quarta-feira, dezembro 15, 2010

O meu primeiro livro

É um título diferente. Pode querer dizer várias coisas. Será acerca do primeiro que me deram, do que li antes de qualquer outro, do que cronologicamente escrevi antes? Não, estas linhas versam sobre o que chegou mais cedo às lojas. Tenho de salientar aqui a importância da minha editora, Piropo, que assumiu um papel de musa inspiradora mesmo sem saber.

Chamo-me Miguel Estêvão Pato, e tenho que falar um pouco acerca de mim, antes de contar qualquer outra coisa. Tenho um lema de vida, que me ajuda a ultrapassar o cinzento no quotidiano.

"A melhor maneira de lidar com a estupidez humana é utilizando o sentido de humor" - costumo dizer que não me quero deitar a pensar que devia ter insultado a mãe, as filhas e o canário do gajo que me tratou mal, prefiro gozar com ele, na medida do possível, e rir-me.

Foi a pensar no meu lema de vida que comecei a escrever. Não escrevo há uns tempos, tenho andado virado para outras hostes, mas quero adormecer com um sorriso nos lábios, mas esta história, ao ser um amontoado de erros crassos de dimensão razoável, tinha que passar para o papel, para tentar não me esquecer de nada.

Tudo começou muito bem. Recordo com alegria a chamada da coordenadora editorial. O livro tinha sido aceite, e tal notícia chegou até mim numa voz suave e radiofónica. Tinha que comprar 194 exemplares, numa tiragem de 500. Eles tratavam da divulgação, da distribuição e do lançamento.

Fiz a capa do livro e, quando impresso, vi que tinha ficado ainda mais bonito, o que foi uma nova alegria. A última, até à data.

Aí, começou o processo de divulgação do lançamento. O designer estava de férias, tive sorte, e pude fazer um belo cartaz. Só que ele voltou do descanso antes do tempo, e já foi ele a tratar dos convites. Optou por uma solução sóbria e feia, defendida com unhas e dentes.

Piropo: "Gosta?"

Miguel Estêvão Pato: "Não. Não pode mudar aquele cinzento para preto, pelo menos?"

Piropo: "Não! Quer convites ou não?"

Miguel Estêvão Pato:"Bom, já que as coisas são postas de uma maneira tão simpática, venham eles!"

Curiosamente, acabei por usar os convites, mas impressos por mim. Os deles nunca mais chegavam, e tive que gastar mais dinheiro para conseguir convidar pessoas a tempo. Também imprimi vários cartazes, já que na editora só me iam dar cinco.

Os dias iam passando, o dia do lançamento estava a aproximar-se, e recebo uma chamada a dizer que afinal tinha havido uma alteração nos convites. Tinham ficado ainda piores! Tinham saído com um erro de impressão, e corrigidos com um papel colado por cima,. Arranjo esse, aliás, digno de um miúdo de 12 anos.

Acabei por só ter os convites e os posters da editora comigo no dia do próprio lançamento…

No dia do lançamento vi que a divulgação não tinha corrido assim tão mal. A casa estava cheia… O que me aborrece, no que toca ao dia do lançamento, é que eu conhecia todas, todas, todas as pessoas que lá estavam… (excepto uma empregada nova, cuja presença será da responsabilidade do dono do estabelecimento...)

Eles iam tratar da divulgação e do lançamento… Trataram do lançamento, sim, os livros vendidos eram deles, e não dos 194 livros que tive que comprar...

Entretanto, já dei uma entrevista internética, à "Novos Livros", quase que me sinto um gajo conhecido, o escritor em ascensão que quero ser, a receber interesse por parte de um órgão de comunicação… Ena, e como é que surgiu esta entrevista?, perguntariam vocês. Claro que não foi através da editora Piropo, mas através dos meus conhecimentos, mas quase que já se adivinhava.

