sábado, outubro 30, 2010

- A maior parte dos poetas não são poetas de ideias, concordas? O Pessoa nunca escreveu um poema de amor decente, concordas?
Uma pessoa culta é para muitos uma pessoa intimidante.

A amizade, um produto de luxo que salta fora quando o tempo escasseia

Uma das grandes tragédias da minha vida é os amigos que se casam, que trabalham, que têm filhos - não tendo tempo para mais do que isso.
Preferias estar com uma mulher ou homem que te garantissem uma mediania dourada ou com uma ou um que te garantissem o céu e o inferno?
Se não me perguntas, sei o que é que é. Se me perguntas, já não sei dizer.

Santo Agostinho
Dizem que sou um grande imitador de pessoas.

- Ò Angel, imita lá @ ____________!

Não é difícil. Não é um dom.

Concentro-me nas pessoas quando as escuto com um acompanhamento síncrono dos seus gestos. flutuações de voz e movimentos faciais.
Tal como todos os jovens, propunha-me ser um génio, mas, felizmente, interveio o riso.

Lawrence Durrell

sexta-feira, outubro 29, 2010

quinta-feira, outubro 28, 2010

- Tens escrito, Angel? Não se pode destreinar a mão... É preciso manter o músculo sempre activo. É a escrever que aprendemos a escrever. É, é, quando fico sem escrever uma temporada, sento-me para escrever e a coisa não sai da mesma forma. Estou na fase da limação, tenho 80% feito, agora é aquela fase em que é preciso cautela e sensibilidade.
Já conheci pessoas para uma vida literária pejada de personagens. Exóticas, inacreditáveis, densas, labirínticas, loucas, frenéticas, calmas, inesperadas, previsíveis.

Já as conheci as todas.

Mas não quero cristalizar e hoje continuarei a demandar mais e mais e mais.

Provérbios do século XXI

Longe das SMS, longe do coração.
Mostrou-me a mensagem que lhe enviou. (Quebrar a privacidade é apenas mostrar mensagens recebidas.)

Amo-te muito aparecia cinco vezes a pontuar a SMS. Adoro-te. És tudo. Não consigo viver sem ti. Etc. Etc. No final, garantindo que ela não se esquecia: Amo-te muito muito muito. Amo-te mais do que tudo. Só te amo e amarei a ti. Sempre, sempre, sempre. (Na mensagem, repetia muitas vezes a mesma palavra.)

A mensagem dele não é atípica. É o comportamento dele. Quotidiano, palavraso, omnipresente, submisso, auto-anulado.

Agora, imaginem o contrário. Alguém que namora cinco anos e só lhe disse duas vezes: Amo-te.

Sim, bem sei: todos queremos ser mimados, o amor tem de mostrar «estou aqui» tendencialmente todos os dias, o amor é lindo, o amor vence tudo, as pessoas não são pedras, são como flores que devem ser regadas todos os dias. Conheço bem toda essa cantiga. E nem me atrevo a discordar dela um átomo.

Mas qual dos dois foi mais ouvido?

Qual dos dois em cada um dos momentos causou maior impacto na sua amada?

Qual dos momentos ela recordará com mais detalhe e intensidade?

Sendo económicos nos gestos e nas palavras, o valor da raridade de um elogio ou de um gesto fogoso é perene e arrebatadoramente mais guardado na memória.

É por isso que nos preocupamos mais com as espécies em vias de extinção. É por isso que uma beleza vulgar toca menos fundo do que uma beleza invulgar (basta dizermos uma e outra expressão para lhe sentirmos a diferença). É por isso que o diamante vale mais do que o estuque. Porque é raro.

Especial.
Epistolae non rubescent.

As cartas não coram.


O que não consegues dizer olhos nos olhos, nem tão-pouco cara a cara...
- Acreditas na imortalidade da essência?

quarta-feira, outubro 27, 2010

Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu não fornico

Adília Lopes

terça-feira, outubro 26, 2010

sentas-te na poltrona do centro da noite
(um lugar só reservado para ti)
procuras o poema impossível
do mais fundo dos olhos dela
não flutua nenhuma poeira estelar
para as tuas palavras

esta é a hora do coração íntimo da verdade
a hora da indefinição
a hora do inabitável
a hora dos sentidos
a hora da teia que liga o amor e o leite e as estrelas
a hora do ar da noite revestido de brilho

navegas no extâse indízivel de um futuro
cujos acordes chegam até ti como um murmúrio
nas pautas das linhas que quase consegues tocar


pétala a pétala, ela virá
nas pálpebras do teu girassol moram os sonhos que só ela pode encerrar...
A grande perversidade da dor é a de ter organizado o Caos, de o ter degradado em universo.

E. M. Cioran

segunda-feira, outubro 25, 2010

Ela viaja por continentes, eu viajo por pessoas.
- Sou um homem de poucos talentos, mas exploro-os até ao limite. Por isso me acham prodigioso.
- Como é que tu, sendo cristão, és plurigâmico?
- Claro, faz todo o sentido.
- Isso é contraditório.
- Não, não. Contraditório era não o ser.
- Então?
- Deus é Amor.
- Nunca ninguém me tinha dito uma coisa tão bonita...
«A Arte é tudo - tudo o resto é nada. Só um livro é capaz de fazer a imortalidade de um povo. Leonidas ou Pericles não bastariam para que a Velha Grécia ainda vivesse, nova e radiosa, nos nossos espíritos: foi-lhe preciso ter Aristofanes e Ésquilo. Tudo é efémero e oco nas sociedades - sobre tudo o que nelas mais nos deslumbra. Podes-me tu dizer quem foram no tempo de Shakespeare os grandes banqueiros e as formosas mulheres?"»

Eça de Queiroz

A mulher mais bonita do planeta (Daniella Cicarelli)



domingo, outubro 24, 2010

Não conheço um português que esteja optimista quanto ao futuro. Eu estou. Se não estamos quanto ao futuro colectivo, podemos está-lo pelo menos quanto ao futuro individual. E isso vai aumentar o optimismo colectivo.

