segunda-feira, outubro 31, 2011

Para ele, a Época Dourada nunca estava no passado nem no futuro - sempre no presente.

Tento copiar a sua fórmula de felicidade e parece-me resultar.
- Tentar esquecê-la é como tentar esconder um elefante dentro de uma meia.
- Preferirias ser um herói morto ou um cobarde vivo?

sábado, outubro 29, 2011

- Quando uma coisa corre bem, vêm logo outras agregadas.
- Nunca é apenas o território ilusório até à primeira vez.
Nesse mundo, maricas eram aqueles que gostavam de mulheres.

«Fogo, deves ser gostar de maminhas, tu. Panilas do caralho!»

«Eu sou macho, pá. Eu gosto é de pêlo e de um bom nabo!»

«O gajo é panasca. Gosta de cheiras cuequinhas de mulher!»

«Aprende a gostar do que é bom, pá. Uns bons tomates, pá! Gostas da rachinha, ò meu paneleiro de merda?»

«Ai, que bicha do caralho! Quer uma coisinha funda e molhadinha, minha mariposa, foda-se, sente a dureza de um marsápio no cu e aguenta-te se és homem!»


O sujeito vinha, de fato e gravata e mala, a correr apressado. Desceu as escadas e tropeçou, rolando por elas abaixo. Uns indivíduos assistiam à cena e riam-se. Quando alcançou o chão, simpático e educado, levantou-se, compôs-se num segundo e disse delicadamente:

- Cada um desce como quer.

quinta-feira, outubro 27, 2011

Os seus grandes olhos inquietos ao longo da noite cruel
crêem ver outros dois olhos ao fundo da ruela
como se tivessem aberto muito ao seu coração todos os transeuntes
Ela tem medo sem luz e crê nos ressuscitados

Baudelaire
i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
i fear
no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)

e. e. cummings
Aquele que nada representa, aquele que nada pode proporcionar, aquele que não tem coisa alguma nos bolsos para ofertar - esse tem a certeza mais poderosa. É rodeado por aqueles que o amam pelo que é.
- O mais importante não é a cultura, é a bondade.
I don't want to be the glue that holds your pieces together
I don't want to be your idol
See this pedestal is high and I'm afraid of heights

Alanis Morissette
the shallow drowned lose less than we

ibidem
and we shall be together

Robert Smith
The Day Sky

Let us be like
Two falling stars in the day sky.
Let no one know of our sublime beauty
As we hold hands with God
And burn
Into a sacred existence that defies
That surpasses
Every description of ecstasy
And love.

Hamiz

quarta-feira, outubro 26, 2011

Karl Popper dizia que a ciência é apenas um amontoado de verdades transitórias. Não é por todos os patos serem brancos até agora que não poderá aparecer um pato preto.

Os economistas e os nutricionistas dão-nos todos os dias receitas novas. O que é malévolo ao meio-dia é a saúde à meia-noite.
O homem que acreditava na Providência vivia muito tranquilo.

Apesar de haver um marido que lhe queria dar um tiro, apesar dos cinco cancros nos cinco entes amados, apesar de não ter dinheiro para pagar as finanças.

terça-feira, outubro 25, 2011

- Uma mente desocupada é uma oficina do Demónio.
Orwell escreveu que a boa prosa é como uma vidraça - não reflecte os olhos do escritor, mas do mundo. Daí que a sua melhor escrita seja aquela que versa o mundo externo.
Fitzgerald escreveu que há três, quatro experiências marcantes na vida de um homem - e que é sobre elas que devemos escrever. Se quer escrever, disse, o autor tem de pagar o tributo da exposição. «Aquilo de que nos envergonhamos, normalmente, dá uma boa história.»
Conheço quem escreva, mas não consiga publicar - pelo tráfico de intimidades que tal comportaria.

Será que grandes obras perecerão assim?
O clima muda e, com ele, os livros que se lêem.

Porque há livros para ler à noite, na cama, quando troveja. Por exemplo.
Na Filosofia, as respostas são apenas uma máscara de novas perguntas.
Um homem não é um homem até ter entrado num prisão.
O tecnofilo não sente uma flor, um poema.
O tecnofilo não percebe a importância de um cheiro.
O tecnofilo percorre o Media Market como se fosse a Feira do Sexo.
O tecnofilo não consegue estar com pessoas durante vinte cinco minutos sem carregar em botões.
O tecnofilo crê que o não vem na Internet não existe.
O tecnofilo só cita aquilo que encontra nas citações do Google.
O tecnofilo não distingue as conversas do dia das conversas da noite.
O tecnofilo não entende o caos das emoções humanas - e, por isso, não larga o onanismo do ecrã.

- Amanhã, vamos às montanhas - disse Sthar. Milhares de pessoas dependiam do seu juízo equilibrado. Pode-se subitamente embotar um qualidade segundo a qual se viveu durante vinte anos.

F. Scott Fitzgerald
- Alguma vez amaste?
- Não sei.
- Se tens dúvidas é porque não amaste. Nunca fizeste ninguém sentir-se amada?
Era uma necessidade de tempo profunda e desesperada, um relógio a bater-lhe no coração, incitando-o, contra toda a lógica da sua vida, a entrar naquele momento e dizer: «Isto é para sempre.»
Katheleen esperou, ela própria irresoluta - gelo róseo e prateado, à espera de derreter na Primavera.

