domingo, fevereiro 28, 2010
Queriam destruir 400 000 livros - uma notícia de rodapé, naturalmente
http://195.245.168.16/noticias/?t=Casa-da-Moeda-tem-mais-de-400-mil-livros-para-abate.rtp&headline=20&visual=9&article=271976&tm=4http://195.245.168.16/noticias/?t=Casa-da-Moeda-tem-mais-de-400-mil-livros-para-abate.rtp&headline=20&visual=9&article=271976&tm=4
sábado, fevereiro 27, 2010
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
Chamam-lhe Dog. Ninguém conhece tantas pessoas como ele. Trabalha há muitos anos na noite e diz-se possuidor de uma memória visual que nunca esquece um rosto. Sabe os podres de gente famosa, sabe, juntamente com Deus, as ligações entre todas as pessoas. O seu conhecimento profundo da alma humana tornou-o cínico. Fala com palavras e gestos lentos, um olhar profundo. Muitas vezes não olha para o seu interlocutor. O seu ar displicente, vago e distante tornou-o o maior repositório de segredos.
Milhares gostam de se afirmar seus amigos. Mas ele só tem três amigos, entre os quais me incluo.
Milhares gostam de se afirmar seus amigos. Mas ele só tem três amigos, entre os quais me incluo.
Quem não ouviu um registo de conversa semelhante:
- Eles é que se safam e tão bem na vida. Eu que sou honesto é que me lixo. Mas o parvo sou eu. Eu é que tou mal.
?
Com diferentes melodias, é uma melopeia tipificada.
Discordo.
Acho que se usarmos a inteligência, tornamo-nos aquilo que o Dalai-Lama designa por Egoístas Sensatos - seres que percebem que a sua felicidade só advém de uma vida que persiga a virtude dos gregos ou a compaixão dos budistas e cristãos.
Ser bom. Ser justo. Porquê?
a) porque perseguir a virtude é um fim em sim mesmo. Ao contrário de todos os outros objectivos que traçamos na vida que são instrumentais. Eu não quero um carro novo porque sim. Eu quero um carro novo porque anda mais depressa ou porque me dá mais status. Eu não quero subir na carreira porque sim. Quero porque almejo ter mais poder. Ou mais dinheiro. Ou almejo a fama. Ou a glória. Alcançar algo que é, em sim, uma finalidade é ser feliz sem artifícios;
b) porque nos religa a todos os seres, porque nos faz estar conectados com o Universo. Agir tendo em conta o Outro faz-nos sentir parte de uma irmandade universal. Essa ligação ao mundo, à vida - descentra-nos, liberta-nos, faz-nos... tão bem;
c)porque nos cria/instila um sentido da vida e ainda faz concidi-lo com um sentido maior: o do Universo;
d)porque, ao invés de todos os objectivos e desejos de glória, sexo, dinheiro, poder que são insaciáveis, exigindo sempre mais e mais e mais, o bem alimenta o espírito e o espírito não tem apetites como o corpo ou o ego têm.
e)porque nos faz congregar todas as energias num só desiderato. dispersar energias é perder a força de viver;
f) porque praticar o bem nos dá a mais indestrutível e segura força: a da consciência tranquila. Ninguém, absolutamente nada, pode beliscar uma consciência tranquila. Limpa.
- Eles é que se safam e tão bem na vida. Eu que sou honesto é que me lixo. Mas o parvo sou eu. Eu é que tou mal.
?
Com diferentes melodias, é uma melopeia tipificada.
Discordo.
Acho que se usarmos a inteligência, tornamo-nos aquilo que o Dalai-Lama designa por Egoístas Sensatos - seres que percebem que a sua felicidade só advém de uma vida que persiga a virtude dos gregos ou a compaixão dos budistas e cristãos.
