terça-feira, agosto 31, 2010

Se a educação é um legado tão importante, porque há dois irmãos tão diferentes?

Kafka - o mergulho no mundo interior para descobrir o que de universal há no eu

Nos meus vintes, Kafka era um autor que lia e relia. Considerava (e ainda considero)ter uma obra fora do mundo e do espaço.

Lemos Kafka de fio a pavio e não há ali referências temporais ou espaciais. Ele expurgou-as porque intuiu como ninguém que a Literatura não devia ser nem datada nem balizada por espaços.

As suas parábolas são universais e intemporais. Abrangem qualquer galáxia.

A história do homem que é preso uma manhã sem saber porquê. O Processo.

A história de um homem que procura um castelo para onde irá trabalhar, está cada vez mais perto, mais perto, mas nunca lá... O Castelo.

A história de um homem que acorda transformado num gigantesco insecto e as consequências que isso traz na sua vida de funcionário que ia nesse dia apanhar o comboio para o trabalho. Metamorfose.

América, a busca do sonho-lugar-mítico que é no fundo a vida.

Carta ao Pai ou uma das melhores descrições da eterna relação amor-ódio que é a relação entre um pai e um filho; e que esmagam anos e anos e anos de psicanálise.

Não encontramos na obra de Kafka períodos temporais (séculos, datas), nem espaciais; porque a Literatura conforme a executou, torna supérfluo essas categorias. A Kafka interessava que a Literatura fosse perene. E é por isso que ele chegou até hoje, tão actual, como será daqui a milénios.

As suas histórias poder-se-iam passar em toda a parte.

Com os anos, o avolumar das leituras, Kafka foi para mim perdendo significado. É que eu acho que Kafka nunca compreendeu bem as pessoas. E, por isso,o forte da sua obra não são as personagens nem o vasto sortido das emoções humanas; mas a angústia do homem coum perante a impotência das mãos-invisíveis-de-Deus-ou-do-Destino. Kafka compreendeu-se bem a ele. Tal como Freud. Eram dois sujeitos com uma inteligência intra-pessoal enorme. E a partir da sua auto-compreensão; erigiram algo tão-seu que muitas pessoas conseguiram rever-se nesse facho erguido directamente das suas entranhas. Porque quando nos despejamos inteiramente num livro - percebemos que alguém se verá reflectido numa das miríades de raios de luz que o nosso facho emana. Tornaram a sua particularidade um feixe e luz em que muitos se revêem. Porque, claro está, nenhum homem é uma ilha... E o escritor ao mergulhar em si, ajuda o outro a iluminar continentes seus que não conhecia...
Outra coisa que aprendi com Kafka é que os grandes inimigos da sua obra: Deus e o Estado; nunca são nomeados. O grrande escritor é o que escreve a letra invísivel no subtexto. As palavras não estão lá, mas Deus e Estado são a origem de todos os problemas. Estão sempre lá, nunca estando... Assim como, as palavras culpa, vergonha e absurdo que perpassam toda a sua obra e que não precisam de ser nomeadas. É um atalho tão fácil nomear os conceitos. Difícil é fazê-los brotar em romances sem nunca sequer juntar as letrinhas...

Lembro-me até de ficar chateado por um dia ter descoberto uma referência espacial no Kafka (além do América, nele mais metáfora do que continente), quando n´O Processo, o autor fala de um pintor italiano. Estava tão limpa a obra dele; sem uma referência a espaço ou local.

Já o Gandhi ou - porque não dizê-lo? - o Obama são pessoas com uma inteligência inter-pessoal muito grande. Conseguem compreender o Outro.

segunda-feira, agosto 30, 2010

O despedimento do Carlos Queirós é como sentir que readquiri a cidadania portuguesa.
- O mundo caminha para a bissexualização. Claro que poderá haver que tenha um pendor mais para um sexo do que outro, mas a tendência é essa. Escolhermos as pessoas pelo que são; e o sexo deixar de ser uma limitação como a etnia, o credo, ou a vila onde se nasceu.

Uma vez que neste blogue foi publicada a versão de ALA, a tasca serve agora o outro lado...

A mentira

Apanhado a mentir, António Lobo Antunes ficou ainda mais rosadinho: não por vergonha, mas desfeito em raiva

Por:Manuel Catarino, jornalista
O escritor António Lobo Antunes cumpriu uma comissão em Angola – como alferes médico da Companhia 3313 do Batalhão de Artilharia 3835. Recordou, 40 anos depois, esses tempos na Guerra Colonial: o batalhão sofreu 150 baixas; os soldados tinham por hábito matar indiscriminadamente velhos, mulheres e crianças; havia um sistema de pontuação que permitia a quem matasse mais ser transferido para outra unidade numa zona mais calma. Ele – que nunca combateu, era o médico da companhia – até "tinha talento para matar".

O que conta António Lobo Antunes – um extraordinário e impressivo testemunho sobre a condução da guerra – merece toda a atenção e estudo: ele não é um tipo qualquer e o assunto é demasiado sério para passar ao lado dos historiadores da Guerra Colonial.

Mas, como já se viu, o relato – nas mais benevolentes palavras – não passa de uma fantasia, um delírio, uma obsessão. Mentiu – e fê-lo sem um pingo de pudor: aproveitou--se do estatuto de escritor para denunciar factos que não são verdadeiros. Os gestos definem o carácter de cada um. A mentira é sempre desprezível. Mas uma mentira conscientemente repetida por alguém com elevadas responsabilidades públicas roça a canalhice. Apanhado a mentir, António Lobo Antunes ficou ainda mais rosadinho: não por vergonha, mas desfeito em raiva.

Agarrou-se a uma desculpa – que também ela é reveladora do carácter. Explicou--nos – a todos – que falara "metaforicamente". Não fomos capazes de perceber o alcance das suas sábias palavras: "Qualquer leitura no sentido literal do que digo é abusiva." A culpa é nossa – que levamos à letra o que Lobo Antunes diz – como se não existisse diferença entre um testemunho e a ficção.

O Batalhão de Artilharia 3835 sofreu mesmo 150 baixas? Não. Lobo Antunes queria-nos dizer outra coisa. Os soldados portugueses matavam indiscriminadamente velhos, mulheres e crianças? Pode ter acontecido, mas não era prática instituída. Quando disse o contrário, Lobo Antunes estava a falar por metáforas. Havia algum sistema de pontuação que permitia a quem mais matasse ser transferido para uma zona onde a guerra era menos intensa? Não. Lobo Antunes estava apenas a delirar.

O escritor apela, por fim, à nossa comiseração. Que o desculpemos – porque "ninguém desce vivo da cruz". Só por isso, está desculpado da minha parte. Mas sempre lhe digo que conheço muitos homens que derramaram sangue na cruz da guerra e não mentem – nem por metáforas.

in www.rtp.pt
- Muitos dos ateus com quem falo, fazem-me sentir que também eu sou ateu. De muitos deuses. Do Deus dos ateus sou também ateu. A questão do acreditas em Deus deve ser sempre seguida do: mas em qual? Do Deus castigador, ciumento, possessivo, porra isso eu sou ultra-ateu! Do Deus que criou o Inferno! De modo que regra geral, quando converso com ateus chego à mesmíssima conclusão: sim, desse Deus, também eu sou ateu.

domingo, agosto 29, 2010

Tantas almas solitárias neste mundo.

Nuno Estevens

sábado, agosto 28, 2010

Não poderia haver um conjunto de seis palavras que o descrevesse mais acertadamente

- O Gonçalo M. Tavares tem uma máquina no lugar do coração.
- Borges dizia que se deviam escreves romances a partir dos sonhos.
- O ideal seria conseguir escrevê-los dentro dos sonhos.
O meu amigo LP, literato, diverge de mim totalmente na sensibilidade literária. Quase nunca gostamos do mesmo. É bom e enriquecedor. Complementamos a visão parcelar do Outro.

(Eu também costumo gostar das mulheres que mais ninguém gosta.)

O LP acha que o fundamental na Literatura são o enredo e as personagens. Eu acho essa ideia da Literatura perigosamente parecida com o Cinema. Subscrevo a visão de Vergílio Ferreira: o que importa é a atmosfera.

A transmissão de sentimentos, ideias, emoções. E uma boa prosa, claro está. O escritor de fazer amor com as palavras, como dizia o José Rodrigues da Silva.

