quarta-feira, junho 29, 2011

Por isso vos digo: Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, ou com o que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?
Olhai as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura? E com o que haveis de vestir, porque andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.

[...] Não vos inquieteis, pois, com o dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia a sua luta.

Jesus Cristo, Evangelho segundo São Mateus

The Only One

Oh I love what you do to my head
It’s a mess up there


Oh I love oh I love oh I love
What you do to my lips
When you suck me inside
And you blow me a kiss
Oh I love what you do to my lips
It’s so sweet in there
Oh I love oh I love oh I love
What you do to my hips


Oh I love what you do to my skin
It’s a blush on there
Oh I love oh I love oh I love
What you do to my bones
When you slide me off
And slip me home
Oh I love what you do to my bones
It’s the crush
Oh yeah!


And it gets hazier every way I sway
With you
It’s such a scream
Yeah it gets mazier every play I say
With you
It’s so extreme
Yeah it gets crazier every day I stay
With you it’s like a dream

Oh I love oh I love oh I love
What you do to me…
Depois de experimentar aquilo, o paladar rejeitará qualquer outra coisa.

Please Come Home

I look out the window watching the world go round.
I wonder where you are now. I wish you were here now.
Waiting at the window I watch the rain come down.
Wondering what to do now. Wishing you were here now.

I don´t understand why you couldn´t stay.
I don´t understand why you went away.
I don´t understand why you wouldn´t say.
I only know I need you now to...

Please, come back to me.
Please, come home.
Please, come back to me.
Don´t leave me here alone.
Knocked down here on my own

I watch out the window whispering hopeless words.
I won´t let you go now. I want you here now.
Watching out the window, whisper a helpless world.
Pulling me back now. Wanting you here now.

I don´t understand why you couldn´t stay.
I don´t understand why you went away.
I don´t understand why you wouldn?t say.
I only know I need you now to...

Please, come back to me.
Please, come home.
Please, come back to me.
Don´t leave me here alone.
Don´t leave me on my own.
Don´t leave me here alone.
Knocked down here on my own

Still I wait at the window watching the world go round.
I wonder where you are now.
Please, come home...


The Cure
- Não te acontece sonhares que folheias livros que não existem em bibliotecas dentro de grutas?
Criámos um deus só nosso. Exauridos de tanto receber, retirámo-nos para o mundo. Mas os olhares e os dedos e os lábios e os murmúrios continuam a vogar. Continuam, continuam, continuam. A fragrância ascendida ao éter continua a perturbar-nos deliciosamente os sonhos. Nunca sairemos um do outro. Não sabemos o que fazer com tanto.
Ser guloso com livros. Comprar, comprar, comprar. Descobrir livros ao arrumar prateleiras que nem se sonhava possuir.

terça-feira, junho 28, 2011

You pode ser tu ou vós.
Carisma é isso - suscitar ódios extremos, paixões extremas.

segunda-feira, junho 27, 2011

I chose an eternity of this
[...]
The world disappeared
Laughing into the fire
Is it always like this?

The Cure

domingo, junho 26, 2011

Will you marry me?

sábado, junho 25, 2011

Parabéns à Relógio D´Água pela edição deste livro magnífico

Lembro-me de estar num táxi entre prédios muito altos e sob um céu malva e rosa - e de ter largado a chorar porque tinha tudo o que queria e sabia que nunca mais tornaria a ser tão feliz.

......................................................................................................................................................................

A poesia é qualquer coisa que vive como o fogo dentro de ti - como a música para o músico, ou o marxismo para o marxista.

....................................................................................................................................................................

Interrompi por um dia o meu romance para ir ao dentista, consultar o médico e falar com o meu agente. Quando se deixa apanhar pelo mundo material, nem uma entre dez mil pessoas arranja tempo para formar um gosto literário, para pôr à prova a validade de certas ideias filosóficas.


.......................................................................................................................................................................


F. Scott Fitzgerald, The Crack-up e outros escritos

Tradução e Revisão longe de excelentes.

quinta-feira, junho 23, 2011

Rosseau tinha razão ao dizer que a tendência de um ser humano que visse outro atado numa árvore em agonia seria libertá-lo - e que isso era a bondade natural.

Mas certa espécie de pessoas quanto mais maltratada mais respeita o executante da crueldade, e quanto mais «sins» recebem, mais depreciam o bonzinho. Talvez sintam a generosidade, o lado bambi, como uma fraqueza, um amolecimento da personalidade, uma necessidade de reconhecimento, um vácuo de auto-suficiência.
- O não frágil nem forçado equilíbrio entre o teu universo curista e a minha visão romance-juvenil-televisivo resulta...

quarta-feira, junho 22, 2011

I have some books inside.
10.15
saturday night
and the tap drips
under the strip light
and i'm sitting
in the kitchen sink
and the tap drips
drip drip drip drip drip drip drip...

waiting
for the telephone to ring
and i'm wondering
where she's been
and i'm crying for yesterday
and the tap drips

R. S.
Duende, uma palavra castelhana para a sensação mirífica e durável em que mergulhamos na fruição de uma obra de arte.
Daisy hadn't sent a message or a flower.

F. Scott Fitzgerald
Um tipo meu conhecido cada vez que toma um café ou vê um jogo de futebol em casa tranquilo, atende sempre invariavelmente o telefone:

- Desculpa(e), não posso atender. Estou em reunião.

(Nunca sabemos realmente quanto trabalham os nossos amigos e, não raras vezes, o que realmente fazem nos seus ofícios.)

Um amigo meu gaba-se de dormir três, quatro horas por dia, mas quando passamos férias dorme dez.

Uma amiga minha que «só trabalha» deve ter uma secretária ao minuto para lhe tratar do facebook.


Será que no fim do dia a máscara não lhes pesa?

terça-feira, junho 21, 2011

O que tu não queres sei eu.
- Detesto famílias. Os piqueniques, o convívio com quem não se grama, os aniversários da prima, as conversas forçadas com o cunhado, as idas ao Continente; porra, não sei como me meti nisto.

segunda-feira, junho 20, 2011

E depois sou eu que sou fundamentalista

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/article638839.ece
No Novo Testamento, há uma frase que refere «a raiz de todos os males». Ao contrário do que se deduziria de ouvir os representantes da instituição Igreja Católica, esta raiz não é o sexo, mas o dinheiro.

Nos evangelhos, são múltiplas as referências à ganância - camelo, buraco da agulha, rico; «não podeis servir a dois senhores [Deus e o Dinheiro]; «dai tudo aos pobres»; etc; etc.

Cristo não se pronunciou sobre o sexo - matéria do foro privado de cada um -, tirando uma referência aos eunucos e tirando a referência ao adultério, cuja definição Cristo veio completar, não distinguindo entre mulher e homem.

