quinta-feira, setembro 30, 2010

Algumas Reflexões Sobre as Mulheres

Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.


Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.


Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.


Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.


Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.


Longamente bebem
o silêncio
nas próprias mãos.


O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.


Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.
Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.


É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.


São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.


Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.

Eugénio de Andrade

terça-feira, setembro 28, 2010

Se



Se consegues manter a calma
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.

Se consegues ter confiança em ti
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas

Se consegues esperar sem te cansares por esperar
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
ou falares cheio de conhecimentos

Se consegues sonhar
sem fazeres dos sonhos os teus mestres

Se consegues pensar
sem fazeres dos pensamentos os teus objectivos

Se consegues encontrar-te com o Triunfo e a Derrota
e tratares esses dois impostores do mesmo modo

Se consegues suportar
a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver
cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído
e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo

Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.

Se consegues constringir o teu coração,
nervos e força
para te servirem na tua vez
já depois de não existirem,
e aguentares
quando já nada tens em ti
a não ser a vontade que te diz:
«Aguenta-te!»

Se consegues falar para multidões
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente

Se nem inimigos
ou amigos queridos
te conseguirem ofender

Se todas as pessoas contam contigo
mas nenhuma demasiado

Se consegues preencher cada minuto
dando valor
a todos os segundos que passam

Tua é a Terra
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu serás um Homem, meu filho!

Kipling

domingo, setembro 26, 2010

Ele sabe a linha divisória ténue que separa a sensualidade da promiscuidade. Sabe o ponto a partir do qual o atrevimento é boçalidade. Sabe a diferença entre o silêncio da timidez e o silêncio do respeito. Sabe entrar devagarinho sem arrombar portões. Conhece os contornos em que a auto-confiança se dissolve em bazófia. Sabe ser felino como uma pantera e dócil como uma ave. Sabe como magoar. Sabe como fabricar felicidade. Sabe quando se retirar e sabe quando reaparecer. Sabe quando deve criar degraus de encantos para sonhos dourados e sabe quando deve fazer dos olhos pedras de gelo.
Errata: chorar convulsivamente e não compulsivamente.
Não deixa de ser irónico que a recta da vida caminhe mais para o abalar das certezas do que para a dissipação das dúvidas.
In Italy for thirty years under the Borgias they had warfare, terror, murder and bloodshed but they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci and the Renaissance. In Switzerland, they had brotherly love; they had five hundred years of democracy and peace and what did that produce? The cuckoo clock.

Orson Wells

(tirado de www.obomsacana.blogspot.com)

sábado, setembro 25, 2010

Sinto que este prémio não me é dado enquanto homem, mas ao meu trabalho – uma vida de trabalho em agonia e suor do espírito humano, não pela glória e ainda menos pelo lucro, mas pela criação, através dos materiais do espírito humano, de algo que não existia. Assim, sou o guardião deste prémio. Não será difícil encontrar uma utilidade para a componente monetária proporcional ao objectivo e significado da sua origem. Mas gostaria de fazer a mesma coisa também com o agraciamento e aproveitar este momento como um pináculo, através do qual possa ser ouvido pelos homens e mulheres jovens, dedicados já à mesma angústia e tribulação, entre os quais está já aquele que um dia estará onde hoje eu estou.

A tragédia hodierna é um medo físico, geral e universal, sustentado já há tanto tempo que não podemos sequer suportá-lo. Já não existem problemas de espírito. Só existe a questão: quando irá explodir? Por causa disto, o homem ou a mulher jovem que hoje escreve esqueceu os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, que só por si é capaz de proporcionar boa escrita porque é tudo aquilo sobre o qual vale a pena escrever, tudo o que vale a agonia e o suor.

Deve aprendê-lo novamente. Deve ensinar-se a si próprio a mais básica das coisas que deve temer; e, ao ensinar-se isso, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço na sua oficina para qualquer coisa que não sejam as antigas veracidades e verdades do coração, as antigas verdades universais que tornam cada história efémera e condenada – amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício. Até conseguir fazer isso, trabalha sob uma maldição. Escreve não por amor, mas por luxúria, sobre derrotas em que ninguém perde nada de valor, de vitórias sem esperança e, pior do que tudo, sem piedade ou compaixão. Enluta o sofrimento sem ser em ossos universais, não deixa cicatrizes. Não escreve do coração mas das glândulas.

