Não só os lábios, também as estrelas
são distantes.
Eugénio de Andrade
quarta-feira, março 31, 2010
terça-feira, março 30, 2010
segunda-feira, março 29, 2010
Sobre os escritores portugueses
Saramago tem grandes ideias para um história, mas tropeça nas palavras, tem um prosa gorda, chata, precisava de cortar, cortar, cortar. É... despojado de alma, de caos, de sentimentos contraditórios.
Gonçalo M. Tavares é original a pensar. Mas há qualquer coisa sub-Beckett e, principalmente, sub-Kafka nele. É demasiado doentio, por vezes. Cansa.
Peixoto junta palavras bonitas que por vezes assentam num buraco e o olhar pressente que elas caem até ficarem rentes ao chão. É o vácuo da ausência de ideias.
Na poesia, Herberto Helder é rei. Não escreve - passa um fogo das mãos para o papel para o leitor. Mas, claro está, que por vezes é excessivamente hermético. Os críticos e os leitores refinados evitam dizê-lo para não passarem por ignorantes.
Gonçalo M. Tavares é original a pensar. Mas há qualquer coisa sub-Beckett e, principalmente, sub-Kafka nele. É demasiado doentio, por vezes. Cansa.
Peixoto junta palavras bonitas que por vezes assentam num buraco e o olhar pressente que elas caem até ficarem rentes ao chão. É o vácuo da ausência de ideias.
Na poesia, Herberto Helder é rei. Não escreve - passa um fogo das mãos para o papel para o leitor. Mas, claro está, que por vezes é excessivamente hermético. Os críticos e os leitores refinados evitam dizê-lo para não passarem por ignorantes.
domingo, março 28, 2010
sábado, março 27, 2010
sexta-feira, março 26, 2010
Ela chegou a casa (vinda da noite?) e os pais e o irmão, o seu agregado familiar, estavam todos mortos (porquê?).
Eu conhecia-a. Era loira, limpa e simpática. Até diria alegre. Não sei quanto tempo já tinha transcorrido.
Mas lembro-me desta história quando me irrito por me trazerem Pepsi e não Coca.
É tudo relativo...
Eu conhecia-a. Era loira, limpa e simpática. Até diria alegre. Não sei quanto tempo já tinha transcorrido.
Mas lembro-me desta história quando me irrito por me trazerem Pepsi e não Coca.
É tudo relativo...
- Ela é fútil, é oca, só teve namorados machizóides e energúmenos, não tem personalidade, é promíscua, artificial, culturalmente nula... e nada disto consegue eliminar o meu desejo. Nada disto consegue sequer atenuá-lo. Nem que ela me matasse a família, eu continuaria a desejá-la no funeral dos meus pais ou no tribunal. Acho que mesmo que visse o corpo dela carbonizado, só espreitaria os seios dela calcinados.
- Estás a exagerar.
- Não estou.
- Estás a exagerar.
- Não estou.
quinta-feira, março 25, 2010
quarta-feira, março 24, 2010
terça-feira, março 23, 2010
Eufemismos
Para cada coisa que eu gosto nele, há uma coisa que não gosto.
É uma pessoa muito mais ou menos.
É uma pessoa muito mais ou menos.
sábado, março 20, 2010
há um certo olhar no
olhar delas: elas já foram
possuídas elas já foram
enganadas. na realidade não sei o que
fazer por
elas.
[...]
eu sei que todas têm
pezinhos e vão descalças pelo chão enquanto
lhes vejo os tímidos cus no
escuro. sei que gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo muito
poucas.
Charles Bukowski
olhar delas: elas já foram
possuídas elas já foram
enganadas. na realidade não sei o que
fazer por
elas.
[...]
eu sei que todas têm
pezinhos e vão descalças pelo chão enquanto
lhes vejo os tímidos cus no
escuro. sei que gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo muito
poucas.
Charles Bukowski
- As pessoas convivem demais com as mesmas pessoas. A rotina, o comodismo, o medo da solidão fazem com que as pessoas se diluam por vezes nas outras. Há relações tão absorventes... porra... É um tédio a partir de certa altura... As pessoas deixam de se surpreenderem... É tão difícil manter a capacidade de surpreender. É tão raro encontrar alguém que te surpreende ao fim de 3 anos. E ao fim de 10? E ao fim de 30 de convivência diária?
