domingo, julho 31, 2011

Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade.
A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.

Depois, além dum plebeísmo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz.

E é por isso que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos.

Pessoa Ortónimo
- Estou entrincheirada no lado mais solar da minha alma desde que o conheci.
Kant não saiu da sua cidade. As irmãs Brönte mal saíram da clausura, quer da casa, quer da timidez. Kafka via os outros como estranhos, não convivendo e vivendo ensimesmado.

Se é verdade que é preciso viver para escrever, também é verdade que a densidade, a acutilância do globo ocular da alma é muito mais profunda em certos espíritos.
Há os que lutam por amar aquilo que têm e os que lutam por terem aquilo que amam.

George Bernard Shaw
Homo sum, nihil humanum a me alienum puto..


Sou Homem, nada do que é humano o considero estranho a mim.

Terêncio


Na sua Sociologia do Saber, Max Scheler mostra como na base do esforço pelo conhecimento está um tríplice interesse e três impulsos: o interesse e impulso em ordem à salvação, que se expressa no saber teológico; o impulso metafísico, que se concretiza na filosofia enquanto dirigida para o conhecimento da essência das coisas; o impulso de domínio, que põe em marcha o saber científico-técnico, sobretudo a partir da modernidade e, mais concretamente, do positivismo.

Anselmo Borges
Não estou contido entre o meu chapéu e as minhas botas.

Walt Whitman
A discussão prolongava-se e chegara àquele ponto da irredutibilidade individual. Eu não saio daqui, tu não sais daí, ele não saí dacoli. Por orgulho, por crença, por posição estética - o que fosse.

O geronte disse:

- Estimemo-nos... Todos temos características únicas e não concordamos com coisas nos outros, as é assim em todos as relações. O essencial: somos pessoas que gostamos umas das outras. É por isso que estamos aqui. Não vale a pena escalpelizar mais o cadáver porque já tirámos pele, ossos, sangue, já não resta nada do cadáver...
Algumas vivências afectivas ficam dentro de nós - we´ll always have Paris - sem sofreguidão da repetição, mas visitando-nos em silêncios e olhares pendurados em nenhures.

Outras pedem a repetição ad eternum.
Por vezes, a bondade alheia é apenas necessidade de agradar e ser gostado.

sábado, julho 30, 2011

what's too far said he
where you are said she


e. e. cummings

sexta-feira, julho 29, 2011

Não é por acaso que não consegues, por mais que tentes,
atingir em cheio o dia - qualquer que ele seja -
como se faz às baleias com um arpão.
Os dias têm um invólucro espesso

Gonçalo M. Tavares
De tão interessante que era só lhe restava uma estratégia de sobrevivência - viver eremitamente se não queria pisoteado de atenção.
O romance nunca irá desaparecer porque é o único lugar do mundo em que dois estranhos se encontram num espaço de absoluta intimidade.

Paul Auster
O sexo tornou-se, em grande medida, uma transacção de prazer ou interesse.

Vasco Pulido Valente

quinta-feira, julho 28, 2011

Che Guevara dizia que o ódio tinha de ser o combustível do revolucionário.
Mas agora sei de algo horrível: sei o que é precisar, precisar, precisar. E é um precisar novo, num plano que só posso chamar de neutro e terrível. É um precisar sem piedade nenhuma pelo meu precisar e sem piedade pelo precisar da barata. Estava sentada, quieta, suando, exactamente como agora - e vejo que há alguma coisa mais séria e mais fatal e mais núcleo do que tudo o que eu costumava chamar por nomes. Eu, que chamava de amor à minha esperança de amor.

Clarice Lispector
- Ela prefere que sejas violento, brusco, agressivo a neutro.
Marriage is the end of love.

G. Casanova
E a todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem ser-lhe-á perdoada, mas ao que blasfemar contra o Espírito Santo não lhe será perdoado.

Jesus Cristo
Precisamos só de um mandamento para o século: não odeies. É simples. É para todos. É difícil. Não odeies.
Não me atreveria a propor amar o próximo, amar o teu irmão de outra religião - seria provavelmente multicultural de mais [demais] relativista de mais [demais], efeminado de mais [demais], politicamente correcto de mais [demais] - e essas são as grandes vergonhas da nossa época, segundo parece.
Então fica assim - como mínimo denominador comum, ao menos, poderemos acertar nisso? - não odeies. Não odeies o outro. Não odeies o seu erro se queres amar a tua verdade. Não odeies a sua verdade se queres amar o teu erro. É simples. Não odeies nada. Eu disse que era difícil.
Não odeies sequer o ódio. O ódio quer ser odiado. O ódio deseja fervorosamente mais ódio. Tu, em resposta, não odeies - diz aos outros para não odiarem também - e pode ser que este século corre bem.

