segunda-feira, maio 31, 2010

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.



Maria do Rosário Pedreira
É uma figura da música internacional. O meu amigo não me deixa dizer o nome. Ele venera-o.

Sucede que um dia, por uma espantosa coincidência, cruzou-se com ele quando veraneava de férias no país do artista. Foi atrás dele, com o cão preso pela coleira, chegou ao pé dele ofegante e contou-lhe a sua história de devoção. O artista disse-lhe que costumava ir a tal e tal praia.

O meu amigo voltou lá com a namorada no seguinte e não o viu. A namorada queixa-se de que ele, frustrado, lhe infernizou as férias.

Voltou lá mais um ano.

Ao terceiro, encontrou-o. Novamente, o meu amigo passeava o cão. Num sotão quase perfeito, o artista atirou:

- Baltasar! - enquanto lhe acariciava o cocuruto.

O meu amigo ficou com a boca em forma de O.

- Como é que... como é que você consegue...

Qual era o segredo? Estaria ele apaixonado pelo meu amigo? Teria uma memória prodigiosa? Será que o nome Baltasar era para ele um nome importante? Ou pura e simplesmente adorava animais?

Nada disso.

A resposta foi:

- O truque é interessar-me vivamente pelas pessoas.
O que é que me empurra para ela?
Quem é idolatrado também pode ser amado?
- A maior parte das pessoas são... vulgares e sem interesses demais... é uma regra aritmética, porque se não o fossem, como poderíamos falar dos especiais que não fossem normais? Faz parte da natureza intrínseca do conceito de especial. É quase uma tautologia. O especial tem de ser um outlier.

O complexo do gigante

Uma das histórias lidas na infância de que mais me lembro é a do gigante que era tão alto tão alto que não conseguia comunicar com ninguém, arrastando-se triste e sozinho pelo mundo.

O artista tão bom tão tão bom que ninguém tenha capacidade de apreciar, o filósofo tão bom tão bom que ninguém tenha capacidade de compreender, devem passar pelo mesmo.

Ser tão belo que ofusque, ser tão genial que ninguém alcance - provocam essa altura do gigante que depois não consegue ver ninguém olhos nos olhos nem falar com ninguém, porque quando se baixa, tropeça em si.

Resta-lhe a solidão lá em cima.

A fragilidade das categorias

Uma lésbica e um homossexual apaixonaram-se.

domingo, maio 30, 2010

- Só mudas a tua visão da vida, só cresces, quando nasce o teu primeiro filho.
- Não. Tu só aprendes a viver por ti quando morrem os teus pais.
- Não, não. Uma pessoa só se torna forte quando uma relação da tua namorada de oito anos te dá com os pés.
- Não, tu só sabes o que é vida quando os anos que te faltam são teoricamente inferiores aos que já viveste.
- Não, não, na realidade a tua consciência de morte só é aguda quando já te morreram mais entes amados do que aqueles que permanceram vivos.
- Quem resumiu bem isto foi o Conrad que disse que quando finalmente sabemos algo sobre a vida é quando morremos. O conhecimento da vida chega demasiado tarde e já temos pouco tempo para aplicar a preciosa aprendizagem.

Palavras pelas quais tenho uma estima acima de média

.energúmeno
nome masculino1. pessoa que, dominada por uma obsessão ou fúria, pratica disparates
2. figurado pessoa desprezível ou ignorante
3. antiquado pessoa possuída pelo Demónio; possesso

(Do gr. energoúmenos, «possesso», pelo lat. energumènos, «possesso do demónio»)
Acordas estremunhad@. Chei@ de sono. Não queres por nada sair da cama. Mas tem de ser.

Sais para a rua ainda mei@ zombie.

Alguém te interpela cheio de energia, sacode-te vigorosamente o corpo com uma palmada nos ombros e grita:

- Então bom dia! Tudo fino?

Apetece-te espancar e cuspir o energúmeno.
Já foste seduzid@ intelectualmente?
Porque é que há concursos de misses e não há de misters?

Desenganem-se aqueles que pensam que copio da net, estas coisas são escritas à pata...

É que faz mesmo falta uma lei do namoro. Cometem-se crimes tenebrosos sem o mais leve castigo. Roubam-se anos ou noites inteiras de vida às pessoas sem a mínima possibilidade de serem ressarcidas. Quase todas as declarações de amor são fraudulentas. Quem namora vive num mundo cheio de corrupção, desonestidade e extorsão de sentimentos. Os abusos são banais. As vítimas são diariamente levadas ao desespero: aos milhares.
Não podendo haver lei, houvesse ao menos um registo. Toda a gente haveria de ter um cartão onde constassem todos os namoros, com as respectivas declarações de amor de cada altura, rematadas pelo parecer final da pessoa que se namorou: "É um mentiroso de merda que só gosta de cavalos e da mãezinha", por exemplo.
Desta maneira, os namoradores poderiam consultar o histórico dos pretendentes, para fazer a triagem que quisessem. E, no fim, quando o namoro acabasse e as lágrimas começassem, haveria sempre a consolação de "marcar o cartão" ao sacana.

Miguel Esteves Cardoso
- De um filho da puta, Angel, tem de se esperar tudo.
- Gosto de mulheres com aquela cor entre o branco e o moreno. São aquelas a que eu chamo as trigueiras. Da cor do trigo maduro.
Ela teve sempre uma cara redonda. Ele teve sempre uma repulsa por adiposas.

Uma vez na praia alguém comentou:

- A Raquel até é magra...

De facto, a Raquel até era mais para o magro. Alguém lhe meteu na cabeça que ela era cheinha e que era por isso que ele não lhe ligava. (Todos os estudos já demonstraram que as mulheres se auto-percepcionam sempre mais gordas do que os homens a elas.) Ela apaixonou-se por ele como raramente vi alguém apaixonar-se por alguém. E a paranóia dentro dela:

«Ele não gosta de mim porque sou gorda» foi aumentando, aumentando, aumentando... (Se ela ao menos soubesse que há pessoas que terão sempre cara de gordas.) Todas as rejeições dele, todas as recusas de convite, tudo isso tinha um bode expiatório: a gordura dela.

Ela emagreceu, emagreceu, emagreceu. Mas a cara continuou redonda. E ele continuou sem gostar dela. A certa altura, a única coisa que ela poderia inspirar nele já era só pena. (E a cara continuava redonda.) Claro está que ninguém se apaixona pela pena.

Foi-lhe detectada anorexia. Um psiquiatra disse-lhe:

- Isso só se cura quando a pessoa que lhe disse que estava gorda a vir e lhe validar a ideia de que está magra.

O psiquiatra achava que isso estaria algures na infância, quando muito na pré-adolescência.