- É preciso uma alma waltwhitmaniana.
- É preciso uma alma waltwhitmaniana.
sexta-feira, março 19, 2010
Quando vou aos melhores cabeleireiros, nenhum deles me faz um penteado parecido - cada um faz um estilo diferente do outro.
Conheço amigas minhas que veneram o Deep e outras que o acham desprovido de qualquer interesse.
Buda e Cristo não foram personalidades consensuais. Hitler tem ainda hoje seguidores e o Fritzl recebeu centenas de cartas na prisão de admiradoras.
Nada nem ninguém é consensual. Se procuras o consenso, atrofias a acção.
Sede quentes ou sede frios porque eu vomitarei os mornos.
Os neutrinhos que tentam agradar a ambas as partes, a longo prazo não têm um amigo.
Escolher é rachar.
Conheço amigas minhas que veneram o Deep e outras que o acham desprovido de qualquer interesse.
Buda e Cristo não foram personalidades consensuais. Hitler tem ainda hoje seguidores e o Fritzl recebeu centenas de cartas na prisão de admiradoras.
Nada nem ninguém é consensual. Se procuras o consenso, atrofias a acção.
Sede quentes ou sede frios porque eu vomitarei os mornos.
Os neutrinhos que tentam agradar a ambas as partes, a longo prazo não têm um amigo.
Escolher é rachar.
quinta-feira, março 18, 2010
quarta-feira, março 17, 2010
Ele vinha de uma discoteca do Cais do Sodré. Estava a entrar em casa e o telefone tocou.
- Sim?
- Olá! Está um sol! Vamos aproveitá-lo?
- Eu estou a chegar a casa.
- A chegar a casa? São nove da manhã!
A química quebrou-se. Uma pessoa da noite e uma pessoa da manhã é mais complicado do que duas orientações sexuais incompatíveis.
- Sim?
- Olá! Está um sol! Vamos aproveitá-lo?
- Eu estou a chegar a casa.
- A chegar a casa? São nove da manhã!
A química quebrou-se. Uma pessoa da noite e uma pessoa da manhã é mais complicado do que duas orientações sexuais incompatíveis.
terça-feira, março 16, 2010
Sabe porque é que não gosto do tempo em que vivo? É porque há tanto trash! (…) Sabe o que está escrito numa parede de Pompeia? «Sextus não sei quê deu aqui uma grande foda». Eu nunca lá fui, mas tenho o livro de epígrafes e essa é a de que eu gosto mais. «Pomponius qualquer coisa deu aqui uma grande foda». Há sempre gajos para fazer isso, percebe? Além de isso demonstrar a literacia daqueles tipos naquela época (…) Aquilo que eu não gosto na sociedade de hoje é que as paredes estão cheias disso (…) Eu acho graça que o Caius tenha dado uma grande foda em Pompeia, mas acho graça porque isso prova a literacia daquela gente. Mas quanto à foda proriamente dita não estou muito interessado (…) A dimensão histórica das pessoas perdeu-se. O triunfo do trash é uma coisa que me deprime.
Vasco Pulido Valente
Vasco Pulido Valente
segunda-feira, março 15, 2010
- Ser muito exigente na minha relação com os outros tornou-me muito exigente para com os outros; é um pau de dois gumes. Mas tento que haja uma certa justiça, ou para usar uma palavra mais leve, uma certa harmonia... entendes? A questão é que ultimamente tenho pensado: mas se dar é gratuito, se o amor não espera nada em troca; então eu quando estou a ser exigente com outros será que estou a cobrar? A mostrar a factura? Mas, também, caramba, repara o que é estares sempre disponível para alguém e depois um dia precisares e ela falhar... é duro. Só precisaste uma vez e estiveste lá mil... não é cobrar, porque quando ajudaste não era a pensar que um dia receberias algo em troca; mas é duro ser bonzinho univocamente sempre... Tem de haver um equilíbrio, penso; ou então talvez me falte subir esse degrau na escalada espiritual.
