quinta-feira, março 17, 2011

Por favor, lê devagar... Transcrevi isto à mão

Lembre-se de que os jovens não lêem livros, lêem SMS, livros de BD, resumos no Kindle:o Hamlet em 25 palavras, o Lear em 50. Para ler seriamente, tem de haver condições. Para ler seriamente, é preciso silêncio. Não ponha música, tira a rádio e a televisão do quarto. Tem de saber viver, e conviver, com o silêncio. (Cada vez menos jovens querem viver com o silêncio. Na realidade, têm-lhe medo. O silêncio tornou-se, de resto, muito caro. Uma casa como esta, com um jardim sossegado, é uma exorbitância para um casal jovem, que vai possivelmente viver para um prédio, com paredes tão finas, que é possível ouvir tudo! Vivemos num inferno de ruído constante.) Tem de estar preparado para - e não riam de mim - saber passagens de cor. Aquilo que amamos, devemo-lo saber de cor. Não é por acaso que «coração» em latim é cor. Ninguém nos pode tirar nunca o que sabemos de cor. Deixem-me frisar saber, saborear de cor, com o coração, não com a cabeça. Queremos sempre levar connosco o que amamos. Eu sou muito velho, mas tento, todos os dias, ou quase todos, aprender um poemas, ou fragmentos de um poema, de cor, porque é assim que se agradece uma bela obra. Que outra maneira tenho eu de agradecer a Dante, a Cervantes, a Lope de Vega ou a Shakespeare? A partir do momento em que sabemos um poema de cor, algumas poucas linhas, ele começa a viver dentro de nós. Em terceiro lugar, precisa de ter alguma privacidade. Esta última condição é tremenda, provavelmente a mais difícil, em particular para os jovens de hoje. Actualmente, a privacidade é o inimigo n.º 1 de todo o jovem. Não só se confessa tudo a toda a gente, como é imperativo que o façamos imediatamente. Ninguém guarda a experiência, qualquer que ela seja, só para si. Então, três condições: silêncio, aprender de cor e privacidade. De outra forma, é impossível viver uma grande obra. Até porque as grandes obras são, geralmente, muito difíceis, exigentes. Querem algo de nós. Lêem-nos mais do que nós as lemos.

Shakespeare utilizava 24 mil palavras. Num estudo muito recente, pela companhia telefónica americana Bell, o total de palavras usadas por 90 dos americanos ao telefone é de 150 palavras.

Entrevista exclusiva de George Steiner à revista Ler

3 comentários:

Anónimo disse...

"Eu sou muito velho, mas tento, todos os dias, ou quase todos, aprender um poema, ou fragmentos de um poema, de cor, porque é assim que se agradece uma bela obra. Que outra maneira tenho eu de agradecer a Dante, a Cervantes, a Lope de Vega ou a Shakespeare?" :)))) gosto ainda mais em versão lata: não viver um único dia sem aprender. Obrigada, vou mesmo comprar!
M.

Anónimo disse...

Adoro o George Steiner, já leram o livro dele «A ideia de Europa» ou «O Castelo do Barba Azul»?
Vale a pena.
Pepper

G. Varino disse...

That's it... nothing more, nothing less.. sheer perfection...