F. Scott Fitzgerald

Homem morto trabalha por uma semana... (Notícia do New York Times) Os Gerentes de uma Editora estão tentando descobrir, porque ninguém notou que um dos seus empregados estava morto, sentado à sua mesa há 5 dias. George Turklebaum, 51 anos, que trabalhava como Verificador de Texto numa firma de Nova Iorque há 30 anos, sofreu um ataque cardíaco no andar onde trabalhava (open space, sem divisórias) com outros 23 funcionários. Ele morreu tranquilamente na segunda-feira, mas ninguém notou até ao sábado seguinte pela manhã, quando um funcionário da limpeza o questionou, porque ainda estava a trabalhar no fim de semana. O seu chefe, Elliot Wachiaski, disse: 'O George era sempre o primeiro a chegar todos os dias e o último a sair no final do expediente, ninguém achou estranho que ele estivesse na mesma posição o tempo todo e não dissesse nada. Ele estava sempre envolvido no seu trabalho e fazia-o muito sozinho.' A autópsia revelou que ele estava morto há cinco dias, depois de um ataque cardíaco.


segunda-feira, outubro 24, 2011

- Ela girassoliza-me.

domingo, outubro 23, 2011

1. António nunca mais conseguiu ter uma relação com o mínimo de estabilidade e sossego.

2. Miguel exilou-se e nunca mais ninguém soube do seu paradeiro.

3. Nuno foi internado num asilo psiquiátrico, onde está hoje, babando o seu canto e fazendo as necessidades nas cuecas.

4. Rui suicidou-se.

5. Ivo tornou-se num homem que odeia as mulheres.

Protege-te. Foram todos vítimas da femme fatale.

Do nojo do mundo

O líder transitório da Líbia declarou hoje a libertação do país, três dias depois da morte do ex-líder Muammar Khadafi, e afirmou que a lei islâmica será a base da lei no país.
Mustafa Abdul-Jalil afirmou, perante milhares de apoiantes na cerimónia de hoje, que a lei islâmica (charia) será a base da futura legislação do país e que leis existentes que contradigam os princípios do Islão serão anuladas.
Acho que nos tocamos com coisas que julgamos que são palavras, mas que são mais fundas do que isso.

António Lobo Antunes
Collage, uma forma de representação artística em que coisas aparentemente desconexas, quando contíguas parecem ganhar uma vibração quente e enérgica e desconhecida. Um todo apenas possível quando feito de coisas aparentemente irreconciliáveis.

Há idiossincrasias assim. Personalidades cheias de coisinhas feias que se tornam belas e singulares holisticamente.


E eu senti

Uma presença que me perturba
com a alegria
De elevados pensamentos;
um sentido sublime
De algo mais profundamente entremesclado,
Cuja moradia é a luz dos poentes
E o redondo oceano
e o ar vivo.
E o céu azul

William Wordsworth

sábado, outubro 22, 2011

O verniz aquoso sobre a mancha do horror.

Dinis Machado

sexta-feira, outubro 21, 2011

Ver um homem maltratado, espancado, ensanguentado e assassinado injecta-nos ódio pelos bárbaros ou amor pela vítima. Tento focar-me na segunda.
Nenhum homem é uma ilha isolada;
cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra;
se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída,
como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria;
a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Deveria haver um nominalismo - que não é ciúme - para designar o sentimento de vácuo ou asco ante o(a) parceiro(a) energúmeno que a pessoa de quem gostas ou gostaste escolheu.

Seres um cromo de uma caderneta pejada de cromos peçonhentos provoca um sentimento sem signo em qualquer língua.
Grandes consumidores de LSD aderiram ao budismo.

O movimento punk quando atingiu o pináculo orgiástico da decadência criou os straight edge e um refrão célebre: I drink milk.

Ex-maoistas são hoje de direita.

Obesas tornam-se anoréxicas.

Hippies viraram yuppies.

George Michael, depois de milhares de mulheres, descobriu-se homossexual.

Estaline andou no seminário.

Mussolini era socialista na juventude.

James Joyce, talvez para descomprimir o cérebro, viveu com uma semianalfabeta e frequentava meretrizes uma vez por semana.

Padres castos abusam de menores.

O excesso conduz muitas vezes ao seu oposto, como uma corda não longitudinal, mas circular.

sofomania
nome feminino
presunção de saber muito; mania de passar por sábio
(Do grego sophós, «sábio» +-mania, «loucura; mania»)

- Podes achar preconceito, mas reconheço sempre quando uma mulher é filha de pais separados.

Technological Slavery

Ele diz-me que tem passado muito tempo a estudar os níveis de privacidade do Facebook. Imagino-o no Excel na demanda da fórmula combinatória que lhe dê a solução optimizada.

Há sujeitos que de tão tecnológicos me parecem não pessoas, hologramas.
- Your ways are a mistery.
As pessoas enjoam-me ao fim de algum tempo.

