninguém cantar assim. Aquilo não era uma pessoa, era um anjo.
Uma mente ágil destaca-se não por encontrar padrões nas dissimilitudes, mas dissemelhanças nos padrões.
O impotente tem de gritar mais alto a sua masculinidade.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Chain of Flowers

Please wake up
It's so dark and cold
Please wake up
I feel so alone
And I feel so scared
That you're going away
And I feel so scared...

All I want is summer
Stories from before
Just like the day you tried to hide
Behind the churchyard wall
And fell asleep before I came
I found you
In a chain of flowers
Sleeping like a marble girl
Sleeping in another world...

I'll never tell you
Of all the different ways
You make me so afraid...

Robert Smith
Substituir o verbo «achar» por «entender», «considerar» e quiçá «pensar». «Crer» remete para crença não escorada na Razão e na análise.
Na primeira vez em que a conheci, falámos muito. Convivemos durante muitos meses. Ela era uma óptima ouvinte. Muito educada, sensível, frequentava espaços alternativos («gosto de gente sui generis»). Nunca a ouvi dizer mal de alguém. Vi fazerem-lhe coisas menos bonitas, mas ela tentava sempre compreender. «És demasiado compreensiva», disse-lhe um dia. Para mim, ela era, pelos seus comportamentos, uma das melhores (comparativo de «mais boas») pessoas que conhecia.

Reparava que não conhecia as pessoas que se davam com ela - e que, astuciosamente, ela evitava que as conhecesse. Um dia, ia com ela a um sítio e ela disse que talvez não fosse boa ideia eu ir - era gente de que não iria gostar, garantiu-me.

- Motards e pessoal que mete um bocado de medo.

Não a associava àquele meio e vi na sua cara que algo mais bailava - algo que tentava esconder e que deveria ser muito pouco bonito.

Numa discoteca, certa vez, ela disse-me que fosse seu guarda-costas.
- Não precisas de guarda-costas... Ninguém te fez nada.
- Se se meterem comigo.
- Se se meterem contigo, manda-os bugiar.
- O meu cunhado quando sai comigo se alguém se mete comigo, tem uma conversa mais séria e... Ahn...
- Eu não sou amigo de violência, excepto em auto-defesa extrema, e não me parece que alguém que venha falar contigo seja merecedor de levar um enxerto.
- Em alguns casos, tem de ser.
- Que raio de sítios deves frequentar.
- Se são muito insistentes, gosto de ser protegida.
- Com violência...
- O meu cunhado às vezes...
- E tu não o censuras?
- Acho que ele faz bem. Se me protege é porque gosta de mim.
- Nunca contes comigo para isso.

Certo dia, ao falar dos incêndios, disse-me na sua voz sempre calma:
- Isso é tudo fogo posto.
- Não tens base para dizer isso. É especulativo o que dizes.
- É, é. Deviam era...
Calou as palavras.
(Este curto diálogo estabeleceu uma conexão na minha mente com o episódio anterior. Fiquei desconfiado.)

Uma vez, ao dar uma esmola a um cego, ela disse-me:
- Há muitos que podiam trabalhar e fazem disto vida.

Outra vez, ao ler uma notícia do jornal, vi-a abanar a cabeça.
- Então?
- Agora, está na moda dizer que os criminosos são todos doentes.

Perguntei-lhe um dia em que votava, preocupado com estes indícios subtis.
- No PNR.
O meu fácies foi tão instantaneamente óbvio, que ela sorriu, deu-me uma palmada e disse:
- Angel, estava a brincar.
Insistiu.
- Angel, estava a brincar... Sim?

No Bairro Alto, um dia, ela cruzou-se com amigos. Olhei para os braços tatuados. Hell Angels, os fanáticos das motos de extrema-direita. Sei que nessa noite me vi num bar rodeado de nazis e não mais lhe voltei a falar.

(Visitar-me-ia num pesadelo em que me vi em meio de uma conferência de negacionistas do Holocausto.)



