quinta-feira, dezembro 31, 2009

V. for Vendetta - O Mundo que vem aí...




Os sinais estão à vista e não nos apercebemos. Normalmente, é assim: conseguimos interpretar o passado, mas não o presente - porque este nos tomba de todos os lados a toda a hora. E é preciso tempo, é preciso serenidade de espírito. O mundo actual é muito rápido. Nunca tivemos tantos estímulos como hoje. Tanta informação e tanta falta de rigor em simultâneo. Tanta democratização do lixo.

Porque é que eu acho que o filme V. for Vendetta explica o mundo porvir (e não estou a falar de um futuro longínquo)?

Porque ele soube identificar aqueles que são exactamente os mecanismos subtis de totalitarismo do mundo hodierno. O nazismo hoje tem uma componente residual, o comunismo como o conhecemos não voltará; pelo que o totalitarismo a voltar, terá um rosto diferente do conhecido no passado? E qual é esse rosto?

Em meu entender, é um totalitarismo que se desenvolverá dentro da democracia. Com instituições ditas democráticas, com eleições livres, com os monumentos formais todos. Mas, ainda assim, um totalitarismo.

Voltemos ao filme, porque ele prefigura, em meu entender, o crescimento das plantas invísiveis do terror cujas sementes já estão debaixo da terra.

O filme começa com uma voz assustadora do governo que manda todas as pessoas recolherem às suas casas, porque a cidade está cada vez mais perigosa. Este ponto é fulcral.


Nunca como agora, nos quiseram inculcar tanto medo. Medo da criminalidade, medo das doenças, medo das crises. Os jornais e a televisão são veículos do medo. Não comas isto, não comas aquilo, espirra para o cotovelo, olha o radar, baixa a velocidade, põe creme 8.0, o sol mata, fumar mata, a ASAE quer luvas para partir o pão, os produtos tradicionais não são esterilizados, não os comas, as crianças hoje não podem ter um arranhão, qualquer dia levamo-las em sacos esterilizados à escola para não serem contaminadas (outro dia li que elas estão mais vulneráveis a um conjunto de doenças porque não ganharam imunidades). O medo, o medo, o medo. Um povo com medo aceita a Ordem, aceita a Dominação, aceita que lhe segurem a mão trémula e o levem onde quiserem. No filme, o governo forjava actos de terror: o grupo terrorista x envenenou um grupo de pessoas. Inventavam isto para lançarem o medo e unirem as pessoas em torno do governo, o guardião contra o Mal, a Iniquidade e a Criminalidade. A seguir podes ser tu, não é? Quando há grupo a matar indiscriminadamente, a única coisa que as populações desejam é segurança. As condições materiais, a liberdade, a fruição da cultura... não são exigidas ao Governo. Garante-me que não morro - é tudo. O medo suga tudo o resto.


É por isso que gosto tanto do V.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

- Se tu falares com os teus amigos - e até acho que isto é um exercício muito giro - e lhes perguntares como é que eles te vêem. Se juntares dez opiniões, verás como dirão coisas distintas. Quem és tu, afinal? O somatório do que todos os outros dizem? Mas como se eles são contraditórios? Ou serás o que tu julgas que és? Mas então aí a opinião dos outros não conta? Esta reflexão sobre a ausência de eu, sobre a existência de um ser multifacetado que se desdobra em múltiplas pessoas é fascinante, assustadora e libertadora ao mesmo tempo.

terça-feira, dezembro 29, 2009

A elegância superlativa da noite.
- Amo tanto a minha filha que quando jogamos raquetas, eu fico quase deprimido quando lhe ganho. Adoro perder contra ela, só que como ela topa quando não estou a jogar a sério, às vezes é doloroso ter de lhe ganhar. Não há maior satisfação do que dar o litro e perder.
Um homem forte não faz exibições de força. O pináculo da força é a doçura. Um homem resolvido não esmaga o Outro.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Palavras intraduzíveis por expressarem coisas únicas que só elas expressam

Koi No Yokan - Japanese: a sensação que se tem no primeiro encontro com alguém de que se irá evoluir para o romance; predição do amor.
- Amanhã é segunda e tenho imenso trabalho acumulado mas não deixo que isso me invada. Há como que uma parede infinitamente densa entre este momento e a semana que se avizinha - ela não faz parte da realidade deste aqui e agora - simplesmente, não deixo.

domingo, dezembro 27, 2009

F/M

«Angel, se há coisa que eu não suporto são feministas. Os homens estão a perder, dia após dia, todos os direitos e ainda me vêm falar em feminismo?!»