Ser bom. Ser justo. Porquê?
a) porque perseguir a virtude é um fim em sim mesmo. Ao contrário de todos os outros objectivos que traçamos na vida que são instrumentais. Eu não quero um carro novo porque sim. Eu quero um carro novo porque anda mais depressa ou porque me dá mais status. Eu não quero subir na carreira porque sim. Quero porque almejo ter mais poder. Ou mais dinheiro. Ou almejo a fama. Ou a glória. Alcançar algo que é, em sim, uma finalidade é ser feliz sem artifícios;
b) porque nos religa a todos os seres, porque nos faz estar conectados com o Universo. Agir tendo em conta o Outro faz-nos sentir parte de uma irmandade universal. Essa ligação ao mundo, à vida - descentra-nos, liberta-nos, faz-nos... tão bem;
c)porque nos cria/instila um sentido da vida e ainda faz concidi-lo com um sentido maior: o do Universo;
d)porque, ao invés de todos os objectivos e desejos de glória, sexo, dinheiro, poder que são insaciáveis, exigindo sempre mais e mais e mais, o bem alimenta o espírito e o espírito não tem apetites como o corpo ou o ego têm.
e)porque nos faz congregar todas as energias num só desiderato. dispersar energias é perder a força de viver;
f) porque praticar o bem nos dá a mais indestrutível e segura força: a da consciência tranquila. Ninguém, absolutamente nada, pode beliscar uma consciência tranquila. Limpa.
Costuma-se dizer que nada foi inventado depois dos gregos. Está lá tudo. Quando lemos Platão, Aristóteles, Homero temos a certeza de que tal é mesmo verdade.
Um dos aspectos que mais me agrada é a informalidade do tom. Ao ler Sócrates a dialogar com amigos, é como se não tivessem decorrido dois mil e quatrocentos anos entre nós.
- Foste à discoteca?
- Não, ando mais recolhido. O sexo e a bebida eram a minha desgraça.
A discoteca é referida como as festas, o sexo como a luxúria e os prazeres da carne, a bebida como o vinho.
Tudo é igual, só mudaram as roupagens.
Um dos aspectos que mais me agrada é a informalidade do tom. Ao ler Sócrates a dialogar com amigos, é como se não tivessem decorrido dois mil e quatrocentos anos entre nós.
- Foste à discoteca?
- Não, ando mais recolhido. O sexo e a bebida eram a minha desgraça.
A discoteca é referida como as festas, o sexo como a luxúria e os prazeres da carne, a bebida como o vinho.
Tudo é igual, só mudaram as roupagens.
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
terça-feira, fevereiro 23, 2010
Posso morrer porque amei e porque fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de nata, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo, mas posso morrer sem nunca ter tido um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara com um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante.
Adília Lopes
Adília Lopes
A poesia tem uma porta hermeticamente fechada para os imbecis, aberta de par em par para os inocentes. Não é uma porta fechada com chave ou ferrolho, mas sua estrutura é tal que, por mais esforço que façam os imbecis, não conseguem abri-la, enquanto cede à simples presença dos inocentes. Não há nada mais oposto à imbecilidade que a inocência. A característica do imbecil é sua aspiração sistemática a certa ordem de poder. O inocente, ao contrário. Nega-se a exercer o poder porque possui todos.
Aldo Pellegrini
Aldo Pellegrini
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
Do Real
Ela vinha toda vestida de verde, a pele bronzeada, um corpo revalorizado pelas formas do decote e da minissaia verde.
Entrou na sala de trabalho.
Um tipo atirou:
- Se fosses uma alface, comia-te toda.
Ela aproximou-se dele, quase que encostou a cara à dele e disse de forma audível para todos:
- Não tens tomates para isso.
Entrou na sala de trabalho.
Um tipo atirou:
- Se fosses uma alface, comia-te toda.
Ela aproximou-se dele, quase que encostou a cara à dele e disse de forma audível para todos:
- Não tens tomates para isso.
domingo, fevereiro 21, 2010
Entre 1450 e 1500, publicavam-se 250 livros por ano. A bibliografia total da história da humanidade cifrava-se por 35 000 títulos, um número escasso para algumas bibliotecas actuais. O mesmo é dizer que há 500 anos era possível alguém ter todos os livros.
Em 1952, publicaram-se 250 mil por ano.
Hoje em dia, publica-se um livro a cada trinta segundos.
Em 1952, publicaram-se 250 mil por ano.
Hoje em dia, publica-se um livro a cada trinta segundos.
sábado, fevereiro 20, 2010
Joie de vivre
- Porque é que vives assim a vida?