As personagens e o enredo são apenas a sombra de ideias-maiores, de emoções-maiores. São instrumentos. Canais que transpõem o Universo inteiro para a página.

Como dizia o Lobo Antunes, o bom escritor é aquele que quando escreve a palavra chuva, chove nessa página. A Literatura deve-nos submergir de tal forma que as brumosas fronteiras entre o livro e a vida se dissolvem...









She may be the face I can't forget
The trace of pleasure or regret
Maybe my treasure or the price I have to pay
She may be the song that summer sings
May be the chill that autumn brings
May be a hundred different things
Within the measure of a day

She may be the beauty or the beast
May be the famine or the feast
May turn each day into a Heaven or a Hell
She may be the mirror of my dreams
A smile reflected in a stream
She may not be what she may seem
Inside her shell....

She, who always seems so happy in a crowd
Whose eyes can be so private and so proud
No one's allowed to see them when they cry
She maybe the love that cannot hope to last
May come to me from shadows in the past
That I remember 'till the day I die

She maybe the reason I survive
The why and wherefore I'm alive
The one I care for through the rough and ready years

Me, I'll take the laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I've got to be
The meaning of my life is
She....She
Oh, she....
- Angel, tu atacas mesmo é no cérebro.
- Estou farta de esta máscara de pseudo-segurança, de ser um mero ponto-de-convergência-de-apetites-carnais-de-todos-os-homens; no fundo de mim há uma ave que se magoa por tudo e por tudo nada, uma criança que só quer ser amada. Nunca ninguém ate hoje me «viu».
Escreve-se pessimamente em Portugal. Lê-se pessimamente em Portugal. Há escritores, muito patrocinados pela Imprensa, pela Rádio e pelas Televisões, que me levam até ao desgosto da palavra. Há jornalistas que o não são, à força de o quererem ser. Os escritores falam das suas pequenas angústias quotidianas e ignoram, por desmazelo, preguiça ou estratégia, os grandes e dolorosos problemas nacionais. Os jornalistas foram disciplinados (ia a dizer: "normalizados") para cultivar a "distanciação" e falam de "verdade substantiva" - a forma e o modo mais redondos e sórdidos de se afastarem da realidade possível.

O combate contra a língua não é, somente, mera questão de gramática. O combate contra a língua, a que assistimos nos jornais, nos livros, nas televisões, nos discursos dos políticos, é, também e sobretudo, uma questão ideológica e uma abjecção moral.

Repare-se na selecção informativa da Imprensa; atente-se nos títulos dos best-sellers (a "besta célere", designada por Alexandre O'Neill); e no declínio das tiragens dos jornais. Nem uns nem outros reflectem ou testemunham a realidade portuguesa. Aplico a estas evidências o conceito de Noam Chomski, o qual evoca "as perspectivas de transformação social do mundo actual, bem como que poderia ser a utopia para os que, apesar da pedagogia da impotência, martelada pela comunicação social, não renunciaram a transformar o mundo". Eu não renunciei. E muita mais gente do que se julga também não renunciou.

Venho de um tempo em que se escrevia baixinho, quando muitos baralhavam a dignidade e outros eram os insurgentes de uma contínua rebeldia. Queríamos dizer tudo, a memória dos outros acompanhava-nos, e as palavras eram o produto de todos os sangues. Dessa memória insubordinada e dessa aventura de liberdade me tenho socorrido para a composição do que escrevo, afinal a correspondência do meu desejo íntimo de recompor o mundo. Por vezes esmoreço, e sobressaio como um homem desencantado. Não gosto do que vejo e sinto-me um pouco responsável pelo estado das coisas. Mas regresso à minha oficina, ao torno do meu trabalho, velho operário caturra a procurar modelar a matéria do seu ofício, e a interpretar os sinais da época.

Em que ponto estamos com o tempo? Quais as relações entre história, saber, avaliação, espaço, disciplina e palavra? Nos últimos anos tenho procurado encontrar respostas para estas interrogações: no que escrevo e no que outros escrevem, impulsionado por essa circulação insana e fértil, absurda e inquietante que são os dias da nossa rapidez sem flores e sem perfumes. No entanto, persisto na teimosia da esperança; insisto em que a direcção da condição humana é a da liberdade; acredito, como Saint-Just, que a felicidade é possível entre os homens; e continuo a confiar num outro contrato social, cujas imensas possibilidades sejam exploradas pela vontade política.

Baptista-Bastos
Uma pessoa assim tão bonita só pode ser incompreendida num mundo como este.
- Gosto de levar um «murro» e um beijo logo a seguir.

quinta-feira, agosto 26, 2010

- Estou no meio do vórtice. Tento não pensar muito nisso...
- Um dos passatempos que tenho é observar pessoas na rua e tentar imaginar o que fazem. e quando andava de autocarro com uma amiga a caminho da faculdade, tínhamos uma brincadeira tonta: escolhíamos uma pessoa sem dizer e dizíamos o nome de um animal e a outra tinha de perceber quem era a coruja, o girafa, o rinoceronte nesse autocarro. Éramos tão subtis que fixávamos o olhar no suposto animal e a outra acenava com a cabeça sim ou não.
As pessoas não gostam - normalmente - de dividir o mundo entre bons e maus. Mas por outras palavras fazem-no. O reaccionário é o mau para o esquerdista. O esquerdalho é o mau para o direitista. O ateu é o mau para o crente. O beato é o mau para o ateu. O fundamentalista é o mau para o céptico. O materialista é o mau para o idealista. O machista é o mau para a feminista. O racista é o mau para o igualitarista entre raças. E mesmo quando dizemos: é um tipo porreiro; estamos, de forma artificialmente descontraída, a dividir o mundo entre bons e maus.

Auto-elogio: nunca me enganei a identificar os filhos-de-puta.

quarta-feira, agosto 25, 2010

O rótulo

Num episódio do Benny Hill, há um criado que serve vários vinhos para um lorde degustar. Nenhum lhe agrada.

A certa altura, o criado vai à cozinha e espeta um rótulo de luxo na garrafa que, um minutos antes, o lorde reprovara com uma cara de repugnância.

O lorde sorri ao beber o mesmo vinho.

- Magnífico, magnífico.

Há pessoas que julgam os outros pelas roupas. Pelos penteados azuis.

Uma coisa que gosto de fazer é mostrar textos de desconhecidos «assinados» como Tolstoi, Proust, Joyce. Dizem-me sempre: genial.
Abril oblíquo
azul oblíquo
escuridão oblíqua
lágrima oblíqua
resposta oblíqua

maj

A Tasca Aconselha

www.clubalice.com


www.clubalice.com/index.php?file=1&id=2263
- Mas que relação é que vocês têm?
- Traficamos intimidades.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar

Miguel Torga
Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Amo-te como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.
Amo-te como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.


Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
Amo-te assim directamente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Senão assim deste modo que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.


Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas.
Nada contava nem tinha nome.
O mundo era do ar que esperava
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se dependiam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo.
Caído, abandonado, decaído,
Tudo era inalianavelmente alheio.
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Pablo Neruda
David Hume, materialista e empirista, conversava com Voltaire, deísta (daqueles que acham que Deus criou o mundo mas depois lhe virou as costas, sem interferir uma palhita) na sua casa. A certa altura, versaram sobre o factor Deus.

Hume expôs o seu ateísmo. Voltaire sentiu estar diante de um ateu empedernido e tentou, sem sucesso, deslocar a conversa. O olhar de Voltaire fixou-se num relógio.

- Para onde olhas, Voltaire?
- Nada. Estava só a contemplar aquele relógio. É muito bonito.
- Obrigado. Foi um presente.
- Estava a pensar que ele deve ter tido um relojoeiro que o fez...

Com esta frase, matou a conversa. Hume ficou confuso: como poderia um relógio não ter um relojoeiro? E assim, calando-se, deixou de falar do seu professo ateísmo. Como poderia algo surgir do ab nihilo, como é que algo poderia provir do Nada? Teria de haver um princípio criador do Universo, o tal demiurgo.
A minha vida tem cor a mais.

terça-feira, agosto 24, 2010

segunda-feira, agosto 23, 2010

Eu estava numa zona onde havia muitos combates e para poder mudar para uma região mais calma tinha de acumular pontos. Uma arma apreendida ao inimigo valia pontos, um prisioneiro ou um inimigo morto outros tantos pontos. E para podermos mudar, fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava e, como quando estavam mortos valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros.

António Lobo Antunes
A saudade é arrumar o quarto/ Do filho que já morreu.