AAté reaprender estas coisas, ele irá escrever como se estivesse entre os homens e assistisse ao seu fim. Eu recuso aceitar o fim do homem. É demasiado fácil dizer que o homem é imortal simplesmente porque ele irá perdurar: que quando a última campainha da desgraça soar e se esvair do último rochedo inútil suspenso sem marés, na última noite vermelha e moribunda, que até aí haverá mais um som: o da sua voz frágil e inesgotável, que falará ainda. Recuso aceitar isto. Eu acredito que o homem não irá meramente perdurar: ele irá triunfar. Ele é imortal, não apenas porque é o único entre as criaturas com uma voz inesgotável, mas porque tem uma alma, um espírito capaz de compaixão e sacrifício e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre estas coisas. É um privilégio ajudar o homem a perdurar erguendo-lhe o coração, recordando-o da coragem e honra e esperança e orgulho e compaixão e piedade e sacrifício que foram a glória do seu passado. A voz do poeta não precisa apenas de ser um registo do homem, pode ser um dos adereços, o pilar que o ajudará a resistir e triunfar.

William Faulkner discursando na aceitação do Prémio Nobel da Literatura (versão de MG)

sexta-feira, setembro 24, 2010


Deixa a mão...


Deixa a mão
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.

Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com nácar da língua.

Só um grito desde o chão
pode fulminá-la.

A morte
não é um segredo
não é em nós um jardim de areia.

De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.

Vou ensinar-te como se reconhece
repara
é ainda um rapaz
não acaba de crescer
nos ombros
a luz
desatada
a fulva
lucidez dos flancos.

A boca sobre a boca nevava.

Eugénio de Andrade
Diz-me como ocupas o teu tempo e dir-te-ei quem és.

Só relendo... se compreende

- Numa relação há sempre quatro pessoas. O que tu és, o que eu sou, o que eu-sou-em-ti, o que tu-és-em-mim.
- Há seis. Há ainda: o que tu julgas que eu penso que tu és e o que eu julgo que tu pensas que eu sou.
- E ainda: o que eu julgo que tu julgas que penso que tu és e o que tu julgas que eu julgo que tu pensas que eu sou.
- E assim sucessivamente... podes acrescentar mais uma percepção... e mais uma camada e mais uma...

quinta-feira, setembro 23, 2010

- Aquilo que nos excita sexualmente é insondável.
Outro dia alguém me disse:

- Já reparaste que só se emprega a palavra charme aplicada a homens?

É uma realidade.

Infelizmente, a característica mais destacada pelo homem na mulher é a beleza. Parece que não há um ingrediente extra desse não-sei-quê indefinível aplicado a mulheres.

O problema, claro está, mora nos olhos da alma do homem.

Eu gosto de encontrar homens com charme. É muito, muito raro acontecer-me.

Sucede-me de três em três anos. Mas há homens que me tocam pelo charme.

E observo-os com um certo deleite, assimilo-os como qualquer coisa aprazível. Aprendo com eles.
Intervalo de tempo... O tempo tem intervalo?

Marta FBC

quarta-feira, setembro 22, 2010

Nao há nada mais caótico do que a confusão lançada numa mente simples.

Francis Scott Fitzgerald
Bukowski escreveu que não tinha respeito algum por Casanova. Disse que urinaria na sua campa. Porquê? Porque o facto de ter conquistado muitas mulheres não significa nada. A explicação é primária e machizóide: as mulheres, regra geral, ficam sempre com o mais idiota.

Eu nestas linhas só leio ressabiamento. Bukowski sonhava ter sido um Casanova. É fácil perceber que alguém que escreve um livro chamado Mulheres, onde descreve as suas 17 relações com mulheres, tem uma semente de Casanova.

Foram muitas as mulheres com quem dormiu, mas muitas eram prostitutas. Bukowski conheceu a rejeição e o abandono e teve de teorizar sobre o putativo interesse-magnético das mulheres por homens-excremento para se sentir mais confortável. Para sobreviver.

Foi Bukowski quem escreveu que «quem diz mulheres, diz sarilhos» e que «muitos bons homens foram atirados para debaixo da ponte por causa de uma mulher».
Ando a ler o livro do Carlos Brito sobre o Cunhal. Porquê?

Sempre tentei perceber a fé ateísta do Cunhal. É mais difícil das fés.

