«À noite, as pessoas despem-se mais. Há uma atmosfera de pecado amável na noite.»
Pegando nas palavras de José Cardoso Pires, direi: «Na Fábrica Braço de Prata [FBP],
as pessoas despem-se mais. Há uma atmosfera de pecado amável na FBP.»
A Fábrica é um espaço-mundo povoado de livros, quadros, música, fotografias,
artesananto, cinema, esplanada com vista para o Sol e para a Lua. Tanto podemos
lanchar ao ar livre; como tirarmos um livro das prateleiras às três da manhã e ficarmos
sentado a um canto, «em casa», longe do ruído; ou dançarmos freneticamente noutro
satélite numa sala ao lado.
(Releio o parágrafo acima e sinto que as palavras são tão curtas. Queria falar de um
outro-lado-do-espelho e limitei-me a elencar trivialidades. É um parágrafo falhado, com
a utilidade de uma lista de compras de supermercado, mas que não pinga para o papel
uma gota da quintessência do espaço-não-espaço que pretendia descrever. Descrevê-lo?!
Verter a sua magia para uma página. Tarefa inglória ou incompetência do escriba?)
Um aviso aos incautos: não pensem que podem passar pela Fábrica sem que elas vos
toque. Tenham cuidado com quem vão. As paredes convidam-vos a traficarem
intimidades, empurram-vos docemente para conversas sobre o sentido da vida, a beleza,
o amor, a poesia.
Há segredos que só sussurramos na Fábrica, impelidos por insondáveis hierarquias.
Um amigo meu de sessenta e nove anos, afastado das lides bóemias pela
superficialidade e futilidade da noite lisboeta, disse-me ao entrar na FBP pela primeira
vez: «Finalmente, ao fim de dezenas de anos, encontro um espaço que recupera o
sentido da palavra tertúlia do meu tempo.»
A FBP é a minha de «ração do Paraíso» (Octavio Paz). Um conto de fadas em que todos
dispensam máscaras, em que todos têm lugar e em que todos têm um recanto-
espelho. Enfim, um hotel feérico para os mais variados viajantes: literatos; filósofos;
melómanos; artistas; executivos com a poesia escondida por trás de fatos Armani que
lhes revestem as almas; itinerantes do sonho e da liberdade. Hotel esse que terá sempre
um quarto com vista para a tua paisagem favorita...
Na Fábrica, reencontro-me com a certeza de que as coisas mais elevadas são perenes. Só
ao fim de dois anos reparei num letreiro a letras invisíveis: «É proibida a entrada a quem
não tenha a alma trajada a rigor de fraternidade.»
1 comentário:
«Leitor: co-autor do texto.» I. Lêdo
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