sexta-feira, julho 30, 2010

«A sul de nenhum norte»

A mentira na política já não choca ninguém. A administração Bush levou esta máxima ao limite ao ter a desvergonha de justificar uma guerra com base em algo que sabia ser mentira: a existência de armas de destruição maciça no Iraque. Sócrates disse que ia criar 150 000 empregos (quem não se lembra dos cartazes?). Com o desemprego a crescer, os seus sequazes disseram: A promessa foi cumprida! O desemprego aumentou porque foram destruídos mais empregos do que aqueles que foram criados... É preciso ter lata.
Como é difícil ser optimista no mundo actual. Convém não cair em excessos. Os totalitarismos começaram, por exemplo na Alemanha, com o criticismo dos políticos do regime. A seguir, veio a crítica à democracia e ao parlamentarismo. O regime democrata, apesar de tudo, é o pior de todos com excepção de todos os outros, como dizia um grande estadista.
Mas o cenário não é agradável. O mundo caminha sem rumo. O desemprego cresce – e quem tem soluções para ele? Há muitas variáveis no mundo actual – o crescimento demográfico e a evolução tecnológica galopantes, a sobrelotação das cidades, o capitalismo financeiro, o ambiente a degradar-se e a Natureza a dar cada vez mais patadas nos males que a humanidade lhe tem inflingido. E sobre tudo isto, a suprema pornografia: a fome. A fome que ainda mata no continente do sofrimento invisível, a fome que não aparece nas televisões nem no Facebook. A fome que afecta um milhão de pessoas no mundo.
Estamos perdidos. À deriva. Órfãos de ideologias. Órfãos do afecto dos sonhos.
O Estado Social faliu. A população envelheceu. A natalidade diminuiu. O horário de trabalho diminuiu. Em que moldes reconstruiremos o Estado Social? O neoliberalismo faliu redondamente. Aumentou a precariedade sob o eufemismo da «flexibilidade» (porque não «desregulamentação?», perguntava Bordieu, atento aos sinais da novilíngua) e, com ela, a ansiedade e o desenraizamento do indíviduo, e não aumentou o emprego como prometia – o desemprego cresce dia após dia. O comunismo é para a maior parte dos cidadãos um conjunto de páginas nos livros de História. Estaremos condenados a ter de escolher entre o neoliberalismo e as teocracias? Não creio.
Peter Singer escreveu que o cidadão do mundo ocidental sente que tem de ter um carro, uma casa, um telemóvel, televisão por cabo, Internet, e possibilidade de passar férias fora. Isto é o seu estímulo neutro – o mínimo que não gera felicidade, mas que não sendo satisfeito gera frustração. A ilusão da facilidade do acesso ao crédito foi o combustível desta ideia. E eis que o mundo teve um forte abalo...
Para onde vamos agora? Ninguém sabe. As ideologias faliram.
Alguém escreveu que a era dos ismos (fascismo, nazismo, comunismo, fundamentalismo religioso) daria lugar à era das ades: a ideologia da competitividade e da solidariedade. O mundo está com competitividade a mais e solidariedade a menos. É tempo de procurar outras estrelas...
De lutar por um mundo em que o homem deixe de ver o outro homem como um adversário.
É a aceleração que, como Maggie Jackson explica num livro extraordinário, Distracted, provoca a erosão da nossa capacidade de atenção, seja de concentração em algo, seja em relação às mudanças que ocorrem à nossa volta, seja ainda de adaptação a essas alterações.[...]
A aceleração que conduz à consagração do curto-termismo, como se ela fosse na verdade, na bela expressão de Milan Kundera, o único êxtase do homem moderno. [...]
A aceleração dilui a percepção do tempo, condenando-nos a viver num presente
perpétuo em que os acontecimentos se multiplicam na razão inversa da
compreensão do seu sentido. A torrencial multiplicação dos pontos de vista
tem como único efeito seguro o de privar o homem contemporâneo de qualquer
perspectiva consistente sobre o quer que seja.
[...]
Vivemos, em suma - a analogia é de J.L. Servan-Schreiber, no livro Trop
Vite -, como se nos deslocássemos de noite num automóvel cuja velocidade
aumenta à medida que o alcance dos faróis diminui. É por isso que, mesmo em
férias, se torna tão difícil desacelerar? Habituados que estamos, por um
lado a viver como se a velocidade por si só desse sentido à vida e, por
outro lado, a associar a aceleração com a intensidade, é cada vez mais comum
reagirmos com ansiedade a qualquer vislumbre de lentidão e identificarmos a
mais pequena desaceleração com uma assustadora ameaça de tédio. Como se,
quando finalmente há tempo, faltasse a paciência?

Manuel Maria Carrilho

quinta-feira, julho 29, 2010

O tipo de vagabundos que os monges budistas têm como sábios ou santos

O homem entrou na sala, macambúzio, sujo, andrajoso e a cheirar mal.
Conjugava mal as palavras: chicolate, ciclo (círculo),hádem ver.
Tratava os interlocutores por vossemecê. Tinha as unhas tão encardidas que só a muito custo lhe apertei a mão (fui de seguida lavá-la).

Depois de o ouvir falar longamente, pensei: que lição de humildade que eu levei.

Não tendo lido nada, ensinou-me imenso.

Foi tudo na vida: trolha, pasteleiro, nadador-salvador, tropa, estucador.

Salvou milhares de vidas, muitas delas crianças.

«Se eu tivesse uma maquia de dinheiro do Estado por cada vida que salvei, era milionário.»

Pois é, Zé. O Estado prefere dar reformas milionárias a quem trabalhou meses para arruinar bancos, Zé. Eu que já ajudei tanta gente nunca fiz um décimo do que tu fizeste, Zé. Porque bastou-te salvares uma vida para já teres feito muito mais do que eu. E, contudo, para a maioria das pessoas não passas de um pobre-coitado.

Nem uma reportagem te dedicaram. (Pela tua personalidade discreta de quem quer sempre passar despercebido, sei que também não te acrescentaria nada.) És um herói anónimo.

Foi bonita aquela tua frase. «Não, eles [os que salvaste] não me devem nada. Fiz o meu trabalho como faço ladrilhos nas casas que me contratam.» E passas sempre recibos, Zé. E nunca enganaste ninguém num cêntimo a mais nos materiais que compras, Zé. E dás sempre o teu máximo nas tuas obras. Eu vi, Zé, tu és um artista. Não me venhas com tretas. Dás estética e funcionalidade às ruas de Lisboa, todos os dias. Se eles soubessem o quanto és útil nas nossas vidas citadinas... Só aquela estrada em que muitos estoiravam os pneus, Zé. E tanto mais haveria para dizer, Zé. Já deves estar farto, Zé. Detestas elogios. Tu só fazes o teu trabalho, já te ouço, Zé.


O que tu fizeste, eu nunca faria. Zé, não estou a falar de salvar vidas. Por acaso, até já salvei uma, lembrei-me agora. Estou a falar do que me contaste. De nadares no meio de excrementos. Isso eu não tenho arcaboiço para fazer. Por mais livros que leia. Estou a falar de andares a pé 42 quilómetros, estou a falar de trabalhares 16 horas por dia, dormindo 4 horas por noite, anos a fio, para suportares a tua mulher e os teus filhos.

Cada homem que encontro é-me superior em alguma coisa, escreveu Emerson. Não precisaste de o ler para teres aquilo a que o Walt Whitman chamava de uma «vigorosa e limpída humanidade». E ainda parafraseando este poeta, o odor das tuas axilas é mais sagrado do que uma oração.
A língua é machista. Como a regra que obriga a que numa sala com 15 pessoas se houver 14 mulheres e um homem, tenhamos de dizer «todos os presentes». Flexionamos sempre para o masculino a partir do momento que há uma singular criatura masculino. Há profissões que só existem no masculino.