Ele não via, não pensava, não mudava - ele acreditava. Talvez no fim da vida, tenha já somente... tentado acreditar.

Mas a vida toda passou-a a lutar por uma palavra. Como dizia o poeta, felizes os homens que no fim da vida podem exprimir uma só palavra.

Que pode ser o nome do seu amor, que pode ser o nome do seu filho, que pode ser um ideal.

Claro que se a palavra for dinheiro. Ou sexo. Ou poder. Claro que nesses casos, a existência de um homem é pobre. Não teve oportunidade de nesta vida subir degraus na escada espiritual, partindo para a próxima com a mala espiritual praticamente vazia de mudas de roupa.

O pensamento político de Cunhal, no fundo, no fundo, no fundo, era extremamente simplista: há os que trabalham e há os que vivem do trabalho dos outros. A solução: nacionalizar os meios de produção de modo que se acabe com a dicotomia patrão (explorador das mais-valias)/trabalhador (explorado).

O raciocínio de Cunhal é triturado pela realidade. Um trabalhador como Ronaldo que ganha cento e tal mil contos por mês está do lado dos explorados e uma florista ou um quiosque que empregue um ou dois funcionários e que retire para si cem e cinquenta contos está do lado dos patrões-beneficiários do capitalismo?

terça-feira, setembro 21, 2010

eu preciso duma mulher meiga. preciso duma

mais do que preciso desta máquina-de-escrever, mais do que

o meu carro, mais do que

Mozart; eu preciso tanto duma mulher assim que

consigo senti-la no ar, consigo senti-la

na ponta dos dedos, consigo ver passeios construídos

de propósito para ela por eles caminhar,

consigo ver almofadas para a sua cabeça,

consigo sentir o meu sorriso enquanto a espero,

consigo vê-la a fazer festas a um gato,

consigo vê-la a dormir,

consigo ver os chinelos dela ali no chão


Charles Bukowski, tradução de Manuel A. Domingos
- Uma das experiências mais bonitas do mundo é o re-apaixonamento por quem se ama.
Sabia apenas qual o pensamento assombrado
Que lhe acelerava o passo e porque
Ele olhava para o dia garrido
Com olhos desesperançados;
O homem tinha morto aquilo que amava
E por isso tinha de morrer.

Apesar disso todos os homens matam aquilo que amam,
Todos os homens têm de ouvi-lo
Alguns fazem-no de olhar amargo
Alguns com uma palavra lisonjeira,
O cobarde fá-lo com um beijo,
O homem corajoso com uma espada!

Alguns matam o seu amor quando são jovens,
E alguns quando são velhos;
Alguns estrangulam-no com as mãos da Luxúria,
Outros com as mãos de Ouro;
O mais doce usa a faca, porque
Os mortos depressa ficam gelados.

Alguns amam demasiado pouco, alguns demasiado tempo,
Alguns vendem, e outros compram;
Alguns fazem-no com muitas lágrimas,
E alguns sem um suspiro:
Pois todos os homens matam aquilo que amam

Oscar Wilde traduzido por MG

domingo, setembro 19, 2010

Amizade no silêncio

- Quase não falámos, mas gostei de te ver.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Há tempos, sentado num consultório, vi o médico mostrar-me uma estatística com gráficos que dificilmente esquecerei.

A reincidência do tabaco nos fumadores que se liberta do vício é, passados seis meses, bastante superior à dos heroinómanos que largam a heroína. Se nos primeiros meses, o retorno ao vício apresenta números semelhantes, ao fim de seis meses, os fumadores têm muito mais dificuldades em deixar o tabaco. Se não tivesse visto o estudo e a fonte credível com os meus próprios olhos, não teria acreditado.

Uma pessoa muito próxima (hoje totalmente recuperada) de mim fracturou o crânio e esteve um período amnésico. Quando o visitava, percebi que não fazia a mínima ideia de quem era. A namorada, ao lado da cama, do hospital chorava compulsivamente. Ele não a reconhecia. Não sabia quem era aquele vulto e muito menos porque chorava. Mas dizia constantemente: «Tragam-me tabaco, preciso de fumar.»
Um artigo espantoso no Público de ontem, «A morte da Compaixão», José Vitor Malheiros, fala na quantidade de desgraças que nos inundam diariamente através dos média e diz que há um limite para a compaixão (como haverá para a tristeza, o ódio ou a esperança). Introduz um conceito fabuloso: a fadiga da compaixão. Os média apresentam-nos tantos e tão profundas desgraças, algumas das quais já consumadas e a que não podemos emprestar um atómo de qualquer coisa que não seja impotência, que a nossa compaixão tem um limite - o limite da sanidade mental. É uma questão de sobrevivência.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Isto sim, é notícia

98 milhões de pessoas deixaram de passar fome em 2010. Foi a primeira vez em 15 anos que a fome diminuiu. E logo com este número.