domingo, março 14, 2010
sexta-feira, março 12, 2010
Excuse me
If I don't get up
Excuse me
If I'm an unwed mother
Excuse me
If I don't have a job
Excuse me
If I'm a gap-toothed woman
Excuse me
If I don't stink of Chanel No. 5
And I don't drink champagne and I loathe caviar
Excuse me
If I get bored easily when men start talking about their jobs
And their money
And their ex-wives and ex-girlfriends
And their trouble with their mothers and their bosses
And their alimony payments and their goddamned visitation rights
Excuse me
If I don't have a boyfriend and I don't want a boyfriend
And I don't get wet when foolish men touch me
And invite me into the back seat of their expensive cars
Excuse me
If I'm not an ordinary girl or an average girl or like the girl you imagine next door
And I like the color black and naugahyde that is black and whips and chains and use coffee filters for toilet paper when I run out of toilet paper
And White-Out for nail polish because I like it
Excuse me!
Excuse me?
Excuse me
If I don't eat meat
And I'm against cruelty to animals
And I'm anti-vivisection
And I eat ice cream with nuts from the rainforest
Because I support the rainforest
Excuse me
If I scare you by the way I dress
And by my direct language that's never used in the universities or your senile boardrooms
Because I'm a product of the '90s
I'm a woman of the '90s
I'm my own person and I'm not a victim
And I've risen above the garbage heap I was born in
And I look down on you who've never seen a trashcan in your life
And I don't need your approval or applause
Just excuse me
Excuse me!
Excuse me
Excuse
Amy Arena
O padrasto
Quando era muito novo, os pais divorciaram-se. Só o conheci pouco depois do divórcio, mas ele relatou-me esse período familiar coeso como uma fábula de sonho e alegria que antecedeu o horror da sua vida. Que se prolongaria até à idade adulta.
Chumbou no liceu, no quinto ou sexto ano, e disse que em casa não tinha condições para estudar. O padrasto, uma figura cruenta e odiosa, insultava-o, batia-lhe, e ele, coitado, nem podia estudar. Sendo o futebol, um das coisas que mais adorava fazer, jogava na equipa da escola (lembro-me de um golo dele de pontapé de bicicleta que de fora da grande área que foi o melhor que vi ao vivo) e pretendia voos maiores no futebol. «Um dia quero jogar num grande estádio internacional. O meu padrasto há-de ver.»
A raiva ao padrasto era tanta que lembro-me de ele festejar golos e dizer em surdina: «Toma, cabrão! Toma!», com o interlocutor imaginário do padrasto em mente.
Mais de metade do tempo em que falava era para se queixar da sua vida - e do padrasto como incorporação da fonte de todos os seus sofrimentos.
Aos 14 anos, teve um grande desgosto. Não foi convocado para representar a selecção da escola. A decisão era, de facto, estranha para quem o via jogar. Lembro-me dele a chorar no balneário e... quando pensava que a ligação não seria feita, ele atira sentado de calções com uma tolha ao colo inundada de lágrimas:
- O meu padrasto é amigo do treinador e proibiu-o de me chamar...
Fiquei atónito.
Mais tarde, não entrou para a faculdade e disse que o padrasto o tinha obrigado a ir para uma privada onde também ele se licenciara já em idade adulta.
Entretanto, perdi contacto com ele durante uns anos.
Reencontrei-o e, já com quase trinta anos, alegava não ter tirado o curso devido ao padrasto, e era treinador de uma escola infantil. Estava entusiasmadíssimo e iam ser campeões nesse ano.
Deixei de o ver novamente.
Reencontrei-o. A vida tinha dado uma volta. Abandonara uma carreira de sucesso (fora o treinador do ano na época transacta), não fazia nada e passava os dias a beber.
- Os meus nervos rebentaram. Quero parar um período e depois voltar a treinar. O problema é que sou praticamente alcoólico e tu sabes que eu nem bebia, Angel. Mas o meu padrasto tornou-se cada vez mais bruto comigo... Ouve: o gajo está ainda pior do que era. É um horror viver com ele. Um verdadeiro horror - chorava, enquanto eu formava a imagem dele sentado no balneário e as lágrimas da não convocação para a selecção de futebol eram as mesmas, posso jurar, destas que lhe corriam agora.
