sexta-feira, setembro 30, 2011

- O Herberto Helder nunca se interessou e nunca falou de mulheres num sentido vulgar. Até costumava satirizar de certos homens que eram «atletas da foda». Ele gostava de possuir num sentido mais profundo. É um possuir que permanece a distância.
Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Pablo Neruda

To have his arms around me, to sense his perfect trust
I’d give all I ever had… all I ever had…

Robert Smith
O Dicionário Houaiss é um livro que se pode ler na cama.
Ela acha que eu sou continuadamente descontínuo. A minha luta é mostrar-lhe que sou descontinuadamente contínuo.

quarta-feira, setembro 28, 2011

Estilhaçando sonhos bolhas róseas
a armadura dos murmúrios
os presentes das nossas gargantas que não chegaremos a abrir
obliterando tudo isso
eu pergunto
se a noite tem ao fundo
para lá da palavra fim
um fogo perene
uma chama inflexível
onde o nosso sorriso possa acontecer
síncrono

Alguém que esteve em Angola disse-me:

- Em Angola, como médico, tive de salvar vidas. Cheguei a um sítio onde estavam dezenas de estropiados aglomerados. Vi-me na circunstância de ter de escolher quem salvar. Um tipo sem perna a jorrar sangue. Uma menina com a vagina a sangrar. Cabeças de lado, mortos, pensei, não adianta. E foi escolhendo inicialmente só um, com indivíduos a gemer e a morrer, porque eu sabia que só concentrando-me um a um poderia salvar alguém... Em Angola, não há necessidade de psicólogos ou psiquiatras, quem sobrevive, não tem espaço mental para problemas do mundo ocidental abastado.

Lembrei-me de três coisas.

1. A pirâmide de Maslow.

2. A frase de Agostinho da Silva, quando inquirido sobre o que faria se fosse ministro da Cultura. «Aumentar o salário mínimo.» Porque só depois da barriga saciada e da roupa sobre o corpo, se pode a aspirar a algo que eleve a alma.

3. Do Unabomber que divide as necessidades humanas em três. As facilmente alcançáveis, as só alcançáveis por intermédio de esforço, e as necessidades impossíveis. Para Unabomber, nas sociedades pré-industriais, o ser humano tinha as necessidades essencialmente situadas no segundo grupo. Ao invés, nas sociedades pós-tecnológicas, o ser humano tem - no mundo rico - grande parte das suas necessidades facilmente alcançáveis e outras impossíveis (onde se situam as a felicidade que o homem hodierno não consegue precisar quais são, como conseguia o homem do Paleolítico ou do Neolítico - comida, roupa, habitação. Faltam as do segundo grupo nas sociedades modernas. Cada vez mais.
- Não tenho saudades de quem amo; tenho saudades do amor.

O Desempregado

Começou por mentir aos amigos e à família. Saía de casa com a indumentária costumeira, vagueava pela cidade, voltando para jantar.

Apanhado na urbe (sempre com uma pasta e «documentos» na mão), despediu-se celeremente alegando uma reunião.

Gradativamente, acabou por contar aos mais próximos.

Passou a evitar conhecer pessoas novas. Tinha um medo terrível da pergunta: «O que fazes?»

Foi diminuindo o círculo.

Ao fim de dois anos, desenvolveu agorafobia. Cada vizinho ou mero transeunte pelo qual passava parecia saber o segredo só com o olhar. Diminuía-se a cada olhar que o interceptava.

Começou a temer telefonemas. (E se ligasse alguém da Marktest a indagar do seu ofício?) O desemprego era pior do que a lepra. Então, mas ele não servia para nada?

Os anos passaram e o opróbrio de ir a centros de emprego, onde se sentia pior do que nos Alcoólicos Anónimos, foi aumentando.

Até que um dia já não tinha idade para procurar emprego.

terça-feira, setembro 27, 2011

Diálogos reais

O engenheiro, chefe de um autor, perguntou-lhe, não entendendo bem o que era isso de uma segunda edição do livro:

- É uma nova empreitada?
- É a mesma obra, mas depurada.
- É uma obra com melhoramentos?

domingo, setembro 25, 2011

I don´t agree that several relationships can satisfy you, on different levels, equally as much as one relationship. I´m not saying that´s a wrong choice in life. But that doesn´t work for me, personally. It´s much better to have a very deep relationship with one person than several shallow ones with others.

Robert Smith
Harold Bloom escreveu que a persona que Walt Whitman criou esmaga, enquanto super-homem, o Zaratustra.

Jorge Luis Borges escreveu que Walt Whitman conseguiu o feito único de conseguir ser lido como se estivéssemos a ler algo que é fora do autor - uma espécie de tomar de empréstimo dos olhos do Universo.

Álvaro de Campos escreveu:

Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!
Nunca posso ler os teus versos a fio... Há ali sentir demais...
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a atividade humana e mecânica.
Nos teus ver sos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça pra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No teto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do teto da tua intensidade inacessível.
Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!

