sexta-feira, dezembro 31, 2010

so i'll wait for you
where i always wait
behind the signs that sell the news


oh if i could just once catch your eye
invisible against the words
that hold you down in solitude
and never let you go

Robert Smith
Gurdjieff distinguia entre a essência (o que és) e a personalidade (o que o mundo, a sociedade, os outros, a autoridades paternais, religiosas, políticas, sociais, económicas te impelem a ser). A luta pela essência é o caminho de Gurdjieff.
Um amigo disse-me certa noite com os copos:

- Angel, eu quero que os meus amigos estejam bem, mas, digo-te, não podem ter mais sucesso do que eu. Isso não. Que estejam bem, mas que não tenham mais sucesso do que eu; um bocadinho menos, tem de ser.

Na altura, fiquei perplexo. Nove anos volvidos, acho que não é assim tão fácil encontrar uma amizade desprovida do verbo competir. Especialmente, quando te vêem como Grande.

Camões

Num documentário sobre Camões, a certa altura conta-se a história de uma prostituta que dizia que Camões era o único homem que procurava dar-lhe prazer. Se recuarmos cinco séculos, é algo que nos faz perceber a grandiosidade do senhor. Não é por acaso que Camões, um homem muito à frente do seu tempo, escreveu (naquela época, lembrem-se) satirizando com os homens muito machões que só procuravam retirar prazer sexual unívoco com as mulheres. Julgam que elas não vão procurar noutro lado, seus marialvas - lê-se no subtexto.

2010

Este foi um ano de muito trabalho.

Este foi um ano em que intervalei algo infinito.

Este foi o ano em que recuperei aquilo que nunca perderei, creio.

Este foi um ano em que - eu que é difícil gostar mesmo de alguém - conheci algumas pessoas muito interessantes. Confesso.

Tirésias

Cheguei ao conhecimento da personalidade mitológica Tirésias através da poesia de T. S. Elliot. Da mitologia greco-romana, juntamente com o Suplício de Tântal e a Sentença de Páris, a história e a figura de Tirésias são das que me mais me fascinam.

Duas coisas me fazem pensar muitas vezes em Tirésias. Tirésias foi castigado com a cegueira, mas em troca recebeu o dom de ver o futuro. Tirésias foi o único deus que experimentou os dois sexos - que conheceu o que era ser homem e mulher.

Quando Tirésias ia orar sobre o monte Citeron, deparou-se com um casal de cobras venenosas copulando que o atacar. Tirésias matou a fêmea e imediatamente se transformou em mulher (durante sete anos).

Numa discussão entre Zeus e Hera sobre quem tinha maior prazer sexual, Tirésias foi o único convidado a dar um parecer. Era o homem, sustentava Hera. Era a mulher, sustentava Zeus.

A resposta de Tirésias:

«Se dividirmos o prazer sexual em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma.»

Hera, furiosa, cegou Tirésias. Zeus, para o compensar, dotou-o da capacidade da previsão e de sobreviver a sete gerações humanas.

Tirésias foi útil enquanto conselheiro da guerra devido às suas capacidades analítico-proféticas.

Arrastou-se pelo mundo durante sete, oito ou nove (consoante as múltiplas versões que há sempre na literatura envolvendo os mitos) gerações, cego, conhecedor dos dois sexos e conseguindo prever o futuro e auxiliar quem o consultava.
Tomorrow is the song I sing

Richard Gillis
A rapariga de dezassete anos disse:
- Aquilo que mais aprecio num homem são as mãos.
Reparei que todos os olhares masculinos da sala se desviavam subtilmente para baixo, avaliando as suas mãos como nunca haviam feito na vida.
Robert Smith, vocalista dos Cure, teve um incêndio na casa onde a banda preparava um disco. As chamas eram altíssima e Robert Smith corria perigo de vida. Enquanto todos procuravam fugir e salvar a vida, Robert Smith agarrou toalhas que encharcou de água e foi até ao armário. Tinha coisas valiosíssimas em casa. Mas só uma lhe interessava salvar. As suas letras para o próximo álbum. Correndo risco de vida, resgatou-as contra as chamas e os gritos dos membros da banda. Algumas estavam chamuscadas nas pontas, mas Robert Smith dedicou-se laboriosamente durante semanas a adivinhar as palavras cortadas.
A única coisa boa de sociedades secretas, é que são secretas. Mas deviam ser mais. Ao ponto de terem um único sócio.

Ou como disse o Groucho Max - "Nunca pertencerei a um clube que me aceite como membro". O Woody Allen parodiou a frase mais tarde referindo-a às suas relações falhadas com mulheres, no filme Annie Hall. É uma leitura.

Mas estávamos a falar de politica?
Alguém irá realmente votar num homem que ocupando o cargo, não demitiu um dos "cabecilhas" do BPN de Conselheiro de Estado?!!! Teve o próprio, pressionado pela imprensa (a nossa má imprensa!) que demitir-se! Um Presidente de Portugal, que tinha parte do seu dinheiro depositado lá, mais a filha, mais acções e vendeu (mais a filha) e depositou noutro banco (mais a filha), antes do escândalo rebentar, ganhando assim umas largas massas? É um bom adivinho, este presidente. Pena que não tenha adivinhado a crise financeira posterior. Ou avisado os portugueses que lá tinham dinheiro. Mas ok, vamos admitir apenas olho para o negócio. Um economista oriundo de Boliqueime, uma terra com honras de placas nas auto-estradas, onde ninguém vai, deve ter uma moral superior. Mas que agora culpa os novos administradores do BPN do buraco financeiro.. Sem uma palavra sequer, para a anterior administração! É preciso ter desplante.. Faz-me lembrar há uns anos, a gula do Bolo Rei - http://www.youtube.com/watch?v=KOWmcmbGp18&feature=player_embedded
Um homem que remete para o site da presidência todos os assuntos incómodos. Um homem que não sabe dar um murro na mesa em defesa de uma opinião.

Deixem-me contar uma legenda do Miguel Esteves Cardoso, sobre uma foto do nosso presidente, aquando 1º Ministro, ao receber o presidente de Angola, Eduardo dos Santos, em Lisboa. A foto, simples, consistia no Cavaco, a sua esposa, mais o Eduardo dos Santos e a sua mulher. Uma foto simples. O comentário:
"Há qualquer coisa de errado com esta foto. Sei o que estão a pensar - Um democrata, junto de um ditador, um déspota. Mas não é isso que eu vejo. Vejo um homem que parece um actor de cinema, com uma mulher lindíssima ao seu lado, junto de um labrego e sua esposa paralela." Mas isto foi apenas um fait divers. Voltando à vaca fria, há pouco tempo atrás, se me pedissem um rosto da corrupção neste país, elegia o Valentim Loureiro. Imaginam um cartaz com a sua cara e o a palavra Corrupção em baixo. Ninguém iria achar estranho. Neste momento elegeria o Sr. Dias Loureiro. O tal, que foi administrador do BPN. O tal, que foi Conselheiro de Estado do nosso presidente em funções. O tal, que é amigo pessoal da família Cavaco, segundo o próprio diz e foi Ministro da Administração Interna no mandato do nosso presidente quando 1.º Ministro. O tal, com todos os bens em nome dos filhos.

Já vi que é um problema da família Loureiro.
Que ninguém me leve mal, especialmente os Loureiros.

Luís Serra Santos

quinta-feira, dezembro 30, 2010

- Se queres ser bem-sucedido com as mulheres, é simples. Só tens de observar como os homens se comportam com elas e fazeres exactamente tudo ao contrário.
- A maior partes das mulheres é mais interessante do que os homens. Mas os homens mais interessantes são mais interessantes do que as mulheres mais interessantes.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Obsession is forever

o estilo
o estilo é a resposta para tudo.
o modo fresco de encarar um dia chato ou perigoso.
fazer uma coisa chata com estilo é preferível a fazer uma
coisa perigosa sem estilo.
fazer uma coisa perigosa com estilo é o que chamo arte.
as touradas podem ser uma arte.
o boxe pode ser uma arte.
o amor pode ser uma arte.
abrir uma conserva de sardinhas pode ser uma arte.
não há muitos com estilo.
não há muitos que possam manter o estilo.
já vi cães com mais estilo que homens.
todavia poucos cães têm estilo.
os gatos têm-no em abundância.

quando hemingway pôs os seus miolos numa parede
com uma shotgun, isso foi estilo.
às vezes as pessoas dão-te estilo.
joana d´arc tinha estilo.
joão baptista tinha estilo.
jesus.
sócrates.
césar.
garcía lorca.
conheci homens na prisão com estilo.
conheci mais homens na prisão com estilo do que fora dela.
o estilo é a diferença, um modo de o fazer, um modo de ser feito.
seis pássaros em silêncio numa poça de água, ou tu,
saindo da casa-de-banho sem me veres.

Bukowski

domingo, dezembro 26, 2010

Corpo habitado

Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.

Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.

Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.

Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.


Eugénio de Andrade
- Aquilo que se passou ontem...
- Não se passou nada ontem.
- Oh... Não gostava de que ninguém soubesse.
- Já te disse: Não se passou nada ontem.
- Ah...
- O que se passa no campo morre no campo.

sábado, dezembro 25, 2010

- Aguardo pelo dia em que acorde e já não sinta nada por ti.
Se as pessoas escassamente sensíveis e inteligentes tendem a causar problemas aos outros, as pessoas muito sensíveis e muito inteligentes tendem a fazer mal a si próprias.

António Tabucchi
Sou sujo, Milena, por isso faço tanto alvoroço com a pureza.

Kafka

sexta-feira, dezembro 24, 2010

quarta-feira, dezembro 22, 2010

O mundo também muda para melhor

O presidente dos Estados Unidos promulgou esta quarta-feira a abolição da lei que impede os homossexuais assumidos de servir nas forças armadas norte-americanas, acabando com uma proibição com mais de 17 anos.
- Como é que uma pessoa sem carisma pode ter uma escrita com carisma?
Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

David Mourão-Ferreira

terça-feira, dezembro 21, 2010

Quando leio um livro e vejo um filme que me captam o interesse, mergulho inteiramente numa realidade-outra.

Descobri recentemente que estou sempre a torcer pelo narrador-personagem quando a história é contada na primeira pessoa. Nos filmes, a mesma coisa. Estou do lado do personagem principal.

É curioso. Pode ser o tipo mais perverso. Mas estamos - ou estou - sempre do lado dele.

Se o ladrão-personagem-principal vai roubar, nós torcemos para que a Polícia não o apanhe.

Não é um lado obscuro nosso. Não. É a familiaridade.

Podemos não justificar tudo, mas compreendemos tudo pelo seu ângulo - a sua cabeça torna-se na nossa.

No filme O Condenado, eu estava do lado do pedófilo.

Uma amiga minha, assistente social em prisões, dizia que, ao conhecer os piores bandidos, fica sempre solidária com eles. Conhecia-os, sabia a história de vida - tornavam-se parte de si. Um dia, disse-lhe: «Pensa então que se conhecesses a história de todos eles, não verias nenhum com raiva.» O monstro é uma categoria vista de fora.

É por isso que nós, de fora, não percebemos como amigos nossos toleram determinados defeitos num amigo particular, ou no seu parceiro ou parceira.

