terça-feira, novembro 30, 2010

Haverá actos inapagáveis?
Há anos e anos que falo neste nome: David Villa.
O moralista é o patrão da consciência alheia.

José Alberto Braga
Toda a arte aspira à condição de música.

Walter Pater

The Kiss

Kiss me kiss me kiss me
Your tongue is like poison
So swollen it fills up my mouth

Love me love me love me
You nail me to the floor
And push my guts all inside out

Get it out get it out get it out
Get your fucking voice
Out of my head

I never wanted this
I never wanted any of this
I wish you were dead
I wish you were dead

I never wanted any of this
I wish you were dead
Dead
Dead
Dead

The Cure

segunda-feira, novembro 29, 2010

Quando a austeridade sem mais se transforma no programa de governo, o desespero torna-se num generalizado sentimento nacional.

Manuel Maria Carrilho

Já traíste em pensamento?



(e depois ela conta-lhe da fantasia com o oficial da marinha)
Dos pecados mortais, só a inveja e a cobiça podem ser dignos do nome (e sem o adjectivo). Propostas para os outros cinco: crueldade, corrupção (desonestidade), indiferença, traição (no sentido lato) e, claro está, ingratidão (talvez o pior juntamente com a crueldade).
- Angel, o altruísta morreu de sede depois de ter todos os rios do mundo.

- Angel, uma pessoa para se dar contigo é preciso um tratado.

- Angel, és uma criança idealista.

- Angel, és um etêzinho que tenta remar sozinho contra a maré.

Pois é, continuo a magoar-me com amigos que partem para uma vida-de-carreira-e-filhos sem tempo para amizades.

Continuo a mandar-para-o-caralho quem só liga quando precisa de um favor, por mais mascarado que esteja, por mais perguntas sobre como-estás, por mais subtilezas e artefactos de «tenho pensado em ti», «ainda ontem era para te ligar».

Continuo a irritar-me com amigos que só me utilizam para conhecerem pessoas (mulheres, quase sempre).

Continuo a achar que dou muito mais do que recebo.

Continuo a detestar que violem a intimidade dos outros à minha frente - quem conta segredos ou pseudo-façanhas-sexuais.

Continuo a não suportar, a não compreender, a não aceitar que haja alguém corrupto.

Continuo a não tolerar quem é sabujo e bajulador para os de cima e autoritário e negligente para os de baixo.

Continuo a não entender o valor da beleza, do estatuto e do dinheiro na cabeça de tanta gente. Foda-se.

Continuo a ficar doente com pequenas desatenções ao sofrimento alheio.

Continuo a não entender como alguém pode não cumprir a palavra.

Continuo a querer bater em quem combina coisas e não aparece, sem aviso ou justificação.

Continuo a ficar nauseado perante o egoísmo de quem só quer falar sem ouvir, não reparando quando atropela verbalmente o seu interlocutor, deixando as suas ideias por comentar - não as ouvindo pura e simplesmente.

Continuo a eliminar pessoas que dizem mal nas costas de outrem e, quando na presença desse outrem, escolhem como alvo de críticas o outrora depositário da maledicência.

domingo, novembro 28, 2010

Dinis Machado escreveu que nada faz mais barulho do que o estilhaçar de um ídolo. Deveria haver um vocábulo (numa língua qualquer) para nomear o sentimento que fica depois de percebermos que a pessoa que amámos-ou-tanto-admirámos nunca existiu. É um vazio tão vazio.
- Não o amo, mas não consigo viver sem ele. É o hábito, a rotina... Então no Inverno, dói tanto não ter alguém para estar sob a mesma manta.
É estranho a Igreja defender a monogamia quando o exemplo que vem de Deus é o pluriamor. Deus ama-nos a todos. Então como poderá ser pecado amar duas mulheres ou dois homens?
Paixão, amor, atracção, tão poucas palavras para tantos sentimentos e tantos tipos de relações. Cada sentimento por alguém de quem se gosta merecia um nome diferente

sábado, novembro 27, 2010

74% dos jovens elege Internet como meio favorito para comunicar.

Agência Financeira

sexta-feira, novembro 26, 2010

Linguagem económica, ok, mas então porque não «q» [que] em vez de «k» e «c» [com] em vez de «k»?
Ela 1 foi rebelde toda a vida. De esquerda, de cabelo azul, de companhias «alternativas». Passados uns anos, começou a trabalhar e a ganhar muito dinheiro. Hoje, aos trinta, diz que só quer um homem ao seu lado que lhe possa garantir «estabilidade material». «Mas, Angel, claro que só posso ter um homem que tenha pelo menos o mesmo rendimento que eu para podermos ter uma vida equilibrada.» Recordo-lhe os tempos da sua juventude. «Tu és mas é maluco?, mas que futuro é que um gajo que vive liricamente me pode oferecer? Nesta idade da vida, temos de fazer projectos e planos com algum cálculo. É a realidade, Angel.»

Ela 2 sempre quis viver na Natureza, «ter muitos filhos», viver numa comunidade que lhe fizesse lembrar os hippies , longe da sociedade tecnológica e mercantilista. «Fiquei tão revoltada comigo quando comprei televisão para a minha casa», disse-me há 2 anos. Hoje, trabalha muito, tem uma indumentária e um penteado diferentes (mesmo fora do trabalho), e afirma que não se pode dar com as pessoas de nível inferior no trabalho porque se não, deixa de ser respeitada. Deixando de ser respeitada, perde a credibilidade. Perdendo a credibilidade, perde a «capacidade de mostrar projectos que convençam os colegas». Praticamente só fala de trabalho. Há pouco tempo, disse-me: «Essa malta das artes nunca concretiza nada. É só ideias abstractas, só coisas sem sentido prático.»

quarta-feira, novembro 24, 2010

Mais vale tomares uma decisão errada do que viveres uma vida preso a um dilema.

terça-feira, novembro 23, 2010

Não gosto do homem, mas a frase é boa:

Coragem é manter a graça sobre pressão.