E, ainda assim, tudo o que escreveram sobre é tão pouco para transmitir.

sábado, setembro 24, 2011

Thy fingers make early flowers of all things. 
thy hair mostly the hours love: 
a smoothness which sings,saying 
(though love be a day) do not fear,we will go amaying.  
thy whitest feet crisply are straying.
Always thy moist eyes are at kisses playing, 
whose strangeness much says;singing 
(though love be a day) for which girl art thou flowers bringing?  
To be thy lips is a sweet thing and small. 
Death,Thee i call rich beyond wishing
 if this thou catch, else missing.
 (though love be a day and life be nothing,it shall not stop kissing).
e. e. cummings

- Vou ter saudades da tua voz.

Liberdade*

Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome

Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome

Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome

Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome

Nas maravilhas das noites
No pão branco de cada dia
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome

Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome

Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome

Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome

Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome

Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome

No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome

Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome

No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome

Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome

Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome

Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome

Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome

Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Paul Éluard
O homem que preservava a sua juventude considerava-se mais adulto.

Por um fenómeno inexplicável, o homem que preservava a liberdade via os outros desaparecerem do Éden. Eles iam constituindo família, tendo filhos, vindo do hipermercado cheios de sacos, labutando, mudando fraldas, não dormindo com o choro bebés.

Eles eram mortos-vivos aos seus olhos. Autómatos.

Da praia infinita onde habitava, com os cambiantes azuis, verdes e iridescentes das águas, com o areal de todas as texturas, com o sol de todos os sabores e o luar de todos os odores, não entendia como alguém poderia afundar-se na floresta escura.

Via-os com pena e distanciamento.

Eles outrora tinham viço e alma. Desapareciam subitamente alguns na floresta de árvores escuras, como se uma corda vinda das entranhas da terra se lhes enlaçasse no pescoço sugando-os para as profundezas. Desapareciam lentamente... Alguns imergindo lentamente na terra da floresta das árvores de copas negras. Lá era sempre noite ou nevoeiro.

Tentava falar com os homens da floresta escura. Mas quando eles passavam para lá, a linguagem era outra, o passado era rasurado, a alma era aspirada.

Um dia, espreitou de cima a floresta das árvores escuras.

Todos trajavam de igual e todos tinham a cabeça rapada. O ricto na face era o mesmo. O sorriso impossível de acontecer na clausura do rosto era um horror difícil de ver de olhos abertos. Prometeu a si mesmo não voltar a olhar.

«Que barbárie.»



As omissões [na entrevista de Passos Coelho] foram muitas, como já se viu. Uma, acaso a mais importante, foi a da cultura. Nada se disse. Nem sequer a palavra foi pronunciada. A cultura mete medo. Sempre meteu, a qualquer Governo e em qualquer circunstância. Este, até acabou com o ministério e substituiu-o por uma secretaria de Estado. É uma minimização, queira-se ou não se queira. Todavia, a cultura é um bem rendível, para quem entenda a cultura como uma componente fundamental de qualquer Estado moderno. Este Executivo é composto de burocratas e de economistas, gente pouco dada às belas letras e às belas artes. Alguém teria de dizer ao dr. Passos Coelho que não é bom sinal nem clara perspectiva ignorar-se o que de melhor temos nos País.

Baptista-Bastos

quinta-feira, setembro 22, 2011

quarta-feira, setembro 21, 2011

Da distorção da Igreja Católica do que era a Família para Cristo

Mateus 12:46-50

  1. Enquanto ele ainda falava à multidão, a mãe e os irmãos dele estavam de fora, procurando falar-lhe.
  2. E alguém disse-lhe: "olha, tua mãe e teus irmãos estão lá fora e procuram falar-te".
  3. Mas ele respondeu ao que lhe falava: "quem é minha mãe e quem são meus irmãos"?
  4. E estendendo a mão para seus discípulos, disse: "Eis minha mãe e meus irmãos;
  5. porque aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe!
9 – Não julgueis que vim trazer paz a Terra; não vim trazer-lhe paz, mas espada; porque vim separar o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e os inimigos do homem serão os seus mesmos familiares. (Mateus, X: 34-36).
A mais-valia de Marx deveria ser redistribuída pelos trabalhadores porque era um confisco sobre o trabalho. Mas isso só é aplicável em empresas que dêem lucro. Acaso deveríamos fazer cobrar os prejuízos aos trabalhadores como menos-valias?
Eles namoravam há pouco tempo. Ele ia apanhar o comboio para ir ter com ela e disse-lhe ao telefone:

- Nem sei se devia ir ter contigo. Sinto que estou próximo de me apaixonar perdidamente...

Depois desse encontro, ela não voltou a falar com ele.

Cruzaram-se por acaso (ele ainda gostava muito dela) um mês depois e ela disse-lhe:

- Ainda bem que entre nós não resultou porque tu és muito fofinho e assim podemos ficar amigos.

«Fofinho.» Ele nunca esqueceu.

A man does not recover from such jolts - he becomes a different person.


- Os maiores amores são os impossíveis, os que não tiveram um final feliz.
Para Milan Kundera, a vingança suprema, o prazer supremo é dormir com a mulher do inimigo.
Ela acende um cigarro e os lábios empurram-no para o canto direito da boca. Só a primeira baforada. Depois, o cigarro rola para o meio.

Ela fala com as mãos. Abertas quando não alcançou as palavras para verbalizar o fluxo da consciência. Os dedos unidos quando atingiu o coração do que pretendia transmitir.

