domingo, dezembro 26, 2010

Corpo habitado

Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.

Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.

Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.

Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.


Eugénio de Andrade

2 comentários:

Anónimo disse...

Obrigada. Adorei.
H

Anónimo disse...

Não é noite nem dia,

observo, com surpresa,

em toda a natureza

uma triste alegria.

Repara bem que paradoxo no ar,

que dolorosa orgia

em que a alma peca com vontade de chorar!

O meu amor por ti é uma noite de lua,

em que há quanto prazer, em que há tortura quanta,

em que a alegria chora, em que a tristeza canta,

em que, sem te possuir, sou toda tua...

O meu amor por ti é uma noite de lua,

misto de ódio e paixão com que repilo e quero

todo o teu ser do modo mais sincero,

fugindo-te e sonhando, a cada instante,

palpitante

de gozo

meu corpo amado e amante

ao teu abraço cálido e nervoso.

(Florbela Espanca)

Lua