
Os sinais estão à vista e não nos apercebemos. Normalmente, é assim: conseguimos interpretar o passado, mas não o presente - porque este nos tomba de todos os lados a toda a hora. E é preciso tempo, é preciso serenidade de espírito. O mundo actual é muito rápido. Nunca tivemos tantos estímulos como hoje. Tanta informação e tanta falta de rigor em simultâneo. Tanta democratização do lixo.
Porque é que eu acho que o filme V. for Vendetta explica o mundo porvir (e não estou a falar de um futuro longínquo)?
Porque ele soube identificar aqueles que são exactamente os mecanismos subtis de totalitarismo do mundo hodierno. O nazismo hoje tem uma componente residual, o comunismo como o conhecemos não voltará; pelo que o totalitarismo a voltar, terá um rosto diferente do conhecido no passado? E qual é esse rosto?
Em meu entender, é um totalitarismo que se desenvolverá dentro da democracia. Com instituições ditas democráticas, com eleições livres, com os monumentos formais todos. Mas, ainda assim, um totalitarismo.
Voltemos ao filme, porque ele prefigura, em meu entender, o crescimento das plantas invísiveis do terror cujas sementes já estão debaixo da terra.
O filme começa com uma voz assustadora do governo que manda todas as pessoas recolherem às suas casas, porque a cidade está cada vez mais perigosa. Este ponto é fulcral.
Nunca como agora, nos quiseram inculcar tanto medo. Medo da criminalidade, medo das doenças, medo das crises. Os jornais e a televisão são veículos do medo. Não comas isto, não comas aquilo, espirra para o cotovelo, olha o radar, baixa a velocidade, põe creme 8.0, o sol mata, fumar mata, a ASAE quer luvas para partir o pão, os produtos tradicionais não são esterilizados, não os comas, as crianças hoje não podem ter um arranhão, qualquer dia levamo-las em sacos esterilizados à escola para não serem contaminadas (outro dia li que elas estão mais vulneráveis a um conjunto de doenças porque não ganharam imunidades). O medo, o medo, o medo. Um povo com medo aceita a Ordem, aceita a Dominação, aceita que lhe segurem a mão trémula e o levem onde quiserem. No filme, o governo forjava actos de terror: o grupo terrorista x envenenou um grupo de pessoas. Inventavam isto para lançarem o medo e unirem as pessoas em torno do governo, o guardião contra o Mal, a Iniquidade e a Criminalidade. A seguir podes ser tu, não é? Quando há grupo a matar indiscriminadamente, a única coisa que as populações desejam é segurança. As condições materiais, a liberdade, a fruição da cultura... não são exigidas ao Governo. Garante-me que não morro - é tudo. O medo suga tudo o resto.
É por isso que gosto tanto do V.