Ela tem uma gargalhada com um som diferente de qualquer outra.

Ela abre a boca e afasta os olhos quando se faz um clarão no seu entendimento.

Ela levanta-se e bamboleia-se quando quer contar uma história que a entusiasma.

Observando os gestos, imito os gestos. Ela acusa-me de a ver apenas como «uma personagem».
Eu tinha seis anos. Ela tinha seis anos. Estávamos num jardim com baloiços.

Ela estava num baloiço longe de mim.

Sentia uma atmosfera entre nós.

Ela barafustava contra uma abelha com as mãos.

Mudou de baloiço.

Continua a zangar-se com uma abelha (real?).

Mudou outra vez.

Até que desistiu e, fingindo-se enfadada, sentou-se no baloiço ao lado do meu.

Décadas volvidas, continuo a vê-las agir assim - com um suplemento de subtileza.
- Mas tu não tens medo de andar de elevador?
- Eu nunca ando de elevador.
- Mas estás num elevador...
- É o elevador da tua casa...

terça-feira, setembro 20, 2011

Escreva, minha filha, escreva. Quando estiver entediada, nostálgica, desocupada,
neutra, escreva. Escreva mesmo bobagens, palavras soltas, exprimente fazer versos,
artigos, pensamentos soltos, descreva como exercício o degrau da escada de seu edifício (saiu
verso sem querer), escreva sempre, mesmo para não publicar e principalmente para não
publicar. Não tenha a preocupação de fazer obras primas, que de há muito eu já perdi, se que
algum dia a tive, mas só e simplesmente escrever, se exprimir, desenvolver um movimento
interior que se encontra em si próprio sua justificação. Isto é muito melhor do que traduzir Proust,
distração que não distrai, porque é chata como toda a tradução, e acaba nos desculpando muito
fracamente perante nós mesmos de não havermos escrito por nossa conta e responsabilidade.


Carlos Drummond de Andrade

«Sou imenso, contenho multidões.»

Há pessoas que não sabemos como estão juntas. Tirando os casos de paliativos de solidão, as relações - num sentido lato - são inescrutáveis para quem está de fora.

Ademais, uma pessoa é inescrutável, ela própria.

E quando duas pessoas se encontram e criam bolhas, mais ninguém consegue entender.

Os núcleos inescrutáveis e impartilháveis não se encontram, mas roçagam-se em sinais impossíveis ao Outro.

Compreendemos e aceitamos isto nas nossas relações - mas somos intolerantes com os outros.

O artista cria o que quiser. Ponto final.

Hamsun, um dos grandes escritores do século XX, deve o seu nome a uma gralha da impressora. O seu nome Hamsund viu o dê mutilado num artigo sobre Mark Twain e doravante nunca mudou de nome.

Hamsun escreveu artigos fascistas e palavras - que nem repito - de louvor à luta de Hitler pela humanidade (vendo os seus livros infamemente queimados na praça pública depois da infâmia). É estranho, mas factual - Pound, Hamsun, Céline -, grandes escritores foram fascistas. E pese embora o horror por que propugnavam, não mereciam ter sido internados em asilos psiquiátricos (Hamsun e Pound) por defenderam ideias políticas. A resposta do fascismo ao fascismo é fascista.

Metáforas poderosas da Bíblia

Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que O amam.
Travessias no deserto autoimpostas só te fortalecem, ajudam-te a conheceres-te a ti mesmo e a perceber que só tens de expandir quem és - a encontrares a maior força e o maior amor dentro de ti.

segunda-feira, setembro 19, 2011

Da Ginecomania

Uma amiga minha disse-me:

- O desespero num homem fareja-se à distância de quilómetros. E nada consegue ser menos apelativo do que isso.

Vamos sair? Mas há gajas? Vamos ao cinema? Os dois, sem gajas? Vamos tomar um café? Tomar café... mas há gajas? Vamos para o sítio x? Há lá gajas? Como tem corrido a vida? Eh pá, zero gajas. Conheceste alguém lá fora? Não comi nenhuma gaja. Gostaste da noite? Uma seca; quase não havia gajas. Deixaste de ir ao ginásio? Sim, não havia lá gajas. Na praia: aqui há mais sol e a areia não está suja. Eh pá, vamos ali para ficarmos ao pé daquelas gajas. Estás a gostar do curso? Eh pá, só há homens. Como correu o primeiro dia de trabalho? Muito bem; há lá gajas boas, meu. Porque andas a ler esse livro? Dizem que as gajas curtem. Que perfume é esse? É um que as gajas dizem que curtem. Estás sempre no Facebook e tens mil um amigos - tu conhece-los? Aquilo só me interessa pelo gajedo. Saíste do aniversário do Miguel mais cedo? Eh pá, era só casalinhos e pilas. Para onde foste nas férias? Não me fales disso; zero gajas.


Das coisas mais difíceis na minha vida é receber textos, manuscritos, poemas que são quase sempre sofríveis e ter de de opinar sobre.

Mentir era mentir. (E casos há em que pela idade, pela falta de leitura, pela desastrosa falta de maturidade é imperativo afastá-los da ideia de vou-ser-escritor(a).)