Entretanto, ela morreu.

sexta-feira, maio 28, 2010

O que é uma personagem bem criada? São aquelas figuras que tu conheces tão bem como um amigo. Quando penso nas pessoas que conheço, lembro-me do zé, da ana, da inês, do luís, da joana, do pedro, da cristina, ao ahab, do humbert humbert, do gatsby (todos com maiúsculas). Uma personagem com densidade psicológica é aquela que, depois de lido o livro, tu perante uma situação na vida és capaz de responder:

- Como agiria ela nesta situação?

Os extremos que se tocam

“We are socialists, we are enemies of today’s capitalistic economic system for the exploitation of the economically weak, with its unfair salaries, with its unseemly evaluation of a human being according to wealth and property instead of responsibility and performance, and we are all determined to destroy this system under all conditions.”

Hitler discursando no dia 1 de Maio

quinta-feira, maio 27, 2010

Ele trabalha 12 horas por dia (nos dias em que não tem picos de trabalho). Chega a casa e tem de fazer o jantar e tratar dos dois bebés. Ao almoço come uma sande, enquanto despacha ao telefone assuntos pendentes. Ao fim-de-semana, também não pára. A mulher é maníaca das limpezas e exige que ele esteja sempre a limpar a casa.

- Nem um minuto de televisão consigo ver. Mal me sento no sofá, ou adormeço ou ouço um dos miúdos a chorar ou a Maria a pedir para fazer alguma coisa...

No meio da sua vida, apareceu uma mulher que vive na casa à frente da sua e que lhe lança sorrisos e olhares insinuantes. Ele transformou esses encontros quando sai ou entra em casa no estímulo dos seus dias.

Será que me vou cruzar com ela amanhã?, pensa ao deitar.
Será que é hoje que vou falar com ela?, pensa ao acordar.

A sua vida ganhou uma cor.
Para as mulheres se interessarem por ti, tens de fazer uma oração de manhã e ao deitar:

- Eu tenho o potencial para conquistar qualquer uma. Sempre que me cruzar com alguma, terei isto bem presente em mente. E pensarei que tendo toda e qualquer mulher que deseje, têm de ser elas a convencer-me do porquê de a escolher a si.
Se te pões a pensar muito, tens mil passados e nenhum futuro.

O segredo dos seus olhos
O chilrear dos pássaros perfuma a insónia.

quarta-feira, maio 26, 2010

By Trinity

Quem é a pessoa mais calma do mundo?

Mia Couto.
«Este livro é um colar de requintadas pérolas que deve ser colocado à volta do pescoço da inteligência humana.»

Bhavabhuti

terça-feira, maio 25, 2010

We're on the edge of a beautiful thing

The Cure

The Perfect Girl

You're such a strange girl
I think you come from another world
You're such a strange girl
I really don't understand a word
You're such a strange girl
I'd like to shake you around and around
You're such a strange girl
I'd like
To turn you
All upside down

You're such a
Strange girl
The way you look like you do
You're such a strange girl
I want
To be with you

I think I'm falling
I think I'm falling in
I think I'm falling in love with you
With you

The Cure
A certa espécie de pessoas não se fazem favores.

Vasco Pulido Valente
O homem ia finalmente ter o encontro com Gurdjieff. Aguardava no hotel quando o empregado de Gurdjieff lhe veio dizer:

- Monsieur Gurdjieff encontra-se atrasado. Queira fazer o favor de fumar um dos seus cigarros que me pediu que lhe ofertasse?

- Muito obrigado, mas não fumo.

- Bom, temos então um tabaco americano especial...

- Não, não, não fumo mesmo. Muito obrigado.

- Deixe-me então que traga uma especiaria... da Índia. É do melhor que há para fumar.

- Não, não. Obrigadíssimo, mas não.

Quando Gurdjieff chegou, disse:

- Então? Esteve aqui este tempo todo sem fazer nada. Que maçada!

- Ora essa, nem dei pelo tempo passar.

- O que fumou?

- Nada.

- Oh... espere... - chamou o empregado. Este enumerou-lhe a lista de tabacos que havia oferecido.

- Oh, oh, oh - exclamou Gurdjieff. - Houve aqui um lapso. Não lhe ofereceram o melhor tabaco! O tabaco peruano que aqui tenho...

- Obrigado, senhor Gurdjieff. Sabe é que não fumo mesmo.

- Oh, estou a ver, estou a ver! Mas então já sei o que lhe vou dar: tenho aqui um tabaco egípcio que é tão leve e tão... maravilhoso. Nem nota que aquilo que é tabaco... - e pediu o tabaco egípcio.

- Mas, senhor Gurdjieff, eu não fumo de todo.

O empregado chegava entretanto com uma bandeja de tabaco egípcio.

- Oh, desculpa - disse para o empregado, abanando a cabeça. Em seguida, sorriu e disse: - Este senhor não fuma. Traz-me o tabaco para não-fumadores se fazes favor.

O mundo vizinho

Todos os dias há andorinhas a centímetros dos nossos olhos. Saltam de fio em fio, exigindo-nos compreensão. Ontem nadei no mar e fui bailado por meia dúzia de borboletas aéreas, a rirem-se das ondas. Na nossa sala, as aranhas e as melgas e as abelhas entram e dão uma volta, saindo logo de seguida, como se estivessem a fazer uma inspecção.
Compreendi então que a proximidade dos bichos faz bem às pessoas. Medida em centímetros. Sejam raposas, renas, melros ou formigas. [...]
Estamos mais felizes quanto mais perto estivermos dos outros seres vivos. Não só emocionalmente. Mas em centímetros. Na volta, a nossa felicidade pode medir-se. Tristeza é distância. Proximidade é alegria. É bom fazer parte do mundo.

Miguel Esteves Cardoso
Falo com a autoridade do fracasso. Ernest [Hemingway] fala com a autoridade do êxito.

Francis Scott Fitzgerald

segunda-feira, maio 24, 2010

Há na derrota uma dignidade que dificilmente pertence à vitória.

Jorge Luis Borges
- Estou preocupado pela idade dela.
- Larga-a. Não te metas em problemas.
- Estou apaixonadíssimo. Não consigo.
- Mas que idade tem?
- É muito grave.
- Então? Doze?
- Não.
(silêncio)
- Oitenta e seis.
- Crescer é difícil. Muitos de nós rebentaram... não aguentaram, Angel.
Ele trabalha meia hora por dia. O outro doze horas.

O primeiro ganha mais do que o segundo. Três vezes mais.

O primeiro é o patrão. O segundo, trabalhador da sua empresa.

Se todos fossem assim, quem não seria comunista?
É uma pessoa que não gosta de ninguém.
- Sempre que me sinto a apaixonar por alguém, afasto-me dessa pessoa.
Não se consegue explicar a mediocridade a um medíocre.