Entretanto, e por isso escrevo a história, soube que o padrasto morreu. Podia-se pensar que era o fim dos males dele.
Infelizmente, tendo a achar que o padrasto era para ele a perfeita desculpa - uma figura a quem podia imputar todos os seus fracassos, libertando-se da sua culpa.
O «inimigo» muitas vezes serve para isso.
Chumbou no liceu, no quinto ou sexto ano, e disse que em casa não tinha condições para estudar. O padrasto, uma figura cruenta e odiosa, insultava-o, batia-lhe, e ele, coitado, nem podia estudar. Sendo o futebol, um das coisas que mais adorava fazer, jogava na equipa da escola (lembro-me de um golo dele de pontapé de bicicleta que de fora da grande área que foi o melhor que vi ao vivo) e pretendia voos maiores no futebol. «Um dia quero jogar num grande estádio internacional. O meu padrasto há-de ver.»
A raiva ao padrasto era tanta que lembro-me de ele festejar golos e dizer em surdina: «Toma, cabrão! Toma!», com o interlocutor imaginário do padrasto em mente.
Mais de metade do tempo em que falava era para se queixar da sua vida - e do padrasto como incorporação da fonte de todos os seus sofrimentos.
Aos 14 anos, teve um grande desgosto. Não foi convocado para representar a selecção da escola. A decisão era, de facto, estranha para quem o via jogar. Lembro-me dele a chorar no balneário e... quando pensava que a ligação não seria feita, ele atira sentado de calções com uma tolha ao colo inundada de lágrimas:
- O meu padrasto é amigo do treinador e proibiu-o de me chamar...
Fiquei atónito.
Mais tarde, não entrou para a faculdade e disse que o padrasto o tinha obrigado a ir para uma privada onde também ele se licenciara já em idade adulta.
Entretanto, perdi contacto com ele durante uns anos.
Reencontrei-o e, já com quase trinta anos, alegava não ter tirado o curso devido ao padrasto, e era treinador de uma escola infantil. Estava entusiasmadíssimo e iam ser campeões nesse ano.
Deixei de o ver novamente.
Reencontrei-o. A vida tinha dado uma volta. Abandonara uma carreira de sucesso (fora o treinador do ano na época transacta), não fazia nada e passava os dias a beber.
- Os meus nervos rebentaram. Quero parar um período e depois voltar a treinar. O problema é que sou praticamente alcoólico e tu sabes que eu nem bebia, Angel. Mas o meu padrasto tornou-se cada vez mais bruto comigo... Ouve: o gajo está ainda pior do que era. É um horror viver com ele. Um verdadeiro horror - chorava, enquanto eu formava a imagem dele sentado no balneário e as lágrimas da não convocação para a selecção de futebol eram as mesmas, posso jurar, destas que lhe corriam agora.
Entretanto, e por isso escrevo a história, soube que o padrasto morreu. Podia-se pensar que era o fim dos males dele.
Infelizmente, tendo a achar que o padrasto era para ele a perfeita desculpa - uma figura a quem podia imputar todos os seus fracassos, libertando-se da sua culpa.
O «inimigo» muitas vezes serve para isso.
quinta-feira, março 11, 2010
Keynes e a opção pela Cultura
MANUEL MARIA CARRILHO
Mas, afinal, eram todos keynesianos? É extraordinário verificar como, com a crise, os defensores do mercado inteligente, os pregoeiros da desregulamentação, os evangelistas da criatividade financeira, se tornaram, todos eles, fervorosos keynesianos. E como, neste passe de mágica, todos descobriram as deficiências estruturais do mercado, as urgências de uma regulamentação eficaz e a selva de uma globalização que se conjuga mal com democracia.
