terça-feira, junho 29, 2010
«Mas nessa altura dançavam pelas ruas fora, quais fantoches febris, e eu trotava atrás deles, como toda a vida fiz no encalço das pessoas que me interessam, porque as únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que não bocejam nem dizem nenhum lugar comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo-de-artifício a explodir, semelhantes a aranhas, através das estrelas e, no meio, vê-se o clarão azul a estourar e toda a gente exclama Aaaah»
Jack Kerouac
Jack Kerouac
Viajantes Solidários - divulgem!
Copio abaixo o post de um amiga filantropíssima (Manuela Sá Carneiro) no seu blogue:
PEÇO A VOSSA AJUDA PARA O PROJECTO BARAKA, BOAVISTA, CABO VERDE
Caros leitores deste meu espaço, uma Amiga minha, portuguesa, jornalista, ANDREIA VALDIGEM, que vive na Ilha da Boavista, Cabo Verde mandou-me um email a pedir me ajuda para um Projecto especial - PROJECTO BARAKA - que ela está a acarinhar na Ilha da Boavista, Cabo Verde (Centro Social no Bairro das Barracas) e que tem início já em Julho!
O objectivo deste Magnifico Projecto é conseguir que as crianças das favelas de SAL-REI (capital da Ilha da Boavista, Cabo Verde) consigam pelo menos durante o mes de Julho estarem ocupadas em termos de Educação e, ao mesmo tempo, serem alimentadas nesse Espaço.
Assim, o meu/nosso objectivo é conseguir colocar lá no fim de Junho/início de Julho o que me pedem (comida enlatada, basicamente). Peço-vos, por isto, que leiam o panfleto que a Andreia me enviou, que pensem com carinho e se possivel que cada um de nós contribua com UMA lata de comida enlatada (pensemos no que será possivel enviar....). A Andreia e eu pensaremos na questao logistica, seja, a Operadora e a Transportadora Aerea (só dará a SATA uma vez que só esta voa directo para SAL REI).
Peço-vos que, se acharem bem, me ajudem a ajudar estes miudos totalmente desprotegidos quer em termos de Educação quer em termos de Alimentação e, ao menos, durante todo o mês de JULHO!
Para isso, coloco aqui uma parte do email dela bem como o flyer do PROJECTO (vou tentar colocar aqui o excerto da entrevista que ela fez ao Padre, numa radio local, embora nao esteja eu a conseguir colocar nada uma vez que a entrevista está em formato mp3. Se algum Leitor puder ajudar-me nesta questao informatica agradeço).
Passemos pois ao email:
"Amiga, temos aqui um novo Padre extraordinário que está a criar um centro social com multi funções no bairro das Barracas.
Vou enviar-te logo a seguir o som de uma entrevista que fiz com ele e onde vais perceber qual o intuito do centro. Muito bonito mesmo amiga!
Bom, o que te estou a enviar agora é um panfleto do projecto que o Padre está a criar e que basicamente se centra num campo de férias agora para Julho para as crianças das Barracas com aulas de portugues, ingles, trabalhos manuais, cidadania...
O que te peço é que mexas as tuas forças e conhecimentos para ajudares como puderes neste projecto. O Padre pede apenas alimentos para poder assegurar durante o campo de férias pelo menos uma refeição quente para as crianças.necessitam de alimentos, portanto para vir dai é melhor enlatados e para já, visto que o campo de ferias comeca em Julho."
OBRIGADA! vamos lá arregaçar as mangas.. eu faço questão de ir lá entregar a comidinha toda aos miudos. Alguem quer vir?
QUALQUER INFORMAÇÃO: luis marques pinto luismarquespinto@hotmail.com
PEÇO A VOSSA AJUDA PARA O PROJECTO BARAKA, BOAVISTA, CABO VERDE
Caros leitores deste meu espaço, uma Amiga minha, portuguesa, jornalista, ANDREIA VALDIGEM, que vive na Ilha da Boavista, Cabo Verde mandou-me um email a pedir me ajuda para um Projecto especial - PROJECTO BARAKA - que ela está a acarinhar na Ilha da Boavista, Cabo Verde (Centro Social no Bairro das Barracas) e que tem início já em Julho!
O objectivo deste Magnifico Projecto é conseguir que as crianças das favelas de SAL-REI (capital da Ilha da Boavista, Cabo Verde) consigam pelo menos durante o mes de Julho estarem ocupadas em termos de Educação e, ao mesmo tempo, serem alimentadas nesse Espaço.
Assim, o meu/nosso objectivo é conseguir colocar lá no fim de Junho/início de Julho o que me pedem (comida enlatada, basicamente). Peço-vos, por isto, que leiam o panfleto que a Andreia me enviou, que pensem com carinho e se possivel que cada um de nós contribua com UMA lata de comida enlatada (pensemos no que será possivel enviar....). A Andreia e eu pensaremos na questao logistica, seja, a Operadora e a Transportadora Aerea (só dará a SATA uma vez que só esta voa directo para SAL REI).
Peço-vos que, se acharem bem, me ajudem a ajudar estes miudos totalmente desprotegidos quer em termos de Educação quer em termos de Alimentação e, ao menos, durante todo o mês de JULHO!
Para isso, coloco aqui uma parte do email dela bem como o flyer do PROJECTO (vou tentar colocar aqui o excerto da entrevista que ela fez ao Padre, numa radio local, embora nao esteja eu a conseguir colocar nada uma vez que a entrevista está em formato mp3. Se algum Leitor puder ajudar-me nesta questao informatica agradeço).
Passemos pois ao email:
"Amiga, temos aqui um novo Padre extraordinário que está a criar um centro social com multi funções no bairro das Barracas.
Vou enviar-te logo a seguir o som de uma entrevista que fiz com ele e onde vais perceber qual o intuito do centro. Muito bonito mesmo amiga!
Bom, o que te estou a enviar agora é um panfleto do projecto que o Padre está a criar e que basicamente se centra num campo de férias agora para Julho para as crianças das Barracas com aulas de portugues, ingles, trabalhos manuais, cidadania...
O que te peço é que mexas as tuas forças e conhecimentos para ajudares como puderes neste projecto. O Padre pede apenas alimentos para poder assegurar durante o campo de férias pelo menos uma refeição quente para as crianças.necessitam de alimentos, portanto para vir dai é melhor enlatados e para já, visto que o campo de ferias comeca em Julho."
OBRIGADA! vamos lá arregaçar as mangas.. eu faço questão de ir lá entregar a comidinha toda aos miudos. Alguem quer vir?
QUALQUER INFORMAÇÃO: luis marques pinto luismarquespinto@hotmail.com
segunda-feira, junho 28, 2010
Paro sempre naquele quiosque com os jornais e as revistas todas ali à mostra. Estamos todos de pé. Somos uma família fugaz. Felizes por ler as notícias fresquinhas. Os homens comentam todos bola. Alguns política. O lado mais sórdido é que todos ficam felizes com a desgraça dos famosos. Que maravilha descobrir que quem alcançou o pináculo do poder ou do dinheiro, está carregadinho de fraquezas: cancros, divórcios, depressões, pedofilia, alcoolismo, desacatos, problemas na custódia.
Quem não anda de transportes públicos e não pára nos expositores públicos, cada vez que abrir a boca para falar do «povo», que todos à volta dele o amordaçem.
Quem não anda de transportes públicos e não pára nos expositores públicos, cada vez que abrir a boca para falar do «povo», que todos à volta dele o amordaçem.
A quem não suporta que se ponha em causa a putativa consensualidade subitamente surgida post mortem de José Saramago
Não há opiniões definitivas sobre escritor algum. O Lobo Antunes diz que o Pessoa é demasiado intelectual e que lhe falta sentimento na poesia e que O LIvro do Desassossego é um amontoado de clichés. Sentencia que Pessoa será esquecido no futuro. Graça Moura disse o mesmo por outras palavras.
O próprio Bloom diz que o Neruda é o maior poeta do século XX. Porra, e o Pessoa? O Ezra Pound? O e. e. cummings? O T. S. Elliot? O Neruda tem alguns poemas muito bons, mas a maior parte não figurará na História da Literatura. Pior: muita coisa é datada e naive no pior sentido da palavra.
O próprio Bloom diz que o Neruda é o maior poeta do século XX. Porra, e o Pessoa? O Ezra Pound? O e. e. cummings? O T. S. Elliot? O Neruda tem alguns poemas muito bons, mas a maior parte não figurará na História da Literatura. Pior: muita coisa é datada e naive no pior sentido da palavra.
A quem diz que VPV diz mal de todos
Literariamente, já disse muito bem de:
a) Eça; (o português mais inteligente dos últimos dois séculos - sic)
b) Camilo;
c) Balzac;
d) Scott Fitzgerald;
e) Clara Pinto Correia;
f) Jorge Sena.
a) Eça; (o português mais inteligente dos últimos dois séculos - sic)
b) Camilo;
c) Balzac;
d) Scott Fitzgerald;
e) Clara Pinto Correia;
f) Jorge Sena.
Saramago
O prémio Nobel não garante a importância literária de ninguém. Basta ver a longa lista de mediocridades que o receberam. Pior ainda, o prémio Nobel é atribuído muitas vezes por razões de nacionalidade ou pura política, sem relação alguma com a obra, que num determinado ano a Academia Sueca resolveu escolher. Que Saramago fosse o único escritor de língua portuguesa a receber essa mais do que duvidosa distinção não o acrescenta em nada, nem acrescenta em nada a língua portuguesa. Só a patriotice indígena (de resto, interessada) a pode levar a sério e protestar agora indignadamente porque o Presidente da República se recusou a ir ao enterro do homem. Por mais que se diga, e até que se berre, Saramago não era uma glória nacional indiscutida e universalmente venerada.
Pelo contrário, desde sempre que viveu do escândalo e da polémica. Devoto do Partido Comunista e ateu militante, não lhe custou muito. E Sousa Lara, com ignorância contumaz da nossa direita, acabou por lhe dar uma grande ajuda. O Evangelho segundo Jesus Cristo, qualquer que seja o seu mérito literário (e, para mim, é pouco), não passa de um repositório de lugares-comuns sobre o Cristianismo (alguns dos quais do século III), que não revela sombra de pensamento original e só pode perturbar um analfabeto. Para defender a sua fé, ao que parece acrisolada, Sousa Lara teria feito melhor em proibir A Relíquia e O Mandarim, dois livros de facto subversivos, que justamente não incomodaram a burguesia de uma época em que o Catolicismo era a religião de Estado.