A obsessão da Igreja com o sexo não vem de Jesus Cristo. A troca da raiz de todos os males do dinheiro pelo sexo não vem de Jesus Cristo.

Vem do facto de a Igreja, O Opus Dei, se terem aliado aos poderosos e ricos, tendo por isso de arranjarem outro substituto.

Infelizmente, Ratzinger é um retrocesso. Está excessivamente dedicado à exegese, à parte espiritual - sacrificando a doutrina social da Igreja, muito contígua - quando não mais radical - a um programa de socialismo democrático.

E então arranja-se um outro substituto daquele que é o pecado primordial da doutrina primeva. Sai o dinheiro, entra o sexo.

Freud dizia que a única aberração sexual era a abstinência. Quando imposta exogenamente, a abstinência dá no que se tem visto: pedofilia, abuso, o que todos sabem.

Ratzinger escreveu que o sexo só tem significado quando «tem uma intencionalidade de fecundidade». Estão por isso excluídos do sexo porque o senhor Ratzinger decidiu homossexuais, inférteis e todas as mulheres na menopausa. Ah!, e os casais só podem ter sexo quando tentam ter um filho.

Estava na altura de voltar à origem: a raiz de todos os males não é o sexo.





Strange attraction spreads it's wings
[...]
she wrote to me
She'd started smoking poetry!
I laughed in recognition of a favourite phrase


The Cure
- Livre é outra palavra para sozinha.

domingo, junho 19, 2011

O Declínio da Civilização Ocidental

Concursos de pegar num anão e ver quem o atira mais longe; vídeos de acéfalos com quedas e acidentes que provocam gargalhadas acéfalas; apanhados da Rússia em que um homem escondido num caixote leva um tiro e as pessoas riem e comentam e gostam; energúmenos que enviam fotos e vídeos das ex-namoradas sem roupa e a fazer sexo; um indíviduo atacado por um urso com o rosto desfeito numa cadeira de rodas e um grupo de teens a gargalhar numa mesa de café.


Charme é um meio de obter um sim sem fazer uma pergunta clara.

Albert Camus

sábado, junho 18, 2011

A autocrítica é tão difícil - o ego rechaça emocionalmente.
Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.

Álvaro de Campos
Um alentejano disse-me certo dia que se fartava de contar anedotas entre amigos alentejanos - e como se riam!

Um cigano disse-me algo parecido - que criticava muitos ciganos, mas que se alguém de outra etnia o fazia, explodia.
Sorte e azar são conceitos de principiantes.
http://niwaslikeohmygod.tumblr.com/post/6588822736/book-lovers-never-go-to-bed-alone

Princípios

Tratar todas, absolutamente todas as pessoas, como iguais.


Escolher os que nos acompanham pela honestidade, bondade, optimismo e coragem.

Guardar um segredo quando nos pedem - mesmo que do sigilo advenha a explosão de uma bomba atómica.

Nunca matar um ser senciente.

Nunca dizer a quem nos escutou um conselho, não o adaptou e caiu numa desgraça: «Eu bem te tinha avisado...»

Nunca contar pormenores da vida afectivo-sexual que alguém mantém (ou teve) connosco.

Nunca virar costas a quem cai numa situação de sofrimento extremo.

Nunca apontar o dedo a alguém pelas costas de uma coisa que não se lhe diga olhos nos olhos.

Não guardar rancor - comunicar sempre ao objecto de rancor aquilo que nos magoou e porquê.


Não apenas não fazer aos outros o que não gostávamos que nos fizessem - fazer aos outros o que gostávamos que nos fizessem.

Saber escutar quem já teve a nossa idade e, especialmente, várias vezes a nossa idade.

Aceitar o que não se pode mudar - e lutar até exaurir pelo que se pode mudar.

Acordar com uma razão, todos os dias.

Dormir com a alma limpa.

Acreditar, acreditar sempre.



Expressões que se apanham

«Qual belzebu travestido [...]»

O Peúgo

Miguel Esteves Cardoso diz que também há o equivalente do «período» e suas consequências para os homens.

«Noto que também eu tenho dois ou três dias durante os quais sou contra toda a gente e só me apetece chorar (tanto mais que choro mesmo). É o meu peúgo, uma versão macha do período das mulheres. É uma peúga no masculino, desirmanada e sozinha, que só serve para guarnecer meia perna. Nem é só com o peúgo que os homens podem estar. Também podem estar com o cachecol, que é quando estão tão embrulhados na fita do narcisismo deles que quase se estrangulam de insegurança.
Tanto o peúgo como o cachecol são aceitáveis desculpas masculinas.»
O caso do Amor de Perdição é particularmente ilustrativo. Só aprendi a gostar deste romance de Camilo depois de o ler muito mais tarde e pelos meus próprios meios. Na escola odiei. Detestei aquela leitura à lupa catando as elipses e as sinédoques, fazendo fichas das personagens e inventariando contextos. Para ficar, no fim, a saber o quê?

Pedro Lomba
Catherine Halpern sintetizou os seus três princípios de reconhecimento. A imagem que cada um de nós tem de si mesmo, das suas capacidades e qualidades depende da imagem que julgamos que os outros têm de nós, isto é, do seu olhar. Honneth distingue três princípios de reconhecimento, correspondentes a três esferas sociais.
Na esfera da intimidade, há o princípio do amor, no sentido abrangente de todas as relações afectivas fortes nos domínios das relações amorosas, familiares, de amizade. Já Aristóteles observou que a vida sem amigos não valeria a pena. E Honneth sublinha a importância da relação da mãe com o bebé na construção da autoconfiança, da identidade e da autonomia. Não é na experiência do amor que radica a confiança em si próprio?
Na esfera da colectividade, o princípio da solidariedade. Para aceder ao sentimento de estima de si, cada um, concretamente no trabalho, deve poder sentir-se considerado útil à colectividade. Na situação de desemprego crescente, é inevitável a frustração e o aumento da conflitualidade. Porque a finalidade do trabalho não é apenas procurar meios de sustento para as necessidades materiais, mas provar que se é útil, contribuindo para o bem comum.
Na esfera das relações jurídicas, está o princípio da igualdade. Sendo vítima da discriminação, da marginalização, do não reconhecimento de igualdade de direitos, como se pode desenvolver o sentimento de respeito por si mesmo?

Anselmo Borges

sexta-feira, junho 17, 2011

- Quando a dor é imensa, o sofrimento é obsceno.

quinta-feira, junho 16, 2011

A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.

António Ramos Rosa
«Cada livro destruído é um passaporte para o Inferno.»