É quando cessa a capacidade de me surpreenderem.

terça-feira, outubro 18, 2011

Sintoma de Casanova.

Ter todas as mulheres apaixonadas por, menos a que se ama.

Sintoma da ilha deserta.

Conviver com tão poucas pessoas que, ao fim de algum tempo, nos apaixonamos pela menos má.

Julga-me a gente toda por perdido, Vendo-me tão entregue a meu cuidado, Andar sempre dos homens apartado E dos tratos humanos esquecido.  Mas eu, que tenho o mundo conhecido, E quase que sobre ele ando dobrado, Tenho por baixo, rústico, enganado Quem não é com meu mal engrandecido.  Vá revolvendo a terra, o mar e o vento, Busque riquezas, honras a outra gente, Vencendo ferro, fogo, frio e calma;  Que eu só em humilde estado me contento De trazer esculpido eternamente Vosso fermoso gesto dentro na alma.
Luís de Camões
- Eu acho que tens trinta vidas paralelas.

- O meu namorado tem coisas parecidas contigo. Tenho-me lembrado de ti. A voz de monstro e um certo gesto com a mão quando explica alguma coisa.
O discurso antipolíticos foi o mote de Hitler para derrubar a República de Weimar.
- Curioso. Estava a ouvir Cure quando entraste em contacto comigo.

S. J.

O obituário, no curto prazo, é sempre hagiográfico.

Clicar para aumentar




Se o Mário Mata, a Florbela Espanca, o Jaime Gama e o Jorge Palma, o que é que a Rosa Lobato Faria?
Talvez a Zita Seabra para o António Peres Metello?
- A única certeza que tenho na vida é de que não há crianças sobredotadas felizes.

segunda-feira, outubro 17, 2011

monozoicodAO
adjetivo
ZOOLOGIA (animal) que tem vida individual isolada e independente
(Do grego mónos, «único» +zoikós, «relativo à vida»)
ACORDO ORTOGRÁFICO grafia anterior: monozóico
Pessoas que se preocupam muito com o bem-estar alheio, mas que têm de ser elas a proporcioná-lo como exercício de poder. «Ela já arranjou emprego?» Merda, pensam, queria ser eu a arranjar-lho.

A dependência de ter pessoas dependentes.
O POETA EM LISBOA

Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha – numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.

António José Forte
Porque é que os homens não podem - como as mulheres - dar a mão em público, abraçar-se calorosamente, fazer festas no rosto?

domingo, outubro 16, 2011

Dormindo lado a lado, sentes pela respiração quando o outro dorme.
Porque é que as pessoas se me apresentam todas como literatas e generosas?

quinta-feira, outubro 13, 2011

- Tu achas possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?
- O que é gostar?
- Estar preso a...
- Há tantas formas de gostar. Há pessoas que despertam uma intensidade febril e com as quais não conseguimos viver a quotidianidade, há pessoas que despertam sentimentos menos abrasivos mas mais duradouros, há pessoas que passam, há pessoas que não passam, há ilusões desfeitas, há sentimentos que só desabrocham no longo prazo. E só temos as palavras amor e paixão e atracção para tantos sentimentos. O gostar é vário.

O melhor argumento para a existência de Deus

De nihilo nihi.

Lucrécio
Nunca me irei reformar.
Segundo Pacheco Pereira, tudo é política - exceptuando Deus, Amor e Morte.
Não há nada pior do que um idealista com uma arma na mão - é que ele dispara sempre pelos melhores motivos.

Pacheco Pereira
- O cinismo é o refúgio dos idealistas.
Quando apresentavam os homens a Napoleão que ele escolheria para seus generais, enalteciam virtudes como a bravura, o espírito de sacrifício, a sagacidade. Napoleão apenas queria saber: «Ele tem sorte?»

Para Napoleão, a sorte não era fruto do Acaso, mas uma qualidade intrínseca, um dom - o mais importante, o único importante para as batalhas.
Ad augusta per angusta

terça-feira, outubro 11, 2011

Pessoas que falam para os empregados das lojas como se fossem súbditos ou mentecaptos.
If it wasn´t for the mist we could see your home across the bay... You always have a green light that burns all night at the end of your dock.

Ibidem
«You can't repeat the past
«Can't repeat the past?... «Why of course you can!»


Itálico
The Great Gatsby

domingo, outubro 09, 2011

É isto a mentalidade burguesa

Quando alguém furta ou assalta é um ladrão.

Quando alguém não paga salários é o quê?

Um ladrão tem de ser sujo e andrajoso. Um ladrão não usa fatos engomados.


Novilíngua

1/4 dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção não consegue sair da pobreza, escrevem os jornais.

A forma é conteúdo. A língua é ideologia. Porque não dizer que 3/4 dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção conseguem sair da pobreza?

Bourdieu escreveu que a escolha das palavras não é inócua. Falar na liberalização do mercado de trabalho em detrimento da desregulamentação do mercado de trabalho é todo um programa.