EH
- Ando com a alma a mil à hora.

Scared as you

all those things that made you cry
i didn't really mean that stuff
i didn't really mean that stuff
all i ever really mean
when i scream and shout the way i do
is i don't know
i really don't
i'm just the same as you

you know those things i said
all those things that made you
run away from me
i didn't mean a word
i didn't really mean i don't believe
all i ever really mean
when i rant and rave the way i do
is i'm scared
i'm scared
i'm just as scared as you

and sometimes it's so hard
not to just throw it all away
sometimes it's so hard
not to just throw it all away
like all those things i said
all those things that made you cry
i didn't really mean that stuff
i didn't really mean to say goodbye

you know those things i said
all those things that made you
run away from me
i didn't mean a word
i didn't really mean i don't believe
all i ever really mean
when i scream and shout the way i do
is i'm scared
i'm scared
i'm just as scared as you

The Cure

segunda-feira, novembro 22, 2010

A amizade é, dentro das parcelas mais importantes da vida, a mais subestimada. Na arte, fala-se muito do amor e pouco da amizade. Na vida quotidiana, dizemos: azar ao jogo, sorte ao amor. (A amizade fica de fora.) Dizemos que alguém teve um desgosto amoroso, mas não um desgosto de amizade. Falamos em alguém «traumatizado» com mulheres ou com homens, mas não com amigos. «Orientou-se na vida» expressa sempre a ideia de «arranjar um parceiro». «El@ deixou-me» tem sempre no subtexto: El@ = um(a) namorad@. Dizemos que alguém é solteiro, mas não temos vocábulo para alguém que é órfão de amigos (algo bem mais doloroso).

As palavras «perda», «rejeição», «ciúme», «possessividade», «conquista», «reconquista», «abandono» (até «trocad@») deveriam aplicar-se também à amizade.


- Tens namorad@?

poderia um dia ser substituído aqui e ali por:

- Tens amig@?

Ter um só amigo com A é raro. Raro, nobre, belo.
A vivência de Deus e do Amor são as duas únicas experiências totalizadoras. Não é por acaso que alguém sabiamente as uniu: Deus é Amor.

sábado, novembro 20, 2010

Na vida só há um modo de ser feliz. Viver para os outros.

Tolstoi

sexta-feira, novembro 19, 2010

Palavras Intraduzíveis

Razbliuto (Russo)


O afecto que ainda se sente por alguém que algum dia se amou

quinta-feira, novembro 18, 2010

Scott Fitzgerald escreveu que aquilo de que normalmente nos envergonhamos dá uma boa história e que se tens algo a perguntar a alguém, fá-lo a escritor. Porque um escritor tem uma opinião sobre praticamente tudo. O escritor, explica, é muitas pessoas.

Transcrevendo poemas que não estão na Internet

A beleza em cada ser é uma alegria eterna:
o seu encanto torna-se maior e nunca se há-de perder
no nada; reservar-nos-á ainda um refúgio
de paz, onde adormeceremos, habitados por sonhos
suaves, uma íntima plenitude, uma respiração branda.
Comecemos, assim, a tecer em cada manhã
uma grinalda de flores para nos unirmos à terra,
apesar do desalento, da ausência daqueles
cuja nobreza amávamos, dos dias cheios de escuridão,
de todos os caminhos insalubres e misteriosos; sim, apesar de tudo
uma forma de beleza afasta o sudário das nossas almas sombrias.
[...]os límpidos rios
que para si criam um dossel de frescura
durante as estações ardentes
[...]

idem
Onde a Beleza perde o olhar lustroso,
Ou o Amor se gasta no dia seguinte.

Para longe! Eu desejo voar contigo,
Não guiado por Baco, e seus convivas,
Mas nas invisíveis asas da Poesia,
Mesmo que a mente se atrase confusa:
Estarei contigo! Terna é a noite!
E afortunadamente a Rainha-Lua está no seu trono,
Cortejada por suas brilhantes Fadas;
Mas aqui não há luz
Excepto a que vem do céu trazida pela brisa
Em penumbras e trilhas sinuosas.

Keats

quarta-feira, novembro 17, 2010

CANÇÃO DA ESTRADA LARGA

Desta hora em diante, ordeno a mim mesmo que me liberte de limites e linhas imaginárias,
E, como meu próprio senhor total e absoluto, caminharei para onde eu quiser,
Ouvindo os outros, considerando bem o que eles dizem,
Parando, investigando, recebendo, contemplando,
Gentilmente, porém com irrecusável vontade,
Despindo-me dos embaraços que me poderiam entravar.
Sorvo grandes tragos de espaço,

O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul também me pertencem.

Sou mais extenso, melhor mesmo do que pensava,
Não sabia que havia em mim tanta bondade.