Vasco Pulido Valente
Achas que o teu nome poderá vir a ser o nome de uma rua um dia?

domingo, maio 23, 2010

- Se tu te fixares na nuca daquela pessoa vais ver que ela vai começar ou a coçar a cabeça ou olhar para trás. Experimenta. Olha eu a olhar aquela ali na mesa, aquela que está virada para cá e vou fazê-la sorrir. Olha, olha, olha... É espantoso, não é? Num estádio mais avançado, consegues fazê-las ter orgasmos, elas ficam a contorcer-se e tu à distância a dar-lhes todo o prazer do mundo...
- Já te aconteceu estares num carro e haver uma química brutal entre ti e ela e tu sentires o cheiro dela, o cheiro do amor?
- Não.
- A sério?
- Não, nunca. Nem sei o que é isso. É sexual?
- Não é sexual nem romântico. É uma mescla. É o aroma da atracção, do sexo, do amor. Vem delas... É um cheiro único, inconfundível e tão, tão... ahhhhhh
- Estava a fazer amor com ela e a pensar na minha ex...
Platão dizia que não poderia haver organização melhor do que um Estado ou exército só composto por amados e amantes. Mais de dois mil anos volvidos, Walt Whitman diria que não poderia haver cidade mais perfeita do que a cidade dos amigos.
- Sempre que tenho um problema conjugal, faço sempre o mesmo: mudo de continente. É a única solução quando se ama a valer.
Os pés de uma mulher podem ser a marca da sua divindade.
You give me flowers of love
I let fall flowers of blood


The Cure
Hoje tenho saudades de alguém que não existe - disseram na peça de teatro.

sábado, maio 22, 2010

- Tornaste-te corrupto?
- O mundo já está demasiado ao contrário para que eu - ou alguém - o conseguisse consertar.

sexta-feira, maio 21, 2010

Ele foi dizer à amiga:

- Cuidado com este meu amigo. O gajo é um cabrão com as gajas. Ela derretem-se por ele e depois ele deixa-as. É um quebra-corações sem princípios...

Ele disse isto e pensou que tal aviso espantaria qualquer eventual interesse. Não imaginava que lhe estava a dar o melhor cartão-de-visita.

Ela... apaixonou-se pelo amigo cabrão.
- A vida é simples. O que é impossível para alguém, nem vale a pena pensar-se nisso. O que é difícil, aceitavelmente difícil, luta-se até esse ponto em que se verga a adversidade.
Deixa-me rir
tu nunca lambeste uma lágrima
desconheces os cambiantes do seu sabor
nunca seguiste a sua pista
do regaço à nascente
não me venhas falar de amor

Jorge Palma
A imaginação dela é tão fértil que ela nunca toca o chão com mais do que um dedo.
- Em vez de tomar Prozac, toco música.
- Há quem ache que a culpa é sempre dos outros e há quem ache que a culpa é sempre dela própria.
Falo com Deus todos os dias.

José Mourinho
Para se ser o pior, é preciso algum mérito.
Se ela soubesse o quanto gosto dela.
.cesura
▪ cesura n. incisão com lanceta (...)
· cesura: Imperativo de cesurar (2.ª pessoa do singular)
· cesura: Presente do indicativo de cesurar (3.ª pessoa do singular)
cesura
nome feminino1. incisão com lanceta; corte
2. cicatriz proveniente dessa incisão
3. LITERATURA pausa métrica no interior do verso que origina a segmentação deste em hemistíquios

(Do lat. caesúra-, «corte»)
Pacheco Pereira pôs o dedo na ferida: a comunicação social tem a mania de ter colocar toda a gente em caixinhas.

O fiscalista Saldanha Sanches é subsumir um homem imenso. O revolucionário Saldanha Sanches também o é.

As caixinhas só servem para pensar que o mundo e as pessoas são o que não são: esquemáticas, monodimensionais.

Uma palavra e já está.

As individualidades mais densas são as menos resumíveis numa caixinha, porque quanto mais se sabe, mais se sabe que um rótulo é um conceito vazio e que tudo é mais parecido contudo na profundidade do que na superficialidade.

A mente é caótica - daí o medo extremo que nos leva a simplicar. A usar caixinhas. O estilo de que fala o Herberto Helder.
The more you ignore me
The closer I get
You´re wasting your time

Morrisey
See, the life I´ve had
Can make a good man bad

Ths Smiths
I softly leave you crying...

The Cure

quinta-feira, maio 20, 2010

- Acho tudo errado nela e, paradoxalmente, acho ela sexy.
Talvez seja a minha eterna atração pelo abismo.... ah ah ah,
meu caro, essas coisas não são matemáticas.
Dava um ano de ordenado por um momento da minha inocência perdida.

Dinis Machado
Ia ao banco com o meu pai. Ele disse:

- Aquele homem está a tentar enganar aquela mulher.

Eu fiquei perplexo. Tinha uns 6 ou 7 anos e não conseguia entender a afirmação do meu pai.

- Mas porquê?

- Vê-se pela cara.

- Mas o que é isso?!

Hoje recordo-me da cara do homem e vejo tão nitidamente. Até me lembro do bigode e da camisa de manga curta. Claro que a estava a enganar. Que cara de aldrabão. Que voz melíflua. Que expressão viscosa.

É isto o perder da inocência.
- Pouco me importa que sejas beto ou freak, o que me interessa é a tua atenção ao Outro. A tua capacidade de abdicares do teu interesse pessoal para te pores no lugar do Outro.
- Eu sou distante... até de mim própria. Sempre disse à minha família que se eles são a Terra, então eu sou a Lua porque estou algo distante deles mas algo próximo. Nunca conseguiria estar com eles porque isso implicava ter os pés sempre na Terra e eu não obedeço às leis da gravidade. O Lobo Antunes diz que é estranha a relação dele com a família. Por um lado, sente-se muito distante, porque não falou de sentimentos ou de qualquer coisa íntima com a família, mas por outro ficava sem dormir se um dos seus membros tivesse uma doença grave - «sofreria que nem um cão». É tal e qual o que eu sinto.
A coisa mais me irrita em quem instiga os outros a beber ou a tomar drogas é o apelo à virilidade:

- Se não o fazes, não és homem.

A coisa que mais me irrita em que bebe ou toma drogas é quem o faz por cedência a este argumento.

Só precisa de se auto-afirmar as características de que somos mais inseguros. Saber dizer não é sinal de carácter.
Ela era simpática e snobe. Ele era sensível e artístico. Eram amigos do secundário. Muito amigos. Depois deixaram de se ver. Ela casou com um gajo importante e tive filhos. Ele andou pelo mundo de caravana a tomar ácidos.


Encontraram-se recentemente, quinze anos volvidos.