Mas o pior de tudo, a coisa que mais me custa engolir, é a referência a Deus no masculino. O pronome «Ele» turva logo a nossa visão Dele. Se Deus é Amor, a parte misericordiosa, sensível, o lado feminino tem de estar pelo menos tão presente quanto o lado masculino da justiça, do rigor.

Deus é tão feminino quanto masculino, pelo menos.

E Deus gosta de homens reconciliados com o seu lado feminino. Sensibilidade, doçura e compaixão são palavras femininas. Ódio, rigor, orgulho; masculinas.
Há jogos/relações de ganhar ou perder como as competições desportivas ou dez candidatos para um posto de trabalho. Uns perdem para outros ganharem.

Há jogos/relações de perder/perder. São aquelas pessoas que não se conseguem largar, pese embora só acrescentem rancor, infelicidade, ódio, raiva a vida um do outro.

Há jogos/relações de ganhar/ganhar, em que o que dá «ganha» tanto quanto o que recebe. Só almas dadivosas compreendem que este é o melhor dos jogos. Ou então quem é tocado pelo amor.
O sujeito aproximou-se de mim e pediu-me tabaco.

Dei-lhe um cigarro.

- O que é isto?
- Slims de mentol.
- O quê? Porra! Isto é de gajas...

Acendeu o cigarro e disse:

- Espero que isto não se pegue. É que se não a minha mulher ainda vai precisar de um mangalho de borracha!

quarta-feira, julho 28, 2010

Reflexos de reflexos de reflexos pairam sobre ti na noite...
A voragem do mundo moderno faz-nos esquecer as desgraças que-vemos-na-televisão como aquilo que comemos ontem ao jantar.
Dava um ano de ordenado por um momento da minha infância perdida.

Dinis Machado
- As mulheres são quase todas desequilibradas. Mesmo quando não parecem ao início, com a convivência mais estreita, vais tirando as camadas, tirando e vês que há um caos sempre lá ao fundo, por mais bem escondido que esteja. É muito raro encontrar uma sem paranóias, pancas... conheces alguma?
Um taxista ficou com a mala de uma senhora endinheirada. Procurou a residência e entregou-lhe. A notícia percorre a imprensa internacional e os jornais televisivos. Eu faria o mesmo. Não sabia que se ganhava estatuto de herói. Sinal de sou um totó ou de que o mundo está enfermo?

terça-feira, julho 27, 2010

Se quiseres escolher uma cor para a fachada da tua casa
que agrade a todos os vizinhos da rua
nunca chegarás a pegar num balde de tinta


O comunista nunca gostará do fascista
O fascista nunca gostará do comunista
A vítima não gostará do assassino
E a flor nunca gostará do cutelo.
O tímido será tímido
O cerimonioso será cerimonioso
O calculista será calculista
O generoso será generoso
E o trapalhão será trapalhão.

Tu serás tu.

(e todos tremerão com a força dos passos
daquele que segue o seu caminho.)

até que o rótulo
(uma vacuidade para ilusoriamente arrumarmos o mundo informe)
será apenas: Tu.

O teu eu.

Único, irrepetível e inimitável.

É a mais difícil e bela batalha.

(antes de que te dês conta, terás provocado um abalo no Universo.)


Angel
- As mulheres gostam sempre que lhe abram a porta, porque as faz sentir especiais.
- Discordo completamente, há as que não gostam.
- Não, não há. A socialização não conseguiu eliminar isso. Mesmo quando dizem que não gostam; gostam sempre.
- Não. Detesto a ideia de sermos educados e delicados só para as mulheres. Isso é bacoco. Serôdio.
- Não é; é eterno.
- As convenções sociais não são eternas. Isso são reminiscências da época em que para elas terem menos direito, menos autonomia, recebiam esses miminhos como compensação. Igualdade implica igualdade de direitos e deveres.
- Mas o homem e a mulher são diferentes.
- Geneticamente, não são assim tão diferentes. Não é por genética, é por milénios de amestramento cultural. Pela mesma razão que os homens não usam saias. Nada de genético nos impede...
Não gosto de pessoas que não sabem guardar um segredo.
Não gosto de pessoas que dizem nas costas o que não conseguem dizer cara à cara.
Não gosto de pessoas que tentam sempre que os outros lhes paguem as coisas e evitam sempre pagar - pela calada, pelo ar despassarado - evitam pagar qualquer coisinha.
Não gosto de pessoas que falam muito de automóveis, sendo capazes de ter uma casa decrépita mas um automóvel de topo.
Não gosto de pessoas que vêem o sexo oposto apenas pelo invólucro.
Não gosto de pessoas que só dão esmolas quando estão acompanhadas.
Não gosto de pessoas que se auto-elogiam muito, prefiro as que contam histórias em que o burro, o cobarde, o rídiculo na história são elas.
Não gosto de pessoas que trocam um sonho por mais 200 € no ordenado.
Não gosto de pessoas que estão sempre com pressa.
Não gosto de pessoas que não param para dar passagem aos peões.
Não gosto de pessoas que guardam no frigorífico a comida fora de prazo só para darem às visitas.
Não gosto de pessoas que escrevem kapas e xis.
Não gosto de pessoas que dizem que duas mulheres está bem, mas que dois homens mete nojo.
Não gosto de pessoas que perguntam: «Mas o que é que eu tenho a ganhar com isso?»
Não gosto de pessoas que gostam de brilhar à custa de diminuirem os outros.
Não gosto de pessoas que perdem muito tempo em compras.
Não gosto de pessoas que têm os dias todos da semana programados - sem espaço para o risco da imaginação e da surpresa.
Não gosto de pessoas que não deixam fumar nas suas casas.
Não gosto de pessoas que expõem a intimidade dos outros.
Não gosto de pessoas que descrevem pormenorizadamente as suas façanhas sexuais.
Não gosto de pessoas que se estão sempre a vitimizar.
Não gosto de manipuladores.
Não gosto de pessoas que espezinham os fracos e bajulam os fortes.
No final da entrevista ao artista, ele disse-me, antes que o fotógrafo começasse a registar o espaço:

- Um momento, por favor!

E desatou a desarrumar o espaço. Entendi (não era difícil entender o seu propósito). Queria veicular ao público a ideia de que trabalhava num caos.

Era um poser, no fundo. Se virmos ao contrário, a sua pose seria idêntica à do banqueiro que pede para polir os sapatos, ajeitar a gravata e arrumar o espaço antes de ser fotografado. É igual.

Há até provavelmente mais artistas posers do que banqueiros posers. Dizem mal do Estado, mas muitos vivem à custa dele; nunca fazem nada por dinheiro; escondem que por trás da inspiração há litros de transpiração; negam conhecer determinados artistas apenas para lhes amachucarem a imagem.

O Lobo Antunes avisa para nunca acreditarmos na entrevista de um escritor: é que a sua única preocupação é posar de perfil para a eternidade.

Uma mentira dita muitas vezes torna-se verdade

Erros que são incorporados na cultura e que nos vencem pelo cansaço.

Cogito ergo sum não é de Descartes, é de Santo Agostinho.

E a tradução não é: penso logo existo; mas antes: penso logo sou.
O presente está grávido do futuro.

Leibniz
Pergunta-me

se ainda és o meu fogo

se acendes ainda

o minuto de cinza

se despertas

a ave magoada

que se queda

na árvore do meu sangue

Mia Couto

segunda-feira, julho 26, 2010

- O problema de Portugal é só um: os portugueses. Sem eles, o país seria um maravilha.
Casanova, infelizmente mais conhecido como um sedutor, é um grande escritor. Aconselho a boa tradução que a revista Visão está a vender por um singelo euro.