Chico Buarque
- Quarenta mil anos de linguagem e não há uma palavra para descrever a nossa relação.

The Ghost-Writer, Roman Polanski

O jornalismo na batalha das ideias

Numa turbulência de adjectivos, certos jornais, especialmente um, regozijaram-se com a subida do produto interno bruto da China.
Com infogramas, caixas coloridas, gráficos, animaram as páginas correspondentes ao airoso acontecimento. Uma vuvuzela quase ensurdecedora, e de significado duvidoso, a dissimular um jornalismo de mau porte, que tem sido, nos últimos anos, característica fundamental da nossa Imprensa.

Muitos anos de batucar prosa, organizar, paginar jornais, dão-me, segundo modestamente creio, uma certa autoridade para falar deste assunto. Claro que nada tenho a ver com as "dissecações" que o Pacheco Pereira costuma fazer. O Pacheco Pereira é um ignorante em matéria de jornalismo, e um preopinante tocado pela ânsia doentia de protagonismo. Politicamente, sabe-se o que ele é. Como "técnico" de ideias gerais, especialmente de jornalismo, é um pascácio. Depois do primeiro atordoamento, as pessoas começaram a ver a espessura intelectual do sujeito.

Adiante, que se faz tarde. A alegria esfuziante dos jornais (especialmente um, adivinhem qual) sobre o poder económico da China não é uma ambiguidade, é uma leviandade e uma gravíssima omissão. A China, cujos dirigentes mascaram a política e a ideologia com a bizarra expressão: um país, dois sistemas, constitui a representação típica do mais atroz ataque aos direitos humanos. As luzes das grandes cidades, a introdução das grandes marcas e das multinacionais, as montras refulgentes, os concursos de moda e de beleza as raparigas muito belas, vestidas à maneira ocidental (o que quer que esta palavra queira dizer) ocultam uma sociedade sinistra. Milhões e milhões de pessoas trabalham sem horários ou com horários falaciosos, auferindo salários de escravo. As execuções por "crimes económicos" são conhecidas, embora pouco conhecidas, porque a revelação destas atrocidades não interessa aos "negócios."

A violência e a desumanização nas aldeias, onde a miséria, a fome e o desespero são os retratos malditos de um sistema que não é carne, nem peixe, nem arenque vermelho, envergonham aqueles que ainda têm um pingo de dignidade. Como se regista e vê, os jornais deixaram de referir a China como um atentado à decência humana. Desde que os seus dirigentes abriram as portas ao "mercado" e aos imensos interesses da compra-e-venda, operou-se um silêncio nos meios de comunicação que chega a ser afrontoso.

Ao enunciar, com alegre irresponsabilidade, a grande vitória económica da China, aquele jornal que não quero nomear, dizia, levemente cabisbaixo: "Num regime nada perfeito, é uma arma de peso considerável." Que raio de jornalista é este que redigiu a frase infamante? As pessoas deixaram de contar, eu sei, para aqueles que existem nos números e nos cifrões. Mas que haja um jornalista, por muito afecto aos fascínios do "mercado", capaz de produzir uma frase desta natureza, então, a coisa é mais grave do que eu próprio julgava.

Vivemos numa "democracia de superfície" cujas mal-formações irão agravar-se com as exigências do capitalismo, cada vez mais predador. Pouco são, hoje, aqueles, jornalistas, intelectuais, escritores, artistas, que se opõem a esta medonha vaga de fundo. Mas há alguns. E é nesses alguns que devemos apoiar as nossas esperanças: estimulá-los, agradecer-lhes. Muita coisa de ordem moral, humana e decente está em jogo. A Imprensa possui um papel crucial nesta nova batalha das ideias. Que os seus profissionais não se deixem abater por circunstanciais históricos, e que defendam, com bravura, a grandeza do homem.

O volte face que se operou, em termos informativos, relativamente à China tem a ver com a manipulação e com a ignorância. Há tempos, o dr. Fernando Nobre, por quem nutro admiração e respeito, disse, numa programa na SIC, depois de assistir à exibição de um documentário sobre o sistema de saúde nos Estados Unidos: "É isto que não quero para o mau país." Acusava o facto de milhões de norte-americanos, sem seguro de saúde, estarem à mercê dos abandonos sociais. A grande rábula de os "privatistas" apoiarem as suas teses no direito de cada cidadão escolher o seu médico, é uma aldrabice monstruosa. Pedro Passos Coelho prevê, para Portugal, um processo e uma situação semelhantes. Não há que fugir a esta evidência.

O Pacheco, obviamente, é antagonista do jornalismo de causas. É um homem que abjurou, e que encontrou, no hálito da Direita mais reaccionária, o calor do seu querer. Fere, por ignorância, uma das grandes e mais honradas tradições da Imprensa portuguesa. E os paladinos da "distanciação" colaboram, miseravelmente, nesta ofensiva, sem se aperceber (ou apercebem-se?) de que empurram para o abismo uma das grandes profissões de defesa do humano.

Baptista-Bastos
- Vende-me um pouco da sua serenidade?
Num casal, nunca ninguém ama com a mesma intensidade que o outro.

Angel

Num casal, há sempre um que é o guardião da solidão do outro.

Rilke

Um não é metade de dois, dois é que são metade de um.

e. e. cummings
Manuel Machado diz que a passagem para a morte - ele que a conheceu (à passagem) - é de uma extrema doçura. Voltou por isso à vida sem inquietude. O medo da morte é a raiz de quase todos os problemas.
Uma senhora cujo nome não gosto de invocar diz uma frase certeiríssima. Que o machismo é a ideologia mais universalizável do mundo.

(poderá não ser ipsis verbis, mas eu quando memorizo adapto-e de forma a que me soa mais perfeita a frase)

domingo, agosto 22, 2010

Dominique de Roux explica que a maior parte das pessoas utiliza as palavras, na maior parte das vezes, para obterem a simpatia - ou o seu contrário - alheia. As palavras são assim desprovidas do seu fogo-infinito-intrínseco; reduzidas a meros veículos de auto-afagarem os seus egos.
A poesia é o sistema nervoso da humanidade.

Ezra Pound
Os poetas são os legisladores não reconhecidos do mundo

Shelley

sábado, agosto 21, 2010

- Ocorreu-me agora que sempre que estivesse a falar contigo devia ter um gravador à mão, para não se perder nada.
Falávamos daquela que considerávamos ser uma das maiores distopias do século XX. Darkness at Noon, estranhamente traduzido para O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler.
Ambos achávamos - além do livro - o título absolutamente extraordinário. O espantoso é que ambos tínhamos interpretações diferentes da metáfora.
Ele deu-me uma excepcional:
- A escuridão ao meio-dia tem que ver com o facto de os comunistas mais fanatizados não terem conseguido ver a realidade. Era meio-dia e eles viam a escuridão. Era meia-noite e eles viam o Sol. As ideologias cegam, distorcem a visão da realidade.
Eu dei-lhe a minha:
- Sempre vi o título como uma metáfora do comunismo. Na doutrina, prometia o Sol. Na prática, trouxe as trevas. A escuridão ao meio-dia é essa aberração de algo que anuncia o Sol e que, quando vem, cobre o mundo da mais profunda negritude. Não poderá haver desilusão maior do que a noite cair ao meio-dia, no pino do Sol.

O pai diferente

Não lhes ralhava quando tiravam más notas na escola
mas repreendia-os quando menosprezavam a Poesia.
Ensinava aos filhos que a carreira era um erro grosseiro.
Um estreitar da mente.
Um afunilar do espírito.
O afastamento do espiritual.
Só lhes bateu uma vez - quando se riram da fome em África.
Só lhes gritou uma vez - quando gozaram com um maluco!
«Respeitem o diferente! O que a sociedade tem por diferente
pode ser um sábio!»
Horas mais tarde, de forma mais branda disse-lhes:
«A normalidade é o barómetro da assimilação acrítica
Tu gostas de ir à escola? - perguntou ao filho mais novo -
ou vais porque todos os outros vão?
Tu gostas de ir todos os dias para o emprego? -
ou vais para te sentires útil? - perguntou ao filho mais velho.
É preciso ser-se corajoso e sábio para ser-se louco.
A palavra mais bonita, do mundo, meus filhos,
é a "trangressão".»
Meu amor minha caneta de tinta permanente
minha alga no fundo do poema
aqui estou debruado num sonho
onde as palavras são de chocolate...