Leio jornais, leio todos os cronistas. O diagnóstico é tremendamente negativo, mas ninguém ousa apontar soluções. Não falo de soluções pontuais. Falo de visões estratégicas para o destino de Portugal.

Agora - finalmente - fala-se do recurso do mar. Da nossa condição privilegiada e absurdamente esquecida.

Ninguém tem uma visão macro para o país.

Escreve-se sobre tricas, escreve-se sobre politiquices e ninguém reflecte seriamente sobre a visão geral do país, apontando uma estratégia - ou esboço dela.

Com os 1001 defeitos da criatura, Manuel Maria Carrilho é o único escriba que tem uma leitura panorâmica e global do país. Propõe uma estratégia. Fala de dados concretos. Tem mundo. Tem cultura. Tem a mente desempoeirada. Sabe situar Portugal na história. Sabe ler os tempos.

Precisamos de quem aponte soluções. De quem seja minimamente concreto sem se escudar em chavões de «taxistas» e quadros de negrume inultrapássavel.
- O melhor momento da minha vida foi com ela. Foi uma coisa... não tem explicação. Eu toquei o céu e fiquei lá. Nem sequer tivemos sexo. Estar com ela, beijá-la mexeu com todas as partes de mim. É uma coisa que não consigo expressar... Vale a pena viver só para ter uma experiência com aquela. Eu só dou duas opotunidades de faltas graves às pessoas. Ela falhou-me muito mais vezes do que isso e eu aceito. Aceito e continuarei a aceitar. Não tem explicação. Não sei o que me atrai nela. Eu chegava a dar-lhe boleia para longe sabendo que ela ir ter com um gajo que ia comer só pelo prazer de estar com ela no carro. Já há dois anos que não a vejo e levanto-me todos os dias a pensar nela, deito-me todos os dias a pensar nela. Arrepio-me só de ver uma fotografia dela. Não posso tomar café com ela. Sei que voltaria a sentir o mesmo, sei que lhe toleraria tudo e que ficaria doido de desejo só de a ver ao longe. E sei que só aqueles dois dias em que tivemos umas festinhas e um beijinho rápido foram melhores do que tudo o que sofri por ela.

sábado, outubro 23, 2010

Lutas a vida toda por fazeres aquilo que queres. Nada te afasta do traço dos teus sonhos. Atavessas a penúria, o olhar de escárnio e desdém, o criticismo, o cepticismo, a indiferença.

Mas um dias chegas lá.

Um dia não és escravo de ninguém. Um dia não tens de ouvir-e-engolir chefes acéfalos. És dono do teu tempo. Da tua vida.


Dizem que trabalhas 12 horas por dia. Mas tu não entendes. Porque fazes o que amas.

Haverá heróis fora da BD?

Tantas gente que já conheceste. De quantos dizes: eis um modelo, uma referência, um exemplo?

quarta-feira, outubro 20, 2010

«Repara como, durante a semana, quando estão trabalhando, é tudo muito fácil para as pessoas. E os finais de semana são tenebrosos. Quando as pessoas têm que parar e olhar para elas, ficam assustadas. E a literatura pede esse olhar. A vida é muito quotidiana, como tem que ser, mas teria de ser também inesperada. Mas introduzir o inesperado no quotidiano é muito difícil. Repara como os homens são monótonos: gostam de ir sempre ao mesmo restaurante, de estar sempre com os mesmos amigos, enquanto as mulheres querem coisas novas. Deve ser horrível ter marido... Eles lêem o jornal e, ao fim de trepar, perguntam: "Foi bom? Foi bom?". Quando é bom, não precisa mesmo perguntar. Os homens são muito egoístas, eu acho. Não estou me excluindo, só juro que não pergunto se foi bom.»

António Lobo Antunes em entrevista à Folha de S. Paulo
As pessoas normais sempre me aborreceram. Deixem-me que vos fale de... (não consigo)

39 páginas sobre a minha paixão perene

http://www.clubalice.com/index.php?file=1&id=2991&page=0

terça-feira, outubro 19, 2010

- Do Deus dos ateus, também eu sou ateu.

O simbolista

O simbolista não se consegue situar no mundo hodierno. Antepõe o verbo penetrar ao verbo beijar. Acho um abraço algo profundamente íntimo. Quebrou o encanto quando o objecto do seu desejo lhe tocou antes de os seus lábios se tocarem. Só depois de rendida a alma, entrega o corpo.
Não é que seja contra o sexo pelo sexo. Mas depois de teres tocado o céu, qual o sabor de uma pastilha elástica?
Ouço, ouço, ouço:

- As mulheres só ligam à carteira de um homem.

- Os homens só ligam à beleza de uma mulher.

(apesar da não o verbalizarem, sinto o advérbio de modo nas suas frases: tendencialmente)

Penso: como conheço eu tanta gente que não se encaixa num ou noutro perfil?

E porque é que a riqueza é um atributo mais censurável do que a beleza? Não são ambos atributos exógenos do ser?
A beleza quando avança é mais terrível do que um exército

Herberto Helder
I was born with the charm of innocence

Momus
If you really love me you must love my insecurity

Momus
- Ela é viciante.
- Não, não é isso. Ela é... encarcerante.
O ser humano divide-se entre corpo e alma, mas é o corpo quem se diverte mais.

Woody Allen
O teu coração é um albergue aberto toda a noite, costumavas dizer, citando o poeta. Mas desta vez foste atingido no núcleo central. Desta vez, os momentos vividos não são apenas momentos - são uma cápsula da felicidade que diziam só ser possível no Paraíso. Trocado, rejeitado, abandonado, pouco importa.

O que importa é que as palavras, quaisquer que sejam, sangram.

«Todos os seres viventes já passaram por isso.»

«Não, nunca ninguém sofreu assim.»

«Estás a ser patético.»

«Respeita o meu sofrimento.»

