quarta-feira, agosto 31, 2011

Para a maioria das pessoas, a plurigamia é uma parafilia emocional - como um longa estrada que acabará por conduzir à «normalização», um intervalo malsão da volubilidade de almas perdidas que terá de confluir na salvação do rio da monogamia.
Para certa espécie de pessoas, o anseio de liberdade é apenas um escape para a dificuldade de encontrar uma identidade.
A mulher é um milagre de contradições divinas.

Jules Michelet
As we grow old, we grow more foolish and wiser at the same time.

La Rouchefoucald
Ela ficara com a alma escalavrada. Ele ligou-lhe durante dois anos. Ela atendia, mas nunca falava. Presumivelmente, ouvia-o. Ao fim de dois anos, ele voltou a ouvir a voz dela. Garante ter sido o seu maior momento de felicidade.
Todos os dias, procuro algo que tenha medo, sentimento de ridículo, embaraço em fazer - assim, alargando a minha zona de conforto.

segunda-feira, agosto 29, 2011

It seems I am trying to tell you a dream - making a vain attempt, because no relation of a dream can convey the dream-sensation, that commingling of absurdity, surprise, and bewilderment in a tremor of struggling revolt, that notion of being captured by the incredible which is the very essence of dreams.. .no, it is impossible; it is impossible to convey the life-sensation of any given epoch of one's existence - that which makes its truth, its meaning - its subtle and penetrating essence. It is impossible. We live, as we dream - alone...

Joseph Conrad

Procura a Verdade com obstinação, sabendo que nunca a poderás alcançar. Se lá chegasses, o passo seguinte seria montares uma Inquisição que a todos fizesse refulgir a Verdade.

Quando duas pessoas estão isoladas numa ilha, uma pode levar a outra à insanidade, à submissão, à escravatura. A cabeça do outro é todo o universo.

Haud ignara mali miseri succurrere disco
- Se um controlo remoto consegue abrir um carro a distância considerável, como não acreditar que a mente pode projectar e introjectar energias? A mente é algo incomensuravelmente mais complexo do que um comando.
Quão bissexual és tu?

O Paraíso é igual para todos? Como poderemos então ser todos felizes Lá? Diluirão as nossas especificidades para todos gostarmos do mesmo?
O conceito de multidão é uma imposturice - só existe o universo insular do eu.

sábado, agosto 27, 2011

- A democratização da cultura e o livre acesso à informação fizeram com que muito mais pessoas soubessem mais do que no meu tempo. Por outro lado, a elite erudita de hoje é incomparavelmente inferior à do meu tempo. E as pessoas sabem menos do que julgam que sabem. Além da falta de rigor da Internet, do empobrecimento da linguagem, hoje as pessoas opinam sobre tudo o que não conhecem ouvindo umas coisitas requentadas. É por isso que hoje há menos sábios - porque há um desconhecimento maior da extensão da ignorância.
»Há também menos sábios no sentido em que os analfabetos de outrora, os camponeses iletrados eram pessoas cultas. Porque tinham o sentir, os valores, a humanidade da cultura. Diz-me imensamente mais um sujeito iletrado «com alma» do que um yuppie sem alma.
»E o livro dessacralizou-se. No meu tempo, não havia livro à venda no meio de melões e pastas dentífricas. Quando alguém emprestava um livro e vinha rasgada uma página, era um ultraje. Mesmo nas livrarias, as pessoas pegavam em livros como em objectos de porcelana. Não me lembro de ver alguém deixar cair um livro no chão.
Desfocamos todos a realidade até que a consigamos suportar.
Qualquer coisa insondável dentro de mim sempre me fez ter um fascínio por loosers. Bukowski dizia que os bêbados sem dentes, as prostitutas e os travestis eram as flores da Terra. Não consigo deixar de admirar - e de me sentir pequeno ante - o heroicismo de quem virou costas a tudo o que está escrito no Grande Livro da Sociedade.
Eu tinha sete anos. Estava a ler um livro da Walt Disney. Um página de um concurso dos Sugus arregalou-me os olhos. Pedia-se que se reconstruísse a história aos quadradinhos que estavam trocados na ordem. Passei a noite em redor daquilo. Se a história fosse enviada na ordem devida, seleccionariam depois quem escolhesse o melhor título. Escrevi qualquer coisa assim: «O dragão, o fogo e os meninos.» Enviei tudo num envelope e doravante pedi aos meus pais para abrir todos os dias o correio.

Uma bela manhã... lá estava o envelope a dizer que tinha ganho um piano.

Desde essa manhã, algo imarcescível em mim se manteve:

«Eu vou ser escritor.»
Ingenuamente ou não, sempre achei que a Literatura era um bom amigo para se crescer na ideia de que devemos ser conquistados pelo cérebro e um bom antídoto contra a hipervalorização da beleza física.

Esquece lá isso dos números da leitura

As «estatísticas da leitura», em boa verdade, pouco nos dizem. Podemos saber que um livro é comprado - mas não podemos saber se é lido. Pedro Mexia diz - sem dados, impossíveis de obter - que Saramago é o escritor com pior rácio livros lidos/livros comprados.

Nem que tivéssemos gente a policiar se as pessoas lêem o que compram - teríamos sempre de ter alguém a perguntar sobre o livro para verificar se o lera mesmo.

Mesmo a questão das edições dos livros é um embuste. Um livro pode ir na 5.ª edição - mas se os número de exemplares não consta da ficha técnica, como poderemos saber se se passou de 5000 exemplares para 1000?