ANTÓNIO BARAHONA DA FONSECA

O Homem Céptico e Disfórico

Sorri dos dramas dos outros
das suas velhas crendices
do Amor
(sim, do Amor)
de Deus
(a quem nunca cumprimentou
do mesmo modo que nunca esboçou um semi-sorriso ao velhinho do quiosque da sua rua
onde vai comprar cigarros há trinta anos)
da Superstição
do Medo que Comanda as Vidas
da Sabedoria
(sim, da Sabedoria)
dos vendedores de ilusões
dos rebanhos
da auto-importância dos outros
do respeitinho
da cerimónia
Ri-se da luta
da esperança
do orgulho
dos conceitos de bem e mal
(Nada é rídiculo, nada é soez, nada é novo,
murmurou ao fim do décimo quinto copo)
Abana a cabeça
(um som mudo,
um gesto invisível)
quando ouve sonhos
quando alguém se envaidece
Nada lhe abana a alma
já viu tudo
A violação da menina de dois anos pelo pai que lhe rasga
as bordas da vagina para introduzir o pénis
não o comove mais do que uma mancha de café
no jornal da manhã
Escarna do sorriso inocente das crianças
da beleza das flores
e dos amanheceres
e não dá mais importância às emoções
do que às cores
Encolhe os ombros perante os heróis
os intelectuais
os santos
os que amam incondicionalmente alguém
os que fazem o bem ao próximo
mas o entusiasmo ainda o irrita
os românticos ainda o maçam
os que enchem os supermercados ao domingo ainda lhe insuflam
qualquer átomo de raiva que sobreveio à desertificação da sua humanidade
«o pior de tudo são os idealistas», disse
(ele que não calibra nada nem ninguém)
os idealistas enjoativam-lhe o último resíduo de alma
Queres concertar o mundo? - gargalhou certa vez
segurando um cigarro menor do que a cinza.
Não, disse quando alguém foi buscar a vassoura.
Os meus olhos perguntaram-se-lhe se o tapete seria uma metáfora da vida.
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Sophia
Os bens do poeta: um fazedor de inutensílios, um travador de amanhecer,
uma teologia do traste, uma folha de assobiar, um alicate cremoso, uma escória
de brilhantes, um parafuso de veludo e um lado primaveril.

Manoel de Barros

sexta-feira, agosto 20, 2010

O amor platónico é o amor do pescoço para cima.

Thyra Samter Winslow

(obrigado a.v.s.)


(Ana Catarina)
Às vezes, sinto o contrário da solidão. Sinto-me esmagado por pessoas. Como aqueles que são derrubados numa multidão, milhares de pessoas passam sobre sim. Só que neste caso não é fisicamente. Pisoteiam-me a alma a todo o instante.
- Não sei ficar ao lado de alguém... sem fazer o bem...
As biografias têm essa particularidade de tudo quererem ordenar, de forma lógica e cronológica, como se uma vida se explicasse à luz da morte e todos os passos dados justificassem a chegada ao fim.

Maria João Freitas
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

Sophia
Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.

Manoel de Barros
A Ausência desincorpora – e assim faz a Morte

Escondendo os indivíduos da Terra

A Superstição ajuda, tal como o amor –

A Ternura diminui à medida que a experimentamos -



Emily Dickinson

quinta-feira, agosto 19, 2010

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.


Álvaro de Campos
Alongando-se

Que luz existe mais doce do que esta
de um Fevereiro a romper,
5h45 da tarde, ou por aí,
desafiando só a claridade?

Os caixotes do lixo estão vazios,
tombados no passeio,
as árvores neste pequeno parque
acolhem neve velha à sua sombra,

mas um pássaro canta o seu canto rouco,
que rompe a nuvem de ramos expectantes,
e uma nuvem a sério torna-se carmim
no azul novo que se tornou mais longo.

John Updike
As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis:
elas desejam ser olhadas de azul

Manoel de Barros
Ontem choveu no futuro.

Manoel de Barros

Branco no Branco

Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.

Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.

Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

Eugénio de Andrade

(de Lucien Freud) - O meu eu em dias maus

O escritor deve quer conhecer, sentir, ver, viver, cheirar tudo. Se ele diz: isso não me interessa, isso não interessa à literatura; está a amputar a sua obra de uma porção do Universo. E a Literatura deve abranger tudo. O possível e o impossível. Se tivéssemos de mostrar algo a extraterrestres, escolheríamos a Literatura. Porque ela é a experiência mais holística, perene, aespacial e atemporal que existe.
- Mas, mestre, aquilo que me ensina não tem aplicabilidade no mundo real?
- Não existe o mundo.
- Não existe? Então onde é que eu vivo?
- Só existe o mundo enquanto uma percepção que tu tens na cabeça. O mundo é o que tu pensas dele.
- Mas a verdade é que as pessoas corruptas, lambe-botas e sem carácter é que singram na vida.
- O que é isso de singrar na vida? Só conheço uma finalidade para a vida: a felicidade.
- Singar é ter êxito, poder. Ocupar lugares de destaque. O poder económico e o poder político está pejado de desonestos e gananciosos nas mais altas esferas.
- Ainda bem que assim é.
- Ainda bem, mestre? Mas e as leis do karma? O bem que atiramos para a vida dos outros não nos é devolvido? E o mal...
- Certo.
- Certo, não, errado!
- Enquanto essas pessoas cultivam o poder, a fama, a riqueza, o estatuto e nos asseguram a parte material da vida; nós podemos cultivar o espírito e ser felizes. Deixa os néscios entreterem-se com isso do jogo do ser-o-mais-poderoso-ou-o-mais-rico...
- Ainda não descobri uma maneira de racionalizar extremos de tristeza, de alegria, de raiva ou de frustração.

terça-feira, agosto 17, 2010

O discurso mais bonito na morte de alguém



A Balada de Cable Hogue de Sam Peckinpah
- Alguma vez te ocorreu o quão sensato e generoso Deus foi para colocar seios numa mulher? Precisamente o número certo no local certo. Alguma vez reparaste nisso?

A Balada de Cable Hogue
- Tu enlouqueces-me mansamente.

segunda-feira, agosto 16, 2010



Outro dia, ouvi, em imagens de arquivo, Marcello Caetano a falar na RTP. Sim, o regime era odiendo. Sim, a tortura. Sim, a PIDE. Sim, a censura. Sim, a ausência de eleições livres. Sim, tudo isso esmaga qualquer resíduo de qualquer coisa que se tenha degradado com a democracia. E, claro está, quem foi torturado pode - com legitimidade - mandar para o caralho quem escreve o que a seguir vou escrever. Minudências, dirão esses, e com esses - e só esses - eu terei de concordar.

Mas deixem-me ressaltar um ponto positivo.

Marcello Caetano falava com uma verve, com um primor da Língua, expressando algo - por mais que possamos discordar - que hoje está morto: Ideias. (E não só na política.)

Falta verve aos políticos actuais. Faltam ideias. A oposição limita-se a dizer mal. O Governo limita-se a fazer propaganda. Não importa as soluções; só os diagnósticos (sempre negros na Oposição e róseos no Governo; quaisquer que eles sejam).

Sei que na política os maus são sempre vistos de forma monolítica. Alguém pode dizer que Hitler foi revolucionário nas leis ambientais e precursor na defesa dos direitos animais (ele que até era vegetariano) sem ser apedrejado verbalmente? Claro que sopesando, o bom e o mau, Hitler foi um dos piores patifes da história da humanidade. Mas quando falamos dos grãos de areia positivos desses seres, fazemos uma concessão - é que ninguém é absolutamente bom ou mau.

domingo, agosto 15, 2010

Um ponto em que ninguém concorda comigo: o homem do Paleolítico era mais feliz do que o homem do século XXI. Dois dados do mundo actual. Do sofrimento material: 840 milhões de pessoas passam fome. Do sofrimento psicológico: uma em cada quatro pessoas sofre de um distúrbio psiquiátrico ao longo da vida.

sábado, agosto 14, 2010

Robert Smith, vocalista dos The Cure, diz que, nos funerais, há pessoas que quando vêem alguém a chorar vão lá consolá-lo e que há os que não sabem como lidar com isso. Quem gosta de Cure, explica, situa-se no primeiro grupo.

