segunda-feira, dezembro 20, 2010

CAVACO, O HOMEM QUE SÓ SERIA PRESIDENTE EM PORTUGAL



«Como é que nos vemos livres dos funcionários públicos? Reformá-los não resolve o problema, porque deixam de descontar para a Caixa Geral de Aposentações e, portanto, diminui também a receita do IRS. Só resta esperar que acabem por morrer.»

Cavaco Silva discursando em 2 de Março de 2002, durante uma conferência na Faculdade de Economia do Porto.

Em Portugal, os media não confrontam os políticos com as suas promessas eleitorais. São omissos na análise do (in)cumprimento das metas inscritas nos programas eleitorais. Convém recordar o que Cavaco disse aos portugueses aquando da sua candidatura às presidenciais de 2006.
O professor de Economia, tranquilamente sentado no seu lar, sobressaltara-se com a notícia do crescimento económico de 0,3% para o seu país, especialmente quando os países de Leste que tinham aderido recentemente à UE estavam a «crescer 5% ao ano, em média». Perante este cenário, o craque tinha de voltar a jogar. Ao contrário de nós, embrutecidos e apáticos, ele «não se resignava».
Só um homem com o seu conhecimento, experiência e virtudes pessoais poderia impedir que Portugal se tornasse na cauda da UE. Cavaco descobriu que era esse homem e assim se apresentou ao país. De caminho, inventou essa coisa exótica da «cooperação estratégica com o governo», para a qual manifestamente não tinha poderes, e ainda assegurou os Portugueses de que iria «apresentar ideias de combate ao desemprego», seguramente geniais e registadas na Sociedade Portuguesa de Autores.
Cinco anos volvidos sobre este anúncio do mago da Economia (que mais parecia candidatar-se a primeiro-ministro do que a Presidente da República), julgo que não valerá a pena falar do estado do país e, em particular, do desemprego. De resto, como salientou André Freire, o Presidente-Mago-da-Economia nunca vetou quaisquer políticas socioeconómicas. Ao invés, o seu veto incidiu sobre questões culturais ou, se preferirem, de costumes. Na lei das uniões de facto, na lei da paridade (se calhar, para Cavaco, os países nórdicos é que são atrasados), na lei do divórcio; Cavaco tomou sempre a opção ideológica mais conservadora. No caso da lei do «casamento» dos homossexuais, fez uma figura tristíssima, tentando agradar à esquerda e à direita, e desagradando a ambas. «Face à grave crise que o País atravessa, importa promover a união dos portugueses e não dividi-los. A minha atenção está noutros problemas!» É difícil lembrarmo-nos de uma declaração de um chefe de Estado mais triste do que esta. A não ser que nos recordemos das comunicação solene, vazia e abstrusa que fez por causa de uma desconfiança paranóica de umas escutas.
Pergunte-se ao maior cavaquista se o perfil de Cavaco é mais executivo ou presidenciável. Cavaco não tem espessura histórica, cultural e humana para ser Presidente da República. O enfoque dos seus entusiastas foi sempre: um homem de obra, de acção.
Nas alturas em que tinha de ser firme, foi tíbio, nunca deixando contudo de ser mesquinho. Sobre o escândalo do BPN que envolvia os seus comparsas, não disse um monossílabo. Sobre as reformas de que o país necessita, não deu a conhecer um esboço de uma ideia. Sobre a gravíssima questão do Orçamento, passou por cima, dando uns ralhetes de pai velho e compreensivo às traquinices dos meninos que o discutiam. Quando condecorou aqueles que contribuíram para a entrada de Portugal na União Europeia, esqueceu-se de Soares (nisto, até o cavaquista Pacheco Pereira o criticou). Quando Saramago morreu, não compareceu por causa de uma promessa de «mostrar as belezas dos Açores» aos netos. Cavaco tem toda a legitimidade para não gostar nem de Soares nem de Saramago (a quem o seu governo censurou a candidatura de um livro), mas devia saber estar à altura do cargo e deixar os seus rancores de estimação de lado.
Cavaco não se assume. Não toma partidos. É equidistante de tudo e de todos. Só a si se protege. Depois de ser primeiro-ministro, deixou que a derrota recaísse inteirinha sobre Fernando Nogueira, desaparecendo totalmente de cena. Quando escreveu (o homem, coitado, só sabe metaforizar a partir da ciência económica) no Expresso, dias antes de Sampaio exonerar Santana Lopes, que, tal como a boa moeda expulsava a má moeda, os bons políticos deveriam expulsar os maus políticos, disse, sem que ninguém acreditasse, que o seu texto nada tinha que ver com Santana. Ninguém entendera o literato.
Este «professor» que confunde o dia de Camões com o dia da Raça, que não sabe quantos cantos têm Os Lusíadas; este político com 10 anos de primeiro-ministro e 5 de Presidente da República nos últimos 25 anos sem qualquer responsabilidade no estado actual das coisas; este economista sem sensibilidade social que optou pelo desenvolvimento do Betão, que respondeu a manifestações de estudantes e condutores com cargas policiais, que chamou forças de bloqueio às forças democráticas, que deixou Portugal como líder das desigualdades sociais e da sida e rei da parolice do novo-riquismo, que comia bolo-rei de boca aberta para evitar responder a jornalistas seria Presidente num país dito desenvolvido?
Em que é que este homem autoritário, hirto, inculto, desprovido de humor, cobarde, tecnocrata, paroquial e rancoroso, em que é que esta ressurreição de um Salazar democrático mas boçal nos pode ajudar? Francamente, não o sei.

2 comentários:

Anónimo disse...

e o ideal era o alegre?!

http://anjomitico.blogspot.com/2010/06/o-desertortraidor-de-portugalmanuel.html?spref=fb

Maria João disse...

E o irónico disto tudo, é que esse senhor será eleito para mais 5 anos de marasmo.