Dizer a verdade provoca ressentimentos, destrói egos, leva a que as pessoas deixem de nos falar durante bastante tempo.
De todas as autoproclamações de fraqueza de carácter, nunca ouvi:

«Sou materialista.»

«Sou fútil.»
Talvez os três maiores motivos de infelicidade, quando não provocados por sofrimento material ou físico:

1. Afastamento entre o eu-que-é-a-nossa-índole e o eu-que-somos-coarctados-a-ser.

2. Contabilizarmos o que falta e não o que temos.

3. Não conseguirmos estar sozinhos num quarto fechado.
O homem presciente procurava guardar o seu segredo. Mas começava a haver suspeitas.

- Essa relação não vai durar.

E não durava.

- Aposta no 7 vermelho.

E o outro ganhava a roleta.

O homem presciente anda cada vez mais silencioso. Ouve as ilusões, os erros, as previsões absurdas e contém-se - mas a tensão marca-lhe o rosto nestes momentos.



domingo, setembro 18, 2011

cegarrega |é|
(talvez de cigarra)
s. f.
1. Instrumento que faz um ruído parecido ao fretenir da cigarra.
2. [Figurado] Pessoa de voz pouco agradável e que fala muito.
Elísio de Moura foi o primeiro Bastonário da Ordem dos Médicos. Especialista em neurologia e psiquiatria, ficou conhecido como uma espécie de Sherlock Holmes da medicina.

Um homem de meia-idade chegou a si após percorrer todos os médicos e especialidades. Sofria de enjoos e náuseas crónicas. Ninguém detectara nada e o sujeito estava desesperado.

O Dr. Elísio de Moura perguntou-lhe por todos os exames possíveis. Ele havia realizado todos.

- Não há, então, nada a fazer, Doutor?

O Dr. Elísio disse apenas: «Não.» Querendo ainda resolver a charada, pediu que voltasse uma segunda vez.

Olhando o individuo de alto a baixo, um clarão na mente levou-o a perguntar:

- O senhor tem o cabelo escuro, a penugem escura, mas tem o bigode louro.

- O bigode é pintado.

- Ah!!!! O senhor deixe de o colorar. São essas tintas que lhe entram pelas narinas que o põem maldisposto cada vez que respira.

Uma mulher não conseguia mexer o braço direito há mais de um década.

O Dr. Elísio de Moura perguntou se a poderia levar a um conferência para mostrar o caso único de alguém que, não tendo qualquer questão organica ou neurologicamente impeditiva, não conseguia mover um braço.

Num auditório repleto, o insigne psiquiatra atou a cobaia, deixando-lhe apenas o braço direito.

- Esta senhora está totalmente imóvel. A única parte que está solta - apontou para o braço direito - é a única parte do corpo que não consegue mexer. Logo, eu posso fazer TUDO o que quiser dela.

E começou a despir-lhe a camisa. Quando ficou em sutiã, o Doutor disse que iria prosseguir, despindo-a por completo.

Quando lhe ia tirar o sutiã, o braço exumou-se ao fim de quinze anos.

Pacientes deste senhor pedem-me que o recomende

http://dislexia-informar.blogspot.com/2009/05/sindrome-da-deficiencia-postural-sdp.html

sábado, setembro 17, 2011

«A realidade é muito maçadora, mas é o único sítio onde se pode comer um bom bife.»

Woody Allen
A frase não me larga: «Não quero descarnar o frango para ficar com os ossos.»
Podes comer o bolo e ficar com ele.
Agora veio-me à cabeça um amigo meu, Frei Bento Domingues.
Um dia disse-lhe
- Estás sempre tão alegre
ele respondeu
- O que podia eu ser senão alegre?
e não conheço mais nenhuma pessoa em que até os óculos riem, não conheço ninguém com tanta esperança, tanta curiosidade infantil, tanta fé de olhos abertos, tanta tolerância. Raios o partam.

Ibidem
Os comboios sempre me fizeram sonhar. Os comboios? Quase tudo me faz sonhar, que esquisito. Às vezes parece-me que sou uma nuvem com raízes, sempre a partir e a ficar.

António Lobo Antunes

Do Holocausto Animal

Num texto famoso de 1789, Jeremy Bentham inquiria: Qual é a característica que confere o direito a uma consideração igualitária? E respondia, perguntando: "Será a faculdade da razão ou, talvez, do discurso? Mas um cavalo adulto é, para lá de toda a comparação, um animal muito mais racional assim como mais sociável do que um recém-nascido de um dia, uma semana ou até um mês. Mas suponhamos que não era assim; de que serviria? A questão não é: pode raciocinar?, pode falar?, mas: pode sofrer?"

O chamado utilitarismo moral coloca o centro precisamente na capacidade de sofrer e de sentir prazer. Para Peter Singer, defensor célebre desta concepção, os seres sensíveis têm interesses, concretamente o interesse do maior prazer possível e da menor dor possível, seguindo-se daí que, ao contrário da concepção anterior, temos deveres directos para com todos os seres capazes de sentir. A desigualdade de tratamento deriva do chamado especiesismo - julgo que se deve dizer assim e não especismo -, que consiste na preferência que damos aos humanos sem qualquer outra razão que não a pertença a uma espécie, no caso, a espécie humana.