- Se a vida já tem tantos obstáculos naturais à felicidade, para que é que eu hei-de criar mais amarras artificias? Há tantos marcos de sofrimento garantidos na vida: a morte - a dos outros e a nossa -, as doenças, o sofrimento, as perdas, as traições, as desilusões; por que raio hei-de eu acrescentar mais barreiras à felicidade? Não me faz sentido mortificar-me, ver pecados em tudo, como o fazem algumas religiões. Não me faz sentido ser escravo do trabalho se não tenho tempo depois para gastar o dinheiro. Não me faz sentido estar, como algumas pessoas que eu conheço, um fim-de-semana a limpar a casa quando no dia a seguir posso estar morto. A casa, o dinheiro, o tempo - são para eu usar de forma que os usufrua; não podem ser pilares da minha prisão. Não me faz sentido ser escravo da família, do sucesso, ou do que quer que seja. Tenho um talento natural para a alegria.
- Se a vida já tem tantos obstáculos naturais à felicidade, para que é que eu hei-de criar mais amarras artificias? Há tantos marcos de sofrimento garantidos na vida: a morte - a dos outros e a nossa -, as doenças, o sofrimento, as perdas, as traições, as desilusões; por que raio hei-de eu acrescentar mais barreiras à felicidade? Não me faz sentido mortificar-me, ver pecados em tudo, como o fazem algumas religiões. Não me faz sentido ser escravo do trabalho se não tenho tempo depois para gastar o dinheiro. Não me faz sentido estar, como algumas pessoas que eu conheço, um fim-de-semana a limpar a casa quando no dia a seguir posso estar morto. A casa, o dinheiro, o tempo - são para eu usar de forma que os usufrua; não podem ser pilares da minha prisão. Não me faz sentido ser escravo da família, do sucesso, ou do que quer que seja. Tenho um talento natural para a alegria.
Nunca conheci uma pessoa cruel que não fosse insegura. É tudo uma questão de falta de afecto, ou, indo directamente ao osso: de falta de amor. Um homem resolvido não tem necessidade de esmagar o outro. A necessidade de exibição de força é uma tentativa desesperada de que não olhem para as nossas fraquezas.
Outro dia contaram-me que uma pessoa que tive a infelicidade de conhecer e que passou a vida toda a fazer mal ao seu semelhante, ia a andar na rua com o seu grupinho (é que o filho da puta em questão gosta de atacar quando tem um número maior do que opositor) e viu um casal de namorados a passar e, subitamente, deu um arraial de porrada no gajo. Quando lhe perguntaram o porquê, ele disse apenas:
- O gajo ia a andar mais depressa do que eu.
É preciso padecermos de um extraordinário complexo de inferioridade para sentirmos alguém a andar na rua mais depressa do que nós como uma ofensa.
Outro dia contaram-me que uma pessoa que tive a infelicidade de conhecer e que passou a vida toda a fazer mal ao seu semelhante, ia a andar na rua com o seu grupinho (é que o filho da puta em questão gosta de atacar quando tem um número maior do que opositor) e viu um casal de namorados a passar e, subitamente, deu um arraial de porrada no gajo. Quando lhe perguntaram o porquê, ele disse apenas:
- O gajo ia a andar mais depressa do que eu.
É preciso padecermos de um extraordinário complexo de inferioridade para sentirmos alguém a andar na rua mais depressa do que nós como uma ofensa.
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
quarta-feira, fevereiro 17, 2010
Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue
de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo
o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando
a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre
os ombros do mundo
para acompanhar o fluxo ingenuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre pedras
Se a palavra vibra como um meteoro ou desliza como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto.
António Ramos Rosa
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue
de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo
o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando
a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre
os ombros do mundo
para acompanhar o fluxo ingenuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre pedras
Se a palavra vibra como um meteoro ou desliza como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto.
António Ramos Rosa
O herói
Ele estava num cargo de chefia num país tradicionalmente corrupto. Um dia, a corja à volta dele roubou o Estado à descarada. Ele viu e recusou-se a mamar dessa teta. Os outros ameaçaram-no: se não entras no esquemas, montamos-te uma cilada. Ele não se assustou. Eles, cúmplices com os media e a polícia e os juízes, lançaram a campanha de que ele era um corruptor que roubava um povo que passava fome e despediram-no.