É a familiaridade.
http://www.clubalice.com/index.php?file=1&id=4081

A inveja é uma coisa tão feia... mas eu fui invadido por ela de uma forma irreprimível. Ai, quem me dera um dia... Ai, eu teria tentado algo mais do que conversar, comer e beber...
Aquele brilho outrora tão resplandecente
Dos meus olhos se ausentou para sempre
E agora, apesar de perdido o esplendor na relva
E o tempo da glória na flor,
Em vez de chorarmos, buscaremos força
No que para trás deixamos.

William Wordsworth
Three passions, simple but overwhelmingly strong, have governed my life: the longing for love, the search for knowledge, and unbearable pity for the suffering of mankind. These passions, like great winds, have blown me hither and thither, in a wayward course, over a deep ocean of anguish, reaching to the very verge of despair.

I have sought love, first, because it brings ecstasy -- ecstasy so great that I would often have sacrificed all the rest of life for a few hours of this joy. I have sought it, next, because it relieves loneliness -- that terrible loneliness in which one shivering consciousness looks over the rim of the world into the cold unfathomable lifeless abyss. I have sought it, finally, because in the union of love I have seen, in a mystic miniature, the prefiguring vision of the heaven that saints and poets have imagined. This is what I sought, and though it might seem too good for human life, this is what -- at last -- I have found.

With equal passion I have sought knowledge. I have wished to understand the hearts of men. I have wished to know why the stars shine. And I have tried to apprehend the Pythagorean power by which number holds sway above the flux. A little of this, but not much, I have achieved.

Love and knowledge, so far as they were possible, led upward toward the heavens. But always pity brought me back to earth. Echoes of cries of pain reverberate in my heart. Children in famine, victims tortured by oppressors, helpless old people a hated burden to their sons, and the whole world of loneliness, poverty, and pain make a mockery of what human life should be. I long to alleviate the evil, but I cannot, and I too suffer. This has been my life. I have found it worth living, and would gladly live it again if the chance were offered me.

Bertrand Russell

segunda-feira, dezembro 20, 2010

CAVACO, O HOMEM QUE SÓ SERIA PRESIDENTE EM PORTUGAL



«Como é que nos vemos livres dos funcionários públicos? Reformá-los não resolve o problema, porque deixam de descontar para a Caixa Geral de Aposentações e, portanto, diminui também a receita do IRS. Só resta esperar que acabem por morrer.»

Cavaco Silva discursando em 2 de Março de 2002, durante uma conferência na Faculdade de Economia do Porto.

Em Portugal, os media não confrontam os políticos com as suas promessas eleitorais. São omissos na análise do (in)cumprimento das metas inscritas nos programas eleitorais. Convém recordar o que Cavaco disse aos portugueses aquando da sua candidatura às presidenciais de 2006.
O professor de Economia, tranquilamente sentado no seu lar, sobressaltara-se com a notícia do crescimento económico de 0,3% para o seu país, especialmente quando os países de Leste que tinham aderido recentemente à UE estavam a «crescer 5% ao ano, em média». Perante este cenário, o craque tinha de voltar a jogar. Ao contrário de nós, embrutecidos e apáticos, ele «não se resignava».
Só um homem com o seu conhecimento, experiência e virtudes pessoais poderia impedir que Portugal se tornasse na cauda da UE. Cavaco descobriu que era esse homem e assim se apresentou ao país. De caminho, inventou essa coisa exótica da «cooperação estratégica com o governo», para a qual manifestamente não tinha poderes, e ainda assegurou os Portugueses de que iria «apresentar ideias de combate ao desemprego», seguramente geniais e registadas na Sociedade Portuguesa de Autores.
Cinco anos volvidos sobre este anúncio do mago da Economia (que mais parecia candidatar-se a primeiro-ministro do que a Presidente da República), julgo que não valerá a pena falar do estado do país e, em particular, do desemprego. De resto, como salientou André Freire, o Presidente-Mago-da-Economia nunca vetou quaisquer políticas socioeconómicas. Ao invés, o seu veto incidiu sobre questões culturais ou, se preferirem, de costumes. Na lei das uniões de facto, na lei da paridade (se calhar, para Cavaco, os países nórdicos é que são atrasados), na lei do divórcio; Cavaco tomou sempre a opção ideológica mais conservadora. No caso da lei do «casamento» dos homossexuais, fez uma figura tristíssima, tentando agradar à esquerda e à direita, e desagradando a ambas. «Face à grave crise que o País atravessa, importa promover a união dos portugueses e não dividi-los. A minha atenção está noutros problemas!» É difícil lembrarmo-nos de uma declaração de um chefe de Estado mais triste do que esta. A não ser que nos recordemos das comunicação solene, vazia e abstrusa que fez por causa de uma desconfiança paranóica de umas escutas.
Pergunte-se ao maior cavaquista se o perfil de Cavaco é mais executivo ou presidenciável. Cavaco não tem espessura histórica, cultural e humana para ser Presidente da República. O enfoque dos seus entusiastas foi sempre: um homem de obra, de acção.
Nas alturas em que tinha de ser firme, foi tíbio, nunca deixando contudo de ser mesquinho. Sobre o escândalo do BPN que envolvia os seus comparsas, não disse um monossílabo. Sobre as reformas de que o país necessita, não deu a conhecer um esboço de uma ideia. Sobre a gravíssima questão do Orçamento, passou por cima, dando uns ralhetes de pai velho e compreensivo às traquinices dos meninos que o discutiam. Quando condecorou aqueles que contribuíram para a entrada de Portugal na União Europeia, esqueceu-se de Soares (nisto, até o cavaquista Pacheco Pereira o criticou). Quando Saramago morreu, não compareceu por causa de uma promessa de «mostrar as belezas dos Açores» aos netos. Cavaco tem toda a legitimidade para não gostar nem de Soares nem de Saramago (a quem o seu governo censurou a candidatura de um livro), mas devia saber estar à altura do cargo e deixar os seus rancores de estimação de lado.
Cavaco não se assume. Não toma partidos. É equidistante de tudo e de todos. Só a si se protege. Depois de ser primeiro-ministro, deixou que a derrota recaísse inteirinha sobre Fernando Nogueira, desaparecendo totalmente de cena. Quando escreveu (o homem, coitado, só sabe metaforizar a partir da ciência económica) no Expresso, dias antes de Sampaio exonerar Santana Lopes, que, tal como a boa moeda expulsava a má moeda, os bons políticos deveriam expulsar os maus políticos, disse, sem que ninguém acreditasse, que o seu texto nada tinha que ver com Santana. Ninguém entendera o literato.
Este «professor» que confunde o dia de Camões com o dia da Raça, que não sabe quantos cantos têm Os Lusíadas; este político com 10 anos de primeiro-ministro e 5 de Presidente da República nos últimos 25 anos sem qualquer responsabilidade no estado actual das coisas; este economista sem sensibilidade social que optou pelo desenvolvimento do Betão, que respondeu a manifestações de estudantes e condutores com cargas policiais, que chamou forças de bloqueio às forças democráticas, que deixou Portugal como líder das desigualdades sociais e da sida e rei da parolice do novo-riquismo, que comia bolo-rei de boca aberta para evitar responder a jornalistas seria Presidente num país dito desenvolvido?
Em que é que este homem autoritário, hirto, inculto, desprovido de humor, cobarde, tecnocrata, paroquial e rancoroso, em que é que esta ressurreição de um Salazar democrático mas boçal nos pode ajudar? Francamente, não o sei.

O tempo do medo



«O presente está grávido do futuro.»
Leibniz

«O medo come a alma.»
Fassbinder

Os sinais estão à vista e não nos apercebemos. Normalmente, é assim: conseguimos interpretar o passado, mas não o presente — porque este tomba-nos de todos os lados a todo o instante, assassinando a pausa necessária para a reflexão.
O mundo actual é muito rápido. Nunca tivemos tantos estímulos. Tanta informação e tanta falta de rigor da mesma. Tanta democratização do lixo. Tanta rapidez na mutação tecnológica. Uma taxa de crescimento populacional tão célere. Uma tal indefinição das ideologias, tornadas obsoletas e trituradas pela Realidade cada vez mais indecifrável.

Deixem-me que vos fale do filme V. for Vendetta. Acredito que nele se encontra algo do mundo porvir (e não estou a falar de um futuro longínquo).
Porquê?

Porque ele soube identificar aqueles que são os mecanismos subtis de totalitarismo do mundo hodierno. O nazismo tem hoje uma componente residual, o comunismo como o conhecemos não voltará, as teocracias não penetrarão o mundo ocidentalizado; pelo que o totalitarismo, a regressar ao mundo dito democrático, terá um rosto diferente do conhecido no passado.
Qual?

Em meu entender, será um totalitarismo que se desenvolverá dentro da democracia. Com instituições ditas democráticas, com eleições livres, com os monumentos formais do Estado de Direito Democrático intactos. Mas, ainda assim, um totalitarismo.

Voltemos ao filme. V. profetiza o desabrochar das plantas do terror cujas sementes já estão debaixo da terra. Começa com uma voz assustadora do governo que manda todas as pessoas recolherem às suas casas a partir de determinada hora, porque a cidade está cada vez mais perigosa. Este ponto é fulcral.


Nunca, como agora, nos quiseram inculcar tanto medo. Medo da criminalidade, medo das doenças, medo das crises. Os jornais e a televisão são veículos do medo. Não comas isto, não comas aquilo, espirra para o cotovelo, olha o radar, baixa a velocidade, põe creme 8.0, o sol mata, fumar mata, a ASAE quer luvas para partir o pão, os produtos tradicionais não são esterilizados, não os comas, as crianças hoje não podem ter um arranhão, qualquer dia levamo-las em sacos esterilizados à escola para não serem contaminadas (outro dia, li que elas estão mais vulneráveis a um conjunto de doenças porque não ganharam imunidades).
O medo, o medo, o medo. Um povo com medo aceita a Ordem, aceita a Dominação, aceita que lhe segurem a mão trémula e o levem onde quiserem. No filme, o governo forjava actos de terror. O grupo terrorista x envenenou um grupo de pessoas. Inventavam isto para lançarem o medo e unirem as pessoas em torno do Estado, o guardião contra o Mal, a Iniquidade e a Criminalidade. O filme mostra como é fácil abdicar das liberdades individuais quando todos estão debaixo do signo do medo.
Associado ao medo, dizem os psicólogos, está sempre o terror do desconhecido. No filme, o medo do desconhecido, ou se preferirem do diferente, manifesta-se numa exacerbada islamofobia. Muito recentemente, o povo suiço votou favoravelmente em referendo uma lei discriminatória dos imigrantes apenas defendida por um partido de extrema-direita. O imigrante é alguém que tem características diferentes de nós, que não conhecemos, que queremos longe das redondezas do nosso lar, que até pode ser mísero, mas que sempre é um reduto de segurança.
Quando há violência juvenil e grupal a crescer mais de 400% em poucos anos, quando há cada vez mais desemprego, quando podemos cair na bancarrota a qualquer instante; a única coisa que as populações desejam é segurança e estabilidade. O meio ambiente sadio, a liberdade, a fruição da cultura (a política cultural pesa no voto de alguém?), a privacidade (já houve alguma manifestação contra o facto de sermos filmados diariamente em todas as esquinas?); as garantias dos cidadãos tornam-se produtos de luxo, abstracções intangíveis de poetas ou intelectuais. O medo suga tudo.

sábado, dezembro 18, 2010

É um sítio da Internet frequentado por um milhão de pessoas. Tinha lá uma funcionalidade errada. Comentei com outras pessoas. Disseram que sim, que aquilo estava mal. Enganava as pessoas.