Há egocêntricos altruístas.
- Mas ela pode ter telefonado para o telefone fixo.
- Alguma vez te ligou para casa?
- Não.
- Então...
- Deixa-me ir lá acima ver se tenho uma chamada dela.
- Isso é doentio. Não tens chamadas no telemóvel. Vai lá...


- Nada.
- Vamos.
- Ela pode ter escrito uma carta.
- Uma carta?
- Sim. Uma carta. Vou só abrir o correio.
Afastou a publicidade, leu todos os remetentes. Pôs a mão no quadrado vazio, procurando com as mãos qualquer coisa palpável.
- Não há aí mais nada.
Ainda tacteou o tecto da caixa de correio como se alguma carta tivesse sido lá colada.
- Mas não há categorias para as coisas. Não vejas as coisas como estáticas. Vê que não há símbolos, mas graus. Que não há cores, mas matizes. Até que ponto o grau de boa pessoa passa a má pessoa? Até que ponto o grau de honesto passa a desonesto? Isso permite-te ver o vácuo por trás de todas as categorizações.
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
The world is holy! The soul is holy! The skin is holy!
The nose is holy! The tongue and cock and hand
and asshole holy!
Everything is holy! everybody's holy! everywhere is
holy! everyday is in eternity! Everyman's an
angel!
The bum's as holy as the seraphim! the madman is
holy as you my soul are holy!
The typewriter is holy the poem is holy the voice is
holy the hearers are holy the ecstasy is holy!
Holy Peter holy Allen holy Solomon holy Lucien holy
Kerouac holy Huncke holy Burroughs holy Cas-
sady holy the unknown buggered and suffering
beggars holy the hideous human angels!
Holy my mother in the insane asylum! Holy the cocks
of the grandfathers of Kansas!
Holy the groaning saxophone! Holy the bop
apocalypse! Holy the jazzbands marijuana
hipsters peace & junk & drums!
Holy the solitudes of skyscrapers and pavements! Holy
the cafeterias filled with the millions! Holy the
mysterious rivers of tears under the streets!
Holy the lone juggernaut! Holy the vast lamb of the
middle class! Holy the crazy shepherds of rebell-
ion! Who digs Los Angeles IS Los Angeles!
Holy New York Holy San Francisco Holy Peoria &
Seattle Holy Paris Holy Tangiers Holy Moscow
Holy Istanbul!
Holy time in eternity holy eternity in time holy the
clocks in space holy the fourth dimension holy
the fifth International holy the Angel in Moloch!
Holy the sea holy the desert holy the railroad holy the
locomotive holy the visions holy the hallucina-
tions holy the miracles holy the eyeball holy the
abyss!
Holy forgiveness! mercy! charity! faith! Holy! Ours!
bodies! suffering! magnanimity!
Holy the supernatural extra brilliant intelligent
kindness of the soul!

Allen Ginsberg num bom plágio descarado de vários trechos de Whitman.

If anything is sacred, the human body is sacred

I believe in the flesh and the appetites,
Seeing, hearing, feeling, are miracles, and each part and tag of me
is a miracle.

Divine am I inside and out, and I make holy whatever I touch or am
touch'd from,
The scent of these arm-pits aroma finer than prayer,
This head more than churches, bibles, and all the creeds.

If I worship one thing more than another it shall be the spread of
my own body, or any part of it,
Translucent mould of me it shall be you!
Shaded ledges and rests it shall be you!
Firm masculine colter it shall be you!
Whatever goes to the tilth of me it shall be you!
You my rich blood! your milky stream pale strippings of my life!
Breast that presses against other breasts it shall be you!
My brain it shall be your occult convolutions!
Root of wash'd sweet-flag! timorous pond-snipe! nest of guarded
duplicate eggs! it shall be you!
Mix'd tussled hay of head, beard, brawn, it shall be you!
Trickling sap of maple, fibre of manly wheat, it shall be you!
Sun so generous it shall be you!
Vapors lighting and shading my face it shall be you!
You sweaty brooks and dews it shall be you!
Winds whose soft-tickling genitals rub against me it shall be you!
Broad muscular fields, branches of live oak, loving lounger in my
winding paths, it shall be you!
Hands I have taken, face I have kiss'd, mortal I have ever touch'd,
it shall be you.

I dote on myself, there is that lot of me and all so luscious,
Each moment and whatever happens thrills me with joy,
I cannot tell how my ankles bend, nor whence the cause of my faintest wish,
Nor the cause of the friendship I emit, nor the cause of the
friendship I take again.

That I walk up my stoop, I pause to consider if it really be,
A morning-glory at my window satisfies me more than the metaphysics
of books.

To behold the day-break!
The little light fades the immense and diaphanous shadows,
The air tastes good to my palate.

Hefts of the moving world at innocent gambols silently rising
freshly exuding,
Scooting obliquely high and low.

Something I cannot see puts upward libidinous prongs,
Seas of bright juice suffuse heaven.

The earth by the sky staid with, the daily close of their junction,
The heav'd challenge from the east that moment over my head,
The mocking taunt, See then whether you shall be master!