As virtudes (?) mais sobrestimadas: a inteligência e a coerência.
Quando ouço alguém proclamar a sua inteligência, penso logo que é das áreas em que tem mais inseguranças.

Coimbra de Matos

Passam anos protegidos sem que ninguém saiba ou Do Revisor como o Psiquiatra que guarda sigilosamente os segredos do paciente

Quando o revisor não está, o autor é desvelado no seu analfabetismo.

Miguel Sousa Tavares no prefácio à biografia de Hemingway.

- «Para além» em vez de «além»; (O.K., muitos o fazem.)
- «necessidade da ajustar»; (O.K., uma gralha)
- «em termos que» [sem sentido de «vocábulos» ou «limites»] (O.K., muitos o fazem.)
- «século XX» sem versaletes; (O.K., pode ter sido da paginação.)
- «para-militar» [paramilitar] (E agora, Miguel?)
- «espontâneamente» (Miguel, quer dizer que não erras nos jornais graças aos revisores? Talvez seja um lapso.)
- «estúpidamente» (Miguel, já não enganas mais. TENS PROBLEMAS DE ORTOGRAFIA COM OS ADVÉRBIOS DE MODO).


E mais coisas, como orações consecutivas sem vírgulas ou o desconhecimento da regra da pontuação dentro de aspas quando o período é autónomo e completo. Miguel, em três páginas, percebeu-se o que já aconteceu ao Maestro Vitorino de Almeida (ver para crer: http://www.ciberduvidas.pt/pelourinho.php?rid=542) ou ao Daniel Oliveira (que escreve «routo» e «cresces» para crianças). Quando o revisor não vos safa, dão erros inadjectiváveis. Os blogues são tão elucidativos...
Cultos que só se dão com cultos.

Católicos que só se dão com católicos.

Comunistas que só se dão com comunistas.

Malta que fuma ganzas que só se dá com malta que fuma ganzas.

terça-feira, novembro 15, 2011

Did you know...

... that today is I Love To Write Day? Founded in 2002, this
day is designed to be the world's largest party for writers.
Celebrate today by writing something: a poem, a greeting card,
an essay, a love letter, anything your heart desires!
She said:

a única coisa que quero
que tento
(e ainda n consegui)
a que aspiro
é poder morrer
sabendo que vivi por dois

segunda-feira, novembro 14, 2011

Your eyes, which neither hate nor love
Are ever found to hold,
Are two cold jewels which are made of
Iron mixed with gold
 Baudelaire
Não percebo esta polémica em torno do casamento. Os meus quatro casamentos foram perfeitos.

Oscar Wilde
Ela não vibra com Poesia. Acabou-se tudo.

El pie del niño aún no sabe que es pie,
y quiere ser mariposa o manzana.

Pero luego los vidrios y las piedras,
las calles, las escaleras,
y los caminos de la tierra dura
van enseñando al pie que no puede volar,
que no puede ser fruto redondo en una rama.
El pie del niño entonces
fue derrotado, cayó
en la batalla,
fue prisionero,
condenado a vivir en un zapato.

Poco a poco sin luz
fue conociendo el mundo a su manera,
sin conocer el otro pie, encerrado,
explorando la vida como un ciego.

Aquellas suaves uñas
de cuarzo, de racimo,
se endurecieron, se mudaron
en opaca substancia, en cuerno duro,
y los pequeños pétalos del niño
se aplastaron, se desequilibraron,
tomaron formas de reptil sin ojos,
cabezas triangulares de gusano.
Y luego encallecieron,
se cubrieron
con mínimos volcanes de la muerte,
inaceptables endurecimientos.

Pero este ciego anduvo
sin tregua, sin parar
hora tras hora,
el pie y el otro pie,
ahora de hombre
o de mujer,
arriba,
abajo,
por los campos, las minas,
los almacenes y los ministerios,
atrás,
afuera, adentro,
adelante,
este pie trabajó con su zapato,
apenas tuvo tiempo
de estar desnudo en el amor o el sueño,
caminó, caminaron
hasta que el hombre entero se detuvo.

