segunda-feira, dezembro 20, 2010

O tempo do medo



«O presente está grávido do futuro.»
Leibniz

«O medo come a alma.»
Fassbinder

Os sinais estão à vista e não nos apercebemos. Normalmente, é assim: conseguimos interpretar o passado, mas não o presente — porque este tomba-nos de todos os lados a todo o instante, assassinando a pausa necessária para a reflexão.
O mundo actual é muito rápido. Nunca tivemos tantos estímulos. Tanta informação e tanta falta de rigor da mesma. Tanta democratização do lixo. Tanta rapidez na mutação tecnológica. Uma taxa de crescimento populacional tão célere. Uma tal indefinição das ideologias, tornadas obsoletas e trituradas pela Realidade cada vez mais indecifrável.

Deixem-me que vos fale do filme V. for Vendetta. Acredito que nele se encontra algo do mundo porvir (e não estou a falar de um futuro longínquo).
Porquê?

Porque ele soube identificar aqueles que são os mecanismos subtis de totalitarismo do mundo hodierno. O nazismo tem hoje uma componente residual, o comunismo como o conhecemos não voltará, as teocracias não penetrarão o mundo ocidentalizado; pelo que o totalitarismo, a regressar ao mundo dito democrático, terá um rosto diferente do conhecido no passado.
Qual?

Em meu entender, será um totalitarismo que se desenvolverá dentro da democracia. Com instituições ditas democráticas, com eleições livres, com os monumentos formais do Estado de Direito Democrático intactos. Mas, ainda assim, um totalitarismo.

Voltemos ao filme. V. profetiza o desabrochar das plantas do terror cujas sementes já estão debaixo da terra. Começa com uma voz assustadora do governo que manda todas as pessoas recolherem às suas casas a partir de determinada hora, porque a cidade está cada vez mais perigosa. Este ponto é fulcral.


Nunca, como agora, nos quiseram inculcar tanto medo. Medo da criminalidade, medo das doenças, medo das crises. Os jornais e a televisão são veículos do medo. Não comas isto, não comas aquilo, espirra para o cotovelo, olha o radar, baixa a velocidade, põe creme 8.0, o sol mata, fumar mata, a ASAE quer luvas para partir o pão, os produtos tradicionais não são esterilizados, não os comas, as crianças hoje não podem ter um arranhão, qualquer dia levamo-las em sacos esterilizados à escola para não serem contaminadas (outro dia, li que elas estão mais vulneráveis a um conjunto de doenças porque não ganharam imunidades).
O medo, o medo, o medo. Um povo com medo aceita a Ordem, aceita a Dominação, aceita que lhe segurem a mão trémula e o levem onde quiserem. No filme, o governo forjava actos de terror. O grupo terrorista x envenenou um grupo de pessoas. Inventavam isto para lançarem o medo e unirem as pessoas em torno do Estado, o guardião contra o Mal, a Iniquidade e a Criminalidade. O filme mostra como é fácil abdicar das liberdades individuais quando todos estão debaixo do signo do medo.
Associado ao medo, dizem os psicólogos, está sempre o terror do desconhecido. No filme, o medo do desconhecido, ou se preferirem do diferente, manifesta-se numa exacerbada islamofobia. Muito recentemente, o povo suiço votou favoravelmente em referendo uma lei discriminatória dos imigrantes apenas defendida por um partido de extrema-direita. O imigrante é alguém que tem características diferentes de nós, que não conhecemos, que queremos longe das redondezas do nosso lar, que até pode ser mísero, mas que sempre é um reduto de segurança.
Quando há violência juvenil e grupal a crescer mais de 400% em poucos anos, quando há cada vez mais desemprego, quando podemos cair na bancarrota a qualquer instante; a única coisa que as populações desejam é segurança e estabilidade. O meio ambiente sadio, a liberdade, a fruição da cultura (a política cultural pesa no voto de alguém?), a privacidade (já houve alguma manifestação contra o facto de sermos filmados diariamente em todas as esquinas?); as garantias dos cidadãos tornam-se produtos de luxo, abstracções intangíveis de poetas ou intelectuais. O medo suga tudo.

3 comentários:

Anónimo disse...

De facto, também já pensei que há por aí uma política de obscurantismo, no mínimo na educação. E falo especificamente sobre o tema que é mais a «minha praia» - o ambiente. Alguém sabe, por exemplo, quais os problemas da extinção dos morcegos? Ou de outras espécies?
O desconhecimento provoca o medo, e o medo acções desajustadas, que nos permitem ser levados como carneiros para um lugar supostamente seguro...

V.

Anónimo disse...

Lembrei-me do George Orwell e do seu 1984.
Pepper

Anónimo disse...

Counting bodies like sheep
To the rhythm of the war drums

I’ll be the one to protect you from your enemies and all your demons
I'll be the one to protect you from a will to survive and a voice of reason
I'll be the one to protect you from your enemies and your choices son
They're one in the same, I must isolate you…
Isolate and save you from yourself...

A Perfect Circle

Joana