[...] uma observação sobre o Guerra e Paz que, para mim, é decisiva: o poder do romance
do Tolstói é a primeira parte de uma trilogia que ele não iria acabar. O Tolstói queria escrever um romance sobre os dezembristas e o Guerra e Paz, que acaba em mil oitocentos e picos,
1812 se não me engano, devia ir até 1820. Todas aquelas personagens teriam um sentido diferente. O poder daquilo vem do facto de, apesar de não ter sido escrito, ter um futuro e ter um passado.
O facto de esse passado e esse futuro não serem explícitos altera a forma como ele é lido?
Alterou o poder do romance. Aquele romance era para vir de trás, para ter aquele corpo central e para continuar até 1820. O poder daquilo vem de ser uma parte do tempo.Uma parte indeterminada. Os romances que começam no dia 1 e acabam no dia 30 são fracos. Idealmente,uma pessoa devia escrever um romance como o Guerra e Paz: que nunca verdadeiramente começasse e nunca verdadeiramente acabasse. Que deixasse tudo em suspenso.
Vasco Pulido Valente
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