domingo, janeiro 31, 2010

Martelar um prego de cada vez

Há pessoas assim. Falam para si próprias, como se intimamente precisassem de se convencer de uma particular qualidade.

As suas palavras reverberam, mas se atravessarmos o perfume e o brilho que emanam, atingimos o coração do vazio.

O orador enumerou - ouçam bem -, o orador enumerou as... 352 razões por que a floresta tropical etc e tal.

352?

Mas em que planeta alguém escuta outro alguém elencar 3 5 2 razões?

Vai-te... alguém devia ter gritado.

Dale Carnegie dizia que, ao falar em público, dever-se-ia repetir a mesma ideia muitas vezes e nunca várias ideias. A atenção das pessoas parece fugir. Criticava alguém que expressava 11 ideias numa palestra.

Pois, bem, Dale e este senhor que percorreu 352...? Este indíviduo merecia ir para o guiness, os media.

O seu ego cobriu-o de rídiculo.
Sempre me pareceu que, de entre todas as profissões, ninguém tinha tanta liberdade como o artista.

Patrão de si mesmo, diante da folha, da tela, da pauta em branco, pode fazer tudo. E é essa liberdade do tudo que vai preencher o nada, da escolha entre o infinito; o que aterroriza tanta gente.

Com o tempo, foi-me revelado que a escrita de um livro é um processo orgânico e que a história, as personagens, a vida do livro tem leis e vontade próprias. E que o autor é domado pelo próprio livro.
Abraçados, em vão os amantes tentam desesperadamente fundir os seus êxtases isolados num único transcender do eu. Pela sua própria natureza, todo o espírito que assume corpórea está condenado a sofrer e a desfruir na solidão. As sensações, sentimentos, percepções e fantasias são todos privados e, excepto por via dos símbolos e indirectamente, incomunicáveis. Podemos partilhar informação sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, todo o grupo humano é uma sociedade de universos insulares.

Aldous Huxley
Um dia vais arrepender-te/ Vou fazer-me explodir em palavras diante de ti/ e vamos morrer os dois cravados de sentidos.

Pedro Canais

sábado, janeiro 30, 2010

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente

que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

david mourão-ferreira
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Carlos Drummond de Andrade
Quando imitas alguém, serás sempre sub-esse-alguém.

Procura a tua voz - terá sempre a mais-valia de ser única.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

- Chega aqui. Sobe mais uns degraus.
Parei. Olhei para baixo. Conseguia abranger toda a discoteca com o olhar. Eram seis da manhã de uma terça-feira. Milhares de pessoas dançavam e bebiam em euforia.
- Mas ninguém trabalha amanhã?
Quem seriam essas pessoas?

a) estudantes;
b) desempregados;
c) patrões;
d) free-lancers;
e) pessoas que trabalham à noite;
f) pessoas que estavam de folga no dia seguinte;
g) pessoas que estavam de férias;
h) pessoas que se iam baldam no dia a seguir ou chegar tarde;
i) pessoas que não se importariam de ir para o trabalho de directa.

I don´t want to grow old

Conheço trintões e trintinhas com medo de envelhecer. Os trintas são os anos de maiores mudanças para a maior parte das pessoas.

E há quem não queira envelhecer. Quem não queira mudar de gostos. Quem queira continuar a vestir-se como um teenager. Quem queira continuar sem filhos. Sem relações absorventes. Sem famílias-prisão. Que queira continuar a sair à noite, por exemplo.

Que ainda faça da liberdade o maior dos seus valores.

E também conheço quem se tenha adaptado a uma vida mais convencional e esteja feliz.

Há de tudo felizmente.

