Quase tudo à tua volta te afasta do conhecimento de ti próprio.
Tens de pelejar a quase todo o instante para seres tu.
Em determinados contextos, tens de agir assim - e tu não és assim.
Em determinados locais, tens de parecer assado - e tu não és assado.
Com determinadas pessoas, tens de ter muitas defesas.
No mercado de trabalho, tens de criar uma persona.
(Se és líder, não podes dar a entender que tens um átomo de dúvida sobre qualquer coisa.)
Tens de sorrir de piadas de que não gostas.
Tens de ser hipócrita por vezes.
Tens de - terrível palavra - te adaptar ao «mundo real».
Tens de casar, ter filhos, uma carreira.
Tens de mentir - nem que sejam mentiras piedosas.
Nem te apercebes de que mentes - mas mentes sempre que não és tu. O pior de tudo é que para aceitares que não vives na ditadura da sociedade, mentes-te a ti próprio. Se apetecer cantar no meio da rua, fá-lo-ás? Se te apetecer usar um vestido e fores homem, fá-lo-ás?
Não serão os loucos os que se adaptaram? E os lúcidos os que se libertaram.
Ok, esquece toda esta conversa. Bem te ouço: «isso é um extremo».
Mas não achas que dia após dia, deves rasgar um pouco a máscara?
Dizer: não gosto, gosto - vindo de alma e sem medir consequências. Sentir-te-ás mais próximo do orvalho da tua alma.
Não mentires - sobretudo a ti próprio. Não digas a ti próprio que esse é o teu trabalho de sonho, se é apenas o menos mau que arranjaste. Não digas a ti próprio que é o parceiro ideal se lutas para amar aquilo que tens.
Procura afastar o ruído das vozes dos outros dentro de ti e escutar a voz soterrada da tua alma. Deixa-a falar. Dia. Tarde. Noite. É a coisa mais cristalina à face da Terra.
Não te preocupes com os outros acharão - aproxima-te do teu eu. Descobre-o e vive-o. Ninguém é infeliz quando é ele próprio sem medo.
Não te limites a ficar feliz com a descoberta da camada superficial - vai descascando, descascando, descascando até à polpa.
(Há tantas cortinas nebulosas em torno da tua alma - vejo-te e espanto-me. Não conheces sequer um dos quartos a partir do segundo piso...)
É uma batalha comprida. Foi uma vida inteira a tentares corresponder às expectativas dos outros - e não a procurares conhecer-te. Foi uma vida inteira a seres condicionado para o que deverias ser. O único julgamento que importa é o teu. A necessidade de reconhecimento é o corolário do desencontro entre a tua máscara e o teu eu.
Procura os fantasmas no sótão. Reflecte todos os dias em que és tu - longe da prisão dos outros, do que é suposto seres, do que durante anos e anos assimilaste acriticamente. Liberta-te, semana a semana, do fardo de não poderes seres tu.
Rasgarás assim todos os dias um centímetro da máscara que envolve o teu coração. Caminharás para seres livre.
quinta-feira, fevereiro 10, 2011
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1 comentário:
Obrigada pelo incentivo. Obrigada por seres grilo falante, obrigando-me a ouvir a voz soterrada da minha alma. Obrigada...
V.
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