quinta-feira, junho 02, 2011

Uma Sociedade Doente

Três miúdas de liceu discutem, não se percebe porquê, mas certamente coisas de uma importância extrema, a avaliar pelo que se segue: duas delas, uma magra e uma gorda, atiram-se à pancada à terceira, que tem apenas treze anos e acaba por cair no chão, onde as outras duas bestinhas a pontapeiam na cabeça, com um prazer e ódio dificilmente compreensíveis, mesmo em doentes mentais. Mas o pior da cena é o quarto elemento – um rapaz, um adulto de dezoito anos, que, graças aos impostos cobrados ao meu e vosso trabalho, ainda se arrasta pelas escolas e não faz nada. E de que se lembrou esse alarve? Em lugar de se revoltar com aquilo, como qualquer ser humano normal, filma a cena no seu indispensável telemóvel e excita as colegas, pedindo a outro que saia da frente para não perturbar a filmagem, pois que, conforme anuncia, radiante, “vai tudo para o meu Facebook!” E foi: eis o Facebook no seu esplendor.


Se eu mandasse, o anormal e as duas bestas iam direitinhos para trabalhos forçados a favor da comunidade: iam limpar as matas para evitar incêndios de Verão, servir refeições a velhinhos de centros de terceira idade, ajudar a limpar o chão dos hospitais, varrer ruas, qualquer coisa de útil e de pedagógico.


Sem telemóvel, sem computador, sem Faceboock, sem iPod e iPad, sem bairro Alto nem dias inteiros passados no café a fazer nada, sem exames da treta onde lhes perguntam (no 10º ano!) se sabem contar até oito (e, em caso negativo, é o sistema de ensino que é posto em causa). Mandava-os aprender o valor de cada coisa que lhes é dado gratuitamente, aprender a sofrer apenas um bocadinho para conseguirem o que querem e que têm de mão beijada, aprender a viver em sociedade – que não é o mesmo que falar ao telemóvel e frequentar o faceboock.


Enjoado, mudo de canal e de cena. Agora estou na RTP-1 e no Rossio, onde os “acampados” (imitando os de Madrid, mas reivindicando a paternidade da ideia graças aos precários), propõem não se percebe bem o quê, contra o sistema, a política, a sociedade e o mundo em geral.


Esforçadamente, o repórter ouve as reivindicações de quatro ou cinco jovens, que, em comum, têm um discurso muito “solto”, muito “alternativo”, e uma evidente e urgente necessidade de água e sabão azul-e-branco. Parece, todavia, que é muito importante escutá-los com atenção, pois consta que eles representam qualquer coisa de difuso, nebuloso ou peganhento, que vai alastrando às praças, às cidades e aos países como amanhãs que cantam. Já alguns políticos profissionais afirmam cautelarmente que é necessário escutá-los e compreendê-los […]. Pois que lástima de futuro, digo-vos eu! São “precários”?. Coitadinhos, mas quem é que não foi precário aos 20 anos? Imaginarão que todos tinham um futuro garantido e um contrato para a vida, saído da Faculdade ou de coisa alguma com vinte e tal anos de idade? E saberão eles o que é ser precário aos cinquenta anos de idade, depois de ter trabalhado vinte ou trinta anos e descontando impostos para pagar a faculdade ou o Bairro Alto aos meninos? Claro que sei que a vida está difícil para muitos deles – não todos, aqueles que realmente querem um emprego e não o encontram. Mas a vida está difícil para todos e muito mais para alguns dos pais deles que se mataram a trabalhar para que os filhos tivessem um futuro melhor.

O que está precário não são eles, é o mundo inteiro que conhecíamos, um sistema económico globalizado onde o capital financeiro roubou o trabalho, roubou o dinheiro dos impostos dos cidadãos e, friamente, destrói países, famílias, sociedade. O ponto é este: os meninos precários não são a excepção em tempo de cólera. São apenas uma parte do problema e das desilusões que todos vivem e não entendo porque [ERRO DO MIGUEL] razão hão-de de ser privilegiados nas suas queixas sobre os outros.


Mas o problema não está apenas na desregulação financeira, num capitalismo se ética e sem fim social. O problema está também na evolução natural de sociedades com expectativas e direitos sempre crescentes, até ao ponto da insustentabilidade. O bem-estar geral assentava na crença de uma economia onde cada vez eram maiores as exigências colectivas e cada vez eram menores as condições para a sua satisfação.

Tirem os meninos dos telemóveis, iPods e faceboocks; os doentes a cargo da saúde pública, sempre mais perfeita e mais cara; os desempregados e inactivos; os pensionistas que cada vez são mais vivendo mais, e resta quem, de produtivo? Resta um trabalhador no activo que, com o seu trabalho e os seus impostos sustenta outro alguém que, com ou sem responsabilidade própria, nada produz e apenas gasta. Tudo isto já se sabia há anos, mas como os políticos nunca tiveram coragem de dizer, os cidadãos convenceram-se (facilmente é verdade) de que, se as suas exigências e expectativas não eram satisfeitas, era unicamente porque os políticos não prestavam.

Miguel Sousa Tavares

1 comentário:

isabel disse...

Vou esquecer as paixões e os ódios de estimação de Sousa Tavares. O homem pensa mesmo bem,uma actividade que está a cair em desuso. É difícil não concordar com as suas afirmações.