Palavras por criar
Qual o contrário de solidão? Não há. Podes pensar em não estar só, em estar equilibrado, mas aquilo a que me refiro é ao sentimento oposto à carência de pessoas: o sentimento de excesso de pessoas, coisas, experiências - até mesmo o excesso de identificação e afinidades com o mundo. O excesso que o poema A passagem das horas de Álvaro de Campos transmites.
Outra: qual o contrário de culpa? Não há. O orgulho não é a mesma coisa. O sentimento de consciência tranquila, de leveza não é a mesma coisa.
Outra: qual o contrário de culpa? Não há. O orgulho não é a mesma coisa. O sentimento de consciência tranquila, de leveza não é a mesma coisa.
Uma das questões que levantam sempre tremendas dificuldades para um crente são as grandes tragédias.
O Haiti, recentemente. Andei a ler em busca de alguém que explicasse à luz de Deus como era possível... e lá encontrei o Anselmo Borges. A argumentação dele não me satisfez.
É tremendamente difícil argumentar explicando como Deus fez ou deixou fazer sendo Ele omnipotente e absolutamente inclinado para o Bem.
Pode-se dizer duas coisas:
a) nós não conseguimos explicar um ser infinitamente mais complexo do que nós, assim como uma formiga não consegue explicar um ser humano;
b) como escreveu João Paulo II, Deus concedeu ao homem infinita liberdade e paga por isso constantemente um preço muito caro.
O Haiti, recentemente. Andei a ler em busca de alguém que explicasse à luz de Deus como era possível... e lá encontrei o Anselmo Borges. A argumentação dele não me satisfez.
É tremendamente difícil argumentar explicando como Deus fez ou deixou fazer sendo Ele omnipotente e absolutamente inclinado para o Bem.
Pode-se dizer duas coisas:
a) nós não conseguimos explicar um ser infinitamente mais complexo do que nós, assim como uma formiga não consegue explicar um ser humano;
b) como escreveu João Paulo II, Deus concedeu ao homem infinita liberdade e paga por isso constantemente um preço muito caro.
terça-feira, fevereiro 16, 2010
domingo, fevereiro 14, 2010
Poder, glória, sexo, dinheiro e amor. São todos os móbeis do ser humano. Não há mais. Qualquer tentativa que esboçes, dizendo: Não, também há ________; verás que pode ser subsumida nestes cinco grandes chapéus.
Mas o amor é o mais importante. Porquê? Porque qualquer um dos outros - repara bem -, qualquer um dos outros, por mais que o tenhas, queres sempre mais. O que farias se tivesses tudo o que almejavas?
O amor é diferente. Não quer mais. Não mistura ego. É um estado de leveza. Sem sofreguidão. Sem o peso do eu a querer ser reconhecido. É um descentrares-te. Veres o infinitamente belo em tudo.
Mas o amor é o mais importante. Porquê? Porque qualquer um dos outros - repara bem -, qualquer um dos outros, por mais que o tenhas, queres sempre mais. O que farias se tivesses tudo o que almejavas?
O amor é diferente. Não quer mais. Não mistura ego. É um estado de leveza. Sem sofreguidão. Sem o peso do eu a querer ser reconhecido. É um descentrares-te. Veres o infinitamente belo em tudo.
sábado, fevereiro 13, 2010
sexta-feira, fevereiro 12, 2010
quarta-feira, fevereiro 10, 2010
«Pascal comentou que os males dos homens seriam bastante atenuados se tão-somente conseguissem aprender a permanecer calmamente nos seus quartos. [...] Não é provável que os contemplativos se tornem jogadores, proxenetas ou bêbedos, por norma não pregam a intolerância ou são beligerantes, não acham necessário roubar, burlar ou oprimir os pobres.»
Aldous Huxley
Aldous Huxley
Do real
Um homem vai a entrar no prédio e a porteira diz-lhe:
- Olhe que o seu motorista destruiu o meu vaso ao fazer marcha atrás.
- Não lhe diga, por favor. Eu trato de tudo.
E nesse dia oferece o melhor vaso que encontra à porteira.
Um artista conceituado ganha um prémio. Telefonam-lhe de véspera e pede encarecidamente ao júri que dêem a alguém mais novo de modo que isso o lance na carreira.
Na guerra, um general vê um soldado raso a tiritar ao frio, tira o seu casaco e dá-lho, ficando de camisa.