Casanova não era apenas um sedutor. Era um conquistador. A diferença de conceitos é a diferença do arranhar a alma e do raptar a alma.

A certa altura (no século XVIII, como poderia ser hoje), Casanova relata que estava com um homem e duas mulheres. Uma, bem interessante por sinal, estava caidinha por ele.

- Porque não vais com ela? - pergunta-lhe o amigo. - Não te agrada?

- Se me agrada... sobremaneira. Mas não vou para a cama com ela.

- Então?!

- Só depois de lhe conquistar o coração.
Leonardo Coimbra escrevia em 1912 que «não há vida interior». As pessoas - lamentava-se o autor - viviam cercadas de ruído e amputadas de tempo. «A alma não se recolhe.» O texto não poderia ser mais hodierno.
- Sempre tive mau feitio, sempre fui irascível. Mas sempre tive uma grande tolerância, ou melhor, um grande respeito pelos crimes mais graves. Quando os meus filhos faziam coisas menores, eu irritava-me. Porém, no dia em que o meu filho mais velho fez um acto hediondo, gravíssimo, ele entrou em casa encolhido e trémulo, pensando que eu o iria fuzilar. Não lhe disse uma palavra e lancei-lhe o meu olhar mais terno. Abri o frigorífico e perguntei-lhe: - Queres uma cola fresca, filho? - É que os pecados, os actos graves, têm um peso sobre nós tão grande. Não precisamos de que mais ninguém nos censure. A sombra basta-nos.
Ela tem uma boca anelante.

O DEDO LEVANTADO

O Mestre Dyu-Dschi era-conforme nos contam -
de maneiras caladas,suave e tão modesto,
que renunciou às palavras e aos ensinamentos
porque a palavra é aparência
e evitar qualquer aparência
era sua preocupação.
Quando os alunos, os monges e noviços
apreciavam brilhar em conversas elevadas
com ditos espirituais sobre o supremo anseio,
sobre o porquê do mundo, ele observava-os em silêncio
evitando qualquer exagero.
E quando lhe perguntavam,
vaidosos ou sérios,
sobre o significado das escrituras antigas,
sobre o nome de Buda, a iluminação,
o princípio e o fim do mundo, permanecia
em silêncio e, lentamente, apontava apenas
com o dedo levantado para o alto.
E com este sinal mudo, convincente,
foi-se tornando cada vez mais terno:
advertiu, ensinou, elogiou, castigou, indicou
de maneira tão própria o coração do mundo
e da verdade que, com os anos,
mais de um discípulo compreendeu o delicado
levantar do seu dedo
despertou e estremeceu.

Também acredito no tremendo poder da Literatura

http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=262236

domingo, julho 25, 2010

A primeira regra: removê-la do pedestal.
Estou a amar-te como o frio

corta os lábios.

A arrancar-te a raiz

ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,

de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas

a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos

o itinerário da espuma.

Assim é o amor: mortal e navegável.


Eugénio de Andrade
os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
tão fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
e é branco

Eugénio de Andrade
As fontes
Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um vôo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, julho 23, 2010

Da Sabedoria Antiga

Aceita os limites do domínio do teu reino
o que importa é a realeza
não o reino.

quinta-feira, julho 22, 2010

Rodapé sobre a construção das massas

Algumas pessoas são jovens e nada mais.
Algumas pessoas são velhas e nada mais.
E algumas pessoas estão no meio e nada mais
apenas no meio.

E se as moscas usassem vestimentas nas suas costas
e se todos os edifícios ardessem num
fogo dourado,
se ou céu se sacudisse
como na dança do ventre
e todas as bombas atómicas desatassem a chorar
algumas pessoas seriam jovens e nada mais
e algumas pessoas seriam velhas e nada mais
e o resto seria o mesmo,
o resto seria o mesmo.

Os poucos diferentes são eliminados
são eliminados bastante rapidamente
pela polícia, pelas suas mães, os seus
irmãos; outros
por si mesmos.

Tudo o que fica é o que vês
É duro.

Charles Bukowski
- O que eu sinto é mais do que isso... Eu preciso que me valides.
Caminhava pela rua e uma verdade sobre o mundo, sobre a vida, veio à tona do meu cérebro. Quando a aquis registar, não me lembrava dela. Tive a Grande Verdade por alguns momentos.

quarta-feira, julho 21, 2010

Não é preciso ser um quarto - para ser-se assombrado.
Nem é preciso ser uma casa - A mente tem corredores que superam
qualquer lugar concreto.

Emily Dickinson
A sua escrita é um sorriso cinzelado por Deus.
- Ele tem uma sobranceria subliminar.
- E filhos?
- Os meus filhos são livros.
«Plante» o gosto pelo amor ao próximo. Deixe que o comer-trabalhar-dormir-repetir seja um disparate para quem não tem nada para fazer.

C.

terça-feira, julho 20, 2010

- Uma pessoa que já celebrou tantos funerais como eu não pode ser materialista. É um contra-senso. Ver como todos acabamos da mesma forma, com o mesmo fedor, a mesma textura da carne... É impossível não ficarmos mais despojados depois de vermos muitos mortos em estado cru. Só duas coisas interessam na vida: o amor que se dá e o amor que se recolhe.
entre lábios e lábios
toda a música é minha

Eugénio de Andrade

domingo, julho 18, 2010

Nunca acreditei em amor à primeira vista. A pessoa que mais impacto visual causou diante de mim, quando a conheci, revelou-se a segunda pessoa mais chata que conheci na vida. Fútil, básica, insegura e egocêntrica. Tanto adjectivo. Bastava dizer que hoje olho para ela sem ponta de interesse. A sensualidade e a beleza esvaíram-se pelo cano do esgoto. Perenemente.
A desconhecida - entretanto minha amiga - pensou que eu era «um segurança». A primeira vez que falámos, recorda-a da seguinte forma:
- Antes de tu falares comigo, eu olhava para ti como para um rapaz encorpado com ar de segurança. Quando falaste comigo, não pelo conteúdo, mas pelo timbre da tua voz, percebi que tinha feito um juízo errado.
A voz, o olhar e os gestos - ainda antes do conteúdo das palavras - são um suplemento muito importante para tirarmos melhor o retrato de alguém.
Se tivesse a certeza de que havia alguém que estava perto de mim, que me era próximo, de certeza que iria o mais longe possível para o encontrar.

Montaigne

sábado, julho 17, 2010

Ninfetas



A «vítima» de Polanski




O caso Polanski é abjecto. Como é que quarenta anos depois ainda tem este senhor de fugir à Justiça?

(Não, não o defendo por ser artista. De resto, dá-me vómitos aqueles que defendem crimes com a qualidade da Obra. Defender o artista com um estatuto especial é como um crente defender a inimputabilidade do Clero.)

As questões no caso Polanski são inúmeras.