Y entonces a la tierra
bajó y no supo nada,
porque allí todo y todo estaba oscuro
no supo que había dejado de ser pie,
si lo enterraban para que volara
o para que pudiera
ser manzana.

Pablo Neruda

domingo, novembro 13, 2011

- Detesto o Platão. Tenho um asco tal, que nem consigo ouvir o nome dele sem me exaltar. Foi o gajo que lixou esta merda toda. A narrativa do mundo sensível fez com que elas se contentassem com a essência e não passassem para o real. Ai, é platónico, não vamos para a cama. Filho da puta do Platão, já morreu há tanto tempo e ainda me fode a vida.
Ninguém sabe se o vento arrasta a lua ou se a lua
arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.
Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da terra.

Herberto Helder
A socióloga aponta para a janela e diz à audiência:

- Mulheres, estão a ver aquele homem lá fora - o seu dedo aponta para um sujeito pendurado num andaime à chuva. - Ele sabe quando vos vê que vocês estão fora da sua possibilidade de alcance. Chama-se a isso imobilidade afectivo-sexual. É tão ou mais dura do que a imobilidade social. Distante de vós, a sua única possibilidade de contacto com a vossa esfera é a concretização de fantasias e o dar-vos a conhecer as mesmas quando passam por ele.

Lembrei-me da Adília Lopes que escreveu se um trolha na adolescência lhe tivesse dito «ó boa, comia-te toda», hoje seria uma mulher muito mais auto-confiante.
Lê-me o que tenho escrito e não o que tu tens escrito como se fosse um espelho.
Quando ela está a dormir, eu evoco a sua imagem deitada e dormindo - e tento adentrar-me nos seus sonhos.
- Tenho pavor da aura que existe à tua volta. A idolatria e a dependência assustam-me.
A certa altura, ele começa a falar de Evelyn Waugh. Reparo que fala no feminino. (Sempre fui tímido e delicado a expor a ignorância alheia.)
Quando diz «a escritora», digo baixinho de modo que só ele ouça:
- É um escritor.
- O quê? - quase grita. - Estás doido, Angel?
- Evelyn Waugh é foi um escritor.
- É uma escritora. Li num blogue muito conceituado.
Abano a cabeça, mas já não profiro palavras.
- Ó Angel, ouve lá, tu achas que Evelyn seria nome de um homem?
Não digo mais nada.
Como estávamos num bar com livros, quis Deus que uma hora depois, eu encontrasse um livro do dito.
Digo-lhe: - Tens ali livros de Evelyn Waugh. Podes ver a contracapa.
- É uma mulher, não sejas teimoso.
- Vai lá ver.
- Só se for para ver os títulos que têm. Estou à procura do Reviver o Passado em Brideshead.
- Esse não têm. Mas vê os outros.
Vejo-o a percorrer as lombadas até que, finalmente, lê a contracapa.
- Angel, estas edições não devem ser de confiança. São arcaicas. Falam dela no masculino.

I have been one acquainted with the night.
I have walked out in rain -- and back in rain.
I have outwalked the furthest city light.

I have looked down the saddest city lane.
I have passed by the watchman on his beat
And dropped my eyes, unwilling to explain.

I have stood still and stopped the sound of feet
When far away an interrupted cry
Came over houses from another street,

But not to call me back or say good-bye;
And further still at an unearthly height,
A luminary clock against the sky

Proclaimed the time was neither wrong nor right.
I have been one acquainted with the night.

Robert Frost
Ela exercia sobre ele um magnetismo tremendo, gostava de falar com ela, mas não gostava da pessoa que era nos olhos dela - não era aquela.

Ela entendia-se com ele intelectualmente, mas emocionalmente não - não era aquela. Para satisfação intelectual, tinha livros e amizades.

Ela era tudo o que ele podia querer - mas não havia magnetismo animal. Ficaram amigos.