- Olhe que o seu motorista destruiu o meu vaso ao fazer marcha atrás.
- Não lhe diga, por favor. Eu trato de tudo.
E nesse dia oferece o melhor vaso que encontra à porteira.
Um artista conceituado ganha um prémio. Telefonam-lhe de véspera e pede encarecidamente ao júri que dêem a alguém mais novo de modo que isso o lance na carreira.
Na guerra, um general vê um soldado raso a tiritar ao frio, tira o seu casaco e dá-lho, ficando de camisa.
terça-feira, fevereiro 09, 2010
Milionário desfaz-se da fortuna que o faz infeliz
12h55m
Augusto Correia
Um milionário austríaco assegura que o dinheiro não traz felicidade e está a desfazer-se da fortuna. Fez rifas, a 99 euros, de uma casa nos Alpes e pretende mudar-se para uma cabana de madeira.
A ideia de que o dinheiro não dá felicidade há muito que se enraizou nas sociedades mundiais, especialmente entre aqueles que vêem no chavão um conforto espiritual face às maleitas na carteira. Mas para o quase ex-milionário austríaco Karl Rabeder, os milhões são um entrave a uma vida feliz.
Aos 47 anos, Karl Rabeder, um rico homem de negócios austríaco, decidiu livrar-se do peso da fortuna pessoal, avaliada em quase quatro milhões de euros, para dar livre curso a uma vida mais térrea e desprendida. "A minha ideia é ficar sem nada, absolutamente nada", disse.
Uma casa na Provença francesa está à venda por cerca de 700 mil euros. Já despachou o presidencial Audi A8, avaliado em cerca de 50 mil euros, e muitos outros ricos bens pessoais. Uma outra propriedade, um luxuoso chalet nos Alpes austríacos, com 321 metros de área habitável num terreno de 2711 metros quadrados pode ser adquirido por 99 euros - o valor de cada uma das 20 mil rifas que Rabeder criou para se desfazer da moradia alpina.
"O dinheiro é contraproducente, impede a felicidade de fluir", disse Karl Rabeder, em declarações ao tablóide britânico "The Daily Telegraph". Desapossado de todos os luxos que conquistou ao longo de uma vida de trabalho, basta-lhe o amor, da mulher, e uma cabana de madeira nos Alpes para seguir com a vida.
"Venho de uma família em que as regras eram trabalhar duro para arrecadar o mais possível", contou. Um modo de vida que seguiu durante muitos anos, mas que, gradualmente, o foi consumindo por dentro. "Durante muitos anos não fui suficientemente corajoso para fugir das armadilhas de uma existência confortável", acrescentou Rabeder, Karl de primeiro nome, como o do pai do comunismo, Marx de apelido.
O momento de charneira na vida de Rabeder aconteceu, paradoxalmente, numa luxuosa viagem às paradisíacas ilhas do Hawai, na companhia da mulher. "Nessas três semanas, gastámos todo o dinheiro que quisemos. Mas, em todo o tempo tivemos a sensação de que não conhecemos uma única pessoa real – eram todos actores", disse. "Os empregados faziam o papel de serem simpáticos e os outros hóspedes o papel de serem importantes, mas ninguém era real", acrescentou.
"Foi o maior choque da minha vida, quando me apercebi quão horrível, sem alma e vazia era o estilo de vida cinco estrelas", disse Rabeder. Foi o início de uma epifania a dois tempos, a duas realidades. Depois do choque no paraíso, a ligação à terra, em viagens a África e América do Sul. "Senti que há uma relação entre a nossa riqueza e a pobreza deles", acrescentou.
Determinado a fazer o pouco que uma só pessoas pode fazer no meio de 6,9 milhões de humanos, Karl Rabeder vai destinar o resultado das vendas a obras de caridade na América do Centro e do Sul. O dinheiro vai apoiar soluções de microcrédito em países como El Salvador, Honduras, Bolívia, Peru, Argentina e Chile.
12h55m
Augusto Correia
Um milionário austríaco assegura que o dinheiro não traz felicidade e está a desfazer-se da fortuna. Fez rifas, a 99 euros, de uma casa nos Alpes e pretende mudar-se para uma cabana de madeira.