Contra a folha em branco, escrever escrever

Uma escola de escrita criativa para dar novos conteúdos ao Verão e para preparar a rentrée com um novo olhar sobre o potencial das palavras

Gostava de começar a escrever de forma mais criativa? De se tornar jornalista desportivo por um dia ou de escrever uma peça de teatro? E, sobretudo, de passar a escrever sem erros ortográficos daqueles que até fazem as palavras corar? A resposta a todas estas perguntas está na Escrever Escrever. Nesta escola de escrita onde a palavra de ordem é derrotar a folha em branco, há cursos sobre diferentes temas, com duração de um dia, um mês ou três meses, como explica Conceição Garcia, a mentora e coordenadora do projecto. "Temos aulas de guionismo, ensaboadela no português, escrita profissional, cartas de amor, escrita erótica ou de letras para canções, escrita sobre viagens, poesia e conto, entre muitas outras. A Escrever Escrever tem dois anos e meio e duas regras transversais a todos os cursos. Os grupos são pequenos, no máximo dez pessoas, para que haja grande participação dos formandos."

Este sábado é um dia único para descobrir o que é a escrita criativa com Susana Otão. "Há uns dez anos, comecei a frequentar cursos de escrita criativa e a interessar-me por isso. A Escrever Escrever é uma escola familiar, informal onde se tratam as pessoas pelos nomes. Há uns que querem divertir-se, outros desbloquear a escrita e outros ainda que levam a escrita mais a sério. Já tive todo o tipo de alunos, médicos, juízes, estudantes, electricistas e até uma stripper."

Todas as letras Sabia que o futebol também se escreve? No curso Escrever Futebol - Jornalismo Desportivo, o jornalista Rui Farinha ensina a entrar em campo e a jogar com as palavras. Tem a táctica infalível para que os alunos vençam o desafio de escrever textos inspirados sobre a bola sem nunca ficarem fora de jogo: como escrever uma crónica de futebol, elaboração de notícias ou a realização de uma entrevista.

Se gostava de escrever as palavras a que os actores dão vida, Escrever Para Teatro é o workshop indicado. Através de exercícios e da visualização e análise de uma peça pode criar a estrutura necessária. Luís Mestre é encenador e dramaturgo no Porto e vem de propósito a Lisboa dar o curso. "Damos ferramentas aos alunos para iniciarem a escrita de uma peça de teatro e também algumas soluções para não bloquearem e conseguirem ultrapassar os problemas iniciais."

Estes cursos têm lugar amanhã, entre as 11 e as 18 horas, mas durante a segunda quinzena de Agosto há muitos outros cursos que pode frequentar ao fim da tarde. Raquel Ochoa, escritora e professora de escrita criativa é a formadora de Escrita Criativa nos Jardins. "É uma oportunidade única, não vai haver outro este ano. Os jardins são espaços onde a vida se renova constantemente e vamos analisar a escrita de um policial no Jardim Botânico, a escrita do fantástico no Jardim dos Prazeres e observar a cidade e os contos contemporâneos do miradouro do Jardim do Torel. A quarta e última sessão será em Sintra." Perguntámos a Raquel que material é preciso levar para o curso. "A cabeça aberta, para nos inspirarmos a partir dos locais e das árvores e um caderno para escrever em cima dos joelhos." Raquel Ochoa tem uma boa explicação para o sucesso dos cursos da Escrever Escrever. "Há muito talento e potencial nos alunos, que se organizam e até fazem blogues, as turmas continuam a encontrar-se depois dos cursos. Os formadores estão disponíveis, dão o máximo que podem aos alunos."

Se gosta de escrever e quer aprender alguns segredos da língua portuguesa, o curso Revisão de Textos ensina-o a rever o que escreve, corrigindo erros com a ajuda de ferramentas desconhecidas do Word e fontes para tirar dúvidas. O seu formador é Manuel Monteiro, que já trabalhou como revisor literário de diversas editoras e é colaborador do Ciberdúvidas, exerce a actividade de jornalista e é autor de livros. "Além de escritores, temos tradutores, informáticos, biólogos, pessoas que fazem teses académicas e os curiosos, que não querem continuar a dar erros de escrita. Todos damos erros. Uma das coisas que faço é dar recortes de imprensa aos alunos, textos de Miguel Sousa Tavares e António Lobo Antunes, que também dão erros."

Maria João Freitas

De www.obomsacana.blogspot.com

Bem, a minha opinião sobre o novo acordo ortográfico faz lembrar um pouco aquela boa piada sobre o Chuck Norris:


They once made a Chuck Norris toilet paper, but it wouldn't take shit from anybody.
Vivemos (quase) todos no «embuste colossal dos relógios e calendários», na expressão do e. e. cummings.
O medo come a alma.

Fassbinder
É uma pessoa que volatiza os seus estímulos facilmente. E tu queres agarrá-la por ela ser inescapável. Mas prendê-la seria tirar-lhe o que de mais nobre e belo ela tem: a liberdade. Mais: tu queres agarrá-la porque queres dar-lhe uma bússola. Ela está desnorteada, mas tu sabes, tu viste a quintessência dela onde habita um fogo sexual-espiritual indomável, uma alegria incontida, uma ilha por explorar, uma vontade de viajar infinita... A cara dela é uma paisagem selvagem. Lá, a Natureza está desarrumadamente arrumada. É bela. Única.
- quem dissolverá as profundezas do horror para defender
a arquitectura de um raio de sol com a sua vida:
quem esculpirá imortais florestas de desespero
para segurar a pulsação de uma montanha na sua mão

e. e. cummings

(e eu que pensava que arquitectura de um raio de sol era meu)
- Duas pessoas que brilham muito não dão.
Não a consegues impressionar com o teu sentido de humor fantástico. Não a consegues impressionar com a tua inteligência. Não a consegues impressionar com a tua força física. Não a consegues impressionar com a tua cultura. Não a consegues impressionar com os teus bens materiais. Não a consegues impressionar com a tua auto-confiança. Não a consegues impressionar com nada. Aparentemente. Ela é uma enjoadinha. Uma falsa-frígida.
Ao início, dá-te muitas esperanças. Subitamente, tira-te o tapete. Dá e tira, dá e tira, dá e tira. Certo dia, não sabes o que fazer. A mesma atitude tua gera reacções diferentes nela. É uma femme fatalle.

sexta-feira, agosto 13, 2010

Qual o sentido da vida? Porquê a vida? Para quê a vida? Porquê tudo isto e não o nada? Porquê sequer a possibilidade de tudo isto ou nada? Porquê sequer a possibilidade de haver possibilidades do que quer que seja?
Como é que tudo surgiu? Do nada? Esta criação gigantesca veio do Acaso? Ok, o Big Bang... Mas o que deu origem ao Big Bang? Não há efeito que não preceda de uma causa. O que está por detrás do por detrás do por detrás da causa primordial? O que fez com que houvesse qualquer coisa?
Tudo isto nasceu de um acaso cego, aleatório e sem lógica? Não, nasceu de Deus. Mas então como é que há crianças que nascem e morrem ao fim de hora? Porque é que há crianças que nascem e morrem ao fim de dias? Porque é que há quem nasça sem pernas e passe fome na infância e seja vítima de abusos sexuais? Deus não controla? Então mas ele criou isto tudo e pôs-se na alheta? Ele não é Omnipotente e Omnipresente? Bom, isso é o resultado do livre-arbítrio dos homens? Então uns pagam pelos outros, é isso? Então e quem nasce cego, surdo e mudo? Não é um erro de fabrico? Deus erra?

Há a reencarnação, explicam outros. Ok, isso tem mais lógica. Mas vai dizer ao deficiente que ele está a pagar o preço de vidas passadas. Vai dizer a quem nasce no meio da fome ou da guerra que é justo e merecido que assim o seja. Outra coisa: essas leis cósmicas que governam o mundo emanam de Algo? Há leis sem legisladores?

E a morte? Bom, a morte é um bem. Viver para sempre acabaria por conduzir ao tédio infinito. Veríamos todos os sítios, experimentaríamos tudo... Ok, mas então e a morte como um fim absoluto? Não tem lógica. Andamos aqui a criar relações, a aprender, a aprender, a aprender para todas essas relações, para toda essa aprendizagem desaguar no Nada? O tempo acaba com tudo? Então qual o sentido disto tudo se tudo acaba um dia? Não, a morte é uma passagem. Então, andamos a saltitar de vida em vida, sempre a sermos desmemoriados do que fizemos em vidas anteriores. Bom, não é bem assim. Há quem tenha memórias de vidas passadas. E as impressões ficam sempre. Quem tem vontade de pintar desde tenra idade, é porque foi pintor noutra vida. Ou quem compõe música aos 3 anos... O objectivo final é a fusão no todo que é o nada. Mas o que é isso? Isso é então um assento celestial onde nada se passa? Como é a vida no Paraíso? O que fazem as pessoas lá? Lá, não têm necessidades. Mas como é a vida lá? E isso não é egoísta? Então, os «melhores» vão para lá - seja o Paraíso, seja o Nirvana - e já não voltam cá abaixo? Não valia a pena voltarem para ajudarem a combater a fome, a guerra - o sofrimento, enfim?

