quarta-feira, junho 01, 2011

A doença não significa a morte, agora, julgo que ninguém está preparado para morrer. Nem o Sócrates. Não estava, de facto. Quando ele diz "quero aprender lira antes de morrer", é óbvio que para tocar lira antes de morrer, quero aprender para tocar antes de morrer, ele estava a pensar - a gente vive em função da eternidade, nem que sejam eternidades de um mês, dois meses. Lembre-se da Maria Antonieta no carrasco - (no carrasco!...) [risos]No cadafalso [risos]... e a dizer ao carrasco: só mais um minuto senhor carrasco. E aquele minuto era eterno. Quando nós vivemos em função - quando temos vinte anos - de uma eternidade de cinquenta anos, que é uma coisa que não vai passar nunca. E depois a certa altura, vivemos em função de eternidades mais pequenas mas igualmente longas. O minuto que a Maria Antonieta pede ao carrasco é a mesma coisa que os cinquenta anos que um rapaz de vinte anos pensa que vai viver. Muitas vezes o problema não é a morte, o problema é a vida.

António Lobo Antunes

1 comentário:

isabel disse...

O problema é sempre a vida... "a morte é um muro sem portas", não se sabe se é o último problema ou se é a solução.