Why, who makes much of a miracle?
As to me I know of nothing else but miracles,
Whether I walk the streets of Manhattan,
Or dart my sight over the roofs of houses toward the sky,
Or wade with naked feet along the beach just in the edge of the water,
Or stand under trees in the woods,
Or talk by day with any one I love, or sleep in the bed at night
with any one I love,
Or sit at table at dinner with the rest,
Or look at strangers opposite me riding in the car,
Or watch honey-bees busy around the hive of a summer forenoon,
Or animals feeding in the fields,
Or birds, or the wonderfulness of insects in the air,
Or the wonderfulness of the sundown, or of stars shining so quiet
and bright,
Or the exquisite delicate thin curve of the new moon in spring;
These with the rest, one and all, are to me miracles,
The whole referring, yet each distinct and in its place.
Informação é poder.

Perdoa tudo, menos o tráfico de segredos teus.

Soez deveria vir no dicionário como: «A partilha de informação que alguém obteve com recurso à intimidade. Forma de poder assente nos segredos conhecidos de alguém por intermédio do desenvolvimento da intimidade.»

Jogar para o empate

O que interessa: o símbolo, não a história. A metáfora, não a roupagem.

Um das frases mais sábias ouvia-a de um treinador de futebol [Giovanni Trapattoni]. «Quando não se consegue ganhar, tenta-se não perder.»

sábado, outubro 08, 2011

Um peso-pesado não combate com um peso-pluma.

sexta-feira, outubro 07, 2011

- Hoje acordei umas quatro vezes durante a noite porque os putos não dormiam. De manhã, ando cheio de sono. Se gostas de dormir, nunca tenhas filhos, Angel.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Será que a notícia do dia comoveu este homem?

Os afectos reprimidos entre homens. A homofobia não desaparece por decreto.

Numa carta de Daniel Sampaio a Lobo Antunes, o primeiro diz que tem saudades da voz do segundo, do seu abraço e até da forma de ele fumar um cigarro.
«À noite, as pessoas despem-se mais. Há uma atmosfera de pecado amável na noite.»
Pegando nas palavras de José Cardoso Pires, direi: «Na Fábrica Braço de Prata [FBP],
as pessoas despem-se mais. Há uma atmosfera de pecado amável na FBP.»

A Fábrica é um espaço-mundo povoado de livros, quadros, música, fotografias,
artesananto, cinema, esplanada com vista para o Sol e para a Lua. Tanto podemos
lanchar ao ar livre; como tirarmos um livro das prateleiras às três da manhã e ficarmos
sentado a um canto, «em casa», longe do ruído; ou dançarmos freneticamente noutro
satélite numa sala ao lado.

(Releio o parágrafo acima e sinto que as palavras são tão curtas. Queria falar de um
outro-lado-do-espelho e limitei-me a elencar trivialidades. É um parágrafo falhado, com
a utilidade de uma lista de compras de supermercado, mas que não pinga para o papel
uma gota da quintessência do espaço-não-espaço que pretendia descrever. Descrevê-lo?!
Verter a sua magia para uma página. Tarefa inglória ou incompetência do escriba?)

Um aviso aos incautos: não pensem que podem passar pela Fábrica sem que elas vos
toque. Tenham cuidado com quem vão. As paredes convidam-vos a traficarem
intimidades, empurram-vos docemente para conversas sobre o sentido da vida, a beleza,
o amor, a poesia.
Há segredos que só sussurramos na Fábrica, impelidos por insondáveis hierarquias.

Um amigo meu de sessenta e nove anos, afastado das lides bóemias pela
superficialidade e futilidade da noite lisboeta, disse-me ao entrar na FBP pela primeira
vez: «Finalmente, ao fim de dezenas de anos, encontro um espaço que recupera o
sentido da palavra tertúlia do meu tempo.»

A FBP é a minha de «ração do Paraíso» (Octavio Paz). Um conto de fadas em que todos
dispensam máscaras, em que todos têm lugar e em que todos têm um recanto-
espelho. Enfim, um hotel feérico para os mais variados viajantes: literatos; filósofos;
melómanos; artistas; executivos com a poesia escondida por trás de fatos Armani que
lhes revestem as almas; itinerantes do sonho e da liberdade. Hotel esse que terá sempre
um quarto com vista para a tua paisagem favorita...

Na Fábrica, reencontro-me com a certeza de que as coisas mais elevadas são perenes. Só
ao fim de dois anos reparei num letreiro a letras invisíveis: «É proibida a entrada a quem
não tenha a alma trajada a rigor de fraternidade.»
O desejo é um demónio estranho. Encontras-te com ela e ela não vê desejo nos teus gestos. Ela começa a dizer que não te podes vestir assim. Tu não reages. Ela continua dizendo que estás com uma barriga enorme. Tu dizes que tem razão e que farás algo. Ela persiste dizendo que és muito desarrumado. Tu assentes. Ela vai subindo porque não te provoca reacções. Ela diz que toda a tua vida está errada. Tu nada dizes. Ela dá-te safanões com as mãos. Diz que só ela te atura. Tu sorris. Ela fica ainda mais raivosa com a tua mansidão. Diz que não quer saber o que achas dela, mas tu nem disseste nada. Pergunta-te porque olhas de lado para as axilas. Tu murmuras: «Por nada.» Ela consulta-as e diz que não fez a depilação. «Mas estou-me nas tintas para isso!», grita.
O cálculo. Há pessoas com cálculo a mais. Nas que escolhem e nas vantagens que podem tirar. No desenho das incertezas do futuro e nas cautelas. Tanto cálculo. (Vivem a vida em tabelas de Excel.)No sofrimento da antecipação de desgraças, de esquinas manhosas. Na escolha do parceiro(a). Será que ele(a) poderá prover o futuro dos meus desejados descendentes? Nas próprias barreiras autoimpostas ao Prazer.