Ele estava num jardim da Gulbenkian (seria do Campo Grande?). Ela passeava com o marido. Viu-o junto ao lago. O marido perguntou-lhe estupefacto como é que ela se dava com gente de rastas. «Já não o vejo há 15 anos», justificou-se. «Ele não era assim.»

- Olá, Tatiana.

- Olá, Nuno.

- Deixa-me apresentar-te os meus amigos.

Ela estranhou dado não ver ninguém em redor.

Ele apontou para cada um dos patos.

- Olha, este é o Gaspar. Gaspar, diz olá à Tatiana. Este é o António, gosta que lhe chamem Tó. E este é o Diogo. É o mais tímido. Diz olá ao Diogo, Tatiana.

- Bem, Nuno, eu estou com pressa. A gente vê-se por aí...

Podem achar estranho, mas sinto-me mais próximo dele do que dela.
Tem um olhar de quem sabe todos os segredos do mundo. Conhece tudo, experiencou tudo, sentiu tudo - e por isso não teme nada. Garante-nos que mesmo que conhecessemos tudo, ainda assim, haveria sempre algo que não alcançaríamos - algo que só ele consegue atingir.
Há qualquer coisa de diferente num homem que conquistou muitas mulheres. As suas articulações, não importa a idade, são mais leves, o seu sangue flui de outra forma, mesmo doente, há um viço nos seus olhos que nada pode apagar. Nos gestos mais rotineiros, há um detalhe no calçar uma bota, no movimento dos dedos, dos ombros - tudo tem uma assinatura diferente.

quarta-feira, maio 19, 2010

Uma das coisa que mais me desorganiza a forma de ver o mundo, fazendo-me sentir incrédulo, confuso e perdido é o facto de haver tanta gente que só-está-disposta-a-receber-e-não-a-dar.

Bem sei que já não me deveria espantar. Mas isso continua, dia após dia, a revoltar-me. A intrigar-me. A enojar-me.
Se te queres sentir bem, compra um fato novo.

Provérbio chinês
Podes obrigar o cavalo a ir até à água, mas não podes obrigá-lo a beber água.

Provérbio chinês
- As pessoas mais densas são polígamas.
Lembras-te do teu melhor beijo?
A diferença entre a esquerda e a direita é que a segunda considera que há pessoas que não prestam para nada.
Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

António Ramos Rosa

terça-feira, maio 18, 2010

Ele acordou e disse-lhe:
- Que idade tens?
Ela estava a vestir as cuecas, olhou para trás e perguntou apreensiva:
- Porquê?
- Por nada.
- Tenho dezasseis.
- Eu não acredito...
- Querias que o tempo andasse para trás agora?
- Não. Queria que andasse para a frente dois anos, pelo menos.
Nunca te cansas de uma pessoa infinita. Ao fim de quarenta e cinco anos, surpreende-te como se a conhecesses há dois dias.
Mensagem de Cavaco ao país: seu maricas, casem-se lá, isso é uma vergonha, a vossa sorte é que neste momento só estou preocupado com a crise!
«Por ela senti um amor sem esperança e, pior do que tudo, sem qualquer espécie de compreensão. É o pior tipo de amor possível.»

(título? autor?)
- Sabes quando estás com alguém e no dia a seguir acordas com uma azia da alma que te diz: «O que é que tu me deste a comer ontem? Credo...»
Certa esquerda pensa que o bullying é uma coisa menor, que não deve haver autoridade nas escolas, etc, etc. Às vezes, a autoridade funciona para proteger os mais fracos dos mais fortes.

É o caso da autoridade nas escolas. Outro dia encontrei um miúdo - hoje adulto - numa discoteca.

Aproximou-se de mim a chorar e disse:

- Desde o sétimo ano [portanto, há 20 anos] que vos ouço a gritarem-me no balneário.

Foi com grande esforço que contive as lágrimas.

Egoistamente, procurei apenas libertar-me da culpa.

- Eu fiz-te alguma coisa?

- Não, tu não. Mas vocês massacravam-me. Humilhavam-me. Ainda hoje vou ao psiquiatra relatar as frases que me diziam no sétimo ano.

Chorava e, a certa altura, não me consegui conter: umas lágrimas vertiam. Virei a cara para o lado, escondia as lágrimas com a mão pousada na cara num gesto fingidamente pensativo.

- Se vocês soubessem o que eu sofri. Vocês destruíram-me. Ainda hoje acordo de noite com pesadelos do que me faziam no balneário com uma taquicardia e suores frios... Eu... eu... - chorava, chorava.

segunda-feira, maio 17, 2010

Hoje apetecia-me algo...

Marx Hoje

Lendo Marx e Engels, é espantoso a quantidade de coisas que predisseram, que analisaram na História e perceberam. Independentemente do nosso quadrante ideológico, eles acertaram em muita coisa.

Claro que falharam. A ideia da mais-valia parece lógicamente irrebatível, mas a verdade é que é difícil ao senso comum perceber que o trabalhador é sempre explorado e o patrão sempre explorador. Por exemplo: o Cristiano Ronaldo ganha cento e quarenta mil contos por mês. É menos explorado do que a proprietária de uma pequena florista que ganha duzentos contos? Mesmo que um detenho meios de produção e o outro não, o conceito de burguês aplicado à patrão e não ao assalariado neste caso é risível. Por outro lado, no mundo capitalista os trabalhadores de muitas áreas, ainda que explorados nas suas mais-valias, ganham muito mais do que ganhariam se a economia fosse estatizada. E nem precisamos de chegar aos montantes do Ronaldo...

O problema é que a mais-valia é calculada a partir do preço de mercado e este pode ser tão díspar...
Os pais divorciaram-se. Diz que sempre sofreu vergonha por «não ter aquele quadro pai-mãe em casa». Escondia isso na escola e tinha até medo de se dar muito com ele alguém. Não fosse quererem ir a sua casa e descobrir. Começou a desenvolver medo das perguntas. Podia ser que entre elas surgisse:

- E os teus pais?

E um inesperado pranto denunciá-lo-ia.

Afastou-se tanto das pessoas que um dia na aula de Educação Física ao divirem a turma entre os rapazes que iam jogar futebol e os que iam jogar basquetebol, ningém se lembrou de o incluir em nenhum dos grupos.

Conheçou raparigas via net, mas quando se encontrou pediram-lhe dinheiro para terem relações. Pagou a uma, mas a erecção falhou. Não voltou a tentar com medo de novo desaire.

Um dia, informou-se da melhor forma de se matar. Sentou-se, agarrou os comprimidos indolores e...

O telefone tocou. Era um amigo.

Achou que não valia a penar matar-se.