História Universal da Destruição dos Livros, Fernando Baez

terça-feira, junho 14, 2011

Namora uma rapariga que lê

Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.



Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.



Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.



Oferece-lhe outra chávena de café com leite.



Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.



É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.



Ela tem de arriscar, de alguma maneira.



Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.



Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.



Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.



Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.



Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.



Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.



Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.



Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve.



Rosemary Urquico
"As frases são retorcidas e ele usa uma página para dizer o que poderia ser dito em três linhas. Imagine-se um discípulo de Charles du Bos improvisando-se como romancista". É assim que Gide lê o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, do desconhecido Marcel Proust. Remete-o para o limbo, avaliando-o com um 2. Um gesto generoso, tendo em conta que termina a sua nota de leitura com esta apreciação: "Terrivelmente aborrecido, inútil e respeitável".

Luís Miguel Queirós
Ela é tão inestimulável tão inestimulável. Nunca tira a máscara do desdém. Faz lembrar a personagem do existencialismo francês que enquanto tinha relações lia receitas culinárias. Oh, nada me estimula!

Um exército de homens a rodeia. Olha como sou tão forte! Olha como sou tão belo! Olha como sou tão sábio! Olha como salto tão alto!

Não, não tão forte.

Não, não tão belo.

Não, não tão sábio.

Não, não tão alto.


Ei, rapaz, é fácil desmontar a tua obsessão. Estás obcecado com o desafio - eu vou arranjar uma maneira de a estimular!

A inestimulável já viu tudo. A inestimulável conhece os truques todos. A inestimulável flana acima de todos os símios... Símios, todos eles.

Mas à noite, quando todos estão a dormir, fantasia em silêncio e sente-se uma merda.


(Se há quem finja sensações orgiásticas, ela finge não as ter.)
LEÃO

o chefe


Muito organizado.
Precisa de ordem nas vidas deles/delas - como estar em controlo.
Gosta de limites.
Tende a assumir tudo.
Mandão.
Gosta de ajudar os outros.
Social e gosta de sair.
Extrovertido.
Generoso, amável.
Sensível.
Energia criativa.
Confiantes neles próprios.
Bons amantes.
Fazer a coisa certa é importante para Leão.
Atraente.

domingo, junho 12, 2011

Um dos maiores paradoxos do mundo é o cristianismo ter sido açambarcado pela Direita. As grande figuras da Esquerda e da Direita são Cristo e Nietzsche. De tão deturpada que foi a mensagem original que só nos resta a interpretação individual do Novo Testamento, em particular dos quatros evangelhos. Cristo disse que haveria um tempo em que as pessoas orariam em espírito - preconizando o fim do Templo num estádio de evolução espiritual mais avançado.
Cristo tornou iguais direitos de homens e mulheres.
Cristo preferia o amor ao próximo ao culto a Deus.
Cristo privava e instilava ao convívio com as prostitutas, os pobres, os cegos, os coxos.
Cristo desprezava o conceito de família biológica.
Cristo desprezava a ganância, a hipocrisia dos formalismos e das cerimónias e rompia convenções sociais assimiladas acriticamente, como a do sábado.
Cristo condenava o julgamento e acepção de pessoas.
Cristo criticava o padre e o levita e exaltava o samaritano - quem amava o próximo era o proscrito samaratino.
Cristo dividia os homens entre os que eram próximo e distantes dos presos, dos imigrantes, dos doentes, dos miseráveis.
Cristo foi crucificado - pena aplicável pelos romanos ao crimes políticos.

Por ser reaccionário?
Ela é tão princesa tão princesa. Uma gota de água e - ai! - que fiquei cega.
Ela é tão princesa tão princesa. Ai, estou tão maldisposta - é a sua divisa.

Ai, a princesa passeia-se por aqui e por ali - reclamando atenção? -, sempre enjoada, entediada, distante. Mas a precisa nunca telefona, a princesa nunca faz convites - a princesa precisa de ser convidada e recusar, precisa de dizer ai-eu-não-posso-ir ou só-vou-se-a-b-c-d-e-f-g-h. A princesa tem de ouvir vem, vem lá, por favor, anda lá, vem, vem, princesa, vem, princesinha assustada, vem. Mas a princesa até vai.

Ela é tão princesa tão princesa. Nunca desliza, nunca escorrega, nunca profere um dislate. A qualquer coisa, mostra um fácies de choque, espanto - ai, ela é tão princesa, tão princesa. Tão frágil como as asas da borboleta que pede num sussurro - oh! oh! eu sou uma borboleta em vias de extinção, tenho de ser preservada.

A princesa masturba-se com uma pluma.
As paixões desencontradas são como as cabeças trocadas.

Adília Lopes

sexta-feira, junho 10, 2011

Ela é tão alternativa tão alternativa. Compra os seus alternativos ténis numa alternativa loja ao alternativo preço de 150 €. Corta o seu cabelo alternativo num cabeleireiro alternativo ao alternativo preço de 105 €. Ela é tão alternativa tão alternativa.


Nunca entrou numa barraca e nunca conheceu um operário, mas ela - tão alternativa tão alternativa - é uma adepta cool desses tópicos.


Até a voz aprendeu a colocar de forma alternativa. (Mas ao fundo, se escutares bem, her voice is full of money.)



Ela é tão alternativa tão alternativa. Só vai a festas excêntricas com os seu ornamentos excêntricos, mas quando ninguém vêm dorme com o executivo, director de uma estação de televisão, no seu porsche (provavelmente, um modelo alternativo).


quinta-feira, junho 09, 2011

Life has been some combination of fairy-tale coincidence and joie de vivre and shocks of beauty together with some hurtful self-questioning.

Sylvia Plath

quarta-feira, junho 08, 2011

Sinais dos Tempos

... ver o Moniz e o Belmiro como comentadores televisivos da política dá-me vontade de criar uma brigada de extrema-esquerda.