Anselmo Borges

quinta-feira, setembro 15, 2011

O organizador da tertúlia apanhou-me desprevenido. Não gosto de microfones e nada tinha a dizer.

- Angel, por favor, dinamita-me isto.

Lá pedi para falar. O tema eram os livros que entram no cânone literário, os critérios.

- Não entendo como podem estar a fixar autores vivos, alguns que acabam de publicar, no canône literário. Quantos autores conheceram certa fulgurância em vida e hoje caíram nos mais fundos baús do olvido? Quantos autores morreram desconhecidos e foram alteados postumamente? Como podem hoje, com livros a tombarem-nos - vejam as estatísticas - de trinta em trinta segundos, separar o lixo e o ruído? Herman Melville, no dia seguinte à sua morte, aparecia nos obituários com uma nota de rodapé ao ignoto «escritor de aventuras marítimas». O tempo é o grande depurador. Fixar hoje perenemente alguém que está a escrever é algo do domínio da crença.

Um dos excelsos palestrantes, conhecido escritor, ficou irado.

Não sei porquê.
Alguns intelectuais* consideram o futebol desprezável ou, pior ainda, desprezível. Paradoxalmente, estimam o xadrez. Esquecendo toda a parte da indústria do futebol, do analfabetismo do jogador de futebol (o português em particular), do sofrível jargão futebolês, da excessiva telenovelização do futebol e omnipresença do mesmo nos media. Compartimentando tudo isso, e analisando o futebol por aquilo que é - um jogo dentro de quatro linhas -, reconheço o futebol como um xadrez infinitamente mais complexo.

Porque as peças são humanas e têm uma incomensuravelmente superior quantidade de movimentos do que as peças do tabuleiro. Assim como as abelhas só conseguem emitir quatro mensagens, os movimentos das peças de xadrez são dois, três, quatro. A táctica do futebol é, por isso, muito mais complexa - porque procura organizar infinitas variáveis. E já nem falo da parte psicológica de que cada um deles é um homem e reage diferentemente consoante a pressão do jogo, o estado de espírito, o ambiente das bancadas, o estar a perder ou ganhar e uma miríade de coisas mais.

Ser treinador é ser um xadrezista-mor. Trapattoni diz que os seus jogadores são instados a ouvir música clássica - porque sem perceberem de quando se avança em campo ou quando se sobe no tom da música, de quando se defende ou quando se desce no tom da música; sem perceber de harmonia, de tessitura, não se abarca holisticamente um jogo de futebol.

Camus, que foi guarda-redes, dizia que foi no futebol que aprendeu tudo o que tinha a saber sobre moral. E que foi na baliza que aprendeu que o perigo vem de onde menos espreita. Quem morre daquilo que mais tem medo? Quase ninguém.

*Daqueles que gostam de impressionar. Daqueles que sublimam a virilidade e o instinto de dominação usando a cultura como ascendência de poder. Não daqueles que tratam os outros como pares. Não daqueles que desempoeiradamente conseguem tentar perceber o interesse em todas as coisas. Não daqueles que ouvem o Outro. Não daqueles que transmitem por partilha, por vivacidade na alegria do saber, por necessidade de extravasar um gosto intrínseco.

quarta-feira, setembro 14, 2011

- Mas o André gostava dela?
- Gostava dela? Ahn... - riu por meio segundo. - O mundo era diferente. Puta que o pariu! - era um sítio magnífico! As árvores eram diferentes, a comida, a respiração. As cores eram diferentes. Até os versos de uma música ridícula pareciam ter sido feitos para mim. Para o que eu sentia por ela.
- E porque saiu do Brasil e veio para Portugal nessa altura?
- Tinha de pôr um oceano entre nós.
Os traumas. Os complexos. Porque não têm antónimos?

Ficou marcad@ por um trauma.

Porque não nomeamos (no sentido de lhes dar um nome) as experiências a que somos particularmente sensíveis por serem similares a outras do nosso passado, mas que não constituem uma fraqueza, mas uma força?

Eu tenho um grande trauma positivo com seguranças e porteiros de discoteca. O tipo gigante metia-se comigo, sabendo que não podia, sem pretexto, bater-me no espaço onde trabalhava. Um dia, desafiou-me para um braço-de-ferro. Por milagre divino, perdeu.

Isto foi um profundo trauma positivo que me permite mandar umas bocas a energúmenos com esteróides de quem - não fosse o trauma positivo - lucidamente deveria saber poder levar uma sova.