Ela despertava-lhe algo novo e arrebatador, mas não sabiam o que fazer no quotidiano com aquele mútuo sentimento todo. As rotinas não eram possíveis. Não era aquela.

Ela era demasiado previsível. Cansou-se. Não era aquela.

Ela era demasiado volúvel. Desgastou-se. Não era aquela.

Ela era - percebeu ao fim de muito tempo - uma materialista encapotada. Não era, de forma alguma, aquela.

Ela tinha uma relação perfeita com ele quando estavam a dois - mas ele achava os amigos dela insípidos e ela achava os amigos dele estranhos. Não era aquela.

Ela era intelectual, emocional, espiritual e fisicamente um encaixe perfeito. Tinham as afinidades suficientes. Tinham as divergências suficientes. Mas não se entendiam bem no silêncio - não era aquela.

Ela era finalmente, depois de tantas e de um processo de auto-conhecimento e maturação, aquela. Mas havia uma coisa que não gostava - de passar longas horas a falar com ela. Concluiu que falar era a coisa em que mais se passava tempo numa relação (especialmente no longo prazo) - não era ainda aquela.
When you are in love, you don´t know how can someone scream or shout or be angry or sad.
When you are in love, nothing can take your quietness and your ether-hapiness.
When you are in love, there is no Heaven - the world is the most marvelous place beyond the reach of the most unlimited imagination of the mind.
Octavio Paz escreveu que o licencioso (ou, se preferirem, o libertino) vive na ilusão de ser livre - na realidade, é escravo da sua obsessão-compulsão. Nunca está saciado e precisa constantemente do outro para se satisfazer renovadamente. Pior do que não ser livre, os seus anseios estão subordinados às vontades alheias. Para este escritor, a licenciosidade reduz o Outro à condição de objecto, esvaziando a empatia emocional. Escravo de si, por vezes escraviza o outro à sua necessidade de prazer.

O homem muito organizado

O homem muito organizado acordou em meio da noite preocupado com a desarrumação da cave onde não entrava havia anos.

O homem muito organizado, depois de arrumada a biblioteca, começou a pôr etiquetas por categoria, depois por autor, depois por ano, até que tinha tantas etiquetas quanto livros.

O homem muito organizado apontava quanto tempo demorava a executar cada tarefa - as relações sexuais com a mulher teriam de demorar menos 30 segundos para tratar da horticultura.

O homem muito organizado tinha chinelos de todos os tamanhos para as visitas.

O homem muito organizado queria uma agenda vitalícia.

O homem muito organizado, depois de arrumada a sua casa, começou a pensar no esterco que era a casa do seu vizinho.
- Eu cortei relações com eles há dois anos. Disse-lhes: «Meus amigos, vocês têm todos quarenta anos, são sempre os mesmos, eu quero arranjar uma namorada e já vi aqui não me safo porque só conhecem homens. Caríssimo, como não sou homossexual, desculpem lá, mas eu vou ter de ir à minha vida; vou fazer-me à estrada. Passem bem.» Comecei a sair sozinho porque só com homens à volta é mais difícil arranjar uma namorada. Os homens chamam à atenção em grupo quase sempre pelos piores motivos. E andam de um lado para o outro, a buscar bebidas, a rir-se... Eh pá, não dá. Para o desenvolvimento de um flirt é preciso tempo e tive de remover todos os obstáculos masculinos que me acompanhavam.
- Dependência é não fumar. Porque um fumador fuma e não fuma. Um não fumador nunca fuma. Mesmo que esteja à espera do autocarro ou vá ter com alguém que está atrasado... Não fuma e fica apatetado à espera de que o outro apareça, sem fazer nada, de um lado para o outro com as mãos nos bolsos. Quem fuma resolve facilmente o problema.
- Tu és escritor e eu tenho medo. Um preconceito diz-me que os escritores querem beber a vida e experimentar tudo e eu associo um escritor a alguém que tem uma certa promiscuidade emocional.

sábado, novembro 12, 2011

Rótulos são rótulos.