Mas ninguém fazia nada.

Enviei um mail de três, quatro linhas aos administradores daquilo.

Estranhamente ou não, responderam-me. Admitiram o erro e vão, de pronto, alterá-lo.

As pessoas são assim - queixam-se, mas não agem para melhorar. É esse o grande problema dos portugueses.

Citando do coração o Pessoa, oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir.

Chamem-me justiceiro, continuarei a intervir na vida, na sociedade, em todas as esferas, sim, até a dizer a algumas amigas:

- Como é que tu andas com esse energúmeno?

Não tenho a verdade no bolso, mas ajo. Ajo. Sou consequente. Penso, falo e ajo.

Vai pensamento, como na ópera...

A história veio dar razão a Milosevic

Prisioneiros sérvios eram engordados antes de serem mortos e ficarem sem os rins


Os prisioneiros sérvios até se sentiriam razoavelmente bem tratados: davam-lhes comida e deixavam-nos descansar. Mas depois, quando o negócio estava apalavrado, e as clínicas preparadas, eram levados para centros de detenção na Albânia, onde eram mortos com uma bala na cabeça e lhes eram extraídos órgãos, principalmente rins.

Hashim Thaçi é acusado de ser o "patrão" de organização mafiosa (Hazir Reka/Reuters)

O requinte de malvadez do processo de tráfico de órgãos – a que, segundo um relatório do Conselho da Europa, divulgado esta semana, em 1999 e 2000 se dedicaram independentistas kosovares liderados pelo actual primeiro-ministro, Hashim Thaçi – foi descrito pelo diário El País. Os rins, extraídos em centros de detenção na Albânia, eram vendidos a clínicas estrangeiras. A prática pode ter relação com um caso de tráfico de órgãos que esta semana começou a ser julgado em Pristina.

A missão da União Europeia no Kosovo anunciou que vai investigar as alegações do relatório, que se refere ao actual primeiro-ministro, Hashim Thaçi, como “o patrão” de um grupo albanês de “tipo mafioso”, que, em plena luta conta a Sérvia, se dedicava ao tráfico de órgãos humanos, drogas e armas. Ao agora chefe do Governo é atribuído o assassinato de opositores e o “controlo violento” do comércio de “heroína e outros narcóticos” na região, ao longo da última década.

“Vamos examinar o relatório cuidadosamente”, disse Andy Sparkes, director adjunto da Eulex, Missão Europeia de Polícia e Justiça no Kosovo, citado pela Reuters. A Comissão Europeia, através do gabinete da alta-representante para a Política Externa, Catherine Ashton, convidou o autor do relatório, o senador suíço Dick Marty, a enviar as provas de que dispõe à Eulex. “Tomamos as alegações muito a sério. Se o relator tem provas, pedimos-lhe que as faça chegar às autoridades correspondentes”, disse a porta-voz Maja Kocijancike.

Dick Marty pretende que o seu relatório, adoptado quinta-feira pela Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, desencadeie uma “dinâmica de verdade”. “Penso que temos informação suficiente para justificar uma investigação aprofundada”, disse. Mas o antigo procurador tem consciência das dificuldades em levar por diante um inquérito independente, uma vez que nem o Tribunal Penal para a ex-Jugoslávia, nem a Eulex têm competência para crimes cometidos na Albânia.

Hashim Thaçi, hoje líder do Partido Democrático do Kosovo (PDK), vencedor das eleições de domingo passado, considerou o relatório “difamatório” e “cheio de elementos fabricados e de mentiras que não fazem mais do que reciclar velha propaganda”. O objectivo, disse numa declaração citada pela AFP, seria “denegrir o UÇK [Exército de Libertação do Kosovo] e a independência”. Fonte oficial do seu executivo disse à AP que o antigo guerrilheiro contactou advogados com intenção de processar Marty e o diário britânico The Guardian, que na terça-feira revelou em primeira mão aspectos do relatório.

Pedidas novas investigações

Apesar da gravidade, as acusações contra o chefe do Governo não são novas. A antiga procuradora do Tribunal Penal Internacional Carla del Ponte saudou o relatório e lembrou que também ela denunciou o tráfico de órgãos de quase três centenas de prisioneiros num livro de 2008. Foram, de resto, as informações publicadas pela actual embaixadora da Suíça na Argentina que deram origem à investigação agora divulgada. “O que se passou no Kosovo e no Norte da Albânia é tão horrível que é necessário um inquérito aprofundado, disse ao jornal helvético de língua alemã Tages-Anzeiger.

Um apelo para que sejam clarificadas as alegações de tráfico de órgãos humanos foi também feito pelas autoridades suíças à União Europeia. “Este relatório contém graves alegações com base em numerosos testemunhos e provas”, refere um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

O procurador sérvio para os crimes de guerra, Vladimir Vuckcevic, que há três anos tem em curso o seu próprio inquérito, disse que o número de vítimas de extracção de órgãos ascenderá a 500: 400 sérvios e cem outros não albaneses do Kosovo.

No relatório, Marty, que em 2006 revelou a existência na Europa de prisões secretas onde a CIA deteve presumíveis terroristas, é muito crítico das potências ocidentais.“Escolheram fechar os olhos aos crimes de guerra do UÇK” para obterem “um certo grau de estabilidade no curto prazo”, escreveu.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Please stop loving me
Please stop loving me

I am none of these things
I am none of these things...

The Cure

Conversas de telemóvel interceptadas no autocarro (tornadas mais eruditas na escrita)

Sei que não posso dirigir toda a minha sensibilidade para ti, mas eu sou multívago, sossega.

Sei que para ti a carga masculina de um homem é importante, mas eu transcendo o género.

Sei que nunca sentes ciúmes, mas eu não tenho amarras.

Sei que não suportas perseguidores, mas eu estou habituado a que a montanha se mova na minha direcção.

Sei que não gostas de combinar coisas calendarizadas, mas eu nunca te lanço convites com datas.

Sei que gostas de falar e que eu gosto de falar, mas eu não te imponho nada.

Sei que és livre, mas eu não te cobro nada.

Sei que divergimos na Ética, mas só uma vez te chamei à atenção.

Sei que és muito fixe, mas nem as palavras nem os olhares te o dizem.
- Torna-te real.

- Tu intimidas-me.


(porque ouço isto de várias pessoas? que estranha coincidência. os mesmos termos.)

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Fiz um teste que avaliava qual o grau de mente masculina e feminina. 1, o máximo da masculinidade. 20, o máximo da feminilidade.

Deu-me 16.
http://fioscomtradicao.blogspot.com/

quarta-feira, dezembro 15, 2010

De todas as disciplinas, a estatística é desprovida de qualquer beleza. Tira o encantamento onde se aplica. Anula o particular, o estranho, o divino. E quando o representa é sempre de forma boçal. É a prima saloia da Matemática.
Os professores de estatística deviam ter vergonha.
A estatística é o contrário do Amor. É a negação da vida. É o sabujo da taberna sempre a dar opiniões baseadas em lugares-comuns. Completamente falível, porque não exacta. Tenta estabelecer modelos para a vida. Se fosse pessoa, seria o chato numa festa. O penetra. Haverá conversa mais chata do que estatística? Só me lembro do tempo - Tem estado mais frio, não acham? O estatístico teria uma resposta.

Luís Serra Santos
O meu primeiro livro

É um título diferente. Pode querer dizer várias coisas. Será acerca do primeiro que me deram, do que li antes de qualquer outro, do que cronologicamente escrevi antes? Não, estas linhas versam sobre o que chegou mais cedo às lojas. Tenho de salientar aqui a importância da minha editora, Piropo, que assumiu um papel de musa inspiradora mesmo sem saber.

Chamo-me Miguel Estêvão Pato, e tenho que falar um pouco acerca de mim, antes de contar qualquer outra coisa. Tenho um lema de vida, que me ajuda a ultrapassar o cinzento no quotidiano.

"A melhor maneira de lidar com a estupidez humana é utilizando o sentido de humor" - costumo dizer que não me quero deitar a pensar que devia ter insultado a mãe, as filhas e o canário do gajo que me tratou mal, prefiro gozar com ele, na medida do possível, e rir-me.

Foi a pensar no meu lema de vida que comecei a escrever. Não escrevo há uns tempos, tenho andado virado para outras hostes, mas quero adormecer com um sorriso nos lábios, mas esta história, ao ser um amontoado de erros crassos de dimensão razoável, tinha que passar para o papel, para tentar não me esquecer de nada.

Tudo começou muito bem. Recordo com alegria a chamada da coordenadora editorial. O livro tinha sido aceite, e tal notícia chegou até mim numa voz suave e radiofónica. Tinha que comprar 194 exemplares, numa tiragem de 500. Eles tratavam da divulgação, da distribuição e do lançamento.

Fiz a capa do livro e, quando impresso, vi que tinha ficado ainda mais bonito, o que foi uma nova alegria. A última, até à data.

Aí, começou o processo de divulgação do lançamento. O designer estava de férias, tive sorte, e pude fazer um belo cartaz. Só que ele voltou do descanso antes do tempo, e já foi ele a tratar dos convites. Optou por uma solução sóbria e feia, defendida com unhas e dentes.

Piropo: "Gosta?"

Miguel Estêvão Pato: "Não. Não pode mudar aquele cinzento para preto, pelo menos?"

Piropo: "Não! Quer convites ou não?"

Miguel Estêvão Pato:"Bom, já que as coisas são postas de uma maneira tão simpática, venham eles!"

Curiosamente, acabei por usar os convites, mas impressos por mim. Os deles nunca mais chegavam, e tive que gastar mais dinheiro para conseguir convidar pessoas a tempo. Também imprimi vários cartazes, já que na editora só me iam dar cinco.

Os dias iam passando, o dia do lançamento estava a aproximar-se, e recebo uma chamada a dizer que afinal tinha havido uma alteração nos convites. Tinham ficado ainda piores! Tinham saído com um erro de impressão, e corrigidos com um papel colado por cima,. Arranjo esse, aliás, digno de um miúdo de 12 anos.

Acabei por só ter os convites e os posters da editora comigo no dia do próprio lançamento…

No dia do lançamento vi que a divulgação não tinha corrido assim tão mal. A casa estava cheia… O que me aborrece, no que toca ao dia do lançamento, é que eu conhecia todas, todas, todas as pessoas que lá estavam… (excepto uma empregada nova, cuja presença será da responsabilidade do dono do estabelecimento...)

Eles iam tratar da divulgação e do lançamento… Trataram do lançamento, sim, os livros vendidos eram deles, e não dos 194 livros que tive que comprar...

Entretanto, já dei uma entrevista internética, à "Novos Livros", quase que me sinto um gajo conhecido, o escritor em ascensão que quero ser, a receber interesse por parte de um órgão de comunicação… Ena, e como é que surgiu esta entrevista?, perguntariam vocês. Claro que não foi através da editora Piropo, mas através dos meus conhecimentos, mas quase que já se adivinhava.