Nem sequer os autores estão salvaguardados das contas. A distribuidora apresenta os números - mas quantos autores vão verificar se os livros remanescentes estão em armazém (quando, ainda para mais, a tendência de conglomeração de editoras e distribuidoras faz com que os armazéns de uma distribuidora estejam espalhados pelo país, não se imaginando o autor a percorrer de lés a lés Portugal).

Além disso, a qualidade não é critério mensurável. Sempre que estou nos transportes públicos, em cafés, na praia, observo os livros que as pessoas lêem (observo também que a maior parte dos leitores são mulheres). Nunca deixo de reparar num título de um livro. E, 95% das vezes, é o livro da moda, é o best-seller que nunca será long-seller, são sagas de vampiros, livros de filmes, capas exuberantes, Dan Browns e Rebelos Pintos, auto-ajuda barata.


sexta-feira, agosto 26, 2011

Blocos

É isto vivermos dentro
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos.
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo.


David Mourão-Ferreira
So, since I could no longer fulfill the obligations that life had set for me or that I had set for myself, why not slay the empty shell who had been posturing at it for four years?

Ibidem
And a smile - ah, I would get me a smile. I’m still working on that smile. It is to combine the best qualities of a hotel manager, an experienced old social weasel, a headmaster on visitors’ day, a colored elevator man, a pansy pulling a profile, a producer getting stuff at half its market value, a trained nurse coming on a new job, a body-vender in her first rotogravure, a hopeful extra swept near the camera, a ballet dancer with an infected toe, and of course the great beam of loving kindness common to all those from Washington to Beverly Hills who must exist by virtue of the contorted pan.

The voice too - I am working with a teacher on the voice. When I have perfected it the larynx will show no ring of conviction except the conviction of the person I am talking to. Since it will be largely called upon for the elicitation of the word “Yes,” my teacher (a lawyer) and I are concentrating on that, but in extra hours. I am learning to bring into it that polite acerbity that makes people feel that far from being welcome they are not even tolerated and are under continual and scathing analysis at every moment.


Ibidem

I felt like the beady-eyed men I used to see on the commuting train from Great Neck fifteen years back - men who didn’t care whether the world tumbled into chaos tomorrow if it spared their houses. I was one with them now, one with the smooth articles who said:

“I’m sorry but business is business.”

Or:

“You ought to have thought of that before you got into this trouble.”

Or:

“I’m not the person to see about that.”


Ibidem
I have not been able to fire a bad servant, and I am astonished and impressed by people who can.

Francis Scott Fitzgerald
Força - a imperturbabilidade do espírito à hostilidade do ambiente.
Os caminhos ínvios da vida - magoas sem saber como e prejudicas quem queres ajudar.

Delírios

- Acabas a noite com números de telemóvel em guardanapo, batom na t-shirt e chegas a casa e tens convites no Facebook.

quinta-feira, agosto 25, 2011

A solidariedade, se servida em doses ocasionais e frugais, é digna de apreço. Quando fazemos dela um prato sempre pronto a servir, com a frequência e a abundância que nos forem solicitadas, torna-se um alimento que gera um paladar insípido. E no dia em que faltarmos com a refeição, essa ausência será notada e ser-nos-á fatalmente cobrada. Lembrar-nos-emos, então, amarga e odiosamente, do dia em que demos o primeiro prato.

Taxinomia da Manipulação

Manipulador culto.

Usa a sua sabedoria para criar um ascendente sobre a vítima. Ele sabe mais e a sua sapiência é a garantia de que a opinião do outro não conta. Resta ao outro ouvir, aprender, ver, imitar. Nunca criticar. Com que autoridade poderá fazê-lo? Ele rir-se-ia do pedestal da ignorância e estilhaçá-lo-á com amontoados de palavras que farão o outro corar e ter vergonha de abrir a boca.

Manipulador sedutor.

Ele tem duas mil e cinquenta e cinco vozes, trinta e quatro mil sorrisos, um milhão de olhares. Fala de forma quente, pausada, radiofónica. A melodia nem te deixa perceber a letra - mergulhas naquela tessitura como num mar de mel quente... Quando deres por ti, estás afogado. Sabe quando ser lisonjeiro, sabe quando ser distante, sabe quando ser misterioso, sabe quando ser delicado, sabe quando ser dominante e sabe quando ser dominado.

Manipulador dadivoso.

Faz inicialmente um grande favor, está oportunistamente presente em todos os momentos de desgraça, e depois fica a vida inteira a tirar dividendos dessas acções. Nunca as nomeia, mas elas estão lá no silêncio, estão lá no tremendo à-vontade com que solicita montanhas de coisas, estão lá no semblante duro que mostra a quem lhe recusa um favor – ficamos na dúvida de termos cometido uma inominável vileza.

Manipulador coitadinho

Está sempre mal. Tem alguém querido a morrer, está doente, está carente, está sem dinheiro, está sem amigos, só existes tu, se desapareceres, ele desaparecerá também. A mãe era ausente, o pai um tirano, @s namorad@s deixaram-no , os amigos não têm escrúpulos e ele é um trilionário moral.

Manipulador silente-passivo

Está sempre enjoadinho. Está sempre calado, a perscrutar-te com o olhar. Consegue instilar-te medo - «Estarei eu a fazer algo errado?», perguntas-te. Os seus silêncios têm uma autoridade muito maior do que um grito. Ele nunca erra um julgamento - e tu não tens considerado os seus interesses. Tens de lhe satisfazer todos os caprichos - ou aquele silêncio, ausência e passividade inquisidoras continuarão sempre a ecoar-te na cabeça. E por mais cuidados que tenhas com a sua pele, uma pequena folha da árvore pode magoá-lo - e tu não mediste bem a velocidade do vento.

Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio
do silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.

E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
cor de vinho se alimentam
de raios, seixos límpidos.
Até à manhã orçando
pedúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinza transtornada.
Em dedicatória sangrenta.

Há em cada instante uma noite sacrificada
ao pavor e à alegria.
Embatente com suas morosas trevas.
Desde o princípio, uma onda que se abre
no corpo, degraus e degraus de uma onda.
E alaga as mãos que brilham e brilham.
Digo que amaria o interior da minha canção,
seus tubos de som quente e soturno.
Há uma roda de dedos no ar.
A língua flamejante.
Noite, uma inextinguível
inexprimível
noite. Uma noite máxima pelo pensamento.
Pela voz entre as águas tão verdes do sono.
Antiguidade que se transfigura, ladeada
por gestos ocupados no lume.

Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
Quando se esclarecem as portas que rodam
para o lugar da noite tremendamente
clara. Noite de uma voz
humana. De uma acumulação
atrasada e sufocante.
Há sempre sempre uma ilusão abismada
numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo
do cruzamento do fogo.
Prodígio para as vozes de uma vida repentina.

E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.

Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas
abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas
pedras. Sobre o interior
da respiração com sua massa
de apagadas estrelas. Noite alargada
e terrível terrível noite para uma voz
se libertar. Para uma voz dura,
uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.

Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.

Herberto Helder

quarta-feira, agosto 24, 2011

Ela é perita em destruir imagens de mulheres bonitas. Quão hábil a mostrar-se amicíssima das suas pares e a envenenar os olhos dos homens.

Ela não dirá: «A Mary é oca» ou «A Daisy é fútil».

Não, ela é sofisticada a ponto de não utilizar adjectivos.

De resto, não se cansa de autoproclamar o quanto adora cada uma delas.

E de as elogiar.

Mas, pelo meio, deixa cair com ar maternal e consternado:

«Ando tão preocupada com a Sylvie. Ela anda carente e tem cometido tantos erros.» Acrescenta logo a seguir, guardadora da privacidade :«Mas não quero falar disso.»

Ou com um ar descontraído, prazenteiro e espontâneo:

«A Petra é diferente de mim . Ela sabe os nomes todos dos jogadores de futebol, dos actores das telenovelas e as marcas e modelos de todos os carros. Mas cada pessoa, Angel, gosta do que gosta e eu adoro-a. Temos de ser flexíveis.» E ainda remata: «Eu aprendo imenso com ela porque os meus interesses são mais na área da Filosofia, da Literatura, das Artes.»

«A Rina é muito muito boa pessoa. Ela é extrovertida e muito muito querida. É um doce. Gosta muito de ir a festas onde eu não me sinto muito bem. Gosta de ir onde estão os VIP e os actores de telenovelas. Mas cada pessoa é como é. Ela gosta muito de conhecer os porteiros das discotecas e de poder entrar e de se gabar disso. Mas é uma questão da educação que teve. É a vida dela, não vou falar sobre isso.»

- A tua verdade interior é sempre intransmissível.
Os ateus que se orgulham de estarem livre de «crenças» deveriam olhar para dentro e perceber que não há mente sem crenças - as vidas tornar-se-iam ingovernáveis sem elas.

Já o Teorema da Incompletude de Gödel o demonstrara. Não há nenhum sistema de equações lógico e organizado que não tenha algures axiomas indemonstráveis - seja por crença, por atitude estética, por inclinação da emoção.




Para Pedro Mexia, se Freud não escrevesse tão literariamente bem, a psicanálise seria hoje mais desacreditada.
Será «fim temporário» um oxímoro?

segunda-feira, agosto 22, 2011

«Quem quer que olhe hoje para o mundo [há doze anos] de forma imparcial, verificará quanto falta faz a União Soviética no plano da política internacional.»

Álvaro Cunhal
Kadafhi perguntou - e bem - se a ONU não iria enviar as suas tropas para proteger os «rebeldes» da tirania de Cameron.
Socialismo ou barbárie.

Rosa Luxemburgo
«No relatório de 2007 [da ONU] constatou que a Líbia tinha: 1 - maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de toda a África (ainda hoje, 2011, maior do que muitos países ditos desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento como, por exemplo, o Brasil); 2 - ensino gratuito até à universidade; 3 - Os melhores alunos universitários (cerca de 10%) estudam ou estudavam na Europa ou EUA, com tudo pago a 100% pelo Estado; 4 - ao casar o casal recebia como dote do estado o equivalente a até 50 000 dólares para montar casa; 5 - sistema médico gratuito, rivalizando com os europeus. Equipamentos de última geração, etc.; 6 - empréstimos pelo banco estatal sem juros ou com juros muito baixos; 7 - inaugurado em 2007, o maior sistema de irrigação do Mundo, que vem tornando o deserto (95% da Líbia) em campos agrícolas produtores de alimentos e fixando as populações rurais. Então, qual a razão do conflito na Líbia? 1 - tomar o seu petróleo de boa qualidade e com volume superior a 45 bilhões de barris em reservas; 2 - fazer com que o Mediterrâneo volte a ser "O MARE NOSTRUM" do antigo Império Romano, mas sob o controlo absoluto da NATO (leia-se EUA). ó falta agora a Síria... 3 - o Banco Central Líbio não está atrelado ao sistema financeiro mundial...»