Rui Tavares
As «grandes causas» são um espantoso conforto para não se olhar para dentro e para se fugir de si próprio. Isto não é fácil de dizer, mas é inteiramente assim. Ou seja, a dedicação completa a uma causa é muitas vezes a contraparte de uma enorme dificuldade em conseguir viver os detalhes.

Miguel Portas
Camus conta a história do escritor que de tão perfeccionista nunca chegava a ultrapassar o primeiro parágrafo.
Só entrava no círculo de Gurdjieff quem não desperdiçava energias. Certo indivíduo sentando-se, mexia freneticamente o pé.

- Para quê esse movimento? É um desperdício de energias. Um ser humano focado não desperdiça energias. E assim vive mais livre.

Humanidade

Nunca mais olhei para ele da mesma maneira desde que o vi rir com uns apanhados da Rússia em que um homem dá um tiro a outro que sai do caixote do lixo, matando-o.
Talvez que o antónimo de futilidade seja espiritualidade. Quantas almas rasas.
A tecnologia está a desumanizar-nos e a acabar com o valor da privacidade. Pior: da intimidade.

Será

Será que ainda me resta tempo contigo,
ou já te levam balas de um qualquer inimigo.
Será que soube dar-te tudo o que querias,
ou deixei-me morrer lento, no lento morrer dos dias.
Será que fiz tudo que podia fazer,
ou fui mais um cobarde, não quis ver sofrer.
Será que lá longe ainda o céu é azul,
ou já o negro cinzento confunde Norte com Sul.
Será que a tua pele ainda é macia,
ou é a mão que me treme, sem ardor nem magia.
será que ainda te posso valer,
ou já a noite descobre a dor que encobre o prazer.
Será que é de febre este fogo,
este grito cruel que da lebre faz lobo.
Será que amanhã ainda existe para ti,
ou ao ver-te nos olhos te beijei e morri.
Será que lá fora os carros passam ainda,
ou as estrelas caíram e qualquer sorte é bem-vinda.
Será que a cidade ainda está como dantes
ou cantam fantasmas e bailam gigantes.
Será que o sol se põe do lado do mar,
ou a luz que me agarra é sombra de luar.
Será que as casas cantam e as pedras do chão,
ou calou-se a montanha, rendeu-se o vulcão.

Será que sabes que hoje é domingo,
ou os dias não passam, são anjos caindo.
Será que me consegues ouvir
ou é tempo que pedes quando tentas sorrir.
Será que sabes que te trago na voz,
que o teu mundo é o meu mundo e foi feito por nós.
Será que te lembras da cor do olhar
quando juntos a noite não quer acabar.
Será que sentes esta mão que te agarra
que te prende com a força do mar contra a barra.
Será que consegues ouvir-me dizer
que te amo tanto quanto noutro dia qualquer.

Eu sei que tu estarás sempre por mim
Não há noite sem dia, nem dia sem fim.
Eu sei que me queres, e me amas também
me desejas agora como nunca ninguém.
Não partas então, não me deixes sozinho
Vou beijar o teu chão e chorar o caminho.
Será,
Será,
Será!


P. A.

Por quem não esqueci

Há uma voz de sempre
Que chama por mim

Há uma voz de sempre
Que chama por mim
Para que eu lembre
Que a noite tem fim

Ainda procuro,
Por quem ñ esqueci
Em nome de um sonho,
Em nome de ti

Refrão
Procuro à noite, um sinal de ti
Espero à noite, por quem não esqueci
Eu peço à noite, um sinal de ti
Por quem eu não esqueci

Por sinais perdidos
Espero envão
Por tempos antigos, por uma canção
Ainda procuro, por quem não esqueci
Por quem já não volta, por quem eu perdi

quarta-feira, julho 27, 2011

- Leio muito ainda a literatura do século XIX e isso permite-me nunca usar palavras como «focalizar», «implementar», «detalhes», «envelope», «elencar», «listagem».
- Angel, há certo tipo de coisas que só se podem experimentar com um homem. Acredita em mim que já vivi isso. É outra coisa. São coisas que uma mulher nunca te dará. É um outro tipo de entendimento. Um conjunto de outras sensações. E não as conheces se não as viveres.
Miguel Portas diz, na sua mais recente entrevista, que passou do catolicismo para o comunismo, sem mudança de paradigma mental. «O comunismo é uma religião laica.» Apenas substituiu, explica, a fé em Deus pela fé nos homens (o optimismo antropológico nas antípodas de Hobbes). Mas o mecanismo mental da crença como suporte mantinha-se. A vida como um um caminho recto, um pensamento recto para determinado fim, afastando tudo o resto. O sistema de pensamento como uma unidade holística, redutora, depurada de caos. A que aspirou Cunhal senão à santidade?