O importante é:

a) perceber que o envelhecimento não é o passar dos anos, mas o estiolamento do espírito. O Jorge Palma é mais velho do que o Paulo Portas?

b) as receitas de felicidade são pessoas e intransmissíveis;

c) o que a sociedade espera de ti pode não ser exactamente o melhor para ti;

d) saber que nunca se pode comer o bolo e... ficar com ele;

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Há um ponto em que todas as categorias mentais se dissolvem e tu percebes o vazio último de tudo. As ilusões derretem as suas arestas e subjaz a Verdade libertadora. O alegre e o triste deixam de ser opostos, o bom e o mau deixam de ser pólos contraditórios, a beleza e a fealdade deixam de ser impressões coladas às coisas. Percebes que o tudo e o nada não estão separados. Cada parte está no todo e o todo está em cada parte. Tudo está ligado. Tudo contém em si todas as coisas. Tudo é uma coisa e o seu contrário.
Olha bem este título: Five Hundred Days of Summer

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Deve ter havido momentos, ainda nessa altura, em que Daisy não correspondeu
inteiramente aos seus sonhos - não por culpa dela, mas devido à colossal vitalidade da própria ilusão dele, que tinha ultrapassado Daisy, e tudo o mais. Tinha-se lançado na ilusão com tal paixão criadora, que constantemente a acrescentava, ataviando-a de todas as plumas de cor que lhe aparecessem pelo caminho. Não há fogo nem frescura, por muito grandes que sejam, capazes de competir com os fantasmas que, no seu íntimo, um homem consegue armazenar. Quando me pus a observá-lo, recompôs-se um pouco, visivelmente. A sua mão apoderou-se da dela e quando ela lhe sussurrou qualquer coisa ao ouvido voltou-se para ela com um ímpeto de emoção. Acho que era a voz dela, com aquele calor febril e flutuante, o que mais o arrebatava, porque inexcedível pelos sonhos - aquela voz era uma canção imortal.

Francis Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby

terça-feira, janeiro 26, 2010

A sociedade secreta do bem

Só trabalhavam de noite. Iam de capuz arrombar as caixas de correio para porem lá dinheiro. Conspiravam para saberem os sonhos das pessoas e moviam lóbis para os concretizarem. Os mais radicais tiravam Medicina e secretamente tratavam de todos os sem-abrigos da cidade. Tinham off shores para onde desviavam rios de dinheiro para salvarem pessoas de morrerem à fome. Gastavam milhões na publicidade do Amor e da Compaixão.
- Não acredito em coincidências. O meu irmão é tropa e foi vítima de um explosivo e ficou com uma perna desfeita, e esteve no hospital quase um ano e conhece uma enfermeira que é hoje a mulher dele. Ele diz que teve de lhe acontecer algo mau para conhecer a mulher da vida. Eh pá! Que visão assustadora! Era preciso ter-lhe rebentado uma mina? Quem é que se está a rir lá em cima? É uma forma de ele aceitar melhor o sofrimento porque passou, claro está. Claro que as pessoas precisam de acreditar porque é um conforto pensar que as pessoas que temos de conhecer, conhecemos. É muito menos bonito pensar do que pensar que em 6 mil milhões e quatrocentas só conhecemos uma pequena parte e que, por isso, há milhares ou milhões de possíveis homens da vida e mulheres da vida. Se é Deus a enviar-nos as pessoas certas, claro que essa ideia nos sossega, não é? A ideia crua é que somos todos suplentes. Na amizade, no amor, no trabalho. Se a nossa mulher conhecesse toda a gente do mundo, se calhar escolheria outro. Se o nosso patrão, mesmo os nossos amigos...
O António Lobo Antunes disse que um dia conheceu um escritor que muito admirava. Espantado e deslumbrado com a possibilidade do encontro, ouvi-o primeiramente dizer:

- Bom dia.

Ficou perturbado porque pensava que iria ouvir qualquer coisa extraordinária e fora do mundo.

Quando estamos apaixonados e quando idolatramos alguém, não admitimos a hipótese de que o objecto da nossa paixão ou idolatria não seja interessante e surpreendente em cada um dos minutos das vinte e quatro horas do dia.
- Com as mulheres, Angel, só há uma regra: mentir, mentir, mentir, mentir, mentir, mentir.

O Casaco

Tenho uma vergonha (in)confessável a contar. Passei na rua e vi um casaco e fiquei especado a olhar para a montra. Entrei, os meus olhos pecaminosos, as minhas mãos pecaminosas, percorreram o casaco. Virei a etiqueta. O preço era proibitivo.

Estava diante de algo que depois de adquirido iria suprir todas as minhas falhas. O pedaço de sonho que me faltava. Que faria de mim um ser humano completo.