Manuel Sérgio Coimbra
Graça e glória deveriam ser antónimos.
the boys i mean are not refined 
they go with girls who buck and bite
they do not give a fuck for luck
they hump them thirteen times a night
 one hangs a hat upon her tit
one carves a cross on her behind
 they do not give a shit for wit
 the boys i mean are not refined
they come with girls who bite and buck
who cannot read and cannot write
who laugh like they would fall apart
and masturbate with dynamite
 the boys i mean are not refined
 they cannot chat of that and this
 they do not give a fart for art
 they kill like you would take a piss
 they speak whatever's on their mind
 they do whatever's in their pants
 the boys i mean are not refined
 they shake the mountains when they dance
e. e. cummings
Sentados, na esplanada, pressinto material-girl-está-na-minha-frente.

Subtilmente, espeto o bisturi das perguntas em redor da pergunta essencial.

Despudoramente, ela acaba por confessar:

- Angel, claro que não teria ao meu lado um homem que ganhasse menos do que eu.

sábado, agosto 20, 2011

Os piores proprietários de escravos foram os que eram brandos com os seus escravos, e assim impediam que o horror do sistema fosse concebido pelos que sofriam os seus efeitos, e compreendido pelos que o contemplavam.

Oscar Wilde

Não é possível copiar o original

http://www.youtube.com/watch?v=jzfPkV4LObQ&feature=related
Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta

do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes –
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.

Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,

espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
- Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?

Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.

Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
- Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.

Falemos de casas. É verão, outono,

nome profuso entre as paisagens inclinadas
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros –
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.

Só um instante em cada primavera se encontravam

com o junquilho original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
- E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva - tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.

- E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.


Falemos de casas, da morte. Casas são rosas

Para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
Nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
Celestes que fulguram lentamente
Até uma baía fria – que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.

Falemos de casas como quem fala da sua alma,

Entre um incêndio,
Junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.


Herberto Helder, ibidem

Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne,

sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.


Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

os rios, a grande paz exterior das coisas,

as folhas dormindo o silêncio,

as sementes à beira do vento,

- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.


E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único,

invade as órbitas, a face amorfa das paredes,

a miséria dos minutos,

a força sustida das coisas,

a redonda e livre harmonia do mundo.


- Em baixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder
Simplicity is a very complex state of mind.

M. C.
Antes uma alma perversa e profunda do que uma sombra fútil de alma.

sexta-feira, agosto 19, 2011

Nenhuma mulher, dizia Frederich Buchmann, te excitara tanto quanto a possibilidade de matares um homem que, por qualquer razão, nesse momento odeies.

Gonçalo M. Tavares
"Not a minute?" 
"Not a minute."
"Not even time for -" she paused. 
"For what?"
"Look."  
He bent his head forward suddenly, 
and she drew herself to him in the same moment,
her lips half open like a flower.
"Yes," he whispered into her lips.
"There's all the time in the world..."
All the time in the world - his life and hers.
But for an instant as he kissed her he knew 
that though he search through eternity
he could never recapture those lost April hours.
He might press her close now till
the muscles knotted on his arms - she was
something desirable and rare that he had fought
for and made his own - but never again
an intangible whisper in the dusk,
or on the breeze of night...
Well, let it pass, he thought; 
April is over, April is over.
There are all kinds of love
in the world, but never the same love twice.
Francis Scott Fitzgerald
Penso que a solidariedade deveria ser exercida com os mais fortes. Porque são eles o alvo da inveja, do ressabiamento e da maledicência. Porque é sobre eles que se entende desnecessária a compaixão. Porque são eles quem supostamente aguenta tudo - «Ele é forte, ele dará a volta por cima. Não te preocupes.» Porque são eles que encaminham os outros para os seus sonhos, que têm os seus ombros sempre marcados de tantas pessoas repousando, porque são eles que sofrem o desgaste do comando, das expectativas infinitas. Porque eles são - convenhamos- imelindráveis.
And I know that we've said it so many times before
"once more and never again"
But however many times that we've said it before
Once more is never the end...

RS
Guarda os naipes para o fim.
Há sonhos que são clarões no entendimento.
Definitivamente, uma peculiaridade de alma que me afasta definitivamente de alguém: aquela pessoa que se faz sempre de despercebida quando chega a conta, esperando sempre sempre sempre que alguém pague. À boleia de borlas. Pensando que ninguém repará. Ou pensando que a sua companhia é a transacção merecida. Ou não pensando nada - aproveitando no sentido mais mesquinho do vocábulo.
- As pessoas mudam dentro de nós e está-se modificando um rosto dentro de mim.
A consistência é o último refúgio dos homens desprovidos de imaginação.

Oscar Wilde
Para o psicólogo comportamentalista William James, o ser humano não pode domar o sentimento, a emoção, mas pode domar a vontade ou acção. Modificando a vontade, agindo de uma determinada maneira, acabará por fazer a mente adaptar-se à nova acção - modificando, assim, o sentimento.
Love is the triumph of imagination over intelligence.

H. L. Mencken
- Fiz greve de viver.

quarta-feira, agosto 17, 2011

Imagina um homem inocente a atravessar o corredor da morte com todos os olhos a verem-no como culpado.

Que carácter que ele deve ter para sorrir mansamente para todos.