terça-feira, setembro 13, 2011

Observar fácies - uma tarefa a que me dedico dezenas de vezes por dia. Há um rosto para o desemprego. Um rosto para a personalidade que está em reconstrução. Um rosto para os complexozitos emocionais. Um rosto para a desesperança. Um rosto para ânsia do tempo que escorre. Um rosto para a abulia. Um rosto para o sono em défice. Um rosto para a alegria em défice. Um rosto para a boa notícia. Um olhar para o solipsismo. Uma cicatriz para o trauma. Um rosto para uma pergunta que te obsidia. Um rosto para o dever cumprido. Um rosto para o encantamento. Um rosto para a ingratidão. Um rosto para a concentração. Um rosto para o autoritarismo. Um rosto para o medo. Um rosto para contenção de emoções que bailam frenéticas por trás das cortinas. Um rosto para quem flutua incorpóreo na fé. Um rosto para quem não ouve o interlocutor. Um rosto para o tédio disfarçado. Um rosto para quem está urdindo ideias. Um rosto para quem, imóvel, almeja sair do lugar onde está. Um rosto para a surpresa. Um rosto que pede um abraço de qualquer transeunte. Um rosto de quem foi devolvido à vida. Um rosto de quem, contido, está perto da fúria. Um rosto para o plano. Um rosto de quem não está a pensar em nada - entre os intervalos da mente branca que ocorrem entre os pensamentos.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave o atravessar trespassada por um grito marítimo e o pão for invadido pelas ondas, seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
[...]
Seu corpo arderá para mim sobre um lençol mordido por flores com água.
[...]
Entontece meu hálito com a sombra, tua boca penetra a minha voz como a espada se perde no arco. E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo se desfibra - invento para ti a música, a loucura e o mar.  Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso, a inspiração. E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa. Vou para ti com a beleza oculta, o corpo iluminado pelas luzes longas.
Herberto Helder
supondo que sonhei isto)
imagina só, quando o dia estremece
tu és uma casa em torno da qual
eu sou um vento-

as tuas paredes não se aperceberão de como
estranhamente a minha vida é curva
já que o melhor que se pode fazer
é espreitar pelas janelas, inobservado

-ouve, pois (acima de todas
as coisas)o sonho não se deixa enganar;
se este vento que eu sou ronda
cuidadosamente em torno desta casa que és tu

o amor sendo assim, ou assim,
as habituais esquinas do teu coração
nunca adivinharão o quanto
o meu maravilhoso ciúme é negro

se a luz florir:
ou o riso cintilar na
casa fechada (em torno e em torno
da qual um pobre vento vai vaguear

| e.e. cummings

segunda-feira, setembro 12, 2011

All the silly frilly things have to first get done
In a minute - sometime soon - maybe next time - make it June
Until later... doesn't always come

It's so hard to think «It ends sometime
And this could be the last
I should really hear you sing again
And I should really watch you dance?
Because it's hard to think
«I'll never get another chance
To hold you... to hold you...»

But chilly Mr. Dilly - Too much rush to talk to Billy
All the tizzy fizzy idiot things must get done
In a second - just hang on - all in good time - won´t be long
Until later...

I should've stopped to think - I should've made the time
I could've had that drink - I could've talked a while
I would've done it right - I would've moved us on
But I didn't - now it's all too late
It's over... over
And you're gone..

RS
Carta (Esboço)Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.
Nuno Júdice
[...] uma observação sobre o Guerra e Paz que, para mim, é decisiva: o poder do romance
do Tolstói é a primeira parte de uma trilogia que ele não iria acabar. O Tolstói queria escrever um romance sobre os dezembristas e o Guerra e Paz, que acaba em mil oitocentos e picos,
1812 se não me engano, devia ir até 1820. Todas aquelas personagens teriam um sentido diferente. O poder daquilo vem do facto de, apesar de não ter sido escrito, ter um futuro e ter um passado.

O facto de esse passado e esse futuro não serem explícitos altera a forma como ele é lido?

Alterou o poder do romance. Aquele romance era para vir de trás, para ter aquele corpo central e para continuar até 1820. O poder daquilo vem de ser uma parte do tempo.Uma parte indeterminada. Os romances que começam no dia 1 e acabam no dia 30 são fracos. Idealmente,uma pessoa devia escrever um romance como o Guerra e Paz: que nunca verdadeiramente começasse e nunca verdadeiramente acabasse. Que deixasse tudo em suspenso.

Vasco Pulido Valente

Seria cómico se não fosse trágico

reque-reque

Significado de Reque-reque

m.
Instrumento de fricção, usada por pretos.
(T. onom.)



Foder

Significado de Foder

foder ch (lat futuere) vint e vti 1 Copular, meter: Pedro fode todos os dias; Pedro fode com qualquer mulher. vtd 2 Prejudicar: O Governo quer é foder o povo. vpr 3 pop Sair-se mal: Trabalhe bem, senão você se fode.

Definição de Foder

Classe gramatical de foder: Verbo
Separação das sílabas de foder: fo-der
Possui 5 letras
Possui as vogais: e o
Possui as consoantes: d f r
A palavra Foder escrita ao contrário: redof

Exemplo com a palavra foder na imprensa

A cantora, então, comentou: "Imagina, uma mulher como a Hebe, com a história dela, ter sido tratada assim (de forma desrespeitosa) pelo Silvio Santos... Você foi um escroto com Hebe, Silvio Santos, um escroto... E vá se foder!" Folha de São Paulo, 08/03/2010

Conjugação do verbo foder

Tipo do Verbo: regular
Infinitivo: foder
Gerúndio: fodendo
Particípio Passado: fodido