plato told

him:he couldn’t
believe it(jesus

told him;he
wouldn’t believe
it)lao

tsze
certainly told
him,and general
(yes

mam)
sherman;
and even
(believe it
or

not)you
told him:i told
him;we told him
(he didn’t believe it,no

sir)it took
a nipponized bit of
the old sixth

avenue
el;in the top of his head:to tell

him

e. e. cummings

- Eu sou tão inteligente e sensível e literária, mas, às vezes, torna-se um fardo; é como ser-se muito bonita.


quarta-feira, outubro 05, 2011

Assim como a produção de endorfinas nos vicia na prática desportiva, também o cérebro habituado a ler fica ressacado, vazio, pedindo desesperadamente que absorva algo.
O tempo sem fazer nada. Não consigo. Vejo pessoas durante quarenta e cinco minutos no autocarro sem fazerem nada. Não entendo.
Há certos gulosos por lágrimas que desejariam que o mundo fosse apenas um vale de lágrimas. Chamam a esta gula amor pelos homens.

Louis Pauwells

    A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
    Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
    Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
    Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
    Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
    Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
    Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
    Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
    Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

    Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
    Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
    Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
    Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
    Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
    Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

    Seja o que for, era melhor não ter nascido,
    Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
    A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
    A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
    Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
    E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
    Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs

Álvaro de Campos
Um homem que se interroga profundamente está à beira de um acto religioso.

Louis Pauwells

terça-feira, outubro 04, 2011

Dale Carnegie, autor long-seller e formador de cursos de relações humanas, conta que um dia ajudou alguém que nunca mais viu.

- Então, mas que vantagem obteve nesse contacto?

«Coitado, escreveu. Nunca será feliz com essa atitude mental.»
O grande problema do marxismo transposto ao século XXI é o espartilho dicotómico de quem possui e não possui os meios de produção.

Ronaldo ganha mais de 100 mil contos por mês como assalariado. Uma florista ou a dona de um quiosque pode ganhar o ordenado mínimo como lucro.

Há que redefinir conceitos.

Da Economia, da Voz Única e da Anomia em que vivemos

Na Inglaterra, 1,2 mil milhões de euros são gastos em benefícios sociais. Do lado da receita, são 70 mil milhões de evasão fiscal.

Porque é que a voz única de reduzir a despesa abafa destes números?

Porque é que ninguém consegue perceber que vive contaminado de uma ideologia dominante e de escapismos nos intervalos?

Porque é que os economistas que sempre defenderam políticas contra-cíclicas defendem hoje, em altura de recessão, políticas recessivas?

Com menos investimento estatal, mais impostos, haverá menos consumo, menos poupança, menos emprego e o círculo vicioso retoma-se.

Veja-se os casos de sucesso da Islândia e dos países nórdicos. Veja-se a tragédia das intervenções do FMI.

Qualquer coisa de esquerda que paira no horizonte: Rubalcaba.
Há diferentes formas de ser «boa pessoa». Há os que evitam conflitos a todo o custo. Há os que não se importam nada de cultivar inimigos. Eu prefiro os segundos - não há nada pior do que a neutralidade e a complacência das boas pessoas ante a injustiça e a crueldade.
Ó tu, a quem me dirijo muitas vezes em silêncio, para poder estar contigo,
Enquanto caminho a teu lado ou me sento perto, ou fico na mesma sala que tu,
Não imaginas o fogo eléctrico e subtil que brinca dentro de mim por tua causa.

Walt Whitman
- A moral não é elástica, é rígida ou não é.
Havia uma personagem (mas qual?) num livro (mas qual?) da Grécia Antiga (seria?) que me fascinou imenso. Debalde, procuro o nome, o livro, qualquer referência a.

Era impressionante a história. (Terei lido algures que era uma figura histórica?)

Sei que o homem, cansado da ingratidão do mundo, pendurou-se num cubículo e viveu (até morrer) aí praguejando contra todos aqueles que ajudara e que o abandonaram.

Ele estava muito zangado. Fora integérrimo, amigo, a ponto de a ingratidão o enlouquecer. Depois da decisão de subir mais alto dos homens e aí viver, passou os dias a contar as histórias sobre os homens. Perdera a fé na humanidade e só lhe restava exsudar rancor.
às vezes o nosso amor adora morrer
p´ra voltar e voltar a correr
às vezes o nosso amor evapora, ora
parece que o ar do lar o devora
às vezes o nosso amor tropeça só
para que o chão lhe peça – “levanta-te depressa”

às vezes o nosso amor adora sangrar
p´ra esvair e voltar a estancar
às vezes o nosso amor adora lamber
a cicatriz que insiste em conceber
às vezes o nosso amor desflora só
para que o céu lhe peça – “Benze-te depressa”

às vezes o nosso amor acalora
para que a água estale a pele a ferver
às vezes o nosso amor decora, ora
parece que o ar do lar o estupora
às vezes o nosso amor descola só
para que peça a peça se junte numa peça

o nosso amor adora suster
o ar que inspira e sorve só p'ra verter
às vezes o nosso amor demora a crescer
parece que tem medo de não caber, de não caber....