Como seria feliz com aquele casaco.

Como viveria feliz com aquele casaco.

Nem em casa o tiraria.

Como me saberia melhor a comida com aquele casaco.

Como andaria leve na rua com aquele casaco.

Como estaria radiante na presença dos meus amigos, conversando, dentro daquele casaco.

Juntei dinheiro. Fiz as minhas preces. Um dia, depois de muito amealhar decidi que nenhum sonho pode ser impedido por dinheiro. Tinha medo de que das inúmeras pessoas que passavam naquela rua, algumas estacassem a olhar aquele pedaço de cristal puro e que eu ficasse sem ele.

Apressei-me, corri até à loja.

«Lindo!Lindo!» - exclamei interiormente, num estado de felicidade superlativa.

O casaco ainda lá estava.

Entrei, experimentei-o e...

Não.

O casaco não encaixa.

Não o comprei.

Às vezes, o sonho não tem as medidas da realidade. Às vezes, as costuras da realidade deixam de fora o seio belo e cintilante do sonho.

Quando tentamos que os planos sejam milimetricamente transpostos para a vida, às vezes sentimos o choque. Com o tempo, aprendemos a não desenhar a vida, mas a deixarmo-nos flutuar nos desenhos que Deus, o Destino, a Vida, ou qualquer «obscura hierarquia» tem para nós...

segunda-feira, janeiro 25, 2010

32

Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio acto em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois "amo-te" ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constitui a actividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não existisse. Meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não nasceram de coisa alguma- de coisa alguma, pelo menos, que me esteja na plateia da consciência.

Bernardo Soares

Parabéns ;)

domingo, janeiro 24, 2010

Oscar Wilde escreveu que a consistência é o último refúgio das pessoas sem imaginação. Questiono-me se a maioria das pessoas que se entrincheiram na rotina, na previsibilidade, no comodismo; não são pessoas com medo do excesso de complexidade da realidade - do horror do caos que é, no fundo, o ser humano, o mundo e a vida.

sábado, janeiro 23, 2010

Como adestrar alguém na arte da Vida?
Quando lês muito, o teu olhar torna-se mais profundo.
- Dói-me a cabeça de saber tanto.
- Trocava a minha fama, o meu poder, o meu dinheiro, a minha beleza e inteligência por um pouco da tua paz de espírito.
Por mais que a ciência avançe, nunca sondará a Verdade. Nunca arranhará sequer as perguntas irrespondíveis: qual o sentido da vida? o que acontece depois da morte? quem é Deus?

Por mais que a tecnologia se sofistique, nunca criará uma máquina capaz de aferir a qualidade da Literatura: excelente, muito boa, boa, sofrível, má, péssima, Margarida Rebelo Pinto.
Acredito em Deus mas não tenho religião. Quando muito, tenho a minha. Sou gnóstico. Não concedo que nenhum homem me infunda Deus como quer só porque usa uma batina. Quero ser eu a chegar até Ele. Ou: quero que Ele chegue a mim como Ele entender.

Ser gnóstico é isso mesmo: não assimilar acriticamente; perceber que as únicas verdades são pessoais e intransmissíveis; é ser tolerante e aceitar que Deus tem moradas diferentes para cada um.

De modo algum, porém, sou anti-eclesiástico. Reconheço os tremendos crimes da história da Igreja, mas não menosprezo o importantíssimo trabalho da mesma junto dos idosos, dos pobres e toxicodependentes.

Mas, há pouco, na televisão, escutei o cardeal levantar a voz contra o casamento homossexual usando argumentos cavernícolas. Tristíssimamente, ouvi-o e pensei que é por coisas assim que me afasto da Igreja. Com a desgraça que há no mundo, com o milhões de mortos no Haiti, de deserdados, com 840 milhões a passar fome, a morrer de fome, a morrer de sede, fazer uma cruzada contra o casamento dos homossexuais DÁ-ME VONTADE DE GRITAR: VÃO PARA O CARALHO!

Então, mas Deus dá uma natureza às pessoas que elas têm de reprimir e negar e esconder? Então mas o vosso Deus é sádico? Então mas o amor ao próximo é calibrado consoante quem se ama?