E se Deus nos deu o livre-arbítrio e se simultaneamente é Omnisciente, isso não é uma contradição? Se ele sabe o que eu vou escolher amanhã e depois e depois, que raio de possibilidade de escolha é que eu tenho?

E porque é que nós nascemos munidos de uma mente capaz de fabricar estas interrogações?
Algumas pessoas acham paradoxal um escritor interessar-se por futebol. Eu, que desde sempre quis ser escritor, tenho uma grande paixão por futebol. Acho que o escritor deve querer conhecer, compreender e sentir tudo. Porque o escritor é a força centrípeta do Universo inteiro, das pessoas todas, de todas as vidas vividas e por viver para o papel.

Scott Fitzgerald escreveu em O Último Magnata que quando quiseres perguntar algo a alguém, pergunta-o a um escritor, porque este tem quase sempre resposta para tudo.

É assim que vejo o escritor. Como alguém que faz o esforço de beber o Universo inteiro.

E a página, como água límpida ao amanhecer, deverá reflectir a cada leitor a sua própria face.
Não é que desaprove as mulheres... a não ser quando elas se portam como animais domésticos. Quando elas se limitam aos talentos para os quais estão mais vocacionadas - tais como chicana, sofisticação, autopromoção, sedução, mistificação - são criaturas fantásticas.

Rex Stout

quarta-feira, agosto 11, 2010

A erudição é um anacronismo.

Pacheco Pereira

Pelo direito à indiferença

Duas idosas encasacadas estão sentadas num banco de jardim a tricotar. Têm aquela aparência das beatas que dizem que a juventude está perdida. Um casal de dois jovens do sexo masculino de mãos dadas passa por elas.
- Francamente, se já viu... – murmuram indignadas.
O nosso cérebro é imediatamente direccionado à suposição: elas condenam a homossexualidade e a sua livre expressão de afectos.
Eis se não quando se ouve:
- Com um frio destes, andarem de manga curta...
O slogan aparece: Pelo direito à indiferença.
É esse o estádio máximo da diluição da homofobia - o deixar de reparar na diferença; na expressão feliz de Miguel Vale de Almeida.
Nunca entendi muito bem o porquê do preconceito homofóbico. Porque é cada pessoa não há-de expressar livremente os seus afectos e sexualidade? Porque é que os homossexuais não podem fazer em público tudo o que os heterossexuais fazem?
Temos todos medo. Muito medo. Medo do diferente, do desconhecido, do quebrar das convenções sociais assimiladas acriticamente ao longo de séculos. Por mais vácuas que sejam.
Outro dia, falava com um indíviduo que dizia que aceitava as lésbicas, mas não os homossexuais, porque o cenário visual das primeiras o entusiasmava e a dos segundos o repugnava. Achei absurdos os fundamentos da sua conclusão, porque não podemos pronunciar-nos sobre a fruição da vida afectiva, amorosa ou sexual do Outro com base em opções estéticas (de resto, sempre subjectivas). Como seria o mundo se os critérios de agradabilidade visual ditassem as leis?
No sexo e no amor, desde que haja mútuo consentimento e capacidade de efectuar escolhas, vale tudo.
O exercício que proponho é difícil de conceber num mundo heterossexualizado. Ouso o arrojo: alguém heterossexual imaginou o que seria viver num mundo às avessas, em que a sua orientação sexual fosse reprimida, em que tivesse de a exercer na clandestinidade, em que tivesse de dar um mão trémula debaixo da mesa à sua parceira, olhando em seu redor ansiosamente?
Será crível que alguém se pudesse escolher, escolheria a tendência oprimida, vilipendiada e anatemizada?

Palavras Favoritas

Todos temos um léxico gravitacional em torno do qual somos magnetizados.
aticismo
nome masculino
1. elegância no comportamento, característica dos áticos
2. estilo elegante, conciso e delicado típico dos autores da Ática, região da Grécia antiga
3. este mesmo estilo em escritores de qualquer época ou país
(Do gr. attikismós, «emprego do idioma ático», pelo lat. atticismu-, «id.»)

terça-feira, agosto 10, 2010

NO FEAR

Dois casais iam a passear pelas ruas do Porto à noite. Pararam em frente de uma montra. Um dos quatro que contemplava a montra, um homem, viu um indivíduo ao fundo a aproximar-se com um ar que lhe pareceu suspeito. Esse homem, o marido de uma das mulheres, afastou-se. Para decrição da personagem, o homem, não o suposto bandido, costuma andar de ténis, calças de ganga, barba por fazer e cabelo meio comprido.

Deixou o suposto bandido aproximar-se da sua mulher e do outro casal. Reparou entretanto que o suposto bandido levava a mão ao bolso. «Deve ter uma arma», pensou.

Aproximou-se então subitamente por trás do suposto bandido e disse-lhe quando ele se abeirava da sua mulher e do casal amigo:

- Ò amigo, olhe que eu ando ao mesmo!

O suposto bandido pirou-se imediatamente.


Passemos agora do Porto para a Margem Sul. Dois indivíduos falavam encostados a um muro da vivenda de um deles. Um indivíduo possante passava de bicicleta. Parou e perguntou informações de localizações geográficas. A seguir, pediu lume. A seguir, outras bicicletas se juntaram. Os dois indivíduos facilmente terão imaginado que outros pedidos, menos elegantes, se seguiriam.

A certa altura, perguntam a um dos dois indíviduos se os anéis são de ouro (como, de facto, eram).

O sujeito dos anéis tira, um a um, os anéis e passa-os lentamente a interlocutor possante.

- São de ouro puro. Podes ver. Este é o mais valioso. Vê-os à vontade, mas se tentares ficar com um deles, ficas sem vida.

Depois desta frase, o grupo da bicicleta foi-se embora, deixando para trás os anéis.

Passemos para Loures. Um sujeito sai de noite numa paragem de autocarro num descampado. Tem de percorrer um quilómetro solitário e deserto até casa. Não se vê vivalma. Quatro indíviduos mais à frente segredam entre si, sussurando uma potencial congeminação.

Ele dirige-se até eles (ou mesmo é dizer «continua o seu caminho»), pára ao pé deles, e pergunta-lhes olhando-os, um por um, olhos no olhos... «Podiam dar-me lume?»
- Calor? Eu? Não. Estive na guerra em Guiné com 47 ºC. É uma atitude mental. Basta não pensar nisso.
A literatura ou a vida.
«O matrimónio é um fardo tão pesado que são precisas pelo menos três pessoas para o carregar.»

Oscar Wilde
Sempre que ouço A Marcha Nupcial , penso no corredor de morte.
- Ela atinge-me o plexo solar.
- Quando olho para um cisne, não lhe vejo as tripas.
- Quando tu assumes a careca, a gordura, a velhice, vives perfeitamente bem com isso. Assumir é fazeres a súmula do que és, assimilares esse resumo e projectares para o Outro. Quando fazes isso, não tens medo de nada. O Outro sente-te. Sente a projecção do que tu és e diz: «Alto lá, aqui está uma assunção de um eu.»
O miúdo, acompanhado pela mãe, passou pela porta da livraria e limpou as mãos sujas de gelado ao vidro da livraria.

O velho ancião, livreiro meu amigo, saiu e disse:

- A senhora devia ser cosida de modo que não pudesse parir. Ter filhos não é só parir, é educá-los.

Analisando Rostos




A boca e o olhar exprimem uma infinita melancolia. Foi seguramente magoada por um homem que lhe roubou a crença no amor. É defendida, mas se confiar - entrega-se até ao último poro. Tem uma sede inextinguível de amar e ser amada.
Mas o que é que tu conheces para chamar desconhecido a qualquer coisa em especial?

