sexta-feira, janeiro 07, 2011

Foda-se a património da Humanidade


Um dia os meus olhos cruzaram-se com um título sedutor: Fuck it. Naquele breve instante desejei-o e quando saí da Fnac já o possuía (ou ele possuía-me a mim?).
Às vezes, gostava de o mencionar entre amigos. Contudo, um dia falhei redondamente como o Pedro Abrunhosa falhou o degrau do palco dos Ídolos, tornando o João Manzarra num herói nacional entre os defensores da expressão que parece ter proferido. Estava a jantar com uma amiga e, por brincadeira, mostrei-lhe o livro. Ainda hoje me flagelo! Como é possível ter esquecido que pelos seus lábios não passava tal palavra? Invocava que não usava o termo porque para si foder era bom, porquê usá-lo com um sentido pejorativo? Se fosse qualquer outra pessoa a recorrer a essa argumentação, eu aceitaria de bom grado, mas vindo da boca de alguém que pouco fodera na vida perdia toda a credibilidade.
Esta conversa acesa fez-me, no entanto, questionar sobre a origem da afamada imprecação, arriscando apontar o conceito de foder entre as primeiras palavras do mundo, desde que o Homem é Homem e se lembra de ter existido, muito anterior à mais velha profissão do mundo.
Foder, do latim vulgar (até o latim era ordinário) futere, veio a assumir dimensões ligeiramente mais eufemísticas, assentes na urgência do uso da expressão em contextos mais melindrosos. Quem não desabafou já a sua ira com um perfeito fónix ou mesmo um fosga-se? E mais, quem não sentiu a necessidade incontrolável de seguir um foda-se de um caralho (ou vice-versa)? Em situação crítica, os companheiros leais de guerra são sempre os primeiros a ser invocados.
Entre os seus utilizadores contam-se respeitáveis trabalhadores das obras e chungas que andam a fazer pela vida não se sabe bem o quê, mas também adolescentes ávidos por abusar de todas as obscenidades possíveis ou o desgraçado do condutor que acabou de espatifar o carro contra um poste.
A alusão disfarçada ao termo no universo da música popular portuguesa foi também responsável por alguns sucessos no top das tabelas nacionais. Emanuel e o seu imortal tema Pimba Pimba ganhou proporções sobrenaturais desde Quim Barreiros, afirmando-se de tal maneira que passou a adjectivar um estilo musical e a adornar as palavras dos bajuladores de rua à passagem de moças casadoiras.
Foder tem a potencialidade de ser coisa boa, já dizia a minha amiga, mas se a mulher do vizinho andar a dormir com o melhor amigo do marido, o novo estatuto a que o acto da cópula da mulher traidora elevou o marido acaba por ficar sem eficácia. Por outro lado, o uso do pronome reflexo em fodeu-se não significa propriamente que um indivíduo ou uma indivídua se tenham masturbado, mas sim que alguém se colocou numa situação fodida cujo mentor terá sido o indivíduo em questão.
Indiscutível é, sem dúvida, a catarse resultante da verbalização sentida (ou mesmo sofrida) do termo, quase semelhante ao momento pós-coito. Por isso, nada melhor que proferi-lo ou realizá-lo apoteoticamente como o verdadeiro antídoto contra o stress que o senso comum concordante lhe atribui. Foda-se – interjeição de um sentimento transformado em palavras, ou foder – verbo que impele à realização de uma acção por parte do sujeito, são, sem complexos, o património da Humanidade a que todos recorremos nos momentos mais necessitados.

SUSANA DUARTE MARTINS

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