Clã
Esse perfume me persegue... quente, forte e subtil
Passeia por mim livremente... como se fosse gentil
Oh ah ah... ah ah... ah ah...
Ah ah... ah ah... ah ah...

Se me aparece de repente... inspiro-o profundamente
Para desvendá-lo, para decifrá-lo, queria agarrá-lo...

Queria agarrá-lo, metê-lo no meu frasco, fechá-lo bem p'ra não fugir...
P'ra não fugir... p'ra não fugir...
P'ra não fugir... p'ra não fugir... oh ah ah ah...

Mas ele insiste, ele insiste... brinca comigo devagar
Leva-me à minha memória... convida-me a divagar

Oohhh... oohhh... oohhh... ah ah...

Entre Aspas
- Se me perguntares se me preocupo mais com o teu bem-estar ou com o meu, digo-te já que é com o teu.
O argumento a que desde pequenino nunca reconheci autoridade: «Mas isso não é normal.»

segunda-feira, outubro 03, 2011

A espiritualidade que vira costas ao sofrimento do mundo nunca me disse nada. Não entendo como alguém pode ficar mais próximo de uma ideia do Grande Arquitecto ou mais religado ao Cosmos e simultaneamente mais afastado do sofrimento do seu semelhante. (Há uma diferença entre renunciar à mundanidade e renunciar aos problemas da humanidade.)

Ide entender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício.

Na Idade Antiga, certo tipo de ascetas erigiam um poste enorme com um cubículo lá em cima. Ficavam mais perto do Céu, literal e metaforicamente. Não sei como poderiam amar o próximo lá de cima.
Os dias, na esperança de um só dia

Camões

On the pleasant shore of the French Riviera, about half way between Marseilles and the Italian border, stands a large, proud, rose-colored hotel. Deferential palms cool its flushed façade, and before it stretches a short dazzling beach. Lately it has become a summer resort of notable and fashionable people; a decade ago it was almost deserted after its English clientele went north in April. Now, many bungalows cluster near it, but when this story begins only the cupolas of a dozen old villas rotted like water lilies among the massed pines between Gausse’s Hôtel des Étrangers and Cannes, five miles away.

The hotel and its bright tan prayer rug of a beach were one. In the early morning the distant image of Cannes, the pink and cream of old fortifications, the purple Alp that bounded Italy, were cast across the water and lay quavering in the ripples and rings sent up by sea-plants through the clear shallows. Before eight a man came down to the beach in a blue bathrobe and with much preliminary application to his person of the chilly water, and much grunting and loud breathing, floundered a minute in the sea.


Francis Scott Fitzgerald

Figos

A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-lo em quatro, pegando no pedúnculo,
E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,
desabrochada em quatro espessas pétalas.

Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.

Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.

Cada fruta tem o seu segredo.
O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é
uma fruta feminina.

Os italianos apelidam de figo os órgãos sexuais da fêmea:
A fenda, o yoni,
Magnífica via húmida que conduz ao centro.
Enredada,
Inflectida,
Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;
Com um orifício apenas.

O figo, a ferradura, a flor da abóbora.
Símbolos.

Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz;
Agora é uma fruta, a matriz madura.

Foi sempre um segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre
secreta.

Nunca foi evidente, expandida num galho
Como outras flores, numa revelação de pétalas;
Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria veneziana
das flores da nespereira e da sorveira,
Taças de vinho pouco profundas em curtos caules túmidos,
Clara promessa do paraíso:
Ao espinheiro florido! À Revelação!
A corajosa, a aventurosa rosácea.

Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,
A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,
Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que afugenta as
próprias cabras;
Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana,
A nudez oculta, a floração para sempre invisível,
Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz;
Figo, fruta do mistério feminino, escondida e intima,
Fruta do Mediterrâneo com tua nudez coberta,
Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação
Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos conseguem
devassar
Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras entregando
a alma.
Até que a gota da maturidade exsude,
E o ano chegue ao fim.


O figo guardou muito tempo o seu segredo.
Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.
E o figo está completo, fechou-se o ano.


Assim morre o figo, revelando o carmesim através da fenda púrpura
Como uma ferida, a exposição do segredo à luz do dia.
Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o segredo.
Assim também morrem as mulheres.


Demasiado maduro, esgotou-se o ano,
O ano das nossas mulheres.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
Foi desvendado o segredo.
E em breve tudo estará podre.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.


Quando no seu espírito Eva soube que estava nua
Coseu folhas de figueira para si e para o homem.
Sempre estivera nua,
Mas nunca se importara com isso antes da maçã da ciência.
Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.
E desde então as mulheres não pararam de coser.
Agora bordam, não para esconder, mas para adornar o figo aberto.


Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,
E não hão-de nunca deixar que o esqueçamos.


Agora, o segredo
Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos e escarlates
Que riem perante a indignação do Senhor.


Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.
Muito tempo guardámos o nosso segredo.
Somos um figo maduro.
Deixa-nos abrir em afirmação.


Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.
Os figos maduros não se ocultam.
Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas escarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na
sua afirmação?
Quando os figos abertos se não ocultarem?


D. H. Lawrence
Não há talento, apenas bois, bois que marram e marram e que insistem até conseguirem o que procuram.

Jules Renard
A história é apenas o isco que se usa para atrair o leitor à verdade dos símbolos.

António Lobo Antunes
Vão aparecendo mais e mais livros de correspondência epistolar de escritores, pensadores, gente conhecida por isto&aquilo.

Reparo que quanto mais antiga a época, mais primorosa a escrita.

É certo haver um dilema entre a qualidade literária que merece ser património mundial e a publicação de algo que não foi autorizado (e que em muitos casos são traficâncias de intimidade). Mas o que me traz aqui é pensar que hoje já não se escreve assim.

Lembremo-nos de que estas cartas publicadas foram escritas por pessoas que nunca pensaram que tais cartas fossem tornadas conhecidas (quanto mais publicadas). Impressiona, por isso, o esmero da escrita.

Quem hoje escreve assim e-mails e SMS, a hodierna correspondência epistolar, que possam ficar perenemente na Literatura?

Aos tecnofilos

Afastem-se de mim, por favor. Não vos suporto. Ou então vão viver entre flores e livros de poesia e voltem de lá mais interessantes.

Não conheço espécime vosso a quem a tecnologia seja mais fonte de liberdade do que de angústia. Estão frequentemente com um problema a encravar um dos vossos monumentos tecnológicos. Se algo vos falha, entram em transe, precisam de ligar a espécimes análogos para resolver imediatamente o problema.

Não se cansam de estar sempre a estudar os equipamentos todos, os preços todos, de irem ao Media Market, à Worten, ao fornecedor? De estarem sempre a estudar os cracks. Não se cansam de estarem sempre em busca da futura versão 4.5.3.? De viverem sempre no fio da navalha da obsolescência?

Se ao menos entendessem que o vosso universo não é assunto para se falar à noite. Se ao menos entendessem que a erotização das máquinas é uma sublimação da falta de. Se ao menos entendessem que o que vos interessa a vós não é necessariamente o que interessa ao mundo inteiro.

A vossa ansiedade incomoda interlocutores. A vossa capacidade de metaforizar reduzida ao jargão tecnológico é muito pouco sexy. Não me entendem? Digamos que vos falta o chip da poesia e que não vos basta um update mas um refresh - não de software, mas de hardware.


sábado, outubro 01, 2011

O coração

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.»

Stephen Crane
A nulogamia - quando opcional e especialmente para quem trabalha muito - é uma reserva de tempo e espaço mental para desenvolver o gosto literário, a observação acurada, a reflexão filosófica, o florescimento do dom artístico, a fruição da poesia, a expansão da espiritualidade.
- Ela precisa de saber tudo tudo sobre ti. Das duas uma. Ou quer saber tudo para poder encontrar a chave que te conquiste ou quer arranjar explicações para uma eventual e provável rejeição. Quando ela tem um objectivo, ela é capaz de tudo. De tudo. Nem imaginas a teia invisível que está a ser montada em teu redor, Angel. Ela quer fazer uma investigação sobre ti - é esse o círculo gravitacional em torno do qual a vida dela gira. Nem uma biógrafa seria tão contumaz.
- Uma relação entre um homem e uma mulher ou se traduz num abananamento ou num desgaste. sonho da mulher é controlar o homem.
Vasco Pulido Valente afirma que se tivesse sido castrado, talvez tivesse sido romancista. Ocupou muito do seu tempo com o Fabuloso Mundo da Feminilidade e isso roubou-lhe tempo para escrever.

Quando o intelectual arranha o emocional

Ela utilizou as palavras «metempsicose» e «violácea».

Da sofreguidão e da falta de subtileza masculinas

É quotidiano. Sempre que vejo um grupo de homens (que podem ser dois) e uma mulher bonita a passar ou apenas decotada, é tão fácil ver os cotovelos a baterem no amigo olha-me-esta-gaja-qué-tão-booa, os murmúrios, os risos boçais. Mesmo muito homem sozinho, vira costas, afasta pálpebras, fica apatetado quando passa uma «gaja boa».

Não vejo mulheres fazerem isto. Ou vejo muito menos frequentemente e muito menos ostensivamente.


(Tenho a certeza de que serei lésbica numa futura transmigração de alma.)
Nicolau Breyner (machista, é certo, que afirma que não põe cremes no corpo porque isso não-é-homem) diz que a diferença entre homens e mulheres é atestada pela resposta à pergunta que ocorre no jantar entre marido e mulher.

Ela: Onde compraste a carne?
Ele: No talho.

Ele: Onde compraste a carne?
Ela: Porquê, está estragada?