Mais culto, mais sábio, mais compassivo, Dalai-Lama disse:

Qual o casal que nos merece mais respeito: o heterossexual em que os membros não têm atenção pelo outro ou o homossexual em que têm atenção pelo outro?

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Sophia

Cronologia da morte de uma amizade

Falávamos quase todos os dias. Passámos férias juntos. Aos poucos, sem darmos por isso, fomos gradualmente diminuindo a convivência.

A certa altura, já só o encontrava uma vez por ano quando ia à Feira do Livro onde ele trabalhava.

A primeira que nos encontrámos lá foi uma festa.

No seguinte, encontrámo-nos na mesma tenda da Feira do Livro e falámos, sem a mesma fluidez e efusividade do ano anterior.

Mais um ano volvido e, ao passar pela tenda dele na Feira do Livro, já quase só nos cumprimentámos.

Neste último ano, ele viu-me e eu acenei à distância.
- O que é que viste nela?
- Aquilo que eu queria.
- Angel, ter um filho é o melhor dia da tua vida, mas é também o pior. Eu sempre me preocupei, sempre amei os meus amigos, e se alguma coisa lhes acontecia, eu ficava a sentir e sentir; mas não é a mesma coisa que com a Leonor. Quando os meus amigos tinham um problema, eu ficava todo fodido, mas chegava uma altura em que tinha fome e comia. Com a Leonor, eu não tenho, é que me lembro sequer vontade de jantar. Quando ela tem um arranhão no tornozelo, eu perco a fome.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Aquele brilho outrora tão resplandecente
Dos meus olhos se ausentou para sempre
E agora, apesar de perdido o esplendor na relva
E o tempo de glória na flor,
Em vez de chorarmos, buscaremos força
No que para trás deixamos.

William Wordsworth
Vagas estrelas da Ursa, eu não contava
Voltar ao hábito de vos olhar
Sobre o pátrio jardim esplendoroso
E conversar convosco das janelas
Deste refúgio onde morei menino
E vi o fim das minhas alegrias.

Giacomo Leopardi
Títulos magníficos...

As vagas estrelas da ursa do filme do Visconti

Tangerine Dream de uma banda de música

A propósito do Haiti

Talvez, talvez sejam os últimos
dias. Se for assim, são um esplendor.
Apesar dos aviões da Nato despejarem
bombas e bombas no Kosovo, a perfeição
mora neste muro branco
onde o escarlate
da flor da buganvília sobe ao encontro
da luz fresca da manhã de junho.
A beleza (não há outra palavra
para dizê-lo), a beleza desta manhã
é terrível: persiste, domina –
apesar dos aviões, mesmo com
bombas a cair e crianças a morrer.

Eugénio de Andrade

terça-feira, janeiro 19, 2010

Pensamentos sobre o Haiti 3

Tenho lido e escutado muitas vozes que ficam extremamente compungidas com as mortes por fome e sede. A morte por inanição por falta de alimento, a morte por falta de água, o existirem pessoas sem casas; tudo isso já existe, em grande escala, no planeta actual.

Pensamentos sobre o Haiti 2

«O horror, o horror», como escreveu Conrad n´O Coração das Trevas.

Pensamentos sobre o Haiti

Se eu estivesse num estádio de desenvolvimento espiritual elevado, já teria largado este conforto e ido para o Haiti.
Francis Scott Fitzgerald apaixonou-se por Zelda, uma personalidade excêntrica, muito progressista à época (não casou virgem, usava calções e calças, pintava e escrevia) com uma tremenda inclinação para a arte e a loucura. Tendo Fitzgerald já uma certa propensão para o excesso, Zelda insuflou-lhe essa faceta, e ficaram para a posteridade alguns episódios de festas e álcool do casal Fitzgerald. Desde comer dinheiro a entrarem vestidos de cachorros numa festa da alta sociedade, muitas foram as extravagâncias de Zelda e Scott.