Last Dance

I'm so glad you came
I'm so glad you remembered
To see how we're ending
Our last dance together
Expectant
Too punctual
But prettier than ever
I really believe that this time it's forever

But older than me now
More constant
More real
And the fur and the mouth and the innocence
Turned to hair and contentment
That hangs in abasement
A woman now standing where once
There was only a girl

I'm so glad you came
I'm so glad you remembered
The walking through walls in the heart of December
The blindness of happiness
Of falling down laughing
And I really believed that this time was forever

But Christmas falls late now
Flatter and colder
And never as bright as when we used to fall
All this in an instant
Before I can kiss you
A woman now standing where once
There was only a girl

I'm so glad you came
I'm so glad you remembered
To see how we're ending
Our last dance together
Reluctantly
Cautiously
But prettier than ever
I really believe that this time it's forever

But Christmas falls late now
Flatter and colder
And never as bright as when we used to fall
And even if we drink
I don't think we would kiss in the way that we did
When the woman
Was only a girl

Robert Smith

terça-feira, agosto 16, 2011



If you just get it together and read my mind
Then sleeping would be easy

Miles Kane

O Abismo


Com a sua pele de poço, pele comprometida com o medo que no fundo fede 
e a que, digamos, toda ela adere de uma forma resoluta, dir-se-ia que se engancha,
 se pendura, o branco da memória a alastrar pelo corpo, um branco tão branco como
o das noites em branco e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua, pensos, ligaduras,
 impregnados de memória, uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram em actividade
e lhe disputam os dias idos, assim ergue a balança, onde sustém o abismo. 
Luís Miguel Nava

Acho que era a voz dela, com aquele calor febril e flutuante, o que mais o arrebatava, porque inexcedível pelos sonhos - aquela voz era uma canção imortal.

F. Scott Fitzgerald

O me! O life!

O me! O life! of the questions of these recurring,
Of the endless trains of the faithless, of cities fill'd with the foolish,
Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I,
and who more faithless?)
Of eyes that vainly crave the light, of the objects mean, of the
struggle ever renew'd,
Of the poor results of all, of the plodding and sordid crowds I see
around me,
Of the empty and useless years of the rest, with the rest me intertwined,
The question, O me! so sad, recurring - What good amid these, O me, O life?

Answer.
That you are here - that life exists and identity,
That the powerful play goes on, and you may contribute a verse.

Walt Whitman

How to be a good writer

you've got to fuck a great many women
beautiful women
and write a few decent love poems.

and don't worry about age
and/or freshly-arrived talents.

just drink more beer
more and more beer

and attend the racetrack at least once a

week

and win
if possible

learning to win is hard -
any slob can be a good loser.

and don't forget your Brahms
and your Bach and your
beer.

don't overexercise.

sleep until moon.

avoid paying credit cards
or paying for anything on
time.

remember that there isn't a piece of ass
in this world over $50
(in 1977).

and if you have the ability to love
love yourself first
but always be aware of the possibility of
total defeat
whether the reason for that defeat
seems right or wrong -

an early taste of death is not necessarily
a bad thing.

stay out of churches and bars and museums,
and like the spider be
patient -
time is everybody's cross,
plus
exile
defeat
treachery

all that dross.

stay with the beer.

beer is continuous blood.

a continuous lover.

get a large typewriter
and as the footsteps go up and down
outside your window

hit that thing
hit it hard

make it a heavyweight fight

make it the bull when he first charges in

and remember the old dogs
who fought so well:
Hemingway, Celine, Dostoevsky, Hamsun.

If you think they didn't go crazy
in tiny rooms
just like you're doing now

without women
without food
without hope

then you're not ready.

drink more beer.
there's time.
and if there's not
that's all right
too.


Charles Bukowski

Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável.

Séneca
Porque na verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele há de passar, e nada vos será impossível.

Jesus Cristo

segunda-feira, agosto 15, 2011

O discurso da esquerda hodierna: pratica um crime e arranjar-te-emos um arrazoado de motivos sociológicos para o teres praticado.
Um gestor explicou certo dia que foi recrutado para uma empresa de pastas dentífricas e que a primeira medida que adoptou foi alargar para o dobro o tamanho do buraco da pasta de dentes. Quanto mais rapidamente gastavam, mais rapidamente compravam uma nova. E, assim, cresciam as vendas.

Da última vez que cortei o cabelo, perguntei ao cabeleireiro por que razão nos últimos anos os penteados em todos os cabeleireiros fashion (sofisticados e caros) não se aguentavam mais de duas semanas e meia. Ele explicou-me que esses frequentadores iam lá uma vez por mês - por essa razão, por o penteado não se aguentar como antigamente. Foi por razões comerciais e não estéticas que sucedeu a revolução dos penteados desde o penteado à moicano.

No campo tecnológico, não serão inocentes as sucessivas versões 3.0, 4.0, 5.0, que procuram criar uma obsolescência do estatuto dos seus portadores.

O capitalismo tenta tornar os produtos infinitamente mais perecíveis.


domingo, agosto 14, 2011

Sempre achei que uma parte significativa dos problemas dos cérebros era falta de sono

http://www.publico.pt/Sociedade/criancas-e-adolescentes-portugueses-so-dormem-metade-do-que-precisam_1507598
Para o meu coração basta o teu peito,
para a tua liberdade as minhas asas.
Da minha boca chegará até ao céu
o que dormia sobre a tua alma.

És em ti a ilusão de cada dia.
Como o orvalho tu chegas às corolas.
Minas o horizonte com a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que no vento ias cantando
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles tu és alta e taciturna.
E ficas logo triste, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu acordei e às vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam na tua alma.