«Respeito. Não penses que as lágrimas são impróprias da condição de homem. Já grandes homens arderam solitariamente em quartos estreitos de paredes que o comprimem antes de ti. Arrisco-me a dizer que todos já passaram por isso. Especialmente, os mais improváveis.»

«E em que é que isso é suposto diminuir a minha tragédia? Teorias e amor não casam.»

«Tu queres ser a personagem lendária de uma tragédia romântica.»

(silêncio)

«A dor não dura para sempre. Um coração fica mais forte depois de quebrar.»

«Mais teorias. Tu és jogador. Não conheces o verbo amar, nem o verbo sofrer.»

«Claro que conheço.»

«Não conheces, não.»

«Neste momento, qualquer juízo teu é distorcido e perdoável.»

«Tu és um jogador.»

«Eu sou teu amigo.»

«Neste momento, detesto jogadores.»

«Se jogador é aquele que já viu grandes amores esboroarem-se, que já chorou lágrimas que enxaguaram o seu coração, que já viu grandes amigos ficarem com a sua namorada, que já flirtou namoradas de amigos, que já esteve com namoradas que enviavam ao seu namorado mensagens de "amo-te muito" enquanto as suas mãos percorriam o seu corpo, que já se fartou de amar e ser amado, de ser desamado e de desamar, e que encara tudo com um grande cepticismo e uma grande ironia construídos sobre as ruínas do seu idealismo...»

«Tu sabes lá o que é o amor... Só sabes marionetizar.»

«Não penses que vives uma tragédia singular e irremediável.»

«Não penso, só sinto. Nesta cave, não há uma única luz solitária que me faça companhia. Agora sei que o tempo da dor é infinito.»

«Apenas enquanto dura.»

«Vai durar para sempre.»

«Diz antes: enquanto dura, dura para sempre.»

«Nunca senti nada assim.»

«Já disseste isso antes.»

«Mas desta vez é diferente.»

«Também já disseste isso antes. Ficaram amigos?»

«A ideia da amizade parece-me um penso de caridade para a grandeza do meu sentimento.»

«Ao menos, transforma a dor num objecto de arte.»

«Quando se ama assim, o que interessa a arte? O que interessa qualquer coisa, anyway?A ausência dela dói-me como uma amputação.»

(Lembra-te que: contigo, ela volta sempre.)

(Esta não volta.)

(Volta. É que também já disseste isso antes.)
Adormeces a horas inesperadas num sítio inesperado. Mergulhas num sonho que, como todos os sonhos, tem o seu quê de inefável. Semiabres os olhos, tudo é confuso e delicioso. Abres os olhos. Não sabes onde estás. Os objectos à tua volta misturam-se no sonho. O sonho torna-se ainda mais estranho. Misturas a realidade que te circunda com o material indizível do sonho. Progressivamente, vais-te acercando de que... foi um sonho. Mas ele perdura na tua cabeça. Fragmentos dele vão povoando o teu acordar...

sábado, outubro 16, 2010

- Angel, tu és uma pessoa que não suporta pessoas da filinha indiana. Traças o teu caminho de forma independente, podem dizer o que quiserem.

Como ser um grande escritor

tens que foder muitas mulheres
mulheres bonitas
e escrever alguns bons poemas de amor.

e não tens que te preocupar com a idade
e/ou novos talentos.

apenas bebe mais cerveja
mais e mais cerveja

e vai às corridas pelo menos uma vez
por semana

e vence
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer imbecil pode ser um bom perdedor.

e não te esqueças de Brahams
nem de Bach nem
da cerveja.

não faças exercício a mais.

dorme até ao meio-dia.

evita cartões de crédito
ou pagar seja o que for a
tempo e horas.

lembra-te que não há nenhum cu
no mundo que valha mais de $50
(em 1977).

e se tens a capacidade de amar
ama-te primeiro
mas nunca te esqueças da possibilidade de
derrota total
mesmo que a razão para a derrota
seja justa ou injusta –

sentir cedo o bafo da morte não é
assim tão mau.

afasta-te das igrejas e bares e museus,
e como a aranha sê
paciente –
o tempo é a nossa cruz,
mais o exílio
a derrota
a traição

tudo isso.

sê fiel à cerveja.

uma amante constante.

arranja uma grande máquina-de-escrever
e enquanto ouves os passos para cima e para baixo
lá fora

martela a coisa
martela com força

transforma-a num combate de pesos-pesados

transforma-a no touro na sua primeira investida

e lembra os velhos sacanas
que tão bem lutaram:
Hemingway, Céline, Dostoievsky, Hamsun.

se pensas que eles não enlouqueceram
em pequenos quartos
tal como tu agora

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então não estás preparado.

bebe mais cerveja.
há tempo.
e se não houver
está tudo bem
na mesma.

versão de manuel a. domingos como ser um grande escritor

O truque para ser um grande escritor - «trepar»

Como ser um grande escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres


Poema de Bukowski



Mas é um grande leitor de Fernando Pessoa?

Não, não. Como é que um homem que nunca trepou pode ser bom escritor? A mim me aborrece. Não é um escritor que eu admire, como admiro Camões, por exemplo. Eu acho meio chato.

(Entrevista de ALA a um jornal brasileiro)
As pessoas com talento são menos invejosas.

António Lobo Antunes
Quando leio um livro que gosto, a sensação que tenho é de que o livro foi escrito só para mim. Nem os empresto porque os outros exemplares dizem coisas diferentes, ou seja, começa a existir uma relação pessoal entre mim e o livro. Parece que o autor está me está dizendo coisas que eu conheço, mas não sei exprimir em palavras. Então, é um pouco como um sonho. É qualquer coisa de palpável e de imaterial, como a vida, no fundo.

António Lobo Antunes

sexta-feira, outubro 15, 2010

Diálogos de Lost in Translation

Charlotte: I just don't know what I'm supposed to be.
Bob: You'll figure that out. The more you know who you are, and what you want, the less you let things upset you.


