Porque as peças são humanas e têm uma incomensuravelmente superior quantidade de movimentos do que as peças do tabuleiro. Assim como as abelhas só conseguem emitir quatro mensagens, os movimentos das peças de xadrez são dois, três, quatro. A táctica do futebol é, por isso, muito mais complexa - porque procura organizar infinitas variáveis. E já nem falo da parte psicológica de que cada um deles é um homem e reage diferentemente consoante a pressão do jogo, o estado de espírito, o ambiente das bancadas, o estar a perder ou ganhar e uma miríade de coisas mais.
Ser treinador é ser um xadrezista-mor. Trapattoni diz que os seus jogadores são instados a ouvir música clássica - porque sem perceberem de quando se avança em campo ou quando se sobe no tom da música, de quando se defende ou quando se desce no tom da música; sem perceber de harmonia, de tessitura, não se abarca holisticamente um jogo de futebol.
Camus, que foi guarda-redes, dizia que foi no futebol que aprendeu tudo o que tinha a saber sobre moral. E que foi na baliza que aprendeu que o perigo vem de onde menos espreita. Quem morre daquilo que mais tem medo? Quase ninguém.
*Daqueles que gostam de impressionar. Daqueles que sublimam a virilidade e o instinto de dominação usando a cultura como ascendência de poder. Não daqueles que tratam os outros como pares. Não daqueles que desempoeiradamente conseguem tentar perceber o interesse em todas as coisas. Não daqueles que ouvem o Outro. Não daqueles que transmitem por partilha, por vivacidade na alegria do saber, por necessidade de extravasar um gosto intrínseco.
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