Álvaro de Campos

Do Real

O embaixador tem um motorista que embateu contra um vaso. A porteira disse ao embaixador: «O seu motorista partiu-me as floreiras.» O embaixador disse: «Por favor, não lhe diga nada. Pago-lhe já. Mas não lhe diga nada.»


O motorista acabou por saber pela porteira. Chorou lágrimas comovidas.
Toca-me mais a generosidade do que a coragem.

segunda-feira, agosto 09, 2010

«Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós. De que ela se fará à margem da confiança alheia.»

Herberto Helder
You go your way
I´ll go your way too

Leonard Cohen

Escrita erótica

O melhor retrato dos portugueses

«As pessoas não conseguem estar sozinhas porque não lêem.»

Miguel Esteves Cardoso
«O ponto G está no ouvido.»

Isabel Allende

domingo, agosto 08, 2010

Admiração é uma coisa. Fascínio é outra. É cegueira. É assimilar acriticamente tudo o que provém do objecto de fascínio. É ser encandeado por uma luz que amplifica as qualidades e torna invisíveis os defeitos.

Buda dizia que os seus discípulos não deviam acreditar nas suas palavras sem as testarem primeiro como o ourives fazia para distinguir o ouro verdadeiro do ouro falso.

Evitava assim a idolatria.

A autoridade pela autoridade é como a resposta à pergunta «Porquê?»:

«Porque sim.»

Analisando rostos




Olha para os lábios dele. São os lábios de um homem sensível. Olha para o olhar dele. São os olhos de um homem íntegro, delicado. Olha para o cabelo dele. É o cabelo de um homem sonhador. Olha para as maçãs do rosto. É um homem equilibrado.

Unabomber






Algumas pessoas manifestaram-se-me chocadas pela referência ao Unabomber. É fundamental perceber que nunca aprovo o terrorismo. É fundamental que vos diga que desprezo os seres humanos que pisam formigas. Porém, racionalmente pensando, tenho de afirmar que aquilo que o Unabomber escreveu - e que li tudo - constitui das mais lúcidas e originais análises sobre o mundo hodierno. Uma visão global e extraordinariamente inteligente.

Nem toda a tecnologia é boa. A questão não é só: tudo depende do uso que se faz dela. Não: há tecnologia que encerra em si um potencial destrutivo/negativo. É o caso da bomba atómica.

Numa escala que choque menos, que não seja assassina, falemos da morte da privacidade ditada pelo conjunção de: movimentos do cartão multibanco, videovigilância, vias verdes, chips nos carros, facebooks...

Outra ideia-matriz é que ilusoriamente temos a ideia de que hoje somos mais felizes do que no Paleolítico ou no Neolítico porque hoje temos muito mais necessidades satisfeitas. O problema é que a felicidade é um rácio entre as necessidades que temos e as necessidades que satisfazemos.

O homem no estado pré-industrial só tinha necessidades de alimentação, abrigo e afecto. E sabia os meios para as alcançar: caçar, montar casa, criar uma comunidade. Hoje as necessidades são infinitas e não sabemos bem como as alcançar. Pior: o inimigo da frustração das nossas necessidades é impalpável, ao contrário do que acontecia ao austrolopiteco ou até ao homo sapiens. O inimigo - a corporização de todas as adversidades - eram os mamutes, os ventos, as tempestades.

Quanto ao afecto, o ser humano viva em comunidade, tinha um sentimento de pertença tribal, estava no decurso da sua vida junto de um conjunto de pessoas, perenemente muito mais imóvel do que hoje. Mais: a densidade populacional era infinitamente menor e a Natureza estava em estado puro, intacto. São duas diferenças que, passo o pleonasmo, fazem toda a diferença.

Hoje, o homem dispersou-se, vive atomizado, sente-se um entre seis mil e quatrocentos milhões, sem saber, na sua maioria, o que quer - ou pior: porque quer o que quer. Os divórcios aumentam e são cada vez mais os filhos que não vêem os pais, seja por excesso de trabalho, seja por quesílias parentais.

O ser humano vive hoje em perpétua competição com o Outro (sendo este Outro todo aquele que não faz parte do seu círculo de família, amigos ou conhecidos),atomizado, disperso e confuso, oprimido no meio de urbes gigantescas, com cada vez menos espaço para o Verde e o ar puro e as magníficas paisagens que nenhum poema ousa exceder ou sequer igualar. O Outro é, quando não um adversário, alguém de quem devemos desconfiar.

«Não aceites nada de estranhos», dizem todos os pais aos seus filhos.

A civilização, como escreveu Mark Twain, é a proliferação ilimitada da criação de necessidades.

sábado, agosto 07, 2010

Um dos ensinamentos mais importantes que aprendi foi-me transmitido por um vendedor de automóveis:

«Sempre que olhas para um carro em segunda mão e dizes que estás interessado em comprá-lo, aumentas-lhe o preço.»
A obra de Arte perfeita seria aquela que esvaziaria todas as futurações criações do porvir, por encerrar em si todas as possibilidades.
No meu sonho, ela dizia-me: «Estou a aprender a língua francesa para ler Proust no original.»
Algumas mulheres, no fase do jogo, avançam e recuam. Os homens inseguros fazem deste ponto de interrogação um objecto de grandes reflexões. «Isto foi um indício de esperança?» «Isto foi um indício de afastamento?» «O que é que eu terei feito de errado?» Ignoram que essa é uma forma que elas têm de os fazer pensar nelas.
«A inocência tem na alma uma pérola, e as pérolas não se dissolvem no lodo.»

Victor Hugo
A arquitectura de um raio de sol.

(porque é que subitamente esta expressão me visitou?)

sexta-feira, agosto 06, 2010

A Servidão Tecnológica

Todos os dias nos enchem a cabeça com mil e uma coisas que temos de ver na Internet. «O meu blogue», «a música que tens de ouvir», «o vídeo do Youtube», «o site que permite fazer downloads», «a season não-sei-quantas da série-não-sei-quantas que temos de ver ou gravar na box». A isto somam-se os mil e um mails da caca, o junk mail da publicidade e do enlarge your penis. Os infinitos pedidos do facebook. Os pedidos para redes com nomes estranhíssimos. Os operadores móveis a perguntarem-nos se ficamos satisfeitos com o atendimento. O impingir de novos tarifários. A MEO e a ZON numa autêntica batalha como não havia desde a Guerra Fria. Os IPOD, os IPAD, os caralhos que os fodam. A miríade de fofoquices da vida dos famosos. Até o cancro escondido é um prazer desvelado. Há alturas em que penso que o Unabomber é a voz mais lúcida da humanidade.

quinta-feira, agosto 05, 2010

que horas são pergunto-me esquece
aprecia antes as coisas do céu e à parte
as estrelas por exemplo está tudo traçado
ao lado desse remendo de escuridão há uma como é
que é ah sim cadeira mas não de Cassiopeia

talvez fossem meias escorrendo da mesa
tudo o que parecia doce profundo e inexplicável
não sendo dólares unhas dos pés ou ideias
inteiramente roubado(algures entre

os nossos corações sem luz a luxúria espreita
desmazelada e sem abrigo e quando
um beijo parte os nossos lábios são feitos de coisa

no despontar de cantos a alba faz caretas

e eis aí a lua,mais fina que uma mola de relógio

e.e. cummings
e. e. cummings tem uma expressão deliciosa: mostpeople.

mostpeople são os que passam pelas coisas, sem lhes arranharem as profundezas.

mostpeople são os que defendem a pena de morte.

mostpeople são os que olham de lado quem tem o cabelo pintado de azul.

mostpeople são os que acham a Arte um passatempo de loucos e suicidas.

mostpeople são os que fazem da vida uma busca por carreira, dinheiro e estabilofutilidade (palavra criada hoje ;) )
- Eu olho para ti e roubo-te o que eu quiser.

quarta-feira, agosto 04, 2010

palavras bonitas

emascular
verbo transitivo1. praticar a emasculação em
2. castrar
3. privar do carácter masculino
4. tornar eunuco
5. efeminar

(Do lat. emasculáre, «tornar impotente»)

Porque não amo James Joyce

Reduzindo aquilo que é impossível de reduzir, direi que gosto de uma boa prosa (forma) e de um bom contéudo (ideias, emoções, a compreensão da natureza humana) num livro. O ideal é a junção dos dois.

Joyce é a obsessão da forma. Levou a língua a um pináculo de artíficios, desconstruções, brincou com ela, amalgou-a e tornou-a ainda mais bela, reiventou-a, fez malabarismos com as palavras, a sintaxe, deu pontapés de calcanhar nela e sempre com muito virtuosismo.