1.º A própria vítima - modelo que Polanski ia fotografar - já perdoou e expressou o desejo de ver o caso encerrado;
2.º A miúda que então estava a semanas de completar 14 anos, mentiu na idade;
3.º A miúda - que já não era virgem - trocou carícias, massagens e preliminares com Polanski e foi de livre vontade para o seu quarto;
4.º A miúda, conforme Polanski disse aos jurados, aparentava ser uma mulher. Ficou conhecida a frase: «Olhem para ela. Qual de vós lhes resistiria se ela vos seduzisse num bar»?
5.º Psiquiatricamente, Polanski foi avaliado e considerado desprovido de qualquer compulsão sexual ou parafilia;
6.º Na decada de 1970, na Califórnia, conforme recorda Pedro Mexia, o sexo com menores era socialmente aceite. Teve de ser um procurador mórmon a mover a acção judicial porque todos os outros já tinham dormido com menores!!!;
7.º A pederastia foi socialmente bem-vista durante milénios. André Gide, há poucas décadas, escreveu sobre as delícias inimagináveis e únicas que advinham do sexo com jovens entre os 14 e os 16, sem chocar ninguém;
8.º É claro que a lei tem de estipular um risco na areia, uma idade-limite. Mas a verdade é que há muitas miúdas que aos 12 e 13 anos sabem o que querem e fazem tudo para conseguirem o que querem. Sim, não me venham cá com falsos-moralismos. Confesso: já duas míudas, uma de 11 e outra de 12, me tentaram seduzir para... SEXO. Sim, para isso mesmo. Quem leu Lolita, um dos tremendos livros do século XX, sabe bem que uma certa casta de ninfetas tem poderes de seduzir - mais: de atirar para a miséria - homens adultos.

«Entre os limites de idade dos nove e catorze anos, virgens há que revelam a certos viajores enfeitiçados, bastante mais velhos do que elas, a sua verdadeira natureza — que não é humana, mas nínfica (isto é, diabólica). A essas criaturas singulares proponho dar o nome de "ninfetas". O leitor terá notado que substituo a noção de espaço pela de tempo. De facto, gostaria que ele visse "nove" e "catorze" como pontos extremos — as praias refulgentes e os róseos rochedos — de uma ilha encantada onde vagam essas minhas ninfetas cercadas pelas brumas do vasto oceano. Será que todas as meninas entre esses limites de idade são ninfetas? Claro que não. Se assim fosse, nós que conhecemos o mapa do tesouro, que somos viajantes solitários, os ninfoleptos, teríamos há muito enlouquecido. Tão-pouco a beleza serve como critério; e a vulgaridade, ou pelo menos aquilo que determinados grupos sociais entendem como tal, não é necessariamente incompatível com certas características misteriosas, a graça preternatural, o charme imponderável, volúvel, insidioso e perturbador que distingue a ninfeta das meninas de sua idade, as quais, incomparavelmente mais sujeitas ao mundo concreto dos fenómenos que se medem com relógios, não têm acesso àquela intangível ilha de tempo mágico onde Lolita brinca com as suas companheiras. Dentro dos mesmos limites de idade, o número de genuínas ninfetas é muitíssimo inferior ao das meninas provisoriamente sem atractivos, ou apenas “bonitinhas” e até mesmo “adoráveis”, que são criaturas essencialmente humanas — comuns, rechonchudas, informes, de pele fria e barriguinha proeminente, usando tranças —, capazes ou não de se transformarem em mulheres de grande beleza (basta ver aquelas garotas gordotas, de meias pretas e chapéus brancos, que se metamorfoseiam em estonteantes estrelas de cinema). Confrontado com a fotografia de um grupo de escolares ou escuteiras e solicitado a apontar a mais bonita entre elas, um homem normal não escolherá necessariamente a ninfeta. É necessário ser um artista ou um louco, um indivíduo infinitamente melancólico, com uma bolha de veneno queimando–lhe as entranhas e uma chama supervoluptuosa ardendo eternamente em sua flexível espinha, afim de discernir de imediato, com base em sinais inefáveis — a curva ligeiramente felina de uma maçã do rosto, uma perna graciosa coberta de fina penugem, e outros indícios que o desespero, a vergonha e lágrimas de ternura me impedem de enumerar —, o pequeno e fatal demónio no meio das crianças normais. Elas não a reconhecem como tal, e a própria ninfeta não tem consciência do seu fantástico poder.»

The ten thousand nights i spent alone

My reputation
as a Ladies’ Man was a joke
It caused me to laugh bitterly
through the ten thousand nights
I spent alone

Leonard Cohen

sexta-feira, julho 16, 2010

Chamo-lhes escravos do género. Tendencialmente, são do sexo masculino. Têm um colete-de-forças na cabeça que lhes diz:

«Só gosto de magras.»

«Só gosto de louras.»

«Só gosto de executivas.»

«Só gosto de mulheres mais novas.»

«Só gosto de mulheres altas.»

Assim desperdiçam pessoas infinitamente interessantes.

quinta-feira, julho 15, 2010

Sigamos estas Deusas, e vejamos
Se fantásticas são, se verdadeiras.»
Isto dito, veloces mais que gamos,
Se lançam a correr pelas ribeiras.
Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,
Mas, mais industriosas que ligeiras,

Pouco e pouco, sorrindo, e gritos dando,
Se deixam ir dos galgos alcançando.


Camões conhecia a mulher. Finge que foges, mas deixas-te ir alcançando.
- Tu és um garanhão.
- Não. Sou um garanhão espiritual.

terça-feira, julho 13, 2010

a trituração

muito
muito pouco

muito gordo
muito magro
ou ninguém.

gargalhadas ou
lágrimas

odiadores
amantes

estranhos com rostos como
as costas de
percevejos

exércitos correndo por
ruas de sangue
acenando garrafas
baionetando e fodendo
virgens.

ou um tipo velho num quarto barato
com uma fotografia da M. Monroe.

há uma solidão tão grande nesse mundo
que tu podes vê-la no movimento lento dos
braços de um relógio.

pessoas tão cansadas
mutiladas
ou pelo amor ou pelo desamor.

as pessoas não são boas umas para as outras
num todo.

os ricos não são bons para os ricos
os pobres não são bons para os pobres.

temos medo.

o nosso sistema educacional diz-nos
que podemos todos ser
vencedores de rabo-grande.

não nos disseram sobre
as sarjetas
ou os suicídios.

ou o terror de uma pessoa
doendo num lugar
sozinha

intocada
silente

regando uma planta.

as pessoas não são boas umas para às outras.
as pessoas não são boas umas para às outras.
as pessoas não são boas umas para às outras.

acho que nunca o serão.
não lhes peças para o serem.

mas às vezes eu penso sobre
isso.

as contas balançarão
as nuvens toldar-se-ão
e o assassino decapitará a criança
como se mordesse um pedaço do cone de gelado.

muito
muito pouco

muito gordo
muito magro
ou ninguém

mais odiadores do que amantes.

as pessoas não são boas umas para às outras.
talvez se elas fossem
as nossas mortes não seriam tão tristes.

enquanto isso eu olho para as jovenzinhas
caules
flores de oportunidade

tem que haver um jeito.

certamente haverá uma maneira em que ainda não
pensámos.

quem colocou esse cérebro dentro de mim?

ele chora
ele reclama
ele diz que há uma possibilidade.

ele não dirá: «não»

Charles Bukowski
Joga os dados

Se tu vais tentar, vai com tudo
Senão, nem sequer comeces.

Se tu vais tentar, vai com tudo
Isso pode significar perder namoradas,
esposas, parentes, empregos
e talvez a tua cabeça.

Vai com tudo.

Isso pode significar ficar sem comer por 3 ou 4 dias
Pode significar passar frio num banco de praça
Pode significar cadeia, escárnio, insultos, isolamento.

Isolamento é o presente
todos os outros são um teste da tua resistência
de quanto tu realmente queres fazer isso.

E tu vais fazê-lo

Apesar da rejeição e dos piores infortúnios
E isso será melhor do que qualquer coisa
que tu possas imaginar.

Se tu vais tentar, vai com tudo.

Não há outro sentimento como esse.
Tu ficarás sozinho com os deuses
e as noites irão flamejar com fogo.


Fá-lo, fá-lo, fá-lo.