Tudo me parece belo,
Posso repetir a homens e a mulheres, pois tanto bem me tendes feito que eu gostaria de fazer o mesmo a vós,
Recolherei para mim mesmo e para vós, quando caminhar,
Disseminarei-me-ei entre homens e mulheres quando caminhar,
Espalharei uma nova alegria e rudeza entre eles,
E se alguém me negar, isso não me preocupará,
Pois quem quer que me aceite será abençoado e me abençoará

Walt Whitman
Tenho lido os “poemas mudados para português”
por Herberto Helder [HH] no livro a que
chamou O Bebedor Nocturno. Logo no “mudados
para português” se vê que está bem
escrito, acima das velhas desculpas e falsas
modéstias das traduções e das traições.
É uma obra maior, que ensina que não se pode aprender
a escrever. Mas ver escrever bem já é bem suficiente.
Nos Quinze Haikus Japoneses que mudou para português,
HH escolheu um de Kikaku que Bashô depois corrigiu.
Kikaku escreveu:
“Libélula vermelha./Tira-lhe as asas:/um pimentão.”
Segue-se a “Correcção de Bashô”:
“Pimentão vermelho./Põe-lhe umas asas:/Libélula.”
A correcção é gigante. O original pega numa coisa bonita
(a libélula) e tira-lhe um acessório (as asas) para mostrar
que é parecida com uma coisa feia (um pimentão).
Bashô e HH mostram que é melhor transformar uma
coisa banal (pimentão) numa coisa mágica (libélula),
dando-lhe asas. É melhor acrescentar do que remover,
fazer pensar do que fazer troça.
A libélula não precisa de ser vermelha ou de adjectivo
sequer – é das cores do arco-íris. Já o pimentão tem de
ser vermelho, porque há verdes e amarelos.
Depois, é melhor a indefinição de “umas asas” (quaisquer)
do que “as asas” (daquela única libélula). Como
voa mais a maiúscula da única palavra da terceira linha
(“Libélula.”) do que as minúsculas de “um pimentão”.
A nossa língua renasceu.

Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, novembro 15, 2010

Dinosauria, we

born like this
into this
as the chalk faces smile
as Mrs. Death laughs
as the elevators break
as political landscapes dissolve
as the supermarket bag boy holds a college degree
as the oily fish spit out their oily prey
as the sun is masked

we are
born like this
into this
into these carefully mad wars
into the sight of broken factory windows of emptiness
into bars where people no longer speak to each other
into fist fights that end as shootings and knifings

born into this
into hospitals which are so expensive that it's cheaper to die
into lawyers who charge so much it's cheaper to plead guilty
into a country where the jails are full and the madhouses closed
into a place where the masses elevate fools into rich heroes

born into this
walking and living through this
dying because of this
muted because of this
castrated
debauched
disinherited
because of this
fooled by this
used by this
pissed on by this
made crazy and sick by this
made violent
made inhuman
by this

the heart is blackened
the fingers reach for the throat
the gun
the knife
the bomb
the fingers reach toward an unresponsive god

the fingers reach for the bottle
the pill
the powder

we are born into this sorrowful deadliness
we are born into a government 60 years in debt
that soon will be unable to even pay the interest on that debt
and the banks will burn
money will be useless
there will be open and unpunished murder in the streets
it will be guns and roving mobs
land will be useless
food will become a diminishing return
nuclear power will be taken over by the many
explosions will continually shake the earth
radiated robot men will stalk each other
the rich and the chosen will watch from space platforms
Dante's Inferno will be made to look like a children's playground

the sun will not be seen and it will always be night
trees will die
all vegetation will die
radiated men will eat the flesh of radiated men
the sea will be poisoned
the lakes and rivers will vanish
rain will be the new gold

the rotting bodies of men and animals will stink in the dark wind

the last few survivors will be overtaken by new and hideous diseases

and the space platforms will be destroyed by attrition
the petering out of supplies
the natural effect of general decay

and there will be the most beautiful silence never heard

born out of that.

the sun still hidden there

awaiting the next chapter.


Charles Bukowski
Nenhum dos meus amigos se instala na minha cadeira,
Não tenho cadeira, nem igreja, nem filosofia,
Não conduzo ninguém à mesa de jantar, à biblioteca, à Bolsa,
Só te conduzo a ti, homem ou mulher, a um outeiro,
A minha mão esquerda aperta-te a cintura,
A minha mão direita assinala a paisagem dos continentes e o passeio público,
Nem eu nem ninguém pode percorrer por ti este caminho,
Deves percorrê-lo por ti mesmo.
Não fica longe, está ao teu alcance,
Talvez tenhas andado por ele desde que nasceste e não o saibas,
Talvez fique em toda a parte, na água e na terra.
Carrega os teus farrapos, meu filho, e eu carregarei os meus, apressemo-nos,
Chegaremos a maravilhosas cidades, chegaremos às nações livres.
Se estás cansado, deixa-me levar os fardos, e põe a tua mão na minha anca,
E no devido tempo hás-de retribuir-me,
Pois já que partimos nunca poderemos descansar.
Hoje, antes do alvorecer, subi uma colina e olhei os céus e as constelações,
E perguntei ao meu espírito: Quando abraçarmos essas orbes, quando tivermos o prazer e o saber de quanto nelas há, sentir-nos-emos realizados e satisfeitos?
E o meu espírito respondeu: Não, se alcançarmos esses cumes é só de passagem, é só para continuar mais além

Walt Whitman
Não digam a ninguém
ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA

«Foi assim: ninguém tinha o telefone do Herberto Helder, eu só sabia o nome da rua porque tenho muita dificuldade em decorar números. Foi então que a Clara propôs irmos à procura do poeta na rua que eu tinha. Só havia dois prédios de habitação. Um deles era quase uma torre e tinha um painel de campainhas. A Clara tocou numa delas ao acaso. Daquela gradinha de rede veio uma voz. «Quem é?». A Clara perguntou se era da casa do poeta Herberto Helder. «Mas quem é?». Ela disse o meu nome. Então a porta abriu-se e nós subimos. A Olga estava à entrada da casa. Eu gosto muito da Olga, primeiro por ela e depois porque nos toma conta do Herberto. Digamos que ele faz parte do nosso Património e ela é a Conservadora. Eu disse-lhe baixinho - Olga, o Herberto ganhou o Prémio Pessoa, são sete mil contos. Como é que isto vai ser?

Ela fez-me uma cara de conformação e só com um gesto de cabeça fiquei a saber que ele não ia aceitar.

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério: - Vimos numa díficil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Voçês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que vocês sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu eu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito. Eu só lhe disse: - Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais...