Não poderia estar mais em desacordo. Em qualquer país do mundo, os cargos de admnistração das empresas, os cargos de representação pública, o salário médio - entre mil e um outros indicadores - demonstram que os homens estão melhores do que as mulheres. Porque o mundo é ainda machista. Menos do que era, é certo.

Ainda no ano passado, li que uma empresa em Portugal pagava - para trabalho igual - um salário diferenciado a homens e mulheres. Sabemos todos que há empresas que nem aceitam seres que engravidam.


Por mais que choque a muito boa gente, defendo as quotas. Há anos que ouvimos a conversa de que são precisas mais mulheres na política, nas empresas, e as coisas mudam milimetricamente.

Por mim, não há mais tempo para esperar. A auto-disciplina não funcinou, está mais do que demonstrado.

Como disse uma feminista: Com leis iguais, passámos eras e eras de inferioridade. Precisamos de leis a nosso favor para provocar um desequílibrio que reintroduza a igualdade.

Claro que o ideal não é ter leis que protegam as mulheres, claro que não. O ideal é o estádio em que as leis são iguais para ambos. Mas, primeiro, é preciso criar um caldo de mentalidade em que homens e mulheres são iguais. E as leis ajudam as mentalidades a evoluir. Alguém duvida de que a homofobia diminui ao fim de dez anos de vigência do casamento gay?

Aos meus amigos escravos da beleza

É um fenómeno universal e intemporal. Os homens - ou a maioria dos homens - sacrificam qualquer característica numa mulher à beleza. Mesmo os que gostam de livros, mesmo os sensíveis, os íntegros, os espirituais - sim, mesmo os espirituais, minha querida.

Primeiro, tentei combater. Depois, tentei compreender.

A beleza da alma vs. a beleza do corpo. Porque é que a segunda é mais valorizada pelos homens?

1. Porque é mais imediata.
2. Porque os homens gostam de exibir troféus.
3. Porque os homens têm a ilusão de que podem mudar uma pessoa («a alma»), mas que a cara e o corpo já é mais difícil.
4. Porque é mais objectiva a do corpo. Os homens - ou a maioria dos homens - são muito básicos nesta coisas: cus e mamas. A beleza da alma... como mensurar? Como fazer ver aos homens que a bondade ou que a cultura não são apenas subterfúgios das mulheres feias para se afirmarem?

Mas a principal razão julgo ser outra:

5. É que a beleza da alma não se condensa, não se coisifica numa unidade instantaneamente tangível, visível, ao alcance da mão e dos olhos. A beleza do corpo, da cara, fica ali. A da alma é interior, o que significa que não se vê, nem se pode fotografar - nem sequer com uma sonda se consegue apanhar.

sábado, dezembro 26, 2009

Já no tempo de Ovídio, já antes de Cristo, o pai do poeta Ovídio lhe dizia numa carta... Queres ser poeta? Com poesia, ninguém ganha a vida. Estuda.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

- Acariciar um livro é como acariciar uma mulher. É preciso uma certa... (fez um gesto vagaroso com a mão)

Velho Ancião

quarta-feira, dezembro 23, 2009

os vinte ou quarenta os poemas de amor têm uma força directa,/e alguém entre as obscuras hierarquias apodera-se dessa força,/ mas aos setenta e sete é tudo obsceno,/ não só amor, poema, desamor, mas setenta e sete em si mesmos/ anos horrendos,/ nudez horrenda

Herberto Helder
É uma ilusão competir com o Outro. O verdadeiro terror é estar no ringue com a sombra do melhor de nós sempre presente. O-melhor-que-podíamos-ter-sido-e-não-fomos - a imagem mais terrível e pungente.
Por mais e mais que chamo, não respondes,
e quanto mais te busco, mais te escondes.

Luís de Camões
- Há todo o tipo de corpos femininos, menos um. Sabes qual, Angel? Uma gaja com boas mamas e bom rabo. Há gajas com boas mamas mas sem rabo, gajas com rabo do best, mas sem mamas. As duas coisas juntas nunca vi. Mas continuo à procura.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Uma Mensagem Imperial