Não é só a faixa etária do Vaticano é que é coincidente com a do Comité Central. É a mudança milimétrica ao longo dos anos. São os dogmas-chão que não se abandonam.

Bertrand Russell escreveu que o esqueleto do cristianismo e do comunismo era uno. O Inferno era o Capitalismo; o Paraíso, o Comunismo; o proletariado, o Povo Eleito; Marx, Jesus; o Diabo, a Burguesia; a Bíblia, O Capital. E os pecados seriam os desvios revisionistas.

E nem vale a pena desenvolver que Cristou foi crucificado pelos romanos que só tinham a crucificação atribuída a criminosos políticos. Por ser reaccionário?

E ainda menos valerá o esforço escalpelizar analogamente o afastamento entre a Inquisição e a doutrina cristã primeva e o afastamento entre Estaline e Marx.

Ele queria ser o homem mais rico do mundo e foi-o. Ele queria ser o homem mais poderoso do mundo e foi-o. Ele queria ser o homem com mais amigos do mundo e foi-o. Ele queria ser o homem com mais mulheres do mundo. E foi-o. Ele queria ser o homem com mais homens do mundo. E foi-o. And then?

Tolstoi disse que toda sua vida foi uma luta para superar Shakespeare. Muitas obras após o desiderato, escreveria, pronto, agora, sei que excedi Shakespeare. «And then?»


If you could blow up the world
With the flick of a switch
Would you do it?

If you could make everybody poor
Just so you could be rich
Would you do it?

If you could watch everybody work
While you just lay on your back
Would you do it?

If you could take all the love
Without giving any back
Would you do it?



With all your power
With all your power
With all your power
What would you do?



Flaming Lips

terça-feira, julho 26, 2011


Para que o corpo desça ao lugar de um solo absoluto
que a corola de peso se abra numa espessa e leve larva
toda a esfera interior
se torne fruto branco de si mesma num corpo novo
A árvore do ócio respirará o firmamento côncavo
e as águas do fundo ascendem à cúpula cerebral
Que a oleosa serpente do desejo
se desenrole no ventre e desate o arco tenso da boca
Todo o corpo vibre num reconhecimento sumptuoso
no letargo de uma nascente ascencional
Não se sabe se é possível atingir o ponto supremo da tranquilidade
e entrar na esfera superior onde a felicidade é um puro suspiro
mas pressentiremos a nudez final primeira
do plexo da unidade do desejo e do fruto amad
o


António Ramos Rosa
- Angel, tu queres o mundo todo.
Nas relações amorosas o único sentimento que não funciona é o da piedade. Quando é o caso de que se devesse manifestar, o que surge não é a piedade mas o asco ou a irritação. Eis porque em relação alguma se é tão cruel. Todos os sentimentos têm o seu contraponto. Excluída a piedade, a crueldade não o tem. Por experiência se pode saber quanto se sofre quando não se é amado. Mas isso de nada vale quando se não ama quem nos ama: é-se de pedra e implacável. Decerto, tudo se pode pedir e obter. Excepto que nos amem, porque nenhum sentir depende da nossa vontade. Mas só no amor se é intolerante e cruel. Porque mostrar amor a quem nos não ama rebaixa-nos a um nível de degradação. E a degradação só nos dá lástima e repulsa. A única possibilidade de se ser amado por quem nos não ama é parecer que se não ama. Então não se desce e assim o outro não sobe. E então, porque não sobe, ele tem menos apreço por si, ou seja, mais apreço pelo amante. O jogo do amor é um jogo de forças. Quanto mais se ama mais fraco se é. E em todas as situações a compaixão tem um limite. Abaixo de um certo grau a compaixão acaba e a repugnância começa. Assim, quanto mais se ama mais se baixa na escala para quem ao amor não corresponde.

Vergílio Ferreira

segunda-feira, julho 25, 2011

I have always loved truth so passionately that I have often resorted to lying as a way of introducing it into the minds which were ignorant of its charms.