Abençoado seja o Garcia Pereira que chamou de «serventuário do poder» o Moniz em directo.
A minha capacidade de deslumbramento não foi, afinal, na totalidade, pelo ralo da banheira.
Hoje, ouvi a história de um rapaz que, vivendo um amor sem esperança, dorme no parapeito do quarto da vivenda dela. Só para estar mais próximo. Por compaixão ou medo de represálias, ela deixa.

terça-feira, junho 07, 2011

Beijinhos, beijocas, beijoquitas... nada presta. Só «beijo».

segunda-feira, junho 06, 2011

O Pátio by angel

O pátio

Em qualquer competição, sobrepondo-se a qualquer outro critério, procuro sempre saber quem é o mais fraco para torcer por ele. Num jantar, quando sinto uma alma isolada, vou conversar com ela. Quando alguém é ostracizado ou humilhado, ergo-me pronto a defendê-lo antes de saber as suas razões. Mesmo quando o violador de crianças atravessa a multidão, sôfrega de fogo e pedras, é do lado do criminoso que eu estou. Não é uma escolha racional.
Desde cedo que algo muito forte dentro de mim me levou a acreditar que poderia mudar o mundo e salvar todos os infelizes que se cruzavam comigo.
Para conseguir mudar o mundo, enveredei pela política, montando casa na esquerda.
Porquê a esquerda?
Por causa de uma emoção.
Numa luta, o indivíduo de esquerda tem um preconceito irreprimível em favor do que está deitado no chão a levar pancada. Foi sobre este sentimento que se alicerçaram as montanhas de reflexões, teorias e sistemas de teorias da esquerda.
Qualquer arrazoado mais não é do que um encadeamento lógico a partir de axiomas não demonstráveis. (Autor: não debites epistemologia aqui, ainda para mais com aroma a matemática.) É por isso que conseguimos arranjar cem estudos para validar uma opinião e outros cem estudos para validar a opinião contrária.
A omnipresença desses buracos nos sistemas de crenças – pessoais, éticas, políticas ou religiosas – garante-nos que as nossas opções estão escoradas em algo que extravasa a Razão. Na origem das escolhas, habita uma fé, uma estética, um sentimento. Fosse a Razão a imperadora da mente e teríamos todos as mesmas opiniões e o mundo reger-se-ia cinzentamente pelo melhor modelo e pelas melhores leis. (Autor: estás aqui para contar uma história, Alexandre.)