A Clara falou muito com ele porque ambos gostavam de se conhecer. Ela sabe fazer conversas inteligentes como se fossem banais. A certa altura viemos embora com alguma comoção por dentro e desabafámos no carro:

- Já ninguém faz isto...

- Todos ganhámos este prémio. Quando a regra é a procura de dinheiro, é bonito que um homem pobre dê exemplos assim.

Eu, confesso que passou pela cabeça de um bocadinho de mim que ele pudesse aceitar o prémio. Sempre eram sete mil contos. Talvez uma segurança até ao fim da vida. A verdade é que quase me apeteceu voltar atrás e pedir-lhe desculpa por este «mau pensamento». Mas eu era um homem feliz: o Herberto não nos deixou ficar mal...»

domingo, novembro 14, 2010

Obrigado, Sofia

Dançando ao som do orvalho
És barco despertando as palavras
Que vivem no sangue jovem
Diz que há luz nas moradas dos cegos
E rompe de paixão a terra
Com esse teu desejo de nascer sol
Já é dia e o teu corpo anseia
Abrir as conchas
Deixa que o Verão que vive em ti
As abra e enche-te de doçura
Sonhas o voo aberto das velas
Navegando até à canção da liberdade
Semeada pelo vento

Sofia Leal

sábado, novembro 13, 2010

- Estou a fazer o download da minha alma para este livro.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Transcrevendo poemas de livros (poemas que não estão na Internet)

Ode a uma urna grega

Tu, noiva inviolada da tranquilidade
alimentada pelo silêncio e por um lento passado,
rústica historiadora que nos podes dizer um conto
florido e mais belo que todos os nossos poemas:
cercada de folhagens, que lenda preenche o teu contorno
de deuses ou mortais, ou de ambos, através de Tempe
ou pelos vales da Arcádia? Que homens
ou que espécide de deuses? Que donzelas esquivas?
Que perseguição desesperada e que luta para fugir?
Que flautas e tambores? Que Êxtase impetuoso?

As canções que ouvimos são suaves, mas atraem-nos
ainda mais
as que não escutamos: continuai pois, melodiosas flautas,
o vosso ritmo. Não para o ouvido corpóreo: mais íntimas,
entoai para o nosso espírito as canções silenciosas.
Sob uma árvore, formoso adolescente, não podes deter
o teu canto, nem estas árvores perder as suas folhas.
E tu, amante ousado, nunca conseguirás dar o teu beijo
ainda que permaneças sempre tão próximo; mas não sofras,
ela não há-de envelhecer e, apesar de não possuíres a
felicidade,
continuarás a amá-la, olhando para sempre a sua formosura.

Felizes, felizes ramos que não podeis abandonar
as folhas, nem jamais exprimir a despedida da Primavera;
e tu, músico ditoso e infatigável,
que todos os dias vens tocar canções sempre novas.
Feliz, feliz amor, amor tão venturoso,
para sempre ardente e calmo para que fosse possível
realizar-se; para sempre anelante e juvenil,
assim ficaste aquém de toda a paixão humana
que deixa um coração saciado e cheio de tristeza,
uma fronte ardente e mais secos os nossos lábios.

Que cortejo é este que caminha para o sacrifício?
A que ara tão verde, misterioso sacerdote,
conduzes este novilho que lança os seus mugido
para o céu, e tem cobertos de grinaldas os flancos lustrosos?
Que pequena cidade junto dum rio ou na margem do mar,
ou sobre um monte, com a sua tranquila cidadela,
se despovoou, nesta manhã piedosa?
Conservar-se-ão para sempre, pequena cidade, as tuas ruas
silenciosas; e ninguém, que saiba explicar-nos
porque ficaste assim abandonada, poderá regressar.

Ó curva ática, perfeito equilíbrio - friso
de homens e mulheres inscritos no mármore,
com ramagens dum bosque e ervas que os pés calcaram.
Tu, forma do silêncio, que vens atormentar o pensamento
como a eternidade; tu, pastoral inerte!
Quando a velhice chegar para consumir a nossa geração,
continuarás a ser, cercada por outras angústias,
a companheira do homem a quem hás-de dizer:
«A beleza é verdade, a verdade é beleza.» Apenas isto
é tudo o que sabes e precisas de saber na terra.

Keats
Confrontai com a vossa personalidade todas as personalidades da Terra.

ibidem
Ensino a afastarem-se de mim, mas quem se pode afastar de mim?
Quem quer que sejas, sigo-te desde este momento,
As minhas palavras hão-de atormentar-te os ouvidos até as compreenderes.

Walt Whitman
- Angel, porque é tu, que acreditas em tanta coisa intangível, não acreditas no amor eterno?
Dá-te a conhecer devagarinho. Mantém sempre uma reserva de mistério. Deixa-te saborear lentamente e faz o mesmo com o Outro. Não sejas sôfrego na tua curiosidade. Não queiras viver tudo num só dia. Retarda ao máximo o dia em que a qualquer frase ou história ou anedota te digam:

- Já sei.
Não te limites a cultivar as amizades, cultiva também as inimizades. Nunca sejas neutro.
Acho que sou boa pessoa porque celebro com as vitórias de 95% das pessoas. Aos meus inimigos, não lhes desejo felicidade. Desejo-lhes que mudem de rumo. Celebro as suas derrotas. Mas se estiverem numa situação de sofrimento extremo, esticar-lhes-ei a mão. E dispenso que vejam o meu rosto.