Da apologia de um Estado mínimo passou-se à retórica de um Estado indispensável. E a invocação de John M. Keynes tornou-se, assim, num ritual diário para todos os políticos, seja qual for o seu quadrante ideológico. O problema é que, com uma tão intensa convergência unanimista, se correm dois riscos. Por um lado, o de se desvalorizarem as diferenças entre a situação actual e aquela que viveu Keynes: a desmaterialização da economia, a informatização, a dimensão do endividamento, a automação, a globalização, a degradação ambiental, o esgotamento de recursos naturais, etc. E, por outro lado, o de se esquecer o essencial da visão de Keynes, que ambicionava sobretudo articular o capitalismo com o pleno emprego, tendo por pano de fundo uma radical incerteza quanto à evolução do mundo e por convicção suprema a defesa dos "valores da civilização", segundo a sua própria expressão.
Foi esta visão que o conduziu à sua conhecida defesa do investimento público, às suas originais perspectivas sobre o défice, a poupança ou o consumo. Mas também - ponto que raramente é referido - a uma constante valorização da cultura.
É que Keynes colocou sempre a cultura no topo da sua hierarquia de valores, considerando-a, na variedade das suas manifestações, como uma das actividades mais importantes de qualquer sociedade. E não se tratava de conversa fiada, como infelizmente hoje acontece com tanta frequência. Não, tratava-se de uma convicção que Keynes assumiu toda a vida, tanto nos seus fundamentos teóricos como nas suas implicações concretas.
É isso que verificamos lendo textos ainda hoje notáveis, por exemplo «A theory of beauty», de 1905, "Can we consume our surplus?", de 1909, ou "Art and the State", de 1936. Mas, para lá da teoria, Keynes envolveu-se também na concretização das suas ideias, e com uma intensidade tal que faria hoje corar muitos titulares da cultura.
Foi assim que, por exemplo, para lá de ter constituído uma notável colecção pessoal de arte, teve um papel preponderante na aquisição, pela National Gallery, de uma impressionante quantidade de quadros (de Ingres, Delacroix, Manet, Gauguin, Rousseau, etc.). Foi assim que, no teatro e na dança, seguiu com paixão as suas mais diversas criações, multiplicando as iniciativas mecenáticas, tendo mesmo escrito, ele próprio, notas críticas, textos publicitários e introduções a catálogos. Foi assim que levou a cabo, com uma colossal determinação, a edificação do Arts Theatre de Cambridge, e mais tarde dirigiu a reconstrução da Royal Opera, no Covent Garden. Foi assim que, poucos meses depois da saída da sua famosa "Teoria Geral do Emprego, dos Juro e da Moeda", ele decidiu, em Agosto de 1936, publicar na revista Listener um artigo de fundo sobre «A arte e o Estado», em que se opunha à visão economicista (a "visão do Tesouro", como dizia) da arte e da cultura que, condicionando o investimento nestas áreas à sua rentabilidade imediata, só podia conduzir a um inevitável declínio civilizacional.
Esse investimento, defendia Keynes, deveria ser feito e escalonado em função do carácter e do impacto público de cada arte, indo da arquitectura à literatura, passando pelo teatro, a dança, a música e as artes plásticas. Para Keynes, o Estado tinha tanta obrigação de garantir o pleno emprego como de, num quadro de inquestionável liberdade, estimular os valores da criatividade e da cultura. Daí que ele frequentemente valorizasse mais na sua vida a criação do "Conselho das Artes" do que os acordos de Bretton Woods.
Porque foi ele, sim, foi Keynes quem criou e inicialmente dirigiu o Arts Council britânico, que dirigiu com o objectivo de não só apoiar a divulgação da cultura mas também de promover a criação artística, sonhando com o dia - como então disse - "em que o teatro, a sala de concerto e o museu constituirão uma componente dinâmica da educação de todos".
Às vezes parece que os keynesianos de circunstância que hoje pululam por todo o lado mal sonham a fantástica herança que invocam, e que é altura de redescobrir - afinal, não somos agora todos keynesianos?
Mas, afinal, eram todos keynesianos? É extraordinário verificar como, com a crise, os defensores do mercado inteligente, os pregoeiros da desregulamentação, os evangelistas da criatividade financeira, se tornaram, todos eles, fervorosos keynesianos. E como, neste passe de mágica, todos descobriram as deficiências estruturais do mercado, as urgências de uma regulamentação eficaz e a selva de uma globalização que se conjuga mal com democracia.