A loucura de Zelda foi galgando a partir dos trinta e pouco anos, levando-a ao internamente no hospício, onde morreria num incêndio ao fim de oito anos. Na fase final da vida, Scott, há muito privado da presença quotidiana de Zelda, um fantasma que se arrastava no manicómio pintando umas telas e inventando histórias do passado, terá dito a uma secretária que lhe transcrevia o ditado do seu último romance e com com quem teve um caso:

- But do you still love her?
- Zelda is my girl. There is something intelligent and delicious in her madness.

Esta frase tem ecoado dentro de mim e bate-me quando penso que as pessoas mais interessantes são todas excêntricas e anormais com loucuras deliciosas e inteligentes.

«Há qualquer coisa de inteligente e delicioso na sua loucura.»



Tenho a certeza de que se a Raquel Strada me conhecesse, trocaria o anódino namorado (João Brilha) de há 8 anos. Ao fim de algum tempo, ela compreender-me-ia e amar-me-ia.

Um amigo meu, sabendo da minha predilecção, enviou-me um mail com uma entrevista dela. Lamentavelmente, dá uma entrevista básica, fútil e oca. Básica e oca não é a mesma coisa. É básica porque é vulgar nos seus sonhos e nas suas ideias e é oca porque não desenvolve uma ideia, tadinha.

Como é que um homem sai refeito de um sonho destruído?

segunda-feira, janeiro 18, 2010

A crueldade mais não é do que a insegurança extrema camuflada de força.

Filmes da minha vida

domingo, janeiro 17, 2010

- Tenho as minhas cruzes, tenho, sem dúvida, tenho bué problemas, tenho, sim, senhora. Mas fogo, há alturas, nem que seja cinco segundos por dia ou por mês em que penso: «Tento sempre fazer tudo para influenciar a vida dos outros pela positiva, tenho sempre deixar uma marca positiva no mundo. Nunca prejudiquei a vida de ninguém deliberadamente e sempre fui honesto e solidário com quem mais precisa.» Basta pensar nisto uma segundo uma vez por mês para sentir que tudo o resto vale a pena.

sábado, janeiro 16, 2010

Quando andava na escola primária, um colega meu inventou que tinha um óculos escuros através dos quais via as meninas nuas. Todos acreditaram e lhe pediram os óculos e, quando o rumor se difundiu, algumas meninas fugiam dele a correr quando ele tinha os óculos.

Parece que há para aí uma máquina nos aviões que despe as pessoas. E parece que ninguém acha isto gravíssimo.
Todos temos uma vida secreta e é nessa vida secreta que se vê o nosso carácter.

Dexter

Os fura-greves

Uma pessoa que conheço e de quem gosto é uma sindicalista activa. Na sua empresa, é muitas vezes ela quem mobiliza os colegas para a luta. Acima de tudo, tem palavra: não diz que vai fazer o que não faz. Nunca.

Contou-me ela que recentemente houve despedimentos e salários em atraso. São tempos de crise, bem sei. Sucede que na empresa dela os administradores não abdicaram de um cêntimo nas suas regalias.

Houve reunião de trabalhadores e a maioria acordou em fazer greve.

No dia da greve, alguns dos que haviam prometido faltar, compareceram.

A minha amiga ficou furiosa e nem pode olhar para a cara dos fura-greves. Eles, por seu turno, andam felizes com a recém-simpatia conquistada aos patrões.

Não deve haver figura mais odiosa do que estas criaturas. Ser fura-greves é uma metáfora. E tem os seus filhos: o servilismo, o culambismo (expressão do MEC); no fundo, o venerar do que está em cima e o pisar do que está em baixo.

São pessoas sem coluna, sem carácter, sem dignidade. Têm um espírito pequenino, valorizam o dinheiro e o poder, vivem ensimesmados no seu mundinho e, perante a desgraça do Haiti, devem pensar:

«Isso é lá com eles.»

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Estava a ler no livro As Grandes Tradições Religiosas que, 900 a. C., as religiões eram sacrificiais. A relação dos homens com o divino era individual e assentava nos rituais, nas oferendas individuais que se faziam para agradar a Deus. Depois, vieram Confúcio, Lao Tse, Cristo e Buda e introduziram a religião da compaixão - a humanidade era, então, uma irmandade e o amor a Deus passava pelo amor ao nosso semelhante.