Mas melhora…

Hoje foi um dia fantástico. Não acordei muito bem-disposto, mas fui-me despachar para fazer uma viagem de 300 km para ir para uma apresentação do livro que estava marcada há mais de um mês. O lançamento tinha sido na minha cidade, esta sessão seria na cidade da editora, onde eu não conheço ninguém… Aqui, obviamente eles teriam que levar os potenciais compradores, a quem venderiam a minha obra. Isso, se a editora funcionasse bem, seria uma coisa simples e óbvia. Mas não, tinham-me dito há uns dias que, por problemas de distribuição, eu tinha que levar dos meus 194 livros. Havendo duas hipóteses, ou eu perdia mais de 2€ por livro, por ter que pagar à livraria, ou então emprestava os livros necessários.

Nem uma coisa, nem a outra… Eu levei os livros, fui carregado, gastei cerca de 40€ em portagens e não sei bem quanto em gasóleo (tentei pedir um apoio ao Bin Laden, mas o gajo não liga nenhuma à cultura…), para dar o autógrafo que me saiu mais caro até à data. À única pessoa que apareceu, a responsável da editora, que tinha gostado do livro. Não apareceu mais ninguém, e voltei a conduzir para casa os tais 300 Km…

No que toca a gastos, tenho que admitir que houve uma coisa boa. Tenho que dar apenas mais informação acerca de mim, eu sou um cafeinómano frenético, e na terra deles o café foi mais barato.



Nota do autor:

Quaisquer comparações entre "Miguel Esteves Pinto" e "Miguel Estêvão Pato", tal como entre "Papiro" e "Piropo" são erros, e serão feitas de má fé. Este é um texto humorístico. O autor gosta de gozar com a estupidez. Qualquer um deles.

Do meu grande amigo José Alberto Braga

http://www.clubalice.com/index.php?file=1&id=4026

segunda-feira, dezembro 13, 2010

- Ela estimula-te intelectualmente?
- Nem por isso.
- É boa pessoa?
- Hum... Muito mais ou menos.
- Têm afinidades?
- Poucas.
- É a atracção dos opostos?
- Não, não. Não há uma característica dela que possa apontar que goste ou que me suscite curiosidade.
- É gira?
- Normalíssima.
- É doce?
- Simpática, mas como tantas outras.
- Tem alguma extravagância?
- Não... nem há nenhum grande ponto de interrogação na sua personalidade.
- Então?
- Atrai-me imenso. Só sei isso.

domingo, dezembro 12, 2010

Sei que era um jardim esplêndido com flores bordeaux. Eu estava junto a uma fonte com a cara de um leão. As palavras não chegam lá - o local era a coisa mais mirífica que alguma vez vi/senti.

Em redor, começaram a aparecer uma, duas, três mulheres. Pessoas importantes para mim. Quadros da galeria da minha vida. Cada uma mais bela do que nunca. Iam aparecendo mais e mais e mais no jardim das folhas bordeaux. E cada uma explicava-me, sem palavras, porque era a merecedora do meu amor devoto e absoluto.


A certa altura, havia rostos que me parecia desconhecidos. O espaço envolvente (magnífico, sempre) ia tendo mais mulheres e mulheres, mas cada uma com um halo singular.

A certa altura, uma apareceu em frente a mim (sim, tu), aproximou-se de mim, abraçou-me e chorou.

Eu olhava em volta para os olhares que me fitavam.

Tentei libertar-me do abraço.

Mas o choro dela começou a fazer imergir-me no seu abraço. O seu choro era uma melodia.

- Deixa esta floresta. Fica comigo.

- Eu fi...

Olhei de soslaio, a meio do abraço, para as árvores. No jardim das flores bordeaux , percebi que havia frutos a nascer nas árvores. Contemplei um fruto - era um rosto de uma semidivindade a desabrochar. E outro... Tão lentamente desabrochavam aqueles frutos...

O abraço foi mais forte.

Ela gritou:

- Fica comigo, fica comigo. Não olhes mais para elas - o choro dela era uma música de amor irreprimível.

- Eu fico.
Há o casal e há o casalinho.

O casalinho é um mundinho-fechado-que-vai-enferrujando-a-sua-capacidade-de-comunicação-com-o-mundo-exterior. Estão sempre juntinhos os membros do casalinho. Vêm carregados de compras do supermercado, lavam a casa, lavam a loiça, trabalham muito, ele é engenheiro, ela é gestora, e quando chegam a casa cuidam da casa e da família. Não têm energia para mais nada.

Quando o telefone toca, um diz ao outro:

- Atende tu, é a tua mãe.

A imprevisibilidade é um elemento que não entra no relatório de contas do casalinho.

Com o tempo, os passatempos individuais vão-se extiguindo. Ele deixa de surfar sábado de manhã. Ela deixa de ir ao cinema com a amiguinha.

O casalinho socializa pouco. De quando em vez, está com os pais e os sogros, e, muito raramente, junta-se a outro casalinho e é uma loucura.

Falam de extravagâncias. De loucuras engraçadíssimas. De multas que levaram, de uma prestação que ficou por pagar e riem-se muito.

- Ele gosta muito de comer croquetes e de me sujar a sala!

- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!

São uns marotos eles. Fazem com cada uma, os malandros. Às vezes, até bebem um copo nas associações de casalinhos e falam do Benfica e dos colegas e dos patrões e da facturação mensal. Um membro do casalinho diz invariavelmente a certa altura:

- Ai, ai! Já é quase uma da manhã! Amanhã temos de ir ao Pingo Doce de manhã.

E recolhem ao lar. Cansados, felizes, trocando piadas privadas.
Please come back
Please come back
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The Cure

sábado, dezembro 11, 2010

- Eu gosto do oásis no meio do nojo. Brilha mais.
contradigo-me?
muito bem, então, contradigo-me
sou imenso, contenho multidões

Walt Whitman
Vistas de fora, as relações, as paixões, o amor podem parecer feios ou rídiculos - mas por vividos por dentro podem ser belos, intensos, únicos e divinos.
Eu amo-te muito. Eu quero ficar contigo para sempre. És a mulher da minha vida. Sem ti, nada faz sentido. Prefiro morrer a não estar contigo. (choro)

(choro muito)

as palavras sangram

sem ti, não sou nada.

pronto, já te passou a atracção sexual?

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Quem definiu o bom gosto?
«A certa espécie de pessoas não se fazem favores.»

Vasco Pulido Valente

Engraçado, só hoje estabeleci um padrão. Desde adolescente que me sai a frase:

- Eu não gosto de ti.

Olhando para trás, disse-a a:

a) pessoas que não conhecem a palavra gratidão. Como aquele que teve três empregos arranjados pelo mesmo amigo e quando o amigo saiu de um, por falta de ética da entidade patronal, o sabujuzinho permaneceu neutralmente no seu assento;

b) àquele que contava como da uma chupava, se engolia, como era o desenho da textura do púbis daquelas com quem putativamente dormia;

c) criaturas que vivem penduradas nos outros, que saem sempre sem carteira, que vivem de ofertas, que têm saldo mas pedem sempre aos outros para enviarem uma mensagem, que sabe conjugar o verbo pedir em todas as declinações, mas em nenhuma do verbo dar.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

terça-feira, dezembro 07, 2010

- Na minha casa, entra quem eu quero. Formigas ao piquenique? Não, obrigado. Eu sei que sou tão bem-amado quanto mal-amado. Nem na família, no jantar de Natal, deixo entrar quem não gosto. Não sou hipócrita! Sinto-me bem com as pessoas que estou bem. Com as pessoas que gosto. Isso de nine to five não é para mim. Patrões, não obrigado. Não dou simpatia a quem não simpatizo; a mim, parece-me lógico. Chamem-me antipático. Agora, não falho na palavra. Mesmo com quem não simpatizo, faço tudo aquilo a que me comprometo. Felizmente, a vida tem-me permitido não lamber cus a ninguém. Porra, lamber cus que não gosto não é para mim.
Está tudo nos clássicos.
Através de um rosto, lê-se tanta coisa. Não é possível tornar científica a observação de um rosto (apesar de já ter lido interessadamente sobre o assunto, confesso). Mas é possível, com dom e com observação paciente, desenvolver uma intuição (esse fio-de-raciocínio-tecido-pela-experiência).

Regra geral, a cara de alguém é muito importante. É claro que a voz, os gestos, o conteúdo das acções e palavras ainda o são mais.

Uma amiga minha disse-me um dia:

- A primeira vez que te vi pensei que eras um segurança, um brutamontes. És grande. Depois ouvi a tua voz e mudei logo de opinião.

Há rostos que não decifro. Há rostos - a maioria - que nada me dizem.

Mas há rostos que me afastam, e quando conheço a pessoa por detrás do rosto, vem logo em catadupa: a boçalidade, o materialismo, o mau carácter.

Um rosto diz-nos tanta coisa se mergulharmos nele.

Não é preciso lermos os jornais ou vermos a televisão para sabermos se o país está em crise. Está escrito no rosto das pessoas na rua, especialmente nas que andam de transportes.

Um rosto diz-nos, além dos estados emocionais, o nível de profundidade das águas de cada ser.

Reading Woman, Renoir

Quase Nada

[...]

Ideias que me encarceram,

Aguaceiros que não me lavam,

Ondas que não alcanço


O caminho que não descubro,

O nevoeiro que me ensombra,

A dor sempre que acordo

[...]

A imaginação é uma prisão

Quando não deixa o sol nascer,

E nunca traz orfeu

Prende-me à cama sem sono


Chicoteia-me com tudo

O que já foi, e o que não foi

Quando? Quando vai ser o que não foi?

Sempre. E nunca durmo


Já encontrei o baco em dias

Quando não quero encontrar ninguém

Lá me diz que ainda estou vivo
[...]

Miguel Esteves Pinto
Ao contrário do que se possa pensar, o escritor dá pouco valor às palavra. Porque ele - como ninguém - sabe que escrever é, acima de tudo, manipular.

Ele sabe que mil declarações de amor nada valem perante um olhar de desamor.

Ele sabe que um acto apaixonado é mais altissonante do que omissões de amor declarativo e palavras de indiferença.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Argumentos do adepto do monoamor:

O plurigâmico tem medo de amar, deve ter sofrido um desgosto de amor; é um frustrado que tenta preencher o vazio que tem dentro de si saltitando de uma para outra; é um narcisista inseguro que usa as mulheres como marionetas que lhe dão uma ilusão de grandeza; ainda não encontrou a pessoa certa, quando a encontrar vai querer estar só com ela. Mas reprime isso com um terrível medo de depositar tudo numa só pessoa com medo terrível de abandono - algo que desmonorará a sua vida.

Argumentos do adepto anti-monogâmico:

A monogamia é a mais enraizada doença social. É uma convenção. Na pré-história, o ser humano era poliândrico e poligâmico. A família começou no Império Romano como uma necessidade de perpetuar a propriedade e a riqueza. O monogâmico vive reprimindo a sua natureza. Sente como pecado aquilo que lhe surge de forma natural. Ninguém preenche outrem a 100%. O monogâmico é inseguro - muitas vezes luta por amar aquilo que tem e não por ter aquilo que ama. É, regra geral, comodista, rotineiro. Pensa que se o seu parceiro(a) o deixar, não encontrará mais ninguém. A verdade é que o monogâmico empedernido acredita pouco na possibilidade de conseguir arranjar alguém. Prefere a segurança na mediocridade ao terror da solidão. E quantos monogâmicos há que se não fosse por um complexo judaico-cristão não trairiam? E quantos monogâmicos há que se tivesse oportunidades, não as consumariam? O voto de castidade do impotente de nada vale.