Por todos os caminhos. Por todos os caminhos.
Cavalgarás a vida directamente até à gargalhada perfeita
É essa a única boa luta que existe.

Charles Bukowski

segunda-feira, julho 12, 2010

Jesus e Buda

Há muita literatura dedicada à comparação entre Jesus e Buda. São muito mais os pontos que os unem do que os separam. E o que os separa de nada vale. Porquê?

Porque ninguém é absolutamente igual a ninguém, nem ninguém pode aspirar ser igual a ninguém. Osho vai mais longe e diz que não devemos aspirar a ser Cristo ou Buda mas a procurarmos o nosso ideal-ser, a nossa verdade interior - pessoal e intransmissível - e caminhar para ela. Osho até dizia que detestava ideais - que eram metas inatingíveis, fora das nossas possibilidades reais; e que portanto só serviam para fabricar culpa.

A perfeição não é una. Há quem seja utílissimo à humanidade escrevendo livros, denunciando a fome. Há quem seja útil à humanidade sendo enfermeira salvando vidas. Há quem seja útil à humanidade sendo diplomata que evita guerras e consequentes mortes, feridos e destruições. O importante é dedicarmos a vida a melhorar a vida do Outro.

A aproximação a Buda ou a Cristo não é, de resto, racional mas afectiva. Bertrand Russell escreveu que apesar de encontrar muito mais razoabilidade na mensagem de Buda (nos sutras) do que na de Cristo, ainda assim, e apesar de ateu, sentia-se mais perto de Cristo; porque era na sua cultura que fora enformado.

A mesma coisa me disseram já dois amigos meus por outras palavras.

Há uma diferença: Buda descobriu um caminho interior e partilhou-o com a humanidade. O caminho da libertação do sofrimento. Cristo é filho de Deus (para quem acredita evidentemente).
Com esta unanimidade pergunto-me: o que estarei a fazer mal?

António Lobo Antunes
Não há dúvida de que é realmente isso que queremos: ser felizes. Mas, quando se trata de dizer em que consiste a felicidade, encontramos tremendas dificuldades.

A felicidade é o sumo bem. Mas já Aristóteles escreveu: "Todos os homens estão praticamente de acordo quanto ao bem supremo: é a felicidade. Mas, quanto à natureza da felicidade, já não nos entendemos." Também Kant se referiu a essa coisa indefinível, que é o objecto dos nossos sonhos, trabalhos e anseios, nestes termos: "O conceito de felicidade é tão vago que, embora toda a gente deseje alcançar a felicidade, nunca ninguém consegue dizer de forma definitiva e constante o que realmente espera e deseja."

Uma das razões da dificuldade reside no facto de a felicidade ter tanto de subjectivo. A prova está em que encontramos pessoas felizes, apesar de, na nossa percepção, a sua situação as dever levar à infelicidade.

Não deixa de surpreender, por exemplo, que segundo o Happy Planet Index publicado em 2006 pela New Economics Foundation é no Vanuatu, um arquipélago da Melanésia, que as pessoas são mais felizes, no sentido de terem um grau mais elevado de satisfação com a vida. A surpresa é tanto maior quanto, comparando estas ilhas vulcânicas com os países do mundo industrializado, esperaríamos que fossem estes os mais felizes, atendendo ao seu progresso, à alta esperança de vida, oferta de bens materiais e consumo. Ora, a Alemanha, que é o quarto país mais feliz da Europa, depois da Itália, da Áustria e do Luxemburgo, ocupa o 81.º lugar na escala. Os países escandinavos estão ainda mais para trás: 112.º lugar para a Dinamarca, 115.º para a Noruega, 119.º para a Suécia e 123.º para a Finlândia, ocupando a França o lugar imediatamente a seguir: 124.º. Na China, na Mongólia ou na Jamaica, é-se mais feliz do que nos Estados Unidos, que ocupam o 150.º lugar.

Isto significa, conclui o filósofo Richard D. Precht, num bestseller inteligente e estimulante, com o título Wer bin ich und wenn ja, wie viele? (Quem sou eu e, se sou, quantos?), que devemos tirar algumas lições da experiência desta gente do Pacífico Sul: afinal, não é no dinheiro, no consumo, no poder e numa elevada esperança de vida que reside a felicidade. Se nos fixarmos na escala de valores da "economia da felicidade" (happiness economics), constatamos que a maior parte das pessoas dos países ricos se engana ao dar tanta importância ao dinheiro. De facto, no nosso sistema de valores, o dinheiro e o prestígio ocupam o lugar cimeiro, exactamente ao contrário da avaliação dos economistas da felicidade, que diz que nada causa tanta felicidade como as relações interpessoais, isto é, a vida em família, a vida de relação boa com o parceiro ou a parceira, os filhos, os amigos. A seguir, vem o sentimento de ser útil e, depois, segundo as circunstâncias, a saúde e a liberdade.

Quem coloca a base da felicidade na procura incessante de bem-estar material e de estatuto social para impressionar os outros revela um comportamento de carência e, assim, não pode ser feliz. Aliás, o capitalismo leva consigo a lógica da insatisfação: quanto mais se tem mais é preciso ter.

Quem chama a atenção para isso é Richard Layard, professor na London School of Economics and Political Science. Na sua opinião, seria necessário rever toda a lógica dos países industrializados, pois o pleno emprego e a paz social são mais importantes que o aumento do PIB. O novo slogan deveria ser felicidade para todos e não o crescimento para a economia, resume Richard D. Precht, que, referindo a World Values Survey, insiste que são as relações sociais que ocupam o primeiro lugar, de tal modo que um divórcio é tão negativo para o bem--estar como a perda de dois terços do rendimento.

Um estudo recente do ISCTE também revela que metade da população portuguesa tem dificuldades em sobreviver. No entanto, 73% dizem que são felizes e a razão principal é a família e os amigos.

O que seria a felicidade? Uma mistura de tudo isto: "uma vida agradável", com prazer, "uma vida boa", "uma vida preenchida", realizada, conclui Precht.

Anselmo Borges
Um homem sensível e dócil conquista as mulheres especialmente se gastar toda a sua sensibilidade e docilidade antes e depois de ir para a cama com uma mulher. Nunca durante.
Quando uma mulher ouve um homem dizer:

- O tal homem é giro;
- Todos temos um lado masculino e feminino;
- Tenho um medo de aranhas que me pelo;
- Não consigo ouvir o barulho da esferovite;


... normalmente, por estar habituada a ouvir os homens baterem com a mão no peito auto-garantindo a sua proclamada virilidade, questiona a orientação sexual do homem em causa.

Uma vez, uma rapariga numa discoteca quando lhe pedi Bailey´s (é assim?), disse-me
- Isso é bebida de rapariga. Diz lá o que é que queres.
Insistiu três vezes.
Não me demoveu, nem me ouviu proclamar:
- Olha que eu sou muito homem!

As mulheres gostam de provocar/espicaçar os homens e quase sempre estes reagem. A provocação à sua virilidade é a que mais reacções colhe. Elas sabem-no.

Balzac dizia que um homem corajoso é aquele que não tem medo de expor as suas fraquezas.
Pela vida fora, ouvi e ouvirei sempre:
- És gay?
A raiva contra o mundo é, em muitos casos, um deslocamento da raiva contra nós próprios. Não suportaríamos estar em permanente raiva com quem temos de lidar 24 horas por dia - e então projectamo-la no Outro, no Mundo, na Sociedade enferma e corrupta.