Indicativo
  • Presente do Indicativo
    eu fodo
    tu fodes
    ele fode
    nós fodemos
    vós fodeis
    eles fodem
  • Imperfeito do Indicativo
    eu fodia
    tu fodias
    ele fodia
    nós fodíamos
    vós fodíeis
    eles fodiam
  • Perfeito do Indicativo
    eu fodi
    tu fodeste
    ele fodeu
    nós fodemos
    vós fodestes
    eles foderam
  • Mais-que-perfeito do Indicativo
    eu fodera
    tu foderas
    ele fodera
    nós fodêramos
    vós fodêreis
    eles foderam
  • Futuro do Pretérito do Indicativo
    eu foderia
    tu foderias
    ele foderia
    nós foderíamos
    vós foderíeis
    eles foderiam
  • Futuro do Presente do Indicativo
    eu foderei
    tu foderás
    ele foderá
    nós foderemos
    vós fodereis
    eles foderão
  • Imperfeito do Subjuntivo
    eu fodesse
    tu fodesses
    ele fodesse
    nós fodêssemos
    vós fodêsseis
    eles fodessem

Subjuntivo
  • Presente do Subjuntivo
    que eu foda
    que tu fodas
    que ele foda
    que nós fodamos
    que vós fodais
    que eles fodam
  • Futuro do Subjuntivo
    quando eu foder
    quando tu foderes
    quando ele foder
    quando nós fodermos
    quando vós foderdes
    quando eles foderem

Imperativo
  • Imperativo Afirmativo
    fode tu
    foda ele
    fodamos nós
    fodei vós
    fodam eles
  • Imperativo Negativo
    não fodas tu
    não foda ele
    não fodamos nós
    não fodais vós
    não fodam eles

Infinitivo
  • Infinitivo Pessoal
    por foder eu
    por foderes tu
    por foder ele
    por fodermos nós
    por foderdes vós
    por foderem eles


  • reter
  • dever
  • obter
  • arder
  • fazer
  • jazer
  • dizer
  • poder
  • deter
  • mexer
  • caber
  • viver
  • haver
  • saber
  • meter
  • reger
  • beber
  • bater














RIMAS



Anagramas de foder

  • forde
  • fedor


7.13 Dream

Estava numa casa cheia de luz. Sentado num sofá, tinha em frente uma janela toda espelhada com vista para uma piscina azul-celestial.

O que parecia o Éden era uma sala de tortura.

Em pé, andando à minha volta, levando a mão à cabeça, o marido dela ia soltando perguntas.

- Como é que tu justificas esta fotografia?

Mostrava-me uma fotografia com a mulher dele.

- Ela é minha mulher. Eu mato-te!!!! Eu mato-te!!!!

Além da espada que brandia, percebi que toda a sala tinha armas disfarçadas de objectos de arte.

- Ei, ouve... Eu não fiz nada. Cruzei-me acidentalmente na rua e alguém tirou a fotografia. Nós não estamos a fazer nada.

- E se me estás a enganar, cabrão? Eu mato-te. Eu vou descobrir. Eu mato-te se tiveste isto - juntava os dedos polegar e indicador - com ela.

- Eu não tive nada, nada com ela. E tu não tens provas. Porque não houve nada. Há anos que não a vejo.

- Há anos?

O indivíduo remexia caixas num frenesim.

- Há mais fotos, seu cabrão!

À medida que ia mostrando uma a uma, eu tinha de explicar se não queria morrer.

- É uma montagem.

Ele gritava e eu aproveitava as pausas.

- Repara! - gritava eu a certa altura. - Repara nisto. Não vês que não sou eu. Não vês que o tronco não joga com as pernas. Foi feita uma montagem.

«Se não podes convencê-lo, confunde-o», pensava.

- Pois... aqui, parece que não és tu.

Quando pensava que folgava, vinha outra.

- Não vês que isso é tudo montagem?

- Explica-me esta! Explica-me esta!

- Ouve, fazemos assim. Vamos identificar o lugar e vamos pedir filmagens.

- Filmagens?

- Sim, hoje é tudo filmado.

- Mas a que horas foi?

- Eh pá, pedimos filmagens do dia inteiro.

- Mas de que dia?

- Eu ou ela estávamos lá, o outro é que foi adicionado por montagem, percebes? Eu não estive lá.

- Hum...

Ele ligou à mulher. Ela confirmou ter estado lá no dia x.

- E agora quem é que nos dá as filmagens?

- Eu peço a um contacto que tenho na câmara. Posso ir-me embora?

- NÃO!!!!!! Há mais coisas que vais ter de me explicar!

- E esta fotografia?

- Esse nem é o corpo dela?

- MAS TU SABES COMO É O CORPO DELA?! - ele desembainhava a espada.

- ESTOU A DIZER PELO CABELO!

A espada não completava o percurso e o ódio aterrava.

- Não parece o cabelo dela, não.

- Não vês que é mais uma montagem?

- Pois é... Mas há uma coisa em que não se pode fazer montagens...

Sorria malevolamente.

Eu fingia tranquilidade.

- Sabes o que é?

- Não faço ideia.

- É O TELEMÓVEL!!!!!!!! Tenho chamadas dela para o teu número.

- Eu nunca lhe liguei, não sei... Nem falei com ela ao telefone.

- Mas está aqui, mentiroso!!!!

- Eu não te menti e já viste que estavas equivocado nas fotos...

- Calma, tu ainda cá voltas para ver as filmagens do teu amigo da câmara. Mas explica-me isto!

«Porra para o verbo explicar», já estava a ficar raivoso.

O meu nome aparecia num registo de chamadas.

