
Sei que ao expor a opinião que se segue, muitos me dirão: devias ter vergonha!
Na mesma semana, calhou ouvir o João Garcia falar sobre a sua escalada às montanhas mais altas, calhou ver um funambulista a bater recordes, e ler sobre a vida monástica.
O que é tudo isto tem em comum? Tem o facto de serem caminhos de superação dos limites de cada um.
Certamente que o João Garcia teve de ir às reservas das reservas do seu ser, quer físicas, quer psicológicas - de coragem, paciência, tenacidade - para fazer o que faz. Certamente que as freiras que se privam de praticamente todo o contacto sensorial, que pouco falam, sem mundo... Uma vida de austeridade e pobreza auto-voluntárias não é para qualquer um (quantos não prefeririam a montanha?).
Mas a minha questão é: o que é que a humanidade ganha com estes feitos.
OK, queres superar-te a ti próprio, queres-te vencer, tudo bem; mas isso é uma batalha individual, sem repercussões para o mundo. Ficarás muito feliz por veres o teu nome gravado a ouro, os teus entes queridos exultarão... mas... nem um átomo alivias da pobreza mundial ou das árvores que são abatidas dia a dia.
Uma vez, falando com um tipo religioso, dizia-me ele que estava numa «ascensão espiritual» brutal. Perguntei-lhe como o fazia. Ele disse que desligando-se do mundo - isto é, afastando-se das pessoas e dos seus problemas. Mas como podes ascender espiritualmente, por exemplo desenvolvendo o amor e a compaixão, sem lidares com o próximo, interroguei-o. Ele ficou a olhar para mim.
Reza uma lenda budista que um monge foi para um local ermo praticar a paciência. Esteve lá anos. Certo dia, um mestre, fazendo-se passar por um mendigo surdo foi azucrinar o monge.
- Que fazes aqui?
- Pratico a paciência.
- Como? O que fazes aqui?
- Pratico a paciência.
- O que dizes?
- Já te disse: pratico a paciência.
- O quê? O que é que tu fazes aqui?
- Irra! - gritou. - Mas tu deixas-me em paz ou quê? EU ESTOU AQUI A PRATICAR A PACIÊNCIA.
- Tantos anos aqui não te serviram de nada, porque à primeira adversidade, ao primeiro encontro com um homem, perdes logo aquilo que há tantos anos andas a cultivar!
Uma vez, vi um documentário de uns tipo que na Idade Média, para estarem mais próximo de Deus, montavam uma torre muito alta. Lá viviam em cima com comida e roupa numa exígua habitação, sem qualquer ligação com o mundo cá de baixo. Mas apartar-se do sofrimento do mundo não é o egoísmo supremo? É isso o que Deus quer? Com certeza que não.
Parece-me pouco nobre traçar um plano para a vida em que só nós somos os beneficiados.
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