O PSD mais à direita do que o PP (até o PP votou contra, o liberalismo económico versus a democracia cristão do CDS)

Suprema Irritação: O cangalheiro do PSD

A questão não é se Passos Coelho vai ser o cangalheiro do PSD, mas sim se vai ser dos Portugueses.
O fim do Serviço Nacional de Saúde, em moldes ainda misteriosos, mas que pode implicar simplesmente que a população activa, com rendimentos médios mais elevados deixe de contribuir para um serviço que por muito ineficaz que seja, garante o tratamento universal, seja a doenças pré-existentes ou as doença por descobrir, caras ou raras, todas pouco viáveis, economicamente falando.
Um serviço que garante, ainda que não seja a sua função, a protecção social. Um refúgio seguro para vítimas de violadores e agressores ou mesmo para os nossos anciãos, abandonados nos hospitais por famílias sem escrúpulos, tal como se faz ao animais domésticos [abandonados para morrer, nas vielas desta terra], quando querem ir de férias.
O proposto fim do Serviço Nacional de Saúde é um garantido retrocesso civilizacional. Uma garantia de que os que não têm posses para adquirir em simultâneo, os alimentos e os medicamentos, deixam de ter esse problema. Não tendo dinheiro para seguros de saúde e para consultas, não têm receitas para medicamentos.
E deixam de ter problemas, porque não têm mais doenças (diagnosticadas), deixam de passar fome porque têm dinheiro. E morrem, misteriosamente. Pelo menos, até à autópsia.
Resolve-se o segundo maior problema do país, para essas mentes. Demasiados reformados. Sem doenças e sem consultas, morrem. Assim menos gente a sustentar há, pelo erário público.
»Ah, mas não é assim. Vai continuar a existir serviço de Saúde, mas que apenas para os que não têm hipóteses financeiras. Isso é demagogia!
Com certeza que é!
Das mais puras e mortais.
O que é ter posses?
Pagar quantidades astronómicas de dinheiro para um serviço que será (é) de má qualidade. Onde e quando há problemas se recorre a hospitais públicos?
Ou será ter serviços ou seguros de saúde que cobrem gripes e constipações e pouco mais, pois é demasiado caro tratar um cancro?
Querem transportar o modelo americano para Portugal. Força!
Curiosamente, o governo federal dos Estados Unidos (conseguiu?) uma reforma do Medicare: há menos americanos desprotegidos agora.
Nós seremos mais radicais. Apoiados em teorias económicas falhadas (um neo-liberalismo selvagem e incapaz), em ideias destinadas a favorecer os apoiantes partidários (grupos financeiros e bancários?), vindas de pessoas de moralidade duvidosa, faremos com que Portugal seja um dos países mais novos da Europa.
Seremos também um dos primeiro a perder 30% da população em pouco mais de uma geração. Portugal será também o primeiro a perder, nesse marco civilizacional que aumenta em todos os países, mas que irá diminuir brutalmente aqui: A esperança média de vida.
Sim, vamos mudar Portugal. Acabemos com os Portugueses.
Post Sriptum: Será que PPC é dono de uma mortuária?

Miguel Lima

Estou tão comovido... Uma história de levar às lágrimas... abandonados pelas mães de todo o mundo, uni-vos e dormi com mil mulheres!

Simply Red: "Nos anos 80 dormia com três mulheres por dia, todos os dias", confessa Mick Hucknall
03-12-2010
Músico pediu desculpa a todas as mulheres que magoou numa década "louca" nas páginas do jornal Guardian.
O inglês Mick Hucknall, cara dos Simply Red, confessou nas páginas do jornal britânico Guardian que dormiu com mais de mil mulheres no espaço de três anos em meados dos anos 80 e pediu desculpa a todas que magoou.
"Arrependo-me das minhas conquistas. Aliás, deixam-me fazer um pedido de desculpas público através do Guardian? Elas sabem quem são, e eu estou mesmo muito arrependido", disse o músico de 50 anos, conhecido pela sua voz mas também pelo seu cabelo ruivo.
"Um homem de cabelo ruivo não é normalmente considerado um símbolo sexual", começou por explicar Hucknall antes de dizer que o sexo era um vício: "Quando consegui fama, foi a loucura. Entre 1985 e 1987 dormia com cerca de três mulheres por dia, todos os dias. Nunca disse que não. Era aquilo que queria enquanto estrela pop. Estava a viver o sonho e só me arrependo de ter magoado algumas boas raparigas".
O músico, hoje casado e com uma filha, desculpa-se também com o facto de ter sido abandonado pela mãe aos três anos. "Queria amor de todas as mulheres do planeta porque não tinha o amor da minha mãe. Era um vício que me levou a um período negro entre 1996 e 2001, quando comecei a beber mais que a seduzir".

Poema Inédito de S.

Um homem de olhos fechados procurando

Dentro de si memória do seu nome

Um homem na memória caminhando

De silêncio em silêncio derivando

E a onda

Ora o abandonava ora o cobria



Com vagos olhos contemplava o dia

Em seus ouvidos

Como um longínquo búzio o mar zunia

Líquida e fria

Uma mão sobre os seus ombros escorria

Era a onda

Que ora o abandonava ora o cobria



Um homem só n’areia lisa inerte

Na orla dansada do mar

Nos seus cinco sentidos devagar

A presença das coisas principie



No branco nevoeiro a deusa o via

Solitário erguendo-se do mar

Os cabelos com algas misturados

Os ombros luminosos e molhados



O seu corpo era como uma coluna

Sustendo o equilíbrio dos espaços

Água e luz corriam dos seus braços

E uma onda quebrada percorria

O rasto que deixavam os seus passos


Sophia
Confrontado com a fotografia de um grupo de escolares ou escuteiras e solicitado a apontar a mais bonita entre elas, um homem normal não escolherá necessariamente a ninfeta. É necessário ser-se um artista ou um louco, um indivíduo infinitamente melancólico, com uma bolha de veneno borbulhando-lhe as entranhas e uma chama supervoluptuosa ardendo eternamente na sua flexível espinha, a fim de discernir, de imediato, com base em sinais inefáveis — a curva ligeiramente felina de uma maçã do rosto, uma perna graciosa coberta de fina penugem, e outros indícios que o desespero, a vergonha e lágrimas de ternura me impedem de enumerar —, o pequeno e fatal demónio no meio das crianças normais. Elas não a reconhecem como tal, e a própria ninfeta não tem consciência de seu fantástico poder.

Lolita
Sorriu compreensivamente – ou muito mais do que isso. Era um desses raros sorrisos que têm em si algo de segurança eterna,um desses sorrisos com que a nós talvez nos deparemos quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava – ou parecia encarar – todo o mundo infindável, e que depois se concentrava em nós com um preconceito irresistível a nosso favor. Um sorriso que nos compreendia só até o ponto em que nós queríamos ser compreendidos, que acreditava em nós como nós gostaríamos de acreditar, assegurando-nos que tinha de nós exactamente a impressão que, na melhor das hipóteses, esperávamos causar.

The Great Gatbsy

domingo, dezembro 05, 2010

Emergiu no Paraíso e disse dezoito vezes:

Foooooooooooooooooooooooooda-se, Fodaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa-see... (sempre com várias cambiantes expressando um contentamento inexcedível)

sexta-feira, dezembro 03, 2010

http://www.clubalice.com/index.php?file=1&id=3852

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Ela disse-lhe:

- Depois de ti, sei que vou ficar sozinha para sempre.
Não acredito em finais felizes. Tudo o que tem um fim não é feliz.
há sempre uma mulher
para salvar você de outra

Bukowski
Quanto mais forte é um caráter, menos sujeito está à inconstância.

Stendhal
Se buscas a perfeição, nunca saborearás a vida.

Lembra-te da personagem d´A Peste (Camus)que nunca saía do primeiro parágrafo do seu livro, por estar sempre a encontrar maneira de o aperfeiçoar.
O Júri do Prémio LeYa reuniu esta tarde na sede da editora, em Alfragide, para deliberar sobre a atribuição do Prémio relativo a 2010.

Perante originais que, apesar de algumas potencialidades, se apresentam prejudicados por limitações na composição narrativa e por fragilidades estilísticas, o Júri entendeu que as obras a concurso não correspondem à importância e ao prestígio do Prémio LeYa no âmbito das literaturas de língua portuguesa. Em consequência, e de acordo com a alínea f) do art.º 9 do respectivo Regulamento, decidiu por unanimidade não atribuir o Prémio LeYa referente ao ano de 2010.


Alfragide, 29 de Novembro de 2010


Assinado, por esta ordem:


Manuel Alegre

Carlos Heitor Cony

Rita Chaves

Lourenço do Rosário

Nuno Júdice

Artur Pestana (Pepetela)

José Carlos Seabra Pereira
Se pensas que um homem ultra-confiante nunca chorou, não estás preparado para ser um grande homem.
Eles saem à noite por causa de mulheres.

Eles só se estimulam se houve a possibilidade de mulher.

Eles só andam no Facebook por causa de mulheres.

Eles, no trabalho, só vibram quando há um factor feminino novo.

Eles só gostam de partilhar histórias como elemento efe.

Eles só querem receber e enviar SMS de flirt.

Eles só reparam em mulheres na rua.

Eles só falam com mulheres com segundas intenções ou então porque tem mesmo de ser - mas isso não conta.

Eles só se cuidam da imagem por causa delas.

Eles só elevam o seu discurso na presença delas.

Eles só citam livros por causa delas.

Eles só mentem à frente delas.

Eles só tentam impressionar quando falam com elas.

Eles só compram automóveis para os quais não têm dinheiro por elas.

A perfeita noite de sexo

A antecipação do momento já era um êxtase inexcedível. A noite superou a própria imaginação. Como na Bíblia, em que se diz que o que está por vir no Céu é algo que nenhum ouvido viu, nehum olhou ouviu e que imaginação alguma seria capaz de comportar.

Ela era o Demónio e Deus. E nada por ser mais perfeito do que ter o Demónio e Deus na mesma cama. O momento era aguardado há tanto tempo. Era quase impossível que acontecesse. Tudo isso, a indefinição, a impossibilidade, a lentidão não deixaram de marcar presença, com toda a sua força, naquele momento.

Amor e carne expandindo-se além do limite do ponto em que cérebro e corpo quebram todas as correntes possíveis para a capacidade de contentamento que ambas podem suportar.

Houve algo profundamente religioso naquele momento. Deus e o Diabo estavam juntos, mostrando todo o seu poder, demonstrando, afinal, que o pináculo do século é o pináculo da beatude e do poder demoníaco.

O Universo registou: eis o inominável não-tempo, não-espaço, irrepetível, único e inolvidável.

Nunca mais nada será, foi ou é assim.
- No Verão, a líbido fala mais alto e é bom estar solteiro. Estar livre para o jogo... Conhecer caras novas, almas novas, frescas... As próprias roupas são mais convidativas, elas têm novos looks... No Inverno, não é bom estar solteiro. As pessoas recolhem-se mais em casa, está frio, depois é o Natal em família... É como a cigarra e a formiga. Tens de usufruir daquilo que conquistaste. Tens de estar no frio, em casa, com ela. E é bom.