Real love is the love that sometimes arises after sensual pleasure: if it does, it is immortal; the other kind inevitably goes stale, for it lies in mere fantasy.

Giacomo Casanova

Sempre desconsiderei as pessoas que não têm boa memória.
Só se rodeia de gente que assimila acriticamente o que diz. Gente abnóxia, submissa, devota. Cria assim espelhos que lhe permitem criar um eu ilusório - forte, dominante, seguríssimo.
Jogar com a culpa é uma das armas preferenciais dos manipuladores ante as boas pessoas.
A pior parte quando uma atracção, um flirt, um enamoramento acaba nem é tanto o sentir que se perdeu essa pessoa. A pior parte é o fim do chegar-a-casa-e-ver-se-há-um-mail, o-arrepiozinho-da-mensagem-que-toca, o-sorriso-insubstituível-de-ver-o-nome-a-tilintar, o-sequestro-dos-sentidos-quando-estamos-na-sua-presença, o-passar-dos-dias-na-esperança-de-um-só-dia, o-girassol-na-borda-do-trabalho-dos-afazeres-e-das-notícias-do-mundo.
O esfaimado-omnívoro vê um sorriso como um convite para a cama.

O esfaimado-omnívoro rapidamente colocará num pedestal qualquer mulher com quem tenha algo (digamos, cinco minutos de conversa).

O esfaimado-omnívoro é clumsy ou então procura agir como macho-alfa.

O esfaimado-omnívoro não conhece o significado de «subtil».

O esfaimado-omnívoro não precisa de mais atributos quando existe este: «é uma gaja».

O esfaimado-omnívoro conhece uma amiga do amigo (ele não tem amigas), chega a casa, procura o nome dela no Facebook e envia-lhe mensagens com fedor a punheteiro-putanheiro.


Conheço pessoas que só contam histórias em que no final são heróis. (As suas histórias são terrivelmente maçadoras.)

domingo, julho 24, 2011

Talvez que a paixão possa ser medida pela incapacidade de percepção exógena do ridículo.
Os incondicionais nas relações deveriam suscitar sorrisos a quem conhece a amplitude do tempo.

«Nunca mais entras nesta porta se fores sair», ela disse.

«Acabou mesmo», ele disse pela octogésima quarta vez.

I will always love you.

Etc.

Etc.

Etc.

:).
Quando leio e ouço pessoas preocupadas em saber se a bomba era de esquerda ou de direita, lembro-me sempre de William Reich no Escuta, Zé Ninguém! cunhando os«fascismos negros» e os «fascismos vermelhos», e de Koestler que escreveu um excerto apenso ao Darkness at Noon, em que um indivíduo, torturado, obnubilado e prestes a ser destruído que na farda do executante vê uma mistura entre foices, martelos e suásticas.
Aqui fica de uma vez para sempre, resumido o princípio: Ama e faz o que quiseres.

Santo Agostinho
- Tenho um coração muito pegajoso.

sábado, julho 23, 2011

Pelas cordilheiras vais
Com a perseverança do teu ser
Na escrita que tens pela frente
Os teus pés sabem estes caminhos
E avançam com toda a paixão
Na escuta sentes toda a natureza
Criando a música que fazes tua
A procura é sempre companheira
E cada viagem é quereres mais
Apressa-te
Que tudo está à tua espera

Sofia Leal

sexta-feira, julho 22, 2011

Mistério 2

A mais bela experiência que podemos ter é a do mistério.

Albert Einstein

Mistério


Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?

Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.

Álvaro de Campos
O acaso é o pseudónimo de Deus quando ele não quer assinar.

A. L. A.
- Já li demasiados livros para ter sexo pelo sexo.

quinta-feira, julho 21, 2011

- Sempre do lado certo da luta.

quarta-feira, julho 20, 2011

A influência de uma pessoa na vida de alguém mede-se não pela rasura das pessoas do nosso passado, mas pela rasura das pessoas no nosso futuro.
Errar é delicioso.
- Dás atenção suficiente para gerar curiosidade, mas nunca o mínimo para se saber com segurança.
To me, every hour of the light and dark is a miracle,
Every inch of space is a miracle,
Every square yard of the surface of the earth is spread with the same,
Every cubic foot of the interior swarms with the same;
Every spear of grass—the frames, limbs, organs, of men and women, and all
that concerns them,
All these to me are unspeakably perfect miracles.
To me the sea is a continual miracle;
The fishes that swim—the rocks—the motion of the waves—the ships, with
men in them,
What stranger miracles are there?

