quarta-feira, janeiro 19, 2011

Descrição de uma luta

Foi na escola primária. Uma luta que demorou horas. Eu contra o Bruno Pereira. A luta não terminou. Não houve KO. Mas sei que lhe ganhei por pontos. E sei que ele era mais forte do que eu.

Puxar de cabelos, agarrar a cabeça, pontapés, empurrões. (Éramos miúdos, não trocámos socos.)

Lutámos, lutámos, lutámos.

Foram horas e horas. Houve duas pessoas que assistiram à luta completa. (Estávamos num recanto da escola, os contínuos não nos viam.)

Ele ordenou-me que lhe comprasse um gelado e eu recusei. Ele aproximou o peito dele do meu e eu automaticamente bati-lhe. (Agarrei-o pela cabeça.)

Sei que lhe queria bater há muito. Confesso que tinha medo de que ele me desse uma sova. Mas, ao mesmo tempo, sei que esperava um pretexto para andar à pancada com ele.


(Foram tantas horas de luta. Acabámos por cansaço mútuo.)

Eu não gostava do Bruno Pereira.

- I don´t like you - disse-lhe num inglês muito limitado e sem sotaque, a meio da luta, imitando um filme que vira.

O Bruno Pereira era a «obviedade machista» (como dizia o Bukowski), o-tenho-a-mania-que-sou-bom-porque-sou-mais-forte-do-que-os-outros-e-tenho-mais-estilo. Engraçado, ainda hoje, ao lembrar-me da cara dele, sinto a química hormonal de qualquer coisa que está contra os antípodas do meu fundo mais interior.

O Bruno Pereira falava das meninas como de bonecas utilitárias. Era porco a descrevê-las. Impunha, pelo medo, a sua vontade - especialmente aos mais fracos. «Como são inultrapassavelmente soezes aqueles que martirizam os mais fracos», escreveu Chessman.

Continuo a não gostar de brunos pereiras, tal como na escola primária. Apenas substituí o punho pelo verbo.

1 comentário:

Anónimo disse...

... podes sempre dar-lhe com os dicionários dos "verbos" aqueles assim para o mais gordo, bem no meio dos Kronos!!!!!

P.S. é mesmo Kronos em grego para não ferir a susceptibilidade das almas mais frágeis!!!!