A ideia de que o dinheiro não dá felicidade há muito que se enraizou nas sociedades mundiais, especialmente entre aqueles que vêem no chavão um conforto espiritual face às maleitas na carteira. Mas para o quase ex-milionário austríaco Karl Rabeder, os milhões são um entrave a uma vida feliz.
Aos 47 anos, Karl Rabeder, um rico homem de negócios austríaco, decidiu livrar-se do peso da fortuna pessoal, avaliada em quase quatro milhões de euros, para dar livre curso a uma vida mais térrea e desprendida. "A minha ideia é ficar sem nada, absolutamente nada", disse.
Uma casa na Provença francesa está à venda por cerca de 700 mil euros. Já despachou o presidencial Audi A8, avaliado em cerca de 50 mil euros, e muitos outros ricos bens pessoais. Uma outra propriedade, um luxuoso chalet nos Alpes austríacos, com 321 metros de área habitável num terreno de 2711 metros quadrados pode ser adquirido por 99 euros - o valor de cada uma das 20 mil rifas que Rabeder criou para se desfazer da moradia alpina.
"O dinheiro é contraproducente, impede a felicidade de fluir", disse Karl Rabeder, em declarações ao tablóide britânico "The Daily Telegraph". Desapossado de todos os luxos que conquistou ao longo de uma vida de trabalho, basta-lhe o amor, da mulher, e uma cabana de madeira nos Alpes para seguir com a vida.
"Venho de uma família em que as regras eram trabalhar duro para arrecadar o mais possível", contou. Um modo de vida que seguiu durante muitos anos, mas que, gradualmente, o foi consumindo por dentro. "Durante muitos anos não fui suficientemente corajoso para fugir das armadilhas de uma existência confortável", acrescentou Rabeder, Karl de primeiro nome, como o do pai do comunismo, Marx de apelido.
O momento de charneira na vida de Rabeder aconteceu, paradoxalmente, numa luxuosa viagem às paradisíacas ilhas do Hawai, na companhia da mulher. "Nessas três semanas, gastámos todo o dinheiro que quisemos. Mas, em todo o tempo tivemos a sensação de que não conhecemos uma única pessoa real – eram todos actores", disse. "Os empregados faziam o papel de serem simpáticos e os outros hóspedes o papel de serem importantes, mas ninguém era real", acrescentou.
"Foi o maior choque da minha vida, quando me apercebi quão horrível, sem alma e vazia era o estilo de vida cinco estrelas", disse Rabeder. Foi o início de uma epifania a dois tempos, a duas realidades. Depois do choque no paraíso, a ligação à terra, em viagens a África e América do Sul. "Senti que há uma relação entre a nossa riqueza e a pobreza deles", acrescentou.
Determinado a fazer o pouco que uma só pessoas pode fazer no meio de 6,9 milhões de humanos, Karl Rabeder vai destinar o resultado das vendas a obras de caridade na América do Centro e do Sul. O dinheiro vai apoiar soluções de microcrédito em países como El Salvador, Honduras, Bolívia, Peru, Argentina e Chile.
domingo, fevereiro 07, 2010
R. é uma pessoa que não consegue estar com pessoas, pelo que está sempre em casa.
A. é uma pessoa que não consegue estar sozinho, pelo que está sempre na rua.
Ambos têm medo de se conhecer a si próprios. Um não suporta que os outros o desnudem e o vejam como é. O outro não suporta sequer pensar quem ele próprio é.
A. é uma pessoa que não consegue estar sozinho, pelo que está sempre na rua.
Ambos têm medo de se conhecer a si próprios. Um não suporta que os outros o desnudem e o vejam como é. O outro não suporta sequer pensar quem ele próprio é.
sábado, fevereiro 06, 2010
Homem que é homem come e cala.
Homem que é homem não esconde as lágrimas.
Homem que é homem não tem medo de amar.
Homem que é homem admite as suas fraquezas, fantasmas e inseguranças.
Homem que é homem não dá pontapés a quem está no chão.
Homem que é homem tem piedade.
Homem que é homem não tem medo de exibir a mulher que habita dentro de si.
Homem que é homem expressa os seus carinhos físicos pelos amigos.
Homem que é homem não esconde as lágrimas.
Homem que é homem não tem medo de amar.
Homem que é homem admite as suas fraquezas, fantasmas e inseguranças.