De qualquer maneira, a fama de incréu beneficiou Saramago. Como também a fama de comunista, adquirida no DN em artigos que suavam ódio e, dia a dia, pediam violência e, mais tarde, num ou noutro romance em que mitificou o povo à boa maneira neo-realista. Mas nem essa fidelidade à esquerda e ao PC merece muita consideração. Ele, que denunciava tão depressa tanta gente, nunca condenou a sério os crimes sem nome (e sem número) do "socialismo real" e, no fim da vida, gostava de se apresentar como um campeão dos direitos do homem, um exercício para que obviamente lhe faltava toda a autoridade. Apesar disso, o Estado democrático, manifestamente impressionado com o Nobel, não o tratou mal. Instalada na Casa dos Bicos, mesmo no centro da Lisboa antiga, a Fundação Saramago é homenagem bastante.
Vasco Pulido Valente
Pelo contrário, desde sempre que viveu do escândalo e da polémica. Devoto do Partido Comunista e ateu militante, não lhe custou muito. E Sousa Lara, com ignorância contumaz da nossa direita, acabou por lhe dar uma grande ajuda. O Evangelho segundo Jesus Cristo, qualquer que seja o seu mérito literário (e, para mim, é pouco), não passa de um repositório de lugares-comuns sobre o Cristianismo (alguns dos quais do século III), que não revela sombra de pensamento original e só pode perturbar um analfabeto. Para defender a sua fé, ao que parece acrisolada, Sousa Lara teria feito melhor em proibir A Relíquia e O Mandarim, dois livros de facto subversivos, que justamente não incomodaram a burguesia de uma época em que o Catolicismo era a religião de Estado.
De qualquer maneira, a fama de incréu beneficiou Saramago. Como também a fama de comunista, adquirida no DN em artigos que suavam ódio e, dia a dia, pediam violência e, mais tarde, num ou noutro romance em que mitificou o povo à boa maneira neo-realista. Mas nem essa fidelidade à esquerda e ao PC merece muita consideração. Ele, que denunciava tão depressa tanta gente, nunca condenou a sério os crimes sem nome (e sem número) do "socialismo real" e, no fim da vida, gostava de se apresentar como um campeão dos direitos do homem, um exercício para que obviamente lhe faltava toda a autoridade. Apesar disso, o Estado democrático, manifestamente impressionado com o Nobel, não o tratou mal. Instalada na Casa dos Bicos, mesmo no centro da Lisboa antiga, a Fundação Saramago é homenagem bastante.
Vasco Pulido Valente
domingo, junho 27, 2010
sábado, junho 26, 2010
Os Dois Saramagos
Carlos Pinto Coelho
Foi a tarde em que todos os demónios invadiram o meu “Diário de Notícias”. Pelos corredores fervilhavam inquietações e boatos. O senhor Raimundo, o mais antigo contínuo da Redacção do jornal, vem dizer-me que sou chamado ao gabinete do director. Meia hora depois tomo conhecimento de que estou despedido (ou “saneado” como então se dizia). Exactamente um ano depois da alegria dos cravos.
Na vetusta “sala verde”, onde Augusto de Castro vivera as suas gloriosas décadas de director do “Diário de Notícias”, estava agora José Saramago à secretária, rodeado de gente. Era ele o recém-chegado director-adjunto do jornal, designado pelo Partido Comunista para conduzir o “Diário de Notícias” pelos caminhos da revolução, general com poder para movimentar o que houvesse que movimentar. Mas não foi ele quem me recebeu, antes um jornalista chamado Luís de Barros, militante que o Partido designara director do jornal. De modo que foi Barros quem me transmitiu, de forma atabalhoada, a sentença ditada por Saramago. Não soube do que era acusado, nem ouvi menção a faltas, crimes ou desvarios, ideológicos ou outros. Soube apenas que estava na rua (“saneado”) e ponto final. Tinha entrado, pura e simplesmente, na enxurrada de “reaccionários” e “fascistas” em que milhares de portugueses fomos embrulhados pela turba cega que tinha tomado as rédeas dos órgãos de informação.
Lembro-me de que o meu convicto carrasco me conduziu à porta do seu gabinete, contíguo à “sala verde”, e que, nesse momento, olhei uma última vez para o Supremo Inquisidor. Continuava á secretária, rodeado de gente, sereno, hirto, distante. Dominador.
Anos e anos se passaram. Nas voltas da vida, Saramago é banido do “Diário de Notícias” e escreve os seus melhores romances, eu vou para a televisão e faço o “Acontece” na RTP 2. E um dia encontramo-nos, ele escritor prestigiado, eu jornalista conhecido. Foi no restaurante do campo de golf de Troia. Um almoço volante onde estavam dezenas de jornalistas e escritores, já não me lembro porquê.
Vejo-o sozinho a uma mesa. Pego no meu café, aproximo-me, cumprimento-o. Sou retribuído com um sorriso e convite para me sentar. Pergunto: “O Saramago acha-me um reaccionário ou um fascista?” Olha-me, perplexo: ” Que pergunta, Carlos!” Recordo então a tarde em que todos os demónios invadiram o meu “Diário de Notícias”. Ele, atento, assombrado, a ouvir. Eu, sereno, a esmiuçar os mil detalhes que carregava na alma. E foi quando, levantando-se pesadamente, com todo o vagar do tempo inteiro, um Saramago formalíssimo, quase solene, mas também subitamente abatido como se alguma rajada de vento mau por ali andasse, murmurou qualquer coisa que não percebi à primeira. Ele repetiu: “ Peço-lhe perdão.” E estendeu-me a mão. Avancei um abraço.
No exemplar do “Memorial do Convento” que anos depois me autografou, guardo o seu abraço “com amizade (muito mais do que as palavras...)”.
Foi a tarde em que todos os demónios invadiram o meu “Diário de Notícias”. Pelos corredores fervilhavam inquietações e boatos. O senhor Raimundo, o mais antigo contínuo da Redacção do jornal, vem dizer-me que sou chamado ao gabinete do director. Meia hora depois tomo conhecimento de que estou despedido (ou “saneado” como então se dizia). Exactamente um ano depois da alegria dos cravos.
Na vetusta “sala verde”, onde Augusto de Castro vivera as suas gloriosas décadas de director do “Diário de Notícias”, estava agora José Saramago à secretária, rodeado de gente. Era ele o recém-chegado director-adjunto do jornal, designado pelo Partido Comunista para conduzir o “Diário de Notícias” pelos caminhos da revolução, general com poder para movimentar o que houvesse que movimentar. Mas não foi ele quem me recebeu, antes um jornalista chamado Luís de Barros, militante que o Partido designara director do jornal. De modo que foi Barros quem me transmitiu, de forma atabalhoada, a sentença ditada por Saramago. Não soube do que era acusado, nem ouvi menção a faltas, crimes ou desvarios, ideológicos ou outros. Soube apenas que estava na rua (“saneado”) e ponto final. Tinha entrado, pura e simplesmente, na enxurrada de “reaccionários” e “fascistas” em que milhares de portugueses fomos embrulhados pela turba cega que tinha tomado as rédeas dos órgãos de informação.
Lembro-me de que o meu convicto carrasco me conduziu à porta do seu gabinete, contíguo à “sala verde”, e que, nesse momento, olhei uma última vez para o Supremo Inquisidor. Continuava á secretária, rodeado de gente, sereno, hirto, distante. Dominador.
Anos e anos se passaram. Nas voltas da vida, Saramago é banido do “Diário de Notícias” e escreve os seus melhores romances, eu vou para a televisão e faço o “Acontece” na RTP 2. E um dia encontramo-nos, ele escritor prestigiado, eu jornalista conhecido. Foi no restaurante do campo de golf de Troia. Um almoço volante onde estavam dezenas de jornalistas e escritores, já não me lembro porquê.
Vejo-o sozinho a uma mesa. Pego no meu café, aproximo-me, cumprimento-o. Sou retribuído com um sorriso e convite para me sentar. Pergunto: “O Saramago acha-me um reaccionário ou um fascista?” Olha-me, perplexo: ” Que pergunta, Carlos!” Recordo então a tarde em que todos os demónios invadiram o meu “Diário de Notícias”. Ele, atento, assombrado, a ouvir. Eu, sereno, a esmiuçar os mil detalhes que carregava na alma. E foi quando, levantando-se pesadamente, com todo o vagar do tempo inteiro, um Saramago formalíssimo, quase solene, mas também subitamente abatido como se alguma rajada de vento mau por ali andasse, murmurou qualquer coisa que não percebi à primeira. Ele repetiu: “ Peço-lhe perdão.” E estendeu-me a mão. Avancei um abraço.
No exemplar do “Memorial do Convento” que anos depois me autografou, guardo o seu abraço “com amizade (muito mais do que as palavras...)”.
Lobo Antunes e Cardoso Pires eram grandes amigos. Falavam todos os dias. Um dia, Lobo Antunes deu um livro seu - ainda não publicado - para o «Zé» apreciar. Perante a demora, o nervosismo do ALA foi crescendo. «Porra, o gajo não deve estar a gostar.»
Um dia perguntou-lhe:
- Ò Zé, o que é que achaste do meu livro?
- Sei lá. Ainda só o li duas vezes.
Um dia perguntou-lhe:
- Ò Zé, o que é que achaste do meu livro?
- Sei lá. Ainda só o li duas vezes.
sexta-feira, junho 25, 2010
Borges escreveu que Dostoievski não escreveu uma linha que ficasse para a Posteridade, mas que isso não era importante - o seu todo advinha do conjunto. Não se tratava de uma linha feliz, de uma página ou de um capítulo feliz, mas do conjunto de uma Obra que se entendia e florescia melhor quando lido todos os livros.
Concordo e não concordo. Acho dificílimo um grande escritor não ter uma grande frase.
Oferece-se dinheiro a quem encontrar uma grande frase de Saramago - prenhe de originalidade e lucidez. Por mais que leia Saramago, sob romance, teatro, crónica, poesia; não encontro uma frase genial.