O post mais arrogante da tasca

Parece que todos os homens que conheço só querem estar comigo quando tenho mulheres.


Sinto-me uma ilha rodeada de merda.


Angel-pensei-que-a-amizade-não-tinha-um-carácter-instrumental
Quem é este vulto que me aparece ultimamente nos sonhos? Porque não desvela o rosto?

terça-feira, novembro 30, 2010

Haverá actos inapagáveis?
Há anos e anos que falo neste nome: David Villa.
O moralista é o patrão da consciência alheia.

José Alberto Braga
Toda a arte aspira à condição de música.

Walter Pater

The Kiss

Kiss me kiss me kiss me
Your tongue is like poison
So swollen it fills up my mouth

Love me love me love me
You nail me to the floor
And push my guts all inside out

Get it out get it out get it out
Get your fucking voice
Out of my head

I never wanted this
I never wanted any of this
I wish you were dead
I wish you were dead

I never wanted any of this
I wish you were dead
Dead
Dead
Dead

The Cure

segunda-feira, novembro 29, 2010

Quando a austeridade sem mais se transforma no programa de governo, o desespero torna-se num generalizado sentimento nacional.

Manuel Maria Carrilho

Já traíste em pensamento?



(e depois ela conta-lhe da fantasia com o oficial da marinha)
Dos pecados mortais, só a inveja e a cobiça podem ser dignos do nome (e sem o adjectivo). Propostas para os outros cinco: crueldade, corrupção (desonestidade), indiferença, traição (no sentido lato) e, claro está, ingratidão (talvez o pior juntamente com a crueldade).
- Angel, o altruísta morreu de sede depois de ter todos os rios do mundo.

- Angel, uma pessoa para se dar contigo é preciso um tratado.

- Angel, és uma criança idealista.

- Angel, és um etêzinho que tenta remar sozinho contra a maré.

Pois é, continuo a magoar-me com amigos que partem para uma vida-de-carreira-e-filhos sem tempo para amizades.

Continuo a mandar-para-o-caralho quem só liga quando precisa de um favor, por mais mascarado que esteja, por mais perguntas sobre como-estás, por mais subtilezas e artefactos de «tenho pensado em ti», «ainda ontem era para te ligar».

Continuo a irritar-me com amigos que só me utilizam para conhecerem pessoas (mulheres, quase sempre).

Continuo a achar que dou muito mais do que recebo.

Continuo a detestar que violem a intimidade dos outros à minha frente - quem conta segredos ou pseudo-façanhas-sexuais.

Continuo a não suportar, a não compreender, a não aceitar que haja alguém corrupto.

Continuo a não tolerar quem é sabujo e bajulador para os de cima e autoritário e negligente para os de baixo.

Continuo a não entender o valor da beleza, do estatuto e do dinheiro na cabeça de tanta gente. Foda-se.

Continuo a ficar doente com pequenas desatenções ao sofrimento alheio.

Continuo a não entender como alguém pode não cumprir a palavra.

Continuo a querer bater em quem combina coisas e não aparece, sem aviso ou justificação.

Continuo a ficar nauseado perante o egoísmo de quem só quer falar sem ouvir, não reparando quando atropela verbalmente o seu interlocutor, deixando as suas ideias por comentar - não as ouvindo pura e simplesmente.

Continuo a eliminar pessoas que dizem mal nas costas de outrem e, quando na presença desse outrem, escolhem como alvo de críticas o outrora depositário da maledicência.

domingo, novembro 28, 2010

Dinis Machado escreveu que nada faz mais barulho do que o estilhaçar de um ídolo. Deveria haver um vocábulo (numa língua qualquer) para nomear o sentimento que fica depois de percebermos que a pessoa que amámos-ou-tanto-admirámos nunca existiu. É um vazio tão vazio.
- Não o amo, mas não consigo viver sem ele. É o hábito, a rotina... Então no Inverno, dói tanto não ter alguém para estar sob a mesma manta.
É estranho a Igreja defender a monogamia quando o exemplo que vem de Deus é o pluriamor. Deus ama-nos a todos. Então como poderá ser pecado amar duas mulheres ou dois homens?
Paixão, amor, atracção, tão poucas palavras para tantos sentimentos e tantos tipos de relações. Cada sentimento por alguém de quem se gosta merecia um nome diferente

sábado, novembro 27, 2010

74% dos jovens elege Internet como meio favorito para comunicar.

Agência Financeira

sexta-feira, novembro 26, 2010

Linguagem económica, ok, mas então porque não «q» [que] em vez de «k» e «c» [com] em vez de «k»?
Ela 1 foi rebelde toda a vida. De esquerda, de cabelo azul, de companhias «alternativas». Passados uns anos, começou a trabalhar e a ganhar muito dinheiro. Hoje, aos trinta, diz que só quer um homem ao seu lado que lhe possa garantir «estabilidade material». «Mas, Angel, claro que só posso ter um homem que tenha pelo menos o mesmo rendimento que eu para podermos ter uma vida equilibrada.» Recordo-lhe os tempos da sua juventude. «Tu és mas é maluco?, mas que futuro é que um gajo que vive liricamente me pode oferecer? Nesta idade da vida, temos de fazer projectos e planos com algum cálculo. É a realidade, Angel.»

Ela 2 sempre quis viver na Natureza, «ter muitos filhos», viver numa comunidade que lhe fizesse lembrar os hippies , longe da sociedade tecnológica e mercantilista. «Fiquei tão revoltada comigo quando comprei televisão para a minha casa», disse-me há 2 anos. Hoje, trabalha muito, tem uma indumentária e um penteado diferentes (mesmo fora do trabalho), e afirma que não se pode dar com as pessoas de nível inferior no trabalho porque se não, deixa de ser respeitada. Deixando de ser respeitada, perde a credibilidade. Perdendo a credibilidade, perde a «capacidade de mostrar projectos que convençam os colegas». Praticamente só fala de trabalho. Há pouco tempo, disse-me: «Essa malta das artes nunca concretiza nada. É só ideias abstractas, só coisas sem sentido prático.»

quarta-feira, novembro 24, 2010

Mais vale tomares uma decisão errada do que viveres uma vida preso a um dilema.

terça-feira, novembro 23, 2010

Não gosto do homem, mas a frase é boa:

Coragem é manter a graça sobre pressão.

EH
- Ando com a alma a mil à hora.

Scared as you

all those things that made you cry
i didn't really mean that stuff
i didn't really mean that stuff
all i ever really mean
when i scream and shout the way i do
is i don't know
i really don't
i'm just the same as you

you know those things i said
all those things that made you
run away from me
i didn't mean a word
i didn't really mean i don't believe
all i ever really mean
when i rant and rave the way i do
is i'm scared
i'm scared
i'm just as scared as you

and sometimes it's so hard
not to just throw it all away
sometimes it's so hard
not to just throw it all away
like all those things i said
all those things that made you cry
i didn't really mean that stuff
i didn't really mean to say goodbye

you know those things i said
all those things that made you
run away from me
i didn't mean a word
i didn't really mean i don't believe
all i ever really mean
when i scream and shout the way i do
is i'm scared
i'm scared
i'm just as scared as you

The Cure

segunda-feira, novembro 22, 2010

A amizade é, dentro das parcelas mais importantes da vida, a mais subestimada. Na arte, fala-se muito do amor e pouco da amizade. Na vida quotidiana, dizemos: azar ao jogo, sorte ao amor. (A amizade fica de fora.) Dizemos que alguém teve um desgosto amoroso, mas não um desgosto de amizade. Falamos em alguém «traumatizado» com mulheres ou com homens, mas não com amigos. «Orientou-se na vida» expressa sempre a ideia de «arranjar um parceiro». «El@ deixou-me» tem sempre no subtexto: El@ = um(a) namorad@. Dizemos que alguém é solteiro, mas não temos vocábulo para alguém que é órfão de amigos (algo bem mais doloroso).

As palavras «perda», «rejeição», «ciúme», «possessividade», «conquista», «reconquista», «abandono» (até «trocad@») deveriam aplicar-se também à amizade.


- Tens namorad@?

poderia um dia ser substituído aqui e ali por:

- Tens amig@?

Ter um só amigo com A é raro. Raro, nobre, belo.
A vivência de Deus e do Amor são as duas únicas experiências totalizadoras. Não é por acaso que alguém sabiamente as uniu: Deus é Amor.

sábado, novembro 20, 2010

Na vida só há um modo de ser feliz. Viver para os outros.

Tolstoi

sexta-feira, novembro 19, 2010

Palavras Intraduzíveis

Razbliuto (Russo)


O afecto que ainda se sente por alguém que algum dia se amou

quinta-feira, novembro 18, 2010

Scott Fitzgerald escreveu que aquilo de que normalmente nos envergonhamos dá uma boa história e que se tens algo a perguntar a alguém, fá-lo a escritor. Porque um escritor tem uma opinião sobre praticamente tudo. O escritor, explica, é muitas pessoas.

Transcrevendo poemas que não estão na Internet

A beleza em cada ser é uma alegria eterna:
o seu encanto torna-se maior e nunca se há-de perder
no nada; reservar-nos-á ainda um refúgio
de paz, onde adormeceremos, habitados por sonhos
suaves, uma íntima plenitude, uma respiração branda.
Comecemos, assim, a tecer em cada manhã
uma grinalda de flores para nos unirmos à terra,
apesar do desalento, da ausência daqueles
cuja nobreza amávamos, dos dias cheios de escuridão,
de todos os caminhos insalubres e misteriosos; sim, apesar de tudo
uma forma de beleza afasta o sudário das nossas almas sombrias.
[...]os límpidos rios
que para si criam um dossel de frescura
durante as estações ardentes
[...]

idem
Onde a Beleza perde o olhar lustroso,
Ou o Amor se gasta no dia seguinte.

Para longe! Eu desejo voar contigo,
Não guiado por Baco, e seus convivas,
Mas nas invisíveis asas da Poesia,
Mesmo que a mente se atrase confusa:
Estarei contigo! Terna é a noite!
E afortunadamente a Rainha-Lua está no seu trono,
Cortejada por suas brilhantes Fadas;
Mas aqui não há luz
Excepto a que vem do céu trazida pela brisa
Em penumbras e trilhas sinuosas.

Keats

quarta-feira, novembro 17, 2010

CANÇÃO DA ESTRADA LARGA

Desta hora em diante, ordeno a mim mesmo que me liberte de limites e linhas imaginárias,
E, como meu próprio senhor total e absoluto, caminharei para onde eu quiser,
Ouvindo os outros, considerando bem o que eles dizem,
Parando, investigando, recebendo, contemplando,
Gentilmente, porém com irrecusável vontade,
Despindo-me dos embaraços que me poderiam entravar.
Sorvo grandes tragos de espaço,

O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul também me pertencem.

Sou mais extenso, melhor mesmo do que pensava,
Não sabia que havia em mim tanta bondade.