Walt Whitman

domingo, julho 17, 2011

Talvez a única frase que deixa o jogador sem palavras:

- É sim ou sopas?
Os gregos distinguiam a sabedoria em duas. Sophia (a mais conhecida até hoje), mas também Phronesis. A segunda era a capacidade e agilidade de ser actuante. Há tantos seres pensantes sem Phronesis. Que só tentam compreender - que não passam da potência ao acto. Que tem qualquer coisa dentro de si que não internaliza os conhecimentos. Como se eles fossem uma categoria autónoma da vida.

But I had a strong sudden instinct that I must be alone. I didn’t want to see any people at all. I had seen so many people all my life - I was an average mixer, but more than average in a tendency to identify myself, my ideas, my destiny, with those of all classes that came in contact with. I was always saving or being saved - in a single morning I would go through the emotions ascribable to Wellington at Waterloo. I lived in a world of inscrutable hostiles and inalienable friends and supporters.

But now I wanted to be absolutely alone and so arranged a certain insulation from ordinary cares.

It was not an unhappy time. I went away and there were fewer people. I found I was good-and-tired. I could lie around and was glad to, sleeping or dozing sometimes twenty hours a day and in the intervals trying resolutely not to think -instead I made lists - made lists and tore them up, hundreds of lists: of cavalry leaders and football players and cities, and popular tunes and pitchers, and happy times, and hobbies and houses lived in and how many suits since I left the army and how many pairs of shoes (I didn’t count the suit I bought in Sorrento that shrank, nor the pumps and dress shirt and collar that I carried around for years and never wore, because the pumps got damp and grainy and the shirt and collar got yellow and starch-rotted). And lists of women I’d liked, and of the times I had let myself be snubbed by people who had not been my betters in character or ability.


F. Scott Fitzgerald

99,9% do que é escrito já foi escrito.

sábado, julho 16, 2011


LA ÚLTIMA INOCENCIA

Partir
en cuerpo y alma
partir.

Partir
deshacerse de las miradas
piedras opresoras
que duermen en la garganta.

He de partir
no más inercia bajo el sol
no más sangre anonadada
no más fila para morir.

He de partir

Pero arremete ¡viajera!

Alejandra Pizarnik
Mas tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner
A bondade, sem a coragem, vive muito mais escondida.

sexta-feira, julho 15, 2011


AS RAPARIGAS LÁ DE CASA

Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa.

idem
PARA JOANA

Filha,

na areia movediça das palavras, eu tenho procurado, juro,
as que nasçam só nossas,
certas, insubstituíveis, insubmissas.
Com ternura lhes toco e as levo ao coração,
frias ou gastas quase sempre, de outros usos.
Como se fossem algas,
escorrem por entre os dedos que as seguram.
Outras, agarro-as bem, tinjo-as de sangue. São
as que me comovem.
Com elas choro e sigo a sua frustração de claunes que tornaram
[ainda mais triste cada infância.

Mas, persigo-as, sim, quero-as ainda, as palavras
trabalho-as
com a aplicação do alquimista.
E do athanor saem só pequenos peixes de ouro
que nada têm a ver com o mar que separa o velho galeão
que de gusanos
me construo
e o teu corpo de mulher que é preciso aceitar urgentemente.
Ou aceitar de outro modo:
como súbito se abrisse a porta da casa e lá fora estivesse caindo
[uma chuva quente que a todos nos molhasse de uma estranha doçura.

Ah, minha filha, com que rigor procuro
o sinal de sermos o que somos
neste rio sem margens
ou talvez nesta praia em cuja espuma quente
é possível molhar ritualmente os pés e as mãos e partir a correr
nus
em direcções opostas
sem nada sugerir
a morte nem a vida
apesar de ambas estarem sempre para chegar.

Ah, o que tenho procurado, juro.
E que inútil junto às frondosas árvores dos símbolos
mais doces mais íntimos mais ternos cruéis acusadores.
Também a esses os levo à altura do peito e os encontro escassos de forma.
Na bigorna não aguentam a violência apaixonada do ferreiro.

E, de novo, procuro entre nomes de flores cidades ou estrelas
e nem sequer nos empedrados rostos das catedrais que eu vi
encontrei nada que pudesse trazer para aqui
outras coisas que pudesse ir amontoando com o tempo
para ir compondo o poema, minha filha, que há dezasseis anos ando para te escrever
mas que não fui capaz
porque escusado é dizer que é dentro de mim que habita uma enorme rosa de fogo
que não se vê do lado das palavras ou das pedras.