Roubado do should be made of plastic

«(...) viver na verdade, não mentir nem a si próprio nem aos outros, só é possível se não houver público nenhum. A partir do momento em que os nossos actos têm uma testemunha, quer queiramos quer não, adaptamo-nos aos olhos que nos observam; e, a partir de então, nada do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar num público, é viver na mentira.»

Milan Kundera, in A insustentável leveza do ser

Do Real

O namorado foi em trabalho para fora e deixou câmaras na casa. Quando chegou, descobriu que a namorada tinha estado a... com outro... na cama deles. Bateu-lhe.

O machista disse:

- Fez ele bem.

O céptico disse:

- Se todos filmassem quando vão para fora, se calhar muitos tinham uma supresa.

A feminista disse:

- Que nojo! Depois de filmar, ainda lhe bate! Ela é que lhe devia bater!

O anti-tecnológico disse:

- A privacidade está a morrer.

O relativista disse:

- Que mal é que ela fez?

O guionista disse:
- Tenho aí bom material para começar...
Sempre admirei o mau da fita, o fora-da-lei, o filho da puta. Não gosto daquele tipo de gajos que andam sempre de barba bem feita e têm gravata e uma bom emprego. Gosto de homens desesperados, homens de dentes estragados, de alma estragada e de modos estragados. São gajos que me interessam. Despertam-me interesse. São gajos cheios de surpresas e de explosões. Interessam-me mais os perversos do que os santos.

Charles Bukowski
Antes dizia-se:

Antes a morte do que a desonra.

Hoje diz-se:

Antes roubar do que perder estatuto.
- Vê se percebes: a única coisa que eu quero é comer-te. Mas isso pode ser uma relação duradoura e com festinhas.
Nas calças dela, lia-se:

Fuck me at the sun of a beach.
Rever quatrocentas páginas do Japão significa saber mais sobre do que uma viagem de 15 dias.

domingo, maio 16, 2010

Outro dia em conversa com o meu quase octogenário amigo literato, ele dizia-me:

- Angel, quando chegar à minha idade, vai perceber que já não lê, só relê.


Devemos ler enquanto jovens. Mário Castrim escreveu que era um chulo intelectual dos seus dezanove anos - altura em que leu que nem um cavalo. Paulo Auster disse o mesmo por outras palavras.

Devemos ler quando jovens. Não que não possamos ler enquanto adultos. Podemos e até devemos porque os estudos dizem que nada regenera na idade avançada tantos os neurónios como a leitura.

A questão é que precisamos de criar as bases em que assentar a leitura. E isso convém começar de novo... Patrick Suskind explica que quando lemos, mesmo quando cosicentemente não nos lembramos, os nossos mecanismos mentais vão-se alterando...
Como aqui escrevi um dia: «Mesmo que no nosso consciente não nos lembremos das informações, o molde em que os livros entram e ficam na nossa cabeça já é outro. Porque cada vez que um livro entra na nossa cabeça modifica-a e no próximo livro ela será um receptáculo diferente.»

Muitas vezes tenho a prova disso ao ler um parágrafo ou uma página do livro e sentir que não me entrou nada, que não retive, que não percebi nada. Na segunda leitura, tenho um tcham!!!! Porquê?

Porque houve algo na primeira leitura que entrou em mim e que ficou a segurar e a iluminar a informação que veio a seguir.
Um homem vai a uma entrevista de emprego. Tudo corre lindamente até que descobrem:

- Você é demasiado culto. Não tem perfil para trabalhar connosco.

- Hã?

- Uma pessoa muito culta não se especializa. E para produzir é preciso técnica. E para ter técnica, é preciso especialização. Nesta sociedade de produção, só os ociosos se podem dedicar à cultura. O homem renascentista hoje só tem uma possibilidade: ser desempregado.

Como dizia o Agostinho da Silva, só os homens desempregados têm o tempo verdadeiramente livre.
Quando alguém me diz:

- Nunca o ouvi falar mal de ninguém.

Lembro-me logo da política de neutralidade suíça ante o nazismo.

Peónia

- O que tu me queres dar, tenho muitos que também o querem fazer, deixa lá.
- Aposto que dizes isso a todas.
- Já estou conquistada. Mas dás-me mais e mais e fico zonza de amor... Parece impossível mas vai aumentando como uma droga impossivelmente maravilhosa e mais e mais ainda e mais...
Quando um Homem tem força
de vontade, os Deuses ajudam-no.

Ésquilo

sábado, maio 15, 2010

- Ele vê aqueles acidentes, aquelas quedas... tipo isto só vídeo... no Youtube e ri-se. Eu detesto isso. Detesto. Rir-se com a desgraça alheia. Bem sei que é moda mas é uma coisa que me desagrada nele.
Charlos Bukowski escreveu que gosta de homens de dentes estragados, e que não gosta de homens de gravata e barba feita.

Acho a metáfora dos dentes estragados muito bem conseguida, mas a ideia que a sua frase insinua - de que o autor não tem preconceitos - é ilusória. Trata-se apenas de preconceito. Mesmo que do lado avesso da sociedade, não deixa de ser um preconceito.

Gostar de homens de dentes estragados é um preconceito como gostar de homens de dentes brancos.

Ausência de preconceito é gostar das pessoas independentemente da indumentária que usam ou da qualidade dos seus dentes.
- Hoje não vou pinar de certeza porque não fui à depilação.

sexta-feira, maio 14, 2010

Nunca lamento a morte de heróis. Porque eles fizeram em vida tudo mais do que ninguém. Saldanha Sanches esteve preso cinco anos sem ver uma pessoa. Esteve nove dias sem dormir. Torturado. Por mim. Por ti. Por nós. Ainda conseguiu escrever um artigo no dia da morte - sempre era mais uma gota para contribuir para uma sociedade mais justa. Enquanto houver forças para lutar por um mundo melhor, lutarei - que Grande Alma. A tua morte deve ser por isso ser festejada. A última coisa que quererias era a lamúria e a comiseração. Tu que sempre lutaste. Que sempre sonhaste. Que sempre mantiveste o sorriso franco, sem remorsos e ressentimentos. Tenho a certeza de que morreste feliz. Também eu estou feliz.
- Há pessoas que são fúteis porque estavam carregadas de metafísica e problemas e sentiram que nunca obteriam respostas para as suas dúvidas e precisaram de mergulharam num mundo de distracção de frivolidades para sobreviverem. Porque não conseguem encarar o absurdo e o vazio da existência, optam por se injecções de futilidade. São pessoas muito densas, que vêem para lá do pano fino das coisas, que furam a superfície até ao fundo...
- A mulher não filosofa, Angel. Já conheceu alguma? Diga-me. Há alguma mulher que se tenha destacado na Filosofia? Diga um nome!
- O meu marido não é culto nem inteligente. É muito limitado e eu sou uma pessoa com imensa sede de conhecimento... Claro que me chateia não poder falar do livro que li e adorei, mas tenho outras pessoas para isso. Ele faz-me o jantar, vai-me buscar, prepara-me tudo, trata-me lindamente... Eu escolhi este lado. Nunca se pode ter tudo. E é um descanso, um sossego ter um marido assim.
O prazer de dar deve ser cultivado se queremos ser felizes.
- Quando você se propõe, as pessoas dispõem de si, de modo que, às vezes, você tem de se impor. Propor, impor, dispor - percebe como as questões etimológicas são fundamentais para perceber o funcionamento da vida?