Tudo me parece belo,
Posso repetir a homens e a mulheres, pois tanto bem me tendes feito que eu gostaria de fazer o mesmo a vós,
Recolherei para mim mesmo e para vós, quando caminhar,
Disseminarei-me-ei entre homens e mulheres quando caminhar,
Espalharei uma nova alegria e rudeza entre eles,
E se alguém me negar, isso não me preocupará,
Pois quem quer que me aceite será abençoado e me abençoará

Walt Whitman
Tenho lido os “poemas mudados para português”
por Herberto Helder [HH] no livro a que
chamou O Bebedor Nocturno. Logo no “mudados
para português” se vê que está bem
escrito, acima das velhas desculpas e falsas
modéstias das traduções e das traições.
É uma obra maior, que ensina que não se pode aprender
a escrever. Mas ver escrever bem já é bem suficiente.
Nos Quinze Haikus Japoneses que mudou para português,
HH escolheu um de Kikaku que Bashô depois corrigiu.
Kikaku escreveu:
“Libélula vermelha./Tira-lhe as asas:/um pimentão.”
Segue-se a “Correcção de Bashô”:
“Pimentão vermelho./Põe-lhe umas asas:/Libélula.”
A correcção é gigante. O original pega numa coisa bonita
(a libélula) e tira-lhe um acessório (as asas) para mostrar
que é parecida com uma coisa feia (um pimentão).
Bashô e HH mostram que é melhor transformar uma
coisa banal (pimentão) numa coisa mágica (libélula),
dando-lhe asas. É melhor acrescentar do que remover,
fazer pensar do que fazer troça.
A libélula não precisa de ser vermelha ou de adjectivo
sequer – é das cores do arco-íris. Já o pimentão tem de
ser vermelho, porque há verdes e amarelos.
Depois, é melhor a indefinição de “umas asas” (quaisquer)
do que “as asas” (daquela única libélula). Como
voa mais a maiúscula da única palavra da terceira linha
(“Libélula.”) do que as minúsculas de “um pimentão”.
A nossa língua renasceu.

Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, novembro 15, 2010

Dinosauria, we

born like this
into this
as the chalk faces smile
as Mrs. Death laughs
as the elevators break
as political landscapes dissolve
as the supermarket bag boy holds a college degree
as the oily fish spit out their oily prey
as the sun is masked

we are
born like this
into this
into these carefully mad wars
into the sight of broken factory windows of emptiness
into bars where people no longer speak to each other
into fist fights that end as shootings and knifings

born into this
into hospitals which are so expensive that it's cheaper to die
into lawyers who charge so much it's cheaper to plead guilty
into a country where the jails are full and the madhouses closed
into a place where the masses elevate fools into rich heroes

born into this
walking and living through this
dying because of this
muted because of this
castrated
debauched
disinherited
because of this
fooled by this
used by this
pissed on by this
made crazy and sick by this
made violent
made inhuman
by this

the heart is blackened
the fingers reach for the throat
the gun
the knife
the bomb
the fingers reach toward an unresponsive god

the fingers reach for the bottle
the pill
the powder

we are born into this sorrowful deadliness
we are born into a government 60 years in debt
that soon will be unable to even pay the interest on that debt
and the banks will burn
money will be useless
there will be open and unpunished murder in the streets
it will be guns and roving mobs
land will be useless
food will become a diminishing return
nuclear power will be taken over by the many
explosions will continually shake the earth
radiated robot men will stalk each other
the rich and the chosen will watch from space platforms
Dante's Inferno will be made to look like a children's playground

the sun will not be seen and it will always be night
trees will die
all vegetation will die
radiated men will eat the flesh of radiated men
the sea will be poisoned
the lakes and rivers will vanish
rain will be the new gold

the rotting bodies of men and animals will stink in the dark wind

the last few survivors will be overtaken by new and hideous diseases

and the space platforms will be destroyed by attrition
the petering out of supplies
the natural effect of general decay

and there will be the most beautiful silence never heard

born out of that.

the sun still hidden there

awaiting the next chapter.


Charles Bukowski
Nenhum dos meus amigos se instala na minha cadeira,
Não tenho cadeira, nem igreja, nem filosofia,
Não conduzo ninguém à mesa de jantar, à biblioteca, à Bolsa,
Só te conduzo a ti, homem ou mulher, a um outeiro,
A minha mão esquerda aperta-te a cintura,
A minha mão direita assinala a paisagem dos continentes e o passeio público,
Nem eu nem ninguém pode percorrer por ti este caminho,
Deves percorrê-lo por ti mesmo.
Não fica longe, está ao teu alcance,
Talvez tenhas andado por ele desde que nasceste e não o saibas,
Talvez fique em toda a parte, na água e na terra.
Carrega os teus farrapos, meu filho, e eu carregarei os meus, apressemo-nos,
Chegaremos a maravilhosas cidades, chegaremos às nações livres.
Se estás cansado, deixa-me levar os fardos, e põe a tua mão na minha anca,
E no devido tempo hás-de retribuir-me,
Pois já que partimos nunca poderemos descansar.
Hoje, antes do alvorecer, subi uma colina e olhei os céus e as constelações,
E perguntei ao meu espírito: Quando abraçarmos essas orbes, quando tivermos o prazer e o saber de quanto nelas há, sentir-nos-emos realizados e satisfeitos?
E o meu espírito respondeu: Não, se alcançarmos esses cumes é só de passagem, é só para continuar mais além

Walt Whitman
Não digam a ninguém
ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA

«Foi assim: ninguém tinha o telefone do Herberto Helder, eu só sabia o nome da rua porque tenho muita dificuldade em decorar números. Foi então que a Clara propôs irmos à procura do poeta na rua que eu tinha. Só havia dois prédios de habitação. Um deles era quase uma torre e tinha um painel de campainhas. A Clara tocou numa delas ao acaso. Daquela gradinha de rede veio uma voz. «Quem é?». A Clara perguntou se era da casa do poeta Herberto Helder. «Mas quem é?». Ela disse o meu nome. Então a porta abriu-se e nós subimos. A Olga estava à entrada da casa. Eu gosto muito da Olga, primeiro por ela e depois porque nos toma conta do Herberto. Digamos que ele faz parte do nosso Património e ela é a Conservadora. Eu disse-lhe baixinho - Olga, o Herberto ganhou o Prémio Pessoa, são sete mil contos. Como é que isto vai ser?

Ela fez-me uma cara de conformação e só com um gesto de cabeça fiquei a saber que ele não ia aceitar.

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério: - Vimos numa díficil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Voçês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que vocês sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu eu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito. Eu só lhe disse: - Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais...

A Clara falou muito com ele porque ambos gostavam de se conhecer. Ela sabe fazer conversas inteligentes como se fossem banais. A certa altura viemos embora com alguma comoção por dentro e desabafámos no carro:

- Já ninguém faz isto...

- Todos ganhámos este prémio. Quando a regra é a procura de dinheiro, é bonito que um homem pobre dê exemplos assim.

Eu, confesso que passou pela cabeça de um bocadinho de mim que ele pudesse aceitar o prémio. Sempre eram sete mil contos. Talvez uma segurança até ao fim da vida. A verdade é que quase me apeteceu voltar atrás e pedir-lhe desculpa por este «mau pensamento». Mas eu era um homem feliz: o Herberto não nos deixou ficar mal...»

domingo, novembro 14, 2010

Obrigado, Sofia

Dançando ao som do orvalho
És barco despertando as palavras
Que vivem no sangue jovem
Diz que há luz nas moradas dos cegos
E rompe de paixão a terra
Com esse teu desejo de nascer sol
Já é dia e o teu corpo anseia
Abrir as conchas
Deixa que o Verão que vive em ti
As abra e enche-te de doçura
Sonhas o voo aberto das velas
Navegando até à canção da liberdade
Semeada pelo vento

Sofia Leal

sábado, novembro 13, 2010

- Estou a fazer o download da minha alma para este livro.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Transcrevendo poemas de livros (poemas que não estão na Internet)

Ode a uma urna grega

Tu, noiva inviolada da tranquilidade
alimentada pelo silêncio e por um lento passado,
rústica historiadora que nos podes dizer um conto
florido e mais belo que todos os nossos poemas:
cercada de folhagens, que lenda preenche o teu contorno
de deuses ou mortais, ou de ambos, através de Tempe
ou pelos vales da Arcádia? Que homens
ou que espécide de deuses? Que donzelas esquivas?
Que perseguição desesperada e que luta para fugir?
Que flautas e tambores? Que Êxtase impetuoso?

As canções que ouvimos são suaves, mas atraem-nos
ainda mais
as que não escutamos: continuai pois, melodiosas flautas,
o vosso ritmo. Não para o ouvido corpóreo: mais íntimas,
entoai para o nosso espírito as canções silenciosas.
Sob uma árvore, formoso adolescente, não podes deter
o teu canto, nem estas árvores perder as suas folhas.
E tu, amante ousado, nunca conseguirás dar o teu beijo
ainda que permaneças sempre tão próximo; mas não sofras,
ela não há-de envelhecer e, apesar de não possuíres a
felicidade,
continuarás a amá-la, olhando para sempre a sua formosura.

Felizes, felizes ramos que não podeis abandonar
as folhas, nem jamais exprimir a despedida da Primavera;
e tu, músico ditoso e infatigável,
que todos os dias vens tocar canções sempre novas.
Feliz, feliz amor, amor tão venturoso,
para sempre ardente e calmo para que fosse possível
realizar-se; para sempre anelante e juvenil,
assim ficaste aquém de toda a paixão humana
que deixa um coração saciado e cheio de tristeza,
uma fronte ardente e mais secos os nossos lábios.

Que cortejo é este que caminha para o sacrifício?
A que ara tão verde, misterioso sacerdote,
conduzes este novilho que lança os seus mugido
para o céu, e tem cobertos de grinaldas os flancos lustrosos?
Que pequena cidade junto dum rio ou na margem do mar,
ou sobre um monte, com a sua tranquila cidadela,
se despovoou, nesta manhã piedosa?
Conservar-se-ão para sempre, pequena cidade, as tuas ruas
silenciosas; e ninguém, que saiba explicar-nos
porque ficaste assim abandonada, poderá regressar.

Ó curva ática, perfeito equilíbrio - friso
de homens e mulheres inscritos no mármore,
com ramagens dum bosque e ervas que os pés calcaram.
Tu, forma do silêncio, que vens atormentar o pensamento
como a eternidade; tu, pastoral inerte!
Quando a velhice chegar para consumir a nossa geração,
continuarás a ser, cercada por outras angústias,
a companheira do homem a quem hás-de dizer:
«A beleza é verdade, a verdade é beleza.» Apenas isto
é tudo o que sabes e precisas de saber na terra.

Keats
Confrontai com a vossa personalidade todas as personalidades da Terra.

ibidem
Ensino a afastarem-se de mim, mas quem se pode afastar de mim?
Quem quer que sejas, sigo-te desde este momento,
As minhas palavras hão-de atormentar-te os ouvidos até as compreenderes.

Walt Whitman
- Angel, porque é tu, que acreditas em tanta coisa intangível, não acreditas no amor eterno?
Dá-te a conhecer devagarinho. Mantém sempre uma reserva de mistério. Deixa-te saborear lentamente e faz o mesmo com o Outro. Não sejas sôfrego na tua curiosidade. Não queiras viver tudo num só dia. Retarda ao máximo o dia em que a qualquer frase ou história ou anedota te digam:

- Já sei.
Não te limites a cultivar as amizades, cultiva também as inimizades. Nunca sejas neutro.
Acho que sou boa pessoa porque celebro com as vitórias de 95% das pessoas. Aos meus inimigos, não lhes desejo felicidade. Desejo-lhes que mudem de rumo. Celebro as suas derrotas. Mas se estiverem numa situação de sofrimento extremo, esticar-lhes-ei a mão. E dispenso que vejam o meu rosto.