Bob: The most terrifying day of your life is the day the first one is born.
Charlotte: Nobody ever tells you that.
Bob: Your life, as you know it... is gone. Never to return. But they learn how to walk, and they learn how to talk... and you want to be with them. And they turn out to be the most delightful people you will ever meet in your life.
Charlotte: That's nice.

O Bom Padrinho

Ao longo dos anos, desenvolvera uma vasta rede de contactos, de amigos e de influências. Só se rodeava de boas pessoas. Congeminava planos em segredo a partir da sua casa, de onde raramente saía.

Passava o dia a receber telefonemas e visitas. Pediam-lhe favores humanitários e ele puxava da sua vasta rede de contactos de boas pessoas e cruzava-as. Um dia, um fazia um favor a outro. Um dia, o outro retribuía o favor - não necessariamente ao mesmo destinatário.

Os favores faziam-se à Máfia.

Salvar animais em perigo, arranjar um emprego, reunir dinheiro para emprestar a alguém, tirar um sem-abrigo da rua, recolher animais famintos, juntar pessoas para irem visitar alguém ao hospital ou à prisão.

Tinha uma memória que registava todos os nomes, todas as caras, todas as especialidades, todos os favores.

Congeminava tudo em segredo e sigilo absolutos. O Bem não poderia ser vísivel. Tinha de permanecer clandestino. Feito às escondidas. Por isso, trocava de número constantemente com medo das escutas. Por isso, mudava de residência tanta vez. Só interessava o resultado das acções. Nunca a condecoração ou a glória. Mas precisava de manter o poder. Precisava de continuar a derrubar corruptos, a ajudar os necessitados. E para isso nunca poderia desmantelar a teia - esta, dia após dia, tinha de se alargar.

O seu exército do Bem ia-se tentaculando e poucos eram aqueles que alguma vez tinham escutado a sua voz - e muitos menos ainda o que tinham visto o seu rosto. A penumbra era a sua casa. Um vasto conjunto de chefias criara múltiplas células de intermediários que se repartiam por vários níveis que, por sua vez, recrutaram, cada uma delas, um vasto conjunto de operacionais. Tudo estava montado de modo que deixasse a voz de comando do padrinho praticamente sem rasto.
Voltar ao lugar do crime enche-te de vontade de praticá-lo de novo e de novo...
Com todas as pessoas aprendemos algo.

Com ela, aprendi a nunca deixar o diálogo a meio. Sempre que alguém está a falar de algo e é interrompido ou sempre que aparece alguém que o meu amigo tem de cumprimentar, ele volta sempre ao ponto interrompido com memória e rigor:

- Estavas a falar de... podes continuar que estava muito interessado?

Não conheço melhor ouvinte. É um sinal de Atenção ao Outro.
- Comigo bate forte, mas passa rápido - ela mentiu.

quinta-feira, outubro 14, 2010

perdido

eu não me consigo encontrar
eu não me consigo encontrar
eu não me consigo encontrar
eu não me consigo encontrar
na cabeça deste estrangeiro no amor

Robert Smith

Mil Horas

Por quanto mais tempo poderei eu uivar neste vento?
Por quanto mais tempo
Poderei eu chorar desta forma?

Mil horas perdidas por dia
Para sentir o meu coração por um segundo
Mil horas simplesmente atiradas fora
Para sentir o meu coração por um segundo

Por quanto mais tempo poderei eu uivar neste vento?

Robert Smith by Angel

Gémos Siameses

eu escolhi uma eternidade disto
como anjos caindo
o mundo desapareceu
rindo para dentro do fogo
é sempre assim desta forma?
em carne e osso e o primeiro beijo
as primeiras cores
o primeiro beijo
nós agonizámos debaixo de uma luz vermelha
sorriso vodu
gémos siameses
um rapariga na janela olha-me por uma hora
e depois tudo se desmorona
alquebrado
desmorono-me
as paredes e o tecto movem-se no tempo
empurra uma lâmina para as minhas mãos
lentamente subindo as escadas
e para dentro do quarto
é sempre assim desta forma?
Dançando na minha algibeira
vermes comem a minha pele
Ela resplandece e cresce
com os braços esticados
as suas pernas cercando-me...
Na manhã eu chorei

Robert Smith by Angel

desprendendo as amarras

atira para longe a melancolia
atira para longe a nostalgia
rasga as páginas com todas as más notícias
destrói os espelhos e destrói as paredes
queima as escadas e queima os soalhos
oh simplesmente pega fogo à casa!
pega fogo à rua!
torna tudo vermelho e o sonho está completo
com o som do teu mundo
passar pelo fogo
é um dia perfeito para dispensares a cabeça
e te libertares de tudo o resto...

Robert Smith by Angel

quarta-feira, outubro 13, 2010

Adentras-te nela. A explosão provoca um abalo cósmico. Elevas-te para além das camadas mais altas do céu, desces mais fundo do que as profundezas das profundezas.

Tentas reflectir depois do vulcão.

Ela é o único ponto em que Deus e o Diabo se entendem. Tem a força de Zaratrusta e o amor de Cristo. Ela é a fusão do beatífico-demoníaco. Algo que estilhaça a palavra plenitude. Porque não cabe nas suas costuras.

Verbos de que gosto

independentizar
- A genialidade anda sempre casada com a loucura.
A pertença a qualquer clube impede a independência de pensamento. Mas poderá uma mente funcionar sem âncoras?

terça-feira, outubro 12, 2010

A morte da compaixão

Lembra-se da emoção que sentiu quando descobriu que os 33 mineiros chilenos que estavam soterrados há 17 dias na mina de San José estavam afinal vivos? Lembra-se da mensagem que escreveram com tinta vermelha e que enviaram para o mundo a dizer que estavam vivos? Da sua incredulidade quando viu as caras deles e viu as primeiras imagens vídeo do refúgio? Lembra-se do aperto no coração e da opressiva falta de ar que sentiu quando se imaginou no lugar deles, enterrados vivos numa galeria escaldante, sabendo que teriam de ficar aí confinados ainda durante meses, sujeitos ao risco de novas derrocadas, sabendo que ninguém lhes poderá valer em caso de acidente ou de doença, sabendo que têm de dominar a angústia e sentindo-se totalmente impotentes para participar no seu salvamento? Lembra-se de como nos dois primeiros dias leu todos os relatos, viu todos os vídeos no YouTube e as notícias na televisão?