Concordo e não concordo. Acho dificílimo um grande escritor não ter uma grande frase.
Oferece-se dinheiro a quem encontrar uma grande frase de Saramago - prenhe de originalidade e lucidez. Por mais que leia Saramago, sob romance, teatro, crónica, poesia; não encontro uma frase genial.
A grandeza de um e a tacanhez do outro
Havia nele, no que escrevia e dizia, mas, também, na forma como fixava as coisas e os homens, essa espécie de iluminação que diferencia, essa diferença que ilumina. José Saramago foi um grande português, com duas pátrias amadas: Portugal e Pilar del Rio. Não há metáfora nesta afirmação. Pilar era a pátria redesenhada do seu próprio coração; e Portugal o desejo permanente, nunca apaziguado, da linguagem entendida como emoção e conquista.
Um português desta estirpe e desta grandeza jamais seria entendido pelo português minúsculo, sem dimensão e sem mérito - como é o dr. Cavaco. Saramago possuía a medida da pátria. O dr. Cavaco não dispõe da altura exigida pelas suas funções. Saramago amava o seu povo porque nos conhecia. O dr. Cavaco despreza-nos por ignorância.
Ao ausentar-se das cerimónias nacionais ao falecimento do escritor (do grande escritor), dispensou-se de se associar ao respeito colectivo, e expôs-se como uma criatura ressentida, medrosa, escondida, cabisbaixa. Este senhor é o mesmo que recusou uma pensão à viúva de Salgueiro Maia e premiou ex-agentes da PIDE, "por bons serviços prestados à pátria." É aquele que inventou a existência de escutas em Belém, num dos episódios mais grotescos e farsolas da II República. É o indivíduo que presidiu ao Ministério responsável pelo impedimento de José Saramago em se candidatar a um prémio literário europeu. Refiro-me, claro!, ao facto de ter silenciado sobre a decisão do subsecretário Sousa Lara, e do secretário Santana Lopes, ambos estes "governantes" da Cultura, em impedirem que o romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" fosse, sequer, admitido a concurso.
A nota oficial da Presidência da República, em que se pretende explicar a ausência do Chefe de Estado no velório de José Saramago, é um documento lamentável. Corresponde, aliás, à ambiguidade e evasivas com que promulgou a lei do casamento de homossexuais. O dr. Cavaco não enfrenta: evita.
As "explicações" que tartamudeou nos Açores são de molde a revoltar-nos pelo que comportam de divisão social, e pelo que exprimem de incompreensão relativamente ao significado cultural de Saramago, além da hipocrisia e do cinismo de frases como esta: "Não tive o privilégio de conhecer pessoalmente o escritor, embora tenha lido os seus livros." Estamos mesmo a ver o dr. Cavaco, nos tempos livres, sentado num sofá e debruçado nas páginas de qualquer romance do autor. Estamos mesmo a vê-lo.
É este cavalheiro de pouca estatura intelectual, minguada extensão de estadista, certamente o pior Presidente da República em democracia - é este homem sombrio e tíbio, vingativo e rancoroso que a Direita deseja manter em Belém.
Não há comparação possível, mesmo reclamando-nos de tolerância cristã e piedade sem peias, entre José Saramago e o dr. Cavaco. O primeiro orgulha-nos e enobrece-nos. Levou o nome da pátria às sete partidas do mundo; pôs-nos a reflectir e exigiu que não nos submetêssemos, que fôssemos homens livres, que rejeitássemos e combatêssemos a servidão. Nada devemos ao dr. Cavaco, a não ser decepções, arrogância, soberba, trapalhadas culturais. Nada, neste homem hirto, pouco à vontade, irritadiço, colérico quando contrariado, o recomenda ao nosso respeito, consideração e estima.
E poucos gostam dele, inclusive os da sua área ideológica, se é que ele sabe, em rigor, o que isso significa. O dr. Cavaco é um embaraço para os seus correligionários, e um pesadelo para os que admitem a democracia como uma instância de sabedoria, de compreensão, de complacência e de liberdade livre.
José Saramago esteve sempre onde devia estar.
O dr. Cavaco está a mais onde está.
APOSTILA 1. - Há uns anos largos, num programa de Margarida Marante, na SIC, foi apresentado um encontro aparentemente imponderável: D. Manuel Clemente, então reitor do Seminário dos Olivais, e José Saramago, já então muito conhecido e muito polémico. Foi um diálogo inesquecível. D. Manuel Clemente conhecia a obra do escritor, e este demonstrou uma atenção muito grande por tudo quanto o seu interlocutor dizia, sobretudo pelas interrogações sobre Deus e a religião que lhe formulava. Dois homens cultos, que se respeitavam e que expunham aos telespectadores uma forte dignidade nas suas opções essenciais e uma impecável decência nas suas interpelações e propostas. Ainda esperei que alguém, nos jornais e nas televisões, se lembrasse do acontecimento, e solicitasse a D. Manuel Clemente um depoimento, um artigo, um comentário sobre Saramago. Porém, a memória das Redacções parece estar irremediavelmente perdida. Na ausência desta grande figura da Igreja, perdemos todos, certamente, uma bela demonstração de pedagogia e de cultura. Paciência.
APOSTILA 2. - A hierarquia da Igreja Católica Portuguesa distanciou-se do Vaticano e do seu órgão, "L'Osservatore Romano", que, num artigo inconcebível, cobriu José Saramago de injúrias. Uma vergonha à qual os bispos portugueses recusaram associar-se, mantendo uma elevação moral que merece aplauso. Como aplauso merecem os padres Carreira das Neves e Tolentino de Mendonça pelas declarações que prestaram publicamente.
Baptista-Bastos
Um português desta estirpe e desta grandeza jamais seria entendido pelo português minúsculo, sem dimensão e sem mérito - como é o dr. Cavaco. Saramago possuía a medida da pátria. O dr. Cavaco não dispõe da altura exigida pelas suas funções. Saramago amava o seu povo porque nos conhecia. O dr. Cavaco despreza-nos por ignorância.
Ao ausentar-se das cerimónias nacionais ao falecimento do escritor (do grande escritor), dispensou-se de se associar ao respeito colectivo, e expôs-se como uma criatura ressentida, medrosa, escondida, cabisbaixa. Este senhor é o mesmo que recusou uma pensão à viúva de Salgueiro Maia e premiou ex-agentes da PIDE, "por bons serviços prestados à pátria." É aquele que inventou a existência de escutas em Belém, num dos episódios mais grotescos e farsolas da II República. É o indivíduo que presidiu ao Ministério responsável pelo impedimento de José Saramago em se candidatar a um prémio literário europeu. Refiro-me, claro!, ao facto de ter silenciado sobre a decisão do subsecretário Sousa Lara, e do secretário Santana Lopes, ambos estes "governantes" da Cultura, em impedirem que o romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" fosse, sequer, admitido a concurso.
A nota oficial da Presidência da República, em que se pretende explicar a ausência do Chefe de Estado no velório de José Saramago, é um documento lamentável. Corresponde, aliás, à ambiguidade e evasivas com que promulgou a lei do casamento de homossexuais. O dr. Cavaco não enfrenta: evita.
As "explicações" que tartamudeou nos Açores são de molde a revoltar-nos pelo que comportam de divisão social, e pelo que exprimem de incompreensão relativamente ao significado cultural de Saramago, além da hipocrisia e do cinismo de frases como esta: "Não tive o privilégio de conhecer pessoalmente o escritor, embora tenha lido os seus livros." Estamos mesmo a ver o dr. Cavaco, nos tempos livres, sentado num sofá e debruçado nas páginas de qualquer romance do autor. Estamos mesmo a vê-lo.
É este cavalheiro de pouca estatura intelectual, minguada extensão de estadista, certamente o pior Presidente da República em democracia - é este homem sombrio e tíbio, vingativo e rancoroso que a Direita deseja manter em Belém.
Não há comparação possível, mesmo reclamando-nos de tolerância cristã e piedade sem peias, entre José Saramago e o dr. Cavaco. O primeiro orgulha-nos e enobrece-nos. Levou o nome da pátria às sete partidas do mundo; pôs-nos a reflectir e exigiu que não nos submetêssemos, que fôssemos homens livres, que rejeitássemos e combatêssemos a servidão. Nada devemos ao dr. Cavaco, a não ser decepções, arrogância, soberba, trapalhadas culturais. Nada, neste homem hirto, pouco à vontade, irritadiço, colérico quando contrariado, o recomenda ao nosso respeito, consideração e estima.
E poucos gostam dele, inclusive os da sua área ideológica, se é que ele sabe, em rigor, o que isso significa. O dr. Cavaco é um embaraço para os seus correligionários, e um pesadelo para os que admitem a democracia como uma instância de sabedoria, de compreensão, de complacência e de liberdade livre.
José Saramago esteve sempre onde devia estar.
O dr. Cavaco está a mais onde está.
APOSTILA 1. - Há uns anos largos, num programa de Margarida Marante, na SIC, foi apresentado um encontro aparentemente imponderável: D. Manuel Clemente, então reitor do Seminário dos Olivais, e José Saramago, já então muito conhecido e muito polémico. Foi um diálogo inesquecível. D. Manuel Clemente conhecia a obra do escritor, e este demonstrou uma atenção muito grande por tudo quanto o seu interlocutor dizia, sobretudo pelas interrogações sobre Deus e a religião que lhe formulava. Dois homens cultos, que se respeitavam e que expunham aos telespectadores uma forte dignidade nas suas opções essenciais e uma impecável decência nas suas interpelações e propostas. Ainda esperei que alguém, nos jornais e nas televisões, se lembrasse do acontecimento, e solicitasse a D. Manuel Clemente um depoimento, um artigo, um comentário sobre Saramago. Porém, a memória das Redacções parece estar irremediavelmente perdida. Na ausência desta grande figura da Igreja, perdemos todos, certamente, uma bela demonstração de pedagogia e de cultura. Paciência.
APOSTILA 2. - A hierarquia da Igreja Católica Portuguesa distanciou-se do Vaticano e do seu órgão, "L'Osservatore Romano", que, num artigo inconcebível, cobriu José Saramago de injúrias. Uma vergonha à qual os bispos portugueses recusaram associar-se, mantendo uma elevação moral que merece aplauso. Como aplauso merecem os padres Carreira das Neves e Tolentino de Mendonça pelas declarações que prestaram publicamente.