Da apologia de um Estado mínimo passou-se à retórica de um Estado indispensável. E a invocação de John M. Keynes tornou-se, assim, num ritual diário para todos os políticos, seja qual for o seu quadrante ideológico. O problema é que, com uma tão intensa convergência unanimista, se correm dois riscos. Por um lado, o de se desvalorizarem as diferenças entre a situação actual e aquela que viveu Keynes: a desmaterialização da economia, a informatização, a dimensão do endividamento, a automação, a globalização, a degradação ambiental, o esgotamento de recursos naturais, etc. E, por outro lado, o de se esquecer o essencial da visão de Keynes, que ambicionava sobretudo articular o capitalismo com o pleno emprego, tendo por pano de fundo uma radical incerteza quanto à evolução do mundo e por convicção suprema a defesa dos "valores da civilização", segundo a sua própria expressão.
Foi esta visão que o conduziu à sua conhecida defesa do investimento público, às suas originais perspectivas sobre o défice, a poupança ou o consumo. Mas também - ponto que raramente é referido - a uma constante valorização da cultura.
É que Keynes colocou sempre a cultura no topo da sua hierarquia de valores, considerando-a, na variedade das suas manifestações, como uma das actividades mais importantes de qualquer sociedade. E não se tratava de conversa fiada, como infelizmente hoje acontece com tanta frequência. Não, tratava-se de uma convicção que Keynes assumiu toda a vida, tanto nos seus fundamentos teóricos como nas suas implicações concretas.
É isso que verificamos lendo textos ainda hoje notáveis, por exemplo «A theory of beauty», de 1905, "Can we consume our surplus?", de 1909, ou "Art and the State", de 1936. Mas, para lá da teoria, Keynes envolveu-se também na concretização das suas ideias, e com uma intensidade tal que faria hoje corar muitos titulares da cultura.
Foi assim que, por exemplo, para lá de ter constituído uma notável colecção pessoal de arte, teve um papel preponderante na aquisição, pela National Gallery, de uma impressionante quantidade de quadros (de Ingres, Delacroix, Manet, Gauguin, Rousseau, etc.). Foi assim que, no teatro e na dança, seguiu com paixão as suas mais diversas criações, multiplicando as iniciativas mecenáticas, tendo mesmo escrito, ele próprio, notas críticas, textos publicitários e introduções a catálogos. Foi assim que levou a cabo, com uma colossal determinação, a edificação do Arts Theatre de Cambridge, e mais tarde dirigiu a reconstrução da Royal Opera, no Covent Garden. Foi assim que, poucos meses depois da saída da sua famosa "Teoria Geral do Emprego, dos Juro e da Moeda", ele decidiu, em Agosto de 1936, publicar na revista Listener um artigo de fundo sobre «A arte e o Estado», em que se opunha à visão economicista (a "visão do Tesouro", como dizia) da arte e da cultura que, condicionando o investimento nestas áreas à sua rentabilidade imediata, só podia conduzir a um inevitável declínio civilizacional.
Esse investimento, defendia Keynes, deveria ser feito e escalonado em função do carácter e do impacto público de cada arte, indo da arquitectura à literatura, passando pelo teatro, a dança, a música e as artes plásticas. Para Keynes, o Estado tinha tanta obrigação de garantir o pleno emprego como de, num quadro de inquestionável liberdade, estimular os valores da criatividade e da cultura. Daí que ele frequentemente valorizasse mais na sua vida a criação do "Conselho das Artes" do que os acordos de Bretton Woods.
Porque foi ele, sim, foi Keynes quem criou e inicialmente dirigiu o Arts Council britânico, que dirigiu com o objectivo de não só apoiar a divulgação da cultura mas também de promover a criação artística, sonhando com o dia - como então disse - "em que o teatro, a sala de concerto e o museu constituirão uma componente dinâmica da educação de todos".
Às vezes parece que os keynesianos de circunstância que hoje pululam por todo o lado mal sonham a fantástica herança que invocam, e que é altura de redescobrir - afinal, não somos agora todos keynesianos?
terça-feira, março 09, 2010
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?