E agora? Há quanto tempo não lê uma notícia sobre os mineiros? E já notou que agora, mesmo quando lê uma notícia sobre estes homens, o seu coração já não se confrange da mesma forma, que é mais difícil identificar-se com eles? Que integrou na sua rotina o drama dos mineiros, que eles se transformaram em mais um elemento do pano de fundo dos seus dias?

Não se preocupe. Somos todos assim. Os especialistas chamam a isto "compassion fatigue", a fadiga da compaixão. Tal como as nossas pernas se cansam se fizermos uma longa caminhada, também os nossos sentimentos se esgotam quando os usamos muito. Nem todos, claro, e nem sempre. Mas a fadiga da compaixão é um fenómeno conhecido entre profissionais de saúde e pessoas que cuidam de doentes inválidos ou terminais, principalmente quando sabem que não existe possibilidade de recuperação. O ser humano que sofre passa a ser apenas uma chatice. É um mecanismo de defesa, uma forma de burnout, de esgotamento emocional. A nossa compaixão gasta-se. É por isso que somos capazes de participar num peditório para ajudar as vítimas do genocídio do Darfur, do tsunami da Indonésia ou do Katrina nos EUA, mas... só uma vez. Depois, a nossa compaixão desaparece, desfaz-se. Pode acordar de novo, mas só com uma história nova, diferente.

Os media conhecem bem este problema - que não se confina apenas à compaixão e se estende ao tratamento insistente de qualquer tema. Neste caso chama-se "media fatigue". Por importante que seja a coisa, se ouvirmos falar dela constantemente, se os media não largarem o tema, deixamos de conseguir interessar-nos por ela. A informação torna-se ruído de fundo. Claro que isso é tanto mais assim quanto mais as notícias forem constituídas de átomos de informação sem interesse, sem contexto e sem sentido, por uma névoa de factóides onde é impossível distinguir efeito e consequência, o fútil do vital. Mas é cada vez mais nesse sentido que os media evoluem, com a Internet a ser usada como justificação para a chuva de factóides, como se as pessoas precisassem de uma chuva de sound bites soltos (não precisam) e como se a Internet não soubesse viver sem eles (sabe).

O caso Casa Pia é um exemplo. Já não podemos ouvir falar daquilo. Já gastámos a compaixão. Pelas vítimas ou pelos acusados. Já não queremos saber. Estamos apenas fartos e contentes por ter acabado e alarmados por talvez ainda não ter acabado. Talvez a história esteja mal contada. Talvez haja um bode expiatório. Talvez os condenados sejam apenas o pico do icebergue. Mas já não queremos saber. A justiça e os media esgotaram-nos. Mataram a nossa compaixão, a nossa solidariedade, o nosso empenho cidadão. Sabemos que não conseguiremos perceber mais do que percebemos hoje se nos empenharmos durante mais tempo. Quando já não há pachorra já não há compaixão.

É por isso que é tão importante a justiça ser célere (sem ter pressa) e clara (sem ser ingénua). Para que o escrutínio dos cidadãos se possa exercer. Quando demora demais, só queremos que acabe. E passar para a história seguinte.

José Vitor Malheiros

segunda-feira, outubro 11, 2010

Para o Miguel Esteves Cardoso, o problema das drogas não é elas serem más - é elas serem muito boas.

domingo, outubro 10, 2010

canção-de-amor

sempre que estou a sós contigo fazes sentir-me como se estivesse em casa outra vez
sempre que estou a sós contigo
fazes sentir-me inteiro outra vez
sempre que estou a sós contigo
fazes sentir-me novo outra vez
sempre que estou a sós contigo
fazes sentir-me engraçado outra vez
por mais longe que esteja
eu amar-te-ei sempre
por mais longa que seja a minha permanência
eu amar-te-ei sempre
quaisquer que sejam as palavras que diga
eu amar-te-ei sempre
eu amar-te-ei sempre
sempre que estou a sós contigo
fazes sentir-me livre outra vez
sempre que estou a sós contigo
fazes sentir-me limpo outra vez
por mais longe que esteja
eu amar-te-ei sempre
por mais longa que seja a minha permanência
eu amar-te-ei sempre
quaisquer que sejam as palavras que diga
eu amar-te-ei sempre
eu amar-te-ei sempre

Robert Smith by Angel

Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio
e nesse silêncio profundo se esconde
minha intensa vontade de gritar.

Clarice Lispector
Quem antepõe a estabilidade à liberdade, não merece ser livre.

sábado, outubro 09, 2010

Os Rapazes Não Choram

os rapazes não choram
eu diria que estou arrependido se pensasse que isso te faria mudar de ideias

mas eu sei que desta vez disse demasiadas coisas

fui demasiado indelicado
eu tento rir-me do assunto cobrindo tudo com mentiras eu tento rir-me do assunto escondendo as lágrimas nos meus olhos
porque os rapazes não choram os rapazes não choram

eu atirar-me-ia aos teus pés e imploraria perdão suplicaria junto de ti
mas agora sei que é demasiado tarde
e que já não há nada que possa fazer
então tento rir-me do assunto cobrindo tudo com mentiras eu tento rir-me do assunto escondendo as lágrimas nos meus olhos
eu diria que te amava se pensasse que tu continuarias mas eu sei que isso de nada serve
tu própria já te foste embora
calculei mal os teus limites levei-te até ao extremo tomei-te por garantida eu pensava que tu precisavas mais de mim
agora eu faria praticamente tudo
para te ter de volta ao meu lado mas eu apenas me continuo a rir
escondendo as lágrimas nos meus olhos
porque os rapazes não choram os rapazes não choram os rapazes não choram


Robert Smith by Angel (não acertando com formatações)
- No meu tempo, a palavra tinha, para a maioria das pessoas, o valor de um juramento de sangue. Um sim era sim. Um não era não. Hoje as pessoas combinam fazer e não fazem. Combinam aparecer e não aparecem. A traição, num sentido lato, é encarada com indiferença. Ganhou-se muitas coisas, mas perdeu-se o valor da palavra. O conceito de honra.
A palavra nasceu:
nos lábios cintila.