O imperador – assim consta – enviou a você, o só, o súbdito lastimável, a minúscula sombra refugiada na mais remota distância diante do sol imperial, exactamente a você o imperador enviou do leito de morte uma mensagem. Fez o mensageiro se ajoelhar ao pé da cama e segredou-lhe a mensagem no ouvido; estava tão empenhado nela que o mandou ainda repeti-la no seu próprio ouvido. Com um aceno de cabeça confirmou a exactidão do que tinha sido dito. E perante todos que assistem à sua morte – todas as paredes que impedem a vista foram derrubadas e nas amplas escadarias que se lançam ao alto os grandes do reino formam um círculo – perante todos eles o imperador despachou o mensageiro. Este se pôs imediatamente em marcha; é um homem robusto, infatigável, estendendo ora um, ora outro braço, ele abre caminho na multidão; quando encontra resistência aponta para o peito onde está o símbolo do Sol; avança facilmente como nenhum outro. Mas a multidão é tão grande, suas moradas não têm fim. Fosse um campo livre que se abrisse, como ele voaria! – e certamente você logo ouviria a esplêndida batida do seu punho na porta. Ao invés disso porém – como são vãos os seus esforços, continua sempre forçando a passagem pelos aposentos do palácio mais interno; nunca irá ultrapassá-los; e se conseguisse nada estaria ganho: teria de percorrer o pátio de ponta a ponta e depois dos pátios o segundo palácio que os circunda; e outra vez escadas e pátios; e novamente um palácio; e assim por diante; durante milénios; e se afinal ele se precipitasse dos mais externos dos portões – mas isso não pode acontecer jamais, jamais – só então ele teria diante de si a cidade-sede, o centro do mundo, repleto da própria borra amontoada. Aqui ninguém penetra; muito menos com a mensagem de um morto – Você no entanto está sentado junto à janela e sonha com ela enquanto a noite chega.

Kafka
Podemos ter um acontecimento exterior muito forte, estrondoso, mas a isso corresponder uma experiência interior pobre. E um acontecimento aparentemente insignificante pode provocar uma tremenda experiência interna profunda e muito significativa. O escritor trabalha a partir de experiências internas - não externas - muito fortes.

Gonçalo M. Tavares

Aos Amigos

Tenho amigos que não sabem o
quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes
devoto e a absoluta
necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais
nobre do que o amor,
eis que permite que o objeto dela
se divida em outros afetos,
enquanto o amor tem intrínseco o ciúme,
que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar,
embora não sem dor,
que tivessem morrido todos os
meus amores, mas enlouqueceria
se morressem todos os meus amigos!

Até mesmo aqueles que não percebem
o quanto são meus amigos e o quanto
minha vida depende de suas existências ….
A alguns deles não procuro, basta-me
saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir
em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com
assiduidade, não posso lhes dizer o
quanto gosto deles.
Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crônica
e não sabem que estão incluídos na
sagrada relação de meus amigos.

Mas é delicioso que eu saiba e sinta
que os adoro, embora não declare e
não os procure.
E às vezes, quando os procuro,
noto que eles não tem
noção de como me são necessários,
de como são indispensáveis
ao meu equilíbrio vital,
porque eles fazem parte
do mundo que eu, tremulamente,
construí e se tornaram alicerces do
meu encanto pela vida.

Se um deles morrer,
eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam,
eu rezo pela vida deles.
E me envergonho,
porque essa minha prece é,
em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos
sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de
lugares maravilhosos, cai-me alguma
lágrima por não estarem junto de mim,
compartilhando daquele prazer …
Se alguma coisa me consome
e me envelhece é que a
roda furiosa da vida não me permite
ter sempre ao meu lado, morando
comigo, andando comigo,
falando comigo, vivendo comigo,
todos os meus amigos, e,
principalmente os que só desconfiam
ou talvez nunca vão saber
que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.

Vinicius de Moraes

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construimos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder

Sobre Jesus Cristo

Qual foi o núcleo da sua mensagem? A sua revolução consistiu em primeiro lugar numa nova ideia de Deus. Deus não é o Deus longínquo e tenebroso, que quer adoração e submissão, que exclui, que explora e humilha os seres humanos. Pelo contrário, Jesus fez a experiência de Deus como Abbá, paizinho. Embora as crianças se dirigissem com esta palavra ao pai, em Jesus, não se trata, com esta invocação, nem de infantilismo nem de machismo, pois este Deus-Pai tem traços de Mãe.