Na faculdade, juntei-me a uma tribo da esquerda da esquerda. Passávamos tardes ao ar livre, no verde do «pátio» (como lhe chamávamos), fumando charros, e conversando sobre política, arte, filosofia e coisíssima nenhuma.
Sentíamos a universidade como algo mais do que uma fábrica de aulas. Faltávamos a algumas cadeiras para tertuliarmos, felizes por podermos estender o corpo e o espírito na relva e descalçar-nos ou usarmos calçar rotas.
Éramos livres e irreverentes, e estávamos convencidíssimos de que o mundo seria um local bem melhor se adoptasse as nossas ideias.
Todos os meses, no primeiro dia de lua cheia, marcávamos um jantar. Nos «jantares da lua cheia», brindávamos ao astro inspirador, à fraternidade, à poesia, e à nossa cumplicidade enquanto seres superiores, libertos das teias de aranha dos espíritos dos seus coevos empoeirados. Em noites mais etílicas, uivávamos à Lua.
Um desses jantares teve lugar em minha casa. Nessa tarde, com as compras na mão, cruzei-me com um amigo de longa data, meu vizinho, e convidei-o para o jantar.
À noite, a campainha tocou e umas calças de ganga de marca, uma camisa aos quadrados enfiada dentro das mesmas, uns sapatos rasos e um penteado de risco ao lado foram suficientes para gerar o silêncio. Apresentei-o como «um grande amigo meu», seguro de que isso amenizaria o ambiente.
Fui à cozinha preparar o jantar. Quando voltei à sala, ele estava num canto, fingindo fazer algo útil na lareira. Levei-o para a cozinha, onde uns murmúrios chegaram até nós: «Temos betaria aqui hoje», «O gajo tem toda a pinta de ser daqueles meninos mesmo buéda conservadores», «Deve tar a pedir ao Alexandre salmão com caviar». Falava com ele para abafar os sons vindos da sala.
As vozes foram-se extinguindo e, quando regressou à sala, um membro do pátio entabulou conversa com ele. Não demorou muito tempo, porém, até que viesse ter comigo à cozinha:
– Ó Alexandre, desculpa lá, posso fechar a porta? É que queria falar uma cena contigo… Eh pá, tá toda a gente a fazer sinais e a apontar para mim. Tenho tido uma postura tão discreta e só tão com piadinhas entredentes: «Olha o beto não vai gostar, olha o beto isto, olha o beto aquilo.» Eh pá, nunca me aconteceu uma cena assim, pá! A perguntarem-me em que colégio é que os meus pais me puseram a estudar, o que é que eles fazem…
No dia seguinte, falando de pé para um conjunto de indivíduos sentados nas cadeiras do pátio, vi-me na triste figura de pregar um sermão. Quando acabei, estava fisicamente aliviado. O sermão mudava da minha cabeça para a deles – eles que reflectissem se quisessem.
O meu sentimento tribal não saiu abalado, mas a primeira fenda foi sulcada – num ponto, não estava em sintonia com o pátio. Se não gostava de ser discriminado por usar calças rotas, de igual modo não gostaria de viver na ditadura das calças rotas.
Aquela noite permitiu-me interiorizar o que alguém perspicaz já teria intuído – o pátio não era misturável com uma grande fatia do «resto do mundo».
Com o tempo, percebi o que podia esperar e não esperar do grupo em que estava inserido, e, evitando os embates do pátio com o mundo herege, fui vivendo-o por dentro até ao tutano. O deslumbramento de sentir que havia criaturas como eu, com os mesmos códigos e linguagens, o mesmo desprendimento de grilhões absurdos, enclausurou-me num gueto – algo de cujas consequências só mais tarde me apercebi.
Outros episódios houve que não deixaram esbater o efeito daquele jantar da lua cheia, formando ligações com ele nos canais da minha mente.
Passeando com um amigo do pátio pelos corredores da faculdade, vi-o arrancar bruscamente um cartaz.
– Então? – perguntei, atónito.
– Tavam a anunciar uma reunião de jovens monárquicos.
– Foda-se, meu, eles têm liberdade de expressão.
– Foda-se, digo eu! Se um patrão tem liberdade para explorar os trabalhadores à vontade, o que é que essa merda me interessa? – gritou-me, como se eu tivesse atraiçoado o ideal por que lutávamos.
Fui invadido por um mal-estar orgânico que me levou a inventar um compromisso e despedir-me.
Era uma reunião cheia de agitação no ar para a constituição do jornal da faculdade. (Autor: falta uma ponte no início da frase.) Os habitantes do pátio eram contra a existência das figuras de editor, redactor e colaborador.
– O quê, bases e cúpulas? – soltou alguém, gerando o caos entre os presentes.
Depois, quando se afloraram os nomes a entrevistar, umas sobrancelhas arqueadas e um dedo em riste levantaram-se da cadeira à velocidade de uma bala:
– Essa mulher nunca será entrevistada para o jornal! Nunca!Ela é co-autora do despedimento do meu pai!
Mais importante do que construirmos algo era sentirmos que os nossos princípios não cediam à flacidez. Era preferível a pureza na inacção do que fazer-se qualquer coisa com o mínimo vestígio de cedência ao Capital.
Quando convidei alguém de direita moderada a escrever, o que deu uma nota dissonante à sinfonia monocromática (Autor: não tenho a certeza de que essa sinestesia pareça intencional) para a qual o Prisma deslizava, o pátio ergueu-se em peso contra a «fascização» do jornal. Um elemento do pátio veio ter comigo com o jornal aberto na página desse «reaccionário», exclamando numa voz tonitruante, enquanto davas palmadas no texto para punir o pecador:
– Isto é uma vergonha pra ti, pá! Este gajo é mesmo ridículo!
– O jornal tem de reflectir as várias tendências que existem na faculdade.
– Mas se tu não concordas, porque é que publicas?
– Não posso publicar só aquilo com que concordo. Mas se estás tão indignado com o que leste, escreve um artigo e eu publico-to.
Entregou-me um texto em que dizimava o opinante de direita. Tinha-lhe dado, como a qualquer colaborador, um limite de caracteres. O artigo excedia o dobro do espaço reservado. Pedi-lhe que encurtasse o texto, recordando-o do número de caracteres acordado.
– Não consigo reduzir isto, não dá. Diminui o tamanho da letra que eu não me importo.
Procurei demonstrar-lhe o absurdo do pedido e, durante duas semanas, roguei-lhe que encurtasse o texto. Aumentava-lhe até, excepcionalmente, o limite de caracteres. Insisti, insisti, insisti. Garanti-lhe, quando o prazo da gráfica começava a apertar, que se ele não o fizesse, teria de ser eu a fazê-lo – algo que me desagradaria imenso porque nunca até então cortara ou modificara uma linha. À data do fecho, voltei a massacrá-lo. Não o consegui persuadir a reduzir o texto. Com pinças, tirei as partes mais inócuas. Quando o jornal saiu, vim a saber que ele andava a pregar:
– Há censura no Prisma e eu senti-a na pele.
Não lhe levei a mal. Conhecia o sentimento – oh, conhecia-o tão bem! – por trás dessa atitude. Nós ex-ci-tá-va-mo-nos quando a censura nos era aplicada. Era a mesma injecção deliciosa no ego que nos impelia a fazer tudo numa manifestação de modo que a polícia («a bófia») nos agredisse, só para nos podermos auto-proclamar vítimas da repressão policial. Como nos sentíamos poderosos quando transgredíamos, como era saboroso navegar contra-corrente…
Lento e teimoso de raciocínio, lá fui martelando dentro da cabeça a ideia de que para o grupo do pátio, liberdade de expressão, algo tantas e tantas vezes reclamado, era estritamente a liberdade concedida às suas ideias. Inutilmente, tentei defender a ideia de que a liberdade de expressão se aquilatava pela liberdade que determinado ambiente dava às ideias a que era precisamente mais hostil.
– Tens conceitos de liberdade burgueses.
Antes via uma linha longitudinal, onde de um lado estava a esquerda e do outro a direita. Quanto mais avançávamos para a esquerda, mais a liberdade aumentava. Quanto mais avançávamos para a direita, mais a liberdade se obliterava. Observando a mesma linha, as conclusões mudavam. Quanto mais nos afastávamos do meio da corda, menos liberdade de expressão havia. (Autor: uma conclusão tão idiota quanto a outra.) Nos extremos, praticamente não havia liberdade – aí morava uma sede inextinguível de poder que instalasse a Verdade.
O combate ao preconceito e à discriminação inundava a nossa prática discursiva de tal forma que estava genuinamente convicto de que lhes éramos imunes.
Mais tarde, percebi que um preconceito (demorei tanto tempo a entender algo tão simples) não é apenas uma generalização abusiva, um juízo de valor predeterminado e infundado contra minorias étnicas ou homossexuais. A definição de preconceito, a substância do mesmo, mantém-se quando as realidades distorcidas são os banqueiros ou os polícias.
Muitas coisas fui compartimentando, mas outras houve que violaram a minha identidade mais profunda – aquela polpa que não pode sofrer um arranhão.
Era próprio daquele grupo um modo de discutir. Massacrava-se o interlocutor com perguntas, fazendo-o entrar num comboio de lógica que no final o esmagava. Uma tirada irónica encerrava o exercício vexatório. Condenávamos, como bons juízes morais que éramos, toda e qualquer jocosidade assente no estatuto social – desde que inferior – ou no aspecto físico – desde que andrajoso, decadente ou proletário –, mas tínhamos um salvo-conduto para humilhar quem não partilhava da nossa cartilha.
– Eu pago-te o psiquiatra – disse um de nós, depois de derrotar intelectualmente o oponente de direita, provocando a hilaridade grupal.
Se torcia sempre pelo mais fraco, torcia só até àquele ponto em que o fraco não espancava o forte. Meus amigos, depois disso não contem comigo. É o risco na areia que não transponho. Nunca aprovarei presos políticos, tortura, pena de morte, linchamentos de fascistas, milionários ou patrões sem escrúpulos. Pensava que a universalidade da dignidade humana era mesmo… universal. Já sabem até onde eu vou, se quiserem levem-me convosco.
Um dia, fui positivamente surpreendido quando alguém no pátio interpelou o resto do grupo:
– Deveríamos aplicar o esforço que fazemos para compreendermos as causas sociais do crime para tentarmos perceber o que leva a que alguém seja etnocêntrico ou de direita.
Entreolhámo-nos com espanto. Estaria ali um inimigo?
Éramos fascistas das ideias. Intolerantes com os intolerantes. Preconceituosos com os preconceituosos. Genocidas intelectuais procurando eliminar até ao último resíduo qualquer ideia contrária à (nossa) Verdade. Era precisamente por termos removido esse determinante possessivo que deveria anteceder a palavra Verdade que nos faltava o grão da dúvida salutar nos nossos espíritos.
O caos informe da realidade estava bem arrumadinho nos nossos esquemas mentais. A direita era materialista e egoísta. Não se ralava que uma parte da humanidade morresse de fome desde que esta, no seu estertor de morte, não espirrasse sangue para os seus casacos de peles e os seus carros de luxo. A esquerda que ocupava o poder era traiçoeira e movediça ante os interesses dos poderosos.
E nós?
Nós éramos o Bem. É um truísmo afirmá-lo – não eram todas as nossas propostas eivadas de amor ao próximo?
Seguros da nossa superior posição moral, revelávamos uma recusa eclesiástica em reavaliarmos as nossas verdades. (Autor: aliteração feia e despropositada.) Os livros, os jornais e as almas que não fossem de esquerda eram desprezíveis.