Não consigo ver a religião dissociada da ligação aos outros seres humanos. Faz-me lembrar os chefes da máfia que matavam e extorquiam dinheiro, indo tranquilamente à missa benzer-se e comungar.

Prefiro a misericórdia ao sacrifício, ama o próximo como a ti mesmo, ama e faz o que quiseres - tudo isto é para mim a quintessência de um Deus e uma religião plausível. As coisas não são boas porque Deus as aprova, Deus é que aprova as coisas que são boas.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Um amigo meu que vive em Londres disse-me que quando lá há uma manifestação de muçulmanos extremistas que a polícia britânica é mais tolerante com eles do que com qualquer outro grupo. Que se aceita com mais brandura do que outras. «Se outros grupos fazem o que eles fazem, são presos», rematou o meu amigo.

Não sei se é ou não assim. Mas escutei-o.

Sei também que hoje há imensa islamofobia (mais uma predição do V. for Vendetta). Mas, a ser vaga e remotamente verdade, tal facto é preocupante.

Porque usar de cuidados especiais para com... é uma discriminação. E a discriminação, positiva ou negativa, é sempre... discriminação.

Há uma mentalidade politicamente correcta (mormente, à Esquerda) que nos deixa ser preconceituoso em relação ao grupo dominante. Explico: podemos dizer mal dos brancos que não é racismo, podemos dizer mal dos homens, podemos enaltecer as mulheres.

Quantas vezes leio mulheres a dizerem que os homens são desarrumados, desorganizados, que só pensam com a pila. Se um homem disser da mulher qualquer generalização abusiva como as mulheres dizem dos homens... que terrível machista! E quantos homens não dizem que a mulher é mais inteligente do que o homem, mais sensível, mais evoluída, mais sagaz.

Há um padrão. Só se aceitam os preconceitos positivos para com os grupos mais discriminados e os preconceitos negativos com os grupos dominantes.

Não sei se é a melhor estrada para o igualitarismo.
A apresentação do livro decorria normal. Falara o editor, falara o prefaciador, e agora era a vez do escritor.

Que disse:

- Boa tarde a tod@s. Vou fazer uma apresentação do livro à dimensão de um órgão do meu corpo, isto é, curta e grossa. Na realidade, mais curta do que grossa.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

António Lobo Antunes diz que temos todos um núcleo impartilhável e que a aspiração da Literatura é arranhar, chegar perto, sussurrar esse núcleo impartilhável.

terça-feira, janeiro 12, 2010

- Não se pode ser um bom jornalista e um bom amigo ao mesmo tempo. Se és 100% profissional, 100% deontológico, não tentas divulgar a empresa do teu amigo. Se és 100% amigo, tentas dar uma ajudinha, e não estás a ser 100% jornalista. A vida é assim. A amizade é o maior lóbi do mundo. Da mesma forma que não podes ser um marido exímio, um trabalhador exímio, um pai exímio e um amigo exímio. Tens de fazer escolhas, procurar gerir em tensão o equilíbrio. Nunca podes dar o máximo em todas as vertentes: carreira, amor, amizade, família.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Camadas e camadas e camadas de ilusão obnubilam-te a Verdade.

domingo, janeiro 10, 2010

Uma opinião disparatada e na qual não acredito

O meu amigo apaixonou-se nesse Verão. A rapariga em questão sentia-se «atraída» e «perturbada», mas a existência de um namoro impedia-a de dar um passo. Ele tentou, tentou, tentou.

- Não dá, eu namoro e amo-o.

Eu ouvi isto enquanto ele a persuadia a tentar deixar o namoro.

- Isso é uma ilusão. Nunca mais vais ver esse grego.

Ela não se demoveu.

Ele teve o Verão rodeando-a de todas as promessas.

Ela estivera um ano na Grécia em Erasmus. Voltara de vez para Portugal, mas ficara lá com um namoro pendente.

- Não vês que isso não tem futuro - dizia-lhe ele e eu secundava-o por amizade.

Nada.

Um Verão depois, voltámos a vê-la. Ela não estava com o grego, acho que nunca mais voltara a Grécia.

- Já nem me lembro dele.

Agora era ela quem queria e o meu amigo já não. Interessara-se por outra.