A partir desta experiência radical, deriva toda a mensagem de Jesus, para quem o decisivo não era a religião, mas a humanidade. Como mostrou recentemente o teólogo José M. Castillo, o centro do interesse de Jesus não foi a religião, mas a saúde, a comida, as relações humanas boas, a liberdade, o bem-estar e a felicidade das pessoas. Com Jesus, revelou-se a humanidade de Deus e que o caminho para Deus é a humanidade. O Deus de Jesus encontra-se, antes de mais, no secular, não no religioso. "O 'sagrado', o 'religioso' e o 'espiritual' são autênticos, aceitáveis e meios para encontrar Deus, na medida, e só na medida, em que nos humanizarem, nos tornarem mais profundamente humanos". Para Jesus, o "sagrado" indubitável neste mundo é o ser humano.

Anselmo Borges

Reescrever é cortar, cortar, cortar

Num das suas cartas, Padre António Vieira escreve no fim: Peço desculpa pela carta longa mas não tive tempo para a tornar mais curta.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Algumas ideias que já recolhi dos meus conhecidos de esquerda

- Se o meu pai estiver do outro lado na revolução, eu mato-o. Um reaccionário não tem rosto.

- Filho meu não há-de nascer num hospital. Sou contra a normalização dos nascimentos que a sociedade me quer impingir.

- O réu devia poder negociar com o juiz a pena que este lhe vai dar.

domingo, dezembro 20, 2009

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela.
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto.
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,

Álvaro de Campos

sábado, dezembro 19, 2009

Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busque riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.

Luís de Camões
Há qualquer coisa de lógico e terrivelmente racional na loucura dele. Nunca mais olhes para dentro dos seus olhos.
«Nunca ponha ninguém sua esperança
em peito feminil que, de natura,
somente em ser mudável tem firmeza».

Luís de Camões

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Frases que nunca ouvi:

«Não gosto de música.»

«Nunca vi um filme de que gostasse.»

«Sou materialista.»
Uma outra definição da palavra «Frustração»: rires-te imenso com uma situação e sentires que é irreproduzível.
- Não é que não seja boa pessoa. Mas é uma pessoa diante da qual não sinto que possa ser eu. Ou pelo menos eu numa acepção vasta. Há facetas que me restringe, que não compreende, que censura e me obriga a esconder (ou que eu me obrigo a esconder). É uma pessoa que pertence ao grupo das que eu... feel limited in their presence.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Conheces 5 pessoas, conheces 5 verdades. Conheces 500 pessoas, conheces 500 verdades. A verdade não é só uma.
- Influencio tanto algumas pessoas que elas contagiarão o mundo todo com as minhas ideias.
A garridice do dia parecia-lhe uma ofensa para a sua tristeza.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

- O meu maior medo não é morrer. O meu maior medo é a palavra Rejeição.
Ó país de cristal, que longe eu estou, dava um ano de ordenado por um momento da minha inocência perdida

Dinis Machado
Faz uma lista dos dez homens ou mulheres da tua vida. Haverá, certamente, um núcleo duro e outro mais volátil. Terás quatro ou cinco lugares que hesitares em preencher, porque idealmente quererias treze ou catorze.
O que é para ti Carisma?

terça-feira, dezembro 15, 2009

- Gosto de ter exemplos, referências. É muito romântica a ideia de ter uma personalidade própria, mas é muito confortável ter ídolos, pontos de apoio na acção e na inteligência. Dá-me segurança e conforto.
Somos todos uns pássaros bizarros, mais estranhos ainda por trás da nossa aparência do que desejamos que alguém saiba, ou do que nós próprios sabemos. Quando ouço um homem proclamar-se "um tipo mediano, honesto, aberto", fico com a certeza de que tem qualquer anormalidade concreta e talvez terrível, que resolveu esconder.
Francis Scott Fitzgerald

A vida

Por medo de teres 4, deixas-te ficar com 6, quando podias ter 8.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Os Muito Ricos

Deixe-me contar-lhe sobre os muito ricos. Eles são diferentes de mim ou de você. Habituaram-se desde cedo a possuir e a usufruir, e isso modifica alguma coisa dentro deles, faz com que sejam suaves naquilo em que somos duros, cínicos quando somos esperançosos. É difícil de entender, a não ser que você tenha nascido rico. No fundo, acham-se melhores do que nós, porque temos de descobrir por conta própria os refúgios e as compensações da vida. E, mesmo quando mergulham profundamente no nosso mundo ou descem abaixo do nosso nível, ainda assim continuam achando que são melhores do que nós.

Francis Scott Fitzgerald
Andar sempre com um bloco de notas e um lápis ou caneta. Observar algo que se quer registar, ouvir algo que, um pensamento maravilhoso que te surge, uma associação de palavras tão _______ e que tu, nesse instante, só dizes para ti: «Que nunca ninguém tenha descoberto.»