Quando a realidade cospe na cara da ficção

Contaram-me que ele andava com as três gémeas, sem saber. As três faziam-se passar por uma. Parece que aquilo foi um plano. Uma vingança familiar com um qualquer fundamento que esqueci.

Eu via-o sempre com uma, mas de facto as três eram iguais... Aquilo durou uns bons meses. Lembro-me de ver um dia duas delas juntas e olhar, ora para uma, ora para outro, em busca da diferença que não via. Ainda para mais, elas tinham aquele hábito de vestirem as mesmas roupas!

Um dia as três reuniram-se e disseram-lhe:

- Andamos a gozar contigo!

E explicaram-lhe o logro.

Ele disse: eu é que ando a gozar com vocês. Fiz-me de parvo este tempo todo quando sabia que vos andava a comer às três!

quinta-feira, maio 13, 2010

Nunca subestimes a minha capacidade de te surpreender.


Sei que ao expor a opinião que se segue, muitos me dirão: devias ter vergonha!
Na mesma semana, calhou ouvir o João Garcia falar sobre a sua escalada às montanhas mais altas, calhou ver um funambulista a bater recordes, e ler sobre a vida monástica.

O que é tudo isto tem em comum? Tem o facto de serem caminhos de superação dos limites de cada um.

Certamente que o João Garcia teve de ir às reservas das reservas do seu ser, quer físicas, quer psicológicas - de coragem, paciência, tenacidade - para fazer o que faz. Certamente que as freiras que se privam de praticamente todo o contacto sensorial, que pouco falam, sem mundo... Uma vida de austeridade e pobreza auto-voluntárias não é para qualquer um (quantos não prefeririam a montanha?).

Mas a minha questão é: o que é que a humanidade ganha com estes feitos.

OK, queres superar-te a ti próprio, queres-te vencer, tudo bem; mas isso é uma batalha individual, sem repercussões para o mundo. Ficarás muito feliz por veres o teu nome gravado a ouro, os teus entes queridos exultarão... mas... nem um átomo alivias da pobreza mundial ou das árvores que são abatidas dia a dia.

Uma vez, falando com um tipo religioso, dizia-me ele que estava numa «ascensão espiritual» brutal. Perguntei-lhe como o fazia. Ele disse que desligando-se do mundo - isto é, afastando-se das pessoas e dos seus problemas. Mas como podes ascender espiritualmente, por exemplo desenvolvendo o amor e a compaixão, sem lidares com o próximo, interroguei-o. Ele ficou a olhar para mim.

Reza uma lenda budista que um monge foi para um local ermo praticar a paciência. Esteve lá anos. Certo dia, um mestre, fazendo-se passar por um mendigo surdo foi azucrinar o monge.

- Que fazes aqui?
- Pratico a paciência.
- Como? O que fazes aqui?
- Pratico a paciência.
- O que dizes?
- Já te disse: pratico a paciência.
- O quê? O que é que tu fazes aqui?
- Irra! - gritou. - Mas tu deixas-me em paz ou quê? EU ESTOU AQUI A PRATICAR A PACIÊNCIA.
- Tantos anos aqui não te serviram de nada, porque à primeira adversidade, ao primeiro encontro com um homem, perdes logo aquilo que há tantos anos andas a cultivar!


Uma vez, vi um documentário de uns tipo que na Idade Média, para estarem mais próximo de Deus, montavam uma torre muito alta. Lá viviam em cima com comida e roupa numa exígua habitação, sem qualquer ligação com o mundo cá de baixo. Mas apartar-se do sofrimento do mundo não é o egoísmo supremo? É isso o que Deus quer? Com certeza que não.

Parece-me pouco nobre traçar um plano para a vida em que só nós somos os beneficiados.

quarta-feira, maio 12, 2010

Gurdjieff diz que o pai antes de morrer apenas lhe quis transmitir um conselhos: que de cada vez que lhe surgisse a oportunidade de fazer o Bem, que não o adiasse - adiar algo é torná-lo impossível, explicou-lhe; e de cada vez que lhe apetecesse fazer o mal que o adiasse por 24 horas.

Como lhe prometera que honraria o compromisso, Gurdjieff lembrou-se do conselho do pai quando quis insultar um indíviduo que o irritou. Disse-lhe apenas: voltarei daqui a 24 horas para lhe responder, em memória pela palavra dada ao pai.

E assim foi vendo que, 24 horas depois, já não tinha vontade de praticar o mal. Seguindo este conselho, explica, nunca nada o fez mudar tanto na vida - aproximando-o da Virtude.
- Preferia não ser gira e boa e que... os homens olhassem para a minha interioridade.

Pino

- Se...
- Já chegam os ses do mundo. Não criemos mais - e beijou-a.

terça-feira, maio 11, 2010

Os desatracados

Se os portugueses vêem cada vez mais televisão, também há cada vez mais que não vêem. Nunca. Nem tão-pouco acompanham as coisas ditas de interesse público, sejam culturais, comerciais ou lá o que for. Destracaram-se.
Os atracados andam a reboque da mesma caravana de agendas. Cada um tem uma opinião diferente. Mas todos vêem os mesmos programas e falam das mesmas pessoas e dos mesmos casos. Não é a discussão que é oprimente: é a agenda. A agenda é a lista das coisas escolhidas pelos empresários, políticos e editores para nós lermos; vermos; comprarmos; conhecermos, discutirmos.
É como o futebol. E basta não ligar ao futebol para ver o que se perde: nada. O pouco que importa acaba por chegar a toda a gente, já muito bem filtradinho, muito obrigado.
Graças à Internet, cada vez há mais desatracados. Lêem livros que mais ninguém está a ler; mergulham em mundos esquecidos; descobrem coisas tão novas que ainda nem coisas são; ouvem música fora de todas as modas; acompanham pessoas e problemas e pensamentos que se diria nada terem a ver com eles. Mas têm, acabam por ter. E isso é bom.
Desatracar não é rejeitar a realidade nem é ser hostil aos marcadores de agenda. É apenas pedir licença para não seguir o fio da realidade que está a ser distribuído a dado momento. É seguir outro fio, escolhido por cada um, sem grandes critérios ou seriedade até. E, quando se cruzam os dois, costuma ser interessantíssimo. E é giro.