Charles Bukowski
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?
Charles Bukowski
- Tenho dificuldade em conceber um Deus que não prestas contas a ninguém. Impune, no fundo. Deus não tem um motivo para acordar de manhã e lutar, entendes?
- Estás a querer antropomorfizá-Lo... Uma mente mais simples não consegue captar uma mente mais complexa. Consegues explicar a uma formiga o que é estar apaixonado?
- Entendo, mas isso é uma desistência. Eu quero tentar compreendê-Lo. E acho mais lógica haver um mecanismo que regula o Cosmos do que um Juíz. Mas claro que a eficácia de um pensamento pesa pouco ante o conforto de uma ideia em que tu personalizas Deus, e então ele ouve-te, ele fala-te... Isso é mais cómodo, mais confortável...
- Estás a querer antropomorfizá-Lo... Uma mente mais simples não consegue captar uma mente mais complexa. Consegues explicar a uma formiga o que é estar apaixonado?
- Entendo, mas isso é uma desistência. Eu quero tentar compreendê-Lo. E acho mais lógica haver um mecanismo que regula o Cosmos do que um Juíz. Mas claro que a eficácia de um pensamento pesa pouco ante o conforto de uma ideia em que tu personalizas Deus, e então ele ouve-te, ele fala-te... Isso é mais cómodo, mais confortável...
cenosidade
Não conhecia a palavra e pela sonoridade adivinhava-lhe um sentido fofinho. Uma palavra que daria para empregar em noites quentes: «Vim para casa com a cenosidade da tua pele... beijo saudoso»
O dicionário disse:
nome feminino
1. qualidade do que é cenoso
2. vício nojento
(Do lat. caenositáte-, «imundície»)
Não conhecia a palavra e pela sonoridade adivinhava-lhe um sentido fofinho. Uma palavra que daria para empregar em noites quentes: «Vim para casa com a cenosidade da tua pele... beijo saudoso»
O dicionário disse:
nome feminino
1. qualidade do que é cenoso
2. vício nojento
(Do lat. caenositáte-, «imundície»)
domingo, março 07, 2010
The perfect writing
O que ele na realidade conseguia fazer com as palavras era impressionante, elas cintilavam e coruscavam — ele escrevia frases, parágrafos, capítulos que eram obras-primas de tessitura e cadência.
Era um conto. Eu comecei-o num estado de espírito de repulsa mas antes que tivesse lido cinco minutos eu estava completamente imerso nele, cabalmente encantado, totalmente convencido e pedindo a Deus que pudesse escrever assim. Quando o Cannon acabou o seu telefonema eu mantive-o à espera até que acabasse o conto e quando o fiz havia lágrimas nestes velhos duros olhos profissionais.
O que quer que seja que escreva será de uma brancura pura — da qual resultará um clarão encandeante.
Francis Scott Fitzgerald, Financiando Finnegan
Era um conto. Eu comecei-o num estado de espírito de repulsa mas antes que tivesse lido cinco minutos eu estava completamente imerso nele, cabalmente encantado, totalmente convencido e pedindo a Deus que pudesse escrever assim. Quando o Cannon acabou o seu telefonema eu mantive-o à espera até que acabasse o conto e quando o fiz havia lágrimas nestes velhos duros olhos profissionais.
O que quer que seja que escreva será de uma brancura pura — da qual resultará um clarão encandeante.
Francis Scott Fitzgerald, Financiando Finnegan
sábado, março 06, 2010
- Angel, eu vi-a hoje. Custou-me tanto. Até fiquei atordoado. Ela está grávida. Parei para olhar bem. Só pensava... Angel, não leves a mal. Mas eu queria... espetar uma faca naquela barriga.
- Porra. Não vou dizer nada. O amor...
- Pois, o amor.
- Posso pôr este diálogo no meu blogue?
- Podes.
- Repete, por favor, para ter a certeza de que não foi um impulso há bocado.
- Não. Podes crer que a minha vontade - que não farei, claro - é de lhe espetar, aliás de cortar, rasgar aquela barriga. Ela devia estar comigo.