Pablo Neruda

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, agosto 12, 2011

Ouvi falar de um homem
que fala com tanta beleza
que só de pronunciar os seus nomes
as mulheres se lhe entregam


Leonard Cohen

quinta-feira, agosto 11, 2011

Sky

The great ones pass
they pass without touching
they pass without looking
each in his joy
each in his fire
Of one another
they have no need
they have the deepest need
The great ones pass

Recorded in some multiple sky
inlaid in some endless laughter
they pass
like stars of different seasons
like meteors of different centuries

Fire undiminished
by passing fire
laughter uncorroded
by comfort
they pass one another
without touching without looking
needing only to know
the great ones pass

Leonard Cohen
Entendo a linguagem
das pedras sem família.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, agosto 10, 2011



The only criterion of an act is its elegance.

Susan Sontag
O jogador, por vezes, esquece-se de aplicar a fórmula combinatória de regras e instinto quando o seu interesse em alguém é muito acentuado.
«Quando penso em ti-em-mim, és a palavra vento.» «Nasceste do fogo da liberdade.»
Desidealiza. Todos precisamos de âncoras - crenças, causas, amigos, família, labor, «uma horta», rotina (nem que seja a rotina da falta da mesma), lutas.
O escritor é vários.

Francis Scott Fitzgerald
Chateaubriand dizia ser a vida uma confluência de vidas. Miguel Esteves Cardoso escreveu que são poucos os momentos em que não estamos a pensar no passado ou no futuro - e que seríamos perfeitamente inteligentes se fôssemos como a borboleta que poisa no copo e voa, exclusivamente absortos em cada momento.
And I never knew surrender quite like this.

The Mission
Não tenho inimigos porque gosto de ser dono do meu tempo.

Mário Zambujal
Mas será que posso morrer - eu, cristal?

Paul Klee

terça-feira, agosto 09, 2011




Somos a estufa tenebrosa
Onde esbraceja, nocturnal,
A verde, a negra, a sanguinosa
Flor epiléptica do Mal...
[...]
E a flor trágica pulula
Na surda-muda escuridão,
Fartando a infâmia da sua gula
No horror da nossa podridão.
[...]
Piedade é flor que aqui não medra;
Não acha abrigo a que se acoite.
Transpira ódio a nossa pedra,
Goteja sangue a nossa noite.


Guerra Junqueiro
aos vinte ou quarenta os poemas de amor têm uma força directa,
e alguém entre as obscuras hierarquias apodera-se dessa força,
mas aos setenta e sete é tudo obsceno,
não só amor, poema, desamor, mas setenta e sete em si mesmos
anos horrendos,
nudez horrenda
[...]
e tu catorzinha, floral, externa, aberta
[...]
décimo quarto piso da luz

Herberto Helder

segunda-feira, agosto 08, 2011

Daniel Sampaio escreveu que uma paixão de Verão mata o Verão.

Os olhos ignoram os estímulos que o Verão traz. A vida parece gravitar em torno de uma variável quando se está apaixonado - e o Verão será a mais cruel das estações para tal.
- Qualquer dia, somos assimptotas.
Kiss me kiss me kiss me
Your tongue is like poison
So swollen it fills up my mouth

Love me love me love me
You nail me to the floor
And push my guts all inside out

Get it out get it out get it out
Get your fucking voice
Out of my head

I never wanted this
I never wanted any of this
I wish you were dead
I wish you were dead

I never wanted any of this
I wish you were dead
Dead
Dead
Dead


Robert Smith

domingo, agosto 07, 2011

I´m not trapped anymore between Madonna and the whore when I lay with you

The Mission

Este jardim crepuscular


eu levanto os meus lábios que te beijam
para beijar o céu
nuvem macia e azul
e lento o sol derrete-se
nas tuas palavras douradas para mim
eu levanto as minhas mãos que te tocam
para tocar o vento que sussurra por entre
este jardim crepuscular
tornando-se num mundo
em que os sonhos são reais
nunca ninguém irá tomar o teu lugar
estou tão perdido em ti
nunca ninguém irá tomar o teu lugar
tão apaixonado por ti
eu levanto os meus olhos que te observam
para observar o nascer da estrela cintilante brilhando
pelo teu rosto sonhador e o teu sorriso sonhador
tu estás a sonhar mundos para mim
eu levanto os meus lábios que te beijam
e beijo o vasto azul mais profundo do céu
e lenta a lua navega
nas tuas palavras douradas para mim
nunca ninguém irá tomar o teu lugar
estou tão perdido em ti
nunca ninguém irá tomar o teu lugar
tão apaixonado por ti

Robert Smith (Tradução: Angel)

sábado, agosto 06, 2011

sexta-feira, agosto 05, 2011

The words thrilled Val. They had come into his mind sometime during the fresh gold April afternoon and he kept repeating them to himself over and over: «Love in the night; love in the night.»  He tried them in three languages - Russian, French and English - and decided that they were best in English. In each language they meant a different sort of love and a different sort of night - the English night seemed the warmest and softest with a thinnest and most crystalline sprinkling of stars. The English love seemed the most fragile and romantic - a white dress and a dim face above it and eyes that were pools of light. 
Francis Scott Fitzgerald
Pele aveludada, ela escreveu, julgando impressionar.

Aveludada, macia, sedosa - são metáforas gastas.

Quão difícil é ser original e quão fácil é - para quem não muito lê - imaginar que criou algo novo.
Prefiro «respeitador» a «educado» (há qualquer coisa vagamente classista e fedorentamente burguesa no termo).

Prefiro «despreconceituoso» a «tolerante» (há qualquer coisa vagamente paternalista e condescendente no vocábulo).

Abomino «cavalheiro» - a gentileza segmentada por género é sexismo.