Baptista-Bastos
quinta-feira, junho 24, 2010
Entrevista de Vasco Pulido Valente à revista Ler
Está a referir-se a Saramago, por exemplo?
Interessa-me menos do que o Miguel Sousa Tavares. Porque o Miguel Sousa Tavares, ao menos, é genuíno. Tudo o que se possa dizer dele, eu disse. Mas é genuíno. O Saramago é uma derivação da literatura da América Latina. Mas ele não nasceu nas Caraíbas! É uma pena.
Considera-o um sucedâneo da literatura latino-americana em que sentido: pela componente de fantástico de alguns dos romances dele? Se fosse pelo fantástico era o menos. Ele tem romances muito distintos.
É pela prosa. Aquilo era uma prosa admissível nas Caraíbas. É admissível nas Caraíbas ou num português que tivesse vivido a vida inteira nas Caraíbas. Mas assim não faz sentido nenhum...
O facto de ele ter ganho o Prémio Nobel não tem para si importância?
Nenhuma. Leia a lista dos prémios Nobel.
Interessa-me menos do que o Miguel Sousa Tavares. Porque o Miguel Sousa Tavares, ao menos, é genuíno. Tudo o que se possa dizer dele, eu disse. Mas é genuíno. O Saramago é uma derivação da literatura da América Latina. Mas ele não nasceu nas Caraíbas! É uma pena.
Considera-o um sucedâneo da literatura latino-americana em que sentido: pela componente de fantástico de alguns dos romances dele? Se fosse pelo fantástico era o menos. Ele tem romances muito distintos.
É pela prosa. Aquilo era uma prosa admissível nas Caraíbas. É admissível nas Caraíbas ou num português que tivesse vivido a vida inteira nas Caraíbas. Mas assim não faz sentido nenhum...
O facto de ele ter ganho o Prémio Nobel não tem para si importância?
Nenhuma. Leia a lista dos prémios Nobel.
quarta-feira, junho 23, 2010
terça-feira, junho 22, 2010
segunda-feira, junho 21, 2010
As mulheres, o romance, a paixão, a poesia, a Arte – o Outro Lado da Vida. Claro que vocês, contabilistazinhos, engenheirozinhos de vistas estreitas, convencionaizinhos, anodinozinhos que se levantam cedo todas as manhãs, com a gravata ao pescoço e o cartão de crédito na carteira, querem é um bom carro, uma carreira, esposa e prole. Os vossos descendentes de alma engomadinha engrossarão as fornadas do exército de produção – fotocópias de fotócopias de fotocópias de fotocópias. Podem ter toda a razão, podem chamar-me looser e inadaptado com toda a probidade, mas deixem-me que, da autoridade do meu fracasso, como dizia o outro, vos sussurre uma coisa: aquilo a que as vocês chamam de vida, eu chamo de morte.
domingo, junho 20, 2010
sábado, junho 19, 2010
10 coisas que convém não esquecer sobre José Saramago (negativas)
1. O prémio Nobel da Literatura não vale nada. Está pejado de irrelevâncias. Sartre recusou-o por ser um prémio de cunho político que nada acrescentava à Obra.
2. Saramago foi autor de saneamentos políticos quando era chefe de redacção, onde escreveu defendendo o fuzilamento dos fascistas.
3. Saramago era ultra-arrogante no trato com os interlocutores e os jornalistas. São inúmeras as entrevistas em que exibe a sua putativa superioridade intelectual. Chegou a ordenar a uma jornalista da SIC que se retirasse dali.
4. Saramago defendeu Cuba até, por um episódio menoríssimo, lhe retirar recentemente o apoio.
5. Saramago plagiou no seu livro Intermitências da Morte um autor mexicano e a imprensa portuguesa abafou o caso. Está neste blogue a exposição cabal da vergonha. Também o seu livro A viagem do elefante foi, no mínimo, inspirado por um conto de um autor brasileito.
6. Saramago era absurdo quando falava de política. Tratou Berlusconi (uma figura desprezível) como nem os nazis descreveram os judeus. Apelou ao voto em branco depois do seu Ensaio sobre a Lucidez. Não entendeu que no dia a seguir à maioria do voto em branco, nada poderia ser erigido - como fazer algo com pessoas de extrema-esquerda, extrema-direita, etc, etc., que votaram contra o sistema por uma milhão e uma razões distintas? Saramago defendeu o pleno emprego, mas nunca explicou o primarismo da sua ideia. Saramago comparou o Estado de Israel ao Holocausto Nazi.
7. Saramago transformou um episódio de censura ignóbil num exílio do país. Confundir Sosa Lara com Portugal é inadjectivável. Como comparar os cartonistas que gozaram o Islão; com a própria Dinamarca.
8. Saramago expressou opiniões sobre a Bíblia, que como disse e bem, Pulido Valente eram próprias de um trolha ou de um tipógrafo semianalfabeto do século XIX.
9. Saramago, como poeta, escreveu apenas excremento.
10. Uma opinião pessoal: Pulido Valente escreveu que Saramago não será uma nota de rodapé da Literatura. Saramago é quase sempre elogiado pelas ideias, mas o que fica é a prosa. A atmosfera, como dizia Vergílio Ferreira. Os grandes enredos - como O perfume de Suskind - podem vender muito, brilharem intensamente durante algum tempo, mas não perduram. Concordo com Pulido Valente.
2. Saramago foi autor de saneamentos políticos quando era chefe de redacção, onde escreveu defendendo o fuzilamento dos fascistas.
3. Saramago era ultra-arrogante no trato com os interlocutores e os jornalistas. São inúmeras as entrevistas em que exibe a sua putativa superioridade intelectual. Chegou a ordenar a uma jornalista da SIC que se retirasse dali.
4. Saramago defendeu Cuba até, por um episódio menoríssimo, lhe retirar recentemente o apoio.
5. Saramago plagiou no seu livro Intermitências da Morte um autor mexicano e a imprensa portuguesa abafou o caso. Está neste blogue a exposição cabal da vergonha. Também o seu livro A viagem do elefante foi, no mínimo, inspirado por um conto de um autor brasileito.
6. Saramago era absurdo quando falava de política. Tratou Berlusconi (uma figura desprezível) como nem os nazis descreveram os judeus. Apelou ao voto em branco depois do seu Ensaio sobre a Lucidez. Não entendeu que no dia a seguir à maioria do voto em branco, nada poderia ser erigido - como fazer algo com pessoas de extrema-esquerda, extrema-direita, etc, etc., que votaram contra o sistema por uma milhão e uma razões distintas? Saramago defendeu o pleno emprego, mas nunca explicou o primarismo da sua ideia. Saramago comparou o Estado de Israel ao Holocausto Nazi.
7. Saramago transformou um episódio de censura ignóbil num exílio do país. Confundir Sosa Lara com Portugal é inadjectivável. Como comparar os cartonistas que gozaram o Islão; com a própria Dinamarca.
8. Saramago expressou opiniões sobre a Bíblia, que como disse e bem, Pulido Valente eram próprias de um trolha ou de um tipógrafo semianalfabeto do século XIX.
9. Saramago, como poeta, escreveu apenas excremento.
10. Uma opinião pessoal: Pulido Valente escreveu que Saramago não será uma nota de rodapé da Literatura. Saramago é quase sempre elogiado pelas ideias, mas o que fica é a prosa. A atmosfera, como dizia Vergílio Ferreira. Os grandes enredos - como O perfume de Suskind - podem vender muito, brilharem intensamente durante algum tempo, mas não perduram. Concordo com Pulido Valente.
10 coisas que não convém esquecer sobre José Saramago (positivas)
1. É o único Nobel da Literatura português.
2. Harold Bloom, o crítico literário mais apreciado, disse que Saramago é o maior ficcionista vivo do mundo.
3. Saramago teve de lutar contra a pobreza para chegar onde chegou. Tinha de ler em bibliotecas públicas e trabalhar (como serralheiro mecânico) para combater a fome.
4. Saramago não tinha medo de expor as suas ideias - por mais rídiculas e anti-corrente que parecessem.
5. Saramago, até no PCP, pouco dado à livre-opinião, exprimia opiniões contrárias ao Partido. Apoiou Sampaio, Soares, António Costa. Qualquer outro membro do PCP, claro está, teria sido expulso. Somos todos iguais mas há uns...
6. Saramago foi romancista, mas também poeta, dramaturgo, escritor de páginas íntimas, e textos de política (muita). Foi jornalista e bloguista.
7. Além de todas as formas, escreveu sobre todos os mundos. Cada livro dele é um universo ficcional distinto. Desde a impossibilidade de um mundo em que todos fôssemos cegos, a um mundo em que Portugal e Espanha se separam da Europa fisicamente e se juntam, desde um mundo em que a morte desapareça, a um mundo em que Jesus Cristo conta um envagelho novo - o dele.
8. Saramago foi das raras vozes a escrever e chamar a atenção constantemente sobre a «suprema obscenidade» que é a fome e o facto de chegarmos mais facilmente a Marte do que ao nosso semelhante. Deixou para a posteridade uma fundação que pugnará pelos direitos humanos.
9. Saramago nunca deixou de opinar sobre o mundo e o seu país. Nunca deixou inclusivamente de escrever, apesar da probição do médico. Há ainda páginas do romance que estava a escrever sobre a guerra.
10. Saramago nunca se esqueceu das suas origens, do seu pai, da sua mãe que dormiam com um porco, do seu avô analfabeto e da terra onde nasceu (Azinhaga) e que mostrou ao mundo.
2. Harold Bloom, o crítico literário mais apreciado, disse que Saramago é o maior ficcionista vivo do mundo.
3. Saramago teve de lutar contra a pobreza para chegar onde chegou. Tinha de ler em bibliotecas públicas e trabalhar (como serralheiro mecânico) para combater a fome.
4. Saramago não tinha medo de expor as suas ideias - por mais rídiculas e anti-corrente que parecessem.
5. Saramago, até no PCP, pouco dado à livre-opinião, exprimia opiniões contrárias ao Partido. Apoiou Sampaio, Soares, António Costa. Qualquer outro membro do PCP, claro está, teria sido expulso. Somos todos iguais mas há uns...