- Porra. Não vou dizer nada. O amor...
- Pois, o amor.
- Posso pôr este diálogo no meu blogue?
- Podes.
- Repete, por favor, para ter a certeza de que não foi um impulso há bocado.
- Não. Podes crer que a minha vontade - que não farei, claro - é de lhe espetar, aliás de cortar, rasgar aquela barriga. Ela devia estar comigo.
sexta-feira, março 05, 2010
Eu ia com o meu amigo a subir a rua e ele subitamente parou e deu um grande abraço a alguém.
- Oh pá... há quanto tempo.
- Quem é ele, quem é ele.
O indíviduo em causa era um malabaristas do fogo que agradecia todo o dinheiro que lhe pudessem dar. Tinha a cara escanzelada, imunda, tal como o corpo, o cabelo oleoso e um olhar infinitamente melancólico.
Contou a sua história. A droga atirara-o para ali. A certa altura disse a frase:
- Eu não tenho nada. Nem os meus órgãos podem roubar porque não se aproveitam. Mesmo que me raptassem, não ganhariam nada porque os meus pais não davam um cêntimo por esta carcaça.
Eu só pensava: Será possível devolvê-lo à Vida?
Ele ria, sorria, o meu amigo contava-lhe histórias cómicas. Trocavam abraços ao longo da conversa.
Reparei que o meu amigo gosta de ter aprovação dele. Reparei que olhava muito para ele para ver se ele validava as suas opiniões, uma apreciação de um filme ou de uma música - ou até a graça de uma anedota.
Quando deixámos o malabarista do fogo, ele explicou:
- Ele foi meu chefe num call-center. Era meu supervisor e era um gajo muito atento. Chefe uma vez, chefe para sempre. Hei-de o ver sempre como um chefe e hei-de sentir sempre necessidade de ter um parecer positivo da parte dele. Ser subordinado de alguém é algo que fica para sempre.
- Oh pá... há quanto tempo.
- Quem é ele, quem é ele.
O indíviduo em causa era um malabaristas do fogo que agradecia todo o dinheiro que lhe pudessem dar. Tinha a cara escanzelada, imunda, tal como o corpo, o cabelo oleoso e um olhar infinitamente melancólico.
Contou a sua história. A droga atirara-o para ali. A certa altura disse a frase:
- Eu não tenho nada. Nem os meus órgãos podem roubar porque não se aproveitam. Mesmo que me raptassem, não ganhariam nada porque os meus pais não davam um cêntimo por esta carcaça.
Eu só pensava: Será possível devolvê-lo à Vida?
Ele ria, sorria, o meu amigo contava-lhe histórias cómicas. Trocavam abraços ao longo da conversa.
Reparei que o meu amigo gosta de ter aprovação dele. Reparei que olhava muito para ele para ver se ele validava as suas opiniões, uma apreciação de um filme ou de uma música - ou até a graça de uma anedota.
Quando deixámos o malabarista do fogo, ele explicou:
- Ele foi meu chefe num call-center. Era meu supervisor e era um gajo muito atento. Chefe uma vez, chefe para sempre. Hei-de o ver sempre como um chefe e hei-de sentir sempre necessidade de ter um parecer positivo da parte dele. Ser subordinado de alguém é algo que fica para sempre.
quinta-feira, março 04, 2010
quarta-feira, março 03, 2010
terça-feira, março 02, 2010
segunda-feira, março 01, 2010
A linha divisória entre o comunismo e o fascismo separa mundos totalmente diferentes mas é muito ténue.
Assim como a linha divisória entre o hedonismo e a futilidade é muito ténue.
Ou a linha divisória entre a liberdade individual e o egoísmo.
Ou entre a rotina e o comodismo.
Ou entre a excentricidade e a loucura.
Ou o prazer e o vício.
Ou, claro está, o amor e o ódio.
Assim como a linha divisória entre o hedonismo e a futilidade é muito ténue.
Ou a linha divisória entre a liberdade individual e o egoísmo.
Ou entre a rotina e o comodismo.
Ou entre a excentricidade e a loucura.
Ou o prazer e o vício.
Ou, claro está, o amor e o ódio.
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