Sempre que alguém me conta um desgosto de amor, eu conto esta história.

A quantidade de histórias de amor infelizes que conhecemos. A gostou de B e B gostava de C em determinada altura. Recordo tantos A, B e C e quase todos os dados mudaram de números ao longo dos anos. O que era verdade na altura, hoje é pó.

A efemeridade e a volatilidade das tragédias do amor cujo tempo de duração julgamos infinito. Se quando dói, dói muito - tenta pensar que nada dói muito para sempre. Pelo menos, em matéria de amor.

Ou será que não?

sábado, janeiro 09, 2010

És capaz de [sor] rir de uma piada de que não gostaste só para agradar?
- Foi você, não foi?
- Não. Nem sequer a conhecia.
- É um homem de valores?
- Sim.
- Quais?
- A solidariedade, a honestidade, a amizade, a camaradagem.
- É crente?
- Sou crente e temente a Deus.
- Qual foi o pior acto que cometeu?
- Não sei, eu nem uma formiga mato.
- Nunca andou à pancada?
- Nunca.
- Nunca bateu nos seus filhos?
- Nunca.
- Nunca usou de violência física?
- Nunca. Nunca peguei numa arma. Sempre tive aversão.
- Volto a insistir: não conhece este rosto?
- Não.
- Tem a certeza?
- Absoluta. 100%.
- Gosta de rapariguinhas mais novas?
- Não, nem nunca gostei.
- Já traiu a sua mulher.
- Não.
- Tem a certeza?
- Sim.
- Absoluta?
- Sim.
- Noto que tremeu a voz ao responder.
- Já teve desejo de trair a sua mulher?
- N.. Já.
- Então, está nervoso?
- Não. Nunca trai.
- Diga a verdade.
- Há muitos anos.
- Quem?
- Numa viagem ao estrangeiro, conheci uma mulher.
- Uma mulher?
- Sim.
- Quem.
- Uma rap...
- Uma rapariga? Então, não era uma mulher?
- Era maior de idade.
- Que idade tinha?
- Vinte e muitos.
- Tem a certeza?
- Tenho.
- Tem mesmo a certeza de que ela era maior de idade?
- Ten...
- Demorou a responder. Você está a mentir. Incorre em dois anos de perjúrio.
- Tenho a cer...
- Não minta! Não minta! Eu mando-o já preso.
- Ela tinha 17. Ia fazer 18.
- Ela tinha 10! Nós temos aqui provas e...
- 12! Ela tinha 12 anos!
- Ah.......... Seu porco, vá admita lá, você conhece este rosto?
- Não.
- Conhece, sim. Vá, assine aí. Foi você que a esquartejou.
- Nem que vivesse mil anos e tivesse 300 mil homens à minha volta, nunca esquecerei o João. Ele estará sempre comigo.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Já reparaste que quando se diz o assassino, o pedófilo (quando se deveria dizer o pederasta), o violador, o monstro, se reduz a pessoa a um rótulo, a uma palavra-asco-ponto-centrífugo-de-qualquer simpatia, se esvazia esse ser humano de qualquer humanidade? Não penses que essa pessoa não tem as mesmas emoções que tu. Não penses que ela não gostava de ser amada. Não penses que não tem as mesmas interrogações, a mesma angústia, os mesmos momentos de alegria que tu.
O meu amigo Velho Ancião diz que a cara de uma pessoa nos diz muito se mergulharmos nela. O ditado popular diz o contrário: que quem vê caras, não...

Vou tentar experimentar com alguns rostos...



Este homem de barba (Stephen King) tem cara de ser escritor de terror?

Este homem de cabelo cinzento tem cara de ser um chefe da máfia?




Esta mulher tem cara de ter salvo 2500 crianças judias de morrerem no Holocausto?





Este homem alourado tem cara de ser um pedófilo (procurado pela Interpol)?

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Não se pode dormir com todas as mulheres do mundo, mas deve-se tentar.

Jorge Amado
Para o optimista todas as portas têm maçanetas e dobradiças, para o pessimista todas as portas têm trincos e fechaduras.