Carícia ou aroma,
mal poisa nos dedos.

de ramo em ramo voa,
na luz se derrama.

A morte não existe:
tudo é canto e chama.

Eugénio de Andrade
Ela era tão atraente até...

- Angel, ele ganhou o Nobel por qual livro?
- O Nobel é em função da obra, não de um livro.
- Ai não é um livro que ganha o Nobel?
- Não.
- Mas, em alguns casos, acho que é.
- Olá, Angel, então...
- Então, qué feito?
[...]
- Tive a pensar e acho que nunca despertei uma paixão assolapada.
- Disparate. Lembra-te da Raquel.
- Sim. E da Sofia. A Sofia então...
- Tu já despertaste paixões assolapadas.
- Pois, mas uma vez uma rapariga disse-me: «Tu até és giro, mas não és um touro.» Isso marcou-me até hoje.
- Eu acho que ela te estava a picar...
- Pois, talvez. Mas é uma frase lixada.
(pensei: seria pior ou melhor: «Tu és feio, mas és um touro.»

sexta-feira, outubro 08, 2010

Too less words

Qual o contrário de ciúme?

Será talvez ter alguém-que-não-te-largue-os-tornozelos e quereres desesperadamente que esse alguém se interesse por outra pessoa.

Mas queria falar de um outro sentimento inominável.

Quando tu estás enamorad@, quando ela ou ele te abandonaram e tu sofres, quando estás à espera do dia em que os lábios dela ou dele toquem finalmente os teus e...

... eis que vês a tua paixão ou pessoa que te deixou nos braços da criatura mais viscosa e energúmena à face da Terra. Não sentes ciúmes - não querias ser ela ou ele. Está nos antípodas do teu coração mais intímo. Sentes repugnância, sentes uma mixórdia de sentimentos contraditórios. É como se a pessoa de quem tu mais gostasses no mundo subitamente se desfizesse como uma imagem de luz. Torna-se irrel. Um vazio percorre-te.
Numa época em que a homossexualidade entre adultos dava cadeia, Oscar Wilde (que cumpriu pena efectiva de dois anos referiu-se ao seu amor como «o amor que não se pode pronunciar».

Sem a probição legal e a censura social da homossexualidade, não teríamos hoje uma frase tão deliciosamente encantadora.

As épocas mais castradoras e censórias dão nisto: a arte floresce mais bela.
«Não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não há nada de oculto que não venha a ser conhecido. Portanto, tudo o que tiverdes dito na escuridão, será ouvido à luz do dia; e o que tiverdes pronunciado ao pé do ouvido, no quarto, será proclamado sobre os telhados.»

Jesus Cristo

Antónimos

Qual é o contrário de culpa?

terça-feira, outubro 05, 2010

- A morte de quem nós gostamos nunca é justa.

Precariedade no emprego, precariedade nas relações





Um amigo meu enviou-me um mail com estas fotografias. O mail não tinha contexto. Limitei-me a olhar, a mergulhar nos rostos e a efabular:

- Será que ela está com ele porque ele lhe satisfaz todos os caprichos?
- Será que ela o conheceu como um socorrista informático e viu ali um capacho?
- Será que ele a sente como um troféu?
- Será que ela o trai?
- Será que ele lhe dá prendas todas as semanas?
- Será que ela fantasia com outros quando ele palra sobre a nova versão do MS-DOS?
- Será que ele lhe pede insistentemente para fazerem amor e ela alega dores de cabeça?
- Ou será que sou eu uma besta carregadinha de preconceitos?

Preconceitos ou pós-conceitos, a verdade é que entretanto falei com o meu amigo...

- Olha lá, que fotos são estas?
- É uma rapariga com quem ando a flirtar e esse é o namorado.

Reparem no sorriso dele na segunda imagem. É um sorriso de contentamento desmedido e contido. Tenho algo que me torna o maior. É um sorriso de novo rico. Reparem no sorisso dela. É um sorriso de contentamento mas sem novo-riquismo. Eu-posso-ter-quem-quero. Mas ao mesmo tempo, enquanto ele adora pousar ao lado dela, ela tem uma certa vergonha em pousar ao lado dele. Essa vergonha só é visível por ela fazer o olhar de quem está a pousar solitariamente para a câmara. Ela pensa que só ela está ali nem se lembrando da criatura anódina a seu lado. A objectiva, pensa, só a chupará a ela. Ele pensa: estou ao lado dela e por isso ergue o queixo. Tem algo que é a antítese do idealismo. Tem algo subtil de manipuladora. Reparem no alinhamento do cabelo dele. É assim que ele organiza a vida - tal como o cabelo. Acachapada, certinha, com a risca bem definida.

Reparem na dança. O gesto tropêgo dele fá-la ter dificuldade em movimentar-se. A camisa dele está para dentro. O olhar dele é triunfalmente patético. Ela está embaraçada. É a factura que paga. O embaraço.
- Já respirei a tua sensualidade. Vou indo...
Uma coisa são instintos,
outra coisa é intenção.

B fachada

A TASCA ACONSELHA VIVAMENTE

Um pequeno trabalho documental que explora um dia de trabalho numa carvoaria que fabrica carvão vegetal.

Esse filme foi seleccionado para o DOC Lisboa e por isso deixo aqui as coordenadas para poderem assistir.