Imaturidade emocional

... é achares que uma pessoa pode ser interessante 24 horas por dia durante 365 dias consecutivos.
... é apaixonares-te bimestralmente.
... é acreditares que um desgosto da amor é eterno.
... é não saber ser queres ou não queres estar com aquela pessoa meses a fio.
... é andares com alguém por teres medo de não arranjares mais ninguém (há tantas mulheres, há tantos homens no mundo).
... é dizeres «eu amo-te» no primeiro beijo.
... é abdicares de todas as dimensões da vida por uma pessoa.
... é idealizares sem fundamentos sólidos.
... é teres relações escoradas em bom sexo.
... é achares que a cabeça deve comandar o coração.
... é achares que a cabeça não deve interferir no coração.
... é seres muito calculista na escolha do parceiro.
... é não seres nada racional na escolha do parceiro.
... é teres medo do amor.
... é renderes-te à paixão.
... é confundires atracção com paixão.
... é acabares irreversivelmente com alguém porque viste uma troca de mensagens dúbia.
... é anulares a tua personalidade e teres uma relação fusional.
... é abdicares totalmente da amizade em prol do amor.
... é não perceberes que o amor degenera numa amenidade.
She said:

- Estava a tomar banho e pensei que já não ia alimentar mais nada em relação a ele. E quando desligava a água, foi estranho, vi a água a ir pelo ralo e vi-o a ele a desaparecer pelo ralo. Olha até disse a uma amiga minha: o Caramelho [alcunha] foi pelo ralo.
Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são o refúgio de vozes murmuradas
De noites em repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável…
Oh, não perguntes “Qual será?”
Vem lá comigo fazer a tal visita.

[...]
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho nas vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam na sarjeta,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.

Haverá por certo um tempo
Para o fumo amarelo que desliza pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá um tempo, tempo
De compor um rosto para olhares os rostos que te olharem;
Tempo de matar, tempo de criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias, de mãos
Que se erguem e te deixam cair no prato uma pergunta;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para cem indecisões
E outras tantas visões e revisões
Antes de tomar o chá e a torrada.


Haverá por certo um tempo
De pensar se corro tal risco. “Corro tal risco?”
[...]
Vou correr o risco
De perturbar o universo?
Num só minuto há tempo
Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.

Pois já as conheço todas bem, conheço todas –
Sei as noites, as tardes, as manhãs,
Às colheres de café andei medindo a minha vida;
Sei que em breve agonia se esvaem as vozes
Abafadas na música de um quarto mais além.
Como havia eu de ousar, assim?

E já conheço os olhares, conheço todos –
Olhares que te reduzem a fórmulas e a dizeres

T. S. Elliot

quarta-feira, novembro 10, 2010

«I am as bad as the worst, but, thank God, I am as good as the best.»

Walt Whitman

Sábado, dia 13, sem custos nem marcações

Este sábado, vamos falar sobre O que é escrever bem?, sob a orientação de Manuel Monteiro, formador de Revisão de Textos na nossa Escola, e seus convidados.

Marque na sua agenda: próximo dia 13, entre as 19h e as 20h30. Este encontro é para si e a entrada é livre!

Se precisa de razões para marcar presença, nós damo-las:

1. Está a chover lá fora!
2. Sem custo, sem marcação, terá direito a conhecer erros frequentes da língua e aprenderá a nunca mais usá-los.
3. Terá direito a gargalhadas. Serão exibidos vídeos que o porão bem-disposto (a).
4. Assistirá a um debate sobre o que é escrever bem, conhecendo diferentes pontos de vista.
5. Poderá trocar ideias e expressar-se livremente sobre os seus sonhos de escrita e os seus livros favoritos.
6. Se a escrita e a língua nada lhe dizem, apareça para beber um moscatel, comer uns aperitivos e conhecer pessoas num sítio com uma vista privilegiada.

Para o deixar já a pensar sobre o que é escrever bem, deixamos aqui um comentário de António Lobo Antunes: http://www.youtube.com/watch?v=qc6B2i2V--M.


Sendo o encontro de porta aberta, não é necessário confirmar presença e não há lugares reservados. Por isso, seja pontual para garantir a sua cadeira.

Com este evento estreamos o nosso primeiro Escrever à Conversa, uma iniciativa que pretendemos realizar uma vez por mês, sempre com temas e formadores convidados diferentes.

Até sábado!

E o fundamentalista da Língua sou eu?

«Quatro em cada dez alunos do 6.º ano não foram além de duas respostas totalmente correctas em nove no domínio do "Conhecimento Explícito da Língua" na Prova de Aferição.»

Público

Metonímias

«Os chineses ainda vão tomar conta disto, vais ver. E olha que os gajos são fodidos», ele disse.

Muitas vezes, emprestamos as características de um regime a todo um povo que vive subjugado por esse mesmo regime.

Os africanos são uns ladrões. (Não são os governos que estão apodrecidos de corrupção e nepotismo.)

Os muçulmanos uns fanáticos. (Não são as teocracias que não separam o Estado da Religião, que humilham os direitos humanos e secundarizam a mulher.)

Os chineses, como é lógico, são uns exploradores.

Além de terem de viver sob regimes opressivos, de serem vítimas, determinados povos ainda têm de carregar o estigma dos pecados dos ditadores que não elegeram. Nascessem noutro sítio. Era tão simples.

O segredo

Não contava o segredo a ninguém - não, isso não era um segredo. Se alguém o sabia, não podia ser um segredo.

O segredo habitava - não, o segredo não tinha morada.

Se alguém o visse... (mas se ele não se podia ver?)

O segredo nem sequer se podia nomear.

Se alguém o tocasse, desfar-se-ia ele ou aquele cujas mãos lhe tocassem?

O segredo, no fundo, no fundo, no fundo, nem existia de tão secreto que era. (Era precisamente nessa condição inexistente que ele gostava que o vissem. Para que não o descobrissem?)

segunda-feira, novembro 08, 2010

Des(irman)(empreg)ados

O país (e o mundo) atravessam uma crise de efeitos não subestimáveis. Claro que os mais fracos são quem sofre sempre mais nestas alturas. Quem tem pouco passa a ter quase nada. Ou nada mesmo em países que dispensam os serviço de protecção social, passando a viver da caridade alheia.