É mais fácil dar um pontapé nos outros do que em nós próprios. Experimentem.
Se estás sempre a apontar metas que nunca alcanças, mais vale deixares de apontares metas. Só te aumentarão a frustração e a culpa.
Ninguém te pode exigir mais do que aquilo que tu podes dar.
Já ninguém se lembra do Haiti, pois não?

domingo, julho 11, 2010

Há três tipos de Comportamentos Chuvianos:

1. Os Guarda-Chuvianos: seja um pingo , dois, três, dez, mil ou nenhum, abrem sempre o guarda-chuva.

2. Os Normais: quando chove abrem o guarda-chuva, quando não chove não o abrem.

3. Os Maso-Chuvianos: seja um pingo , dois, três, dez, mil ou em cântaros, nunca abrem o guarda-chuva.

Luna Ishtar W.

sábado, julho 10, 2010

Aldous Huxley afirma que durante o dia é pouco aquilo que recolhemos. É preciso fazer pausas, reflectir, ver o que se aprendeu, o que se fez bem, o que se faz mal. Descobriu o autor que - pelo menos para si - a oração é um centro gravitacional desse olhar para dentro. Rezava todos os dias por isso: para pontuar o dia com o olhar para dentro.
Ser é ser diferente.

Jaspers
Ouspensky aconselha-nos a fazermos coincidir a nossa personalidade com a nossa essência.
acídia
nome feminino1. abatimento físico e moral
2. inércia

(Do gr. akedía, «negligência», pelo lat. acidìa-, «id.»)
ataraxia [ks]
nome femininoFILOSOFIA ideal de tranquilidade de espírito preconizado pelos filósofos epicuristas e estóicos;
ataraxia medicamentosa estado de tranquilidade e de indiferença por efeito de agentes neurolépticos

(Do gr. ataraxía, «ausência de perturbação»)

sexta-feira, julho 09, 2010

Walt Whitman explica, perto do final da vida, depois de rejeitado por críticos e editores como sendo autor de coisas obscenas no conteúdo e desconexas na forma, que a sua Obra seria validada - ou não - dentro de cem anos. Caramba, Walt, se foi!

Diz ele que a sua poesia e o seu eventual mérito nela contido - talvez reconhecido daí a cem anos - se deveu ao facto de ter lido os clássicos antes dele e de os ter lido ao ar livre, em comunhão com a Natureza.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.

António Ramos Rosa
"Se não esqueceres os teus amigos, eles viverão enquanto tu viveres. Não há mortes individuais. Nem vidas."
ELIAS CANETTI - "Massa e Poder"

Vou ali à estante. Lá está ele, junto com os seus camaradas de geração. A densa capa do esquecimento tombou sobre ele; mas os seus camaradas, quase todos, não tiveram melhor sorte. Fernando Namora pertenceu a uma época em que a cultura dispunha de poder, e a um grupo de intelectuais que tinha como objectivo realizar uma teoria de conjunto da injustiça social. Hoje, talvez se olhe para aquele tempo e se examine aquele projecto com pequenos sorrisos desdenhosos. A ignorância sempre foi pedante e atrevida. E a grandeza daqueles jovens de então media-se pela dimensão do que ambicionavam e pela urgência do que diziam.


Seria, acaso, importante proceder-se à leitura de um antigo texto de Namora, contido numa reedição do belíssimo "Casa da Malta", e talvez se entendesse que a relação, a relação com o outro, é o traço principal identificador da cultura. A cultura como meio de transformação; a cultura como processo de mais uma criação do "outro."

Nesse grupo de escritores, que a definição de "neorealistas" tornou redutora, creio que somente o Fernando Namora não era marxista. Todos os outros o eram, habitualmente sem terem lido Marx, a não ser através dos seus intérpretes: Friedman, Goldman, Lukacs, Lefebvre, Costas Axelos, textos esparsos de Lenine, Staline; alguns artigos de Elio Vittorini, traduzidos, à socapa, da grande revista "Il Politecnico", na qual o romancista de "Os Homens e os Outros" polemizou com Palmiro Togliatti. De resto, a formação dessa gente fez-se com a argumentação da leitura. A lista de autores americanos, russos, italianos, franceses por eles consumida é impressionante, pelo tamanho e pela diversidade.


Curioso é o facto de o "neorealismo" ter surgido em locais tão separados pela distância como em Coimbra, no Porto, em Santiago de Cacém, Vila Franca de Xira - e nas tertúlias dos cafés de Lisboa. É o que se convencionou designar de "o ar do tempo", e de uma vontade reconstrutora do mundo e da sociedade. O propósito cabia nesta princípio: a cultura da exclusão leva, inevitavelmente, à exclusão da cultura. Portanto, a cultura como mediadora que se não subordinava à razão dominante.


Namora é um dos mais importantes partícipes desse projecto sem programa. Ergue um edifício literário no qual a estética se associa a uma ética muito pessoal: nele, na sua obra, o acto cultural é um compromisso que se não esvazia de um forte conteúdo moral. Instalando-se em Lisboa, nunca se adaptou às malícias e às artimanhas da cidade. Como Aquilino, sobre o qual escreveu um texto a vários títulos admirável, Fernando Namora nunca deixou de ser um homem do campo com a nostalgia dos grandes silêncios e dos imensos espaços.


Tenho várias fotografias com ele. A mais antiga, eu para aí com vinte anos, no gabinete onde ele trabalhava no Instituto de Oncologia. Fui entrevistá-lo para a revista "Eva", dirigida por uma senhora excepcional, Carolina Homem Christo, e em cuja Redacção escreviam Carlos de Oliveira, Maria Judite de Carvalho, José Cardoso Pires e Rogério de Freitas. A entrevista levava o título de "Retalhos da Vida de um Escritor." Na imagem, lá estão o seu rosto fechado, o seu sorriso magoado, o seu ar melancólico e, também, o registo da sua bondade, da sua compaixão e da sua generosidade. Não foi um homem feliz. E, no entanto, ele, Ferreira de Castro e Urbano Tavares Rodrigues eram, então, os escritores portugueses mais conhecidos, mais traduzidos, mais admirados e, até, adulados.


A notícia da próxima saída de um livro de Namora causava grande alvoroço. Ocasiões houve em que, antes de sair a público, a primeira edição de alguns dos seus livros (cinco mil, sete mil e quinhentos exemplares) já estavam esgotadas. E há títulos de Namora que constituem importantes documentos literários da vida portuguesa. O seu impressionante êxito: edições de milhares e milhares de exemplares, traduções constantes, ensaios, estudos exegeses, teses sobre a sua obra, amiudadas vezes requisitado pela Imprensa a fim de depor acerca de este e de aquele assunto; entrevistas, comentários - enfim, essa glória que o envolveu não deixou de causar invejas e ressentimentos. A vida literária portuguesa não é diferente da vida literária em outros países [leia-se, a título de exemplo, "Écrits Intimes", de Roger Vailland, outro grande esquecido]. E Namora, cuja generosidade e camaradagem eram lendárias, sentia, profundamente, a circunstância. No entanto, jamais deixou de ser amável e cortês, até efusivo, com muitos daqueles que o atropelavam nas tertúlias dos cafés.


Pessoalmente, devo-lhe favores, gentilezas e atenções. Foi ele quem se prestou, sem lho pedir, a falar com o seu editor de então, o Lyon de Castro, da Europa-América, sobre um livro meu "As Palavras dos Outros", cuja primeira edição foi lançada pela constância da sua bela camaradagem. Ele sabia muito bem das aleivosias, dos destratos de que era objecto. Nem uma vez, nem uma escassa e módica vez, se me queixou. Encontrávamo-nos nos cafés. Tentava animá-lo. Visitava-o em sua casa, na Infante Santo. Já muito doente, fez questão em assistir ao lançamento de um livro meu, "A Colina de Cristal", sobre o qual ainda me enviou uma carta fraterna e generosa.