Os «conservadores» do século XIII em Portugal defendiam o culto do Espírito Santo. O que era isso traduzido na prática? Que todos os presos saíssem da cadeia e que estas fossem apenas uma memória torpe da história da humanidade. Que a criança fosse declarada imperador. Que todos tivessem rações de comida para satisfazer o estômago - e que a sociedade fosse como um banquete comunitário.

Os utilitaristas do século XVII, como Bentham, hoje repegados e requentados pelos neoliberais, defendiam o casamento homossexual e os direitos dos animais como equiparados aos humanos, repudiando a pena de morte, a prisão perpétua e a tortura.

sexta-feira, novembro 11, 2011

Ela veste-se de silêncio.
Porque considera que o seu núcleo impartilhável não é deste mundo?
Porque entende que o meu alfabeto não a consegue ler?
Porque conceptualmente prefere ter-uma-peça-de-roupa-para-não-se-sentir-nua?
Porque gosta de alimentar o mistério - assim obrigando-me a pensar nela?
Porque não confia?
Porque não sabe que não trafico intimidades?
Um livro-espelho em que todos os rostos encontrassem o seu rosto primevo.

terça-feira, novembro 08, 2011

Não adquirimos um estilo como deve ser, a não ser absorvendo pelo menos meia dúzia de autores de primeira ordem por ano. Ou melhor, adquirimos um estilo, mas este em, em vez de ser uma amálgama inconsciente de tudo o que admirámos, é apenas o reflexo do último autor que lemos: linguagem jornalística aguada.

Francis Scott Fitzgerald
Toda a boa escrita é como nadar debaixo de água e suster a respiração.

Francis Scott Fitzgerald
Trabalhar no meio dos pobres tem diferentes efeitos sobre as pessoas. Quem é também pobre apreende a psicologia dos pobres, o que significa um processo pessoal: por exemplo, quando um filho da burguesia embarca a bordo de uma goleta errante tendo de suportar as mesmas privações que os restantes marinheiros, aprende, sem dúvida, a fazer seu o ponto de vista dos segundos. Em contrapartida, uma rapariga de Bennington que ande um mês a trabalhar nos bairros miseráveis, passando os fins-de-semana na mansão do seu pai em Long Island, não adquire mais do que a impressão presunçosa de ser a generosidade em pessoa.

Francis Scott Fitzgerald
era o pássaro do seu medo sem galho onde poisar a tremer os lábios das asas

António Lobo Antunes
A poesia é qualquer coisa que vive como o fogo dentro de ti - como a música para o músico, ou o marxismo para o comunista -, ou então não passa de uma coisa aborrecida, vazia e formal, que serve de objecto aos comentários e às explicações de uns quantos pedantes. A Uma Urna Grega ou é insuportavelmente bela, com as suas sílabas tão inevitáveis como as notas da Nona Sinfonia de Beethoven, ou não passa de qualquer coisa que simplesmente não entendemos. É o que é, porque um génio excepcional parou nesse ponto da História e o fez vibrar. Imagino que tenha lido esse poema mais de cem vezes. À décima leitura, comecei a saber do que se tratava, apreendi o seu ritmo e admirei o seu delicado mecanismo interno. O mesmo se passa com o Rouxinol, que nunca leio sem que as lágrimas me venham aos olhos; e o mesmo com Isabella, com as suas longas estrofes sobre os dois irmãos; e o mesmo ainda com A Véspera de Santa Inês, cujo tecido de imagens é o mais rico e sensual da língua inglesa.
Quem conhece estas coisas desde muito jovem e tem ouvido, dificilmente deixará mais tarde de distinguir entre o ouro e a escória do que lê. Por si sós, estes oito poemas são um exemplo do ofício para quem queira conhecer realmente as palavras, a sua capacidade de evocação, persuasão ou encanto. Por um momento, depois de termos lido Keats, toda a restante poesia parece apenas balbuciada ou trauteada num assobio.