Manifestávamos um puritanismo excessivo com as palavras. Gaguejávamos quando tínhamos de nos referir a alguma minoria étnica. Não sabíamos, por exemplo, como nomearmos os negros por serem tantas as palavras que púnhamos no Índex. Quando queríamos mencionar os trabalhos mal remunerados e não qualificados, enredávamo-nos em perífrases e eufemismos no pânico de dizermos «as profissões inferiores». Outras palavras havia, como fascista, que esvaziávamos de sentido de tão indiscriminadamente as empregarmos.
O esquerdistamente correcto estava de tal modo enraizado nos nossos espíritos que filtrava as nossas palavras (e, através delas, os nossos pensamentos). Não devia haver grupo religioso ou ultraconservador mais normativo do que o nosso.
A ausência de preconceitos (Autor: fizeste-me enjoar dessa palavra) não surgia de forma natural e espontânea. Era fruto de um constante exercício de vigilância.
Aceitávamos brandamente os preconceitos positivos para com os grupos mais discriminados e os preconceitos negativos para com os grupos dominantes. (Autor: inundaste a prosa com a palavra, outra vez. Merda, pá!)
Acredito que num patamar mais desenvolvido do espírito humano, o etnocentrismo ou a homofobia serão reduzidos a cinzas, porque simplesmente se deixará de reparar na diferença.
Emprestei um livro sobre história da cultura a um indivíduo do pátio e este, antes de o abrir, sensatamente perguntou: (Autor: outro salto de parágrafo desconexo.)
– Ouve lá, este autor é de esquerda?
– É.
– Tens a certeza?
– Tenho.
– Ok, vou ler.
O importante, quando se ouvia uma argumentação, não era confrontar o que nos era dito com o que sabíamos e desse confronto extrair alguma aprendizagem, mas rapidamente colocar uma etiqueta – esquerda ou direita. Se era a segunda, colocávamos todas as pedras de que dispuséssemos à porta dos ouvidos do cérebro.
Se a robustez e a agilidade de uma mente se medem pela quantidade de incerteza que ela é capaz de albergar, então nós éramos perfeitamente estúpidos. Pejávamos a realidade de legendas de modo que se eliminasse à nascença qualquer semente de confusão mental – tudo era preto ou branco sem matizes de cinzento.
A nossa visão parcial do mundo ia-se acentuando. Quando só se conhece uma versão da história, seja de um dos membros do casal, de um dos amigos que cortaram relações, de um dos lados da guerra, tendemos a concordar com o nosso interlocutor. Não é preciso mentir – basta empolar, omitir, tratar pormaiores como pormenores.
Já sabia que de cada vez que ouvia falar do governo ou da Igreja, era para dizer mal. Várias vezes, expressei a opinião de que perdíamos credibilidade tendo juízos tão monolíticos – os que eram bons eram sempre bons; os que eram maus eram sempre maus. Imagino o longo bocejo que suscitávamos naqueles que não eram nossos fiéis…
Ser de esquerda – fui percebendo com a resistência de quem não quer largar o seu filho – não era ter as medalhas da tolerância e da bondade; era antes pertencer a um clube, torcer por um dos lados.
Sintomático da nossa duplicidade era o facto de o nosso julgamento ser infinitamente mais suave quando a tortura, a polícia política, a censura, os assassinatos em larga escala ou o terrorismo ocorriam do nosso lado.
Distorcíamos os factos, achatando-os até que eles coubessem nos nossos ideais. Papagueávamos coisas em que não acreditávamos (a luta interna e as neuroses que não deveria haver em alguns!). Dizíamos, por exemplo, que tínhamos todos as mesmas capacidades.
– Então e um deficiente? – alguém perguntou.
Tacteámos uns bordões e melopeias que trazíamos sempre no bolso, mas como nenhum parecia encaixar-se bem na questão, tivemos de recorrer ao epíteto nazi. Quando não conseguíamos desmontar argumentos, desqualificávamos o inimigo.
Era um disparate fazer assentar o princípio da igualdade ontológica na igualização absurda das capacidades do ser humano. Muitos anos antes, já um escritor resumira a questão, explicando que por mais que diferissem as capacidades (Autor: terceira utilização contígua) dos indivíduos, os seus estômagos eram essencialmente os mesmos. Era um fundamento mais sólido, esse, porque mesmo que se demonstrasse que éramos profundamente díspares em habilidades, ainda assim o ideal da igualdade não ruiria. (Autor: afasta-te do tom ensaístico.)
Algo a que abundantemente apontávamos o dedo eram os três pecados capitais da direita (eu aqui era dos piores, sempre de dedo em riste a catequizar o próximo) – o etnocentrismo, o machismo e a homofobia.
O ponto que mais me impressionou no grupo do pátio foi a sua inflexibilidade na utilização dos dinheiros e bens públicos. (Autor: outra mudança brusca.) Nunca vi ninguém utilizar o telefone institucional, nos vários cargos públicos que ocuparam, para chamadas pessoais, e vi muitos usarem o telefone pessoal para defenderem os interesses de quem representavam. Cheguei a vê-los dormir no chão para evitarem gastar um quarto de hotel com o «dinheiro» dos estudantes.
A preocupação em mudar o mundo era tão exagerada que conduzia a um certo embotamento da sensibilidade aos problemas das pessoas concretas e individualmente consideradas. Houve um tempo prévio, demasiado longo, de idealização das almas de esquerda, em que imaginava que quem lutava por um sistema que eliminasse a fome seria mais solidário com o amigo na desgraça. (Autor: Excremento.)
Puxo fita das bobinas da memória e paro. Estou a falar com o meu melhor amigo do pátio:
– Tou com um problema sério. Preciso muito de falar contigo a sós – peço-lhe que abandonemos o verde do pátio para irmos até um café lá fora, porque senão depressa alguém se juntará e quebrará a intimidade.
Sentados na mesa do café, bebendo algo, atiro:
– O meu pai tem um cancro.
Onde? Há quanto tempo? Que tratamento está a fazer?
Passados dois minutos, diz:
– Não se podem privatizar os hospitais porque…
E discorre longamente sobre o assunto, desatento ao olhar que lhe lança «O meu pai…». Não consigo estancar a torrente, e, no final, quando nos despedimos, não deseja as melhoras e ainda consegue debitar uma estatística.
Na minha mente pouco porosa de então, lá se foi inflitrando a ideia de que a personalidade não era apenas um epifenómeno do ideário político, e, acessoriamente a esta ideia, uma verdade difícil de aceitar para alguém que concebera a esquerda como a causa suprema da sua vida: a solidariedade não era, afinal, uma-virtude-cardeal-património-exclusivo-da-esquerda.
Na política, vemos as pessoas (Autor: palavra em abundância) como seres no papel, etereamente desprovidos de densidade psicológica. O problema é quando lidamos com elas no dia-a-dia, quando nos irritamos com elas, quando nos desiludimos com elas, quando pura e simplesmente, por mais que nos esforcemos… não conseguimos gostar delas (Autor: quando, quando, quando, ela, ela, ela…). O abraço teórico da esquerda que envolve fraternamente toda a humanidade é precisamente isso: teórico. (Autor: parágrafo sofrível.)
Outro factor (Autor: não sei se me agrada esse vocábulo) que, com o tempo e a reflexão inerente, se veio juntar à lista de coisas que me afastavam do grupo do pátio era que este naufragava maldizendo as marés e os ventos, mas quase nunca procurando a bússola. Para cada mil diagnósticos negativos, havia, com sorte, uma solução apontada. Sabíamos de cor os inimigos – o capitalismo, o imperialismo, os grandes grupos económicos –, mas padecíamos de uma incapacidade de apresentar alternativas.
Na origem disto, estaria talvez o sentimento consolador de nós-sozinhos-contra-o-mundo e a orfandade de ideias da esquerda, depois da perda de modelos.
Percorrêramos um longo caminho de ideologias e experiências históricas para voltarmos ao início. Éramos, de novo, socialistas utópicos. Boas intenções, uma nobreza de fins, mas uma indefinição nebulosa quanto aos meios que nos levariam a esse mundo de fraternidade e igualdade.
Afastei-me gradualmente do pátio. Sei que uns inflectiram o caminho, sei que outros, provavelmente a maioria, continuam na senda messiânica. Alguns mudaram logo que acabaram o curso.
Um deles, quando lhe perguntei o que ia fazer, concluída que estava a sua licenciatura, disse-me prontamente:
– Não vou fazer népia, só tirei o curso pra não dar sofrimento aos meus pais. Vou polir umas rochas pá praia…
Duas semanas depois, trabalhava de fato e gravata numa seguradora. O pátio não tornou a vê-lo.
Anos mais tarde, encontrei outro que continuava igual até na própria indumentária e no desenho da barba. Apesar de não me ver desde há muitas mudanças na minha vida, aproximou-se de mim, circunspecto e grave, e, sem uma pergunta prévia de cariz pessoal, sem ter tempo para perder com outra coisa que não fosse o preparar da revolução, afirmou com tom de urgência:
– Isto está cada vez pior. Falta alguém que faça uma reformulação do comunismo que ainda não foi feita. Qualquer reflexão sobre a sociedade, de resto, só pode vir da esquerda. Temos de nos unir e fazer essa reflexão imediatamente. A crise está aí e temos de aproveitá-la. Os gajos de direita não reflectem e isso é uma vantagem que temos de capitalizar. Eles só querem é putas e vinho.
Fiquei momentaneamente sem reacção, e, de repente, desatei a rir-me de forma audível em toda a livraria.
Uma amiga do pátio telefonar-me-ia anos mais tarde para tomarmos café «só os dois».
– A minha cena não é ser do contra. Eu não sou contra nada, sou a favor de… A energia que canalizas é totalmente diferente… Sabes uma coisa, Alexandre? Havia ali muito ódio. Não gosto do ódio. Os grupos de extrema-direita cultivam o ódio e eu demorei muito a perceber que nós fazíamos o mesmo; simplesmente, com alvos diferentes.
Para um idealista, a realidade não é a fonte privilegiada do saber. Apesar de tudo aquilo que ela me fez engolir a contra-gosto, ainda assim, cada vez que conheço alguém e descubro que «é de esquerda», algo continua a sorrir dentro de mim.
(A minha velha mente de esquerda continua a segregar o seu pus.)
- Angel, quando alguém diz que não é homofóbico, que cada um escolhe a opção que entende e que todos devem ter os mesmos direitos, isso é apenas uma petição de princípio - algo que permanece apenas num plano teórico, conceptual, abstracto. Porque a verdade é que se essa pessoa não consegue, de forma alguma, ter relações com alguém do mesmo sexo, não internalizou esse princípio. Freud escreveu que somos todos bissexuais latentes. Erroneamente, julgamos que a barreira que impede heterossexuais (como se houvesse categorias rígidas em matéria de sexo...) é animal, mas é social. Num estádio mais evoluído da sociedade, deixaremos de olhar ao género e escolheremos o parceiro ou a parceira pela pessoa que é, tornando obsoletas as cartilhas do hetero e do homo.
- Quando eu voto na CDU e a minha mulher-a-dias vota no PSD, algo está profundamente errado.
Henry Miller afirmou aos 80 anos que, sim, tenho 80, e então?, nesta idade eu tenho todas as idades mim, os 20, os 30, os 40, os 50, eu sei como são e posso actuar como tendo qualquer uma delas. Posso escolher qualquer uma. É o privilégio dos 80.