Imaturidade emocional

... é achares que uma pessoa pode ser interessante 24 horas por dia durante 365 dias consecutivos.
... é apaixonares-te bimestralmente.
... é acreditares que um desgosto da amor é eterno.
... é não saber ser queres ou não queres estar com aquela pessoa meses a fio.
... é andares com alguém por teres medo de não arranjares mais ninguém (há tantas mulheres, há tantos homens no mundo).
... é dizeres «eu amo-te» no primeiro beijo.
... é abdicares de todas as dimensões da vida por uma pessoa.
... é idealizares sem fundamentos sólidos.
... é teres relações escoradas em bom sexo.
... é achares que a cabeça deve comandar o coração.
... é achares que a cabeça não deve interferir no coração.
... é seres muito calculista na escolha do parceiro.
... é não seres nada racional na escolha do parceiro.
... é teres medo do amor.
... é renderes-te à paixão.
... é confundires atracção com paixão.
... é acabares irreversivelmente com alguém porque viste uma troca de mensagens dúbia.
... é anulares a tua personalidade e teres uma relação fusional.
... é abdicares totalmente da amizade em prol do amor.
... é não perceberes que o amor degenera numa amenidade.
She said:

- Estava a tomar banho e pensei que já não ia alimentar mais nada em relação a ele. E quando desligava a água, foi estranho, vi a água a ir pelo ralo e vi-o a ele a desaparecer pelo ralo. Olha até disse a uma amiga minha: o Caramelho [alcunha] foi pelo ralo.
Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são o refúgio de vozes murmuradas
De noites em repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável…
Oh, não perguntes “Qual será?”
Vem lá comigo fazer a tal visita.

[...]
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho nas vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam na sarjeta,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.

Haverá por certo um tempo
Para o fumo amarelo que desliza pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá um tempo, tempo
De compor um rosto para olhares os rostos que te olharem;
Tempo de matar, tempo de criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias, de mãos
Que se erguem e te deixam cair no prato uma pergunta;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para cem indecisões
E outras tantas visões e revisões
Antes de tomar o chá e a torrada.


Haverá por certo um tempo
De pensar se corro tal risco. “Corro tal risco?”
[...]
Vou correr o risco
De perturbar o universo?
Num só minuto há tempo
Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.

Pois já as conheço todas bem, conheço todas –
Sei as noites, as tardes, as manhãs,
Às colheres de café andei medindo a minha vida;
Sei que em breve agonia se esvaem as vozes
Abafadas na música de um quarto mais além.
Como havia eu de ousar, assim?

E já conheço os olhares, conheço todos –
Olhares que te reduzem a fórmulas e a dizeres

T. S. Elliot

quarta-feira, novembro 10, 2010

«I am as bad as the worst, but, thank God, I am as good as the best.»

Walt Whitman

Sábado, dia 13, sem custos nem marcações

Este sábado, vamos falar sobre O que é escrever bem?, sob a orientação de Manuel Monteiro, formador de Revisão de Textos na nossa Escola, e seus convidados.

Marque na sua agenda: próximo dia 13, entre as 19h e as 20h30. Este encontro é para si e a entrada é livre!

Se precisa de razões para marcar presença, nós damo-las:

1. Está a chover lá fora!
2. Sem custo, sem marcação, terá direito a conhecer erros frequentes da língua e aprenderá a nunca mais usá-los.
3. Terá direito a gargalhadas. Serão exibidos vídeos que o porão bem-disposto (a).
4. Assistirá a um debate sobre o que é escrever bem, conhecendo diferentes pontos de vista.
5. Poderá trocar ideias e expressar-se livremente sobre os seus sonhos de escrita e os seus livros favoritos.
6. Se a escrita e a língua nada lhe dizem, apareça para beber um moscatel, comer uns aperitivos e conhecer pessoas num sítio com uma vista privilegiada.

Para o deixar já a pensar sobre o que é escrever bem, deixamos aqui um comentário de António Lobo Antunes: http://www.youtube.com/watch?v=qc6B2i2V--M.


Sendo o encontro de porta aberta, não é necessário confirmar presença e não há lugares reservados. Por isso, seja pontual para garantir a sua cadeira.

Com este evento estreamos o nosso primeiro Escrever à Conversa, uma iniciativa que pretendemos realizar uma vez por mês, sempre com temas e formadores convidados diferentes.

Até sábado!

E o fundamentalista da Língua sou eu?

«Quatro em cada dez alunos do 6.º ano não foram além de duas respostas totalmente correctas em nove no domínio do "Conhecimento Explícito da Língua" na Prova de Aferição.»

Público

Metonímias

«Os chineses ainda vão tomar conta disto, vais ver. E olha que os gajos são fodidos», ele disse.

Muitas vezes, emprestamos as características de um regime a todo um povo que vive subjugado por esse mesmo regime.

Os africanos são uns ladrões. (Não são os governos que estão apodrecidos de corrupção e nepotismo.)

Os muçulmanos uns fanáticos. (Não são as teocracias que não separam o Estado da Religião, que humilham os direitos humanos e secundarizam a mulher.)

Os chineses, como é lógico, são uns exploradores.

Além de terem de viver sob regimes opressivos, de serem vítimas, determinados povos ainda têm de carregar o estigma dos pecados dos ditadores que não elegeram. Nascessem noutro sítio. Era tão simples.

O segredo

Não contava o segredo a ninguém - não, isso não era um segredo. Se alguém o sabia, não podia ser um segredo.

O segredo habitava - não, o segredo não tinha morada.

Se alguém o visse... (mas se ele não se podia ver?)

O segredo nem sequer se podia nomear.

Se alguém o tocasse, desfar-se-ia ele ou aquele cujas mãos lhe tocassem?

O segredo, no fundo, no fundo, no fundo, nem existia de tão secreto que era. (Era precisamente nessa condição inexistente que ele gostava que o vissem. Para que não o descobrissem?)

segunda-feira, novembro 08, 2010

Des(irman)(empreg)ados

O país (e o mundo) atravessam uma crise de efeitos não subestimáveis. Claro que os mais fracos são quem sofre sempre mais nestas alturas. Quem tem pouco passa a ter quase nada. Ou nada mesmo em países que dispensam os serviço de protecção social, passando a viver da caridade alheia.

Dos grupos excluídos (idosos, pobres, imigrantes, etnias minoritárias), o dos desempregados sempre foi um dos que mais me tocou.

O desemprego é terrível. Conheço pessoas desempregadas e sei o quão falso é o estigma de «só não tem trabalho, quem não quer». Conheço pessoas cujo emprego é procurarem emprego. Sim, a procura de emprego pode ser um full-time. Conheço pessoas que enviaram já duzentas vezes o currículo sem sucesso. Conheço pessoas que passam o dia ver empregos na Internet. Conheço pessoas que vão a entrevistas e que lhes dizem (é ilegal, mas e então?): só aceitamos até 35 anos. Conheço pessoas que percorrem o país, numa itinerância de viagens com custos que têm de suportar sem dinheiro, mais os portes de correio (não se poderiam isentar os desempregados de pagarem o correio quando enviam currículos?), mais os almoços fora.

Outro dia, num círculo de pessoas que se iam auto-apresentando (que mania esta de nós apresentarmos pela profissão), alguém disse:

- Sou desempregado.

Os olhares e os rostos em volta soltavam uma pergunta muda:

- Mas tu não serves para nada?

Os desempregados têm vergonha da sua condição. Escondem a sua condição. Inventam projectos que estão a fazer, empresas que irão criar, trabalhos-em-vias-de... num futuro sempre próximo. Cá são 10%. Em Espanha, são 25%. Mas os números não lhe retiram o estigma («marca infamante feita com ferro em brasa, aplicada antigamente a escravos e criminosos»).

A realidade não altera, de resto, o preconceito, essa coisa mais difícil de quebrar do que um átomo. A vox populis acha que o subsídio de desemprego é muito alto e que, no fundo, no fundo, no fundo, quem procura trabalho sempre alcança.

Basta ler as estatísticas. Basta ler sobre Economia. Nenhum livro - mesmo dos ultra-liberais na senda de Hayek e Friedman - deixa de apresentar a taxa de desemprego voluntário como sendo sempre residual.

Dentro dos desempregados, os voluntariamente desempregados são 2% em muitos livros. No máximo dos máximos, 5%.

E o pior de tudo é que os desempregados não têm sindicatos. Numa sociedade produtivista, eles são a principal doença: os que em nada contribuem para o crescimento económico, o novo Deus do século XXI.

Neste ponto, nem sequer consigo ser optimista antropológico, e deixo todo o meu rousseanismo de lado. Quando uma pessoa está na merda, as outras afastam-se. Não deveria ser ao contrário?

Desaparecimento de Luísa Porto

Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
à Rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada há longos anos
erma de seus cuidados.

Pede-se a quem avistar
Luísa Porto, de 37 anos,
que apareça, que escreva, que mande dizer
onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra,
morena, rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
Mãe entrevada chamando.

Roga-se ao povo caritativo desta cidade
que tome em consideração um caso de família
digno de simpatia especial.
Luísa é de bom gênio, correta,
meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.

Levava pouco dinheiro na bolsa.
(Procurem Luísa.)
De ordinário não se demorava.
(Procurem Luísa.)
Namorado isso não tinha.
(Procurem. Procurem.)
Faz tanta falta.

Se, todavia, não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e talvez encontrem.
Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.
Luísa ia pouco à cidade
e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.
Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,
é Rita Santana, costureira, moça desimpedida,
a qual não dá notícia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.

Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de Janeiro
que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.
Uma vez, em 1898
ou 9,
sumiu o próprio chefe de polícia
que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio
e até hoje.
A mãe de Luísa, então jovem,
leu no Diário Mercantil,
ficou pasma.
O jornal embrulhado na memória.
Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,
a pobreza, a paralisia, o queixume
seriam, na vida, seu lote
e que sua única filha, afável posto que estrábica,
se diluiria sem explicação.

Pela última vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem a moça, procurem
essa que se chama Luísa Porto
e é sem namorado.
Esqueçam a luta política,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso
de mãe em festa
e a paz íntima
conseqüente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho de alma.

Não me venham dizer que Luísa suicidou-se.
O santo lume da fé
ardeu sempre em sua alma
que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.
Ela não se matou.
Procurem-na.
Tampouco foi vítima de desastre
que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está viva para consolo de uma entrevada
e triunfo geral do amor materno,
filial
e do próximo.

Nada de insinuações quanto à moça casta
e que não tinha, não tinha namorado.
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei,
as ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
ou trazida por mão benigna,
o olhar desviado e terno,
canção.

A qualquer hora do dia ou da noite
quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos.
Não tem telefone.
Tem uma empregada velha que apanha o recado
e tomará providências.

Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a página:
Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
Deus lhe dirá:
Vai,
procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa (somos pecadores)
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas sua filhinha
que numa tarde remota de Cachoeiro
acabou de nascer e cheira a leite,
a cólica, a lágrima.
Já não interessa a descrição do corpo
nem esta, perdoem, fotografia,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum proverá.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos.
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocham seios e uma forma de virgem
intata nos tempos.
E de sentir compreendemos.
Já não adianta procurar
minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
cravada no centro da estrela invisível
Amor.

Carlos Drummond de Andrade