F. Scott Fitzgerald
Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.

António Lobo Antunes
Podres, os lírios fedem pior do que ervas más.

Shakespeare

segunda-feira, novembro 07, 2011

O Escritor

O escritor iludia sentimentos como a amizade e o amor.
As pessoas prendiam-se a ele, mas eram trocadas quando o sumo literário que davam a personagens que escrevia se esgotava.
O escritor usava falsas palavras e promessas de amor para conhecer as reacções e as verter para a narrativa.
O escritor fazia muitas perguntas, fingindo ter preocupações além da sucção de materiais para a escrita.
O escritor tinha um buraco negro no centro do coração. Sacrificava tudo à Obra. Talvez, um dia, quando a glória da obra se erguesse cosida como um enorme manto de ouro que suspendesse a respiração do mundo, talvez nesse dia, eles compreendessem.
Nunca percebera bem se, com a idade, a paciência com os outros aumentava ou diminuía.

Mas já não suportava ter no seu círculo seres viventes com mesquinhez em relação ao dinheiro - daqueles que estão sempre a ver se sobra distraidamente uma borla para si, daqueles que são um sorvedouro, sempre prontos a receber e só se empurrados a dar, daqueles que só contabilizam os fluxos de saída e nunca os de entrada.

Já não suportava a descrição soez das façanhas ou pretensas façanhas dos machizóides que contavam como ela tinha o púbis, como fazia isto, como gritava, como o caralho que os fodesse a todos.

Já não suportava aqueles que estavam sempre a dizer mal dos outros, mas nunca na sua presença.

Já não suportava traficantes da intimidade alheia.

Já não suportava carreiristas ambiciosos, lambedores de cus, coleccionadores de frota automóvel e de gente influente.

Já não suportava aqueles que eram sempre neutros, nunca tomando partidos.

Já não suportava homofóbicos, etnocêntricos, defensores da tortura ou da pena de morte.




domingo, novembro 06, 2011

Lolita é um milagre. Antes de Lolita, elas não existiam; depois do livro, estão em todas as esquinas. Ele [Nabokov] criou o que já lá estava. E criar o que já existe é um milagre raro. De um momento para o outro, vemo-las em todo o lado, nas suas minissaias, mais foi ele quem viu primeiro aquilo que nós não teríamos podido ver sem ele.


George Steiner
A degustação das almas.

sábado, novembro 05, 2011

O Perfeccionista

Revivia atormentado todos os diálogos que tivera. As palavras certas surgiam-lhe, por vezes, a meio do sono com as palavras que deveria ter dito e não dissera. Queria ir lá atrás e colá-las. O que poderia ter feito idealmente e não fizera era uma perda irreparável. O que não poderia ter feito melhor não lhe acrescentava um suplemento de contentamento.
- Mas tu gostavas dela?
- Perdidamente.
- Porque acabaste então?
- Não suportava a ideia de estar com uma pessoa que eu considerava mais interessante e bonita do que eu.

sexta-feira, novembro 04, 2011

Em modo Bukowski

Some lose all mind and become soul:
insane.
Some lose all soul and become mind:
intellectual.
Some lose both and become:
accepted.

the free soul is rare, but you know it when you see it - basically because you feel good, very good, when you are near or with them...

Charles Bukowski
I could understand the moon leaning across a bar on skid row
and asking for a drink, but I couldn't understand anything about
myself,
I was murdered, I was shit, I was a tentful of dogs,
I was poppies mowed down by machine-gun fire
I was a hotshot wasp in a web
I was less and less and still reaching for
something, and I thought of her corny remark
a night or so ago:
You have wounded eyes

Charles Bukowski
and the best at murder are those who preach against it
and the best at hate are those who preach love
and the best at war finally are those who preach peace

those who preach god, need god
those who preach peace do not have peace
those who preach love do not have love

beware the preachers
beware the knowers
beware those who are always reading books
beware those who either detest poverty
or are proud of it
beware those quick to praise
for they need praise in return
beware those who are quick to censor
they are afraid of what they do not know
beware those who seek constant crowds for
they are nothing alone

Charles Bukowski
if you get married they think you're
finished
and if you are without a woman they think you're
incomplete.
those who escape hell
however
never talk about
it
and nothing much
bothers them
after
that.