Nos dias 18 (19h - Grande Auditório) ou 22 (20h45 - Pequeno Auditório) de Outubro
http://www.doclisboa.org/pt_filmesAaZ/filmes/filmeG02.php

blogue:
http://gateirasdoc.tumblr.com/
facebook:
http://www.facebook.com/#!/pages/Gateiras/149963441705644?ref=ts

domingo, outubro 03, 2010

- A família é uma coisa estranha. Há uma atmosfera amena de conforto, mas ao mesmo tempo por vezes há ódios e raivas profundas. Há insultos que não faríamos aos nosso piores inimigos e que fazemos à família. Parece que somos mais duros e mais cruéis com quem mais amamos. Mas o mais estranho de tudo é que na família é tudo assexuado, mas depois há ali dois elementos que andam a foder e a comer à mesma mesa que os filhos.
Vemos pecados capitais em cada esquina e toleramo-los. Toleramo-los porque são comuns.


Seven

sábado, outubro 02, 2010

Os meus dias (já com os olhos desfocados)

"O que é um verdadeiro Ashouk?"
"No mês do Ramadão, disse o sinistro, "há uma noite misteriosa, uma noite chamada Kadir. Durante a noite a natureza inteira adormece uma hora. Os rios deixam de correr, os espíritos malignos não guardam os seus tesouros. Pode ouvir-se a relva crescer e as árvores a falar. Ninfas erguem-se dos rios e os homens que são perfilhados nesta noite tornam-se sábios e poetas. Nesta noite, o poeta deve invocar o Profeta Elias, santo padroeiro de todos os poetas. Na hora certa o Profeta aparece, deixa que o poeta beba da sua malga e diz-lhe: "Porque agora és um verdadeiro Ashouk, e verás tudo no mundo através dos meus olhos." Aquele que é assim abençoado reina sobre os elementos: animais e homens, ventos e mares obedecem à sua voz, porque nas suas palavras está o Poder do Profeta."

Ali e Nino, Kurban Said (versão de MG)

Das atracções

- Sinto que estou a ser atraído para o meio de um vórtice e não consigo resistir a atirar-me de cabeça...
Como podes rejeitar aquilo que não conheces?

Os meus dias

A literatura faz de nós melhores observadores da vida; e permite-nos exercitar o dom da própria vida; que por sua vez nos torna mais atentos ao detalhe na literatura; que por sua vez nos torna mais atentos ao detalhe na vida.

James Wood

Miguel Esteves Cardoso, o melhor humorista português



MEC é o único escritor que me faz rir pela prosa. Ele, Woody Allen e RAP. (Mas neste último são demasiado escarrapachadas as influências de Woody Allen na escrita e de Monthy Python no ecrã.) É muito mais difícil o riso ser provocado pela leitura do que pelo lado audiovisual, televisivo. MEC foi o humorista dos bastidores do Herman no seu melhor. MEC escreve diariamente com graça. MEC escreve com cultura e originalidade. Na forma, no estilo único que criou. Inimitável, apesar do arremedo (de resto, confessado) de Pedro Paixão. Inimitável e único também no contéudo: aquilo sobre o que se debruça, como a relação que tem com os gansos em comparação por comparação com a relação que tem com os gatos, é quase-sempre um assunto que só a MEC passaria pela cabeça escrever. Os objectos das suas análise são deliciosamente originais: quem se lembraria de escrever sobre o que ele escreve?

MEC tem uma escrita prolífica ao longo de décadas sobre os mais variados assuntos: a Literatura, a Língua, a Gastronomia, a Música, a Bebida, a Política, o Amor, a Sociologia da Vida Quotidiana. Em França, seria considerado o melhor humorista nacional. Sem sombra de sombra da mais minúscula dúvida.
Lobo Antunes pergunta, a propósito da impossibilidade das traduções, como se traduz «coisíssima nenhuma»?
T. S. Elliot diz que a cultura serve meramente para tornar a viva digna de ser vivida.

O caça-fragrâncias

- Reconheço se uma mulher está interessada em mim pelo odor. As feromonas - está estudado cientificamente e já lí sobre isso, nomeadamente em livros de psicologia - são as as hormonas da atracção e quando elas são libertadas emanam cheiro. Eu que não tenho grande odor, até porque sou fumador, esforço-me imenso por conseguir sentir este cheiro. Primeiro, tens de captar o cheiro original da mulher. Guardas esse cheiro na memória. É claro que convém que estejas perto dela. O odor sai mais intensamente pelo cocoruto e pelo pescoço. Se te aproximares dessa área, sentes o cheiro quando as feromonas estão activadas. Basta estares no carro, lado a lado e sentes logo os cambiantes do odor quando ela fica interessada... Há casos em que é tão tão intenso... ficas doido, quer pela certeza de que ela está interessada, quer pelo cheiro em si que é inebriante. Os momentos em que senti isso com uma mulher... foram só três... mas foram dos melhores da minha vida. E confirmei a minha teoria porque avancei e as coisas aconteceram. É brutal! O difícil é primeiro capturares o odor inicial. Convém que elas não tenham cremes nem perfumes porque tu tens de destrinçar o odor natural dela que é como as impressões digitais. É diferente de mulher para mulher. É único. Uma vez, tive de ir à cada de banho lavar o nariz para ter narinas mais apuradas e tive de ficar horas sem fumar para lhe capturar o odor natural. Registei-o mentalmente e, volto-te a dizer, Angel, eu não tenho um grande olfacto! Depois, passadas umas horas, ela estava deitada no meu colo e eu sentia o cheiro dela e era o mesmo. Foi falando, dizendo piadas, a intimidade foi crescendo e a certa altura o cheiro mudou completamente. Senti: está na hora. Nota-se perfeitamente a mudança, Angel, perfeitamente, perfeitamente. E elas sabem que os homens mudam de cheiro também. Aliás, elas sabem-no quase todas. Os homens não sabem isso. E para elas é muito mais fácil sentir esse cheiro da acticação das feromonas. Sentem-no bem ao longe. Elas pressentem-no a milhas.. Não dizem é nada! Mas, também, para uma mulher é sempre muito mais fácil perceber se um homem está ou não interessado, mesmo que para as que não conhecem a questão do cheiro das feromonas. Elas são muito mais perspicazes nisso...