Homem que é homem não dá pontapés a quem está no chão.
Homem que é homem tem piedade.
Homem que é homem não tem medo de exibir a mulher que habita dentro de si.
Homem que é homem expressa os seus carinhos físicos pelos amigos.
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
Fui lá com o meu tio várias vezes. O senhor estava sentado com um mesa à frente onde tinha os cromos arrumados. Trocava três cromos por um cromo. (Hoje penso: que negócio estranho. Como é que ele fazia dinheiro?)
Havia vários miúdos como eu ao mesmo. Eu esperava a minha vez e falava com o homem.
Quero o 7, o 52, o 139. E dava todos os que tinha tinha repetidos. Se tinha nove repetidos, só podia escolher três que me faltavam.
Havia um cromo que o homem nunca tinha.
Um dia, o meu tio perguntou-me:
- Angel, já tens o 47?
- Não. Ele não tem.
- Não tem? Ele tem todos.
- Ele disse que não tinha.
- Diz que lhe ofereces 20 cromos por esse e vamos ali comprar cromos para ficares com muitos repetidos.
Fomos até à mesa do homem.
- Dou-lhe vinte cromos pelo 47.
O homem foi buscá-lo e vi que tinha vários 47.
Nunca até então eu conhecera a mentira. Nunca até então pensara que alguém podia dizer algo sabendo que não era verdade.
Havia vários miúdos como eu ao mesmo. Eu esperava a minha vez e falava com o homem.
Quero o 7, o 52, o 139. E dava todos os que tinha tinha repetidos. Se tinha nove repetidos, só podia escolher três que me faltavam.
Havia um cromo que o homem nunca tinha.
Um dia, o meu tio perguntou-me:
- Angel, já tens o 47?
- Não. Ele não tem.
- Não tem? Ele tem todos.
- Ele disse que não tinha.
- Diz que lhe ofereces 20 cromos por esse e vamos ali comprar cromos para ficares com muitos repetidos.
Fomos até à mesa do homem.
- Dou-lhe vinte cromos pelo 47.
O homem foi buscá-lo e vi que tinha vários 47.
Nunca até então eu conhecera a mentira. Nunca até então pensara que alguém podia dizer algo sabendo que não era verdade.
os rapazes a que me refiro não são refinados
eles saem com raparigas que lutam e mordem
eles não se preocupam com a fortuna
basta-lhes treparem nelas treze vezes por noite
um pendura-lhe um chapéu numa teta
outro cava-lhe uma cruz nas costas
eles não estão nem aí para a sagacidade
os rapazes a que me refiro não são refinados
eles aparecem com raparigas que lutam e mordem
que não conseguem ler e que não conseguem escrever
que riem como se se desintegrassem
e se masturbam com dinamite
os rapazes a que me refiro não são refinados
eles não conseguem conversar sobre isto e aquilo
eles estão-se a cagar para a arte
eles matam-te com a mesma naturalidade com que mijam
eles falam do que quer que lhes venha à cabeça
eles fazem tudo o que diz aquilo que têm dentro das cuecas
os rapazes a que me refiro não são refinados
eles abanam as montanhas quando dançam
e. e. cummings by Angel
eles saem com raparigas que lutam e mordem
eles não se preocupam com a fortuna
basta-lhes treparem nelas treze vezes por noite
um pendura-lhe um chapéu numa teta
outro cava-lhe uma cruz nas costas
eles não estão nem aí para a sagacidade
os rapazes a que me refiro não são refinados
eles aparecem com raparigas que lutam e mordem
que não conseguem ler e que não conseguem escrever
que riem como se se desintegrassem
e se masturbam com dinamite
os rapazes a que me refiro não são refinados
eles não conseguem conversar sobre isto e aquilo
eles estão-se a cagar para a arte
eles matam-te com a mesma naturalidade com que mijam
eles falam do que quer que lhes venha à cabeça
eles fazem tudo o que diz aquilo que têm dentro das cuecas
os rapazes a que me refiro não são refinados
eles abanam as montanhas quando dançam
e. e. cummings by Angel
Mysterium tremendum
- Porquê a vida? Para quê a vida? Porquê a vida e não o nada? Porquê sequer a possibilidade de pensar a vida ou o nada?
quinta-feira, fevereiro 04, 2010
quarta-feira, fevereiro 03, 2010
Impressionante a quantidade de vidas secretas que nos foram reveladas nas últimas semanas. Parecia que o Universo nos soprava um sinal com letras invisíveis: todos temos uma vida secreta. Que pode ir desde o consumo de droga, a práticas de swing, à pertença a uma sociedade secreta, a uma simples mensagenzinha secreta que se troca com um sonho romântico imorredoiro.
terça-feira, fevereiro 02, 2010
Uma rapariga fica gravemente doente e passa semanas, meses, sozinha entre a brancura de quatro paredes. Não tem uma pessoa no quarto.