An intellectual says a simple thing in a hard way. An artist says a hard thing in a simple way.

Aumentam meia hora por dia a jornada de trabalho. Encurtam duas horas o horário do metro. Haverá patrões que deixem sair duas e horas e meia antes?
Eu queria cantar para dentro de alguém,
sentar-me junto de alguém e estar aí.
Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres.
Queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria.
E queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
Os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo do tempo.
E em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
Depois regressa o silêncio. Os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te
quando algo se move na escuridão.

Rilke

Para seres um escritor

a) Leres muito. Mas muito muito muito. E pausadamente;
b) Releres e saberes de cor à força de tanto releres;
c) observares o mundo exterior;
d) observares o mundo interior;
e) entenderes as pessoas;
f) viveres;
g) escreveres todos os dias, nem que seja uma linha;
h) escreveres, escreveres, escreveres até te libertares do Demónio da Influência e encontrares a puta da tua voz;
i) vassourares clichés;
j) caminhares até ficares com os joelhos em sangue, removendo todas as camadas que escondem a tua polpa, até à autenticidade;
i) passares um décimo do tempo a escrever e os outros nove décimos a reescrever o que escreveste.

A arte de seduzir alguém é pequena ante a arte de conquistar alguém. A arte de conquistar alguém é pequena ante a arte de manter um relacionamento duradouro. A arte de manter um relacionamento duradouro é infinitamente pequena ante a arte de abandonar alguém.
Como é que quem não escreve pode lidar com o absurdo do quotidiano?

Graham Greene

quarta-feira, novembro 02, 2011

O bibliófilo recebe a prestação de rendimento mensal e sente logo antecipação da fartura. Imagina-se a entrar na livraria, a deslizar pelas prateleiras. Pega no Cem Poemas de Emile Dickinson e segura-o, agarra O Prelúdio de William Wordsworth e verifica que os dois são demasiado pesados para uma só mão. Em seguida, junta o pequeno volume de William Blake, A União do Céu e da Terra. Subitamente, visita-o a sensação de que quer os três juntos (eles já são seus). Coloca-os juntos numa prateleira. Vai procurando outros livros. Tinha lido numa livraria um livro intitulado Fascismos. Era uma edição recente. Não se lembra do autor nem da editora. Desespera. Tem de o adquirir. Fica com o título gravado na mente - terá de o possuir. Irá possui-lo. Junta aos três O que Resta da Esquerda do politólogo André Freire.

terça-feira, novembro 01, 2011

E garante-se que na «coleção Klássicos», «a primeira coleção que respeita o novo Acordo Ortográfico», «recomendada pelo Plano Nacional de Leitura» e com «revisão atualizada pela Associação de Professores de Português», hão-de estar «26 obras fundamentais da literatura portuguesa». Enfim: «os clássicos como nunca os leu».
Com K, claro.
[...]
Quem sabe se limando as consoantes mudas e outras atrapalhações da escrita não lhes dá também para limar os «pera», os «fermosa», os «inda», os «assi» e demais velharias, isto só para falar no Luiz Vaz, felizmente morto e «atualizável».
[...]
Não se percebe, aliás, porque temos de ler de Camões pieguices como «alma minha gentil que te partiste» quando tu, pá, coisinho, meu, lerias bem melhor «garina minha baril que te basaste».

Nuno Pacheco
António Lobo Antunes diz que perante Tolstoi e o jornal do dia, o braço estica-se sempre para o segundo.

Leonardo Coimbra, da Filosofia Portuguesa, dizia vivermos tempos em que a alma não se recolhia.

A sociedade está cada vez mais acelerada.