- Em Angola, como médico, tive de salvar vidas. Cheguei a um sítio onde estavam dezenas de estropiados aglomerados. Vi-me na circunstância de ter de escolher quem salvar. Um tipo sem perna a jorrar sangue. Uma menina com a vagina a sangrar. Cabeças de lado, mortos, pensei, não adianta. E foi escolhendo inicialmente só um, com indivíduos a gemer e a morrer, porque eu sabia que só concentrando-me um a um poderia salvar alguém... Em Angola, não há necessidade de psicólogos ou psiquiatras, quem sobrevive, não tem espaço mental para problemas do mundo ocidental abastado.
Lembrei-me de três coisas.
1. A pirâmide de Maslow.
2. A frase de Agostinho da Silva, quando inquirido sobre o que faria se fosse ministro da Cultura. «Aumentar o salário mínimo.» Porque só depois da barriga saciada e da roupa sobre o corpo, se pode a aspirar a algo que eleve a alma.
3. Do Unabomber que divide as necessidades humanas em três. As facilmente alcançáveis, as só alcançáveis por intermédio de esforço, e as necessidades impossíveis. Para Unabomber, nas sociedades pré-industriais, o ser humano tinha as necessidades essencialmente situadas no segundo grupo. Ao invés, nas sociedades pós-tecnológicas, o ser humano tem - no mundo rico - grande parte das suas necessidades facilmente alcançáveis e outras impossíveis (onde se situam as a felicidade que o homem hodierno não consegue precisar quais são, como conseguia o homem do Paleolítico ou do Neolítico - comida, roupa, habitação. Faltam as do segundo grupo nas sociedades modernas. Cada vez mais.
1 comentário:
muito bom
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