6. Saramago foi romancista, mas também poeta, dramaturgo, escritor de páginas íntimas, e textos de política (muita). Foi jornalista e bloguista.
7. Além de todas as formas, escreveu sobre todos os mundos. Cada livro dele é um universo ficcional distinto. Desde a impossibilidade de um mundo em que todos fôssemos cegos, a um mundo em que Portugal e Espanha se separam da Europa fisicamente e se juntam, desde um mundo em que a morte desapareça, a um mundo em que Jesus Cristo conta um envagelho novo - o dele.
8. Saramago foi das raras vozes a escrever e chamar a atenção constantemente sobre a «suprema obscenidade» que é a fome e o facto de chegarmos mais facilmente a Marte do que ao nosso semelhante. Deixou para a posteridade uma fundação que pugnará pelos direitos humanos.
9. Saramago nunca deixou de opinar sobre o mundo e o seu país. Nunca deixou inclusivamente de escrever, apesar da probição do médico. Há ainda páginas do romance que estava a escrever sobre a guerra.
10. Saramago nunca se esqueceu das suas origens, do seu pai, da sua mãe que dormiam com um porco, do seu avô analfabeto e da terra onde nasceu (Azinhaga) e que mostrou ao mundo.
Uma expressão feliz
Inês Pedrosa, com os inúmeros defeitos que lhe reconheço, tem um estigma - essa coisa terrível que se cola à pele - de ser light. Injustamente. Estupidamente. Disse numa entrevista à revista Ler que a literatura é a experiência mais totalizadora que se pode ter. Não poderia concordar mais. Totalizadora, intemporal e aespacial. Nela cabem a história, a atmosfera da época, a natureza humana, a filosofia, a poesia, a música, o teatro, a sociologia, a ciência, a psicologia, a fotografia, o cinema, a religião, a metafísica, a política, o ensaio, a Natureza, a vida.
sexta-feira, junho 18, 2010
Curso de Revisão de Textos
"Aprendi, num curso de história de ensino à distância, que, há quarenta anos atrás, em Portugal, a mulher que quisesse ser comerciante tinha de apresentar uma autorização expressa do marido. Face a este exemplo, que tem a ver com um paradigma machista, deve, hoje, a maior parte de nós, de reagir com espanto, enquanto que no passado tal não sucedia."
O texto não tem erros, pois não? Ai, tem, tem. Tem sete erros. Venha aprender alguns segredos da língua portuguesa neste curso.
Revisão de textos (iniciação)
Gosta de ler? Sabia que há pessoas que são pagas para ler livros e aperfeiçoá-los? Gosta de escrever e queria publicar um livro mas a editora não lhe faz a revisão do seu livro? Quer aprender por si a fazê-lo?
O curso permitir-lhe-á conhecer uma série de segredos da língua e ferramentas desconhecidas do Word.
Se o curso inicial o entusiasmar, terá a opção de seguir o curso aprofundado.
Objectivos do curso
– Estar capacitado para fazer uma revisão quer em papel quer no computador;
– Dominar numa dinâmica teórico-prática o alfabeto de sinais gráficos que um revisor utiliza;
– Conhecer um conjunto de truques para trabalhar no Microsoft Word;
– Saber consultar as fontes mais abalizadas da língua portuguesa quando as dúvidas surgirem;
– Dotar documentalmente o formando de um compêndio único da escola, que lhe servirá no futuro como objecto de ajuda para a escrita e revisão de textos;
– Aprender os erros da língua portuguesa disseminados no discurso oral e nos próprios órgãos de comunicação social, desde a televisão aos jornais, e comummente aceites como «correctos». O formando deverá sair do curso com uma capacidade de leitura e detecção desses erros no mundo circundante.
A quem se destina
– Curiosos da profissão de revisor de textos, que poderão depois aprofundar os seus conhecimentos no curso de longa duração;
– Escritores ou jornalistas que queiram um complemento de rigor e de actualização das regras da língua portuguesa;
– Profissionais da revisão ou paginadores de textos que queiram refrescar os seus conhecimentos;
– Todos aqueles que queiram aperfeiçoar o seu conhecimento e utilização da língua portuguesa.
Edições:
De: 19-07-2010 a 28-07-2010
Horário:
2º Quinzena | Segundas e Quartas
Dias 19, 21, 26 e 28 de Julho | 19h30 às 22h
4 sessões | 95€
Formadores:
Manuel Monteiro
Inscrever nesta edição do curso
De: 09-07-2010 a 30-07-2010
Horário:
Sextas - Feiras
Dias 09, 16, 23 e 30 de Julho | 10h30 às 13h
4 sessões | 95€
Formadores:
Manuel Monteiro
Inscrever nesta edição do curso
De: 06-07-2010 a 15-07-2010
Horário:
1º Quinzena | Terças e Quintas
Dias 06, 08, 13 e 15 de Julho | 19h30 às 22h
4 sessões | 95€
Formadores:
Manuel Monteiro
O texto não tem erros, pois não? Ai, tem, tem. Tem sete erros. Venha aprender alguns segredos da língua portuguesa neste curso.
Revisão de textos (iniciação)
Gosta de ler? Sabia que há pessoas que são pagas para ler livros e aperfeiçoá-los? Gosta de escrever e queria publicar um livro mas a editora não lhe faz a revisão do seu livro? Quer aprender por si a fazê-lo?
O curso permitir-lhe-á conhecer uma série de segredos da língua e ferramentas desconhecidas do Word.
Se o curso inicial o entusiasmar, terá a opção de seguir o curso aprofundado.
Objectivos do curso
– Estar capacitado para fazer uma revisão quer em papel quer no computador;
– Dominar numa dinâmica teórico-prática o alfabeto de sinais gráficos que um revisor utiliza;
– Conhecer um conjunto de truques para trabalhar no Microsoft Word;
– Saber consultar as fontes mais abalizadas da língua portuguesa quando as dúvidas surgirem;
– Dotar documentalmente o formando de um compêndio único da escola, que lhe servirá no futuro como objecto de ajuda para a escrita e revisão de textos;
– Aprender os erros da língua portuguesa disseminados no discurso oral e nos próprios órgãos de comunicação social, desde a televisão aos jornais, e comummente aceites como «correctos». O formando deverá sair do curso com uma capacidade de leitura e detecção desses erros no mundo circundante.
A quem se destina
– Curiosos da profissão de revisor de textos, que poderão depois aprofundar os seus conhecimentos no curso de longa duração;
– Escritores ou jornalistas que queiram um complemento de rigor e de actualização das regras da língua portuguesa;
– Profissionais da revisão ou paginadores de textos que queiram refrescar os seus conhecimentos;
– Todos aqueles que queiram aperfeiçoar o seu conhecimento e utilização da língua portuguesa.
Edições:
De: 19-07-2010 a 28-07-2010
Horário:
2º Quinzena | Segundas e Quartas
Dias 19, 21, 26 e 28 de Julho | 19h30 às 22h
4 sessões | 95€
Formadores:
Manuel Monteiro
Inscrever nesta edição do curso
De: 09-07-2010 a 30-07-2010
Horário:
Sextas - Feiras
Dias 09, 16, 23 e 30 de Julho | 10h30 às 13h
4 sessões | 95€
Formadores:
Manuel Monteiro
Inscrever nesta edição do curso
De: 06-07-2010 a 15-07-2010
Horário:
1º Quinzena | Terças e Quintas
Dias 06, 08, 13 e 15 de Julho | 19h30 às 22h
4 sessões | 95€
Formadores:
Manuel Monteiro
quinta-feira, junho 17, 2010
- Eu sou de esquerda e evito-me dar com tipos de direita porque sinto uma pulsão para concordar com eles se forem cultos. Eu já me dei com a ultra-direita mais erudita e estava muito tentado. Tu já reparaste que eu tenho coisas de direita, Angel? É que a direita tem uma coisa que me fascina tremendamente. É o elitismo. Não há cá necessidade de sermos todos iguais. O que é bom é bom. E realmente, Angel, o que é bom é mesmo bom. Tem outro paladar, oh pá, é uma maravilha... O que é bom, é bom. Distingue-se melhor na direita.
terça-feira, junho 15, 2010
Passei por duas miúdas de treze, catorze anos. Senti uma vontade de as sodomizar incontrolável.
Não se assustem. Estava a brincar.
Passei por duas miúdas de treze, catorze anos. Estava sentadas. Uma tirava fotografias à outra que ia mudando a pose.
Fui tratar de uns assuntos.
Muito tempo depois, no regresso, passo pelo mesmo banco de pedra. Elas continuavam lá! A fazer o mesmo!
A tirar fotografias uma à outra pelo telemóvel. Agora era a outra quem se exibia, quem esticava os lábios para a frente.
São a geração Hi5, a geração Facebook. Cultivam o corpo e a imagem até ao limite. Todas as gerações têm os seus pecados capitais. Esta: a futilidade.
Há coisas que melhoraram, claro está. A mulher tem felizmente mais direitos. Incomparavelmente mais. Tem autonomia. Tem igualdade (na lei, não na economia). E começa finalmente a ter igualdade no adultério sem ter de levar um balázio.
Nem tudo é mau, claro está.
Não se assustem. Estava a brincar.
Passei por duas miúdas de treze, catorze anos. Estava sentadas. Uma tirava fotografias à outra que ia mudando a pose.
Fui tratar de uns assuntos.
Muito tempo depois, no regresso, passo pelo mesmo banco de pedra. Elas continuavam lá! A fazer o mesmo!
A tirar fotografias uma à outra pelo telemóvel. Agora era a outra quem se exibia, quem esticava os lábios para a frente.
São a geração Hi5, a geração Facebook. Cultivam o corpo e a imagem até ao limite. Todas as gerações têm os seus pecados capitais. Esta: a futilidade.
Há coisas que melhoraram, claro está. A mulher tem felizmente mais direitos. Incomparavelmente mais. Tem autonomia. Tem igualdade (na lei, não na economia). E começa finalmente a ter igualdade no adultério sem ter de levar um balázio.