Albert Camus escreveu n´O Estrangeiro que bastaria vivermos 24 horas para termos memórias infinitas para recordar a vida inteira numa prisão.
- Há dias em que acordo e estou negativo. Não é por nada que me tenha acontecido, simplesmente me levantei da cama e sinto-me... em baixo. E depois, às vezes passado pouco tempo, às vezes passado um bocado já, subitamente sinto-me bem-disposto. Este tipo de coisas para mim tem uma base química. E quando algo nos corre mal num dia, e depois parece que tudo corre mal nesse dia. Ou o contrário: um dia em que tudo nos corre bem... Em que a sorte nos sorri. Isso não é o Acaso ou a bruxaria, é a pré-programação da mente «hoje tudo corre bem/mal».

domingo, dezembro 13, 2009

Estávamos sentados à mesa a almoçar. Falávamos de nomes incomuns e engraçados.

A certa altura, um de nós solta:

- O nome mais sui generis que conheci na vida foi um colega de tropa, por sinal um tipo muito porreiro, que se chamava - ouçam bem - Franganito Olho Azul.

(risos da mesa)

- Era nome próprio?

- Não, era apelido.

Passado pouco tempo, um casal da mesa do lado levanta-se, depois de terminada a sua refeição, abeira-se de nós e dirige-se ao interlocutor da história do Franganito Olho Azul.

- Desculpe, mas não pude deixar de reparar no nome Franganito Olho Azul.

- É cómico, de facto, não é?

- Não é que sou Franganito Olho Azul. Somos cerca de quarenta no país. Esse que descreveu da Tropa deve ser o...

(e continuaram a conversa, identificando o tal colega de tropa, que ambos conheciam bem, que era primo direito do da mesa ao lado, e falaram, falaram, falaram)

O mundo é mesmo um bidé.
E quando tu finges que és tu

sábado, dezembro 12, 2009

- O que os outros pensam não me diz nada. A minha mente é unitária, as opiniões dos outros são comos fumos. Só eu sei porque faço o que faço, sinto o que sinto, penso o que penso.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

"So we meet again!" and I offer my hand
All dry and English slow
And you look at me and I understand
Yeah it's a look I used to know

The Cure
Era um homem perigoso. Sabia manejar as palavras como ninguém. Sabia usar as palavras para fins que ninguém conseguia. Desde novo, vira nelas uma arma, uma vida dentro da vida, um poder imenso. Com elas era capaz de fazer chorar, fazer rir - era capaz de matar alguém, era capaz de devolver à vida alguém sempre que queria.
O tempo cura tudo. O tempo apaga tudo. Verdade. Mas só poderás acreditar nela se não tiveres ouvido a história do amor do Tiago e da Cristina.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

- Gosto de ser comandado. Faz-me impressão a democracia porque gosto de que me tracem o caminho a giz no chão: vai por aqui. Evita ter de pensar, a confusão mental, o ziguezaguear...
- Detesto ter de criar. Qualquer coisa. A folha em branco é uma angústia. Na matemática ou engenharia, sinto que as coisas avançam. Isto é assim, depois assim. Na arte ou na filosofia, são só palpites. Tudo vago. Tudo pode ser e... não ser. Não me interessa debruçar sobre coisas em que por mais que reflicta, parece que não há progressão. Estancas - atrofias, no fundo...
A mais completa liberdade [deve] ser garantida a todas as formas de amor e de contacto sexual. Nenhuma sociedade estará jamais segura, em qualquer parte, enquanto uma igreja, um partido ou um grupo de cidadãos hipersensíveis possa ter o direito de governar a vida privada de alguém. [Um dos] prazeres sexuais dos seres humanos tem sido o de reprimir a sexualidade, a própria e a dos outros. Defendo todas as formas de prostituição, como profissão protegida pela lei e vigiada pela saúde pública. Ainda que isso possa chocar muita gente, parece que, desde sempre, houve machos e fêmeas cujo talento na vida, e cuja vocação definida, é emprestarem o próprio corpo. E quem se vende ou quem compra (o que não tem nada a ver com capitalismo, mas com o direito de qualquer pessoa a dispor de si mesma, em acordo com outra) deve ter a protecção da lei contra redes de exploração, chantagens, etc. O que duas pessoas (ou um grupo delas) fazem uma com a outra, fora das vistas dos demais, não diz respeito a esses demais, a não ser que eles vivam na observação mórbida de imaginarem (num misto de horror e curiosidade, que os torna moralistas raivosos) o que os outros fazem. E o que os outros fazem não altera em nada o equilíbrio social. [A pornografia pode ser] um prazer para muita gente e, às vezes, o único que lhes é concedido, pois as pessoas idosas, solitárias, não atractivas, não encontram nunca o chinelo velho para o seu pé doente. Uma prostituição oficializada é obra de caridade para com os feios e os tímidos. [Porque hão-de ser] só os ricos e os de maiores posses a terem acesso à pornografia, e não os pobres? As classes mais desprotegidas deviam ter a sua pornografia mais barata, subsidiada pelo Governo, se o Governo fosse ao mesmo tempo inteligente e progressista nestas matérias. Somos um país imoral, um país depravado às ocultas. Foi isso, no entanto, que nos salvou de mergulhar nas sombras horrendas do puritanismo. Puritanismo que não é parte da nossa herança cultural. Mil vezes a pornografia do que a castração, a prostituição do que a hipocrisia. Se alguma coisa há que deve ser sagrada, é o prazer sexual entre pessoas mutuamente concordantes em dá-lo e recebê-lo, ou negociá-lo. [Os adolescentes e as crianças sempre souberam] muito mais do que os adultos fingem que eles sabem. Raros terão sido os jovens seduzidos na sua inocência. Na maior parte dos casos, o contrário é que é verdade. Se alguma coisa há que deva ser sagrada, é o prazer sexual entre pessoas concordantes em usufruí-lo e partilhá-lo.