Emanuel Félix, A Viagem Possível (1981)

Nombrarte

No el poema de tu ausencia,
sólo un dibujo, una grieta en un muro,
algo en el viento, un sabor amargo.

A. Pizarnik

quinta-feira, julho 14, 2011

Uma mulher a interpretar outra mulher é (quase) sempre mais sagaz do que o mais sagaz dos homens.
http://www.thedailybeast.com/articles/2011/06/29/the-land-at-the-end-of-the-world-by-antonio-lobo-antunes-reviewed.html

quarta-feira, julho 13, 2011

Em determinados momentos, qualquer coisa em mim - um ritmo, um marulhar de sílabas, imagens - me leva a procurar o papel. De que parte de mim isto vem não sei, é uma necessidade do espírito que subitamente procura tomar expressão. Disse do espírito, mas às vezes quase me parece física, essa necessidade de lutar com as palavras, mordê-las, acariciá-las, torná-las cintilantes, como nácar ou neve, sentir-lhes o rumor espesso de sangue ou levíssimo de estrela.

Eugénio de Andrade
É inútil tocar lira diante de um jumento.

S. Jerónimo
Um só verso pode exigir horas e horas de trabalho, mas se não parecer dom de um só instante todo o nosso tecer e destecer são inúteis.

Yeats
Se só amardes os que vos amam, que graça alcançais?

Jesus Cristo
Não sei se sou boa pessoa. Não sei se sou má pessoa. Sei que me circundo de pessoas que me fazem extravasar bons sentimentos. E que isso faz de mim uma pessoa melhor.

segunda-feira, julho 11, 2011

- O que sentes por ela?
- Uma delícia dos nervos.
Ela faz coisas com as palavras...

Qualquer coisa tão... que só pode chamuscar-nos na sua coruscância.
A única salvação do que é diferente é ser diferente até ao fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade.

Agostinho da Silva
- Sinto-me cada vez mais preso a ti, sabias?
e, ainda a meio da frase, já a achava pateta [...]
A mulher disse
- Eu também me sinto cada vez mais presa a ti mas o que é que podemos fazer?
imensa coisa a separá-los, crianças, família, gostos sem relação com os do outro, talvez, porque não acabar com isto agora, porque não cessar de nos vermos, telefonemas às escondidas, culpabilidade, remorso, três filhos, que complicado e a seguir? A mulher disse
- Detesto a ideia de nos separarmos
e a cara esquisita como quando se aferrolham as feições para proibir uma lágrima

António Lobo Antunes

And the only sadness is living without you... You and I have been happy; we haven´t been happy just once, we´ve been happy a thousand times... Forget the past - what you can of it, and turn about and back home to me, to you haven for ever and ever - even though it may seem a dark cave at times and lit with torches of fury; it is the best refuge for you - turn gently in the waters through which you move and sail back.

Scott Fitzgerald, carta a Zelda.
- Angel, eu acho que tens um lado golfinho e um lado pantera.

domingo, julho 10, 2011

Alguns livros, como algumas pessoas, aparecem-nos como monumentos intactos de deslumbramento em idade juvenil, e, quando revisitados em idade adulta, perdem a solidez. Alguns livros, como algumas pessoas, só ao fim de três ou quartos leituras, muito espaçadas e maturadas no tempo, nos permitem afastar o nevoeiro (o nosso), abrindo fendas por onde a visão entrevê o paraíso onde os sentidos e o entendimento procurarão repousar.
Alguns livros, como algumas pessoas, sugam-nos a atenção incondicionalmente, mas, quando encerrados, não deixam rasto.
Alguns livros, como algumas pessoas, quanto mais os lemos, mais infinitos os descobrimos - poços inexauríveis de sumo.
Alguns livros, como algumas pessoas, fazem-nos definir assim o amor: o presente eternizado.

quinta-feira, julho 07, 2011

Os astros dizem que sim.
Há dias em que te sentes o dono do mundo.

quarta-feira, julho 06, 2011

Desconfia profundamente do homem que não tem inimigos.
nanoua (Gilbertese, Oceania) a heart divided between two loves

terça-feira, julho 05, 2011

- Já não a via há tanto tanto tempo, Angel. Numa altura - ele disse, emocionado - numa altura... - titubeou -, em que trocávamos afectos mínimos na clandestinidade e eu referia-me à... como «pipi».