Nem tudo é mau, claro está.
segunda-feira, junho 14, 2010
Numa terra de cegos, quando emerge um herói, torna-se Deus
O técnico informático de Mourinho no Inter assinou contrato como vice-presidente da Microsoft. O roupeiro de Mourinho no Porto vai fazer os fatos de Berlusconi. O olheiro de Mourinho no Leiria vai treinar o Valência. O fiel de armazém de Mourinho no Chelsea vai treinar a selecção da Bélgica. O homem que lavava o carro de Mourinho em Setúbal vai ser director-técnico das camadas jovens do Peru. Mourinho disse qual o défice orçamental que Portugal deveria adoptar e contou com o apoio de os partidos parlamentares. A árvore em que Mourinho fez uma vez chichi quando jogava no Setúbal foi considerada património cultural de Portugal. Carlos Cruz já reiterou que está inocente e que, a não ser que Mourinho se atreva a negá-lo, não voltará atrás com a palavra. Lobo Antunes disse numa entrevista à revista Ler que ninguém escreve tão bem como ele, mas que seria mais justo que Mourinho ganhasse o Prémio Camões pelos seus discursos. Manuel Machado não gostou da brincadeira e chamou Lobo Antunes de «palhaço». Cavaco disse que não sabia quantos cantos tinham Os Lusíadas, mas que sabia de cor os três capítulo finais de Mourinho, a Descoberta Guiada. Sócrates disse que o Magalhães passaria a ter a imagem de Mourinho no Desktop. Vasco Pulido Valente diz que nem no século XIX havia um equivalente a Mourinho.
- Se acreditares que consegues fazer alguma coisa, sem qualquer tipo de dúvida, essa coisa já existe.
- Isso é conversa da seita do entusiasmo, Yes I Can e coisas assim...
- Não. É uma variante da fé move montanhas de Cristo. A frase de Cristo é mesmo para levar à letra. Se disseres a esta montanha, sai dai e lança-te ao mar, é mesmo literal.
- Estás maluquinho.
- Tudo aquilo que acredito piamente nem que seja que aquela rapariga ali do fundo vai coçar a orelha, torna-se real desde que eu não tenha um átomo de dúvida.
- Isso é conversa da seita do entusiasmo, Yes I Can e coisas assim...
- Não. É uma variante da fé move montanhas de Cristo. A frase de Cristo é mesmo para levar à letra. Se disseres a esta montanha, sai dai e lança-te ao mar, é mesmo literal.
- Estás maluquinho.
- Tudo aquilo que acredito piamente nem que seja que aquela rapariga ali do fundo vai coçar a orelha, torna-se real desde que eu não tenha um átomo de dúvida.
domingo, junho 13, 2010
Primeiras Impressões
João era um aluno sofrível no secundário. Só queria preguiçar e perturbar o decurso das aulas. Entretanto, tornou-se, pela política e pelo mérito, um economista de topo. Está a beira de um dia destes - com o partido certo no poder- se tornar ministro da Economia. Encontrou um amigo do secundário que não via há quase vinte anos.
Esse amigo do secundário disse-me:
- Para mim, ele será sempre um estroina. Não acredito que seja competente no que quer que seja.
Mariana era uma menina ultra-conservadora. Não se podiam dizer asneiras com ela presente. Tinha fobia do sexo. Vestia-se tapada até às orelhas mesmo em pleno Verão. Um dia, foi para o estrangeiro trabalhar. Conheceu uma comunidade de artistas, virou pintora, bissexual e consumidora de ácidos. Conseguiu mudar tudo menos a sua alcunha: continua (e continuará sempre) a ser «a freirinha».
Susana era uma betinha na secundária. Nunca mais ninguém que eu conheça a viu. Tronou-se punk, okupa, anarka. Outro dia, uma amiga do secundária ouviu a minha descrição e disse:
- Isso é fachada. Ela é uma beta.
Carlos esteve preso (por atropelar um peão quando estava ébrio). Cumpriu a pena. Tudo corria bem nas entrevistas. Ele tinha uma média de 18 na universidade, experiência nas melhores empresas (enquanto engenheiro informático). Até que descobriam que... tinha estado preso.
Esse amigo do secundário disse-me:
- Para mim, ele será sempre um estroina. Não acredito que seja competente no que quer que seja.
Mariana era uma menina ultra-conservadora. Não se podiam dizer asneiras com ela presente. Tinha fobia do sexo. Vestia-se tapada até às orelhas mesmo em pleno Verão. Um dia, foi para o estrangeiro trabalhar. Conheceu uma comunidade de artistas, virou pintora, bissexual e consumidora de ácidos. Conseguiu mudar tudo menos a sua alcunha: continua (e continuará sempre) a ser «a freirinha».
Susana era uma betinha na secundária. Nunca mais ninguém que eu conheça a viu. Tronou-se punk, okupa, anarka. Outro dia, uma amiga do secundária ouviu a minha descrição e disse:
- Isso é fachada. Ela é uma beta.
Carlos esteve preso (por atropelar um peão quando estava ébrio). Cumpriu a pena. Tudo corria bem nas entrevistas. Ele tinha uma média de 18 na universidade, experiência nas melhores empresas (enquanto engenheiro informático). Até que descobriam que... tinha estado preso.
sábado, junho 12, 2010
Ela evita o conflito. É diplomática, doce e simpática. Não é hipócrita.
Ele é contestário. Nunca cala uma injustiça. Dele ou do Outro.
As consequências do corportamento dela:
a) tem raríssimas discussões;
b) desenvolveu um sorriso muito bonito;
c) tem poucos inimigos;
d) os amigos gostam muito dela.
As consequências do comportamento dele:
a) tem uma colecção de inimigos;
a) é o conselheiro de muita gente;
c) quando diz que gosta de alguma coisa, ninguém duvida de que gosta mesmo dessa coisa;
d) os amigos gostam imenso dele.
Ele é contestário. Nunca cala uma injustiça. Dele ou do Outro.
As consequências do corportamento dela:
a) tem raríssimas discussões;
b) desenvolveu um sorriso muito bonito;
c) tem poucos inimigos;
d) os amigos gostam muito dela.
As consequências do comportamento dele:
a) tem uma colecção de inimigos;
a) é o conselheiro de muita gente;
c) quando diz que gosta de alguma coisa, ninguém duvida de que gosta mesmo dessa coisa;
d) os amigos gostam imenso dele.
sexta-feira, junho 11, 2010
Do Real
São (eram) duas amigas. Uma desconfiava de que a outra andava a insinuar-se ao namorado. Aos poucos, parecia crescer entre eles uma natureza cúmplice. Disfarçada e contida. A atenção ao mínimo detalhe exasperava o namorado.
- Tu és paranóica! Eu nunca estive com ela sem ser na tua presença. Mas tu és amiga dela ou quê?
Um dia - reparem bem nesta subtileza - ela (a suposta traidora) vai entrar na sua casa com a amiga desconfiada.
À entrada do prédio, era preciso digitar um código.
A porta não abre. A suposta traidora repete o código. E entra.
Sucede que os olhos da amiga tinham observado os dedos digitarem o primeiro código. Disse:
- Tu andas a comer-me o Pedro, sua cabra de merda. Instintivamente, puseste o código da casa dele à primeira.
- Tu és paranóica! Eu nunca estive com ela sem ser na tua presença. Mas tu és amiga dela ou quê?
Um dia - reparem bem nesta subtileza - ela (a suposta traidora) vai entrar na sua casa com a amiga desconfiada.
À entrada do prédio, era preciso digitar um código.
A porta não abre. A suposta traidora repete o código. E entra.
Sucede que os olhos da amiga tinham observado os dedos digitarem o primeiro código. Disse:
- Tu andas a comer-me o Pedro, sua cabra de merda. Instintivamente, puseste o código da casa dele à primeira.
O cisne, quando sente ser chegada
A hora que põe termo à sua vida,
Música com voz alta e bem subida
Levanta pola praia inabitada.
Deseja ter a vida prolongada,
Chorando do viver a despedida;
Com grande saudade da partida,
Celebra o triste fim desta jornada.
Assi, Senhora minha, quando via
O triste fim que davam os meus amores,
Estando posto já no extremo fio,
Com mais suave canto e harmonia
Descantei polos vossos desfavores,
La vuestra falsa fe y el amor mío.
Luís Vaz de Camões
A hora que põe termo à sua vida,
Música com voz alta e bem subida
Levanta pola praia inabitada.
Deseja ter a vida prolongada,
Chorando do viver a despedida;
Com grande saudade da partida,
Celebra o triste fim desta jornada.
Assi, Senhora minha, quando via
O triste fim que davam os meus amores,
Estando posto já no extremo fio,
Com mais suave canto e harmonia
Descantei polos vossos desfavores,
La vuestra falsa fe y el amor mío.
Luís Vaz de Camões
quinta-feira, junho 10, 2010
Paulo é assistente social de «adolescentes problemáticos». Trabalha 12, 16 ou 18 horas por dia. «E muitas vezes ao domingo.» «Nunca me canso desde que durma horas suficientes e tome as minhas refeições. Não sinto o que faço como trabalho. Sinto que passo o dia a conversar com pessoas, a ajudá-las, a ler os meus livros caminhando a pé, a tomar os meus cafés, a dar uns toques na bola, a rir-me, a partilhar histórias e vivências.»
Quem ama o que faz, quem faz aquilo que nasceu para fazer, acorda bem-disposto, vive feliz e não teme nem Deus nem a Morte.
Quem ama o que faz, quem faz aquilo que nasceu para fazer, acorda bem-disposto, vive feliz e não teme nem Deus nem a Morte.
quarta-feira, junho 09, 2010
Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha.
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
Manuel Alegre
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha.
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
Manuel Alegre
Conceitos tão deliciosos que arrepiam
serendipity
[ser′əndip′itē]
Etymology: Serendip, author Horace Walpole's mythic land of pleasant surprises
meaning
happy finding of an unexpected object or solution while searching for something else.
[ser′əndip′itē]
Etymology: Serendip, author Horace Walpole's mythic land of pleasant surprises
meaning
happy finding of an unexpected object or solution while searching for something else.
terça-feira, junho 08, 2010
- Fartava-se de dizer que gostava de mim. E eu dizia: «Olha para a minha coninha, Walter» e ele não queria olhar. Dizia: «Não quero olhar para essa coisa!» Essa coisa! Era assim que lhe chamava! Tu não tens medo da minha coninha, pois não George?