Dos grupos excluídos (idosos, pobres, imigrantes, etnias minoritárias), o dos desempregados sempre foi um dos que mais me tocou.

O desemprego é terrível. Conheço pessoas desempregadas e sei o quão falso é o estigma de «só não tem trabalho, quem não quer». Conheço pessoas cujo emprego é procurarem emprego. Sim, a procura de emprego pode ser um full-time. Conheço pessoas que enviaram já duzentas vezes o currículo sem sucesso. Conheço pessoas que passam o dia ver empregos na Internet. Conheço pessoas que vão a entrevistas e que lhes dizem (é ilegal, mas e então?): só aceitamos até 35 anos. Conheço pessoas que percorrem o país, numa itinerância de viagens com custos que têm de suportar sem dinheiro, mais os portes de correio (não se poderiam isentar os desempregados de pagarem o correio quando enviam currículos?), mais os almoços fora.

Outro dia, num círculo de pessoas que se iam auto-apresentando (que mania esta de nós apresentarmos pela profissão), alguém disse:

- Sou desempregado.

Os olhares e os rostos em volta soltavam uma pergunta muda:

- Mas tu não serves para nada?

Os desempregados têm vergonha da sua condição. Escondem a sua condição. Inventam projectos que estão a fazer, empresas que irão criar, trabalhos-em-vias-de... num futuro sempre próximo. Cá são 10%. Em Espanha, são 25%. Mas os números não lhe retiram o estigma («marca infamante feita com ferro em brasa, aplicada antigamente a escravos e criminosos»).

A realidade não altera, de resto, o preconceito, essa coisa mais difícil de quebrar do que um átomo. A vox populis acha que o subsídio de desemprego é muito alto e que, no fundo, no fundo, no fundo, quem procura trabalho sempre alcança.

Basta ler as estatísticas. Basta ler sobre Economia. Nenhum livro - mesmo dos ultra-liberais na senda de Hayek e Friedman - deixa de apresentar a taxa de desemprego voluntário como sendo sempre residual.

Dentro dos desempregados, os voluntariamente desempregados são 2% em muitos livros. No máximo dos máximos, 5%.

E o pior de tudo é que os desempregados não têm sindicatos. Numa sociedade produtivista, eles são a principal doença: os que em nada contribuem para o crescimento económico, o novo Deus do século XXI.

Neste ponto, nem sequer consigo ser optimista antropológico, e deixo todo o meu rousseanismo de lado. Quando uma pessoa está na merda, as outras afastam-se. Não deveria ser ao contrário?

Desaparecimento de Luísa Porto

Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
à Rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada há longos anos
erma de seus cuidados.

Pede-se a quem avistar
Luísa Porto, de 37 anos,
que apareça, que escreva, que mande dizer
onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra,
morena, rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
Mãe entrevada chamando.

Roga-se ao povo caritativo desta cidade
que tome em consideração um caso de família
digno de simpatia especial.
Luísa é de bom gênio, correta,
meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.

Levava pouco dinheiro na bolsa.
(Procurem Luísa.)
De ordinário não se demorava.
(Procurem Luísa.)
Namorado isso não tinha.
(Procurem. Procurem.)
Faz tanta falta.

Se, todavia, não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e talvez encontrem.
Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.
Luísa ia pouco à cidade
e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.
Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,
é Rita Santana, costureira, moça desimpedida,
a qual não dá notícia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.

Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de Janeiro
que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.
Uma vez, em 1898
ou 9,
sumiu o próprio chefe de polícia
que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio
e até hoje.
A mãe de Luísa, então jovem,
leu no Diário Mercantil,
ficou pasma.
O jornal embrulhado na memória.
Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,
a pobreza, a paralisia, o queixume
seriam, na vida, seu lote
e que sua única filha, afável posto que estrábica,
se diluiria sem explicação.

Pela última vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem a moça, procurem
essa que se chama Luísa Porto
e é sem namorado.
Esqueçam a luta política,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso
de mãe em festa
e a paz íntima
conseqüente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho de alma.

Não me venham dizer que Luísa suicidou-se.
O santo lume da fé
ardeu sempre em sua alma
que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.
Ela não se matou.
Procurem-na.
Tampouco foi vítima de desastre
que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está viva para consolo de uma entrevada
e triunfo geral do amor materno,
filial
e do próximo.

Nada de insinuações quanto à moça casta
e que não tinha, não tinha namorado.
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei,
as ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
ou trazida por mão benigna,
o olhar desviado e terno,
canção.

A qualquer hora do dia ou da noite
quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos.
Não tem telefone.
Tem uma empregada velha que apanha o recado
e tomará providências.

Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a página:
Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
Deus lhe dirá:
Vai,
procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa (somos pecadores)
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas sua filhinha
que numa tarde remota de Cachoeiro
acabou de nascer e cheira a leite,
a cólica, a lágrima.
Já não interessa a descrição do corpo
nem esta, perdoem, fotografia,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum proverá.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos.
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocham seios e uma forma de virgem
intata nos tempos.
E de sentir compreendemos.
Já não adianta procurar
minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
cravada no centro da estrela invisível
Amor.

Carlos Drummond de Andrade
Abro uma revista Ler da década de 1990. A diferença é assombrosa, com prejuízo da modernidade. Assombrosa, repito.

Espreito a grelha televisiva - procuro programas culturais. Já não há «Conversas Vadias», nem programas de livros como no tempo dos dois e dos quatro canais, nem documentários profundos, nem debates profundos. A televisão é um lugar de belezocracia, futilocracia e ausência de pensamento absoluto.