(enquanto isso acontece, processos mediáticos, carlos queirós, caso maddie vão impedindo a vista de alcançar o mundo)

Não seria de celebrar um acontecimento assim? Outro dia, pelo Bairro e Chiado, as pessoas inundavam as ruas com roupas e penteados diferentes na esperança de serem captados como o mais fashion. Era um concurso no sentido literal da palavra. Mas, não, isto é um rodapé noticiário e uma irrelevância para carreiristas.

terça-feira, setembro 14, 2010

Silabar

- Às vezes, vêm aqui jovens à livraria e eu não entendo o que eles dizem. Sabes uma coisa, Angel? Eles falam demasiado depressa, as palavras são para despachar, o que importa é a eficácia: é passar a mensagem. As palavras, para muitos deles, já não têm beleza nem música per se. Eu palavra que não os entendo e não é um problema de audição. É uma questão fonética. No meu tempo, não se falava assim. Os jovens hoje não silabam.

segunda-feira, setembro 13, 2010

eu transporto o teu coração comigo
(transporto-o no meu coração)
nunca estou sem ele
(para qualquer lado que vá,querida;
e tudo o que faço apenas através de mim
és tu quem o está fazendo, minha querida)
não temo o destino(pois tu és o meu destino, meu doce)
dispenso o mundo(porque linda tu és o meu mundo, a minha verdade)
e és tu tudo aquilo que uma lua alguma vez significou
e qualquer coisa que um sol cante perenemente és tu

eis o segredo mais profundo que ninguém conhece
(aqui está a raiz da raiz e o botão da flor do botão da flor
e o céu do céu de uma árvore chamada vida;
que cresce mais alto do que a alma pode aspirar ou a mente esconder)
e esta é a maravilha que mantém as estrelas separadas

eu transporto o teu coração(eu transporto-o no meu coração)


e. e. cummings traduzido por Angel

sexta-feira, setembro 10, 2010

46 páginas de entrevista

http://www.clubalice.com/index.php?file=1&id=2395
O livro - cujo título não me recordo - terminava assim:

«Por ela tive um amor sem esperança e, pior do que tudo, sem qualquer espécie de compreensão. É a pior espécie de amor.»

quinta-feira, setembro 09, 2010

Para quem gosta de animais/Para quem gosta de Arte

http://passatempodaxuxanita.blogspot.com/
- Mas como é que se pode dizer que os jovens hoje lêem mais? Como, se eles escrevem cada vez pior? As estatísticas de leitura são impossíveis de serem mensuradas. Era preciso ter um polícia ao lado de cada leitor. Pior do que isso: era preciso que esse polícia lhe fosse fazendo perguntas para perceber se ele estava realmente a ler o livro. Porque uma coisa é olhar para as letras, outra é ler. Ler é quando o que está escrita trespassa o olho, entra na mente e se faz na massa cinzenta uma transmutação da letra impressa em tinta em qualquer coisa cá dentro. Primeiro foi a televisão a afastá-los da leitura, depois o computador e toda uma parafernália tecnológica. A leitura está soterrada debaixo de uma série de estímulos. É mentira que hoje leiam mais. Lêem menos e lêem pior. Não têm paciência para estudar a fundo as questões. Precisam de distracções rápidas. Momentâneas. A leitura, o gosto intelectual é algo que mexe... até com o próprio corpo.

quarta-feira, setembro 08, 2010

- És infotocopiável.

terça-feira, setembro 07, 2010

A inteligência - alguém o escreveu - é a mais sobrestimada das virtudes.

Não sei - nunca o soube - o que é a inteligências. Sei que há muitos tipos de inteligência. Sei que o humor é a inteligência mais requintada. Mas não consigo calibrar: fulano tal é inteligente, sicrano não é.