Durante meses, só uma amiga a visita.
Como não sair de lá ressentida, defensiva e cruel?
OK, o Mandela foi torturado, preso 27 anos, e manteve um coração bom e limpo. OK, os budistas tibetanos que foram torturados garantem pedir nas suas orações pelos torcionários.
Mas é difícil, é muito difícil. O caminho espiritual só se faz degrau a degrau.
Durante meses, só uma amiga a visita.
Como não sair de lá ressentida, defensiva e cruel?
OK, o Mandela foi torturado, preso 27 anos, e manteve um coração bom e limpo. OK, os budistas tibetanos que foram torturados garantem pedir nas suas orações pelos torcionários.
Mas é difícil, é muito difícil. O caminho espiritual só se faz degrau a degrau.
segunda-feira, fevereiro 01, 2010
Magnetismo
Quando o Marlon Brando aparece n´O Padrinho, os olhos do espectador não vêem mais nada. Não é a beleza - Marlon está velho e gordo -, é o carisma.
Quando o Mourinho (personagem cuja ideologia do vencer a todo o custo, com mau perder e mau ganhar, não admiro) entra em campo, a câmara do estádio parece que só tem olhos para ele.
James Dean morreu em 1955, mas ainda hoje o seu estilo permanece actual. É curioso que parece tremendamente mais actual do que qualquer apresentador da década de 1980 que aparece na RTP Memória. Quando vês uma imagem dele, ainda hoje, sentes que ali corre eternamente uma intensa vida, um magnetismo animal imortal.
Mesmo quando o Jim Morrison estava bêbado, drogado e as suas barbas se assemelhavam às de um vagabundo, a sua entrada em palco gerava a histeria.
Tenho várias amigas minhas que veneram o Johnny Deep. Vão ver todo-o-filme-em-que-ele-entra. (Desconfio até de que não vêem o filme, mas de que só o vêem a ele.)
O que é que têm em comum estas personalidades? Algumas morreram cedo devido a excessos (Dean ao excesso de velocidade, Morrison ao excesso de droga), algumas eram personalidades tortuosas (julgo que as cinco o são), algumas tinham um carácter dúbio, algumas um espírito teenager encarcerado num corpo adulto, algumas eram decadentes no pior sentido da palavra - mas havia algo irraspável e hipnótico nelas.
O carisma.
Quando o Mourinho (personagem cuja ideologia do vencer a todo o custo, com mau perder e mau ganhar, não admiro) entra em campo, a câmara do estádio parece que só tem olhos para ele.
James Dean morreu em 1955, mas ainda hoje o seu estilo permanece actual. É curioso que parece tremendamente mais actual do que qualquer apresentador da década de 1980 que aparece na RTP Memória. Quando vês uma imagem dele, ainda hoje, sentes que ali corre eternamente uma intensa vida, um magnetismo animal imortal.
Mesmo quando o Jim Morrison estava bêbado, drogado e as suas barbas se assemelhavam às de um vagabundo, a sua entrada em palco gerava a histeria.
Tenho várias amigas minhas que veneram o Johnny Deep. Vão ver todo-o-filme-em-que-ele-entra. (Desconfio até de que não vêem o filme, mas de que só o vêem a ele.)
O que é que têm em comum estas personalidades? Algumas morreram cedo devido a excessos (Dean ao excesso de velocidade, Morrison ao excesso de droga), algumas eram personalidades tortuosas (julgo que as cinco o são), algumas tinham um carácter dúbio, algumas um espírito teenager encarcerado num corpo adulto, algumas eram decadentes no pior sentido da palavra - mas havia algo irraspável e hipnótico nelas.
O carisma.
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