- Nunca me mordeu.
- Mas tu mordia-la, davas-lhe dentadinhas, não davas, George?
- Acho que sim.
- E chupáva-la, mamavas nela?
- Acho que sim.
- Merda, sabes muito bem o que fazias com a minha coninha, George.
Charles Bukowski, A sul de nenhum norte
- Nunca me mordeu.
- Mas tu mordia-la, davas-lhe dentadinhas, não davas, George?
- Acho que sim.
- E chupáva-la, mamavas nela?
- Acho que sim.
- Merda, sabes muito bem o que fazias com a minha coninha, George.
Charles Bukowski, A sul de nenhum norte
- Estou a pensar ser traficante de droga. Angel, não se pode ser inflexível. Repara bem como eu posso ser útil aos outros sendo traficante. Se eu não for, outro haverá no meu lugar. Agora, imagina que eu sou melhor, mais compassivo para os consumidores ou drogados do que o que estaria no meu lugar. Imagina que eu baixo os preços bastante de modo que eles não tenham que roubar. Não estou a ajudar a sociedade? E imagina ainda que o pouco dinheiro que eu ganho com a droga é todo dado ao Banco Alimentar e à Amnistia Internacional?
Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que eu quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado.
Sophia
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que eu quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado.
Sophia
Não fará falta um pouco de socialismo no mundo?
Julgo que andamos todos anestesiados, sem ler programas nacionais, quanto mais europeus; e que faz falta dissecar o que nos impingem e assimilamos acriticamente. Gostei do artigo em baixo. Qual a lógica de taxar, em tempo de crise, quem menos tem? Numa época de crise, quem está na pobreza, pode cair na miséria. Ainda outro dia li que a fome vai grassar em Portugal. Era um estudo de uma entidade não-governamental... Isto é assustador. E, claro, com a fome, virá a criminalidade e insegurança... Qual o amortecedor para os mais pobres neste tempo de crise? Nenhum. Todos os dias leio que vão fechar hospitais, escolas, cortar nas pensões, no rendimento mínimo e no subsídio de desemprego. Onde estão os cortes aos mais ricos, aos patrões, aos grandes capitalistas? Esta é a realidade dos factos. Não é propadanda.
Angel
Com aquilo que já se conhece do PEC ficaram a claro duas coisas: que as chamadas “medidas de austeridade”, uma vez mais, caem em cima de quem mais trabalha e menos ganha e que PS e PSD estão inteiramente de acordo com essa política.
Na verdade, o chamado “corte no défice” (que, num País que praticamente nada produz, não cessará porém de se agravar) custa às famílias mais 2,6 vezes que às empresas. A taxa do aumento do IRS de uma família com rendimento anual bruto de 30.000€ (8,23%) é praticamente o dobro do de uma família com um rendimento de 80.000€ (4,95%). O aumento de 1% da taxa reduzida do IVA representa o agravamento dos preços precisamente dos produtos de primeira necessidade. O que, conjuntamente com medidas como as da restrição do subsídio de desemprego e do congelamento das pensões, para mais num País que conta já com uma percentagem de pobres que é hoje de 20% da população total e que ameaça chegar a breve trecho a 30%, significará ainda mais fome e mais miséria precisamente para quem nenhuma responsabilidade tem, quer na crise, quer na dívida.
Mas aquilo que é verdadeiramente infamante é que quem aparece a defender que tudo isto ainda é pouco e que se deveria cortar ainda mais nos salários e no subsídio de natal e a sustentar que os trabalhadores deveriam aceitar trabalhar até uma idade ainda mais avançada, durante ainda mais horas semanais e por salários ainda mais baixos, sejam os banqueiros (como Ulrich do BPI) cujos bancos, só neste ano de plena crise, têm feito lucros de 1 milhão de euros por dia cada um ou “especialistas” (como Silva Lopes) que acumulam várias reformas douradas com vencimentos absolutamente escandalosos ou ainda os políticos que recebem do erário público milhares de euros por mês a que adicionam o direito a senhas de presença, subsídios de refeições e de viagens, carros oficiais, etc., e que se atribuem o direito a pensão completa por 1/5 do tempo de serviço que exigem aos restantes cidadãos.
E é também por isso que combater por todos os meios e em todas as frentes esta política de bloco central não é já apenas um direito cívico e político básico mas também, para não dizer sobretudo, um elementar dever ético!
Garcia Pereira
Angel
Com aquilo que já se conhece do PEC ficaram a claro duas coisas: que as chamadas “medidas de austeridade”, uma vez mais, caem em cima de quem mais trabalha e menos ganha e que PS e PSD estão inteiramente de acordo com essa política.
Na verdade, o chamado “corte no défice” (que, num País que praticamente nada produz, não cessará porém de se agravar) custa às famílias mais 2,6 vezes que às empresas. A taxa do aumento do IRS de uma família com rendimento anual bruto de 30.000€ (8,23%) é praticamente o dobro do de uma família com um rendimento de 80.000€ (4,95%). O aumento de 1% da taxa reduzida do IVA representa o agravamento dos preços precisamente dos produtos de primeira necessidade. O que, conjuntamente com medidas como as da restrição do subsídio de desemprego e do congelamento das pensões, para mais num País que conta já com uma percentagem de pobres que é hoje de 20% da população total e que ameaça chegar a breve trecho a 30%, significará ainda mais fome e mais miséria precisamente para quem nenhuma responsabilidade tem, quer na crise, quer na dívida.
Mas aquilo que é verdadeiramente infamante é que quem aparece a defender que tudo isto ainda é pouco e que se deveria cortar ainda mais nos salários e no subsídio de natal e a sustentar que os trabalhadores deveriam aceitar trabalhar até uma idade ainda mais avançada, durante ainda mais horas semanais e por salários ainda mais baixos, sejam os banqueiros (como Ulrich do BPI) cujos bancos, só neste ano de plena crise, têm feito lucros de 1 milhão de euros por dia cada um ou “especialistas” (como Silva Lopes) que acumulam várias reformas douradas com vencimentos absolutamente escandalosos ou ainda os políticos que recebem do erário público milhares de euros por mês a que adicionam o direito a senhas de presença, subsídios de refeições e de viagens, carros oficiais, etc., e que se atribuem o direito a pensão completa por 1/5 do tempo de serviço que exigem aos restantes cidadãos.
E é também por isso que combater por todos os meios e em todas as frentes esta política de bloco central não é já apenas um direito cívico e político básico mas também, para não dizer sobretudo, um elementar dever ético!
Garcia Pereira
segunda-feira, junho 07, 2010
Ninguém pode mudar mais um homem do que uma mulher. Nem sequer ele próprio
São duas pessoas por quem tenho um carinho muito especial. Mas vão levar aqui uma porradinha.
Um, grande amigo, é a pessoa menos cuidadosa com a sua própria saúde que se possa imaginar. Outro dia diz-me:
- Amanhã, não posso. É que vou estar a fazer exames médicos.
Fiz a pergunta antevendo a cem por cento a resposta:
- Tu, exames médicos? Que ideia foi essa?
- Foi a Amélia [namorada] que me obrigou.
O outro é uma pessoa com um grande coração. há muitos anos, estando ele, eu e o pai dele, a certa altura houve uma discussão entre ele e o pai. A coisa tomou proporções tais que eu estava a ver que ia haver agressões físicas. Ficaram-se pelas verbais e pelos gritos. O pai a certa altura disse, depois de o filho lhe chamar «asno»:
- Cala-te, vê lá se queres que eu conte ao Angel que tomas um banho por semana e é porque eu te obrigo!
Quinze anos depois, ele confidenciou-me outro dia:
- Lembras-te quando éramos putos e eu odiava tomar banho?
- Sim, claro. À média de um por semana segundo o teu pai.
- E era... (risos) Era mesmo. Ai, ai... Sabes quantos tomo agora? Tomo três por dia!
- Então, meu?
- É A INÊS [A MULHER] QUE ME OBRIGA, QUERES O QUÊ? Ela é maníaca das limpezas e diz que eu sujo a casa se não estiver sempre lavado.
Um, grande amigo, é a pessoa menos cuidadosa com a sua própria saúde que se possa imaginar. Outro dia diz-me:
- Amanhã, não posso. É que vou estar a fazer exames médicos.
Fiz a pergunta antevendo a cem por cento a resposta:
- Tu, exames médicos? Que ideia foi essa?
- Foi a Amélia [namorada] que me obrigou.
O outro é uma pessoa com um grande coração. há muitos anos, estando ele, eu e o pai dele, a certa altura houve uma discussão entre ele e o pai. A coisa tomou proporções tais que eu estava a ver que ia haver agressões físicas. Ficaram-se pelas verbais e pelos gritos. O pai a certa altura disse, depois de o filho lhe chamar «asno»:
- Cala-te, vê lá se queres que eu conte ao Angel que tomas um banho por semana e é porque eu te obrigo!
Quinze anos depois, ele confidenciou-me outro dia:
- Lembras-te quando éramos putos e eu odiava tomar banho?
- Sim, claro. À média de um por semana segundo o teu pai.
- E era... (risos) Era mesmo. Ai, ai... Sabes quantos tomo agora? Tomo três por dia!
- Então, meu?
- É A INÊS [A MULHER] QUE ME OBRIGA, QUERES O QUÊ? Ela é maníaca das limpezas e diz que eu sujo a casa se não estiver sempre lavado.
Elogio da Mulher ao Saldanha Sanches
Despedida eterna
Zé Luis: começámos esta tua última viagem (tu gostavas de viagens) na cama 56 dos serviços de cirurgia 1 do Hospital de Santa Maria. Lia-te poesia e um dia parámos neste poema da Sophia de Mello Breyner:
”Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A Força dos teus sonhos é tão forte,
Que tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”.
Assim foi.
No teu visionário e intenso mundo, a voracidade de um cancro traiçoeiro não te consumiu a alegria, a coragem, a liberdade.
Entraste pela morte dentro de olhos abertos. O mundo que habitavas era rico de ideias, de sonhos, de projectos, de honradez e carinho.