sábado, junho 04, 2011

Há quem «case» e tenha filhos, mas não cesse de existir para o mundo.

Há quem «case» e tenha filhos, e deixe de fazer o que gostava, oblitere os amigos, deixe crescer o buço, perca o viço.

quinta-feira, junho 02, 2011

Segundo Miguel Esteves Cardoso, o país está cheio de falidos financeiros, mas pejado de bilionários morais. Cada português se considera «uma voz incómoda do regime» e um «financiador do país». Só ele trabalha e paga impostos, os outros é que a levam direita, ninguém reconhece o seu trabalho lá no emprego, todos têm esquemas, lóbis, maneiras de enganar o Estado e o patrão. Pacheco Pereira diz que sempre um português fala, a honestidade termina na mesa ao lado. Os outros é que são sempre os desonestos.
Rui Zink diz que, quando o escritor escreve, deve procurar o mundo dentro de si.
«Se quero escrever sobre o salazarismo, devo escrever sobre o Salazar que há em mim. Quando escrevo sobre racismo, escrevo sobre o racista que há em mim.»

Uma Sociedade Doente

Três miúdas de liceu discutem, não se percebe porquê, mas certamente coisas de uma importância extrema, a avaliar pelo que se segue: duas delas, uma magra e uma gorda, atiram-se à pancada à terceira, que tem apenas treze anos e acaba por cair no chão, onde as outras duas bestinhas a pontapeiam na cabeça, com um prazer e ódio dificilmente compreensíveis, mesmo em doentes mentais. Mas o pior da cena é o quarto elemento – um rapaz, um adulto de dezoito anos, que, graças aos impostos cobrados ao meu e vosso trabalho, ainda se arrasta pelas escolas e não faz nada. E de que se lembrou esse alarve? Em lugar de se revoltar com aquilo, como qualquer ser humano normal, filma a cena no seu indispensável telemóvel e excita as colegas, pedindo a outro que saia da frente para não perturbar a filmagem, pois que, conforme anuncia, radiante, “vai tudo para o meu Facebook!” E foi: eis o Facebook no seu esplendor.


