segunda-feira, setembro 12, 2011

7.13 Dream

Estava numa casa cheia de luz. Sentado num sofá, tinha em frente uma janela toda espelhada com vista para uma piscina azul-celestial.

O que parecia o Éden era uma sala de tortura.

Em pé, andando à minha volta, levando a mão à cabeça, o marido dela ia soltando perguntas.

- Como é que tu justificas esta fotografia?

Mostrava-me uma fotografia com a mulher dele.

- Ela é minha mulher. Eu mato-te!!!! Eu mato-te!!!!

Além da espada que brandia, percebi que toda a sala tinha armas disfarçadas de objectos de arte.

- Ei, ouve... Eu não fiz nada. Cruzei-me acidentalmente na rua e alguém tirou a fotografia. Nós não estamos a fazer nada.

- E se me estás a enganar, cabrão? Eu mato-te. Eu vou descobrir. Eu mato-te se tiveste isto - juntava os dedos polegar e indicador - com ela.

- Eu não tive nada, nada com ela. E tu não tens provas. Porque não houve nada. Há anos que não a vejo.

- Há anos?

O indivíduo remexia caixas num frenesim.

- Há mais fotos, seu cabrão!

À medida que ia mostrando uma a uma, eu tinha de explicar se não queria morrer.

- É uma montagem.

Ele gritava e eu aproveitava as pausas.

- Repara! - gritava eu a certa altura. - Repara nisto. Não vês que não sou eu. Não vês que o tronco não joga com as pernas. Foi feita uma montagem.

«Se não podes convencê-lo, confunde-o», pensava.

- Pois... aqui, parece que não és tu.

Quando pensava que folgava, vinha outra.

- Não vês que isso é tudo montagem?

- Explica-me esta! Explica-me esta!

- Ouve, fazemos assim. Vamos identificar o lugar e vamos pedir filmagens.

- Filmagens?

- Sim, hoje é tudo filmado.

- Mas a que horas foi?

- Eh pá, pedimos filmagens do dia inteiro.

- Mas de que dia?

- Eu ou ela estávamos lá, o outro é que foi adicionado por montagem, percebes? Eu não estive lá.

- Hum...

Ele ligou à mulher. Ela confirmou ter estado lá no dia x.

- E agora quem é que nos dá as filmagens?

- Eu peço a um contacto que tenho na câmara. Posso ir-me embora?

- NÃO!!!!!! Há mais coisas que vais ter de me explicar!

- E esta fotografia?

- Esse nem é o corpo dela?

- MAS TU SABES COMO É O CORPO DELA?! - ele desembainhava a espada.

- ESTOU A DIZER PELO CABELO!

A espada não completava o percurso e o ódio aterrava.

- Não parece o cabelo dela, não.

- Não vês que é mais uma montagem?

- Pois é... Mas há uma coisa em que não se pode fazer montagens...

Sorria malevolamente.

Eu fingia tranquilidade.

- Sabes o que é?

- Não faço ideia.

- É O TELEMÓVEL!!!!!!!! Tenho chamadas dela para o teu número.

- Eu nunca lhe liguei, não sei... Nem falei com ela ao telefone.

- Mas está aqui, mentiroso!!!!

- Eu não te menti e já viste que estavas equivocado nas fotos...

- Calma, tu ainda cá voltas para ver as filmagens do teu amigo da câmara. Mas explica-me isto!

«Porra para o verbo explicar», já estava a ficar raivoso.

O meu nome aparecia num registo de chamadas.

- Mas, ouve lá, isso não tem aí o número? Os registos de chamadas têm números, pá. Pode ser alguém com o meu nome.

- Não gozes comigo!!!! TU NÃO GOZES COMIGO, OUVISTE?

- TU É QUE ESTÁS A GOZAR! UM PAPEL COM NOMES NO REGISTO. LIGA PARA A OPERADORA, SFF.

- Qual o número?

- Vê na Internet.

Ele foi procurar.

- Agora, pergunta-lhes se não dão os registos com os números e nunca com os nomes.

A chamada esclareceu-o.

- Eu acho é que estão a gozar contigo. Fotos montadas, registos não oficiais que só enganam parvos.

- Eu não sou parvo!!!

- Estás a ser. Prendes-me aqui. Alguém se está a rir de ti neste momento.

- Não sei, não sei... e enquanto não souber ficas aqui! Já me disseram que há filmagens... Ah, agora o teu rosto mudou!!!!!!!! Se calhar, fizeste o que não devias!!!!!

- Não há filmagens.

- Disseram-me que havia.

- Não há nada e já percebeste que te enganaram em tudo até aqui. Repara que nunca te enganei.

- Sim, não era o cabelo dela.

- Tu não és parvo.

- Pois não. Pede lá as filmagens à câmara. Liga daqui! Quero ouvir essa chamada!

Cumpri.

- Ele vai ter para a semana.

Levantei-me, ele baixou a arma, deu-me uma palmada amistosa nas costas e largou:

- Tu sabes que eu não sou parvo, não sabes?

- Não te deixes enganar.

- Quem é que me anda a enganar.

- Tenho de pensar nisso. Mas tenho algumas suspeitas.

- Tens?

(Ia ganhando espaço para me dirigir até à porta.)

- Mas olha que isto não acabou... E se tu tiveste alguma coisa com ela?

- NÃO TIVE!!!

- Vamos ver... Voltas cá para uma segunda sessão.








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