Agora, tomo de mão o que, num depoimento ao "Diário de Lisboa", sobre a morte dele, disse Agustina Bessa-Luís, como só ela o sabia dizer: "Falta-nos o rio triste do seu olhar."

Baptista-Bastos
A monogamia é uma coisa ultrapassada.

CD

quinta-feira, julho 08, 2010

O que significa xD?
Sonho com o dia em que a humanidade se trate toda por tu.
Miguel Esteves Cardoso escreve que os Portugueses pediam sol no Verão e que, mal este chegou, quiseram logo ver-se livres dele. Diz que falta um provérbio popular que nos avisasse de que devemos ter cuidado com o que queremos, porque podemos recebê-lo.
Eram um grupo de intelectualóides. Ele lia pouco. Sentia-se excluído. A sua opinião - de resto, nunca solicitada - nunca era sequer comentada.

Eram um grupo de rapazes no secundário que só queriam era motos e chavalas. Todos jogavam à bola. Ele, no recreio, deambulava sempre sozinho e, nas aulas de Educação Física, era o único que não jogava futebol - jogava vólei.

Ambos se queixavam da pressão-de-grupo-para-serem-o-que-não-eram. Ambos desenvolveram traumas: um contra os intelectuais, o outro contra os desportistas.

A substância é a mesma. Quer do preconceito dos dois; quer da necessidade de dominação dos intelectuais e dos gajos das motos e das chavalas.

São - conheço-os - ambos iguais. A necessidade de impressionar pelo físico é tão animalesca quanto a necessidade de esmagar o outro pelo intelecto - é uma pulsão de dominar, de ter poder, de ser macho, viril. Própria apenas de pessoas inseguras. Mal amadas.
Cada encontro tem um reflexo no mundo invisível.

Raymond Abellio
Ele tinha um grupo de amigos. Fartou-se deles até ao infinito e um dia decidiu:
- Vou cortar com todos. Todos.

Arranjou um grupo novo, noutro lugar, sem vasos comunicantes com nenhum dos membros do grupo anterior.

Como os grupos são fluidos, foram entrando pessoas até que... uma pessoa do grupo anterior entrou porque era primo de um do novo grupo. E, de repente, os amigos excluídos reentraram aos poucos no seu grupo - na sua vida.

Não se pode fugir à segunda lei da termodinâmica: não existem sistemas fechados.
- Ela tem outra espessura.

quarta-feira, julho 07, 2010

A frase que mais ouvi no primeiro semestre de 2010

- Agora não que estou com pouco dinheiro.
- Nunca me sentei à mesa de jantar com a família em que estivesse presente de corpo e espírito. Só de corpo. Estou sempre away com a minha família.
«...É medo, um medo-orgulho feito de solidão e de desconfiança.Não piedosa
tentativa de captar um Deus; não ardente anseio de união com Ele. Não é
também com tanta majestade a exigência, de que Ele exista, porque assim
o inventa. É um medo comovente que o não haja, para a remissão dos peca-
dos, bálsamo das feridas, consolo das amarguras, dádiva do que se não teve
nunca, ou se perdeu para sempre»

Jorge de Sena sobre Beethoven

segunda-feira, julho 05, 2010

Outro dia alguém me disse:

- Um intelectual não apanha sol.

Foi das generalizações mais estúpidas que ouvi. É certo que todas o são.

Houve escritores que passavam a vida a beber e em festas da Alta Sociedade como Fitzgerald, houve escritores que iam às putas todos os dias como Joyce, que passavam a noite em bares a procurar uma boa luta como Bukowski, que eram jogadores de futebol como Camus, que andavam pelo mundo a caçar borboletas como Nabokov, que viveram grande parte da vida no mar como Melville e Conrad, que eram ginecómanos como Camões e que morreram virgens como Pessoa.
Quando um escritor está embrenhado no seu livro, muitas vezes enquanto os outros falam, ele vai pensando:

- Devia pôr esta personagem com comportamentos mais tímidos;
- Devia cortar aquele diálogo na esplanada;
- Devia acabar o capítulo com um incidente mais forte.
Boiam leves, desatentos
Meus pensamentos de mágoa,
como no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.


Boiam como folhas mortas,
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.


Sono de ser, sem remédio,
vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.

Fernando Pessoa

Por quem os sinos dobram

- Não sei como é que este tipo de coisas entrega aqui - disse ela, referindo-se a uma pessoa andrajosa, alcoolizada e suja.

Desconhece ela que os sufis consideram os mendigos iluminados disfarçados. Desconhece ela que nenhum homem é uma ilha. Desonhece ela que noutra encarnação já foi ela um mendigo. Desconhece ela John Donne, Buda, Cristo, a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Desconhece ela o ano de 1948. Desconhece ela que todo o homem é um pedaço do continente. Desconhece ela que se um torrão de terra é levado pelo mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a teu própria. Desconhece ela que a morte de qualquer homem nos diminui, porque somos parte do género humano.
A matéria estelar de que somos feitos. Que bela frase da Inês Pedrosa.
- Estou uma beachaholic.

domingo, julho 04, 2010

Algumas pessoas dizem que o ser humano é mau. Fundamentam a tese no estado deplorável em que o mundo se encontra. As chagas do mundo são indesmentíveis. Mas também é verdade - como salientou o Dalai-Lama - que o impacto da destruição é maior do que o da criação. Uma onda leva num segundo um castelo de areia feito em minutos. Nas notícias, falam do tiroteio no Tamariz, mas não dizem que hoje o Zé Tó salvou o sem-abrigo que morria debaixo do túnel com um telefonema para o 112. Nem relatam o dia a dia da mãe e do pai e os seus infinitos gestos de amor para com o filho Diogo que nasceu há três meses.

Há ainda outro aspecto: além criar mais impacto a destruição do que a criação, é mais fácil destruir do que criar. Salvar uma vida é muito muito muito difícil. Mas se eu quiser matar o meu vizinho, fá-lo-ei em menos de um minuto.

Se tiver dois caixotes do lixo e um disser: amigo do ambiente e o outro nada disser, e dessa decisão nada advir directamente para o utilizador, tendencialmente a maior parte das pessoas colocará em qual?

Pois é.

Amizade=anti-mesquinhez

- Quando contas um segredo a alguém, sabes que um dia esse alguém te contará um segredo. A melhor forma de conseguires que alguém se abra contigo é abrindo-te tu primeiro - disse-me um amigo meu há nove anos.

Até os mafiosos sabem disso. Sem que ninguém lhes peça nada, dão prendas valiosas. Um dia, serão retribuídos.

Nas tribos da Antiguidade, receber uma prenda significava ficar preso doravante aos caprichos do doador. Daí a palavra «Obrigado». Quem recebe, fica obrigado a pagar a dívida do acto generoso.

Nos livros de Rex Stout, a magistral figura do detective Nero Wolfe «trocava» favores com um jornalista. O detective dava-lhe informações em primeira mão sobre os crimes que investigava e o jornalista dava-lhe moradas e dados sobre os potenciais criminosos de que o detective ia no encalço.

Um dia, Nero Wolfe pergunta ao jornalista:

- Como é que estamos de favores?

Ele responde:

- Um de nós deve dois favores ao outro. Não me lembro qual...

É essa a beleza da amizade. A harmonia. A dádiva pela dádiva. O olvido da contabilização.

Dos desprezíveis

Chamo-lhes pequenos oportunistas. São aquela espécie de pessoas que quando é para dividir as contas, tentam - mesmo entre amigos - ficar sempre com um eurinho a mais. Que tentam sempre beber subrepticiamente uma bebida à borla. A ver se ninguém vê que neste grupo de amigos, eu fui o único que ainda não pagou uma rodada a ninguém.