Se eu mandasse, o anormal e as duas bestas iam direitinhos para trabalhos forçados a favor da comunidade: iam limpar as matas para evitar incêndios de Verão, servir refeições a velhinhos de centros de terceira idade, ajudar a limpar o chão dos hospitais, varrer ruas, qualquer coisa de útil e de pedagógico.


Sem telemóvel, sem computador, sem Faceboock, sem iPod e iPad, sem bairro Alto nem dias inteiros passados no café a fazer nada, sem exames da treta onde lhes perguntam (no 10º ano!) se sabem contar até oito (e, em caso negativo, é o sistema de ensino que é posto em causa). Mandava-os aprender o valor de cada coisa que lhes é dado gratuitamente, aprender a sofrer apenas um bocadinho para conseguirem o que querem e que têm de mão beijada, aprender a viver em sociedade – que não é o mesmo que falar ao telemóvel e frequentar o faceboock.


Enjoado, mudo de canal e de cena. Agora estou na RTP-1 e no Rossio, onde os “acampados” (imitando os de Madrid, mas reivindicando a paternidade da ideia graças aos precários), propõem não se percebe bem o quê, contra o sistema, a política, a sociedade e o mundo em geral.


Esforçadamente, o repórter ouve as reivindicações de quatro ou cinco jovens, que, em comum, têm um discurso muito “solto”, muito “alternativo”, e uma evidente e urgente necessidade de água e sabão azul-e-branco. Parece, todavia, que é muito importante escutá-los com atenção, pois consta que eles representam qualquer coisa de difuso, nebuloso ou peganhento, que vai alastrando às praças, às cidades e aos países como amanhãs que cantam. Já alguns políticos profissionais afirmam cautelarmente que é necessário escutá-los e compreendê-los […]. Pois que lástima de futuro, digo-vos eu! São “precários”?. Coitadinhos, mas quem é que não foi precário aos 20 anos? Imaginarão que todos tinham um futuro garantido e um contrato para a vida, saído da Faculdade ou de coisa alguma com vinte e tal anos de idade? E saberão eles o que é ser precário aos cinquenta anos de idade, depois de ter trabalhado vinte ou trinta anos e descontando impostos para pagar a faculdade ou o Bairro Alto aos meninos? Claro que sei que a vida está difícil para muitos deles – não todos, aqueles que realmente querem um emprego e não o encontram. Mas a vida está difícil para todos e muito mais para alguns dos pais deles que se mataram a trabalhar para que os filhos tivessem um futuro melhor.

O que está precário não são eles, é o mundo inteiro que conhecíamos, um sistema económico globalizado onde o capital financeiro roubou o trabalho, roubou o dinheiro dos impostos dos cidadãos e, friamente, destrói países, famílias, sociedade. O ponto é este: os meninos precários não são a excepção em tempo de cólera. São apenas uma parte do problema e das desilusões que todos vivem e não entendo porque [ERRO DO MIGUEL] razão hão-de de ser privilegiados nas suas queixas sobre os outros.


Mas o problema não está apenas na desregulação financeira, num capitalismo se ética e sem fim social. O problema está também na evolução natural de sociedades com expectativas e direitos sempre crescentes, até ao ponto da insustentabilidade. O bem-estar geral assentava na crença de uma economia onde cada vez eram maiores as exigências colectivas e cada vez eram menores as condições para a sua satisfação.

Tirem os meninos dos telemóveis, iPods e faceboocks; os doentes a cargo da saúde pública, sempre mais perfeita e mais cara; os desempregados e inactivos; os pensionistas que cada vez são mais vivendo mais, e resta quem, de produtivo? Resta um trabalhador no activo que, com o seu trabalho e os seus impostos sustenta outro alguém que, com ou sem responsabilidade própria, nada produz e apenas gasta. Tudo isto já se sabia há anos, mas como os políticos nunca tiveram coragem de dizer, os cidadãos convenceram-se (facilmente é verdade) de que, se as suas exigências e expectativas não eram satisfeitas, era unicamente porque os políticos não prestavam.

Miguel Sousa Tavares
"Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio... Escreve-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transforma-lo numa superficie banal."

Teixeira de Pascoaes, nas vésperas da reforma ortográfica de 1911
Vivemos numa época de achismos.

quarta-feira, junho 01, 2011

A minha amiga que acha que gosta da «carga do género» que me perdoe, mas acho que daqui a cem anos, a indumentária dos homens e das mulheres quase não se distinguirá, nem os adereços, nem a maquilhagem.
Há dois séculos não havia país que não consagrasse e aplicasse a pena capital.
Há um século, praticamente não havia divórcios ou abortos legais no mundo.

Há 50 anos, os pretos tinham lugares mais reles nos autocarros dos EUA para si.

Há menos de 40, a homossexualidade era catalogada na lista de doenças psiquiátricas.

Há quarenta anos, em Portugal, a mulher não podia sair de Portugal sem autorização do homem e a sua correspondência era propriedade do mesmo, há trinta e cinco, a mulher portuguesa não podia ser comerciante sem autorização do marido.

Não duvido que daqui a 100 anos olhemos para o circo, a tourada e - até - a própria alimentação omnívora como hoje olhamos para as realidades acima.


A doença não significa a morte, agora, julgo que ninguém está preparado para morrer. Nem o Sócrates. Não estava, de facto. Quando ele diz "quero aprender lira antes de morrer", é óbvio que para tocar lira antes de morrer, quero aprender para tocar antes de morrer, ele estava a pensar - a gente vive em função da eternidade, nem que sejam eternidades de um mês, dois meses. Lembre-se da Maria Antonieta no carrasco - (no carrasco!...) [risos]No cadafalso [risos]... e a dizer ao carrasco: só mais um minuto senhor carrasco. E aquele minuto era eterno. Quando nós vivemos em função - quando temos vinte anos - de uma eternidade de cinquenta anos, que é uma coisa que não vai passar nunca. E depois a certa altura, vivemos em função de eternidades mais pequenas mas igualmente longas. O minuto que a Maria Antonieta pede ao carrasco é a mesma coisa que os cinquenta anos que um rapaz de vinte anos pensa que vai viver. Muitas vezes o problema não é a morte, o problema é a vida.

António Lobo Antunes
This top is the place
Where nobody goes
You just imagine
You just imagine it all

The Cure
- Tu és tão continuadamente descontínuo. Afastas-te e aproximas-te sempre e nunca desapareces.
- As mulheres, não raras vezes, procuram um homem que lhes lembre o pai ou o homem nas antípodas do mesmo.