terça-feira, dezembro 21, 2010

Quando leio um livro e vejo um filme que me captam o interesse, mergulho inteiramente numa realidade-outra.

Descobri recentemente que estou sempre a torcer pelo narrador-personagem quando a história é contada na primeira pessoa. Nos filmes, a mesma coisa. Estou do lado do personagem principal.

É curioso. Pode ser o tipo mais perverso. Mas estamos - ou estou - sempre do lado dele.

Se o ladrão-personagem-principal vai roubar, nós torcemos para que a Polícia não o apanhe.

Não é um lado obscuro nosso. Não. É a familiaridade.

Podemos não justificar tudo, mas compreendemos tudo pelo seu ângulo - a sua cabeça torna-se na nossa.

No filme O Condenado, eu estava do lado do pedófilo.

Uma amiga minha, assistente social em prisões, dizia que, ao conhecer os piores bandidos, fica sempre solidária com eles. Conhecia-os, sabia a história de vida - tornavam-se parte de si. Um dia, disse-lhe: «Pensa então que se conhecesses a história de todos eles, não verias nenhum com raiva.» O monstro é uma categoria vista de fora.

É por isso que nós, de fora, não percebemos como amigos nossos toleram determinados defeitos num amigo particular, ou no seu parceiro ou parceira.

É a familiaridade.

5 comentários:

Anónimo disse...

"É por isso que nós, de fora, não percebemos como amigos nossos toleram determinados defeitos num amigo particular, ou no seu parceiro ou parceira."

pois... e quem está de fora não percebe nem as acções do gajo que faz merdas inenarráveis nem a paciência da pessoa que o atura...

já falei contigo acerca do assunto, para se conseguir tolerar quem atura o inenarrável, há que ter um pouco de compaixão.

mas a familiaridade, como tu a classificaste, é muito, muito difícil de aceitar em inúmeros casos, uma pessoa está moldada pelos seus princípios e há tantas coisas que parecem desumanas... a vida é fodida.

serrasantos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
serrasantos disse...

Nos patinhas, havia um personagem que era o Morcego Vermelho (o alter ego do Peninha). Numa luta com os irmãos Metralha, numa corda entre dois edificios, em que ambos se equilibravam, com as pessoas a assistirem do chão, alguém diz - Estranho, estou a torcer pelo Bandido... Espero que ele ganhe!

Tinha uns 15 anos quando li isto e fez-me pensar. Quando li o teu post pensei imediatamente nesta reminiscência.

Nos filmes eu sou igual. Nunca torço pelo "mocinho", 'tou sempre pelo vilão. Acho que é uma forma de expressar a minha perversidade.

Anónimo disse...

... sabes Luisinho (por causa da BD ... Huguinho, Zézinho e Luisinho)que todos temos um lado perverso, uns mais desenvolvido, outros menos!
O meu, neste momento deve estar "recalcado", mas posso dizer-te que é perverso à séria ... talvez pela época natalícia, a que não dou muita importância, mas pronto, aqui vai o desejo um bom Natal para ti e para a tua 1/2 dose!
E por ser para ti, que ficas "afectadinho" com os anónimos" até vou assinar.
H

serrasantos disse...

Cara H, "afectadinho" não ficarei, até porque nunca gostei de diminutivos. Mas gosto do seu "fair play". E você já sabe que gosto de si. Da sua fleuma. Desarma-me. Retribuo os votos de boas festas. Mas lembre-se: os melhores natais são os perversos.. São os únicos que ficam na memória. Como aliás, tudo o que é perverso.

Também gosto de forplay ; )