A inteligência - o que quer que isso seja - só será uma virtude se nos permitir ter um talento acrescido para a felicidade ou, se preferirem, para atenuar o sofrimento.

Preferia ter um filho com talento para alegria a um que talento para a inteligência.

Assim como preferia ter um filho com menos ambições e mais feliz do que um filho de sucesso com muitos sonhos por cumprir.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Nem a intimidade da tua fronte clara como uma festa,
nem o hábito do teu corpo, ainda de menina e misterioso e tácito,
nem a sucessão da tua vida assumindo palavras ou silêncios
serão favor tão misterioso
como olhar o teu sono envolvido
na vigília dos meus braços:
Virgem milagrosamente outra vez, pela virtude absolutória do
sono,
serena e resplandecente como a alegria que a memória escolhe,
dar-me-ás essa margem da tua vida que tu própria não tens.
Entregue à serenidade,
divisirei essa praia última do teu ser
e ver-te-ei acaso pela primeira vez
como Deus te verá,
já dissipada a ficção do Tempo,
sem o amor, sem mim.


Jorge Luis Borges
O facto de não saber fazer melhor, ou de todo saber fazer, não me poderá nunca impedir de exercer o direito de cidadania e criticar erros pungentes cometidos por aqueles que elegemos num país democrático.


Eu digo bem haja a todas as mentes brilhantes e alertas que se exprimem melhor do que eu e apontam os erros da nossa classe dirigente. Mas provavelmente não votaria nas mesmas pessoas para me dirigirem. Não será esse o seu papel, penso. Como disse George Steiner, e citando: "Todo o crítico é um escritor eunuco". Ou seja, eu não leio os livros do MSTavares. Não quero desiludir-me. E não votaria nele para me dirigir.


Votaria noutras mentes brilhantes para nos dirigirem. Espero ansiosamente que alguma mente brilhante aceite o desafio. Não vamos ser profetas da desgraça, não vamos medina-carreirar (novo verbo da língua portuguesa ; ). Podemos fazer tudo. Aproveitemos a democracia, que como disse Winston Churchil, é o pior sistema político, exceptuando todos os outros.




Luís Serra Santos

domingo, setembro 05, 2010

Sobre a arte da tergiversão

Várias pessoas ouvem-me contar histórias e depois quando as ouvem contar por outras dizem-me:

- Mas a tua era muito mais cativante.

Desconhecem que um ficcionista está sempre a tirar fruta e doces da bandeja da imaginação.

Mesmo quando cito (oralmente) poemas ou passagens de livros, adapto-os. Não tenho a pretensão: estou a melhorá-los. Simplesmente sinto: para mim, assim, são mais bonitos. O Eduardo Prado Coelho afirmava fazer o mesmo mas de forma inconsciente. Eu faço-o de forma consciente.

Um ficcionista é um mentiroso. Mas que através da metáfora da mentira, procura atingir o coração mais íntimo da verdade.
Não, não coloco apenas citações com as quais concordo. Procuro fazer da tasca uma taça de cristal facetado que espelhe o Universo.
Não digas que não aprecias poesia. Há certamente um poema - provavelmente já escrito - que te tocará as cordas mais sensíveis. Então dirás: «Eu tenho uma alma.»
O dia mais belo? Hoje. A coisa mais fácil? Equivocar-se. O maior obstáculo? O medo. A raiz de todos os males? O egoísmo. O maior erro? A guerra. A distracção mais bela? O trabalho. A pior derrota? O desalento. Os melhores professores? As crianças. A primeira necessidade? Comunicar. O pior sentimento? O rancor. A pessoa mais perigosa? A que mente. A via mais rápida? O caminho certo. A maior satisfação? O dever cumprido. O melhor remédio? O optimismo. A mais bela de todas as coisas? O amor. As pessoas mais necessárias? Os pais. O mais imprescindível? O lar. O melhor presente? O perdão. O sentimento que mais te bloqueia? A tristeza. O que te faz mais feliz? Ser útil aos outros. A força mais poderosa do mundo? A fé. O maior mistério? A morte. A sensação mais agradável? A paz interior.

Anselmo Borges
Conheces aquele tipo-de-pessoas-que-só-te-ligam-quando-precisam-de-alguma-coisa?

sábado, setembro 04, 2010

- Se não te critico, que valor terão os meus elogios?

sexta-feira, setembro 03, 2010

Sou um coleccionador e amante de quintessências.

quinta-feira, setembro 02, 2010

O Plágio de Saramago que a imprensa abafou

Descrição/Função
Procura-se Assistente de Medicina Dentária para integrar clínica localizada na Margem Sul do Tejo para Entrada Imediata.