- Mas, ouve lá, isso não tem aí o número? Os registos de chamadas têm números, pá. Pode ser alguém com o meu nome.

- Não gozes comigo!!!! TU NÃO GOZES COMIGO, OUVISTE?

- TU É QUE ESTÁS A GOZAR! UM PAPEL COM NOMES NO REGISTO. LIGA PARA A OPERADORA, SFF.

- Qual o número?

- Vê na Internet.

Ele foi procurar.

- Agora, pergunta-lhes se não dão os registos com os números e nunca com os nomes.

A chamada esclareceu-o.

- Eu acho é que estão a gozar contigo. Fotos montadas, registos não oficiais que só enganam parvos.

- Eu não sou parvo!!!

- Estás a ser. Prendes-me aqui. Alguém se está a rir de ti neste momento.

- Não sei, não sei... e enquanto não souber ficas aqui! Já me disseram que há filmagens... Ah, agora o teu rosto mudou!!!!!!!! Se calhar, fizeste o que não devias!!!!!

- Não há filmagens.

- Disseram-me que havia.

- Não há nada e já percebeste que te enganaram em tudo até aqui. Repara que nunca te enganei.

- Sim, não era o cabelo dela.

- Tu não és parvo.

- Pois não. Pede lá as filmagens à câmara. Liga daqui! Quero ouvir essa chamada!

Cumpri.

- Ele vai ter para a semana.

Levantei-me, ele baixou a arma, deu-me uma palmada amistosa nas costas e largou:

- Tu sabes que eu não sou parvo, não sabes?

- Não te deixes enganar.

- Quem é que me anda a enganar.

- Tenho de pensar nisso. Mas tenho algumas suspeitas.

- Tens?

(Ia ganhando espaço para me dirigir até à porta.)

- Mas olha que isto não acabou... E se tu tiveste alguma coisa com ela?

- NÃO TIVE!!!

- Vamos ver... Voltas cá para uma segunda sessão.








domingo, setembro 11, 2011

Não se pode salvar todas as pessoas que se cruzam connosco - mas deve-se tentar.
- Estou numa fase em que preciso mais de colo do que de cama, Angel.
A ginecomania é irregenerável.
És conquistad@ pelo cérebro?

Do Real

Acabaram a relação pela tricentésima vez. Mas nunca a sensação de fim fora tão tumular.

Não se falavam. Mas ele ligou o MSN e leu o nickname dela.

Finito.

Ele escreveu no seu nickname:

InFinito.

(Como me delicio com a comunicação silenciosa.)
- É isso, Angel, esse sempre foi o desiderato da minha existência. Fazer o sincretismo de todo o saber. Não é tarefa para menos de uma vida. E mesmo assim uma vida não chega.
Ensino a afastarem-se de mim
mas quem se poderá afastar de mim?

Walt Whitman

Da enciclopédia rasca e com 60% de erros factuais, uma entrada com algum rigor.

Na mitologia grega, Kairos(καιρός, “o momento certo” ou “oportuno”) é filho de Chronos, é o deus do tempo e das estações. Ao tempo existencial os gregos denominavam Kairos e acreditavam nele para enfrentar ao cruel tirano Chronos. Na filosofia grega e romana é a experiência do momento oportuno. Os pitagóricos lhe chamavam Oportunidade. Kairos é o tempo em potencial, tempo eterno, enquanto que Chronos é a duração de um movimento, uma criação.

Habitualmente era considerado filho menor de Zeus e Tyche, mas na genealogia dos deuses Kairos parece estar associado a todos eles como manifestação de um ou outro: Kairos, além de filho de Zeus, pode ser o mesmoZeus; Kairos pode ser Chronos (Tempo), mas também Aevum (Eternidade); Kairos é Atena (Inteligência) e também Eros (Amor); inclusive Dionísio pode ser Kairos.

Na estrutura temporal da civilização moderna, geralmente se emprega uma só palavra para significar o "tempo". Os gregos antigos tinham duas palavras para o tempo: khronos e kairos. Enquanto o primeiro refere-se ao tempo cronológico, ou seqüencial, o tempo que se mede, esse último é um momento indeterminado no tempo em que algo especial acontece, a experiência do momento oportuno. É usada também em teologia para descrever a forma qualitativa do tempo, o "tempo de Deus", enquanto khronos é de natureza quantitativa, o "tempo dos homens".

Na teologia cristã, em síntese pode-se dizer que khronos, é o "tempo humano", é medido em anos, dias, horas e suas divisões. Enquanto o termo kairos, que descreve "o tempo de Deus", não pode ser medido, pois "para o Senhor um dia é como mil anos e mil anos como um dia."

No monoteísmo, Kairos e Aevum passam a ser atributos do Deus único, recolhendo idéias precedentes da filosofia clássica grega.

[editar]

Pedir a um gramático que explique a poesia é como pedir a um cientista que explique o sentido da vida.

Nassim Taleb

sábado, setembro 10, 2011

Felizmente, não acredito na quiromancia.

O especialista pediu-me que as levantasse, perguntando-me com qual escrevia.

«Eh, pá! [Aqui, assustei-me.] Isso é uma mão de quem nasceu para ser totalmente livre e independente. Uma pessoa com essa mão nunca se irá fixar em ninguém.»