Jorge de Sena
- Não estás muito faladora.
- Estou de luto com as palavras.
Jorge Luis Borges diz que a vida é estranha porque o ser humano pode dar mesmo aquilo que não tem: amor, amizade, alegria.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

(corrida no estádio nacional)
O cão ladra
De joelhos
A coleccionadores de velhas imagens
A contrabandistas de atletas cegos
A elefantes iconoclastas nas margens
(obstinado corpo
alugado
de poderoso animal)

Artur Jorge
- Eu tenho um amigo com sessenta e muitos anos que outro dia me disse: vou almoçar com a minha mãe. Fiquei com uma inveja dele do caraças. As pessoas com esta idade que têm mãe ou pai; mesmos os trintões que têm avós, deviam reflectir sobre isso. É um privilégio, é uma maravilha, uma graça. Muito bonito.
Adolfo Luxúria Canibal afirma que o capitalismo não está gerando boas pessoas. Tenho pensado nisso... Há muita competição, em demasia, no mercado de trabalho e muita fraude financeira nesta etapa nova do capitalismo: o capitalismo financeiro em que o capital tem mobilidade total (à distância de um clique) e o factor trabalho nem por isso...
- Espero que não tenho sido uma seca para ti.
- Não, ela fez-me companhia. Foi óptimo.
- A sério? Então ainda bem que demorei.
- Oh, sim... Ela é agradabilíssima.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Ser desequilibrado ou desestruturado é profundamente diferente. Às vezes, até me pergunto se as pessoas com mais dimensões, mais cultura, mais estímulos não têm mais dificuldade em manter o equílibrio. Cuidado com as pessoas sem estrutura...
O criado dele (também motorista) é tão subserviente que quando ele disse:

- Gaspar, este caminho é uma lentidão. Isto é o pior caminho para lá chegarmos.

- Tem razão, soutor. Tem razão. Quer ir por qual, soutor?

- Pela A3.

- Isto é a A3, soutor.

- Então, deixe-se estar. A chuva entope tudo em Portugal. Não adianta mudarmos de estrada. A A3 é a melhor para lá chegarmos.

- Pois é, soutor. A A3 é a melhor, soutor.
Digo que o melhor serviço que um poema ou um escritor qualquer pode prestar ao leitor não é satisfazer o seu intelecto, nem oferecer-lhe algo interessante e refinado, nem pintar para ele grandes paixões, indivíduos ou acontecimentos, mas inculcar-lhe vigorosa e limpa humanidade, religiosidade, dar-lhe, como possessão e hábito central, um bom coração.

Walt Whitman
A intimidade no silêncio junto à lareira. Ninguém fala. Mais: cada um está no seu mundo incomunicável. Um ajeita a lareira, outra lê um livro, outro lê o jornal, outro não tira os olhos da televisão, outro joga play-station. E, contudo, ninguém é mais unido do que eles.

O Lobo Antunes diz que as pessoas de quem mais gostamos - os amigos - são aquelas com quem estamos bem no silêncio.
Não digo que seja mau, que esteja errado - mas digo que está num patamar de desenvolvimentou espiritual - ou humano, se preferirem - raso.
Peguem num livro. Agora coloquem-no em cima de um palco.