Leio os «talentos emergentes». Fico horrorizado. Leio os jornais desportivos. Lembro-me de que antigamente se escrevia primorosamente nestes veículos. Lembro-me de que se falava de literatura neles, por exemplo.


Leio os novos críticos literários, os novos poetas, os novos cronistas. Meu Deus!

Leio uma entrevista do Pai Amaral, como lhe chama o meu amigo livreiro da Lácio. O homem que toma conta do maior grupo editorial português dá uma entrevista trajado de piloto da Fórmula 1, em que diz que «não conhecer» quem seja «Oscar Wilde» e que «literatura, poesia e filosofia não me interessam para nada».

sábado, novembro 06, 2010

Mulheres-tantalizantes

Conheço muitos homens que são vítimas do suplício de Tântalo.

Vão tomando cafés, a intimidade vai crescendo, mas o beijo nunca nunca aparece. (E, se aparece, nunca é a antecâmara da... flor-de-laranjeira.)

Não, eles não querem só isso. Eles apaixonam-se verdadeiramente por elas.

São vários os indícios de uma mulher-tantalizante.

Ela convida-te, mas quase sempre, à última hora, um imprevisto surge

Ela vive cumulada de atenções masculinas, mas garante-te que aquele a quem mais dá atenção é um amigo especial de longa data ou alguém em que não tem o mínimo interesse enquanto homem.

Ela cumprimenta-te, mas desaparece quando vais retribuir.

Ela aparece nos teus sonhos, mas sempre que a queres agarrar, ela desfaz-se como uma imagem feita de luz.

Fazes tudo por ela, mas ela garante-te que o problema entre vocês é que tu não a mimas o suficiente.

Tudo dizes noites a fio que a amas, dias a fio que a amas, tardes a fio que a amas, que a veneras, que precisas dela - mas ela persiste: tu não valorizas o meu ser, não me consideras intelectualmente, achas-me frívola e superficial.

Estás quase lá, estás cada vez mais perto de lá, estás mesmo à beira de... mas nunca chegas lá. E se chegas, ficas vicidado e louco, sequioso do veneno melífluo dos seus lábios, sem o qual não podes sobreviver.

E tu dizes-lhe isso e contas-lhe isso. E quando estás a prestes a fechar de vez a porta, uma última luz reacende-se sempre. Ela nunca te deixar perder totalmente a esperança.

Insistes, insistes, mas não percebes que só estás com ela quando, se, como e onde ela quiser.

Um dia, ela escolhe-te um cinema. Tu rejubilas de desejo. Um dia, ela escolhe-te uma breve estada em casa dela. Tu estás quase. Um dia, ela senta-se ao teu lado no sofá da casa dela. Um dia, ela senta-se sem centímetros entre vocês. Um dia, ela aproxima-te a maçã dos lábios, tu abres a boca e quando vais dar a dentada... (sabes o resto)

(ao menos tapa os ouvidos para não ouvires o riso)

Ainda assim, ela convencer-te-á de que não foi nada assim como tu descreveste. E voltará. E tu irás atrás.

O que não lhes passa pela cabeça é que possa haver um homem-tantalizante com as mesmas armas, os mesmo segredos e mais um - eterno, inconfessável, indescernível.

sexta-feira, novembro 05, 2010

E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade,
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande.


Maravilha fatal da nossa idade. Porra, Camões.


Maravilha fatal da nossa idade.


Maravilha fatal da nossa idade.
O mail mais estranho que alguma vez recebi só dizia:

todos os balões
golfinhos

A SMS mais estranha que alguma vez recebi só dizia:

Sonhei com portas que eram peras ao amanhecer.
Ser ético compensa sempre. Assumir o ponto de vista do Universo, descentramo-nos, e ver qual a melhor solução para , sem um acréscimo de valorização dos nossos interesses; isso é ser ético.

Quando somos generosos e honestos, temos mais amigos. Melhor dito: temos melhores amigos.

Quando damos, é mais provável que recebamos também.

Quando agimos de acordo com a ética, podemos dormir descansados. Melhor dito: podemos morrer descansados. Um sorriso dentro de nós não se desfaz.

A ingratidão, o rancor, a sensação de termos sido abusados - sim, tudo é isso é duro. Mas, a longo prazo, ninguém se arrepende do Bem que fez. Quando alguém se abeira da morte, o amor que deu nunca é passível de uma auto-censura. Pelo contrário: o desamor, o não-termos-feito-sentido-quão-importante ele ou ela era, o que podíamos-ter-feito-e-não-fizemos; isso sim, dói e magoa. Pesa.

A Medicina garante-nos que as emoções negativas fazem mal à saúde. A cólera e o rancor aumentam os problemas de estomacais e cardiovasculares. Entre muitos outros. Cada vez mais, são cientificamente comprovados os efeitos da bondade como benéficos para a saúde. Indivíduos que fracturam o pé e foram colocados a ver filmes sobre as atrocidades nazis demoraram muito mais tempo a recuperar da fractura do que indivíduos que visionavam filmes da Madre Teresa de Calcultá (se não gostam, pensem no Gandhi).

Mesmo em que profissões que só ambicionem o lucro, o bem compensa. Um vendedor só é é credível quando é honesto. Quando procurava casa, nunca acreditava naqueles que diziam maravilhas de todas as que me mostravam. Ao invés, quando um dizia: não viu as rachas na casa de banho? Esta casa está de costas para o Sol, reparou? - nesses raros casos, eu acreditava mais no valor do elogio. (Não devemos esbanjar o elogio, desacreditamo-lo.)

Ter ética é ter um sentido para a vida. É estar em sintonia com o Universo. É ter... um fim último para todas as coisas. É ter um mapa sempre no bolso. É ver que tudo na vida sem o guia da ética (ou do amor sob a forma de ágape) é desprovido de uma causa última.