Pertencem, sem sombra de dúvida, aos últimos círculos do Inferno de Dante: o dos mesquinhos.

Amar sempre com condição

Amar incondicionalmente é uma utopia. Eu amo-te mesmo que tu mudes radicalmente? Mesmo que alguém responda sim, não será que passaria a amar um outro? Eu amo-te mesmo que me queimes a pele todos os dias com cigarros? Eu amo-te mesmo que mates a minha família toda? Eu amo-te mesmo que me odeies pela vida toda? Eu amo-te mesmo que doravante descubra que és da Máfia? Eu amo-te mesmo que no futuro te filies no Partido Nazi?
- As pessoas admiram-se como é que eu com mestrados e doutoramentos em Psicologia,me contento em ter um emprego menor e em perder tanto tempo em voluntariado. Uma amiga minha outro dia disse-me: Tu és muito pouco ambicioso. Eu não sou ambicioso porque não pretendo provar nada a mim próprio. Fui muito amado em criança e adolescente. Muito mesmo. Quase toda a gente tem problemas com os pais. Acreditas, Angel, que eu nunca tive nenhum conflito com os meus pais? É mesmo deles, porque eu discuti com muitas pessoas ao longo da vida. Para mim, eles sempre foram uma fonte de amor inesgotável. O sucesso para mim é um conceito vazio. O que interessa é o que amor que tu recolhes na vida e que perpetuas aos teus filhos que por sua vez... Em Psicologia, estuda-se isso. Os homens que querem a Glória são pessoas que querem conquistar o pai. As mulheres que querem ambição e sucesso querem conquistar a mãe. São tudo falhas no amor - ou na compreensão do amor dos progenitores.
Se tod@s fossem como tu, como seria o mundo?
A quantidade de mails que recebo; os vídeos do You Tube; os blogues com citações, textos e poemas falsos de Garcia Marques, Borges, Neruda e Pessoa são quilos e quilos e quilos que ocupam a Internet.
A melhor forma de apanhares um pseudo-intelectual é falares de títulos de livros e autores inexistentes, citações fictícias ou teorias que tu inventas e a que dás um nome como: «paradigma do terceiro tubarão» e vê-los dizer que sim com a cabeça, que sim, que conhecem perfeitamente.
Eu que detesto as palavras «cavalheirismo», «engate» e «comer uma gaja», tive de ouvir:

- Gosto do teu sorriso de engate.
- Para mim, o sexo não é para falar; é para fazer. E dentro de quatro paredes. Quando passas da potência ao acto?
Já descobriste o teu ponto focal?
Ele disse-me: eu nunca consegui ler o Ulisses. Aquilo não penetrou a minha carapaça.

Pode ser bom, muito bom, único. É como as pessoas. Podem ter tudo que ver connosco, mas a conversa não está na mesma frequência de onda. Algumas não penetram a nossa carapaça. Não há nada a fazer.
Os Gregos tinham duas palavras para designar o tempo: Kairos e Kronos. Quando vivemos momentos fora do tempo, em que o tempo interior em nada coincide com o tempo cronológico, vivemos no Kairos: o presente é a eternidade, o fascínio-absoluto em que o tempo se suspende... se evade...
O Kairos é um tempo da alma.
O Kronos é o tempo cronológico, igual para todos, omnipresente, linear, monolítico.

sábado, julho 03, 2010

Amo-te

Amo-te de uma maneira inexplicável.

De uma forma inconfessável.

De um modo contraditório.



Amo-te

com meus estados de animo que são muitos,

e mudam de humor continuamente.

Pelo que já sabes,

O Tempo.

A Vida.

A Morte.



Amo-te

Com o mundo que não entendo.

Com as pessoas que não compreendo.

Com a ambivalência de minha alma.

Com a incoerência de meus actos,

Com a fatalidade do destino.

Com a conspiração do desejo.

Com a ambiguidade dos fatos.

Ainda quando te digo que não te amo, te amo.

Até quando te engano, não te engano.

No fundo, levo a cabo um plano,

para amar-te... melhor.

Pois, ainda que não creias, minha pele

sente falta enormemente

da ausência de tua pele.



Amo-te

Sem reflectir, inconscientemente,

irresponsavelmente,

espontaneamente,

involuntariamente,

por instinto,

por impulso,

irracionalmente.

Com efeito não tenho, argumentos lógicos,

nem sequer improvisados

para fundamentar este amor que sinto por ti,

que surgiu misteriosamente do nada,

que não tem resolvido magicamente nada,

e que milagrosamente, de pouco, com pouco ou nada

tem melhorado o pior de mim.



Amo-te

Amo-te com um corpo que não pensa,

com um coração que não raciocina,

com uma cabeça que não coordena.



Amo-te

incompreensivelmente.

Sem perguntar-me, porque te amo.

Sem importar-me porque te amo.

Sem questionar-me porque te amo.



Amo-te

simplesmente porque te amo.

eu mesmo não sei porque te amo.



Gian Franco Pagliaro
- Tens um olhar enigmático. Nunca te consigo ler as emoções que te percorrem.
As prostitutas preceder-vos-ão no reino de Deus.

Jesus Cristo aos fariseus (hipócritas)
O que nunca li sobre a fúria ateísta de Saramago foi esta explicação: é que Saramago desejava ardentemente que Ele existisse. A raiva do escritor era não haver um regulador disto tudo, alguém que atenuasse - ou exterminasse - a fome, a guerra, o poder arbitrário e as corrupções.

sexta-feira, julho 02, 2010

Igualdade entre sexos não é só igualdade no acesso ao emprego

Segundo um estudo da revista Sábado:

- 68% das mulheres casadas teriam um affaire se tivessem a certeza de que não eram apanhadas;
- 45% das mulheres casadas admitem ter relações extraconjugais.
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular

Que confundis tudo!

Vós anarquistas deveras sinceros

Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.

Sim, todos vós que representais o mundo, homens altos passai por baixo do meu desprezo

Passai, aristocratas de tanga de ouro,

Passai frouxos

Passai radicais do pouco!

Quem acredita neles?

Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas

Fechem-me isso à chave e deitem a chave fora.

Sufoco de ter só isso a minha volta.

Deixem-me respirar!

Abram todas as janelas

Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.

Álvaro de Campos
- Quando se percorre a escada da sabedoria, é preciso ter muito cuidado e ver a todo o momento se não temos visco nos pés; é que se tivermos - e é fácil tê-lo - ficamos presos num degrau.

quinta-feira, julho 01, 2010

Parei na rua a pedir uma informação. Fiquei tão feliz. O homenzinho disse:

- Depois virará à esquerda.

Não disse:

- Depois vira.

Apeteceu-me suspender o mundo e o tempo.

As pessoas tocam-me quando dizem:

- Ligar-te-ei mais logo.

E não.

- Ligo-te mais logo.

Ou quando escrevem travessão correctamente em vez do hífen ou quando - que pitéu - usam o apóstrofe. Tirei o excerto d´Os Lusíadas.
- Ele tinha O Discurso do Método do Descartes todo amarrotado e tirou-o da mala com displicência, amachucando-o ainda mais. Eu disse-lhe: Ouve lá pá, sabes quantas gerações esse livro já influenciou? Tu não podes tratar assim uma obra destas. E desatei a bater-lhe com o livro na cabeça, talvez na esperança de que o livro lhe entrasse lá para dentro.
Estava tudo tão bem até que ela me escreveu «lisongeada».
Uma mulher que acha que os homens têm de tomar a iniciativa não é digna de mim.