- Isso é: CUSQUICE! - praguejei.
Arregalou as pupilas e sorriu: - E não é tão BOM? Cusquice, tão booooommmmm... Vamos a isso.
(Fiquei desarmado.)
- Quando era mais novo, tinha um certo desencanto por as raparigas gostarem dos bad boys. Nunca pensei que década e meia mais tarde, ficasse com desencanto por as ver assentar sempre com totós. É curioso - quando se trata da escolha do pais dos filhos, de uma relação a longo prazo, da suposta última escolha, elas preferem a segurança, o comodismo, aqueles na antítese do secundário - os turbulentos, os mulherengos, os aventureiros. Estabilizam com os que garantem serem bons pais, com os que não despertam ciúmes doentios, com os que têm meios. É uma generalização crassa, mas há uma evidência - com a idade, com a aproximação do relógio materno em contagem decrescente, os totós vêem o seu preço muito inflacionado. Claro que totós e aventureiros são arquétipos com muitos matizes de cinzento in between, mas só quem não observa o mundo e as «novas relações» pós-modernas é que não percebe por que motivo há tantos casalinhos infelizes - porque ficaram com o «melhor amigo», com «a escolha mais sensata», com a opção racional pelas afinidades e garantias. E depois vêm os amantes, a sede de algo mais tempestuoso - ou então não vêm, recalcando, recalcando e não pensando. Até que um belo dia...

segunda-feira, julho 04, 2011

«You are right, in one sense, when you speak of honesty. An effort, anyway, with the usual human or feminine retractions. To retreat is not feminine, male, or trickery. It is a terror before utter destruction. What we analyze inexorably, will it die? Will June die? Will our love die, suddenly, instantaneously if you should make a caricature of it? Henry, there is danger in too much knowledge. You have a passion for absolute knowledge. That is why people will hate you.

And sometimes I believe your relentless analysis of June leaves something out, which is your feeling for her beyond knowledge, or in spite of knowledge. I often see how you sob over what you destroy, how you want to stop and just worship; and you do stop, and then a moment later you are at it again with a knife, like a surgeon.


What will you do after you have revealed all there is to know about June? Truth. What ferocity in your quest of it. You destroy and you suffer. In some strange way I am not with you, I am against you. We are destined to hold two truths. I love you and I fight you. And you, the same. We will be stronger for it, each of us, stronger with our love and our hate. When you caricature and nail down and tear apart, I hate you. I want to answer you, not with weak or stupid poetry but with a wonder as strong as your reality. I want to fight your surgical knife with all the occult and magical forces of the world.


I want to both combat you and submit to you, because as a woman I adore your courage, I adore the pain in engenders, I adore the struggle you carry in yourself, which I alone fully realize, I adore your terrifying sincerity. I adore your strength. You are right. The world is to be caricatured, but I know, too, how much you can love what you caricature. How much passion there is in you! It is that I feel in you. I do not feel the savant, the revealer, the observer. When I am with you, it is the blood I sense.


This time you are not going to awake from the ecstasies of our encounters to reveal only the ridiculous moments. No. You won’t do it this time, because while we live together, while you examine my indelible rouge effacing the design of my mouth, spreading like a blood after an operation (you kissed my mouth and it was gone, the design of it was lost as in a watercolor, the colors ran); while you do that, I seize upon the wonder that is brushing by (the wonder, oh, the wonder of my lying under you), and I bring it to you, I breathe it around you. Take it. I feel prodigal with my feelings when you love me, feelings so unblunted, so new, Henry, not lost in resemblance to other moments, so much ours, yours, mine, you and I together, not any man or any woman together.


What is more touchingly real than your room. The iron bed, the hard pillow, the single glass. And all sparkling like a Fourth of July illumination because of my joy, the soft billowing joy of the womb you inflamed. The room is full of the incandescence you poured into me. The room will explode when I sit at the side of your bed and you talk to me. I don’t hear your words: your voice reverberated against my body like another kind of caress, another kind of penetration. I have no power over your voice. It comes straight from you to me. I could stuff my ears ad it would find its way into my blood and make it rise.


I am impervious to the flat visual attack of things. I see your khaki shirt hung up on a peg. It is your shirt and I could see you in it — you, wearing a color I detest. But I see you, not the khaki shirt. Something stirs in me as I look at it, and it is certainly the human you. It is a vision of the human you revealing an amazing delicacy to me. It is your khaki shirt and you are the man who is the axis of my world now. I revolve around the richness of your being.


"Come closer to me, come closer. I promise you it will be beautiful."


You keep your promise.