Miguel Esteves Cardoso
- Tem uma boca tranquila.
É uma pessoa densa, que quer sempre conhecer e compreender todos os mundos, cheia de contradições saudáveis, que é tudo ao mesmo tempo, que sente tudo - é uma pessoa que é a Vida.

Interessa-se por literatura, religião, taras sexuais, moda, tarot, cinema, desporto, política, poesia, filosofia, economia, psicologia, sociologia, mitologia, esoterismo, farmacologia, música...
- Concordo com tudo o que disseste, mas vou fazer exactamente o contrário.
Estavam parados, enregelados, tiritando de frio, com as barbas longas.

- Posso ajudar-vos?

E foi então que me contaram.

Há muito tempo tinham dito um ao outro.

- Passa tu primeiro por essa porta.
- Não, passa tu.
- Garanto-te que não vou passar primeiro do que tu.
- E eu garanto-te o mesmo.

E assim ficaram cumprindo a palavra.

Um chamava-se Org, o outro Ulho.

Beatiful Men (Fernando Morientes)

Beatiful Men (Luke Perry)

Conheces o sentimento de ciúme. Mas há outro sentimento que já sentiste e para o qual não tens nome. As coisas ficam mais difusas quando não são nomeadas.


É a incomodidade de veres alguém importante para ti com uma pessoa que sentes ser um traste. Não é ciúme, porque tu não queres ocupar o espaço dele - seria como trocares-te a ti, ouro, por merda.

Como é que ela floresce com aquilo?, pensas e não pensas, porque só se te vir à mente, é tão mau, tão caótico, tão repugnante, tão ilógico que tu afastas logo o pensamento. Ou então distorces a maneira como a vês. Fazes tudo para agigantar os seus defeitos na tua mente. Tudo o que sirva para denegrir a sua imagem, é bem-vindo à tua memória e imaginação. Tens de a pintar de cores pretas para que seja possível uma equação mental em que ela esteja com ele. Para que a possas aceitar ao lado daquele energúmeno - sem complexos, sem dúvidas.

Terei andado enganado este tempo todo? Estará ela cega? Ou simplesmente quer alguém à viva força e por isso baixou os seus padrões de exigência?

A mediocridade. A vulgaridade. O beto vazio. O machista que lhe bate. O surfista fútil e básico. O gajo que só liga aos carros e ao estilo. O brutamontes. O totó que lhe paga tudo mas não tem personalidade.

É tão triste ver alguém que gostamos com um espécime destes.
- Estou farto de gajas que nao fodem nem deixam foder, sonsas, fúteis e que engonham com joguinhos.

Caim

- Admite: tens inveja da minha felicidade? De ter uma família boa quando os teus pais se divorciaram, tu que sempre foste tão amigo da família? De ter um bom emprego, quando tu que sempre ajudaste toda a gente a ter emprego estás desempregada? De ter bons amigos e de tu te sentires só e abandonado e traído pela tua ingenuidade? De eu não ter conhecido a morte de pessoas próximas e de tu teres três pessoas com cancro na família? Tens raiva disto? Sentes que não é justo? Mas eu sofrer reporia alguma coisa? Uma ideia de justiça tua, muito próxima da vingança...
Era o jogo dos segredos. Calhou-lhe logo a ele.

Chorou quando tentou falar. Gaguejando, disse:

- Sou virgem. Virgem aos 34 anos...

A seguir, foi o do meio, em idade e em altura.

- Eu, eu... uuuuuuuuu... Então é assim: lembro-me deste episódio com detalhes vívidos. Eu chegava a casa do meu amigo e ele contava-me o incêndio pesaroso. A casa da Margarida ardera... ela ficara carbonizada... ele contou-me tudo, tudo a chorar, com pormenores e eu a querer que ele prolongasse o relato... eu estava felicíssimo e só pensava: espero que não tenha sobrevivido no fim. Pior: estava quase assustado perante essa possibilidade.

Depois calhou-lhe o outro, muito seguro de si. Disse:

- Eu... por favor não me olhem de lado... juro que só aconteceu uma vez... uma vez, tinha para aí 18 anos e vi o rabo de um miúdo. Não devia ter mais de 7 anos e... enchi-me de desejo, vocês percebem?

segunda-feira, maio 10, 2010

- Quem és tu?
- A seeker of truth.
Nós estamos num estado comparável sómente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá... vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal.

Eça de Queirós, As Farpas
Faulkner: [Hemingway] has never been known to use a word that might send a reader to the dictionary.

Hemingway: Poor Faulkner. Does he really think big emotions come from big words?
- O meu pai tinha um riso tão forte que eu acordava, por vezes, de noite com o riso dele. Era um riso tão autêntico, eram gargalhadas. Uma das melhores memórias que tenho dele é a de acordar a meio da noite, ouvi-lo a gargalhar e desatar a gargalhar também compulsivamente, só de ouvir aquele riso e sem saber o motivo...
- És uma pessoa que merece tudo de bom na vida. Tudo.
Tudo aquilo que adias resolver, aumenta o peso do teu cérebro onde se juntam as indecisões, os medos, os fantasmas do passado, as mágoas, a culpa e o ressentimento.
- Eu, em relação a traições, penso assim: Não salto para cima de ninguém, mas se alguém que me interessar me saltar para cima, aí meu amigo... Se tiver de trair, que sejam elas a dar o passo.
É um patrão que cumprimenta todos os empregados com a frase:
- Então, ó cara de cu?

sábado, maio 08, 2010

- Já viu como as pessoas não suportam o silêncio e o têm de preencher imediatamente? Quando as pessoas são intímas, os silêncios são fundamentais. Às vezes, dizem muito mais do que as palavras. Mas nas conversas sociais, os silêncios são logo preenchidos, são muito desconfortáveis, enchem-se logo de frivolidades, já reparou?
I find it hard to believe you don't know
The beauty that you are


Let me stand to show that you are blind
Please put down your hands
'Cause I see you

I'll be your mirror

Velvet Underground
- Detesto famílias. Detesto. Os almoços obrigatórios ao domingo, os rituais, detesto. Cada um deve ter o seu espaço, o seu ritmo. As pessoas que se fecham na sua família não vêem mais nada, fecham-se num egoísmo terrível. Ficam instalados, acomodados... Um acomodado, no limite, é uma cómoda, uma mobília.
Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.

Heberto Helder

sexta-feira, maio 07, 2010

Ia escrever que o via de ano a ano, mas nem isso. Já houve anos que passaram em que eu não o vi. Não está longe. Não nos zangámos. A amizade só estiolou porque ele tem família (mulher e filho). Vem do trabalho e... «não a posso deixar sozinha com a filha», diz ele.