Mas melhora…

Hoje foi um dia fantástico. Não acordei muito bem-disposto, mas fui-me despachar para fazer uma viagem de 300 km para ir para uma apresentação do livro que estava marcada há mais de um mês. O lançamento tinha sido na minha cidade, esta sessão seria na cidade da editora, onde eu não conheço ninguém… Aqui, obviamente eles teriam que levar os potenciais compradores, a quem venderiam a minha obra. Isso, se a editora funcionasse bem, seria uma coisa simples e óbvia. Mas não, tinham-me dito há uns dias que, por problemas de distribuição, eu tinha que levar dos meus 194 livros. Havendo duas hipóteses, ou eu perdia mais de 2€ por livro, por ter que pagar à livraria, ou então emprestava os livros necessários.

Nem uma coisa, nem a outra… Eu levei os livros, fui carregado, gastei cerca de 40€ em portagens e não sei bem quanto em gasóleo (tentei pedir um apoio ao Bin Laden, mas o gajo não liga nenhuma à cultura…), para dar o autógrafo que me saiu mais caro até à data. À única pessoa que apareceu, a responsável da editora, que tinha gostado do livro. Não apareceu mais ninguém, e voltei a conduzir para casa os tais 300 Km…

No que toca a gastos, tenho que admitir que houve uma coisa boa. Tenho que dar apenas mais informação acerca de mim, eu sou um cafeinómano frenético, e na terra deles o café foi mais barato.



Nota do autor:

Quaisquer comparações entre "Miguel Esteves Pinto" e "Miguel Estêvão Pato", tal como entre "Papiro" e "Piropo" são erros, e serão feitas de má fé. Este é um texto humorístico. O autor gosta de gozar com a estupidez. Qualquer um deles.

1 comentário:

serrasantos disse...

É triste ver o panorama da grande maioria das editoras. No lançamento do teu livro, caro Estevão Pato, membros da tua editora abriam as suas longas asas e procuravam como abutres famintos, por novos talentos da escrita na plateia, oferecendo facilidades a quem quisesse publicar um livro. Lendo as entrelinhas, procuravam Patos que pagassem desde logo toda a impressão e comprassem livros suficientes para dar desde logo lucro à Piropo. Tu tens muita gente com o teu apelido, caro Estevão. E eu a pensar que Silva era o mais comum. Curioso também o facto da Piropo só publicar livros dos Pato..

O que é feito das editoras do antigamente, que muito rígidas, só publicavam o que realmente achassem bom? Com muitas injustiças pelo meio também, porque os critérios de avaliação serão sempre subjectivos, pelo menos alguém publicado poderia dizê-lo com orgulho - Fora escolhido! E ganharia dinheiro, claro! Mas até nisto a lei de mercado funcionava. Sendo a editora a assumir o risco da publicação do livro, com todos os custos associados, faziam uma boa campanha de divulgação. Era do interesse da editora. No caso actual coloca-se todo o ónus da venda no autor. Claramente é um negócio leonino, usando um jargão económico.

Como fazer então?

2 hipóteses (entre muitas outras).

Uma avançada pelo Sr. João, aqui da Tasca: Concorrer a concursos literários e ganhar. Com isso consegue-se uma edição patrocinada pela editora.

A segunda hipótese: MANDAR À MERDA
as editoras e começar por publicar gratuitamente o primeiro capítulo, ou vários, no modo online. Se o leitor gostar, irá certamente comprar o resto do livro, também em versão digital.

Como fazê-lo: A Amazon aceita que enviem o vosso livro (em texto), converte-o para o Kindle (o seu aparelho electrónico de leitura), disponibiliza o primeiro capítulo de graça a quem quiser ler e mete um preço sobre o restante. O escritor recebe uma comissão de cada livro vendido.

Também se pode converter o livro em aplicação para smart phones como o iPhone, ou o iPad e colocá-lo à venda na Apple Store. Pode-se colocar alguns capítulos de graça e o livro total para venda.

Todos nós gostamos de livros impressos, palpáveis. Eu gosto. Mas este é um dos futuros que já está em prática.

Neste modo, não gastamos nada, talvez recebamos algum dinheiro e acima de tudo, divulgamos o livro. Melhor que dar de comer a abutres..