Wiliam Arthur Ward

A privacidade vai desaparecer da novilíngua

Quem viajar para os Estados Unidos pode revelar mais do que queria. Em alguns aeroportos estão instalados detectores de metais que conseguem «ver» o corpo todo em roupa interior.
As imagens mostram as definições completas do corpo, visto de vários ângulos, informa o «DailyMail».

O objectivo deste sistema de segurança é determinar se os passageiros pretendem, por exemplo, levar armas para o avião.

Os passageiros só têm de levantar os braços e os sensores conseguem captar a imagem completa do corpo em cerca de três segundos. Depois a imagem segue para uma sala adjacente onde é analisada por seguranças, mas não guardada.

Esta nova tecnologia está já a levantar polémica. A União Americana pelas Liberdades Civis alerta que este sistema pode ser demasiado intrusivo, porque pode revelar imagens de mastectomias e de cateteres.

Passar neste scanner é, por enquanto, voluntário. O programa piloto está instalado nos aeroportos de Salt Lake City, Las vegas, Miami, São Francisco, Tulsa, Olka e Albuquerque.
- Nunca tinha lido um livro tão bom. Fiquei boquiaberto a olhar para aquilo.

Quem falou assim?

Lobo Antunes.

De que livro falou assim?


Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?
O seu último livro.
Quando é que Noé construiu a arca? Antes do dilúvio.

Spy game

terça-feira, janeiro 05, 2010

- Eh pá, queres o quê? Ele tem um Porsche, mais de 1,90 m e é jogador de andebol. Com estes atributos, ninguém pode resistir.
- Ah... tá bem.
Albert Camus, escritor, disse que o que sabe sobre moral aprendeu no futebol (ele que foi guarda-redes).
- Começou a contagem decrescente para o Verão.
- Não deves ceder a todos os teus desejos e instintos porque arrepender-te-ás de muitos quando te passar o calor e a lucidez se instalar. Mas, cuidado, também não deves negá-los sempre porque se não crias traumas. Se eles forem muito fortes e os censurares... cuidado!
Um momento de alegria é uma aspiração ao céu.
Nenhuma auto-estima é tão sólida que resista à falta de amor.
- Fi-lo porque achava que era o melhor para todos.
- Mas prejudicaste-te pessoalmente demasiado. Não o devias ter feito.
- Não, fi-lo por vaidade. Para me sentir bem comigo. Para que eu goste de mim mais um bocadinho.
A tem um sistema ético racionalizado ao longo do tempo. Persegue assim, em seu entender, o Bem da humanidade. Diz ele que para se fazer o bem, é preciso sacríficio, é preciso vencer o interesse pessoal em cada situação em prol do interesse comum.

B considera-se espontânea nos afectos e sente que é naturalmente boa com quem gosta. Diz ela que ser boa pessoa é isso mesmo - sem esforço. Pelos sentimentos.

Amb@s têm a sua verdade.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Palavras intraduzíveis cujo significado só existe numa língua

Hira Hira - Japanese: the feeling you get when you walk into a dark and decrepit old house in the middle of the night.
A thing of beauty is a joy for ever

Keats

A dor não se escolhe, o sofrimento sim - o sofrimento é a atitude mais fácil perante a dor.

O José tem SIDA. Desde o dia que descobriu, uma fúria e um desespero invadiram-no. Sente que o seu sofrimento é injusto. Adoptou a postura do «tou-me a cagar para tudo». Faz mal a muita gente porque sente que com ele o mundo foi brutal.

O Pedro tem SIDA. Desde que descobriu a doença que se solidariza muito mais com os excluídos e com o sofrimento extremo do Outro. Sente que ninguém merecer sofrer tanto e está mais próximo do Outro do que nunca.

domingo, janeiro 03, 2010

Conheço pessoas para a quem a noite é apenas um local de evasão. No talking, just dancing, drinking, drugs, sex and no thinking.

Apenas abrirei a boca para atirar fragmentos esparsos, superficiais, frases batidas, inconsequentes, desconexas, e sem um fio de conversação.

Music loud, please.

Títulos da década de 1930 que explicam o presente

sábado, janeiro 02, 2010

There are three ways of doing things around here: the right way, the wrong way, and the way that I do it.

Do filme Casino