Agora, encham a sala de pessoas. Centenas. Que as pessoas se ajoelham diante do livro. Que lhe atirem o ouro, flores, cânticos, orações. Que pelo mundo do todo, haja um minuto de silêncio pela qualidade do livro.

Que esse livro seja proclamada o livro.


Recordem-se de que as letras impressas no livro nem por um instante se alteraram, por mais ouro que se acumulasse nas suas margens. Então, apesar de todas as palmas e louvores, o livro não perdeu nem ganhou um átomo? O seu conteúdo permaneceu intacto.

Compreendem agora porque há autores que recusam prémios? Que vêem as condecorações como factores exógenos à Obra? A Obra fala por si ou não fala. Há até um autor que recusa conceder entrevistas...

Tendo a ver um livro como uma personalidade. Tudo o que digam de fora não belisca nem acrescenta nada ao corpo do livro ou da personalidade de alguém.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

O artista e o atleta trocaram os papéis.

- Desculpe, eu é que sou o artista. O que eu faço é arte. Sou o artista do corpo, do ritmo, da cadência, fazendo uma simbiose de técnica, força, velocidade, harmonia de gestos e movimentos. Já me chamaram, sabe como? Poesia em movimento.

- Olhe, eu sou um atleta. Levanto-me todos os dias de manhã para ir trabalhar com o meu instrumento sentado na mesma arena. Como chego extenuado ao fim de um dia. Não acredito que alguém possa ir buscar mais reservas de forças do que eu. Sou o atleta das palavras.

Pedido de divulgação (livro, página 12)

http://www.jf-canecas.pt/Files/Revista.PDF
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

[...]

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura

Herberto Helder

domingo, dezembro 06, 2009

As nojentas práticas do mundo moderno

Uma pessoa com acesso aos Cuidados Intensivos do Hospital do Funchal tirou fotografias do treinador do Nacional em coma, com um telemóvel, e tem andado a mostrá-las. Director clínico critica violação de privacidade.

Diário de Notícias

sábado, dezembro 05, 2009

E quando olhas para trás e sentes um sentimento inextricável de arrependimento-pela-escolha-mal-feita e ao mesmo tempo a certeza de que na altura era-te impossível agir de outra forma?
Os livros são espelhos que vais erguendo ao longo da vida e que te vão devolvendo diferentes perspectivas do teu rosto.
«Sempre que um amigo meu tem sucesso, uma parte de mim morre.»

Gore Vidal

sexta-feira, dezembro 04, 2009

O Carlos era treinador de futebol. O Fernando era massagista. O Carlos e o Fernando eram bons amigos. O Carlos fui subindo, subindo, subindo na carreira. O Carlos foi descendo, descendo, descendo. Um dia, o Carlos tem uma enorme proposta. Aceita. O Fernando está desempregado. O Carlos convida-o. O clube não quer um massagista com o currículo dele. O Carlos insiste com a direcção. O Fernando é contratado. Seis meses depois, o Carlos é despedido. Pede solidariedade no despedimento ao Carlos. O Carlos recusa despedir-se. E continua no clube.

Contei isto a um amigo meu que não ficou chocado. Diz «mas porque é tinham os dois de perder o emprego? um que o aproveite». Não podia estar mais em desacordo.
- Tens uma escrita muito feminina. Imaginava que era uma mulher - aliás, tinha a certeza de que era uma mulher que escrevia.
- Só tu me fazes ler o que eu tenho escrito.

(metaforicamente falando)
Deves escrever com as vísceras - não com a mente.
Sonhei com as laranjas na terra do ouro.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

- Se não estás na Internet, não existes.
A morte de alguém suaviza-nos o seu julgamento. Lembra-te disso quando estiveres prenhe de irascibilidade, raiva, injustiça, ingratidão ou rancor.
Nasceram junto ao mar. Os pais amam-nos incondicionalmente. São quatro ou cinco amigas e amigos que se amam imenso entre si. Moram numa terra sem stresse.

Não são ricos. Não são poderosos. Não são famosos. Não são bonitos. Não são cultos.

Porque falo deles?

Porque são os mais felizes. Ganham o campeonato da felicidade. Exigem pouco da vida: o essencial. Têm o saúde, o amor dos pais, dos amigos e isso basta-lhes. Em dias extraordinários, ainda têm sol para ir à praia.
Disseram-me ontem que ele está bastante mal no hospital. A heroína roubou-lhe a vida. Não a levou, mas substitui-lha. Sugou-lhe todas as suas dimensões. Transformou-se na Vida. Heroína, a única palavra da sua vida. A sua vida, portanto.

