sexta-feira, janeiro 07, 2011

Formatá-los desde pequeninos.

Dei por mim a folhear livros do secundário. É engraçado ver como os adolescentes aprendem agora. É engraçado ver duas coisas:

a) o ensino está hoje objectivamente mais facilitado. as coisas são dadas mais pela rama, pela superfície;

b) é engraçado ver como se passa uma ideologia.

Sobre a alínea b):

Quando somos mais novos, não nos apercebemos de que o que nos ensinam possa ser questionado. Mais velhos, temos um exército de defesas, adquiridos pelo conhecimento, que nos permite filtrar.

Li um livro de Economia. Fiquei assustado ao pensar na quantidade de jovens que assimilarão acriticamente o que lhes impingem.

Os mercados funcionam na perfeição e qualquer intervenção estatal prejudica o equilíbrio! Que bonito! Mas isso é um paradigma dentro da Ciência Económica.

A Ciência Económica é uma ciência social, tem autores que defendem A, outros B, outros C, outro D. É, contudo, apresentada nos livros do secundário como sendo una, esquemática, linear. E una - claro está - pelo lado da economia neoliberal. A verdade é que cada economista produz sua sentença.

Os postulados «Os agentes económicos são racionais e os mercados equilibram-se» são bonitos, mas não são uma verdade absoluta.

Herbert Simon [nome importantíssimo da Ciência Económica, mas totalmente omisso] desmantelou-os.

À partida, parece lógico que os agentes económicos sejam racionais. Se tu vais a uma pastelaria comer um pastel de nata por 0,80 € e ao lado há uma pastelaria com pastel de nata igualmente saboroso a 0,60€, acabarás por ir à pastelaria do lado.

Herbert Simon explicou que não era assim. Primeiro, porque os agentes têm uma informação limitada. Eu não sei qual o preço e a qualidade de todos os pastéis de nata de Lisboa, nem sequer do meu bairro. Por outro lado, o ser humano age mais por emoção do que pela razão (verdade cada vez mais demonstrada pela neurociência). Não, os agentes não são racionais, agem muitas vezes movidos por impulsos irracionais.

Pondo em causa a premissa de que os agentes económicos são racionais, a conclusão foi desfeita: os mercados equilibram-se.

É claro que convém à ideologia dominante, aos bancos que pagam IRC a uma taxa inacreditável que as cabecinhas não conheçam nem Simon nem Keynes.

2 comentários:

Anónimo disse...

Concordo que as matérias possam ser abordadas de uma forma mais superficial, mas não concordo que esteja facilitado... Penso que o ensino neste momento valoriza muito a capacidade de auto-direcção do aluno, e confia que todos a têm... o problema é que muitas vezes isto não acontece, pelos mais variadíssimos motivos, desde a desmotivação perante tudo o que exija uma reflexão mais aprofundada até à falta de apoio familiar.
De qualquer forma não me parece que esta ideologia esteja errada, pelo contrário... os hábitos de pesquisa e trabalho criam-se desde cedo, e como tal, parece-me correcto que os alunos sejam, desde "pequeninos" habituados a aprofundar os seus conhecimentos sem uma mão directiva por trás.

Em relação ao ponto b): sim, concordo que se passam ideologias, contudo, também se fomenta a capacidade critica (não tanto como se desejaria), mas também depende muito do professor e do manual escolhido para a disciplina.
Não creio que haja uma conspiração contra o socialismo nas aulas de economia do secundário. Referem que o estado não deveria interferir num mercado de concorrência perfeita, mas é óbvio que o Estado deverá intervir, em defesa do consumidor, em situações de concorrência monopolística (monopólios e oligopólios)e em situações de concorrência estrangeira muito forte (ainda que na minha opinião esta segunda intervenção deveria ter um carácter temporário e novas soluções deveriam ser encontradas para resolver este problema).

Em relação ao Herbert Simon, não creio que seja assim tão omisso, já que foi Nobel da Economia em 1978, e também não concordo que este tenha desmantelado os tais postulados da economia. Penso que os evoluiu. Na minha interpretação, entendo que Simon criou uma fusão entre Adam Smith (razão) e Freud (afectividade e emoção), desenvolvendo a teoria da racionalidade limitada (não encontramos a solução óptima pois desconhecemos todos os factos, contudo procuramos racionalmente uma solução satisfatória). Assim, não desmantelou, acrescentou.

Joana

Fernando Sousa Silva disse...

Concordo, genericamente, com o que dizes, legitimado pela minha própria experiência, como sabes. Mas se - como dizes, e bem! -a ideologia infelizmente perpassa (o que é eticamente questionável) o facto é que pedagogicamente é dificil transmitir uma outra visão que não seja linear. Recorda-te da idade dos destinatários e do facto de que o objectivo pedagógico é a assimilação de conceitos básicos. Será pedagogicamente eficaz tentar mostrar que sobre o mesmo fenómeno social poderá haver várias explicações? Apesar de ser esse o caminho mais correcto, tenho algumas dúvidas.
Outro aspecto que gostaria de referir é a minha recente descoberta da Economia Comportamental e a investigação dos processos psicológicos subjacentes às decisões económicas. Reconheço que ando fascinado com o assunto!
Abraço,

Fernando