quarta-feira, janeiro 12, 2011

CANTO DE MIM MESMO (O MAIOR DE TODOS OS POEMAS)

Celebro-me e canto-me,
E aquilo que assumo tu terás de assumir,
Pois cada átomo que me pertence, por assim dizer, pertence-te,

[...]

Fica comigo este dia e esta noite e possuirás a origem de todos os poemas

[...]

Sei que sou imortal,
Sei que esta minha órbita não pode ser traçada pelo compasso de um carpinteiro,
Sei que não vou desaparecer como a figura de fogo que uma criança à noite faz com um archote.

Sei que sou majestoso,
Não atormento o meu espírito para que ele se justifique ou seja compreendido,
Vejo que as leis elementares nunca pedem perdão.

[...]

Existo como sou, e isso é suficiente,
Se mais ninguém no mundo o sabe, fico satisfeito,
E se cada um e todos o sabem, fico satisfeito.

Há um mundo que o sabe e é de longe o maior para mim, porque sou eu mesmo,
E se alcançar o que é meu no dia de hoje ou daqui a dez mil ou dez milhões de anos,
Posso com alegria aceitá-lo agora, ou com igual alegria posso esperar.

Aquilo em que me apoio está bem seguro e cravado em granito,
Rio-me daquilo a que chamas dissolução,
E conheço a amplitude do tempo.

[...]

Desaparafusem as fechaduras das portas!
Desaparafusem as próprias portas das ombreiras!

Quem quer que avilte um outro homem avilta-me a mim,

[...]

Sou divino por dentro e por fora, e torno sagrado o que quer que toque ou me venha a tocar,
O odor destes sovacos é um aroma mais delicado do que uma oração

[...]

Sol magnificente, não preciso do teu calor - fica onde estás!
Apenas iluminas superfícies, eu penetro superfícies e também os abismos.

[...]

Quando me dou, dou-me por inteiro.

[...]

São horas de me explicar - vamos pôr-nos de pé.

[...]

Até agora esgotámos triliões de Invernos e Estios,
Há triliões à nossa frente, e à frente destes mais triliões.

[...]

A humanidade foi criminosa e invejosa para contigo, meu irmão, minha irmã?
Lamento-o, comigo não foi nem criminosa nem invejosa,
Todos têm sido amáveis comigo, não dou importância a lamentações.
(Que tenho eu que ver com lamentações?)

Sou o cume das coisas realizadas e o receptáculo do que há-de vir.
Os meus pés tocam o vértice dos vértices das escadas
[...]
Percorri devidamente todos os que estão em baixo e ainda subo e continuo a subir.

Conforme subo, os fantasmas inclinam-se atrás de mim

[...]

Nenhum dos meus amigos se instala na minha cadeira,
Não tenho cadeira, nem igreja, nem filosofia,
Não conduzo ninguém à mesa de jantar, à biblioteca, à Bolsa,
Só te conduzo a ti, homem ou mulher, a um outeiro,
A minha mão esquerda aperta-te a cintura,
A minha mão direita assinala a paisagem dos continentes e o passeio público,
Nem eu nem ninguém pode percorrer por ti este caminho,
Deves percorrê-lo por ti mesmo.
Não fica longe, está ao teu alcance,
Talvez tenhas andado por ele desde que nasceste e não o saibas,
Talvez fique em toda a parte, na água e na terra.
Carrega os teus farrapos, meu filho, e eu carregarei os meus, apressemo-nos,
Chegaremos a maravilhosas cidades, chegaremos às nações livres.
Se estás cansado, deixa-me levar os fardos, e põe a tua mão na minha anca,
E no devido tempo hás-de retribuir-me,
Pois já que partimos nunca poderemos descansar.
Hoje, antes do alvorecer, subi uma colina e olhei os céus e as constelações,
E perguntei ao meu espírito: Quando abraçarmos essas orbes, quando tivermos o prazer e o saber de quanto nelas há, sentir-nos-emos realizados e satisfeitos?
E o meu espírito respondeu: Não, se alcançarmos esses cumes é só de passagem, é só para continuar mais além.

[...]

Mais vale ser imoral do que virtuoso por conformismo ou medo

[...]

Ensino a afastarem-se de mim, mas quem se pode afastar de mim?
Quem quer que sejas, sigo-te desde este momento,
As minhas palavras hão-de atormentar-te os ouvidos até as compreenderes.

[...]

Se quiseres compreender-me vai para as alturas ou para a praia,
O mosquito mais próximo é uma explicação, e uma gota ou um movimento das ondas uma chave

[...]

Eu também não fui domesticado, eu também não sou traduzível,
Lanço o meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo.

[...]

Se me quiseres de novo procura-me [...]
Dificilmente saberás quem sou ou o que significo
Todavia serei para ti a saúde
E filtrando o teu sangue dar-te-ei vigor

Se à primeira não me encontrares, não desanimes,
Se não estiver num lugar, procura-me noutro,
Algures estarei à tua espera.

Walt Whitman

3 comentários:

Anónimo disse...

Há algum tempo que procurava o que, uma vez, me deste a ler, e que gostei tanto. Obrigada. :-)

V.

Pulha Garcia disse...

Excelente. Um dos meus preferidos. Temos que arranjar um bar para irmos ler estas pérola em voz alta. À Bukowsky.

(Mas eu sei que já percebeste isto)

Anónimo disse...

:)) bem-vindo