Listen, I do not believe that I alone feel that we are living something new because it is new to me. I do not see in your writing any of the feelings you have shown me or any of the phrases you have used. When I read your writing, I wondered, What episode are we going to repeat?


You carry your vision, and I mine, and they have mingled. If at moments I see the world as you see it (because they are Henry’s whores I love them), you will sometimes see it as I do.»




Anais Nin, carta para Henry Miller
Sei que sou imortal,
Sei que esta minha órbita não pode ser traçada pelo compasso de um carpinteiro,
Sei que não vou desaparecer como a figura de fogo que uma criança traça à noite com um archote.

[...]

Se mais ninguém no mundo o sabe, fico satisfeito.
E se cada um e todos o sabem, fico satisfeito.

Há um mundo que o sabe e é de longe o maior para mim, porque sou eu mesmo,
E se alcançar o que é meu no dia de hoje ou daqui a dez mil ou dez milhões de anos,
Posso com alegria aceitá-lo agora, ou com igual alegria posso esperar.

[...]

Rio-me daquilo a que chamas dissolução,
E conheço a amplitude do tempo.

[...]

Estreita-me no teu seio nu, noite - estreita-te bem, noite magnética e nutritiva!
Noite dos ventos do Sul - noite das grandes e raras estrelas!
Silenciosa noite que me acenas - louca e nua noite de Verão.

[...]

O odor destes sovacos é um aroma mais delicado do que uma oração,
Esta cabeça é mais do que igrejas, bíblias e todos os credos.

[...]

Amo-me loucamente, tudo isto está em mim e como tudo é voluptuoso,
Cada momento e o que quer que aconteça faz-me vibrar de alegria,
Não posso dizer como se curvam os meus tornozelos, nem a origem do meu mais débil desejo,
Nem a causa da amizade que ofereço, nem a causa da amizade que recebo de volta.

Ao dirigir-me para o terraço de minha casa, paro para pensar se é mesmo real,
Uma trepadeira de campainhas na minha janela dá-me mais prazer do que a metafísica dos livros.

Contemplar o despontar do dia!
A débil luz que desvanece as imensas e diáfanas sombras,
O ar na boca sabe-me bem.

[...]

São horas de me explicar - vamos pôr-nos de pé.

Despojo-me do que é conhecido.
Lanço-me em frente com todos os homens e mulheres para o Desconhecido.

O relógio indica a eternidade - mas a eternidade o que indica?
Assim esgotámos até agora triliões de Invernos e Estios,
Há triliões à nossa frente, e à frente destes mais triliões.

[...]

Nem compreendo quem possa ser mais maravilhoso do que eu.

Walt Whitman
I've never met another man I'd rather be.


Many a good man has been put under the bridge by a woman.


People with no morals often considered themselves more free, but mostly they lacked the ability to feel or love.


If you want to know who your friends are, get yourself a jail sentence.

Charles Bukowski

domingo, julho 03, 2011

- Eu basta-me estar na presença dela para beber o que é necessário. O orgasmo psíquico é o melhor. Não é preciso mexer as ancas e suar... Dá-se e recebe-se tanta coisa sem isso... e é muito mais intenso.
Charles Bukowski, no seu livro Notes of a Dirty Old Man, diz que gostaria de urinar na tumba de Casanova porque este teve muitas mulheres [cento e vinte e duas] e que isso é mau porque as mulheres só gostam dos idiotas.


Sucede que Casanova era tudo menos um idiota (basta lê-lo). Sucede que as generalizações são generalizações. Sucede que Casanova não era um animal sexual - apenas alguém com um coração muito maior do que o normal. Sucede que o que atraía Casanova não era a variedade de corpos - mas de mentes. Sucede que Casanova só conhecia hebraicamente depois de conquistar alma e sentidos. Sucede que Casanova nunca escreveria algo assim sobre as mulheres.

Acho que as palavras de Bukowski vieram inteirinhas dos canais da Inveja e do Ressaibiamento.


sexta-feira, julho 01, 2011

Quando conheci o namorado da minha amiga poetisa, algo me dizia que... não, não. Aquilo era mais um erro de casting na sua vida afectiva. Entrei na viatura dele e, passados uns minutos, perguntei:

- Pode-se fumar no teu carro?

- Desde que as janelas vaiam abertas!!

«Hum», pensei.

Ela escreve-lhe poemas com «archotes», com «planura», e ele só diz ou escreve: «Muita bem.»

Têm diferentes sintaxes do amor.

Ela vai terminar a relação, eu disse.

Ela já terminou a relação, eu soube.
Nunca fecho uma porta com o trinco.