Corpo habitado
Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.
Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.
Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.
Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.
Eugénio de Andrade
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2 comentários:
Obrigada. Adorei.
H
Não é noite nem dia,
observo, com surpresa,
em toda a natureza
uma triste alegria.
Repara bem que paradoxo no ar,
que dolorosa orgia
em que a alma peca com vontade de chorar!
O meu amor por ti é uma noite de lua,
em que há quanto prazer, em que há tortura quanta,
em que a alegria chora, em que a tristeza canta,
em que, sem te possuir, sou toda tua...
O meu amor por ti é uma noite de lua,
misto de ódio e paixão com que repilo e quero
todo o teu ser do modo mais sincero,
fugindo-te e sonhando, a cada instante,
palpitante
de gozo
meu corpo amado e amante
ao teu abraço cálido e nervoso.
(Florbela Espanca)
Lua
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