Claro que este argumento dá para todos os dias do ano.

«Eu não estou com ninguém. Só posso ao almoço e mesmo aí, só tenho vinte minutos.» É assim há anos. E será assim no futuro.

Eu preferia estar preso atrás das grades a ter a vida dele. Mas se ele é feliz assim...

(Família provém etimologicamente de famulus que era a hierarquia que na Roma Antiga tinha o senhor ou patrício no topo da pirâmide, muito acima das mulheres, e em baixo, no último estrato, os escravos.)
Era um lutador intelectual de rua. Saía sempre pronto para uma boa zaragata intelectual. Cada vez topava melhor os brigões intelectuais. Uma ligeira provocação bastava para a discussão começar:

- Mas você sabe quem é que disse que a estética seria a ética do futuro? Sabe ou não sabe?

Nunca respondia a provocações. Contra-atacava sempre. Gostava de descalçar intelectualmente o outro para depois o ferir no pé.

Se via que o outro não dominava Filosofia do século XVI ou Literatura do século XIX, atacava nesse ponto. Dantes, arrumava-os em três pancadas, quando agora apenas uma bastava.

Começou a tornar-se cada vez mais conhecido e cada vez mais temido.

Ninguém lutava intelectualmente como ele. E, com os anos, estava cada vez mais violento. Só parava quando o adversário estava exangue. Já quase ninguém se metia com ele. Aqueles olhos negros profundos, cheios de Literatura, intimidavam qualquer um.

quinta-feira, maio 06, 2010

- Tenho o emprego ideal para ti. Devias trabalhar na Nasa. Pões qualquer homem fora de órbita.
- Sou um percursor. De facto, antes da crise financeira, já eu estava com problemas de dinheiro.

quarta-feira, maio 05, 2010

Lote 12, 2.º Frente




Não sei se o livro é bom. Sei que quando era miúdo, andava eu no sétimo ou oitavo ano, me enfiei na biblioteca da escola e comecei a ler o livro... só parando no fim. Tudo no mesmo dia. Sei que foram várias horas.

Vou querer lê-lo de novo. A minha memória diz-me que quando o li (estou a ver a mesa ampla, escura em que o fazia), a capa era alaranjada.
«Para os fortes, é sempre o fraco quem está errado.»

Ivan Krylov
Era uma pessoa com o oposto do medo do abandono. Tinha receio de que qualquer pessoa com quem se cruzasse, gostasse tanto de si que nunca o largasse. Na rua, quando se perdia, nunca perguntava uma direcção. Da mesma forma nunca pedia lume. Já tinha amigos suficientes e temia que a cada novo contacto acrescentasse mais um fiel, obstinado e omnipresente amigo. Prezava muito a sua liberdade e o seu espaço. Os amigos sufocavam-no de amor e atenção.

terça-feira, maio 04, 2010

- Nada acontece por acaso. Este é um encontro proporcionado de cima.
Quem te esmagou emocionalmente?

Palavra que aprendi hoje

suspicácia

nome feminino
qualidade de suspicaz, desconfiança

(Do lat. suspicáce-, «desconfiado» +-ia)


... mais uma porção do universo que me foi acrescentada. Havia, de facto, uma lacuna: como nomear a características das pessoas que estão sempre a suspeitar do Outro? É esta doença: a suspicácia.
Aparentemente, não têm nenhuma afinidade. Porém, são grandes amigas.

Intrigadíssimo, perguntei-lhe:

- Mas por que raio és amiga dela?

- A Sofia e eu temos o mesmo ângulo de humor. Rimo-nos as duas de coisas que mais ninguém se ri.

Formamos com as pessoas relações que só nós entendemos. Cada uma puxa uma parte de nós que só essa pessoa puxa.

segunda-feira, maio 03, 2010

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Mário Cesariny
- Quanto mais conheço uma pessoa, quanto mais tempo, mais experiências, mais partilha temos de património; mais saboreio depois o sexo.
A pergunta que te deves fazer (li em Gurdjieff):

- Amas o teu trabalho pelo trabalho ou pelo ganho?

(a pergunta sacramental que todos nos deveríamos fazer)
- Eh pá, isso da honestidade absoluta não existe. Todos temos um preço. Tens de ser mais flexível.

Na altura, todos acharam que ele era «sensato», «realista», «equilibrado».

Enganaram-se redondamente.

Hoje é um corrupto e um vigarista.

Estejam atentos a quem fala como ele.

É sempre um prenúncio de que quando a ocasião vier, o corrupto estará pronto a emergir.

sábado, maio 01, 2010

Na sessão comemorativa do 25 de Abril, Assembleia da República, o dr. Aguiar-Branco criticou essa figura de intolerância e, sem renunciar às suas convicções (como a seguir se viu), citou Lenine, Rosa Luxemburgo, José Afonso e Sérgio Godinho, mas, também, António Sardinha, corifeu do Integralismo Lusitano. Acontece que, criticando o preconceito, o discurso do dr. Aguiar-Branco criticava a perda de referências culturais que, à Esquerda ou à Direita, goste-se ou não, pertencem ao bragal comum da nossa civilização.

Se compreendo o embaraço das bancadas do PSD e do CDS, tenho dificuldade em entender os risos absurdos do PCP e do Bloco. Ambas as demonstrações conduzem ao mesmo fim. A função simbólica do poder, cuja identificação se revela nas fórmulas paradoxais de eliminar autores ou de os integrar, consoante a "família" política ou estética a que pertencem, divide um património que é de todos. Esse preconceito conduz à queima de livros e à perseguição de escritores e filósofos, de que a História está repleta.

Por que razão Aguiar-Branco não pode citar quem quer que queira, sem suscitar o riso tolo ou o espanto ignaro? Os resquícios de um passado tenebroso emergiram nos comportamentos dos deputados. Sou do tempo em que a Censura suprimia dos textos de jornais e revistas os nomes de Karl Marx, de Engels, de Lenine, de Estaline, e que, nas faculdades, o marxismo era praticamente ignorado. Obrigava-se os portugueses a renunciar ao pensamento, ao cultivo da razão, à adopção do desconhecimento como condição e prática. Servíamo-nos de truques grotescos: Karl Marx era Carlos Marques; Lenine, Vladimir Ilitch.

As proibições, as omissões e as rasuras fazem, infelizmente, parte de uma concepção despótica do mundo, longe de estar extinta. Mas a luta dos valores humanos e culturais é a charneira paradigmática da aventura da liberdade, e prova que, amiúde, aqueles aparentemente "progressistas" são, na realidade, os mais reaccionários.

Baptista-Bastos
To be the man, you´ve got beat the man.

Ric Flair