Lembro-me perfeitamente daquela manhã. Perfeitamente. Às vezes, pergunto-me se não foi aí que tudo começou.

Uma manhã com um perfeito céu azul. O ar lavado e transparente. O Sol ameno.

Éramos tão novos os dois. Íamos a sair da escola com a mochila às costas. Vejo-nos aos dois a passar por um terreno de terra batida. O João olha para o fundo e vê uns indivíduos mais velhos do que nós sentados em terra de ninguém.

Um deles levanta-se e grita-nos:

- Hey! Venham cá. Nós não vos fazemos mal.

O João identifica alguém da escola que está com eles, o que automaticamente lhe valida a confiança no grupo.

Damos uns passos em direcção a eles (quatro? cinco pessoas?).

- Venham cá experimentar uma cena. É a melhor coisa que vocês já possam ter conhecido. Tira-vos os problemas todos.

O João olhou para mim de olhos arregalados. Brilhava de entusiasmo e, nem por uma fracção de segundo, ter-lhe-á ocorrido que eu pudesse dizer NÃO.

Pedi-lhe um tempo para conferenciarmos. Afastámo-nos deles.

- Angel, mas como é que tu...?

- João, eles não são boa onda. Foda-se, não viste logo?

- Angel, deixa-te de merdas. Não queres experimentar a melhor cena da tua vida?

Olhámos um para o outro como que separados momentaneamente por um muro intransponível.

- Vou apanhar o autocarro, João.

Despedimo-nos e eu ainda fiquei com os olhos cravados nas suas costas que se afastavam.

Foi uma partida do João sem regresso. (Pelo menos, até hoje.)

De todas as razões que há para experimentar drogas: por necessidade de transgressão, rebeldia, por um desiderato de inspiração artística, por alienação, fuga, escape, por necessidade de experiências fortes que agitem o tédio, ou simplesmente porque sim - nenhuma delas foi o que impeliu o João.

A curiosidade. O João é a pessoa mais curiosa que conheci na vida. Não havia nada de que ouvisse falar que não quisesse experimentar, conhecer e compreender. Um dia, a propósito de outra coisa, disse-me: «Sinto-me estúpido se não conhecer.» Foi a curiosidade que o tramou.
Quanto mais trabalho tens, mais trabalho consegues arranjar. Quanto menos trabalho tens, menos trabalho consegues arranjar. Quanto mais mulheres tens, mais mulheres consegues conquistar. Quanto menos mulheres tens, menos mulheres consegues conquistar.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Revisitar uma obra de arte que nos deslumbrou nos verdes anos pode ser uma desilusão difícil de gerir.

terça-feira, dezembro 01, 2009

- Uma religão não é um clube. Eu tenho várias. Vou buscar o melhor a cada uma. E aquilo que é comum nelas é muito superior ao que diverge. O amor é o essencial. Desde que se ame muito, está tudo ok. Só quem não conhece as religiões é que pode agir na lógica de clube. Se até no coração dos ateus, Deus mora.
Dois jovens iam sentados à minha frente no autocarro. Desde que me senti, fui o percurso a ouvi-los (mais de dez minutos).

Não entendi nada do que diziam. Não houve uma frase em que não utilizassem um conceito que eu não desconhecesse.

Coisas que nem entendia a que contexto reportavam.

Leap? Refrog? Skilt?

Que estranho, pensei, eis-me diante de putos de uma geração logo a seguir a minha, que se andássemos na mesma escola, eu ainda os teria apanhado (eles na primária, eu no 12.º). E não sei sequer do que falam. Mas teremos mudado assim tanto de uma geração para a outra?

Detesto sentir que não conheço as mudanças - posso não as acompanhar, mas tenho de as conhecer. Por isso, observei-os. Como se vestem todos muito mais homogeneamente hoje... No final da conversa, ouvi armas, blood e mortes, e deduzi que haviam falado de videojogos o tempo todo. Apanhei uma frase de um que dizia (a frase segue truncada porque não apanhei as expressões peculiares):

- Eh pá, matei tóti tóti. Hás-de carregar aajskaj com asjhasjha. O bacano já nem faz ressurrection.

À despedida, não deram um aperto de mão, deram dois toques com as mãos, muito fugazes.

Há qualquer coisa de alienante e desumanizante na forma como a tecnologia molda estes adolescentes.