Lutas por isso porquê? Porque sim. Porque sim? Para me divertir. Ou então: Porque a sociedade me diz que tem de ser assim.

Não.

Lutas por isso porque vais ao encontro da verdade última das coisas. Pela perspectiva mais ampla. As coisas não são um fim em si mesmo - têm um carácter instrumental, não final. Tu fazes as coisas para... Melhor dito: tu fazes as coisas por. Sabes a diferença? Não? Desconfio de que tens andado a dormitar a vida inteira. Deves ser daqueles: desde que não prejudique ninguém, faço a minha vidinha. Os propósitos da tua vida não servem todos eles um propósito maior? (Como ramos nascendo todos da mesma árvore?) Devo-te dizer-te: estás perdid@.


Tudo o que vives, tudo o que persegues, tudo aquilo de que usufruis, se for volátil na duração (sem daí sequer construíres uma memória perene), se não se repercutir positivamente no Outro - então, tudo isso é nada.

Já provocaste mais sorrisos do que lágrimas?



Angel

terça-feira, novembro 02, 2010

A coisa alguma deveria ser dado um nome, pois há o perigo de que esse nome a transforme.

Virgina Woolf
Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade.

Sócrates

É bom que a Direita pense nisto

O Pravda.Ru entrevistou 100 funcionários, cujos salários vão ser reduzidos. Aqui estão os resultados:
Eles vão cortar o meu salário em 5%, por isso vou trabalhar menos (94%).

segunda-feira, novembro 01, 2010

Che Guevara

Contra ti se ergueu a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra
De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas
Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece

Sophia de Mello Breyner Andresen
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira
As perguntas mais importantes nunca serão respondidas pela ciência: pode o amor durar para sempre? Há vida depois da morte? Porquê a vida? Para quê a vida?

Os fundamentos essenciais da sociedade nunca terão uma base racional. Como explicar o valor que devemos atribuir à liberdade? Como justificar a imperiosidade dos direitos humanos? (acabem a tortura, acabem a pena de morte, acabem o holocausto animal, a excisão do clitóris)

As coisas mais belas da vida nunca poderão ser mensuradas pela mais sofisticada das máquinas: qual a beleza deste poema? qual a grandeza deste livro? qual a celestialidade desta música?

quantos pontos tem a beleza dela?
No síto onde a maior parte das pessoas sai à noite, há muito ruído. Há mais gente em pé do que sentada. Há muitas bebedeiras sem poesia. Outrora foi um lugar de tertúlias. Dinis Machado dizia não o revisitar para que o passado nele vivido não embatesse violentamente com a realidade - monumento desagregado sem fragmentos do mundo em que ele viveu.

Antes, era palco de leituras de poemas, de conversas de Amor, Metafísica, Política. De perspectivas de construção de um mundo melhor. De esboços de sonho gisados contra o Estado.

Hoje, não há uma conversa que intercepte que não seja sobre uma frivolidade, uma gaja que se papa, um VIP que anda por ali a passar, uma histórica cómica a que não encontro graça. Não há ideias, há clichés, há cerveja-mais-barata-no-bar-tal, há a-não-sei-quantas-que-conhece-o-porteiro-ou-o-RP.

Hoje, quando passo lá, vejo grupos saídos da Laranja Mecânica vandalizarem ruas, cercarem os mais fracos (sempre os mais indefesos). Às vezes, nem roubam. Metem medo. Sentem poder. (Compreendo-os, não os justifico, mas compreendo-os. A sociedade desapossou-os de qualquer poder.)

À porta de um dos bares centrais, um grupo de amigas minhas foram apalpadas nos genitais a ponto de acordarem com dores no dia seguinte.

Um conhecido meu tinha uma cerveja na mão. Alguém puxou por ela. Instintivamente, puxou a cerveja. Cravaram-lhe uma pontimola na mão. Chamaram o INEM.

Noutra rua central, um grupo passou e impunemente despejou copos de cerveja na cabeça (dos mais indefesos, claro está) e queimou com pontas de cigarros caras.

À saída de um bar de Jazz, uma amiga minha aguardou «meia-hora» (sic) que uma chuva de pedras entre o grupo da rua de cima e o grupo da rua de baixo cessasse.

Sempre que lá vou (porque estou atento), ouço alguém ameaçar, insinuar uma provocação.

«Estás a olhar para mim, porquê?» - disseram a alguém que estava comigo.

Tenho a sorte de pesar 91 quilos, não ser baixo e conseguir fazer o olhar do Dexter. Mas, ainda assim, não me sinto seguro. Já tive um tipo que me empurrou para apanhar o táxi onde ia entrar

O problema não é a violência que me possa atacar. O problema é que quando vejo sangue, sons de garrafas partidas, grupos de dez atacarem dois indíviduos débeis; chego triste a casa. (É esse o princípio de todos os nazismos e fascismos.)

Já vi um preto caído, esvaído em sangue, numa rua cheia de beatiful people. Ninguém parou. Ninguém quis saber. O meu amigo Sandro e eu fomos à esquadra da polícia.

Descrevemos a rua, o sítio exacto, o estado quase-morte (até exagerámos o estado). Estupidamente, na descrição dissemos que era «preto».

- Ele que não bebesse!

E mandaram-nos embora. Chamámos o INEM.

(Curioso é o facto de os polícias, lá, só existirem para autuarem taxistas e ir verificar se às três da manhã os bares estão fechados de modo que sejam multados os infractores.)


O fim de noite no sítio onde quase toda a gente vai é a sobremesa do Inferno.


Post-scriptum
: um amigo disse-me «as pessoas vão lá para verem e serem vistas». Para encontrarem alguém. Para se (nos) senti[rem](mos) menos sozinhos.