ÉTICA

Um dia, numa conferência, L. Wittgenstein disse mais ou menos o seguinte: se fosse possível escrever um livro de ética que fosse verdadeiramente um livro de ética, esse livro arrasaria todos os outros.

Hoje, toda a gente se queixa: "não há ética, perderam-se os valores"... Quem pode negar razão a essas queixas? Mas, depois, fundamentar a ética e, sobretudo, ser ético, é tremendamente complicado. Se há terreno há muito revisitado teoreticamente, é o da ética, mas lá estão as éticas materiais e as formais, as ontológicas, as teleológicas e as deontológicas, as éticas da virtude e até as teológicas, também há a negação do seu conteúdo cognoscitivo, pois estaríamos apenas no campo das exclamações emotivas de aprovação ou reprovação... Etc. Mas o mais difícil mesmo é ser ético na vida. Porque devo ser honesto, se isso prejudicar os meus interesses?

Os seres humanos são constitutivamente abertos à questão ética, porque nascem por fazer, devido à neotenia, e devem fazer-se bem moralmente, porque a sua lei é a lei da liberdade e da dignidade. Devemos habitar o mundo eticamente (o étimo de ética é êthos, morada).

Mas o que constitui um acto ético? Há na história da ética dois exemplos famosos: o anel de Giges, de Platão, e o comerciante honesto, de Kant. Nem Giges nem o comerciante eram éticos, pois agiam como agiam no seu próprio interesse. Ora, a ética implica agir não por causa do próprio interesse ou da consideração dos outros, não por castigo ou por prémio, mas exclusivamente pelo dever, pela consideração da humanidade e da dignidade.

Como diz A. Comte-Sponville, não é necessário nem possível fundamentar a ética. Como se fundamenta a razão? Mas fazemos a experiência ética: se virmos uma criança a afogar-se, sabemos o que devemos fazer. É uma exigência. Trata-se de não sermos indignos da nossa humanidade e de estarmos de bem connosco.

E que fazer? Queres saber se esta ou aquela acção é boa ou má? Pergunta a ti mesmo o que aconteceria se todos se comportassem como tu e se quererias isso honrada e dignamente. Se todos mentissem, quem poderia acreditar em alguém? Quererias viver numa sociedade na qual todos roubassem? Se toda a gente matasse, nem sociedade existiria. Se ninguém pagasse impostos, não poderia erguer-se uma vida comum em dignidade e todos perderiam.

Se todos fossem éticos, segundo a ética desinteressada, não era necessária a política, que ficava reduzida a administração das coisas. Só porque somos egoístas, interesseiros, é que temos necessidade do Estado para regular e gerir de modo não violento os conflitos de interesses. Como escreve A. Comte-Sponville, se a moral reinasse, não teríamos necessidade de polícia, de leis, de tribunais, de forças armadas, de cadeias.

Então, ética e política não se identificam nem confundem, mas os seus objectivos são comuns: a realização da humanidade de todos. O paradoxo não é então encontrar políticos que sejam precisamente políticos, mas com ética?

O grande desafio do nosso tempo é a formação ética, para os valores. Quando isso não acontece, remetemos constantemente para a política, para as leis, para os tribunais... Ora, neste quadro, fica-se confrontado com duas questões temíveis. Primeira: não é possível legislar sobre tudo, até porque o indivíduo tem mais deveres do que o cidadão, pois há o pré-político e o pré-jurídico. Depois, seja como for, sem ética assumida - e poderia acrescentar: sem referência religiosa ao Absoluto -, fica apenas a lei e a sua sanção, o medo e a esperança de não ser apanhado. Por exemplo, se não se pagar impostos e se for apanhado, tanto pior... De qualquer forma, nesta lógica, sem valores éticos assumidos, acaba, no limite, por ser necessário colocar um polícia junto de cada cidadão, mas, como os polícias também são humanos, é preciso pôr um polícia junto de cada polícia... Ai!, o totalitarismo!

Lá está Juvenal, embora noutro contexto: Custos custodit nos. Quis custodiet ipsos custodes? A guarda guarda-nos. Quem guardará a guarda?

Anselmo Borges

Muito, muito bom

Um pequeno trabalho documental que explora um dia de trabalho numa carvoaria que fabrica carvão vegetal.

Esse filme foi seleccionado para o DOC Lisboa e por isso deixo aqui as coordenadas para poderem assistir.

Nos dias 18 (19h - Grande Auditório) ou 22 (20h45 - Pequeno Auditório) de Outubro
http://www.doclisboa.org/pt_filmesAaZ/filmes/filmeG02.php

blogue:
http://gateirasdoc.tumblr.com/
facebook:
http://www.facebook.com/#!/pages/Gateiras/149963441705644?ref=ts

A tasca aconselha qualidade

www.itw.pt

sexta-feira, outubro 01, 2010

Sonho para psicanalistas interpretarem

- Sonho muitas vezes que me cai a pila. Ontem, sonhei que estava numa casa de banho e que a pila me caía para o fundo da sanita. Fiquei aflito, meti a mão com medo de que entretanto ela se infiltrasse lá dentro e não conseguisse apanhá-la. Estava nervosíssimo. Lá estiquei o braço e apanhei-a. Depois tentei atarraxá-la. Era estranho porque não havia hemorragia, ela simplesmente saltara. Depois foi o pânico de não a conseguir encaixar. Sei que tinha de ir trabalhar e então guardei o assunto para mais tarde. Guardei-a no bolso, mas enquanto ia no metro só pensava que ela podia cair do bolso e então estava sempre agarrado a ela, com um medo terrível de alguém me desse um encontrão e ela saltasse. Era um medo terrível de a perder e além disso de justificar... como é que eu tinha uma pila no bolso que me saltara? Como é que eu ia dizer que aquela era a minha pila?
- Posso contar esta história no meu blogue?
- Podes, claro!