O problema de Joyce é que demorou 16 anos a escrever Ulisses porque pretendia criar uma meta-literatura. Algo que nunca tinha sido feito. Conseguiu escrever um calhamaço todo passado num dia. Conseguiu mudar de estilo literário de capítulo para capítulo. Conseguiu fazer piruetas verbais verdadeiramente incríveis. Quebrar todas as regras de gramática e «criar» uma língua nova. Escreveu prosa, poesia, escreveu ópera, teatro, escreveu à luz da técnica do fluxo de consciência, escreveu sob todas as formas, todos os estilos, num livro só. E ainda conseguiu escrever com o esqueleto da obra homónima, fundadora da Literatura. A sua ambição era: Homero iniciou a Literatura, eu terminei-a, esgotei-a. A partir de agora, qualquer obra digna desse nome (Literatura) será uma derivação ou sub-derivação de Joyce. É notável o esforço. Mas, anos mais tarde, o próprio admitiu que o seu problema é que talvez tivesse hipersistematizado Ulisses em demasia.

Em Finnegans Wake, a última obra de Joyce, o artista foi ainda mais longe. Tentou - e conseguiu-o - criar um livro feito de palavras inéditas. Pegou em metade de uma palavra em francês juntou-lhe metade de outra em alemão e criou um conceito novo, cujo significado é um misto de ambas. Fiz isto com várias línguas, às quais ainda juntou calões regionais. A obra é por isso intraduzível e inencontrável noutra versão que não a original.

Porque o bom escritor é aquele que dá imenso prazer ao leitor sem ele perceber o enorme esforço que o autor teve em escrevê-lo. Perceber o esforço é perceber o artifício, descobrir os parafusos e as engrenagens da máquina. É como descobrir o truque do ilusionista. A escrita mais difícil é aquela que soa fluida, espontânea, natural...

Lobo Antunes afirmou numa conferência que Joyce é o virtuosismo pelo virtuosismo, do género: vejam-o-quão-bom-que-sou. Tolstoi afirmava que bom escritor era aquele que sacrificava uma boa passagem pela eficácia da história. Mas, claro está, a Literatura não é Matemática e não há opiniões objectivas.

Outro problema de Joyce é a ausência de ideias. Por mais brilhante que seja o tratamento da língua, o que é que ele nos acrescenta sobre a natureza humana? É essa a interrogação essencial. O sumo perdeu-se algures na tentativa de fazer a arquitectura mais sólida e bela de sempre da língua. Esqueceu-se de um pormenor: a humanidade.

Apesar de tudo o que disse sobre Joyce, aconselho vivamente as duas últimas páginas do conto The Dead, ora traduzido como O Morto ou Os Mortos. É do melhor da história da Literatura.

Os escritores e o álcool

A relação da escrita com a bebida é factual. Inúmeros escritores eram grandes bebedores, quando não alcoólicos. A lista é demasiado extensa para «dar exemplos». Mais: muitos escritores exaltaram a importância da bebida (outra lista extensíssima). Bukowski, a maior máquina-de-escrever-e-de-beber-de-sempre, escreveu que beber era uma espécie de suícidio da realidade.

Mas há um pormaior que faz toda a diferença. É que a bebida só permite escrever o texto pela primeira vez.

Qualquer escritor sabe que há duas fases na escrita - a inicial em que se despeja torrencialmente o texto, como algo que nos sai das entranhas. E uma segunda fase: a da revisão, a da reescrita do texto. Esta é a fase dolorosa, lenta e tendencialmente infinita. Porque o escritor, regra geral, revê mais de quarenta vezes o texto.

O Camus tem uma personagem, creio que n´A Peste, que nunca tinha saído do primeiro parágrafo de um livro que escrevia, porque estava sempre a aperfeiçoá-la... ad eternum...

No acto da reescrita, o álcool é um inimigo. Nos seus diários, Scott Fitzgerald (que morreria do álcool) dizia que dava tudo para voltar atrás e reescrever a terceira parte de Terna é a Noite. É que - explicava - foi a única que reviu não estando sóbrio. Passou dez anos da sua vida completamente bêbado e dedicou-lhe um conto cujo título dispensa notas de rodapé: The Lost Decade. A Década Perdida.

terça-feira, agosto 03, 2010

Katie Melua - Just Like Heaven

Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te.
Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro,
hei-de continuar a trazer-te no sangue.


Rainer Maria Rilke, O Livro das Horas

segunda-feira, agosto 02, 2010

Quando estás seguro daquilo que fazes, as críticas dos outros são como o latir longínquo dos cães lá fora, na neve, tiritando ao frio, enquanto tu estás instalado no conforto da tua casa bem equipada, à lareira.

Ernest Hemingway
Acho que nunca me libertarei do meu preconceito positivo por almas bizarras, cultas e psicóticas.
Num dos seus inúmeros aforismos, prenhes de sapiência e humor, Woody Allen afirma que a Arte é o catolicismo dos intelectuais. Cada um interpretará à sua maneira. A minha: a Arte é uma tentativa de garantir a vida depois da morte... uma tentativa de alcançar a perenidade. A religião é o mesmo. O grande ponto de interrogação que a religião tenta responder (ou simplesmente confortar) é a morte. É da nossa natureza sermos imortais. Até aqueles que vêem a morte como um sono o são. São imortais, dormindo.

domingo, agosto 01, 2010

Depressão

A depressão - dizem todos os estudos - será a doença do século XXI. É algo a que damos pouca importância, talvez por não «matar» como o cancro e porque acaba sempre por passar (quando não desemboca em suícidio). Mas que passou por ela, especialmente por uma major, diz que é a pior doença do mundo.
Nunca me esquecerei do depoimento de uma senhora que, estando à beira da morte com o cancro (do qual se curaria «miraculosamente), afirmou numa entrevista:
«Preferi o cancro à depressão.»

Não consigo imaginar o que é perder o sabor da vida. Não consigo imaginar tal patamar de sofrimento que leve a que três jovens se atirem de uma ponte para o asfalto (seria para mim diferente atirarem-se para a água), embatendo para a estrada onde carros os esmigalhavam a alta velocidade.

O que eles quiseram acabar não foi com a vida. Foi com o sofrimento psicológico que tornava a vida insuportável.

Mas, por mais que doa, há sempre medicamentos que os psiquiatras nos receitam, há sempre psicólogos que nos traduzem o que sentimos.

Como escreveu Hemingway (autor que deprezo):

Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.

A depressão tem sempre um fim.
Coimbra de Matos, numa notável entrevista ao Expresso, explica que muitas pessoas que arvoram uma máscara de ultra-superioridade escondem um profundíssimo complexo de inferioridade. Outra ideia-matriz da entrevista é a de que a depressão antes era provocada por culpa. A mulher que tinha sexo antes do casamento sentia-se profundamente culpada e isso originava uma depressão.

Hoje, explica o decano, a depressão tem origem na vergonha. Temos todos de ter êxito e sucesso na arena da competição profissional. E quem não singra, é um fracassado. A sociedade não admite os fracos. O capitaismo vai aproximando o mundo moderno de Esparta. É por isso - assevera Coimbra de Matos - que nunca houve tantas depressões como hoje.
- Não é que eu me considere o melhor homem do mundo para as mulheres, ou pelo menos para um segmento vasto delas. É simplesmente que... os outros todos não me chegam aos calcanhares, quer na profundidade de análise do espírito humano, quer na capacidade de as escutar, de as amar, de as compreender. O mérito não está em mim. Os outros é que são, regra geral, uns energúmenos a lidarem com essa ave rara, sublime e indescernível que é a Mulher.
O sexo é a melhor invenção da história.

Claro Pinto Correia


Apesar das violações, da pederastia, da promoção profissional distorcida em função de variáveis que não o mérito, apesar da profunda distância que há, dia após dia, entre o espírito e o corpo (em que culto do mesmo nunca em tempo algum foi tão marcante como nas sociedade hodiernas), apesar da estigmatização social das mulheres feias, apesar dos traumas que os virgens carregam, apesar dos traumas que as vítimas de abusos sexuais carregam como um fardo pela vida fora, apesar do absurdo e milenar estigma que fere os que não têm «culpa» de gostar de pessoas do mesmo sexo, apesar da obsessão-compulsão de muitos homens pela carne que não lhes permite conhecer o amor, apesar, apesar...