Percebemos o que ia acontecer quando no fundo do teu olhar sorridente brilhava uma estrela de tristeza. Quando te deixava ao fim do dia na cama 56 e te trazia no coração enquanto descia a Alameda da Cidade Universitária a respirar o teu ar da Universidade, das aulas e dos alunos que adoravas, do futuro em que acreditavas sempre.
Foste intolerável com a corrupção, com os cobardes e oportunistas. Não suportavas facilidades. Resististe à sordidez, à subserviência, à canalhice disfarçada de respeitabilidade e morreste como sempre viveste - livre.
Uma palavra para aqueles que te acompanharam nesta última viagem: para os melhores médicos do mundo, para as melhores equipas de enfermagem e de apoio, num exemplo de inexcedível dedicação ao serviço médico público. Vivi com emoção diária o carinho com que te
cuidaram.
Uma palavra de gratidão sentida para o Professor Luis Costa e para o Paulo Costa. E para um velho amigo de sempre o Miguel.
Também para a Laura e para o Jorge e para a minha mãe e toda a família que nunca te deixou.
Por fim uma palavra para aqueles amigos que inventaram uma barricada contra a morte no serviço de cirurgia 1, cama 56, e te ajudaram a escrever, a pensar, a continuar a trabalhar: o João Gama, o João Pereira e senhor Albuquerque, cada um à sua maneira.
Suspiraste nos meus braços pela última vez cerca da 1,15 da madrugada do dia 14 de Maio. Vai faltar-me a tua mão a agarrar na minha enquanto passeávamos e conversávamos.
Provavelmente uma saudade ridícula, perante a força do exemplo e da obra que nos deixaste e me foi trazido por todos aqueles que te homenagearam – a quem deixo a tua eterna gratidão.
Tenham a coragem de continuar.
[16.05.2010 - Maria José Morgado]
Despedida eterna
Zé Luis: começámos esta tua última viagem (tu gostavas de viagens) na cama 56 dos serviços de cirurgia 1 do Hospital de Santa Maria. Lia-te poesia e um dia parámos neste poema da Sophia de Mello Breyner:
”Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A Força dos teus sonhos é tão forte,
Que tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”.
Assim foi.
No teu visionário e intenso mundo, a voracidade de um cancro traiçoeiro não te consumiu a alegria, a coragem, a liberdade.
Entraste pela morte dentro de olhos abertos. O mundo que habitavas era rico de ideias, de sonhos, de projectos, de honradez e carinho.
Percebemos o que ia acontecer quando no fundo do teu olhar sorridente brilhava uma estrela de tristeza. Quando te deixava ao fim do dia na cama 56 e te trazia no coração enquanto descia a Alameda da Cidade Universitária a respirar o teu ar da Universidade, das aulas e dos alunos que adoravas, do futuro em que acreditavas sempre.
Foste intolerável com a corrupção, com os cobardes e oportunistas. Não suportavas facilidades. Resististe à sordidez, à subserviência, à canalhice disfarçada de respeitabilidade e morreste como sempre viveste - livre.
Uma palavra para aqueles que te acompanharam nesta última viagem: para os melhores médicos do mundo, para as melhores equipas de enfermagem e de apoio, num exemplo de inexcedível dedicação ao serviço médico público. Vivi com emoção diária o carinho com que te
cuidaram.
Uma palavra de gratidão sentida para o Professor Luis Costa e para o Paulo Costa. E para um velho amigo de sempre o Miguel.
Também para a Laura e para o Jorge e para a minha mãe e toda a família que nunca te deixou.
Por fim uma palavra para aqueles amigos que inventaram uma barricada contra a morte no serviço de cirurgia 1, cama 56, e te ajudaram a escrever, a pensar, a continuar a trabalhar: o João Gama, o João Pereira e senhor Albuquerque, cada um à sua maneira.
Suspiraste nos meus braços pela última vez cerca da 1,15 da madrugada do dia 14 de Maio. Vai faltar-me a tua mão a agarrar na minha enquanto passeávamos e conversávamos.
Provavelmente uma saudade ridícula, perante a força do exemplo e da obra que nos deixaste e me foi trazido por todos aqueles que te homenagearam – a quem deixo a tua eterna gratidão.
Tenham a coragem de continuar.
[16.05.2010 - Maria José Morgado]
É deprimente a quantidade de mulheres bonitas e ocas que se tornam «apresentadoras» e, pior do que isso, entrevistadoras. Esta belezocracia é injusta, fútil e sintomática de um mundo pré-pré-pré-pré-primário no seu desenvolvimento intelectual e espiritual.
Cada vez que vejo uma destas caras da moda a entrevistar alguém, sinto aquilo que os tibetanos dizem ser a vergonha no lugar do outro. Como a entrevistadora faz perguntas básicas, incultas, clichés e estúpidas, eu absorvo a vergonha que ela não tem. Há uma palavra para isso em tibetano. A Vanessa Oliveira seguramente saberá qual é.
Cada vez que vejo uma destas caras da moda a entrevistar alguém, sinto aquilo que os tibetanos dizem ser a vergonha no lugar do outro. Como a entrevistadora faz perguntas básicas, incultas, clichés e estúpidas, eu absorvo a vergonha que ela não tem. Há uma palavra para isso em tibetano. A Vanessa Oliveira seguramente saberá qual é.
domingo, junho 06, 2010
- O grande drama das nossas vidas é que calculamos sempre a distância entre a nossa vida e a-vida-que-idealmente-poderíamos-ter. Nunca valorizamos o temos, mas só o que não temos. Precisamos de envelhecer para perceber o valor da juventude, de estar doentes para percerbermos o valor da saúde, de estarmos viúvos para percerbemos o amor da nossa companheira ou companheiro, de ficarmos cegos para percerbemos o valor da visão.
Um homem está prestes a trair a sua mulher. Está num dilema. No momento em que parece sucumbir ao desejo, recebeu uma mensagem:
«Olá, amor. Lembrei-me de ti.»
Interpreta isto como um sinal cósmico, veste a camisa, enxota o corpo semidespido, troca algumas palavras e vai para casa.
Acreditem: vai amá-la mais doravante.
«Olá, amor. Lembrei-me de ti.»
Interpreta isto como um sinal cósmico, veste a camisa, enxota o corpo semidespido, troca algumas palavras e vai para casa.
Acreditem: vai amá-la mais doravante.
sábado, junho 05, 2010
sexta-feira, junho 04, 2010
Sabedoria Milenar
Há coisas intemporais. Felizmente, há a Literatura para o testemunhar. Lendo contos hindus anteriores - e que serviram de inspiração - às Mil e Uma Noites; recolho as seguintes pérolas:
«90% das vezes que as mulheres dizem "Não", elas querem dizer "Sim".»
«Uma mulher arranja sempre um homem. Até uma mulher com uma cara de porco enfiada no resto do corpo.»
Há milhares de anos que já era assim.
«90% das vezes que as mulheres dizem "Não", elas querem dizer "Sim".»
«Uma mulher arranja sempre um homem. Até uma mulher com uma cara de porco enfiada no resto do corpo.»
Há milhares de anos que já era assim.
quinta-feira, junho 03, 2010

David Protess é das maiores mais-valias da humanidade. Num mundo que promove o descartável, o material, o fútil, o avesso; não há grande destaque para este homem que não é actor, jogador de futebol, modelo, empresário ou político. Nem sequer faz jornalismo-escândalo nem é bonito ou muito rico.
Mas já salvou 11 pessoas do corredor da morte. Inocentes que lá estavam e que se não fosse ele a investigar, a investigar... estariam hoje mortos. Dedica-se ele e a turma (de Linguística Forenses) a investigarem casos de condenados à morte. Procuram pistas da sua inocência. É um trabalho que não é inglório. Já houve 288 casos de inocentes no corredor da morte. Que foram demonstrados estarem inocentes! Fora os que ninguém se interessou por escalpelizar...
Imaginam o que é estar 30 ou 17 anos (casos de pessoas que Protess já investigou) do corredor da morte a ver diariamente os colegas caminharem para a morte?... Claro está que a maioria destes condenados inocentes são afro-americanos.
Atribuam-lhe ao menos o Nobel da Paz.
O Mundo em que Vivemos
A FAO estima que 30 mil milhões de euros erradicariam a fome do mundo. Nunca houve dinheiro. Subitamente há uma crise financeira na União Europeia e esta arranja num ápice 900 mil milhões de euros de fundos contra a crise.
quarta-feira, junho 02, 2010
- Há muitos patamares de desenvolvimento espiritual. Todas as pessoas que estão na Terra compartilham um mesmo nível. Mas há, ainda dentro desse grupo, níveis diferentes. Por isso vemos pessoas fúteis porque são pessoas que vieram de uma anterior recente existência animal; e vemos pessoas mais iluminadas que desceram de um nível superior ou que estão prestes a ascendê-lo...


Um dia estava na praia e quatro mulheres atrás de mim falavam do Cristiano Ronaldo como do homem dos seus sonhos.
Tenho amigas cujo ícone de magnetismo é o Johnny Depp.
A questão não é um padrão estético. A questão é que quem tem o CR como ícone sexual só pode ser básica e inculta.
Já o Depp - goste-se ou não -, tem mistério, profundidade, sofrimento, encanto. Só uma mulher que não nade nas águas mais rasas consegue captar essa quintessência.
Maniqueísta? Realista.
terça-feira, junho 01, 2010
Só conheço uma pessoa (numa faixa etária abaixo dos 60) no mundo que não tem telemóvel. O Carca. Aqui lhe presto a minha homenagem por até hoje ter resistido.
E sim, ele consegue combinar coisas com as pessoas. Até já fomos a um recital de poesia.
Liga-se para casa dele ou para o telemóvel de amigos e combina-se com ele. É uma pessoa interessante.
Carca é o diminutivo de carcomido.
E sim, ele consegue combinar coisas com as pessoas. Até já fomos a um recital de poesia.
Liga-se para casa dele ou para o telemóvel de amigos e combina-se com ele. É uma pessoa interessante.
Carca é o diminutivo de carcomido.
- A vida é eterna. Porque ontem estiveste ali, hoje aqui, amanhã acoli, só um dia tem tantos acontecimentos, tantos dias dentro dele, e depois há outra hora, outro dia, outro mês... outro ano, eternidade é isto, é viveres isto... que nunca acaba, porque já viste quantos ontens houve e tudo continua e continua e continua...
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