Funções:
- Acolhimento e Encaminhamento dos Pacientes em Clínica
- Apoio ao Quadro Médico
- Limpeza e Esterilização de Equipamentos e Instrumentos Médicos
- Controlo e Gestão de Stocks

Perfil da Candidata:
- Imagem escrupulosamente Cuidada
- Experiência no desempenho da função
- Formação a nível do 12º ano de escolaridade
- Dinamismo e Capacidade de Realizar várias tarefas em simultâneo
- Residência obrigatória: Margem Sul do Tejo

Oferece-se:
- Remuneração base + subsídio de almoço + prémios de produtividade muito acima da média;
- Plano de desenvolvimento profissional

Os currículos que correspondam ao perfil descrito deverão ser enviadas para rhlab.recruiting@gmail.com juntamente com a carta de apresentação.

Nota: Os currículos deverão conter uma fotografia actual da candidata, sem a qual não serão considerados

quarta-feira, setembro 01, 2010

- No meu funeral, só quero uma pessoa a discursar: você.

Frontalidade parte 2

Não é verdade que a frontalidade nos tragam sempre prejuízos profissionais. A médio prazo, qualquer vendedor sabe que se elogiar sempre todos os produtos que tem, perderá credibilidade.

Outro dia, fui comprar vinho a uma loja. O vendedor disse: não leve esse. Este é melhor. (Vi o preço: era mais barato.). Ganhou um cliente. Tenho lá ido regularmente...


Uma vez no trabalho, cheguei era quase meio-dia [quando devia entrar às nove]. Com alguma razão, o administrador entrou no meu gabinete:

- Dr. Angel, isto são horas de chegar? Você nem sequer fui ao meu gabinete justificar o atraso. [Ponto em que tinha razão.]

- Ontem saí daqui às cinco da manhã, quando o meu horário é até às dezoito. Dei onze horas à empresa. Hoje, cheguei três horas atrasado. A empresa ainda ganhou oito... [o equivalente a um dia de trabalho lá]

- Caro Angel, nas empresas só há horários de entradas; não há horários de saída...

- Dr. João, faço-lhe a jutiça de não acreditar que tenha uma concepção tão arcaica do que é uma empresa.

Estranhamente, sorriu. Era um sorriso cúmplice.

A partir desse dia, passou a respeitar-me muito mais.

Sim, estou positivamente farto de ver as pessoas mudar. A frontalidade faz milagres.

Não acredito no Inferno. Mas se o houvesse, deveria ter um cantinho especial para os culambistas [expressão do MEC]. Traduzindo: os que lambem cus.

Detesto culambistas.

Hoje alguém me perguntou porque eu era tão frontal se isso me prejudicava.

- Gosto de chamar injusto ao injusto e justo ao justo.

Não tenho a verdade no bolso. Mas não consigo ficar calado quando vejo desonestidade, oportunismo e falta de carácter. Pior: quando elas são premiadas.

Estou farto de ver gente a subir na vida devido ao servilismo, à bajulação e ao silêncio perante a trafulhice.

Se nunca disseres ao cruel que ele é cruel, acredita que provavelmente nunca ninguém lho dirá.

A frontalidade tem um preço a pagar. Por vezes, bem alto.

Mas há uma coisa que se ganha: limpa-se o rancor.

Há ainda outra: os amigos que temos [nós, os frontais] são genuínos.

E outra: quando dizemos bem, as pessoas acreditam, porque já nos ouviram dizer mal.

Como aquela história do barco em que havia dois grupos que lutavam para não se afogarem, e um dos indivíduos queria pertencer aos dois. Foi o primeiro a ser atirado do barco pelos dois grupos porque, ao querer ficar dos dois lados, não ficou de nenhum. O pior de tudo são os que não escolhem. Os neutrinhos. Os que não tomam partido. No final, ficam sozinhos. Ou pior do que isso: ficam com outros da mesma jaez.

P.S. Havia um homem que era um déspota. Nunca ninguém ousou dirigir-lhe uma palavra depreciativa. Um dia alguém levantou a voz contra ele. Houve uma revolução de uma maioria silenciosa.