Um segredo de um casamento feliz

Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.
Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.
Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.
O nosso casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade.
Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.O nosso casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais.
Foram concordados, são desenvolvidos, são revistos, são alterados, esquecidos e discutidos. Mas um casamento feliz com dez anos, tal como um filho de dez anos, tem uma personalidade mais rica e mais bem sustentada, expressa e divertida do que um bebé com um ano de idade.
Eu só vivo desta maneira - que é o nosso casamento - vivendo com a Maria João, da maneira como estamos um com o outro, casados. Nada é exportável. Não há bocados do nosso casamento que eu possa levar comigo, caso ele acabe.O casamento é um filho carente que dá mais prazer do que trabalho. Dá-se de comer ao bebé mas, felizmente, o organismo do bebé é que faz o trabalho dificílimo, embora automático, de converter essa comida em saúde e crescimento.
Também o casamento precisa de ser alimentado mas faz sozinho o aproveitamento do que lhe damos. Às vezes adoece e tem de ser tratado com cuidados especiais. Às vezes os casamentos têm de ir às urgências. Mas quanto mais crescem, menos emergências há e melhor sabemos lidar com elas.
Se calhar, os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar no primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é o casamento deles. É irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. O bebé idealmente é amado e cuidado pela mãe, pelo pai e pelo casamento feliz dos pais.
Se o primeiro filho que nasce é considerado o primeiro, pode apagar o casamento ou substitui-lo. Os pais jovens - os homens e as mulheres - têm de tomar conta de ambos os filhos. Se a mãe está a tratar do filho em carne e osso, o pai, em vez de queixar-se da falta de atenção, deve tratar do mais velho: do casamento deles, mantendo-o romântico e atencioso.
Ao contrário dos outros filhos, o primeiro nunca sai de casa, está sempre lá. Vale a pena tratar dele. Em contrapartida, ao contrário dos outros filhos, desaparece para sempre com a maior das facilidades e as mais pequenas desatenções. O casamento feliz faz parte da família e faz bem a todos os que também fazem parte dela.
Os livros que li dão a ideia de que os casamentos felizes dão muito trabalho. Mas se dão muito trabalho como é que podem ser felizes? Os livros que li vêem o casamento como uma relação entre duas pessoas em que ambas transigem e transaccionam para continuarem juntas sem serem infelizes. Que grande chatice!
Quando vemos o trabalho que os filhos pequenos dão aos pais, parece-nos muito e mal pago, porque não estamos a receber nada em troca. Só vemos a despesa: o miúdo aos berros e a mãe aflita, a desfazer-se em mimos.
É a mesma coisa com os casamentos felizes. Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é, que ficaram a ganhar, por muito que tenham perdido. O que recebem do filho compensa o que lhe deram. E mais: também pensam que fizeram bem ao filho. Sacrificam-se mas sentem-se recompensados.Num casamento feliz, cada um pensa que tem mais a perder do que o outro, caso o casamento desapareça. Sente que, se isso acontecer, fica sem nada. É do amor. Só perdeu o casamento deles, que eles criaram, mas sente que perdeu tudo: ela, o casamento deles e ele próprio, por já não se reconhecer sozinho, por já não saber quem é - ou querer estar com essa pessoa que ele é.
Se o casamento for pensado e vivido como uma troca vantajosa - tu dás-me isto e eu dou-te aquilo e ambos ficamos melhores do que se estivéssemos sozinhos -, até pode ser feliz, mas não é um casamento de amor.
Quando se ama, não se consegue pensar assim. E agora vem a parte em que se percebe que estes conselhos de nada valem - porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se casado com a pessoa que se ama, mesmo que ela não nos ame.
Ouvir um casado feliz a falar dos segredos de um casamento feliz é como ouvir um bilionário a explicar como é que se deve tomar conta de uma frota de aviões particulares - quantos e quais se devem comprar e quais as garrafas que se deve ter no bar, para agradar aos convidados.
Dirijo-me então às únicas pessoas que poderão aproveitar os meus conselhos: homens apaixonados pelas mulheres com quem estão casados.
E às mulheres apaixonadas pelos homens com quem estão casadas? Não tenho nada a dizer. Até porque a minha mulher continua a ser um mistério para mim. É um mistério que adoro, mas constitui uma ignorância especulativa quase total.
Assim chego ao primeiro conselho: os homens são homens e as mulheres são mulheres. A mulher pode ser muito amiga, mas não é um gajo. O marido pode ser muito amigo, mas não é uma amiga.
Nos livros profissionais, dizem que a única grande diferença entre homens e mulheres é a maneira como "lidam com o conflito": os homens evitam mais do que as mulheres. Fogem. Recolhem-se, preferem ficar calados.
Por acaso é verdade. Os livros podem ser da treta mas os homens são mais fugidios.
Em vez de lutar contra isso, o marido deve ceder a essa cobardia e recolher-se sempre que a discussão der para o torto. Não pode ser é de repente. Tem de discutir (dizê-las e ouvi-las) um bocadinho antes de fugir.
Não pode é sair de casa ou ir ter com outra pessoa. Deve ficar sozinho, calado, a fumegar e a sofrer. Ele prende-se ali para não dizer coisas más.
As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. Ou, pior ainda, de se repetirem tanto, banalizam-se. Perdem força e, com essa força, perde-se muito mais.
As zangas passam porque são substituídas pela saudade. No momento da zanga, a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco - ou muito - depois, a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Dantes estávamos apenas magoados. Agora continuamos magoados mas também estamos um bocadinho arrependidos e esperamos que ela também esteja um bocadinho.
Nunca podemos esconder os nossos sentimentos mas podemos esconder-nos até poder mostrá-los com gentileza e mágoa que queira mimo e não proclamação.
Consiste este segredo em esperar que o nosso amor por ela nos puxe e nos conduza. A tempestade passa, fica o orgulho mas, mesmo com o orgulho, lá aparece a saudade e a vontade de estar com ela e, sobretudo, empurrador, o tamanho do amor que lhe temos comparado com as dimensões tacanhas daquela raivinha ou mágoa. Ou comparando o que ganhamos em permanecer ali sozinhos com o que perdemos por não estar com ela.
Mas não se pode condescender ou disfarçar. Para haver respeito, temos de nos fazer respeitar. Tem de ficar tudo dito, exprimido com o devido amuo de parte a parte, até se tornar na conversa abençoada acerca de quem é que gosta menos do outro.Há conflitos irresolúveis que chegam para ginasticar qualquer casal apaixonado sem ter de inventar outros. Assim como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao doente, o primeiro cuidado de um casamento feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários.
No dia-a-dia, é preciso haver arenas designadas onde possamos marrar uns com os outros à vontade. No nosso caso, é a cozinha. Discutimos cada garfo, cada pitada de sal, cada lugar no frigorífico com desabrida selvajaria.
Carregamos a cozinha de significados substituídos - violentos mas saudáveis e, com um bocadinho de boa vontade, irreconhecíveis. Não sabemos o que representam as cores dos pratos nas discussões que desencadeiam. Alguma coisa má - competitiva, agressiva - há-de ser. Poderíamos saber, se nos déssemos ao trabalho, mas preferimos assim.
A cozinha está encarregada de representar os nossos conflitos profundos, permanentes e, se calhar, irresolúveis. Não interessa. Ela fornece-nos uma solução superficial e temporária - mas altamente satisfatória e renovável. Passando a porta da cozinha para irmos jantar, é como se o diabo tivesse ficado lá dentro.
Outro coliseu de carnificina autorizada, que mesmo os casais que não podem um com o outro têm prazer em frequentar, é o automóvel. Aí representamos, através da comodidade dos mapas e das estradas mesmo ali aos nossos pés, as nossas brigas primais acerca das nossas autonomias, direcções e autoridades para tomar decisões que nos afectam aos dois, blá blá blá.
Vendo bem, os casamentos felizes são muito mais dramáticos, violentos, divertidos e surpreendentes do que os infelizes. Nos casamentos infelizes é que pode haver, mantidas inteligentemente as distâncias, paz e sossego no lar.

Miguel Esteves Cardoso

quinta-feira, agosto 04, 2011

She asked you





A girl asked you: What is poetry?
You wanted to say to her: You are too, ah yes, you are
and that in fear and wonder,
which prove the miracle,
I'm jealous of your beauty's ripeness,
and because I can't kiss you nor sleep with you,
and because I have nothing and whoever has nothing to give
must sing...

But you didn't say it, you were silent
and she didn´t hear the song.

Vladimir Holan
Só a merda é fácil.

Vladimir Holan

A teoria budista da vacuidade

Nada existe per se, tudo existe na dependência de outra coisa, e assim sucessivamente. Porém, quando os fenómenos aparecem ao espírito, eles surgem como realidades últimas, com uma existência intrínseca. Quando dizes um país, isso parece-te uma realidade una, compacta. Mas o que é um país? Um conjunto de outras infinitas realidades, uma abstracção conceptual de inúmeros espaços físicos e pessoas em constante mutação. Mesmo algo mais simples como um cacho de uvas é algo dependente de cada um dos seus bagos de uva, que, por sua vez, deve a sua existência a realidades infinitamente mais pequenas, até chegarmos aos átomos, e, depois dos átomos, a todo um universo subatómico. As pessoas tendem a ver o infinito através das realidades sucessivamente maiores, mas têm mais dificuldade em vê-lo nas realidades infinitamente mais pequenas. A vacuidade significa que os fenómenos têm uma existência vazia; que não existem fenómenos autónomos e intrínsecos, como ilusoriamente a mente os percepciona. Todos os fenómenos são dependentes dos seus constituintes, não tendo uma existência para lá da circunstancial reunião dos mesmos.
Outra maneira de veres a vacuidade inerente a todas as coisas é através das qualidades valorativas que atribuímos às coisas, ignorando que elas dependem unicamente do observador. Aquilo que tu vês numa determinada coisa não é o mesmo que o observador de outro país vê nessa coisa, e também não é o mesmo que o observador de outras épocas via. Além da subjectividade do lugar e da época, o próprio observador pode, em função de diferentes estados de espírito ou da repetição do seu contacto com o objecto, atribuir-lhes diferentes qualidades. O mesmo copo de água aparece-te de formas totalmente diferentes, dependendo da tua sede… Então, as qualidades não são partes integrantes das coisas, não são seus constituintes; são apenas projecções do sujeito.
Mas o maior logro de todos é o ego. A ideia que tens de ti – o teu eu – não passa de uma ilusão... Tu és apenas uma consciência que pensa e sente e que se vai transformando com cada experiência – não há nada imutável e sólido a que te possas agarrar como eu. No meio dos biliões de ideias, conceitos e sensações no oceano da consciência, nasceu essa ideia do eu como algo exógeno à mente e ao corpo – como o possuidor da mente. Mas nada possui a mente. Se sondassem na tua mente ou no teu corpo nunca encontrariam esse eu.